quinta-feira, 30 de abril de 2009

Disk-Pizza, um conto de Giselle Ferreira

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A chuva espalhava o sangue brilhante que vazava do capacete. Seu dono estava estendido no chão imóvel. As pizzas atiradas no asfalto negro, rodelas de calabresa e tomate espalhadas em volta dos discos fugidios que se misturavam ao sangue como glóbulos gigantes. Logo apareceram várias pessoas para socorrê-lo, na maioria outros motoqueiros que se juntavam feito formigas operárias. Outras se aproximavam, insaciáveis desta mórbida rotina. Havia ainda as que preferiam escapar enquanto desse tempo, fugiam do trânsito, do outro, da proximidade da realidade.
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— Enganchou na traseira do caminhão, vinha costurando feito louco.
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— Também, se não fazem a entrega no tempo, tem que pagar pela pizza.
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— Meu Deus, onde é que a gente vai parar!
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O motorista do caminhão permanecia imóvel, olhos órfãos, sem entender ainda o que havia acontecido, lembrava-se apenas do leve impacto atrás do caminhão.
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— Alguém chama o resgate!
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— Tem que tirar esse pau da cabeça dele.
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— Não pode, se tirar ele morre.
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Sentia uma dor leve, um frio fino que lhe penetrava os caminhos da alma. A chuva grossa refrescava a pele morena no asfalto ainda quente do dia de verão; entre as pálpebras semicerradas, viu estrelas faiscando nos postes estampados contra a negritude da noite. ‘Pai, você me dá uma boneca que faz xixi no meu aniversário?’ ’Mas minha princesa, é muito cara, não tenho dinheiro.’ ’Então você vai no banco e pega!’ Aqueles pequenos olhos suplicantes lhe davam pistas da sua existência.
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— Vê se tem documentos no bolso.
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— Melhor ligar logo para o restaurante.
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Sentiu o cheiro da chuva e lembrou-se do subúrbio de terra batida onde crescera. Os pés enlameados a caminho da escola nos dias de chuva nunca chegaram ao final do ensino básico. Não havia tempo para aprender além do que estivesse no seu caminho. Urgia sobreviver à sua sina. Lutava para sair do vácuo, mas só ali, em cima das duas rodas, sentia vida, ainda que malfadada. Fazia entregas, uma após a outra até a última, a de sua vida.
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— Pizza D’Ore, boa noite.
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— Um motoqueiro que trabalha para vocês sofreu um acidente.
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— Morreu?
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— Não dá para saber. A chapa da moto é BRB 3355.
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— É o Josoaldo. Vou mandar fazer outra pizza.
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Giselle Ferreira
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Giselle Ferreira profissionalizou-se como Tradutora e Intérprete e possui mestrado em educação na Universidade de Harvard. Ela trabalhou no Consulado Americano e atualmente ensina inglês para crianças em um programa americano em São Paulo, além de participar do Laboratório de Criação Literária do Museu Lasar Segall. No meio tempo de tantos afazeres, passou no site do jornal Plástico Bolha para brindar-nos com alguns de seus textos.
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Lançamento coletivo de poetas em SP

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Lançamento de "Cor de Cadáver" em BH

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Quarto com suíte, texto de Éder Rodrigues

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Salvo tuas mãos do sono, onde agora tudo singra e nada breve é o que se espera. Nenhuma palavra rompe o eterno que se desenha ou o impossível que se desculpa. Rente no assim tão dentro do enlouquecer dos dedos, do caminho que não conseguem. Teu escrito molhado num vício-corpo é qualquer coisa entre ir, sem se levar. Tudo escorre. Tudo migra. A distância não vira poema. Só o olhar de quem morre, de quem pede fim. Solidão coberta por lençóis de linho. Espelho-teto de uma lua amíngua.
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Salvo tua boca do silêncio onde agora nada vinga. Socorro tua palavra do corte, da nossa imagem embaçada nesse pedaço de céu espelhado. Gozo incerto que adormece os homens, antes de serem homens. Corpos num eclipse afora, na fase diminuta de seguir, ficando. Teu rastro de quem esquece, tua loucura de quem já se foi. Sono de quem arde ou adormece assim. No instante rompido de não estar, estando. Solidão nua. Sem lençol sem nada. Num banho morno de sarar não-ditos, de curar os escritos pontiagudos da tua língua.
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Éder Rodrigues
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Lançamento de livro sobre Guimarães Rosa!

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Lançamento de livro com a participação dos amigos do Bolha: Stella Caymmi, Leonardo Vieira e Eliana Yunes!
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Américas, novo poema de Miguel del Castillo

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Avenida das
Américas à noite,
cada poste que passa
a oitenta quilômetros
por hora é luz
branca que escorre pros
olhos,

os freios
vermelhos piscam
piscam
e o que vem ali
à frente depois
do Barrashopping
só Deus
sabe,

tantos prédios
condomínios
cercas
que eu
já nem sei —

essa avenida parece
um rio e
seus barrancos
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Miguel Del Castillo
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Evento "Poética" no Teatro Escola SESC

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terça-feira, 28 de abril de 2009

Operando a Manhã, poema de Lucas Matos

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Um saco pleno de gemas,
algo assim como um câncer luminoso,
E um bisturi afia a ponta da sua lâmina sobre a fina pele.

Repente
Amarelo!

Não é preciso nenhum galo
Para anunciar o amanhecer.
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Lucas Matos
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Evento "Terça Poética" em Belo Horizonte

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O caos da rosa, poema de Rebecca Garcez

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Olha lá! Até as pétalas em guerra.
Guerra pra ver quem vai sentir a terra
Mas conforme o caos come
a rosa
morre.
A pétala
cai.
E então anarquia se faz, meu pai!
Quando se vai, se cai, se ganha.
Nunca vi tanta barganha.
Se ganha, porque mesmo morta
a delicada pétala torta
abre uma porta pra sentir a terra.
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Acorda...
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Colóquio Literatura e Revolução, na PUC-Rio

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Evento em comemoração dos 35 anos do 25 de Abril organizado pela Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses. Clique na imagem para ampliar a programação
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Plástico Bolha #26 já em Belo Horizonte!

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Os leitores mineiros receberam em primeira mão a nova edição do jornal Plástico Bolha. Quem quiser conferir a nova edição pode encontrar no nosso principal ponto de distribuição na capital mineira:
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- Livraria Scriptum - Rua Fernandes Tourino, 99 - Savassi
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Crise, um texto de Anna Beatriz Siqueira

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Eram melhores amigas. Inseparáveis. Uma loira, outra morena. Uma de olhos castanhos, outra de olhos verdes. Até que um dia, a outra apareceu loira e a uma chiou.
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— Mas que é isso?
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— Pintei o cabelo.
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— Sim, eu sei, mas tinha que ser justamente da mesma cor que o meu?
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— Está na prateleira é para se comprar, querida.
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Isto não ficaria assim. Na semana seguinte, lá estava a uma com lentes de contato verdes. A outra reclamou:
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— Mas você, hein?
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— Está na prateleira é para se comprar, esqueceu?
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— Ah, é?
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No mês seguinte, a outra estava vestindo as mesmas roupas que uma. Passou mais um mês, uma estava com os mesmos sapatos que a outra. Mais um mês e surgiu o Carlinhos em suas vidas:
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— Eu vi primeiro!
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— Não, senhora! Eu que vi!
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E este, vendo que nem uma nem outra se acertavam, preferiu ficar só a ter que lidar com uma crise de identidade.
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Anna Beatriz Siqueira

Destino, poema de Petrônio Souza Gonçalves

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Eu sou um trem de ferro
Que leva minérios
No coração.

Eu sou um trem de ferro
Que traz histórias
No vagão.

Eu sou um trem de ferro,
seguindo os trilhos
Da palma da minha mão.
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Petrônio Souza Gonçalves
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Petrônio Souza Gonçalves trabalha na Academia Mineira de Letras e foi muito simpático em receber o pessoal do jornal Plástico Bolha por lá. Esse poema, Destino, está em seu livro Adormecendo os Girassóis, Ed. Europa.
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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Lançamento de "A Casa do Fim", na Gávea

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Presente do Indicativo, de Fernanda Hott

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O presente se refere a um fato
E quando mudam os fatos
Muda-se todo o discurso
E o presente vira passado
E o que era fato vira um fardo
Que terá que ser carregado
Por todo o percurso
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Fernanda Hott
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Fernanda Hott é nossa leitora de Vitória, ES, e acaba de nos enviar alguns poemas. Escolhemos este Presente do Indicativo para compartilhar com os leitores do Blog do Bolha. Aguardamos mais textos dos leitores capixabas!
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LEITURAS ESPARSAS: A enfermeira Creuza

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Noite e dia se confundem no Hospital Cardiotrauma de Ipanema, a não ser pelo relógio que indica a hora. Por volta de 2:30 saio do leito e encontro uma enfermeira; ela estava com a cabeça debruçada nos braços ensaiando um cochilo. Perguntei se ela se importava em trocar algumas palavras. Ao ócio daquele ambiente nada restava a não ser se permitir conversar com uma curiosa. Aos dezesseis anos Creuza Souza deixou o esposo e a roça para buscar no Rio de Janeiro um futuro. Hoje , aos 52 anos, a auxiliar de enfermagem diz com convicção o que mais ama fazer na vida: cuidar de gente, ajudar a salvar pessoas. Quando começou a falar de livros, escorregou diversas vezes na sua própria história e memória. Creuza dá inveja à imaginação e à pretensão de qualquer escritor, sua vida é um prato cheio de terror e superação, de buracos, de “não dá pra explicar, dona Camila”.
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Você gosta de ler, Creuza?
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Ler é muito importante porque traz conhecimento. Eu li um livro em algum lugar do passado que me chamou muita atenção, não lembro o nome. Eu gosto de ler manchetes, das notícias dos jornais. Gosto de ler a revista Época.
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As histórias que você me contou dariam vários livros, como já deram de alguma forma. Você convive diretamente com uma linha entre morte e a vida. Não tem como fugir: você como enfermeira e seus pacientes, em casos mais graves ou não, refletem constantemente sobre a vida e a morte. Inclusive, esse é o grande tema dos livros, sabia? Mas o negócio é o seguinte, você se assusta com essa sua rotina de pessoas que fogem ou querem se entregar à morte?
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Não vou dizer que é fácil. Cada dia é uma experiência. Tudo que você faz na vida tem que ser por amor, senão você deixa a desejar. Então, lidar com essas pessoas, com os pacientes é algo que faço porque gosto. Por mais que elas pensem que a vida delas acabou, que não são mais importantes para o mundo, meu dever é incentivar e dizer que não. Nós temos é a esperança, porque a vida só Deus pode tirar. Qualquer um de nós, enfermeiros, médicos, qualquer um que cuide de um ser humano tem o dever de tentar salvar.
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Percebi os quartos do hospital não têm janelas e neles há televisões sempre ligadas! Os pacientes ficam deitados o tempo todo assistindo a televisão? Não pedem para ler um livro, uma revista?
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Alguns deles pedem para a gente ler em voz alta, quando têm gosto pela leitura. Tem gente também que não gosta de ler nem de televisão, tem pavor de televisão, aí ficam só no mundo deles... Mas, diante de tudo isso, o que eles mais precisam é de amor e carinho. As pessoas doentes ficam muito carentes.
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Se você fosse escrever uma história, que história seria?
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Olha só, a história é uma coisa muito linda, na história tem tudo, porque começa com você. É um avô do passado que às vezes você nem conheceu, aí você fala aquilo que seus pais te contaram do seu avô... eu acho lindo o amor. Eu acho que a história é o tudo, é a nossa vida, é o dia a dia, é o romance, é aquele amor que você teve no colégio, é aquele professor que você achava lindo, é aquela pessoa que você não pode ter ao seu lado. Eu acho que colocaria um pouquinho de cada no meu livro. Assim. Vamos supor, eu te conto algo que passou na minha vida, é uma história, mas tem algo que acontece na nossa vida que não tá na história do que aconteceu, tá em outra coisa, entende? Eu não sei explicar. Tem coisas também que você gostaria de apagar da mente. Eu não sei como eu poderia explicar essa palavra para você.
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Eu entendo Creuza, não precisa explicar mais. Agora, se fosse para você escolher uma história, um livro para ler, o que escolheria?
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Gostaria de ler a história da minha vida, mas gostaria de ler outras coisas, coisas importantes para ter mais conhecimento. Sobre a natureza eu queria ler também, coisas que aconteceram há milhões de anos atrás, no início do mundo, do tempo, é tanta coisa que eu queria ler! A gente se surpreende com tanta coisa que a gente descobre. Mas o mais importante da história, é que ela fica. A história fica, né?
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Acho que está bom, Creuza, vou deixar você descansar...
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Mas é para isso que serve uma história não é?
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Fui seguindo o corredor em meio àquelas respirações monitoradas.
O resto é silêncio.
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sábado, 25 de abril de 2009

Para Kafka, um novo poema de Rafel Castro

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O animal que tosse nas entranhas
Grita mudo o profundo ensinamento
Seja inseto, homem ou toupeira,
Todos sentem em si a centelha
Da fé que cura
O esquecimento
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Rafael Castro
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

ENTREVISTA COM RUY ESPINHEIRA FILHO

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A primeira vez em que encontrei a poesia de Ruy Espinheira Filho foi na feira de livros realizada no Rio de Janeiro, Poesia Reunida e Inéditos. Lá se vão quase dez anos daquele primeiro contato. O mais surpreendente dessa história é que fui conhecê-lo pessoalmente alguns anos depois, na mesma feira itinerante de livros, no dia em que o poeta receberia o prêmio na ABL, pelo primoroso Elegia de agosto e outros poemas (2005). Naquele dia passamos a manhã conversando sobre livros e a vida; mas, na verdade, a conversa já se iniciara bem antes e continua até hoje. Durante este tempo tenho tido a felicidade de compartilhar da amizade de um poeta simples e humano, sempre disposto a um diálogo igualitário, sem o distanciamento muitas vezes estabelecido entre escritores e leitores.
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Impossível ler seus poemas e não se sensibilizar diante dos questionamentos, pois são nossos também — compartilhamos das mesmas felicidades e agruras ao longo da vida. Assim, nada mais natural que ele fale de sentimentos humanos em linguagem humana, tal qual o fez Manuel Bandeira.
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Nesta conversa o poeta nos esclarece seus principais campos temáticos e nos convida a visitar sua fabulista memória.


LANZILLOTTI: Heléboro — seu primeiro livro, publicado em 1974 — já traz várias tendências de sua poesia, sobretudo a contenção expressiva e o lirismo elegíaco. A divisão do livro nas seções “Longe de Sirius” e “Música pretérita” revela o mal-estar existente em relação ao que é inatingível como experiência tátil, mas que se busca pela junção entre memória e recriação. O passado acaba tendo, dessa forma, um lugar privilegiado. Qual a relação entre sua poesia e a passagem do tempo?

ESPINHEIRA: Jorge Luis Borges dizia que todos os animais são eternos, menos o homem, porque este possui o conceito de tempo sucessivo — ou seja, tem consciência da passagem do tempo, com o qual leva a vida. A vida, sim; não apenas as coisas — como escreveu Ovídio. Em outras palavras: nos leva à morte. E esta é nossa angústia maior: a consciência da morte. Assim, como todo o mundo, desde cedo me senti participante desse drama. E, como escrevo com a vida, é claro que a consciência do tempo teria de estar presente. Quanto ao passado, é a única coisa que realmente possuímos — e que a fabulista memória vai tornando mais preciosa. Enfim, escrevo com o que há de mais forte em mim: o sentimento do efêmero e a memória. Que é o que somos todos nós: nossa memória; nosso passado. Encerrei o poema “As meninas”, de Julgado do vento, com este verso: “O passado não passa”.

LANZILLOTTI: O senhor lançou livros de crítica sobre Jorge de Lima, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Qual a influência da leitura desses e de outros poetas em sua poesia?

ESPINHEIRA: Influenciaram-me muito os três, pois eram mestres de poesia. No caso do Mário, sua influência foi mais crítica, ensinando-me, por exemplo, que a originalidade está em nós mesmos. Jorge de Lima e Bandeira foram mais mestres de poesia propriamente dita. Mas recebi e recebo a influência de muitos outros autores — como Camões, Drummond, Vinícius, Cecília, Sosígenes Costa, Carlos Pena filho e até Olavo Bilac, para só ficarmos nos escritores de Língua Portuguesa.

LANZILLOTTI: Ainda no que se refere à relação entre memória e passagem do tempo, o senhor, em “Insônia”, escreve “que lembrar é a minha natureza e às vezes/ um desespero”; já em outro poema, afirma que “mais pleno é o perdido, pois o resto/ ainda não se cumpriu”. A recordação de tudo que fora perdido é concomitantemente agonia e bálsamo?

ESPINHEIRA: Lembrar pode ser, mesmo, um desespero — sobretudo por não podermos assumir de forma total esse tempo contemplado, evocado, ou não suportar, como dizia Camões, a grande dor das coisas que passaram. E que, como já foi dito, porque passaram não passam nunca... Sim: a recordação é às vezes bálsamo, às vezes agonia. O outro verso que você citou ilustra o que falei há pouco sobre a memória e o passado: é claro que o que se foi é mais pleno, pois já está inteiramente realizado, cumprido; enquanto o presente e o que podemos chamar de futuro não chegaram a tal realização — ainda se encontram em processo ou apenas em estado de expectativa, anseio, sonho.

LANZILLOTTI: O poema “Elegia de agosto” fala da dor de Drummond diante da perda da filha. Manuel Bandeira publicou um poema homônimo. Coincidência ou não, sua obra poética, em alguns aspectos, evoca temas bandeirianos, partilhados também por outros poetas — quiçá, de toda a poesia. Até aí nada de novo... Enquanto Bandeira fala da vida que poderia ter sido, em sua obra perpassa, ao contrário, uma vida que foi e só volta a partir da recordação — seja esta real, seja fictícia. Qual o papel da recordação em sua poesia? Somente o que fora perdido é realmente nosso para sempre?

ESPINHEIRA: Esta é uma pergunta cheia de perguntas. Drummond viver mais alguns dias só para sofrer com a morte da filha única foi uma tragédia que me comoveu muito, daí o poema. Como o fato se deu em agosto, a elegia só poderia ser de agosto. O poema de Bandeira com título idêntico fala de coisa totalmente diversa e, a meu ver, sem valor poético: sua decepção diante da renúncia de Jânio Quadros. Creio que a segunda pergunta já está parcialmente respondida acima. Quanto a viver (ou reviver) pela recordação, direi que se trata de algo que acontece a todos os humanos. “Recordar é viver”, dizia o velho samba, repetindo um velhíssimo dito popular. Na verdade, todos os escritores, não apenas os poetas, escrevem muito mais com a memória do que com qualquer outro, digamos, encantamento.

LANZILLOTTI: A recordação da mulher amada, em alguns de seus poemas, trata ora de relações envoltas em dor, ora de perfis femininos que lembram semideusas. Outra vertente de sua poesia amorosa, entretanto, fala-nos de certa mulher tangível, humana, e vê o amor como o encontro entre os corpos. Essas duas vertentes caminham juntas no tema amoroso de sua poesia ou a tendência é uma suplantar a outra? É possível as almas se entenderem tão bem quanto os corpos?

ESPINHEIRA: Não me acho diferente dos outros no caso da poesia amorosa. O que acontece é que as mulheres são bruxas — como dizia Nikolai Gogol —, as quais tanto podem ser deusas, semideusas, quanto carne terrestre vibrante de sensualidade. Para mim, as mulheres são capazes de tudo, podem ser tudo, inclusive num só tempo. Sou grato a elas até pelos momentos de angústia, porque esses transes cruciantes também me enriqueceram. Quanto ao entendimento das almas, Manuel Bandeira achava que não era possível — e quem sou eu para discordar do mestre?

LANZILLOTTI: A infância em Jequié e Poções nos é passada como cercada de magia: lugar mítico onde a felicidade fora completa, sobretudo pela presença dos que hoje se encontram ausentes e pela liberdade das brincadeiras ao ar livre. Sobressai, entretanto, a impossibilidade de reviver aqueles momentos, instaurando-se, assim, a tristeza. A infância nessas cidades foi algo fundamental em sua vida, sobretudo como poeta? Qual sua relação com esse período da vida? O menino ainda existe no homem?

ESPINHEIRA: A infância foi em Poções; a adolescência, em Jequié. Houve magia, sim; e muita, nesses meus dois períodos de vida. Na verdade, houve magia em minha vida toda — e ainda há. Às vezes é uma magia cruel, mas magia; pois a vida não tem sentido, não tem lógica. Só a magia pode dar-lhe sentido — o sentido da magia. Nunca aceitei bem a separação que se faz entre sonho e realidade; sinto-me cada vez mais inclinado a concordar com Calderón de la Barca: “La vida es sueño”. Quem me prova que não é?

LANZILLOTTI: Alguns aspectos do pós-moderno estão incluídos em sua obra. Concorda com isso?

ESPINHEIRA: O que é mesmo o pós-moderno? Parece-me, mais do que qualquer coisa, uma dessas modas que de vez em quando assolam o mundo, especialmente as universidades. Moderno sempre foi, por definição, o que é atual, contemporâneo. Assim, se fôssemos pós-modernos, estaríamos vivendo depois da atualidade, adiante do nosso tempo. Fica fácil criar essas modas; é só mexer nas definições, nos conceitos, e inventar à vontade — como já inventaram até o fim da história... Se, como você diz, há aspectos pós-modernos em minha obra, gostaria muito de saber quais são — e certamente demonstrarei que são apenas coisas de meu tempo e minha vida, ambos anteriores a essa moda. De resto, como Octavio Paz, não gostaria de dizer aos meus descendentes que eles são pós-pós-pós...

LANZILLOTTI: Elegia de agosto foi premiado em 2006 pela Academia Brasileira de Letras, além de ter obtido o segundo lugar no Jabuti daquele ano. O que esses prêmios representam para sua poesia?

ESPINHEIRA: Creio que são um reconhecimento. Como não sou um poderoso na política da República das Letras, não passando de um nordestino que vive no Nordeste, devo concluir que a obra foi premiada unicamente por sua qualidade literária. Infelizmente, porém, tais premiações não ajudam em nada quanto à vendagem, o que é um fenômeno tipicamente brasileiro. Para piorar, estamos vivendo um tempo acrítico — quase não há crítica literária no país. Há resenhas, mas muitas vezes escritas por pessoas sem preparo para analisar e emitir opinião. E também há muita ação entre amigos — o que é ótimo para a promoção da mediocridade. Meu livro foi triplamente premiado — pois houve também uma Menção Especial da UBE-RJ — e só recebeu uma crítica: a de Miguel Sanches Neto, publicada na Gazeta do Povo, do Paraná, e no Jornal do Brasil. Aliás, Miguel foi também o autor das orelhas do livro. Como ele é um grande crítico — além de poeta, romancista, contista, ensaísta —, fiquei muito honrado com os dois textos. Considero-os, por partirem de escritor como ele, uma consagração.

LANZILLOTTI: Há pouca publicação de poesia no país. Quase sempre os novos escritores lançam seus livros por conta própria. Nada de novo até aí, já que muitos autores fizeram isso no passado, mas a poesia parece estar virando peça de museu. Isso se dá em decorrência da pouca publicação ou pela má qualidade da maioria do que é publicado?

ESPINHEIRA: Sim, alguns dos maiores começaram financiando os próprios livros — como Manuel Bandeira (dinheiro do pai, depois ajuda de amigos), Carlos Drummond de Andrade (descontando do salário) e Mário de Andrade (que pagou suas publicações até quase o fim da vida). Os problemas persistem hoje, pois poesia vende mal. Claro que há poetas que vendem bem — e não são necessariamente os melhores. Aliás, dos poetas que vendem bem, a maioria é de má qualidade. Acontece que o brasileiro não aprende a ler poesia; não sabe distinguir entre o bom e o ruim. Como geralmente o leitor não está preparado para a poesia maior, contenta-se com a menor. Contenta-se até com o que não chega a merecer o nome de poesia — não passando de um emaranhado de linhas irregulares, que esse leitor aceita como verso livre e que, na verdade, não é coisa nenhuma, oscilando entre conversinhas baratas de episódios domésticos, gracinhas, aventurazinhas sexuais e — em último caso — festivais escatológicos. Tudo isso em ritmo frouxo, sem nenhum artesanato, nenhuma técnica poética, nenhum talento. Em termos quantitativos, a má poesia — ou a não poesia — está vencendo. Para inverter esse resultado, seria necessário criar um público leitor mais exigente, o que nossa educação não vem fazendo. De modo geral, nossos leitores só conseguem ler — além de versos de segunda e terceira classes — manuais de autoajuda e best-sellers que repetem velhas fórmulas de sucesso popular. Enfim, os bons poetas dispõem de raros leitores — número insuficiente para comover as editoras... Não havendo uma mudança nessa triste realidade, sem dúvida a poesia — a que merece esse nome — vai mesmo acabar se transformando, neste país, em peça de museu.

LANZILLOTTI: A perda é uma constância em sua obra — diga-se de passagem, alguns de seus mais belos poemas tratam desse tema. Pessoas, sentimentos e espaços — tudo faz parte de um mesmo conjunto de ausências que é revisitado em sua poesia. Existe diferença entre viver e recordar?

ESPINHEIRA: Mais que em meus poemas, a perda é uma constância na vida de todos. Vamos vivendo e perdendo, o que é sempre uma experiência dolorosa. Mas o perdido, como já foi dito, não é o que se vai, o que desaparece; é o que permanece noutra dimensão. Faz pouco tempo, numa entrevista, disse que hoje convivo mais com mortos do que com vivos. Sim, tenho muitos mortos que sempre me visitam e comigo conversam. Não estou falando de espiritismo ou qualquer coisa de valor religioso; estou falando de memória, afeto e afinidades intelectuais e artísticas.

LANZILLOTTI: Bachelard escreveu, em A Poética do devaneio, que “Em sua primitividade psíquica, imaginação e memória aparecem em um complexo indissociável”; “[...] o passado rememorado não é simplesmente um passado da percepção. Já num devaneio, uma vez que nos lembramos, o passado é designado como valor de imagem”. Diante disso, podemos dizer que sua poesia, assim como a de outros poetas, tem raízes no pictórico? É possível diferençar recordação e imaginação?

ESPINHEIRA: Por que pictórico? Já na resposta à primeira pergunta, falei da fabulista memória, do que trata também gente como Bachelard, Proust e Borges. O que a memória não é mesmo é um retrato, pois sua natureza ficcionista está muito mais para recriação e até criação. Assim, a memória é uma contadora de histórias, muito mais um oceano em movimento do que uma pintura. Nunca achei que a memória me abastece com fatos — mas que, de maneira suave ou tempestuosa, amorável ou cruel, conta-me seus contos de Xerazade, em alguns dos quais sou o herói ou o vilão, ou apenas um pobre diabo que perdeu a oportunidade de ser feliz...

LANZILLOTTI: Em várias ocasiões sobressaem poemas em que o espaço fúnebre é utilizado como reflexão sobre a validade do estar vivo, já que todos caminham para o fim. Qual a relação entre a temática da morte e sua poesia?

ESPINHEIRA: Já disse que a morte é nossa angústia maior. Conscientes dela e não encontrando uma explicação para a vida, muito menos um sentido — tirante o sentido que damos a nós mesmos com nosso trabalho, nossos princípios, nossos sonhos etc. —, impossível evitar tais reflexões, questionamentos, perguntas dirigidas aos céus e aos abismos. Como sou poeta, é sobretudo na poesia que visito tais temas. Saio deles perplexo, sem certeza de nada; mas nunca disse, como Manuel Bandeira, que a vida não vale a pena e a dor de ser vivida. Aliás, o mesmo Bandeira escreveu que a vida é um milagre. E eu já falei das magias... E, se há magias, vale a pena, sim.

LANZILLOTTI: São muitos os casos de poetas que também são exímios prosadores; entretanto, uma parte de suas produções acaba suplantando a outra. Poucos sabem, mas Ruy Espinheira Filho é um profícuo escritor de prosa, com várias publicações. Há diferença entre ambas as escritas? Os temas de suas novelas e seus romances são os mesmos dos de seus poemas?

ESPINHEIRA: Escrevo prosa quando é prosa que me sopram as musas. Sou mais conhecido como poeta, mas a prosa está abrindo também seu lugar. Tenho até um prêmio nacional de romance — o Prêmio Rio de Literatura, pelo qual fiquei em segundo lugar (foram três premiados), em 1985, com Ângelo Sobral desce aos infernos. Recentemente, Um rio corre na Lua, que lancei em 2007, ficou entre os semifinalistas do Portugal Telecom. E meu último romance, De paixões e de vampiros: uma história do tempo da era, de 2008, foi considerado uma pequena obra-prima pelo crítico Wilson Martins, do Jornal do Brasil. O grande problema, neste país, é que o poeta não tem o direito de ser romancista — e vice-versa. É mesmo um complexo sul-americano, segundo Júlio Cortázar. Quer dizer: coisa de subdesenvolvido. O cidadão — e o crítico, o intelectual, até mesmo o escritor — vê um romance escrito por alguém que ele conhece como poeta e vai logo dizendo: “Um romance? Ora, mas ele é poeta...” E despreza o livro simplesmente porque é óbvio que o sujeito não pode fazer bem as duas coisas. Outra estupidez é comparar o romance do autor com sua própria poesia — em vez de compará-lo com outros romances, de outros autores, que é o que deve ser feito. Quanto às diferenças entre as escritas, há algumas, sim — sobretudo devido à mais longa duração de um romance e aos ritmos da prosa. Mas esta também vem das musas; é também misteriosa em sua origem. Quanto aos temas, creio que não há diferenças — são os do cotidiano...
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Luciano Lanzillotti (lmlanzillotti@gmail.com) é pesquisador de doutorado da UFRJ e autor de tese sobre as obras de Ruy Espinheira Filho e Manuel Bandeira. Publicou o poema Eu escrevi cartas de amor na edição #25 do jornal Plástico Bolha e agora vem nos agraciar com esta bela entrevista para Blog do Bolha, pelo qual somos muito gratos.
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terça-feira, 21 de abril de 2009

Lançamento do Retorno ao Oriente em BH!

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O Hussardo e a Suicída, por 'Os 7 Velhos'...

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Um cadáver esquisito bebe vinho
Espiando uma mulher que se mata.
Mas não é que ela me vê?
Pronto! Agora, que devo fazer? Comprá-la?
Pois tudo que há passa pelo consumo
De todas as coisas sugo o sumo
Ou apareço e fundo a cena vazia
Onde ruminam os caracóis na entrada
(Um hussardo mirava o homem no chão)
Eu desisto de continuar. Não, prefiro cessar.
Correntes estéticas afastem-se de mim!
Nem o sim, nem o ar, nem o brilho de mil sóis.
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Lucas Viriato
Mauro Rebello
Paulo Gravina
Raïssa Degoes
Luiz Coelho
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Este é um sincero poema de buteco, escrito a 14 mãos num guardanapo barato. A brincadeira é no estilo dos jogos surrealistas de escrita em que cada um escreve um verso e dobra o papel passando adiante para o próximo. Assim, escreve-se sem conhecer os versos anteriores. No final, procuramos a melhor forma de assinar esse poema: Os 7 Velhos, em homenagem aos nossos amigos 7 Novos...
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Novo ponto de distribuição PB em Curitiba

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O Plástico Bolha acaba de fechar parceria com mais um ponto de distribuição em Curitiba, PR. O proprietário da livraria Arte & Letras, Thiago Tizzot, se interessou pela publicação e entrou em contato conosco para passar a receber o jornal por correio e redistribuir aos seus clientes.
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Thiago também indica a Arte e Letra: Estórias, revista impressa que edita. Quem quiser pode conhecer um pouco mais no site: www.arteeletra.com.br/estorias
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ARTE & LETRA
Al. Pres. Taunay, 40 - dentro do Lucca Café. Tel: 3039-6895
Curitiba - PR - Brasil
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quinta-feira, 16 de abril de 2009

CLIQUE AQUI: Mergulho no mundo clássico!

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Uma biblioteca digital de acesso irrestrito, que pretende registrar a história da humanidade, com foco no mundo greco-romano, dedicando-se, ainda, a diversos outros temas. O conteúdo do site é em inglês. Um mergulho no mundo clássico, por meio da mais moderna das ferramentas!
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para ver um homem tocando um oboé

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primeiro procure uma janela atravessada por raios de sol.
aproxime-se e encoste uma das mãos sobre o vidro
(não importa qual, o importante é escolher uma das mãos)
aproxime também teu rosto, de modo que tua respiração
possa embaçar o vidro, se quiser
agora aperte bem os olhos, como se estivessem ofuscados
pela luz
não feche os olhos
pense em Elena. Elena.
espere alguns instantes

lá está ele.
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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Pus — novo poema de Felipe Ribeiro

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secretar flores arbitrárias
assim como as aranhas injetam teias,
líquido espesso amarelento,
bolha cutânea cheia de areia.
homem ambíguo,
ferida biforme,
corpúsculos de tecidos podres
e o amor que existe
da minha veia para a tua veia
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Felipe Ribeiro
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Análise: Sem sangue, de Alessandro Baricco

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Desde Dante, a literatura italiana tem se notabilizado por contribuir para com a tradição ocidental com grandes artesãos da língua, fazendo de textos lugares pulsantes da imaginação. Alessandro Baricco, nosso contemporâneo, não foge à regra. Autor muito conhecido no Brasil por Seda, romance de época, a meu ver deveras insosso, pode ser muito apreciado por Sem sangue — um thriller.

Novela que deixa o leitor sem tempo pra respirar, com uma narrativa muito próxima ao cinema, composta por muitos acesos e inquietantes diálogos que tangem o pulsante olho do ciclone da interioridade humana, sem grandes devaneios psicologizantes, somente a partir dos extratos que os personagens ofertam em seu contato, nada inorgânico.

“— o senhor não é cego — disse.
— o que disse?
— o senhor não é cego, não é mesmo?
O homem começou a rir.
— não, não sou.
— é curioso...
Por que eu deveria ser cego?
— bem, os vendedores de bilhetes de loteria sempre são cegos.
— é mesmo?
— talvez nem sempre, mas muitas vezes... acho que as pessoas gostam que eles sejam cegos.
— em que sentido?
— não sei, imagino que tenha a ver com aquela história de que a sorte é cega.
A mulher falou e depois começou a rir. Tinha uma bela risada, fresca.”
(pgs. 44 e 45)

Baricco tange a conturbada atmosfera da interioridade humana afetada pela guerra em interessantes recursos de evocação de memória, ao contrário de um lugar comum que nos fez acostumar com autores que se aplicam em pinçar nos olhos do leitor uma ou outra lágrima. O leitor já enfadado com a enxurrada de romances sobre o assunto, sobretudo em função de nosso último século, encontra uma grata surpresa, que põe em questão a estrutura íntima do trauma, sem muitas elucubrações filosóficas, mas com uma narrativa fluida, intensa e que surpreende por não adotar soluções fáceis ao que se impõe. Vale a pena se demorar, no máximo uma hora (pois a leitura não passa disso), com uma novela que prima pelo virtuosismo de um escritor que “não inventa”, mas põe em xeque o mais do mesmo da produção contemporânea.
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Cozinhando em banho-maria

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Vamos sonegar inspiração
Pois. Que todos mastiguem;
Por que não mudar de mesa?

Banquetes de gente a devorar
Complôs que não foram comprados
Permanecem genuinamente ingênuos.

O sabor original raramente provado
De tão simples e efêmero
Bate na alma como um punhal
E nos revira ao avesso.
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Bruna Piantino
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LEITURAS ESPARSAS: com Décio Nazareth

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São João Del Rei, Minas Gerais, 10 de abril de 2009, Sexta-feira da Paixão. O céu estava estrelado, a lua cheia, e um ar com cheiro de velas se espalhava na cidade. O chão fora coberto de tapetes com imagens sacras. As casas geminadas tinham suas portas abertas, as senhoras, crianças, maridos, esposas, turistas e quem mais podia se escoravam nas janelas num ritual típico. Eu me encontrava em uma dessas casas após a tradicional procissão, em que mulheres da alta sociedade local, todo ano é assim, estavam recebendo familiares e amigos ilustres. Claro que eu não era nem convidada, nem ilustre. Meu objetivo era ser uma bolha insólita naquele ambiente; afinal, minha mais nova missão era encontrar um entrevistado para o Blog do Bolha. As únicas coisas que eu tinha eram um gravador escondido na bolsa, uma taça de champagne na mão e um prazo fatal. Em frente à chapeleira, esperando a bandeja com camarão à milanesa, encontro a pessoa que estava procurando: Décio Nazareth, economista e jornalista de Belo Horizonte que, num mineirês inconfundível, se aproximou para uma conversa. Entre receosa e ansiosa armei meu gravador sem saber o que perguntar. Sabia apenas que deveria recolher uma conversa sobre leitura, tema da minha coluna. E não tive dúvida; estamos repletos de leitores espalhados pelo mundo, com vontade maior ainda de compartilhar suas experiências com as palavras, sejam elas lidas, ou escritas.

Décio: Sou economista, e jornalista também. Escrevo colunas de economia para economistas, mas o que me dá alegria é escrever crônicas. Inclusive publiquei dezenas de colunas sobre economia no Estado de Minas, e não havia tanta repercussão. Um dia eu escrevi uma história de crianças com a professora Elvira Montenegro, mãe do cantor Oswaldo Montenegro. Ela dava um tema na aula, depois pedia aos alunos para escrever. E escrevi uma crônica sobre os dizeres das crianças.

Camila: Como foi?

Décio: A professora contou a história de Romeu e Julieta e foi perguntando para as crianças: vocês morreriam de amor? Como é na história de Romeu e Julieta... Aí uma criança respondeu “Cai na real Tia!”.

Camila: Ninguém morre, ninguém morreria de amor hoje em dia! O senhor morreria de amor?

Décio: Se eu morreria? Eu morreria de amor pelos números!

Camila: É sééério? Mas não... Me fale agora um pouco das suas crônicas, você sempre gostou de escrever ou começou a partir do trabalho com a professora Elvira?

Décio: Eu sempre gostei de escrever...

Camila: E sempre foi um ótimo leitor?

Décio: Leitura é comigo mesmo. Não saio de casa, sem pelo menos ler durante duas horas, o que for, livros, revistas... Gosto de ler pela manhã, antes de ir para o trabalho sento e faço uma leitura. Então um dia resolvi escrever uma crônica e minha filha gostou muito, ela era pequenininha, tinha uns doze anos, aí ela falou “Escreve mais pai!”. Aí eu animei e escrevi um livro, é mais gostoso, mais descontraído do que escrever sobre economia, me deu um prazer! Esse livro que escrevi Trens que eu guardei, está inclusive, esgotado.

Camila: A leitura pode significar uma coisa diferente para cada um, para mim é tipo uma cura, onde encontro muitas respostas e perguntas também. Agora tem gente que está à procura apenas de uma boa história contada... enfim, pode ser que eu esteja falando uma grande bobagem... Mas me diga, o que significa a leitura para o senhor?

Décio: Ah, a leitura é tudo! É tudo! Eu não conseguiria viver sem leitura...

Camila: Não?

Décio: Não! É um aprendizado que você faz no seu dia a dia. Você aprende coisas fantásticas, coisas maravilhosas! É um constante aprendizado. Quando eu tinha quinze, dezesseis anos, meu sonho era ser preso e ficar numa cela cheia de livro, só para ficar lendo! Não tem telefone para atender! Eu queria é ficar com os livros! Porque o livro é uma viagem!

Camila: É verdade!

Décio: Hoje em dia vejo que a concorrência com a internet é muito grande, mas mesmo assim, não consigo ficar longe dos livro!

Camila: E nem consegue ficar longe da calculadora!

Décio: Calculadora dá sim, calculadora estressa...
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terça-feira, 14 de abril de 2009

FOTO-BOLHA: o PB vestindo a camisinha...

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Até a boca, um texto de Alexandra Wiltshire

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Até a boca, as garrafas estavam cheias, para matar. Sede até a alma. Acreditei em mim mesma, que encheria três garrafinhas para deixar ao lado do computador, para matar a sede sem me levantar, enquanto estivesse trabalhando. Mas sou uma pessoa que enche três garrafinhas por um motivo, e depois uso de outro jeito. À noite, antes de ir dormir, levei uma para o quarto; depois de manhã, ao sair para a faculdade, levei outra na bolsa, deixando apenas uma sobre a mesa do computador. Agora posso parecer uma pessoa menos interessada em ordem. Até que então... A sede bateu. Neuroses até o pescoço, palavras até a língua, garrafinha ao alcance dos dedos... Mas medo. Não quis bagunçar a beleza daquela garrafinha cheia, filha única, bela. Cheíssima, até a boca. "— Cadê as outras, já bebidas?" Rolou um medo de instaurar o caos naquela garrafa tão em paz. Porque se as outras já estavam pela metade, faria mais sentido terminar o líquido daquelas antes (não é?). Mas eu estava com sede agora, e as outras estavam longe. E o propósito era não me levantar. Esse é o mesmo princípio de ter várias roupas lindas que eu amo, todas guardadas no armário, e que tenho pena de usar porque vão gastar. (Mas gente, não é para gastar mesmo? A água não era para matar a sede? As roupas não são para me deixarem bonita, bem arrumada, como gosto? Para que esse monte de dedos com as coisas? Para eu morrer, e as coisas permanecerem como uma lembrança "do que um dia poderiam ter sido, e que não foram".) Abri a garrafa e bebi. Mas que culpa de perturbar aquela paz. A sede morreu temporariamente, mas as questões transbordavam na minha cabeça.
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Alexandra Wiltshire

O almoço e a indigestão de Luiza Vilela

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Indigestão

Alguma coisa naquele café
cheirava a tardes de outono
e folhas espalhadas pelo chão.

(ou talvez fosse a saudade
finalmente escapando de seu
tórax hermeticamente vedado)

Girou a tampa assim mesmo
e por muito pouco não
vomitou o próprio coração.
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Lunch

Something in the pea and ham
soup got her thinking about floaty
dresses and warm afternoons.

(or maybe it was just anxiety
finally sneaking out of her
hermetically sealed chest)

She took off the lid
anyway, and nearly
threw up her own heart.
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Luiza Vilela

segunda-feira, 13 de abril de 2009

FUTUROS ESTOUROS — Banda ARMADA!

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Após duelarem com dezenas de bandas — aguerridas e iniciantes — os rapazes da banda ARMADA se renderam ao público eufórico do Teatro Odisséia no final de março. O grupo carioca venceu a edição 2009 do festival de bandas independentes, intitulado Duelo do Saloon 79, na categoria voto popular.
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Formada há menos de um ano, a banda ARMADA transita por vários estilos musicais, como o rock, o hip-hop, e o funk, porém não veste nenhum rótulo estético dessa inusitada miscelânea contemporânea. Para os rapazes, ficar num só estilo significaria não explorar todos os outros que também os influenciam, e que compõem o que eles conhecem por música popular brasileira.
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Com letras engajadas — ferozes, mas contundentes — a banda fala dos problemas sociais e políticos do Brasil, empunhando microfones e guitarras rasgadas numa mistura de consciência e crítica à sociedade brasileira. Num país onde sobreviver já é uma batalha diária, os rapazes se preparam para uma invasão cultural, visando acertar em cheio o coração dos ouvintes.
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Para conhecerem o QG da banda, acessem o seu myspace.
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Jornal Plástico Bolha rodopia pela UERJ...

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Hoje, os ansiosos leitores da UERJ finalmente receberam as suas edições do Plástico Bolha. Além das mesisnhas nos andares, quem quiser pode encontrar o jornal nas diversas xerox da faculdade.
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Sete anos, um poema de Alice Sant'Anna

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ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco
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depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes
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até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão
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Alice Sant'Anna é uma grande autora do Plástico Bolha, que, no ano passado, lançou seu livro Dobradura, considerado um dos melhores do ano. Hoje, ela possui uma coluna no jornal, as dobradinhas, que sempre trazem a autora em um diálogo poético com outro escritor. Na edição #25 foi com Ismar Tirelli Neto e na próxima será com Armando Freitas Filho. Alice também possui um blog mais do que recomendado: pra não ficar na gaveta.
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domingo, 12 de abril de 2009

ESPELHO MEU, um texto de Cesar Cardoso

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Aos domingos, gosto de passear nas Lojas Americanas. São tantas ofertas, tantos produtos, embalagens, prateleiras... E é tudo pra mim, pra mim.
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Um dia ainda faço uma loucura e compro aquela manteigueira de inox. Como brilha a manteigueira de inox. Dá até pra ver o meu rosto nela.
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Cesar Cardoso
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CLIQUE AQUI: Roteiros Cinematográficos

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Se a sua praia é roteiro de cinema, está tudo lá: livros, softwares, grupos, notícias, lista de roteiros para download, cursos, serviços, entidades, notícias sempre atualizadas e... concursos! Garanta sua entrada, vale o clique!
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Xerazade: mulheres-damas de Nicole O'Hara

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Tecelã das noites
Das mil e uma inutilidades...
Fez das letras seu banquinho de forca
Sustentando os mitos
Sua vida resumida a
Sussurrar ao pé do ouvido.
Junto com o poderoso Xeriar
naquelas noites de frio
dos excessos de xis
— há quem veja um trocadilho.
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Nicole O´Hara
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Nicole O´Hara chegou até o jornal Plástico Bolha através de sua amiga Ana Chiara, professora da UERJ. Hoje em dia, ela está (que chique!) em Paris, onde cursa o doutorado em Literatura na Sorbonne IV. Este poema sobre a princesa Xerazade, sua estreia na coluna Mulheres-Damas da edição #17, é, sem dúvida, um dos clássicos do bolha!
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sábado, 11 de abril de 2009

Curva de rio sujo, de Joca Reiners Terron

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“Eu escrevo para esquecer”, assim Joca Reiners Terron começa a escrever o prefácio de seu livro de contos Curva de rio sujo, com uma falsa carta ao leitor, que, cheio de expectativas, responde do outro lado: “Eu leio para lembrar”. E inicia-se o jogo da leitura, com um leitor impaciente em busca de um autor, de um sentido, de um todo em um mundo literário e opaco, terrível, quase impossível porque construído nos meandros da linguagem e talvez — para quem quiser se aventurar — da imaginação.

Os contos de Terron traem o leitor, justamente como aquela mulher da nossa vida que vivemos conhecendo, porque sempre rompem com as expectativas. Eles se aproximam e se afastam, beijam, fazem beicinho, reclamam, assustam, deprimem, viajam e até ensaiam um orgasmo — como na narrativa poética “Inverno à sombra de uma asa”.

E o leitor os acompanha, brinca, joga e se apaixona por algo que não existe. “O pior cego é o que quer ver”, disse Guimarães Rosa, Samuel Beckett ou Nelson Rodrigues. E, querendo ver o que não está lá, ele começa a enxergar a si mesmo. Dessa forma, qualquer leitor consegue chegar à resposta de uma questão que sempre me inquietou: como algo que não existe pode incomodar tanto?

Hoje eu responderia que o irrepresentativo acaba causando um retorno e uma nova compreensão da realidade; que a pobreza da completa falta de sentido só pode ser compensada por um sentido absoluto, como se os dois extremos — Deus e o nada — de repente se tocassem. Poucas experiências são tão religiosas quanto a morte de Deus e a leitura do livro de Terron acaba funcionando como uma terapia de choque do real, como uma maneira de conhecer a luz através das trevas, como tomar um banho em uma curva de rio sujo.

Por isso, neste livro Terron é um autor literariamente impecável e, por esses e outros atributos, seus contos merecem ser lidos — e lembrados.
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Joca Reiners Terron nasceu em 1968, em Cuiabá (MT). Escritor, designer gráfico e editor, estreou na literatura em 1998 com Eletroencefalodrama, livro de poemas que também marcou a criação de sua editora, Ciência do Acidente. Publicou os romances Não há nada lá (2001) e Hotel Hell (2003), além dos poemas de Animal anônimo (2002) e as narrativas de Curva de rio sujo (2003), editado no Brasil e em Portugal, e de Sonho interrompido por Guilhotina (2006). Seus textos já foram publicados na Itália, nos Estados Unidos, na Argentina e no México. Ele é um dos destaques da próxima edição do jornal Plástico Bolha com o conto O último vagão some, os trilhos e a música.

Sétimo Dia, um poema de Raïssa Degoes

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Anunciaram que você morreu.
E eu pensando que era só sono.
Li pra você o verso que me deu
À mesa, vazio ficou seu trono

Hoje, nós abrimos os seus armários,
Desocupamos todas as gavetas.
No fundo, estavam vinhos centenários.
Pra mim, guardei duas das camisetas.

Seu neto está lindo com seus ternos.
Na cama, a espuma ainda o guarda.
Saudade dos seus discursos eternos.

Anunciaram que você morreu
Já é tarde e o mundo todo segue.
O mundo todo, menos eu.
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Raïssa Degoes
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sexta-feira, 10 de abril de 2009

Versão de três poemas de Paulo Leminski

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Day of Nonsense
I light my cigarette
At an incense

Dia sem senso
Acendo meu cigarro
Num incenso


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So romantic
My pacific point
Is at the atlantic

Tão romântico
Meu ponto pacífico
É no atlântico


***


Never make the same mistake
Twice
I do it two three
Four five six
Until the mistake learns
That only mistakes have turns

Nunca cometo o mesmo erro
Duas vezes
Já cometo duas três
Quatro cinco seis
Até esse erro aprender
Que só o erro tem vez
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Fillipe José Diniz
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

The Boy Who Went to the North Wind

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Boy, who had been shopping for his mother, was coming back home full of bags in his arms when North Wind took them all away. "Now what? How can I explain it to Mother?" he thought.

Cross Boy then went to North Wind to complain about what had happened. "My surname is Wind and I am supposed to blow," said North Wind. "I will give you a magic tablecloth. Whenever you are hungry, say 'lay the table' and there will be plenty of delicious things to eat."

Boy was on top of the world with his present and anxious to show it to Mother. Since Sun had gone to bed, though, he decided to stay overnight at the inn. In his room, he laid the magic tablecloth beside him and said "lay the table." Cake, samosa, chocolate, ice cream, and marshmallow were avidly and gladly eaten. Boy then went to sleep. Meanwhile, Hotel Owner could not resist only staring at the magic tablecloth; he had to steal it and replace it with an ordinary tablecloth. And so he did.

The following day, Naive Boy was anxious to show his Mother the magic tablecloth. "Mother, Mother! We have plenty of food for a lifetime!" he exclaimed. When Enchanter Boy did his performance for Mother, though, there was no magic at all.

Angry Boy then went to North Wind to complain about what had happened. "I gave you the magic tablecloth, am I mistaken?" inquired North Wind. "I will give you a magic monkey. Whenever you need money, say 'money, monkey;' and there will be plenty of gold to spend."

Boy was on top of the world with his present and anxious to show it to Mother. Since Sun had gone to bed, though, he decided to stay overnight at the inn. In his room, he placed the little monkey beside him and said "money, monkey." One thousand golden coins now glittered before his eyes. Boy then went to sleep. Meanwhile, Hotel Owner could not resist only staring at the magic monkey; he had to steal it and replace it with an ordinary monkey. And so he did.

The following day, Naive Boy was anxious to show Mother the magic monkey. "Mother, Mother! We have plenty of gold for a lifetime!" he exclaimed. When Enchanter Boy did his performance for Mother, though, there was no magic at all.

Cross Boy then went to North Wind to complain about what had happened. "They are making a fool of you," warned North Wind. "I will give you a magic walking stick. Whenever you are in danger, cry out 'help, I need somebody!', and don’t you dare bother me again!"

Clever Boy, who was not a fool at all, was on top of the world with his present and anxious to show it to Not-So-Clever Thief. When Sun had gone to bed, though, he decided to stay overnight at the inn. In his room, he placed the magic walking stick beside him, waiting for the right time to say the magic words. Clever Boy then pretended to be asleep. Meanwhile, Hotel Owner could not resist just staring at the magic walking stick; he had to steal it and replace it with an ordinary walking stick. And so he would...

"Help, I need somebody!," Endangered Boy cried out. Magic Stick got revolted and POW, POW, POW! on Hotel Owner's head. Magic Boy then, empowered by his magic walking stick, recovered all his magic stuff: the magic tablecloth and the magic monkey. Only then Boy could go back home yelling with joy "Mother, Mother!"

Poor thief...
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Adaptação do conto popular “O menino que foi ao vento norte”
(In Bia canta e conta, 1990, Ângelus/Independente).
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Gabriel Matos
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Gabriel Matos é um dos incansáveis revisores do Plástico Bolha e adaptou esse conto para uma Oficina de Língua Inglesa. Pela excelência de seu trabalho, Gabriel também passou a fazer parte do Conselho Editorial do jornal e oferece grande ajuda na composição das edições.
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Deusa do vento, um poema de Natalia Guerra

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Para onde vais?
Surge inquieta, leve
beija tudo com sua brisa
esvoaça, rodopeia, dança
bate as asas com frescor
solene e plena
é majestosa na sua frivolidade
queima os olhos dos homens
que insistem em contemplá-la
fixa.
Ela é tudo, menos imóvel.
Para onde vais?
Com um sopro,
esvaece.
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Conto: Um Belo Movimento No Escuro

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Eu não sei. Não sei mesmo. O que se passa é palavra escondida. Incógnita. Durmo e acordo sem saber.

Ao anoitecer, passo sempre pela área, espiando de relance o céu daquela hora. Olho as estrelas, como quem espera a salvação. Como quem espera o dia em que, ao abrir a porta, a espera vira ontem. Amarga espera de quem espera o doce.

Parece que lá no pé do dia o gosto vem. A impressão é de que todo minuto de dia tem broto de flor dentro. O problema é achar o regador. Fica escondido, com medo da muda nascer errada. Como pode?!

Acho mesmo que nunca vou saber o motivo. O porquê desse desequilíbrio quando ando na rua e sinto cheiro de livro, de palavra. Faz com que me lembre, sempre, sempre e, muito sempre, desse sorriso quebrado que me faz chorar. Desse olhar que corta e cura ao mesmo tempo. É que, de certa forma, isso é o que preenche o marasmo do saco de estopa. Vazio ele não pára em pé. Nem eu.

Aí vem um poema, uma música, um morango, um texto, um filme e um nó. Assim, tudo aomesmotempomeatropelando! E me deixando louca de novo. Que é sempre pior que da primeira vez. Quando se endoidece a primeira vez, o grito e a angústia têm um frescor de pão quentinho. Nas vezes seguintes, é pão dormido. E a garganta aperta mesmo, parece que não passa nem uma agulha.

Vai ver que estou grudada. Sou a asa do bule que quebrou e depois de colada pareço mais nele do que antes. Meus sentimentos passaram cola no verso e abraçaram meu coração de tal forma que... que... que nem sei. Não sei, não. Eu disse no início que não sabia.

E a cada fronha, uma esperança. Oração para que desta vez o sonho não assuste. Ou que não se acorde daquele tão delicioso mergulho no fundo do mar, de mãos bem dadas e plenitude no peito. Mas a fronha insiste em ficar quente no verão, e aquela agonia de calor vai subindo, mudo de lado, viro, dobro, e ela esquenta. Ah! Se as fronhas ficassem sempre geladinhas no verão...

Não perco a mania de me imaginar melhor do que sou. Imagino-me sempre mais feliz. Mais confiante. Mais segura. Lá no futuro, que é depois da curva de laranjeiras, me vejo bem. Calma, plácida. E tem sempre alguém do meu lado bem caladinho. Em silêncio. É como se a gente estivesse conversando por horas. Com cara de quem sempre esteve ali.

Outro dia, meu, eu me disse que eu preciso gostar mais de mim. Mas não consigo entender o significado dessa frase! Não sei o que é. Acho difícil essa questão. Nunca é onde acho que deveria ser. Vivo errando de lado. Aí ele sussurra e fala “pára de fingir que está gostando, porque, se estivesse, não precisaria falar uma palavra. A sensação de prazer tomaria conta por si só e transbordaria seu coração para fora.” É... tem razão.

Mas eu só queria dizer que só sei do hoje. E hoje, passo adiante.
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Patologia Social, poema de Erica Rammiger

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Eu só vi sangue,
Eu só vi mágoa,
Nos doces rostinhos:
lágrimas...
Nas mãos.
Mas são só crianças
Com o cálice das ruas,
Da vida que promete:
"A morte continua..."
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Erica Ramminger é aluna de Relações Internacionais da PUC-Rio e contribui para o jornal Plástico Bolha desde que começou a faculdade.

Domínio — uma bela poesia de Nadja Voss

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A uma série de tentativas
Frustradas nos conduz a vida,
Ou então as tentativas [e mesmo
a frustração] a vida em si seriam.
Seriam as quedas
Donas de todos
E tais propósitos,
Seriam as vagas
Donas de todas
As esperanças,
Seriamos nós
Donos do nada
......Tolos continuando alheios,
......Imersos em parcos sorrisos.
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Nadja Voss
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Nadja Voss trabalha conosco no jornal Plástico Bolha ajudando a selecionar o material a ser publicado. Contudo, esta é a sua primeira poesia publicada na Bolhosfera! Uma estreia tardia, mas com domínio poético!
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Lançamento: livro do poeta Leonardo Marona

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como a natureza, poema de Geovane Barone

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Ando com dúvida
Ando na rua
Ando na lua

Tenho fúria!

Sou fumaça pulmonar
Sou frio
Sou quente
Sou ar

O meu sorriso
na verdade
quer chorar.
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Geovane Barone
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terça-feira, 7 de abril de 2009

Análise: Uma autobiografia de Lucas Frizzo

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Hölderlin disse há tempos: Onde está o perigo, cresce também o que salva. Decerto, a perigosa linguagem de Botika nos salva da mesmice do politicamente correto e do risco de tornar a Literatura um espaço de panfletagem ética. Uma Autobiografia de Lucas Frizzo, livro de estréia do jovem escritor carioca, é provocador, pois possui uma radicalidade extrema, no sentido de apresentar numa linguagem despudorada o cotidiano nada ordinário de um inverossímil Lucas Frizzo. O leitor é colocado, página a página, no limiar entre o humor negro e o nojo e, em muitos casos, vê a si mesmo na delicada posição de espectador hedonista da crueldade, além de se reconhecer capaz de atrocidade e afeto, e que tudo que sucumbe faz parte do humano, e que é possível rir da condição finita que nos limita e, ao mesmo tempo, amplia.

Decidi usar minha mente que brilha e iria fazer de Malu Mader uma espécie de secretária esquizofrênica. Amputei seus braços e pernas durante o sono em que eu a mergulhei e agora ela apenas tinha cabeça e tronco. No dia seguinte comprei um cachorro labrador que eu sempre quis ter e ela acordou chorando e dava para ver que ela tentava movimentar os membros que não tinha mais, pois os cotocos que restaram estavam se mexendo. (pgs. 43s)

A arte de Botika imita uma vida que não existe sem causar ressentimento, mas que, intempestiva, resiste ao recalque que o status quo impõe e que permite que sobrevivamos uns aos outros. Sua escrita, nitidamente devedora de Guilherme Zarvos e José Agripino de Paula, tem um toque de originalidade em função de seu ritmo e vocabulário, além do desprendimento de sua narrativa, sem polidez vazia e sem teleologia definidora. Mas há uma juventude que o leva a ter certa inocência autoral, por não questionar o fato de sua escrita se colocar em um lugar de tanta inverossimilhança. Enfim, é uma interessante experiência ler o livro de Botika, que conta com capa assinada por uma de nossas colaboradoras, Raíssa Degöes.
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Novas fotos do Plástico Bolha no Orkut!

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Quem visitar o Orkut do jornal Plástico Bolha já pode encontrar um álbum de fotos repleto de novidades. Fotografias da festa de lançamento do jornal e do Bolhas em desfile já estão por lá e outros eventos ainda terão seus registros compartilhados nos próximos dias. Quem quiser pode visitar a página aqui!
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A PÁGINA — um texto de Arinaldo Sousa:

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A página refletia um nada. Mas que coisa sem graça uma página sem nada. Não cumpre sua função. Toda página precisa ter alguma coisa. A coisa é que lhe confere significado. Triste sina a da página. Nada significa em si mesma sem um quê que a preencha. Precisa de algo escrito, desenhado, algo que lhe dê forma, algo que lhe é transcendente, que lhe confira substância. Aí, uma vez ali, torna-se-lhe imanente. Andei pensando sobre a sina da pagina, quando deixei a minha em branco. Mas aí, a reflexão foi além. A sina da página é a mesma das pessoas, infelizmente. É preciso que aja uma roupagem, algo escrito, transcendente, que nos dê significado, juntando-se a nós, tornando-se-nos imanente. Fora disso, nenhum de nós é substancial. Somos meras folhas em branco, que não têm importância alguma.
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Triste sina a da página.
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Triste...
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Arinaldo Sousa
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Poética incidental, poema de Tiago Miçanga

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Desculpa essa a minha de fazer poema
Sem pedir licença,
Só sair assim escrevendo
Sem pensar num tema
Sem ter uma cena para me inspirar
Só saio direto como em logorreia:
Cuspindo as palavras de modo não aleatório
E sim satisfatório,
Pois mesmo que não queira
Mesmo que eu não tente
E até lute contra;
No final tomarei por min
E em fim terá outro lirismo para eu desvendar.
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Tiago Miçanga
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segunda-feira, 6 de abril de 2009

FOTO-BOLHA: verdadeiro refresco poético!

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A cidade em rewind, de Miguel Del Castillo

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Sentado de
costas no trem
a cidade
vai em rewind

todo caminho
é de volta.
Telhados e
diagonais

rasgam o céu
cinza de São
Paulo, traçam

minha volta
do Tietê
pro Paraíso.
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Miguel Del Castillo
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Miguel Del Castillo é editor da revista NOZ, cujo lançamento ocorreu no Planetário, na última quinta-feira, dia 02 de abril. Para o Bolha, ele deixa esses versos sobre suas idas e vindas na cidade de São Paulo. Quem se interessar em ler outros poemas do autor pode acessar o blog dele aqui.
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domingo, 5 de abril de 2009

TÉDIO — um novo poema de Ramon Mello

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quando o dia está
chato
faço poesia

quando o dia está
chato
faço poesia

quando o dia está
chato
faço poesia;pronto

mantenho o tempo
em cárcere privado

Ramon Mello
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Ramon Mello é poeta e jornalista. Publicou três poemas na última edição do jornal Plástico Bolha e agora vem nos brindar com este Tédio. Quem quiser conhecer um pouco mais de seu trabalho pode acessar seu blog ou o site Clique(in)versos, onde Ramon entrevista diversas figuras das letras.
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FUTUROS ESTOUROS: cantor Bipe Balbino

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O carioca Bipe Balbino, compositor, vocalista e ex-guitarrista da banda Zuquine, anuncia sua carreira solo depois de algum sucesso com o grupo em bares e casas de música do Rio de Janeiro. No primeiro disco, Bipe interpreta suas composições e as de outros estreantes.
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As influências vão do samba de raiz ao rock n´roll, passando pelo jazz e pela MPB, sendo visíveis a intensidade e a presença do samba-rock de Jorge Ben. Com sua voz estudada e uma técnica vocal afiada, o cantor alcança um nível interpretativo único, num timbre naturalmente forte, aveludado, com um estilo peculiar de suingue e feeling.
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Sem dúvida, em voo solo, Bipe terá êxito igual ou maior que o do trabalho com a Zuquine, num upgrade na música ao vivo das casas em que se apresenta. Para maiores informações, acesse seu profile no MySpace.
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CLIQUE AQUI: O Sindicato dos Tradutores

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O Sindicato Nacional dos Tradutores tem entre seus objetivos lutar pela remuneração digna do tradutor, pelo recebimento, pelos tradutores de livros, de direitos autorais, além de dar apoio aos profissionais nas suas questões com os clientes. O SINTRA publica uma lista de valores recomendados, que serve de orientação para quem contrata e para quem oferece serviços de tradução.
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sábado, 4 de abril de 2009

Condição II, poema de Constanza de Córdova

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Entre as coisas que sobraram desde que
Rodolfo partiu, estão: a caixa, o
laçarote azul e alguns cacos - o salto,
ele calculou mal, e o
prato (caríssimo, herdado da avó)
era de porcelana.
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Constanza de Córdova
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Condição, poema de Constanza de Córdova

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O nome era Rodolfo:
chegou numa caixa,
pequenos furos, laçarote azul.
Rotina de sol, pernas, alguma
caça. Tudo era chato e fácil, quase
óbvio: se espreguiçar de manhã
sob o sol amarelo, fixar o olhar
num ponto ao pé da escada, dormir
quatorze horas por dia.
O difícil mesmo
era se acostumar
com a condição de
gato.
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Constanza de Córdova
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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Andorinhas, belo poema de Luisa Noronha

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O sol se põe sobre a vila industrial
Raios tépidos amornam a tarde
E anunciam sem alarde
Passos incertos que instalam o caos:
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Vidas vêm
Vidas vão
Vidas vêm e vão
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Como a comprovar a noite que avança
Infinitas andorinhas corroboram sua dança
O vôo rasante despedaça todo o céu
Só resta a minha cumplicidade com o pôr do sol.
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Luisa Noronha
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Luisa Noronha estuda tradução na PUC-Rio e nos ajudou com a tradução dos poemas de Ricardo Sternberg para o jornal Plástico Bolha. Agora, ela retorna com esses belos versos sobre as andorinhas que pousam na transitoriedade da vida.
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