quarta-feira, 30 de março de 2011

MANIFESTO DA ARTE POR UM NOVO MUNDO

Por favor, enterrem o Rei!

Para que se entenda perfeitamente o que é a “Arte Contemporânea” é importante que se esclareça sua origem[1]:

- A Arte Contemporânea não é uma vanguarda como as anteriores a ela. Não é um movimento fundado por artistas. É uma moda [incapazes que são de formar um movimento artístico] fabricada por galeristas. Coincidentemente, são as exatas duas galerias que até hoje monopolizam o mercado de Arte internacional.

- A Arte Contemporânea surge imediatamente após a Arte Conceitual, que, vale lembrar, se opunha, exatamente, àquela dinâmica de mercado. A obra de Arte conceitual não assumia [ou não deveria assumir] uma forma vendável.

- Também pela primeira vez, a moda não rompe com movimento anterior algum [nem com o próprio Conceitualismo – que ela subverte].

E o que essas últimas décadas produziram?

Sobretudo o Sensacionalismo. Cresceu a ideia de que a obra de Arte deveria chocar o público [naturalmente: era o mais fácil a ser feito!]; de que qualquer coisa, deslocada para o espaço da galeria, do Museu, da sala de estar do especulador multimilionário, poderia assumir a altura de uma obra de Arte; de que o importante era a novidade, independente de que valor tivesse - quanto maior o absurdo, melhor.

Dessa forma, nós caminhamos do Erotismo para a pornografia mais baixa; do Trágico para o macabro, o doentio, a patologia; do Sublime para o niilismo mais estúpido e hipócrita. O Belo simplesmente desapareceu!

Exatamente para esse nicho – do Sensacionalismo – existe todo um esquema de contravenção onde o marchand (ou o agente ou empresário), o especulador e a mídia (afinal ela vive de anúncios!) cooperam para avalizar a obra do “artista” (arrivista) fabricado por eles. A fraude é elevada a categoria de “artista” porque foi negociada pela grande galeria ou comprada pelo grande colecionador ou lançada (fabricada) pelo grande emissor de rádio, TV, Internet ou porque protagoniza o “último escândalo” [como se o escândalo ainda fosse possível hoje em dia] ou, simplesmente, porque é a última “estrela” descoberta naquela semana – como se “grandes artistas” surgissem de quinze em quinze minutos. Esses não são artistas: esses são produtos!

Evidentemente, nem todos se dedicaram ao Sensacionalismo nos últimos anos. Alguns se dedicaram a inventariar o mundo – o que não é tarefa da Arte, sobretudo após a invenção da Fotografia; outros, de forma bastante louvável, ocuparam-se em denunciar os abusos políticos ou os excessos do Capital – cumprindo o papel do Jornalismo [que não o cumpre mais]; alguns insistiram na obra de Arte Conceitual, com pouco sucesso; muitos outros replicaram o que já havia sido feito (em um festival de copia-e-cola) e não fizeram qualquer contribuição à Narrativa Artística. A “Arte Contemporânea” [o termo, por si só, é ridículo – “contemporâneo” do quê?] parece feita para ser vendida como qualquer outra commodity.

Isso se resume às Artes Plásticas? Não. Tendo as Artes Plásticas como (então) narrativa-mestra, a Música, a Literatura, a Arquitetura, o Cinema etc. simplesmente adaptaram esse esquema nos seus campos.

Naturalmente, existem exceções, que, aliás, foram obrigadas a conviver com tudo isso. Caso contrário, poderia se declarar a morte da Arte – o que alguns fizeram.

Estamos aqui, que se apontem os verdadeiros culpados:

Antes, dois nomes devem ser limpos dessa lama que parte da Historiografia da Arte e da Crítica insiste em jogar sobre eles: Marcel Duchamp e Andy Warhol não são os precursores disso que aí está. Quem insiste nisso ou engana-se ou faz de forma mal intencionada, servindo a essa campanha da Arte do Mercado. Duchamp deu movimento ao Cubismo e foi Conceitual antes dos Conceitualistas – um artista que se dedicou exaustivamente a testes de limites na Arte (os readymades, por exemplo). E Warhol foi O grande crítico dessa Sociedade de Consumo e do Espetáculo que agora lhe estampa a obra em camisetas. Não pode ser tomado pelo oposto disso! O que a Crítica chamou de Pop Art não comporta uma anti-escola - só um nome cabe ali. Tudo o mais é deturpado ou é pastiche, cafonice artística.

Duchamp, Warhol, descansem em paz!

Os culpados? O maldito Dinheiro. Pela primeira vez, vendedores formaram uma moda artística. É exatamente naquele momento – quando galeristas formam um movimento artístico - que o Capital se apropria da Arte.

E a Crítica?

Poucos foram os que se levantaram contra isso que aí está. A crítica trabalhou, sim, e muito, para dar sentido ao que não tinha valor algum. Desde que ela mostrou-se incapaz de reconhecer a qualidade dos Impressionistas ou dos Modernos (e virou chacota), a fantasia de que tudo poderia (e deveria!) ter valor transformou grande parte desse grupo em meros carimbadores desse vale-tudo.

Um objeto com explicações impressas do que o marchand ou o artista gostariam (e impõem) que se entendesse sobre aquilo é nada. A obra de Arte [mesmo a Conceitual] deve bastar por si só. Se o público for obrigado a ler Freud ou Wittigenstein (e a adivinhar o que o “artista” supôs a partir deles), não se compôs uma obra de arte – na melhor das hipóteses um “objeto psicanalítico” ou um “artigo filosófico” – interessa a essas duas disciplinas. A Arte deve ser (tem que ser!) maior que isso!

Essa Arte do mercado é o império do fácil e do fútil. Não é possível que isso tenha passado despercebido! Passou porque a Crítica não tem mais qualquer juízo de gosto, do que tem qualidade. Um tubarão (ou uma ovelha ou um pato!) em um tanque de formol é só um objeto de muito mau-gosto (um animal morto, meu Deus!). Um cubo de espelhos com três páginas de explicações é só um cubo de espelhos com três páginas de explicações!

Não são capazes de estipular qualquer tipo de comparação, de atribuição de valor? Não é óbvio que devam existir artistas de maior ou menor expressão e não-artistas? O homem vive e pensa por comparações. Tudo o que a crítica não pode ser é niilista – no niilismo não existe crítica!

O Tempo - ele é melhor que todos os críticos!

O Artista

“Qualquer um pode ser artista” é uma verdade - não deve existir qualquer preconceito nesse sentido, mas a ideia de que qualquer porcaria é uma grande obra e o autor é um gênio artista é uma bobagem que só trabalha para esse Sensacionalismo do Mercado. O mesmo Mercado que fez crescer o absurdo de que a droga é combustível da Arte. O fato de vários artistas terem se declarado (ou se ter descoberto fossem) usuários não dá à Droga a autoria. Isso é uma má campanha – talvez porque boa parte do que aí está só ganhe algum sentido em uma viagem de ácido!

O traficante não é um mecenas!

E a academia insiste em rotular a manifestação artística como um processo absolutamente racional e cerebral, par do processo científico ou do matemático, semelhante a uma jornada de trabalho em fábrica na China. Isso é um crime: um jovem talvez demore anos para se recuperar daquilo. ou nunca se recupere. Grande parte da História da Arte é diálogo com o Metafísico.

Definitivamente: Entretenimento não é Arte. A indústria Cultural insiste nisso e a razão é bastante simples: “Arte é mais caro, freguês”.

O que forma um artista? Quem sabe? Mas estudo, prática, obra e talento (não necessariamente nesta ordem) são, todos, insubstituíveis. O autodidata não nasce sabendo, ele aprende sozinho. Não dá para lançar mais um “ídolo teen” cantando playback como se fosse um novo Mozart - quem ainda acredita nisso?

Há que se dissociar a obra da imagem do Artista. A pobreza da “vida da Celebridade” interessa aos curiosos, sustenta os paparazzi e vende revistas. Não há nada de artístico aí!

A triste verdade é que a “Arte Contemporânea” não poderia encontrar substituto melhor como retrato dos nossos tempos. Nesse sentido ela é absolutamente legítima.

O que a Arte fez nessas últimas décadas é um sintoma – assim como a nossa televisão, nossa publicidade, nossa Política...

Somos, sim, escravos desse capitalismo nocivo, opressor, sufocante. Nós nos tornamos, sim, uma sociedade sensacionalista, que atende – não aos nossos, mas - aos interesses desse capital que comanda tudo, a despeito de todas as outras liberdades. Somos, sim, viciados em drogas ou em ansiolíticos ou em compras ou em pornografia. O caminho não é mais o importante; o destino não é mais o importante; importa a marca do carro. Insistimos na guerra porque ela serve sempre ao capital. Dedicamos a vida humana à corrida pelo dinheiro – e excluímos a maioria que tem fome.

Fazemos, sim, a vida mais difícil e menos fértil todos os dias, em todos os sentidos. Vivemos entre catástrofes “naturais” e guerras. Destruímos o planeta! Os países se acham mais ricos, quanto mais petróleo conseguem extrair desse lugar – sem saber (ou sabendo) quais os efeitos disso.

Verdades? As verdades são expostas por um sistema de poderes! A inteligência serve ao lucro. Achamo-nos mais inteligentes quanto mais negamos a possibilidade de que exista uma Verdade - e desconsiderar o metafísico não é provar que ele não exista! A comida é enlatada, a informação é enlatada, a vida é enlatada! Tudo é automatizado, é repetitivo, é “programadamente digestivo”, é chato! Nada mais choca.

Estamos à beira do abismo e é impossível voltar! Ora, nós não temos que saltar – nós devemos construir uma ponte! É o capitalismo a única organização possível? É o dinheiro tão fundamental à vida humana como é o oxigênio? O homem não apareceu sobre a face da Terra pela primeira vez com uma carteira no bolso. [2]

A VANGUARDA – A ARTE POR UM NOVO MUNDO

Nossos políticos já perderam toda e qualquer credibilidade. A utopia de que a Economia poderia regular-se e formar um Capitalismo saudável caiu por terra – o Capitalismo progride piorando. As Ciências Humanas se ocupam do passado ou do que o homem faz no presente – não tem a habilidade de construir um Futuro. A ciência – heroína das últimas gerações – não salvou o mundo e não é objetivo dela fazê-lo.

A Arte, a expressão mais fantástica do homem, é a única disciplina de habilidade ficcional, criativa. [nesse momento, gosto de pensar que não à toa.] E não lhe faltam motivos para reinventar o mundo:

1. Porque o Capital aprisionou a Arte e precisamos libertá-la. (Quem mais o faria?)

2. Porque a Arte teve, (tem?) uma preocupação histórica com a verdade - e o dinheiro é um constructo.

3. Porque a Arte serve a ela mesma e/ou a todos – e nesse momento não existe forma melhor de servi-la e à Humanidade.

Nesse meio tempo, nosso desafio é fazer o dinheiro trabalhar para a Arte [e assim, pelo mundo] e não a Arte para o dinheiro.

Naturalmente, a concepção de uma nova Ordem não se faz e aplica em sete dias. Esse movimento coletivo – de compor uma organização humana melhor, mais inteligente e, um dia, pôr fim ao dinheiro – pode durar décadas, séculos. Este, aliás, pode ser um exercício contínuo, a despeito de novas vanguardas.

Esse belo futuro é absolutamente inimaginável agora. E, infelizmente, a primeira geração desses artistas talvez veja pouco dessas ideias postas em práticas. [A vida se encarregará de imita-los – farão quando isso parecer o melhor a ser feito].

Façamos por nós, pelos próximos, para o Bem! O futuro nos será grato!

Todos os suportes são possíveis. Todas as cores são possíveis. Nada deve ser impossível à Arte!

Ergamos com nossos livros, nossas telas, nossa música, nossos filmes, nossos prédios, nossos passos... um Mundo absolutamente NOVO.

Diogo Dupree

Rio de Janeiro, 30 de Março de 2011.



[1] Nesse sentido, há bibliografia disponível mais do que suficiente.

[2] Não tomem a Vanguarda por Comunista! O Comunismo apenas transfere o capital do privado para o público [no caso, para os que assumem aqueles governos]. A história já mostrou que a fantástica iniciativa de Karl Marx [que, aliás, denuncia esse Capitalismo já em 1848] rapidamente, assume formas de Totalitarismo. Os que eram mártires tornaram-se algozes. A missão da vanguarda deve ser diferente disso.

Um comentário:

camila disse...

Gostei muito do seu texto, apesar de notar uma fúria que não tenta compreender a necessidade da humanidade ( inclusive da arte) de afundar nesse abismo, para depois reiventar-se de outra forma. No futuro veremos que essa fase de transição não é completamente medonha, mas sim carente e triste. Está na hora de nos chatearmos verdadeiramente com essa visão materialista da vida. Sugiro apenas que faça uma versão menor para que vc possa espalhá-lo por aí. Vc pode não gostar da ideia, mas para que ele cumpra sua missão nesse nosso mundo ( o contemporâneo!) precisa fazê-lo acessível e adivinha? Claro, mais compacto!!