terça-feira, 31 de março de 2009

Presente presente, um poema de Sueli Rios

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Muitos presentes me destes
Ah, um deles tanto prezo!
A linda flor que colhestes
No caminho do Peloponeso.
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Sueli Rios
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O Bolha chega em Metrópolis... na Taquara

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Os superleitores da Taquara já podem encontrar o seu Plástico Bolha:

- Metrópolis Livraria - Av. Nelson Cardoso, 905 loja 106
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Raia, mais uma bela poesia de Lasana Lukata

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como pode?!
ontem não estava chovendo
amanheceu assim:

os cabelos negros azulados cauda de andorinha
bifurcados nas espáduas
e as palavras com dois caminhos a tomar...

o quarto inundado de desejo até o teto
um aquário
e contra o vidro
a boca a labializar meu nome

o que fazer?!

mergulhar
fosforescência
metáfora

minha língua é uma raia sobre a tua pele
ave marinha à tona desse mar
e no entanto, no mais fundo de ti,
tocam as pontas de suas grandes asas
e no mais fundo de mim
basta esta goteira contra a cama
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Lasana Lukata
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Lasana Lukata já é figurinha conhecida dos fiéis leitores do Plástico Bolha. Publicou contos e poemas, entre eles o divertido Suicida Pós-moderno, que foi sua estreia na capa da edição #11. Além de autor, Lasana também realiza uma ampla distribuição do PB na Baixada Fluminese. Um verdadeiro guerreiro das Bolhas!
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segunda-feira, 30 de março de 2009

Marília Garcia e o poema "gracie" no PB #26!

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Autora de Encontro às Cegas e 20 Poemas para o seu walkman, Marília Garcia já estava há alguns anos para figurar as páginas do Plástico Bolha. Entre idas e vindas, finalmente conseguimos trazê-la para o jornal!

A estréia será com o poema gracie, que é baseado na personagem do livro Noite de Oráculo, de Paul Auster, e estará na sétima página da próxima edição do jornal.

Marília também trabalha na editora da 7Letras, edita a revista Modo de Usar e já publicou traduções na Inimigo Rumor. Só estava faltando mesmo o Bolha... Aguardem!
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Ok Computer, texto-relato de Lucas Ferraço

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Meu texto que segue pode, de fato, parecer histérico e inútil — mas, para mim, é necessário escrevê-lo.
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A obra de arte mais contundente que já vi aconteceu no dia vinte de março de dois mil e nove. Nesse dia, pude presenciar uma forma de arte integral; o concerto do Radiohead a que assisti consistiu na junção de som, de luz, de fúria: de sentimento.
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O público, embalado pela iluminação ofegante e repleta de convulsões e pela hipnose rítmica proporcionada pela banda, estava em condição de arrebatamento, em êxtase. Canções como “There There” e “Paranoid Android” ultrapassaram a barreira da música: superaram-se. Digo “superaram-se” pois, uma vez que elas já possuíam o status de obras-primas da fonografia, ao vivo elas alcançaram outro patamar - um patamar que não sei bem definir qual é e que, mesmo que definisse, não seria a definição mais apropriada. Em “Paranoid Android”, por exemplo, o trecho “ Rain Down/ Rain Down/ From the great heights”, cantado pelos fãs em tamanha sintonia com a banda e com os canhões de luz, tornou-se um mar: molhou a passarela do samba e desaguou na apoteose. Nesses instantes, podia-se sentir a chuva caindo.
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Como se percebe, a chuva é alegórica. Todavia, ao final do show, encontrava-me realmente encharcado. Não apenas minha camisa era repleta de água: suor. Minha alma também havia sido lavada. Os gritos, os ecos, as vozes, as faíscas haviam comungado tão profundamente que minha voz desapareceu, cãibras surgiram e demônio algum conseguiu permanecer em mim — confirmando, portanto, a potência física e espiritual da noite.
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Lucas Ferraço

(Im)permeável — poema de Gabriela Costa

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(Lá fora a tempestade faz um show
Luzes
Cores
Estrondos
!)
E aqui, só eu, quietinha
quentinha
de meias nos pés
(O show continua
lá fora
— as ruas estão entornando suas impressões molhadas)
E meus pés nas meias
aqui,
balançam, seguros e certos
(Do outro lado
a chuva derrete o mundo
Grita
Lava
Desnuda
!)
E é bom estar dentro
com meias e pés:
hoje não quero descobrir nada...
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Gabriela Costa
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Gabriela Costa é uma fã declarada do Plástico Bolha e sempre dá uma passada aqui em nosso blog — uma meia contra as tempestades da vida...

CLIQUE AQUI: Dicionário de 251 idiomas

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O dicionário da Logus Foundation trabalha com 251 idiomas e se preocupa em preservar línguas que correm o risco de extinção — hoje cerca de seis mil. A iniciativa pioneira teve início em 1994 e hoje reúne mais de 4.500 contribuidores que partilham conhecimento e colaboram com o dicionário que conta com 8 milhões de palavras, num dos links mais visitados da web. Do sânscrito ao zulu, passando pelo guarani e o catalão. Vale o clique!
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sábado, 28 de março de 2009

Ovulação, conto clássico de Camila Justino:

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Segundo dia de ovulação
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Ninguém dá um vintém para minha ovulação. O mundo não se importa porque todos estão com contas atrasadas para pagar, todos têm que se preparar para o verão malhando numa bicicleta que não sai do lugar sem perceber se o vento lá fora está soprando mais forte. Se a tempestade está chegando. Não querem saber se a reação química do meu corpo é magia divina, é dádiva da vida, assim tão cheia de complexidades simples. Tão puro-cheio. Não. De jeito maneira, o dia tem 24 horas, o ano, 365 dias e corre porque agora é agosto, depois é dezembro e existem filas pra enfrentar trânsito, ponte aérea, reunião, médico, dentista, buscar o filho na escola, ligar pro marido comprou o rabanete? E eu. Eu ovulando tentando captar uma borboleta voar, eu carrego a esperança dentro de mim. Eu acalmando meus óvulos inquietos. Eu tentando entrar nos olhos do guardador de carro, eu estou ovulando, percebe? Não. O importante é que o contrato milionário está para ser fechado. E o meu contrato em aberto só segue ao que não existe no papel, ao que não depende de ponteiro, de pontuação ou de qualquer assinatura. É o meu corpo se desenrolando no seu ritmo próprio. Calmamente e pulsante. Mas é besteira porque é preciso atender o telefone. Ligação de gente importante. Internacional, tá sabendo? Então fechado. Ah! E não esquece de avisar pra empregada arrumar aquela baderna, uma incompetente, não faz nada do jeito certo. Eu ovulando. As pessoas se cruzando na rua, no ônibus, no carro, o tempo passando, o dia chegando ao fim. É mais importante do que pensar que o mundo está quase no fim. As estrelas aparecem mas a janela deve ser fechada porque o tiro pode chegar pela culatra ou não, ele chega, não se sabe de onde. As portas trancadas. Os sonhos perdidos. As preocupações. Emergências devem causar insônia. Eu deixando de ovular. Amanhã tem que acordar cedo. E comprar rabanete.
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Como se deu a ovulação
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Acordei sonhando que meu ginecologista subia em cima de mim, eu cedia passivamente a cada movimento que ele insinuava. Depois de breviamente sóbria, um leve susto pairando: de onde tirei esse sonho? Depois de pôr o pé no assoalho frio, depois do banho, do pão, de bochechar colgate, de pentear o cabelo, e, logo em seguida, uma chacoalhada nos fios dando um ar natural, suuuper natural, e de passar o olho no jornal, as últimas notícias, as de sempre. Parti. Parti para a jornada com o carlton aceso e um friozinho na espinha. Meu destino era o Doutor S. Lá, tira a roupa, a vergonha fica, o nervoso da pinça torcendo meu útero, e raspa ali, olha dali e daqui, passa um cano, uma câmera passando por minha vagina, os dedos de Doutor S. Também passando, gesticulando. O que mais suporta minha vagina? Eu segurando o braço da Dona miriam. Ai, meu Deus. Nada de Doutor S. Subir em cima de mim com as mãos fortes. Eu só vejo os olhos azuis que adentravam minha vagina por cima do tecido também azul que cobria minha doce piriquita (assim Doutor S. chama). — minha filha, você está ovulando. Você está realmente ovulando. Olha a tela. Ele agora focava seus olhos na tela, embasbacado com minha ovulação, assim suponho. Uma bola enorme, uma bomba de chocolate piscando. Quanto aos exames, toneladas de papel e potinhos com isso e aquilo, eu já nem escutava o que Doutor S. falava. Não me importava. Porque eu estava ovulando. E para quem ovula o mundo é outro, é diferente. Carregava dentro de mim princípio de vida e agora eu entendia o que meus quadris estavam querendo dizer ao sair dali. Eu derramava um mel afiado que escorria dos meus óvulos que maduros cintilavam. Eu sentia meus óvulos pulsando, dando cambalhotas na trompa. Sim, eu estava ovulando. E cada passar de mãos nos cabelos era iniciativa da minha ovulação, cada passo minuciosamente calculado. Cada gesto fazendo minha pele arrepiar pelo vento que esbarrava, nos meus óvulos. a minha ovulação. E sorri para as crianças, para o senhor, para a moça, para a secretária, para o poste, para o carro, para as placas, para a calçada, o senhor das balas, balas açucaradas de caramelos, para a rua, quanta gente passando, quanto suor, quanta respiração ofegante. O mundo devia ser habitado por mulheres que ovulam permanentemente. Do celular mandei mensagens que deixassem subentendido o que meu corpo exalava. Não me importava se é segunda-feira, muito menos se são nove horas da manhã. Eu sabia e o mundo precisava saber. Eu estou ovulando e estou no cio.
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Camila Justino
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Pegue o jornal Plástico Bolha em Santa Cruz:

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O bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, já tem seu ponto de distribuição do jornal Plástico Bolha. Parada Obrigatória para que gosta de literatura!

- Bar Parada Obrigatória - R. São Benedito, 705, Lj. 1
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FOTO-BOLHA: o plástico de mão em mão...

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SINGULAR, um poema de Letícia Naveira

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Em meio a plurais, eu sou singular,
Não pertenço a nenhum lugar,
Sou a poeira do Cosmos,
O retrocesso de Vênus,
Feita de material sintético,
Usurpada de uma extração valiosa,
Irônica e maliciosa...
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Letícia Naveira
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Lançamento: terceiro número da revista NOZ

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A Noz é uma revista de arquitetura editada desde 2007 por um grupo de estudantes do Curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio. Na contramão da tendência à especialização, a revista busca abordar diferentes campos temáticos fundamentais àqueles que pensam a cidade, a imagem e a construção. Sua linha editorial preocupa-se em enxergar a arquitetura sob diversas óticas, passando pela filosofia, artes plásticas, cinema, design e literatura.
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Na terceira edição da revista, ao tocar as fronteiras da arquitetura, a idéia de paisagem surge como linha que circunscreve a discussão. Pensar a margem nos leva a pensar o que seria a paisagem sem um objeto e o objeto fora da paisagem. Paisagem e objeto dialogam e se entrecruzam por toda revista, encaminhando a questão para outros campos do saber. Esta edição conta com colaboradores como Josep Maria Montaner, Cadu, Alday Jover, Aires Mateus, Ana Luiza Nobre, Eucanaã Ferraz, entre outros.
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sexta-feira, 27 de março de 2009

Evento Corujão da Poesia na livraria diVersos

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Mais Plástico Bolha invadindo a Zona Sul!!!

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Ontem mais pontos da Zona Sul do Rio de Janeiro receberam um reforço na distribuição do Plástico Bolha. Veja onde encontrar os seus jornais:

Leblon:

- Cantinella - Cobal do Leblon
- Teatro Leblon - Rua Conde Bernadotte
- Livraria Letras e Expressões - Av. Ataulfo de Paiva
- Livraria Café com Letras - Av. Bartolomeu Mitre

Ipanema:

- Estação Ipanema - R. Visconde de Pirajá
- Livraria da Travessa - R. Visconde de Pirajá
- Faculdade Cândido Mendes - Rua Joana Angélica
- Livraria Letras e Expressões - R. Visconde de Pirajá
- Casa de Cultura Laura Alvim - Av. Vieira Souto

Gávea:

- Casa da Gávea - Prça. Santos Dumont
- Livraria Malasartes - Shopping da Gávea
- Casa da Táta - R. Prof. Manoel Ferreira
- Astro Bar, Planetário - R. Vice-Governador Rubens Berardo
- PUC-Rio - R. Marquês de São Vicente
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quinta-feira, 26 de março de 2009

Da morte, clássico do bolha por Beatriz Sayad

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Um dia, não haverá mais estrelas
sem olhos no meio da noite turva

Das borras de café surgirão sombras
capazes de esculpir a ausência dos corpos

Flores brotarão das toalhas das mesas,
das tristes mesas das casas sem mãe

E a poesia escreverá seus poetas,
a mostrar-lhes que a morte é comida caseira,
feita de agoras
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Beatriz Sayad
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Publicado na capa da edição #20 do jornal Plástico Bolha.
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quarta-feira, 25 de março de 2009

Caju, um conto de Luciano Prado da Silva:

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O cajueiro o cajuá se espedaçou. Era o estandarte da minha infância, mas raio caiu e o machadou ao meio. Pena assim que ficou triste, morreu antes de cajuar de novo. Morreu matando a gente no meio também, secamos como a sua carne, sua madeira.

Verdade que criança teima e insiste em alegrar a vida. Continuaram as brincadeiras no quintal dos vôs. Só que, nem mangaba nem jabuticabeira substituíam o velho amigo nosso cajueiro. Com o tempo, a gente cresceu e adolesceu de brincar salada mista beijos de verdade, primos-irmãos numa lascívia escondida da noite, lascívia palavra difícil pro nojo dos mais novos que chantageavam jurar contar.

Foi que uma noite, primos irmãos em vão se enganavam tentar o inevitável evitar, contudo, o se pegar na coxa engravida, não engravida não, ai, tira seu danado. E uma gotinha de seiva de homem, látex da carne, goticulou no meio seco do cajueiro morto, canto preferido de nós agora enamorados.

Pois não tanto nem tento adiantou presentear os menino pra fugir à chantagem: teve enjôo e vomitar, regra que não desceu, desejo e engordar. Porém o alívio veio com um nome decepção, nome de uma tal verdade mentira da mente, descobriríamos quando adultos nos estudos mais instruídos, havíamos sido vítimas de uma prenhez psicológica.
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Vida que seguiu rumo no prumo, cada qual seguiu seu rastro, separados, unidos só nos finais de ano uns olhares meio saudosos. E num desses tais fins...


Chovejou naquele ano, talvez últimos dias que se viam: o varão viajaria pra distante. Faltou luz no trovejar, mas foi que um dos raios alumiou o mesmo instante em que olhavam para fora da janela e viram um jovem cajueiro que se impunha do centro do véio seco cajuá.

Entreolharam-se. Riram. Mentira. Não. Não pode ser. É claro que não era. Mas brotar brotou do cajueiro cajuá que fez história em nós, e nossa infância.
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Luciano Prado da Silva
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Luciano Prado da Silva é graduado em Letras (Port/Esp) pela UERJ e mestrando em Literaturas Hispânicas pela UFF. Em 2000, publicou o livro de poemas Instantâneos, pelo selo Imprimatur da editora 7Letras. Em setembro próximo lançará, durante a Bienal Internacional do Rio, o livro de contos Aneurisma matou berimbau, pelo selo Quártica Premium da Litteris Editora. Sua prosa tem uma dicção única, por vezes se aproximando da poesia, dando a parecer que as palavras estão fluindo pela boca de um grande contador de causos... Em breve, também nas páginas do jornal Plástico Bolha!
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Evento QUINTA POÉTICA, em São Paulo:

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Evento em São Paulo com a participação de nossa amiga do Plástico Bolha, Raquel Naveira. Clique na imagem para ver a programação.
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El Ascensor — uma crônica de Fabio Bastos

En el principio sólo había casas con un único piso. Más tarde empezaron a construir casas de dos y tres pisos, y hubo la necesidad de crearse algo que permitiese a las personas llegar a los pisos superiores. Fue inventada entonces la escalera. Com el aumento de la poblácion y la falta de espacio en las ciudades, las casas pasaron a tener no sólo dos o tres pisos, sino diez, veinte, varias decenas. Pasaron entonces a ser llamadas de edificios y los más altos, que llegan a tener más de cien pisos, de rascacielos.

Se pasó a tener entonces un nuevo problema. ¿Cómo hacer las personas llegar a los pisos altos? Com la escalera era muy cansado. Fue preciso inventar una otra cosa, el ascensor. ¿Qué es un ascensor? Es un cuarto, o una sala en el edificio, y la diferencia para los demás cuartos o salas es que el ascensor es más chiquito y en su interior no hay ventanas, ni muebles o cuadros en las paredes. Además, el ascensor, se mueve.

Vamos a ver ahora cómo debemos utilizar un ascensor. Las personas entran en él y se ponen de pie; no hay sillas para sentarse. En algunos, hay una persona que lo maneja, el ascensorista. Todo que se tiene que hacer es decirle el piso al que quieres ir. En otros, no hay esa persona, son automáticos, y tienes que marcar en un cuadro el número del piso que quiere ir. Hay un número máximo de personas permitida en el ascensor, y también un peso máximo. Si en el predio funciona una clínica de adelgazamiento y el ascensor está lleno de gordos, es mejor que no sólo cuentes las personas, pero también calcules el peso de todos, para estar seguro de que no va a haber problemas.

El ascensor solo se mueve cuando la puerta se cierra. Todos pasan entonces a mirar una lucecita que indica los números de los pisos. Hay personas que charlan en el ascensor y algunas veces cuentan historias interesantes o chistes. Cuando el ascensor llega a su piso ellos salen por la puerta afuera dejando a todos que se quedan en el ascensor sin saber el fin de la historia. Unos mal-educados.
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Fabio Bastos
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Fabio Bastos é carioca, engenheiro químico aposentado e dedica seu tempo aos netos e às crônicas. Lançou o livro O Valete Vermelho (Ed. KroArt) e participou da coletânea Crônicas de Oficina - vol.4, que reúne textos de diversos autores que participaram da oficina literária coordenada por Carlos Eduardo Novaes. Escolhemos essa breve crônica sobre "o elevador" para dividir com os leitores. Por que fomos escolher logo a única crônica em espanhol? Unos mal-educados... Quem gostou, pode encontrar mais no meu blog aqui.
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terça-feira, 24 de março de 2009

FOTO-BOLHA: prazer involuntário do estouro

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TANGENTE, um lindo poema de Starla Pisces

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Despeja teu enfado no meu corpo
Querido
E depois verte teu suor trazido do nada
Purifica o templo que de nada tem sagrado
Meu corpo

Querido quando aparecerá?
Vai esperar minhas lágrimas indecentes jorrarem
Meu sangue escorrer indelével
Pelos pulsos
E se por uma noite que for eu me desviar
E se por um momento que for já não for tão sua
Se a melodia constranger e me levar
Labirintos tortuosos e encarnados
Labirintos canela
E se o kama sutra for o livro da semana?
Você não estará e eu estarei distante também

Se não for eu será outra
Entenderias?
Querido não sou franca o suficiente
Minha libido é proveniente de um vinho seco suave
Que acabei de tomar
Tomar na cara de minhas convenções
Pois bem esse é o fato: Não está terminado.
Ignore minhas entrelinhas e absorva meu coração
(Deixo ele sempre em casa quando dou voltas por aí)
Querido entenda a matéria uva turvando a visão
E o aroma alabastro inspirado pra dentro
Entenda minha desfaçatez
Pare de reclamar
Antes não tivéssemos aprendido o conceito devassidão
A vida não é feita de alcovas
Nem de amores eternos
E a perversa química anda por todo o lugar
Aproximando as pessoas
Que culpa tenho eu de ser tão sensitiva...

Querido volte a tempo
Tempo de nos salvar
Nos salvar de nós mesmos
Eu já disse o quanto sinto saudades...
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Starla Pisces
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Starla Pisces acaba de nos mandar este poema amoroso e intimista que realiza a façanha de não ser piegas e não abandonar a comunicabilidade com o leitor. Quem quiser conhecer um pouco mais da autora, pode visitar o seu blog Trópico Agressivo. Aguardamos mais textos!
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segunda-feira, 23 de março de 2009

Clarice — um mulheres-damas de Ana Chiara

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Essa grande e inumana galinha
Roberto Correa
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Vomita tudo de vez, querida.
Nada no íntimo
Só uma contração do hiato
E ardência de coca-cola.....

Sem essa de sins assim no meu ouvido
nãos na contramão do meu desejo
faz as unhas no meu pedicuro de Vênus

Deixa sair...., meu bem,
O azedo da carência
Respira, respira, respira....

Cruza as pernas daquele jeito que eu gosto
Por baixo da saia florida
um grande susto epifânico
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Ana Chiara é professora de Literatura da UERJ e participa ativamente do jornal Plástico Bolha. Ela foi entrevistada na edição #8, quando do lançamento de seu livro de ensaios Irrespiráveis; fundou a coluna mulheres-damas, que investiga o feminino nas páginas do jornal; participou da coluna Quarto de Despejo, que trouxe Carolina Maria de Jesus para a Bolha; além do seu famoso texto Deitar com Luiza Neto Jorge. Aqui vemos o seu poema sobre Clarisse, com um leve toque de Instinto Selvagem...
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Plástico Bolha já na Ilha do Governador:

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- Casa de Cultura Elbe de Holanda - Rua Eng. Rozauro Zambrano, 302
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domingo, 22 de março de 2009

Um poema de Naaman, clássicos do bolha:

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Há mais no sol do inverno.
Há mais na chuva de verão.
Há mais nas cores do outono.
Há mais na tristeza da primavera.

Reinventem as estações.
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Naaman
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FUTUROS ESTOUROS: e a banda contra-capa!

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A banda contra-capa será a atração da coluna Futuros Estouros, da edição #26 do jornal Plástico Bolha. O grupo faz um Rock com levada de MPB e as letras das músicas são sempre bem sofisticadas — não é a toa que o compositor Yuri Amorim, volta e meia dá as cara no PB com algum de seus textinhos. A coluna é assinada por Mauro Rebello.
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CLIQUE AQUI: Assoc. Brasileira de Tradutores

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A Associação Brasileira de Tradutores - ABRATES reúne profissionais da tradução e visa ao desenvolvimento profissional, à interação e à cooperação entre os tradutores, professores de tradução e estudantes, e à valorização da profissão e dos profissionais. Tem um programa de credenciamento de tradutores e cursos, além de divulgar informações e eventos. Vale o clique!
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FOTO-BOLHA: sob a sombra dos seus leitores:

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Jornal Plástico Bolha em foto de Isabel Diegues.
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Peque o seu Plástico Bolha em Ouro Preto:

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Você de Ouro Preto, sim, você que acha que diversão é apenas de 12 de Outubro em 12 de Outubro, seus problemas acabaram! Veja onde encontrar o jornal Plástico Bolha em sua cidade:

- Crescer Livraria e Bazar - Rua Monteiro Lobato, 213
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sábado, 21 de março de 2009

Beber o Mar, um poema de Antonio Mattoso

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Estamos no profundo mar.
Entre cardumes, o lume do teatro,
búzios azuis, sutis ondas.
Surge a nereida Calcanhotto
com seu séquito de homens-peixes,
concha que ecoa,
concha que canta.
Ascende às suas espumas brancas,
espraia por seus litorais
a sereia Calcanhotto,
concha que seduz,
concha que encanta.
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Antonio Mattoso
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cind, poema inédito de Jovino Machado

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amo a deus
apesar das dores

amo o diabo
apesar dos amores

amo você
sem apesar
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Jovino Machado
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Jovino Machado, nosso poeta amigo de Minas, acaba de enviar esse pequeno poema. Uma compilação de seu livro Fratura Exposta estará na próxima edição do Plástico Bolha. Aguardem...
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sexta-feira, 20 de março de 2009

Dia desses (crônica sobre a saideira) :

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Dia desses meus ouvidos foram agraciados por uma dessas pérolas da sabedoria de botequim quando um notório freqüentador da minha varanda disse em resposta a um amigo meu que reclamara já estarmos na terceira saideira da noite: “a saideira não é um fato, é um processo”, o que prontamente nos levou todos a gargalhadas e a conclusões — precipitadas ou não — que, como processo, poderia ser caracterizado como cíclico ou linear, ou mesmo como um andar meio torto.

De fato, pensar na conclusão do processo de saideira nos faz pensar em diversas hipóteses. Ocorreu a um dos presentes que esta poderia não ser concluída no caso de acordarmos pela manhã ao lado da bela mulher que conhecêramos na noite anterior e descobrirmos que, sim, o bom senso de um ser humano começa a ser seriamente afetado após a décima-primeira lata de cerveja, fato que certamente exigiria, como não, a continuidade da saideira, mesmo que seja num local distante de onde o processo se iniciara.

Outros sugeriram como um fim menos trágico a esse nosso delicioso hábito de inventar desculpas para continuar bebendo o repentino ato de ir ao banheiro e não voltar mais, pois conversar com a privada muitas vezes se torna uma necessidade maior do que o prazer de ouvir besteiras alheias.

Sobre o andar torto, bem, só preciso dizer que restaram as canelas roxas.
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quinta-feira, 19 de março de 2009

SHOW: Adriana Maciel na Modern Sound

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Nossos novos pontos em Belo Horizonte:

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Atenção leitores das Geraes, aqui estão alguns dos pontos de distribuição do jornal Plástico Bolha em BH que já receberam a nova edição:

- Trivium Livraria e Papelaria - Rua Aimorés, 2675, Sto Agostinho
- Conhecer Livraria - Rua Padre Eustáquio, 2151, Pdr. Eustáquio
- Livraria Van Damme - Rua Guajajaras, 505, Centro
- Livraria Crisálida - Av. Augusto Lima, 233 sobreloja 28, Centro
- Livraria Angelo`s - Rua Padre Eustáquio, 2266, Padre Eustáquio
- Livraria Sebo Opção - Rua dos Guajajaras, 199, Centro
- Livraria Big Book - Rua Tamoios, 72, Centro
- Livraria Universitária - R. D José Gaspar, 500, Coração Eucarístico
- Livraria Épocca - Rua Mato Grosso, 1100, Sto Agostinho
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Um poema de Ana Luzia Guimaraes

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Acabou fevereiro
agora só marcho
março atrapalhado
um passo torto e safado
de alguém que vaga vago
de olhos fechados
desejos ser fluido como o
último gole de noite
mergulho trôpego na ressaca
de um mar que amanhece embriagado
se ao alto a certeza de um sol
alado de lado a lado
embaixo a incerteza
de ser um astro
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Ana Luzia Guimaraes
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Acabamos de receber este belíssimo poema que Ana Luzia Guimaraes, aluna de História da PUC-Rio, enviou para o jornal Plástico Bolha. Compartilhamos com nossos leitores a "incerteza de ser um astro" nesse "março atrapalhado".
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quarta-feira, 18 de março de 2009

Amargor, belo poema de Marilena Moraes

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Como o lavrador espera
O rico fruto do solo
Conformado, paciente,
Assim eu não sou, me angustio.

Como o pescador aguarda,
Silente, o peixe morder,
Respeitoso, resignado,
Assim eu não sou, me atormento.

Como a terra, confiante,
Recebe as últimas chuvas,
Penhorada, reverente
Assim eu não sou, me incomodo.

Como a noite, destemida
Se guarda para o amanhã,
Reluzente, luminosa
Assim eu não sou, me amarguro.

De que riem? Não é chiste.
Se as noites são alegres,
As manhãs são tristes.
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Marilena Moraes
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ORÁCULO: Teatro no Plástico Bolha #26:

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"...olho para minha estante
como se para um velho oráculo
a me contemplar
mudo e, no entanto,
com quanta eloquência!"
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Este é um pequeno trecho do texto de Míriam Sutter para a próxima coluna Oráculo. Arrumamos ele em forma de verso para ressaltar a potência do texto, que divaga pelas revoluções tecnológicas — estará nossa estante de livros fadada a virar um e-book? — e termina, surpreendentemente, com uma listagem cronologica da presença do teatro clássico greco-latino na dramaturgia brasileira.
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Acreditamos que, uma vez publicado no Plástico Bolha e entrando na internet através de nosso site, o texto será uma ferramenta de estudo preciosa para quem se interessa pelo teatro antigo no Brasil.
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O Plástico Bolha é eternamente agradecido aos professores Miriam Sutter, dos pensamentos velozes e Antonio Mattoso, portador da égide, que tão carinhosamente assumiram a coluna Oráculo, compartilhando com nossos leitores um pouco de seu conhecimento sobre a antiguidade greco-latina.
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30 — um novo texto de Chiara di Axox

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Faz 30 anos. Na verdade 31. Mas desse 1 eu me dou o direito de desfazer e só retomá-lo quando se tornar um membro da casa decimal e vir acrescentar mais alguns anos de experiência a minha vida. O que não posso exigir muito. Estou com os olhos cansados, o corpo repassado e a alma mareada. Pouco parece restar do caminho que quis percorrer na minha juventude com tanto afinco. O ponto de ônibus está logo adiante, pronto para que eu me sente nele esperando a condução para a vida seguinte.
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Como dizia, faz 30 anos que não vivi como queria. 30 anos de sonhos cancelados. 30 anos de pesadelos transformados em monótonas noites de insônia. Já me perguntaram como eu conseguira. Ora, são 30 anos! Eu não soube responder nem em 30 segundos. Fiquei calado por mais de 30 minutos, e quando me dei conta, já faziam 30 anos de silêncio. Quem diria!
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Olho agora pela janela. Lá fora só o vento que assopra. O mesmo vento que empurra meu corpo há 30 anos. Pensei em voltar para lá. Sim, além da janela. Muito além dos 30. Mas só agora descobri que o tempo não volta. O retrocesso só é permitido na memória debochada das fotografias. Negaram meu último pedido. O último que poderia ter feito em 30.
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Não foram 30 dias, não foram 30 horas. Foram 30 anos perdidos. Desgastados como o meu sorriso de agora ao olhar pela janela.
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Minha mente ultrapassou os 30. Seguiu amiúde até mais longe. Contudo, sempre acanhada, desesperançosa de quantos passos a mais daria além dos 30 usuais de que tanto escapava. Fingi não me importar nesses 30 anos. Achei que ainda teria mais 30 para poder me realizar. E nem 30 segundos me foram dados.
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De fora, agora olho para a janela do meu quarto. Aquela mesma que me separou da vida durante 3 décadas. Ainda posso ver meu rosto triste querendo o que está fora. Eu consegui me desprender da janela, mas meu corpo continua lá como há 30 anos. Não sei se ainda se seguirão mais 30 anos. No entanto, a minha alma já fugiu de seu rumo nos 30 segundos seguintes.
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Chiara di Axox, uma de nossas primeiras autoras publicadas, finalmente retorna ao Plástico Bolha para mostrar a diversidade de estilos de sua escrita. Resta só a dúvida: como seu personagem chegará aos 60?

Carnaval de dúvidas, de Felipe Ribeiro

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Procuramos resposta pra tudo
E o mundo gira-gira no carnaval de dúvidas
Tentamos traduzir a vida em palavras
Mas a realidade devora a construção
Somos finitos e amaciamos a carne

Nuvem
Colisão
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Felipe Ribeiro
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Felipe Ribeiro é estudante da UFF e nos enviou alguns de seus textos. Nós escolhemos este belíssimo poema para compartilhar com os leitores. Será que ele fala da angústia dos autores do Plástico Bolha que esperam publicação? Felizmente há um espaço para ele aqui no Blog do Bolha.

terça-feira, 17 de março de 2009

Como montar o seu kit do Plástico Bolha...

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Primeiro, é preciso espalhar os jornais lado a lado, do avesso, da edição mais recente até às mais antigas. Quanto mais edições se colocar lado a lado de uma vez, melhor (como no exemplo da foto). Em seguida alinham-se os jornais, dobrados ao meio. Uma vez dobrados, os conjuntos, que em geral possuem umas 6 edições, precisam ser empilhados e ter a dobra reforçada; para isso, aconselha-se a técnica da transferência do peso do corpo, apoiando-se na pilha de conjuntos com o antebraço ou, então, a técnica dos pequenos socos em sequência. Em seguida, vem o processo de ensacamento, em que os jogos de Plástico Bolha são embalados, um a um. Importante atentar para o detalhe de que o jornal deve entrar no saco de modo que “P”, de “plástico” fique junto da boca do saco, com o “A” de “bolha” em seu fundo. Depois, é hora de inserir o ímã de geladeira e o adesivo e, voilá, tem-se um kit do jornal Plástico Bolha! Pode ser fechado com fita adesiva ou servido aberto.
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Para ler em voz alta: De volta à vida mesma

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De volta à vida mesma, acho-me perdida e manca, encontro-me encafifada com o fio da meada que já não tenho mais. De volta à vida mesma, mastigo montes de miséria, medíocre marcha espinhosa e fútil, martírios longos e morosos. De volta à vida, mesmo assim acho-me morta, metade de mim sem ar, metade de mim alerta. De volta, a vida me acena mesmices, misantropias e morbidez, e eu me meto a correr dela, medrosa, mendiga. De volta à vida mesma, minimamente masco o que a mim me é destinado, e o que não se torna massa ou bolo alimentar eu cuspo fora meramente. De volta à vida, mesquinharias me fazem meter os pés pelas mãos, imitando o que não posso ser e mansamente retornando ao meu lugar. E de volta, a vida? Longa, magra, megera. Maligna até! Me espera, malandra, querendo rir de mim, a vida mentecapta que a mim me restou, queimando minhas quimeras, mantendo-me maluca, amarrando-me a uma total melancolia, sem medida mas quase sempre domesticada.
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Vivian Pizzinga
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Vivian Pizzinga estreou na edição #24 com a coluna Para ler em voz alta, com poemas altamente sonoros. Nossa Gertrude Stein do Plástico Bolha acaba de enviar mais dois textos para a coluna e aproveitamos para divulgar um deles aqui. Em breve, também nas páginas do PB!

Jornal Plástico Bolha vai subindo a serra...

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O Plástico Bolha já pode ser encontrado em diversos pontos da Região Serrana do estado do Rio. Veja a seguir alguns lugares onde buscar o seu PB:

- Petrópolis: Ponto Cultural Livraria, Av. Benjamin Constant, 213
- Itaipava: Papelaria Itaipava, Estr. da União Indústria, 11833
- Teresópolis: Livraria Casa Maria, Rua Francisco Sá, 185
- Teresópolis: Papelaria e Livraria Globo, Rua Francisco Sá, 61
- Nova Friburgo: Sociedade Musical, Av. Euterpe Friburguense, 53
- Nova Friburgo: Rádio Nova Friburgo, Prça. Demerval Moreira, 28
- Nova Friburgo: Papelaria Simões, Av. Alberto Nunes, 55

segunda-feira, 16 de março de 2009

O novo, um pequeno texto de Yuri Amorim

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O novo era, ainda ontem, um ovo.
Hoje é passado de novo.
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Yuri Amorim
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domingo, 15 de março de 2009

EXTRA EXTRA: Plástico Bolha rumo ao sul

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Esta semana, o jornal Plástico Bolha fechou parcerias com 9 pontos de distribuição na região sul do Brasil. O folhetim que, já é distribuido nas demais regiões, poderá em breve ser encontrado também nos seguintes pontos:

Em Porto Alegre:

Centro Cultural Santander
Centro Cultural 25 de Julho de Porto Alegre
Casa de Cultura Mário Quintana

Em Florianópolis:

Café Cultura
Livraria Velho Armazém

Em Curitiba:

Museu de Gravura da Cidade de Curitiba
Livraria Espaço do Livro
Pontifícia Universidade Católica do Paraná
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sábado, 14 de março de 2009

Um texto inédito de Mariana Poyares

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Escrever é determinar minha morte: dia, hora, local. Meu cume de des-espero, des-apego. Se fecho os olhos, lá fico. Por isso abro os espaços entre as cartilagens dos dedos, para sentir meu não estar, minha falta de eu e não me afogar na doce mas logo enjoativa piscina de pretensa identidade, delimitada por bordas de desejo (ou como as vejo no fundo da retina: bordas de chocolate ou sexo)

Mariana Poyares
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A vizinha do 402, um texto de Marina Sena

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Fui à praia, como sempre costumo fazer, logo pela manhã, aproveitando que ainda estava vazia. Havia apenas algumas poucas pessoas, que, como eu, não gostavam do alvoroço que é a praia mais tarde.
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Algumas delas estavam sentadas olhando o horizonte, outras caminhando à beira-mar. E tudo estava como sempre costumava ser. A não ser por uma só coisa: a vizinha do 402. Ela nunca ia à praia, então porque o teria feito naquele dia? Ninguém sabe. O fato é que ela estava lá, sozinha e quieta.
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A gente se conhecia apenas de se cumprimentar às vezes, bem vagamente. Nunca soube muito sobre ela, pois sempre foi muito reservada, mas sei que é estrangeira e tinha uma loja de perfumes no bairro mesmo. Na verdade, isso de ela ser estrangeira era uma coisa que logo se via. Era muito branca, de olhos claros, bonita, e com um sotaque inglês inconfundível que notei nas raras ocasiões em que me cumprimentava.
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Morava sozinha no 402, e pra dizer a verdade, eu não sabia nem mesmo seu nome, mas tinha certeza que ela era do 402. Lembro-me de que morava com um rapaz, mas acabaram se separando. Dizem que foi porque ela o encontrou com uma amante, mas não se sabe bem, foi apenas o que me disseram.
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Ninguém sabe também o que a levou morar aqui no Rio. Dizem os vizinhos que foi para abrir a tal loja de perfumes, mas na verdade isso era um mistério tão grande quanto o motivo que a levou ir à praia naquela manhã.
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Estava deitada, com uma perna esticada e outra dobrada, com seus óculos escuros, quando resolveu dar um mergulho. Entrou no mar, na água fria que devia estar naquele dia e depois de uma ou duas ondas, saiu, linda de ver.
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O sol a iluminava toda revestida de água que refletiam a luminosidade do sol, e de repente ela tornou-se tudo o que havia de mais belo naquela praia. Nada era tão lindo de se apreciar. Nem o Cristo, o mar, as montanhas, nem os pássaros, que voavam leves e majestosos. As ondas se congelaram no azul do céu, e os pássaros ficaram suspensos por algo invisível. Tudo, por um instante, parou, enquanto ela, uma sereia, saía do mar.
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Fulgurante que só, sem mesmo o saber, pôs sua canga florida e, ainda molhada, com os cabelos belos e despenteados, veio caminhando pela praia, e passou bem ao meu lado, me olhou e disse com seu sotaque inglês:
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— Bom dia!
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Imaginei tantas coisas para dizer a ela. Talvez devesse perguntar seu nome, ou dizer o quanto era linda, mas de repente algo em mim gelou as palavras que eu organizava em minha mente e me limitei apenas a lhe responder:
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— Bom dia!
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Ela foi andando, atravessou a rua, para o mesmo prédio em que eu morava, entrou pela portaria e, em alguns minutos, eu já não a avistava mais. Desde então, para meu desapontamento, nunca mais a vi na praia logo de manhãzinha.
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Por algum tempo, sempre que pela manhã ia à praia, esta me parecia deserta e eu procurava pela minha vizinha, mas ela não aparecia.
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Sempre que a via, não murmurava mais do que um “bom dia”, tímido e moço que eu era. Ela jamais soube que naquela manhã agraciou com sua beleza, o seu vizinho do 102.
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Agora ela nem é mais minha vizinha. Dizem que voltou para Europa.
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De tudo, é certo que depois daquela manhã, sempre esperava sua presença, e a praia ficava deserta sem ela. Eu já devia saber que ela não voltaria mais naquela mesma hora e na naquela mesma praia, afinal ela nem costumava ir... Devia ter adivinhado que tudo foi uma feliz coincidência. Mas sempre me recordo dela, linda de ver, saindo do mar.
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Marina Sena
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Dores do mundo, poema de Patrícia Couto

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Olhos de fome
Me falam todos os dias
Olhos de tristeza
Me choram a cada hora
Olhos de angústia
Imploram-me amor
E meus olhos se fecham
Apagados pela dor
Mas não posso evitar
Esta música cortante
Melodiosa e corrente
Que meus olhos sempre ouvem
Gostaria de possuir
O bálsamo calmante
O sonífero apaziguador
Poderoso restaurador
Para as dores do amanhecer
E as angústias do anoitecer
Que vazam destes olhos
Que me fitam a cada dia
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Patrícia Couto
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Patrícia Couto é formada em Matemática com Informática, fez Pós na PUC-RJ e MBA na FGV-SP. Por sorte, as ciências exatas não a impediram se seguir escrevendo seus versos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

I Mostra Brasileira de Poesia de Maricá:

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A Prefeitura Municipal de Maricá e a Secretaria Municipal de Cultura lança o projeto Maricá, Cidade da Poesia”, e realizam a “I Mostra Brasileira“, neste mês de março. A Mostra contará com a presença dos mais renomados poetas e escritores brasileiros, além da participação dos novos e novíssimos talentos. Está dividida em cinco painéis: Poesia Cantada, Poesia Visual, Poesia Encenada, Poesia Dançada e Poesia Falada. O evento contará com a presença do pessoal do jornal Plástico Bolha no dia 15 de março, domingo!
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I Mostra Brasileira de Poesia - Programação:
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12 de março (quinta- feira) - 15h
Restaurante Maria do Céu (Av. Roberto Silveira, 880 – Flamengo)
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Coral Maricanto
Ferreira Gullar (palestra)
“Poesia e Realidade Brasileira”.
Mesa: Camilo Mota (Jornal Poiesis)
............Gilson Herval (jornalista, poeta e crítico literário)
............Erivelton Reis (poeta)
............Primitivo Paes (poeta)
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14 de março (sábado) - 18h
Restaurante Maria do Céu (Av. Roberto Silveira, 880 – Flamengo)
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Coral Maricanto
Affonso Romano de Sant´Anna (palestra)
“Tendências da Poesia Nacional”.
Mesa: Tanussi Cardoso (poeta,jornalista,presidente da AERJ)
............Leila Miccólis (poeta)
............Belvedere Bruno (jornalista)
............Gilberto de Mendonça Teles (poeta)
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14 de março (sábado) - 18h
Praça São Francisco de Assis – Itaipuaçu
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Cia. De Teatro Máscaras – Poesia Encenada
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14 de março (sábado) - 20h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Companhia de Teatro Amandaba
Leila Miccólis
Dalmo Saraiva
Jorge Ventura
Belvedere Bruno
Sady Bianchin
Gilberto de Mendonça Teles
Cia. Vida de Teatro e Dança
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15 de março (domingo) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Dalmo Saraiva
Jorge Ventura
Altay Veloso
Beatriz Chacon
Cairo Trindade
Denisis Trindade
Chacal
Grupo Djota
Grupo Poesia Simplesmente
Sady Bianchin
Santiago Galassi
Casa de Cultura (funcionários)
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16 de março (segunda-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Novos e novíssimos (estudantes)
Professora Iara e alunos
Universidade Severino Sombra
Grupo Versart
POVEB (Poesia vem da Barra)
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17 de março (terça-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Erivelton Reis
Primitivo Paes
Grupo Djota
Jorge Cardozo
Marlos Degani
Prata da Casa (poetas de Maricá)
Fabíola Miguez
Paulo Miguez
POVEB (Poesia vem da Barra)
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18 de março (quarta-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Novos e novíssimos (estudantes)
Jorge Cardozo
Marlos Degani
Prata da Casa (poetas de Maricá)
Maestro Walter (música)
POVEB (Poesia Vem da Barra)
Jiddu Saldanha
Cia. de Teatro Máscaras
Sergio Geronimo
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19 de março (quinta-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Casa de Cultura (funcionários)
Novos e novíssimos (estudantes)
Jorge CardozoMarlos Degani
Prata da Casa (poetas de Maricá)
Maestro Walter (música)
POVEB (Poesia Vem da Barra)
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20 de março (sexta-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Enéas (pescador de Zacarias)
Grupo Djota
Prata da Casa (poetas de Maricá)
POVEB (Poesia Vem da Barra)
Cia. De Teatro Máscaras
Arnaldo Antunes
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21 de março (sábado) 17h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Casa de Cultura
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Painel feminino – Sala Darcy Ribeiro
Lena de Jesus Ponte
Maria Helena Latini
Beth Araújo
Carmem Moreno
Prata da Casa (poetisas de Maricá)
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21 de março (sábado) 18hs
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Vanderlino Teixeira Leite
Beatriz Chacon
Joelcio Tanus
Fatima Tanus
POVEB (Poesia Vem da Barra)
Edmilson Santini (cordel)
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Verso vivo, o retorno de Rafael Silveira

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É um prazer, senhor que me lê!
Aqui lhe escreve quem você foi um dia,
Ainda inseguro sobre o futuro, sem saber
Se mais tarde esses versos releria

E se sentiria saudades ao reler
A data em que, jovem, o senhor não sabia
Se a pena haveria mesmo de valer
Escrever-se e reler-se em poesia

Sem metro, sem metas nem motes
Como um jornal antigo a acumular poeira.
Sim, senhor, espero termos sido fortes
E ter-nos reescrito pela vida inteira.

Nossa vida lida pelo verso, leia,
Porém, sabendo-o mero recorte.
Visto que eu queira é, após a morte,
Ter esse verso vivo pela lida alheia.
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Rafael Silveira
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Após já ter publicado o poema Identidade na edição #24 do jornal Plástico Bolha, Rafael Silveira dá as caras mais uma vez com esse belo poema.

Plástico Bolha já está no Distrito Federal!

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O excelentíssimo jornal Plástico Bolha, o folhetim literário mais viajado do Brasil, acaba de chegar a Brasilia. Apesar de estranhar um pouco os endereços, ele chegou direitinho e já pode ser encontrado nos pontos abaixo:
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- Sebo Virthual Libraria - CLN, 201 Bl B loja 37
- UNB - SECOM - Campus Darcy Ribeiro - Prédio da Reitoria
- Açougue Cultural T Bone - SCLN, 312 Bl B Loja 27
- Paulus Livraria - SCS quadra 1 Blobo 1 lojas 15/16
- IESB - Dpto MKT - SGAN 609 - módulo D, Dpto MKT, Faculdade IESB
- Eduacativa Papelaria e Livraria - SCRN, 706/707 Bloco H Loja 3
- Café das Oito - CLN, 408 Bl B loja 20
- Livraria Dinâmica - QNB, 18 Lote 1, loja 3, Taguatinga
- Café com Letras - SCLS, 203 Sul Bl C loja 19 asa Sul
- Fundação Cultural Cine Brasília - EQS, 106/107 - Área Especial
- Tribo das Artes - SCRS, 508 Bl B Loja 13/14
- ICESP - Qe 11 - Área Especial C/D - Guará
- Faculdade das Águas Emendadas - Av. da Independência SCC, Qdr 1
- Faculdade Michelangelo - SCS Bl. 2 - Shopping Venâncio 2000
- Universidade Católica de Brasília - QS 7, Lote 1, Águas Claras
- Centro Universitário Euro-Americano - SCES, Av. das Nações Sul
- Inst. de Ensino Sup. do Centro-Oeste - QS 5, R. 330, Águas Claras
- Faculdade Mauá - Colonia Agrícola Samambaia, Itaguatinga
- Faculdade Alvorada FAEFD - Setor de Grandes Áreas N, SEPN, Bl. E
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Aguardamos os textos dos escritores da capital!
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FOTO-BOLHA: La lectura del Inca...

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Conferência sobre o Acordo Ortográfico

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quarta-feira, 11 de março de 2009

Subjetivas: O homem que nasceu velho

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Quando Haroldo nasceu, ele devia ter uns 76 anos, configurando um caso raro de bebê idoso. O primeiro som emitido por ele não foi um choro, mas um gemido de dor, fruto de uma pontada no coração. Antes mesmo de notar se era menino ou menina, o médico constatou: "É velho". De fato, ele tinha rugas, reumatismo e murmurava coisas enfadonhas a respeito de política. Por isso lhe deram esse nome, Haroldo, que só dariam mesmo a um bebê velho. Ele reclamou, é claro; disse que aquele nome era um exemplo típico de descaso com o idoso. Mas pouco ligaram, como pouco ligam para o que dizem os velhos. O tempo foi passando e, na creche, Haroldo tentava insistentemente convencer os alunos a largarem as massinhas e a jogarem sueca. Aos 6 anos lia o Jornal do Commercio e sofria do coração. Sua saúde, aliás, era um problema: tinha viroses, úlceras e pontadas sem fim. Até que pouco a pouco, seus problemas de saúde foram sumindo. Aos 12 anos, ganhava corpo, e suas rugas, misteriosamente, foram desaparecendo. Procurou um médico, que não teve dúvida. Disse-lhe:-
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Haroldo, você está rejuvenescendo.
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Como, se eu nunca fui jovem? retrucou.
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-Bom, nesse caso, então, você está juvenescendo. Parabéns.
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Sem saber se aquilo era bom ou ruim, Haroldo foi vivendo sua vida. E logo percebeu que não eram apenas as rugas que sumiam: passou a ver e ouvir melhor. Sua coluna, antes curvada, escoliótica, foi aos poucos se reerguendo e aos 20 já estava quase ereta. E não era a única parte do seu corpo que se erigia, pois Haroldo descobria também aos poucos nascer nele um sentimento inédito: o desejo. Procurou uma parceira, mas poucas eram as mulheres de 20 anos que se interessariam por aquele sujeito grisalho e resmungão. Passou então a trabalhar desesperadamente, dia e noite, para passar o tempo. Ganhou uma boa soma de dinheiro e aos 30 e poucos já reunia então uma pequena fortuna. Aí então (e só aí) se identificava com as pessoas da sua idade. Mas esse momento durou pouco, pois seus colegas logo começaram a preferir uma vida mais tranqüila e reservada enquanto ele começava a preferir sair à noite a trabalhar no escritório. E assim acabou gastando sua fortuna com mulheres, bebida e drogas. Aos 50 e poucos anos, levava uma vida totalmente libertina e gozava de saúde invejável. Até que, entrando na casa dos 60, passou a ganhar certo desconforto com as mulheres e com a vida, sentindo-se mal dentro de seu próprio corpo e optando pelo sexo manual como forma de dar vazão a um desejo ainda latente. Mas esses pensamentos espúrios foram aos poucos sumindo de sua mente de tal forma que aos 65 havia ganhado certa ingenuidade, aliada a uma enorme energia. Sentia-se cada vez mais disposto para brincar, rir e chorar, especialmente aos berros. Tornou-se logo dependente das pessoas à sua volta. Aos 70 já não fazia nada sozinho: já não sabia mais ler, aos poucos desaprendia a falar e logo não conseguia mais andar. E, assim, em seu choro final, viu sua vida passar na frente dos seus olhos, como um filme, e teve a súbita impressão que alguém havia apertado o rewind.
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Este texto do nosso amigo Gregório Duvivier pode, em alguns minutos, te poupar uma ida ao cinema para assistir ao curioso caso de Benjamin Button. Publicado originalmente na coluna Subjetivas do Plástico Bolha #6.

Vitória: o Plástico Bolha já chegou ao ES!

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Se o Plástico Bolha já é leitura obrigatória para pais e filhos, chegou a vez do Espírito Santo receber os seus exemplares! Veja onde encontrar o jornal em Vitória, Vila Velha, Carapina e arredores:

- Livraria Reler - R. Nestor Gomes, 200
- Sebo República das Letras - Av. Anísio Fernandes Coelho, 1715
- Sebo Livraria e Café Praça - R. Treze de Maio, 71
- Sebo Utopia - Rua Carolina Leal, 289
- Alfabeto Livraria e Lanchonete - R. José Alexandre Buaiz, 160
- Escola de Teatro e Dança FASI - Av. Jerônimo Monteiro, 656
- Teatro Carlos Gomes - Praça Costa Pereira, 25
- Instituto Social Casa Verde - Rod. Serafim Derenzi, 4263
- Faculdade Saberes - Av. César Helal, 1180
- Centro de Ensino Superior de Vitória - R. Wellington Freitas, 265
- Papelaria e Livraria King of Kings - Av. Lourival Nunes, 203
- Opus Papelaria e Livraria - Rua L, 7
- Papelaria e Livraria Doce Saber - Av. Norte Sul, s/n
- Livraria Celino - Rua Rosa de Ouro, 474
- Banca do Paulo - R. Ferreira Coelho, 98
- Bella Vídeo Locadora - R. Espírito Santo, 32
- Bauhaus Educação Cultura e Arte - Av. Saturnino Rangel Mauro, 488
- Galeria de Arte Ana Terra - Rua Eugênio Netto, 106
- UFES - Rua Augusto dos Anjos, 101
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terça-feira, 10 de março de 2009

O agora inteiro, poema de Dimitri Merino

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Este mar enorme.
O amarelo, o laranja,
também a asa-delta
a deslizar no vazio colorido
do céu, do instante.

Não se trata de algo concreto.
O momento vivido
é indescritível.
De que adiantam estes versos?
Cabe a ti, leitor, adiantar-te.

Seja como for,
o mar continua abundante
e, como a vida, esconde
em suas profundezas
seja o que for.

Eu riria, choraria,
gritaria o tom
de minhas entranhas.
É tanto que eu me resigno
aos limites deste poema.
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FOTO-BOLHA: alguns itens da juventude...

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PUZZLES: vida de Lima Barreto no PB#26!

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A coluna Puzzles do jornal Plástico Bolha sempre desvenda a vida das grandes figuras das Letras, entre elas Kant, Santo Agostinho, Sarte, Alberto da Cunha Melo, Carlos Sussekind. Para a próxima edição — que já está no forno! — quem assinará a coluna é Daniel Lourenço, com um texto sobre Lima Barreto. Em seu texto, Daniel nos falará um pouco mais sobre os outros romances do autor: Recordações do Escrivão Isaías Caminha e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Lima Barreto é lembrado, em geral, apenas pelo seu Triste fim de Policarpo Quaresma, matéria obrigatória das aulas de literatura dos colégios.

LEIA A COLUNA AQUI!
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Metro, um conto de Juliana Cesario Alvim

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Cedo da manhã, senhores, senhoras, senhorios caminham impacientes em direção ao buraco no chão. Escapolem pela escada datilografando os degraus com saltos de madeira até alcançarem a roleta que lhes dará acesso ao interior dinâmico da cidade.

O sol, deixado metros acima, contrasta com a luz branca que tudo entristece. A proximidade entre as pessoas impede qualquer ajuste à crescente temperatura.

Distraem-se como podem: folheiam o jornal, ouvem música e até, os mais experimentados, lêem livros valendo-se de manobras contorcionistas e exercícios monásticos de concentração. Alguns buscam os modos alheios, furtivamente. Não convém buscar o outro.

A cada parada trocam-se os rostos, milhares deles. Em comum, a pressa de chegar. Pressa exata, calculada em minutos e exibida em letreiros luminosos. Os trens costuram as entranhas da terra veloz e maquinalmente, nosso teletransporte de ferro. E nós, carregados, cismados com um caminho: hemácias, plânctons, poeira.

Na saída, desfaz-se o labirinto. Para trás, abaixo dos pés, os trens, os pedintes, o calor. Acima, o que vem é otimismo.
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Juliana Cesario Alvim
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Juliana Cesario Alvim é mais uma nova autora a se destacar com esse belíssimo texto. Borges costumava dizer que viveremos na era do conto e aqui vemos quantas possibilidades podem advir daí. Um conto veloz que atravessa com a linguagem a dinamicidade da nossa era através do olhar subterrâneo de uma autora que é mais uma revelação do jornal Plástico Bolha.
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Bolhas Bahianas: chegamos a Salvador...

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Depois da badalação do carnaval, nada melhor do que balançar na rede com um pouquinho de literatura. Veja alguns pontos de distribuição do jornal Plástico Bolha em Salvador:

- Sebo Livraria Brandão - Rua Ruy Barbosa, 15
- Livraria Galeria do Livro - R. Anísio Teixeira, 161
- O Livro Distribuidora - Av. Leovigildo Filgueiras, 449
- Fundação Gregório de Matos - Rua Chile, 32
- Conjunto Cultural Caixa Economica - Rua Carlos Gomes, 57
- Quarteto Distribuidora de Livros - Av. ACM, 3213
- Banca Job Livraria p Concursos - Rua Haeckel José de Almeida
- Paulus Livraria - Rua 7 de Setembro, 80
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segunda-feira, 9 de março de 2009

tsumântrica, um poema de Kiko Ferreira

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água
.......mole
.............dura

tatibitática

até
......que
.............fúria

Kiko Ferreira



Falando em Kiko Ferreira na postagem anterior, publicamos este seu clássico sobre as águas que remete ao maremoto na Ásia, aos dizeres populares, aos mantras e muito mais... (ou será apenas à Pampulha?) Um poema simples e certeiro!
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Cacaso na livraria Scriptum da Savassi

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Evento Cacaso não por acaso, na livraria Scriptum. A livraria é um dos pontos de distribuição do jornal Plástico Bolha em Belo Horizonte e o evento terá participação de nossos amigos de bolha Vera Casa Nova, Kiko Ferreira e Jovino Machado. Para ver a programação completa do evento basta clicar na imagem.
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FOTO-BOLHA: um coqueiro diferente!

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Espécime rara da Cocos bolhifera L., da família das Literáceas, fotografada em seu estado natural por Lucas Viriato.

DESAFIO POÉTICO: um poema narrativo...

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Ainda há tempo de mandar o seu poema para o próximo Desafio Poético do jornal Plástico Bolha. Para a próxima edição o desafio é escrever um poema que também conte uma história, que desenvolva de alguma forma a narratividade. Aceitamos poemas de todos os tipos, sem nenhuma restrição quanto à forma, desde que sejam narrativos. Basta enviar para o e-mail do jornal redação@jornalplasticobolha.com.br. Participe!
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fio desencapado no sótão, de Flávia Amaral

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Da fresta podia enxergar seus passos largos fazendo ranger a madeira do chão. De cima, avistava sua cabeça como um ponto negro mudando de direção arrastando móveis, revirando gavetas, abrindo e fechando cortinas. Um bicho enjaulado, faminto.

Ele não cansa! Não cessa de arrumar e desarrumar armários e prateleiras. O que precisa é arrumar a vida, rearrumar o que tanto bagunçou aprontando com a família, amigos e quem mais se aproximasse.

Adormeci e quando despertei do cochilo, naquele sótão empoeirado, com os olhos ainda embaçados da curta dormida, focalizei o vão no assoalho e lá estava ele nu, prostrado sobre a cama desarrumada com o quarto revirado exalando suor, num ambiente com ar viciado. Seu corpo de bruços brilhava com o suor viscoso que junto com sua baba molhava os lençóis de cambraia com fios egípcios de trama complicada. Idiota! O que ele merecia era um jornal velho para se proteger na sarjeta da rua da amargura. Sua figura inerte instiga a descer e acabar com ele, talvez com uma tesoura desferindo-lhe um golpe certeiro no coração! Sei onde fica a tesoura, na terceira gaveta à esquerda da bancada da cozinha. Alguém bate na porta e entra no quarto, volto do meu devaneio num rewind enlouquecido e antes que consiga retomar a respiração, lá de cima, do sótão, pela fresta do teto, me vejo na cena, como em um sonho assistido de fora. No quarto, na cama, sobre a colcha de chenile, enroscada nos lençóis de cambraia, eu e aquele homem nos amamos como se amam os bons. Um amor sentido, vivido, sem palavras.

Sou o anjo que veio de uma louca vigília no sótão para acalmar o coração da fera adormecida objeto do meu desejo descontrolado, estéril, maluco.

Flávia Amaral



Flávia Amaral é aluna do primeiro período de Letras-Produção Textual da PUC-Rio. Já trabalhou como roteirista na TV Globo e como produtora de artes durante 13 anos. Agora, acaba de enviar alguns textos para o jornal Plástico Bolha e escolhemos este para compartilhar com os leitores. Esperamos que gostem!

Lançamento: Discursos socioculturais

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O discurso como constituinte da realidade é o tema da coletânea “Discursos socioculturais em interação”. Organizado pelas professoras Maria das Graças Dias Pereira, Clarissa Rollin Pinheiro Bastos e Tânia Conceição Pereira, este trabalho abarca um período de dez anos de investigações sociolinguísticas e expressa uma preocupação fundamental: compreender práticas cotidianas importantes na vida dos seres sociais e, assim, expor tensões e instabilidades das relações contemporâneas. Esse processo de construção dos discursos é especialmente relevante pelo fato de compreender que o significado não é intrínseco à linguagem, mas sim o resultado de um trabalho interacional que implica negociação, embate, ideologia e poder.”
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domingo, 8 de março de 2009

Plástico Bolha viaja pelo estado do Rio!

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Outras cidades fluminenses já receberam os seus exemplares do Plástico Bolha. Veja abaixo onde buscar seus jornais:

- Rio das Ostras: Biblioteca Pública, Av. Amazonas
- Rio das Ostras: Fundação de Cultura, Prça. São Pedro
- Paraty: Centro Cultural, R. Dona Geralda
- Resende: Cultura e Cia., R. Luiz Pistarini
- Itaguaí: Estação das Artes, R. Ismael Cavalcanti
- Paraíba do Sul: Banca da Praça, Praça Garcia
- São João da Barra: Casa de Cultura Zenriques, R. do Rosário
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sábado, 7 de março de 2009

Criança, um poema clássico de Jõao Lima

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Hoje cruzei a esquina do mundo.
Experimento as mãos de velho veludo
e o pulso responde
sacoleja o coração desbotado.
Ainda era criança
quando amava o teu corpo pequeno.
Neles sempre tuas mãos, baças
telúricas:
uma se assenta em um joelho,
firme. E o teu peito
o teu peito.
Antes a tua luz, os teus cachos
caindo em chuva sobre os ombros
primavera esperada:
teu flanco
tua perna de mulher por um triz.
Hoje te ofereço meu sorriso sem fósforo
te imponho o eixo arbitrário da minha pelve
e a tua boca vai se abrindo, estranha e velha cicatriz
e sem fingimento toda te acendes.
Liga-te a vida se não te apagas.
Imagino a vida que há de vir do oculto do teu ventre
nadando em teu lago tão distante
na gema de todo teu caos.
Imagino-te mãe, ah tão violentamente imagino-te mãe.

João Lima



João Lima já publicou dois textos no Plástico Bolha. Este, intitulado "Criança", saiu na última página da edição 21. Trata-se de um poema belíssimo que entrou na memória como um dos clássicos do bolha!

sexta-feira, 6 de março de 2009

BOLHAMAZÔNICA: chegamos em Rondônia

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O Plástico Bolha atravessou o país e chegou até Porto Velho, capital de Rondônia. Lá, temos contato com o Coletivo Madeirista, um grupo de poetas nascido à beira do Rio Madeira que faz a ponte com o Plástico Bolha na cidade. Além disso, você pode encontrar o jornal nos seguintes pontos:

- Faculdade Amazônia - IESB - Rua Marechal Deodoro, 1856 - Centro
- Faculdade São Lucas - Rua Alexandre Gumarães, 1927 - Areal
- Federação de Quadrilha e Folclore - Rua Pres. Dutra 3004 - Caiari
- Faculdade Interamericana UNIRON - Av. Mamoré, 1520 - Cascalheira
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