quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Fica acordado


Desenvolvimento de ideias potencialmente doutrinadoras. Algumas comparações com animais, tal como nas fábulas, porém com um cunho de dominação. Porque animais possuem uma imagem que confere o aspecto real, a assim chamada verossimilhança, a qual parece ser nessa contemporaneidade um pré-requisito quando se fala em formação de rebanhos. Pois gênese de uma relação servos-mestre não é mais aceita fora de quatro paredes.
A liturgia. Continua crível, mesmo com a proliferação de personalidades eclesiásticas. E surpreende a capacidade das pessoas em acreditar nas múltiplas corretas interpretações de um só fato. Surpreende por não ser obra de David Lynch, quiçá se passe em Marienbad. É um tido fato. Posso gritar sobre esse fato, e assim ganho um programa vespertino na televisão ou uma igreja. Se chacoalhar muitas cabeças, quem sabe um monstruoso templo sem arquitetura?
                Falo mal, falo bem, mas passo a caixinha e jamais forço colaboração. Financeira. No céu não há árvores, no céu não há metais. Carência das matérias-primas, por isso mando dinheiro pronto direto para lá. Tão populoso o céu, uma densidade demográfica incrível. E ainda a alta concentração de ozônio. Sob essa ótica, dez reais não são, é. Pouco, quase nada. Um lado com mesquinhez, o outro não envia preciosidades para a terra: sem chuvas ácidas, raios, inversão térmica, tempestades tropicais, tornados. Fiquem fadados ao tédio.
                Fica acordado que sou um deus. Sou estéril, mas te criei. Sem ajuda de mulher alguma, afinal na minha terra o atípico é a heterossexualidade. Somos homens apenas. Cada uma de nossas costelas é uma semente sem solo para crescer. Onde há solo, as sementes germinadas são enclausuradas louvando meu nome. E sem coroinhas. O nome vem da admiração às coelhinhas, confesso. Interessa-me a ideia de morar num local repleto de criados submissos e passivos. Então a coloquei em prática.


Pedro de Carvalho

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Lançamento do livro "Meus Encantos"



Lançamento do livro "Meus Encantos", de Carolina Michels, hoje, às 20:00 horas na Livraria Argumento, Rio Design Barra. Av. das Américas, 7777, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Poesia jornalística


Esposa.
No automóvel.
Espúrio.
Pedindo.
Seu.
Amplo.
Abono adicional.
Adiou para depois.

Todavia.
Aconteceu.
Atualmente.
Concomitantemente.
Com cerca de.
7  pessoas.
Carentes.
Fé de mais.

Se acaso isto fosse
Texto jornalístico
Noticioso
- objetividade, simplicidade
clareza, concisão, precisão
e interesse público -
Não serviria para
Nada.

Mas é poesia
Jornalística.

Jargão.
Adjetivação.
Juízo de valor.
Anfibologia.
Conclusão. 
Rebuscamento.
Verborragia.
Banalidade.
Cacofonia.
Parcialidade.

Interesse
Do Público.

Lide
Prolixo...


Hugo Pernet 


A peleja da voz com a língua





Numa Ciro sempre vale a pena! Temporada curtíssima, às terças e quartas, de 22 de outubro a 18 de dezembro, no teatro Cândido Mendes, rua Joana Angélica 63, Ipanema, Rio de Janeiro, RJ.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Se liga no ritmo!




No próximo domingo, dia 27 de outubro, acontecerá o lançamento dos livros "Ritmos brasileiros" e "Ritmo é tudo", de Ricardo Elia. A parir das 16:00 horas, na Livraria Cultura do Fashion Mall, São Conrado, Rio de Janeiro. 


Rotação


Ver sentimentos vãos

se esvaírem pelo vão
do esquecimento.
Que os vis se vão
e as virtudes venham

Deanna Ribeiro


Deanna Ribeiro é colaboradora da cidade de Olinda, Pernambuco. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Aquilo que eu era sozinho



Quem nunca morreu não sabe


O fim daquilo que eu não era
Ou a mentira de que vivo.

Arrisquei quase nada
Como quem pisa no paralelepípedo
Fingindo ser abismo.

Escorreguei distraído
Em olhos que não reconheciam
Aquele corpo de coisa alguma
Envelhecido no pedaço de vidro.

O resto era o risco
De ser aquilo que eu era sozinho.


Leleco

Lançamento do livro Tessituras e Tramas



Lançamento do livro da nossa amiga de Plástico Bolha, Ianê Mello, acontecendo agora no Boteco Salvação. Endereço: Rua Henrique de Novaes, 55 - Botafogo. 

Arqueologia


Nem mesmo a mais remota pista de uma sirene no background do desenho de som de alguma cena de algum filme de alguma época que já pudesse ter visto. A vida não cabe num tubo de ensaio, ela pensou. Quem dera os elementos pudessem ser balanceados como numa xícara de café – para uns, mais fraco, para outros, mais forte, mas sempre a mesma composição de pó e água que já se espera. Vale pelo laboratório!, alguns disseram, com citações a dicionários, receitas de bolo, progressões aritméticas. Mas a moça – ou já era um tamanduá? – não ouvia nada. Entre folhas e gravetos, camuflada, à espreita. Foi então que, no ímpeto da caça, em busca de qualquer formiga, desenrolou um emaranhado de arame com suas patas, as unhas crescidas atrapalhando um pouco, e preparou uma arapuca. Ou ela, ou eu, cogitou ainda. E mesmo já não sabendo quem era quem, lançou a armadilha, e pescou uma pedra em que estava inscrita a imagem de seu rosto.




Ana Costa Ribeiro tem texto publicado na versão impressa da edição #26 do jornal Plástico Bolha.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Poema de Chloe Paisley


Me dá a chave, por favor
Do seu reino interior.
Dorme, dá-me, dama dormindo —
Não se preocupe com que estou descobrindo.


Primavera dos Livros 2013



O evento Primavera dos Livros 2013 ocorrerá entre os dias 24 e 27 de outubro, nos jardins do Museu da República. O Museu da República fica na rua do Catete 153, Catete, Rio de Janeiro, RJ. Para mais informações: http://www.primaveradoslivros.com.br

Faça parte do Plástico Bolha


Quer ver o seu texto no blog ou na versão impressa do Plástico Bolha? Nós estamos abertos à produção de todos, da prosa ao poema, passando pela charge, a crônica, a crítica e o ensaio. Temos o maior prazer em dar visibilidade a todo material que não encontraria repercussão nas mídias tradicionais e, para isso, contamos com a sua colaboração. Envie-nos o seu material através de nosso site: www.jornalplasticobolha.com.br, na sessão "envie seus textos". Estamos aguardando os novos Machados, as novas Clarices, ou só você mesmo! Participe!

Império do sono


Vive nesta ocasião subterrânea a criatura sonâmbula que faz da noite o dia inteiro e das oportunidades, travesseiro.



Sob os seus domínios, o ofício discreto da respiração e o olhar fixo num qualquer lugar, a ponto de dissecar a anatomia insuficiente das coisas quando não incomodado pelo ruído da vigília.

Então, o conhecedor de rostos anônimos, esse companheiro ausente de luzinhas turbulentas, diálogos inaudíveis e pernas inquietas que percorre ao sabor das estações o meridiano de destinos, lembra: “a vida fará salsicha dos seus sonhos”. Era o que diziam, era o que queriam dizer.

Mas as palavras que são ditas evaporam facilmente e até se condensarem em nuvens das quais se alimenta, percorrem um longo caminho num tempo inimigo que foi torturado até a morte sem lhe dar uma resposta.

Janina Daou

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Deitado em uma rede


Sentir

O cheiro da grama molhada
O balançar da rede
O som da água caindo

A mente se distanciando
As leves batidas do pé direito na parede
Um frio no estomago vazio e satisfeito

O acender de um cigarro
O resto do gosto de café na boca
O ardor das lágrimas no olho

As noites maravilhosas
Amigos para sempre
A glória

Para sempre incongruentes
Psicose emancipada que emana das vísceras
Memórias de uma menina

E sentir de novo

O entardecer
O pesar das pálpebras
O vazio da mente
A rede ficando mais lenta
O pé não mais tocando nada
Um breve segundo de morte

O fim da chuva



Luiz da Franca tem texto publicado na edição #32 do jornal Plástico Bolha.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

De lá pra cá


eu quase nada sei sobre
esses homens do deserto
que decerto também quase
nada devem saber sobre mim

portando joias de marfim
eles de turbante montam
elefantes gigantes viciados
em amendoim enquanto
eu de manhã pego atrasado
o ônibus lotado do motorista
elefante viciado em música ruim

e nada de serpente saindo da
cesta ou passear de camelo
aos sábados o máximo que
se consegue adquirir do
continente asiático por aqui
é uma esfiha do habib’s ou
um kibe mal temperado
  
e pra quem disse que no
Brasil não se fazem Oasis
como em Cholistão basta
visitar o Rio quarenta graus
e experimentar a sensação
de ser um grão de areia
em estado de sublimação

namastê não mais que mil
e uma noites por um real
e no final da programação
um jantar com Ali Babá e
seus quarenta ladrões na
sacada do Copacabana
Palace e um cálice de
Masala Chai entre as
refeições (e pros sultões
de Brunei um gole ou três
de caldo de cana caiana
antes de cair na cama)
  
eu quase nada sei sobre
esses homens do deserto
que vêm de longe a pé em
caravanas só pra ouvirem João
Gilberto e Mutantes enquanto
comem o acarajé da baiana 
com caipirinha de manga.

Camillo José



Camillo José é de Recife, PE, e colaborador do Plástico Bolha.

domingo, 20 de outubro de 2013

Participe dos desafios poéticos do Plástico Bolha!


Na atual edição do Plástico Bolha o Desafio Poético era escrever sobre o esporte nacional, o Futebol. Você conferiu as poesias publicadas? São gols e mais gols, repletos de poesias. Veja todas no link: http://www.jornalplasticobolha.com.br/pb33/desafiopoetico.htm e participe das futuras edições da coluna.

sábado, 19 de outubro de 2013

genética — poema de Lucas Viriato


do corpo
do rato
pro corpo
da gente

um pulo
do gato

Lucas Viriato



Lucas Viriato é poeta e editor do jornal Plástico Bolha. Este poema faz parte de seu último livro, "Corpo Pouco", lançado em 2013.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Entrega do 5º Prêmio Paulo Henriques Britto



Aconteceu ontem a entrega do 5º Prêmio Paulo Henriques Britto de Prosa e Poesia, organizado pelo PET-Let da PUC-Rio. O evento ocorrido no Laboratório de Artes Cênicas revelou os vencedores (que se inscreveram com pseudônimos) e deu a oportunidade para que cada um lesse seu texto. Em breve revelaremos os autores e obras vencedores, e os publicaremos na bolhosfera. Parabéns à todos que participaram!


Plástico Bolha encontra com jovens no Horto









Na última quarta-feira, 16/10, Lucas Viriato e o Plástico Bolha estiveram presentes na Associação de Assistência ao Adolescente, em conversa descontraída sobre a Índia e a figura do jovem escritor hoje. Muito obrigado à Rosi Trindade e todos que ajudaram na organização, e, principalmente, aos alunos, interessados e participativos durante todo o evento! 
        
Alunos folheiam o Plástico Bolha!

Eco Performances Poéticas



Com a proposta de criar um espaço aberto a novos nomes da poesia e romper com os modelos tradicionais de sarau literário, acontece nesta sexta,18 de outubro, a partir das 19h, no Museu de Arte Murilo Mendes, mais uma edição do Eco Performances Poéticas.

Nesta edição os convidados são os poetas Ismar Tirelli Neto, Bira L. Silva e Anelise Freitas, que lança seu novo livro O tal setembro.  

Integrante da organização do Eco, Anelise Freitas apresenta poesias autorais em seu segundo livro. O trabalho conta com poemas escritos a cada dia do mês de setembro. Ao todo 30 poemas gravados em folhas soltas, que podem ser lidos de forma não linear, estão presentes na publicação.

O poeta carioca Ismar Tirelli Neto, finalista do concurso “Contos do Rio” (O Globo),  se apresenta pela primeira vez com poesias de seus livros Synchronoscopio (7Letras, 2008) e Ramerrão (7Letras, 2011). O poeta se destaca como um dos nomes mais autênticos da poesia brasileira contemporânea.

Completando o grupo de convidados, Bira L. Silva participa do evento com a apresentação performática de "O Corvo", de Edgar Allan Poe.

Após as leituras dos poetas convidados, ocorre o tradicional microfone aberto, momento no qual o público interage subindo ao palco para realizar leituras de poemas, sejam eles autorais ou não. A programação conta ainda com a exibição de vídeos poemas. A trilha sonora desta edição fica por conta de Tiago Rattes.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Plastico Bolha e a juventude carioca


Hoje, às 14:30, a convite de nossa amiga Rosi Trindade, a equipe do Jornal Plástico Bolha participará de uma conversa com jovens na Associação de Assistência ao Adolescente, no Horto (RJ). Conversaremos sobre livros, o processo de criação e aproximando os jovens da figura do escritor.Para equipe do jornal é sempre um prazer estar junto das novas gerações. Fotos em breve!


Sorria


    Naquela manhã andava tudo em alvoroço dentro dele. Acordara com um sussurro que o fizera gritar de medo, “Libertas Quæ Sera Tamen”. Julgou ter flagrado um rabicho do eco, que rapidamente desapareceu numa fissura da parede do quarto como se fosse uma lagartixa. Apesar de ter ouvido, nitidamente, “Libertas Quæ Sera Tamen”, desconfiou que seu inconsciente tivesse algum problema de dicção e adaptou a frase ao que lhe pareceu fazer sentido: “Liberta que serás também”. Tinha que fazer algo a respeito. Afinal, não era todo dia que ouvia vozes.
Na verdade, ouvia vozes o tempo todo: A televisão loquaz, as pessoas no ônibus, a buzina histérica dos carros na rua, e a irmã; única sobrevivente da família, que ele visitava duas vezes por semana no hospital (segundo o médico, ela não resistiria por mais um mês à doença implacável, uma orquídea irremovível de tumores que se instaurara em seu organismo e que se alimentava de vida). Mas uma voz de dentro, assim, tête-à-tête consigo mesmo, cheia de sonoridade e convicção foi a primeira vez que ele ouviu: “Liberta que serás também”. Como nunca soube o que fazer da própria vida, resolveu acatar a ordenança interior:
 - Olha, Ana Clara, eu acordei com isso na cabeça. Uma frase tão bonita deve ter um significado. Pensei muito antes de vir aqui hoje. Você não me tolera desde a adolescência, não me suporta nem mesmo agora, quando venho te fazer uma simples visita. Por que não gosta de mim? Por que faz essa cara? Você não pode me acusar de ter sido um irmão frio. Lembra como eu era carinhoso? Lembra que às vezes você chegava em casa chorando sem me dizer o motivo e mesmo assim eu me compadecia e chorava também e tentava te abraçar e te morder? E meus beijos e lágrimas não beiravam a volúpia, de tanto amor? O que eu recebia em troca? A mesma careta indisfarçável de nojo que você faz agora. Pois a partir de hoje decidi ficar em casa e ter notícias suas apenas pelos médicos. “Liberta que serás também”. É isso aí, libertarei você da minha presença; embora goste muito da sua companhia e de passear pelos corredores deste hospital, que tem uma ótima máquina de café e enfermeiras solícitas que tratam os enfermos com tanta dignidade, não dispensando um sorriso amistoso a nós, parentes, que nos sentimos, assim, um pouco melhor acolhidos neste ambiente de paredes frias e luzes brancas. Pode comemorar sua liberdade. Assim espero me libertar também, nem sei de quê. Quem não quer ser livre? Eu também quero; embora nada me prenda. “Liberta que serás também”.
  - Seu idiota. “Libertas Quæ Sera Tamen” está em latim e significa: “Liberdade, ainda que tardia”. Tem a ver com os Inconfidentes, Tiradentes. Burro. E essas enfermeiras que você tanto elogia riem da sua cara o tempo todo e você nem percebe. Outro dia uma delas, sim, essa de cabelo curto por quem você mal consegue dissimular sua paixão ridícula, veio me perguntar qual é o seu problema. Entende? Queria saber se você é perturbado! Essa expressão de melancolia e esperança que você se esforça para simular, franzindo a testa e apertando os olhos toda vez que ela passa por nós, um James Dean calvo e enrugado de 51 anos, não transmite nada além de cansaço e pena. Não à toa, ontem, depois que você foi embora, escutei as enfermeiras às gargalhadas: “Cruz credo, quem gosta de pau velho é cupim”. Digo isso porque sou sua irmã e quero o seu bem, não suporto ver alguém se expondo tanto ao ridículo. Essas roupas amassadas e desfiadas que você deu para vestir agora, em vez de transmitirem um estilo libertário e transgressor; denunciam, até para os mais ingênuos, que você está desempregado e sem dinheiro. Quando as pessoas veem um homem da sua idade usando uma calça jeans rasgada, elas não pensam: “Olha, que cara despojado e moderno. Não. Elas imaginam que você foi atacado por um cachorro, ou que caiu e se machucou ao descer do ônibus. Não percebe? Preste atenção: Ninguém se perfuma tanto assim para ir de dia a um hospital, ainda mais esse perfume doce que você deve ter pegado da nossa avó falecida, capaz de matar um diabético à distância. Mas faça o que quiser, só digo isso porque quero o seu bem.  
    Assim os dois se tratavam. É claro que ele não deixou de visitá-la, queria ser o último a insultar, mas sempre recebia o contragolpe, o que estendia a batalha fraterna. Ambos se irmanavam na provocação e no insulto. A irmã vivia o criticando por ele nunca ter se casado, tido filhos (sendo que ela mesma nunca engravidou), acusava-o de ser infeliz de nascença, inepto social e desprovido da capacidade prosaica de ter e de dar prazer. Para Ana Clara, o mundo era tão injusto; pois ela, que sempre fora bem-sucedida – tinha uma carreira, era advogada de uma grande empresa, e, não fosse a doença, provavelmente teria se casado com Romualdo, com quem namorou por sete anos. Sim, ela, que pelo menos vislumbrara a felicidade como algo tangível no futuro, morreria inexoravelmente em breve, já o irmão... Ana Clara nunca completava as reticências, segura de que ele preencheria a lacuna do discurso interrompido da pior forma possível. Invariavelmente o irmão saía devastado do quarto com cheiro de éter, tentando esconder a raiva, a dor e a humilhação, principalmente da enfermeira de cabelos curtos, por quem, de fato, se enamorara. Quem via aquele ser encurvado, de olhos esbugalhados e úmidos caminhando pelos corredores do hospital pensava que ele sofria por testemunhar a vida da irmã se esvair rapidamente; ninguém imaginava que o irmão sentia na alma os golpes recebidos numa batalha feroz, e que remoía vinganças.
    Há muitas maneiras de se vingar de uma irmã em estado terminal sem que se pareça cruel. Uma delas é saber que a mana querida adora, desde pequena, bombons Sonho de Valsa, e dizer que comprou duas caixas, mas:
- Cadê meus bombons?
 - Comprei duas caixas como havia prometido; mas lembrei que o médico disse que açúcar não é recomendável. Juro que comprei, estão lá em casa. Quando você sair daqui...
 - Porra, eu não vou sair daqui, eu vou morrer!
 - Não fale assim, maninha, sempre há esperança.
Outra boa desforra é pedir emprestada a câmera profissional do ex-namorado dela e fotografá-la nesse estágio, vela derretida no leito do hospital, irreconhecível, uma boneca do Farnese de Andrade cheia de escaras na pele e a morte no coração quebrantado, que mal tem forças para protestar:
 - Não.
 - Olhe para cá, sorria, por favor, sorria. Você não tem o direito de privar as pessoas que te amam de guardar uma recordação. Deixe de ser boba, vou tirar apenas duas cópias, uma para mim e outra para o Romualdo. Ele está noivo, você sabia? Mas jurou para mim que nunca vai esquecer você. Sorria. Sorria.
    Naquela mesma tarde, enquanto aguardava a revelação da foto numa lojinha de rua, recebeu uma chamada no celular: Ana Clara havia morrido. Foi para casa feliz por ter conseguido chorar com sinceridade. Fez até uma espécie de santuário em homenagem à irmã dentro de uma gaveta do armário. Abriu as caixas de Sonho de Valsa e os espalhou no fundo, deitando a foto da irmã por cima.
    Todas as tardes, solene, ele abria a gaveta e, embora não gostasse de doces retirava um bombom e puxava lentamente as duas extremidades da embalagem de plástico cor-de-rosa. O bombom girava sobre o próprio eixo como se fosse um planeta gay, antes de ser desvelado. Deixava o chocolate derreter na boca, sem mastigar, enquanto olhava para o retrato da irmã, tentando, sem sucesso, sentir-se culpado por ter sido o último a desferir um ataque. Aquela cerimônia era quase religiosa, uma espécie de eucaristia em homenagem à Ana Clara.
    Foi numa dessas cerimônias que veio a pontada. A dor era inconfundível. Uma orquídea crescera dentro dele. Os avós haviam morrido disso, os pais, os tios e a irmã. Aceitou sem dramas o próprio destino, até com certo alívio: “Liberdade, ainda que tardia”, pensou. Procurou pela casa uma escova de dente, pijama, sabonete, cobertor, sandálias; pôs tudo dentro da mala e partiu de bom grado para o hospital, com a certeza de que jamais voltaria. Aliás, quase voltou, ao constatar que havia esquecido o pente, depois sorriu do lapso: “Coisa mais inútil, daqui para frente”. O médico perguntou se ele preferia quimio ou rádio, como quem diz: “Escolhe a balinha”.
    No hospital passava os dias pensando na família que não teve, nos filhos. Como seriam? A orquídea crescia na proporção em que ele definhava. Sentiu uma solidão atroz, antes pelo menos se distraía nos embates com a irmã. A irmã! Claro, como podia morrer e deixá-la esquecida na gaveta do armário? Implorou que trouxessem a fotografia de Ana Clara. Que ficassem com os bombons, podiam pegar o que quisessem na casa, podiam até ficar com a casa desde que lhe trouxessem o retrato.
    Naquela manhã andava tudo em alvoroço dentro dele, um alvoroço diferente, o último. Acordou com um sussurro: “Senhor, me pediram para lhe entregar essa foto”. Tudo em alvoroço, seu corpo agora era uma estufa perfeita onde muitas orquídeas grassavam. Apesar da vista embaçada, conseguiu identificar a enfermeira de cabelos curtos entrando no aposento, estendia-lhe uma fotografia. Era a primeira vez que ela fora escalada para ficar naquele quarto. Quando viu o paciente, irmão da irmã, todo carcomido pela doença, ela, apesar de acostumada com o sofrimento alheio, não conteve a lágrima:
- O senhor era tão bonito.
 - Pensei que você me achasse velho e perturbado.
 - Velho? O senhor era um gato, cheguei até a comentar com a sua irmã. As outras enfermeiras brincavam comigo porque eu corava cada vez que você aparecia.

Ele olhou para a foto da irmã, e ela sorria. Sorria.


Thiago Picchi



Thiago Picchi ficou em primeiro lugar na categoria prosa do 4º Prêmio Paulo Henriques Britto de Prosa e Poesia, organizado pelo PET-Let da PUC-Rio. 
Lembramos que no próximo dia 17, quinta feira, às 17:00 hrs, será a entrega do 5º Prêmio Paulo Henriques Britto, na Laboratório de Artes Cênicas (LAC) da PUC-Rio.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Uma noite em III tempos


Daquelas coisas que lhe rendiam o respeito temporário de alguma gente, apartou-se em uma noite de verão pleno, desatou seu bote e remou.
À tardezinha, a visão do porto se parecia à de pinturas renascentistas do paraíso, com pilares de luz descendo do céu até as águas. Nesta hora, passada a tormenta, por ali não se avista viv´alma. Os marinheiros e estivadores já se haviam recolhido, exaustos, em casa ou n´algum canto, saciados ou passados na cana. A cidade era escura e a ponte não estava. Pássaros da altura de anjos sobrevoavam o farol. Não se ouvia senão assobios da tormenta que lhe esperava, e os ecos de gritos e gemidos vindos das margens. Corre a lenda que pertenciam aos primeiros amantes desta terra, enfeitiçados pelo espírito dos índios que negavam a salvação. E que passavam a madrugada escondidos naqueles pântanos, torturando-se em devaneios carnais.
Certamente não imaginava relatos, fugas heroicas, retornos triunfais. Estas não eram coisas suas. Sem ardor se olhava a si mesmo, não mais que nos dias de missa ou de festança. De todo não era ranzinza. Sorria com frequência, de coisas que não se entendia bem. Casou-se algumas vezes. Mas era só com seus pensamentos. Seu cachimbo de horas vazias, de muitas horas...Dizem que tinha cisma com frases. Frase escrita em tudo quanto é papel. Às vezes à faca na mesa da oficina. Às vezes até no próprio corpo.
Noutra rua da cidade, chovia. Pisavam firmes os sapatos. Os passantes abrigavam-se sob as marquises. A um lhe ocorreu um café, a outro um conhaque. A maioria ocupava-se em danar o imprevisto. O relógio da Central do Brasil marcava seis em ponto. Reto feito uma lâmina. O vento veloz levantava as cortinas das casas. Fazia frio e trovejava.
Entre os homens de terno que vinham pela avenida, despontava um jovem singular. O único a optar pelo caminho desimpedido sob a chuva, pisando em poças. A tomar por sua cartola e as vestes negras sem medidas, bem poderia ser um artista, quiçá até mesmo um santo. Estava ensopado e convicto de sua imortalidade, e talvez nem tivesse onde cair morto. O que nenhum deles sabia, e nem mesmo o rapaz, é que àquela noite, a História da arte ocidental desde a Renascença até um quarto de hotel, o nomadismo urbano, as revoluções dos pálidos, as guerras intermináveis, o cinema, as praias do Brasil, existiam somente para ele e seu colete e seu chapéu que não existiam. Era uma noite de verão pleno e, dentro de algumas horas, amanheceria febril com o toque da musa.
Nesta mesma noite, em outro tempo, alguém toma a decisão e reescreve seu destino. Ela observava indiferente o café tremer dentro da xícara. Havia um dilúvio lá fora e uma fraqueza em suas pernas, em seu coração. Imobilizada, perdeu-se em sua própria região secreta e sonhou ver, por mera distração do tempo, as entradas e saídas de seu labirinto. Um mapa confuso de futuros possíveis rabiscados à mão. O café já escorria pelos panos e queimava de leve suas pernas. Bastou que deixasse a mesa e o mundo inteiro seria outro. A América já tinha luzes, mas a mata atlântica cresce por dentro da pele.


Guilherme Gonçalves



Guilherme Gonçalves ficou em segundo lugar na categoria prosa do 4º Prêmio Paulo Henriques Britto de Prosa e Poesia, organizado pelo PET-Let da PUC-Rio. 

Da desconstrução


1

Sabrina chegou em casa. Sentou-se na poltrona, tirou os sapatos e bateu a porta. Entrou, tirou os sapatos e atirou-os na poltrona. Entrou já sem sapatos, chutou a porta e deitou no chão. Não sei. Um retorno automático, não-racional e de fato cansado. Cansada do longo dia de trabalho, a longa solidão, a longa espera da vida. Ao menos era o que eu supunha. Pelos dois pequenos retângulos eu escrevia sua vida. Uma personagem vivendo no prédio da frente. Um apartamento ornamentado como a decoração interna de quem o habitava. Cortinas brancas, longas e lisas, lambidas pelo vento fresco a todo instante. Pequenas flores em vasos coloridos dispostos na varanda. Samambaia chorona, dependurada, pingando de suor da chuva. Aquele ambiente era a perfeita tradução de Sabrina. Sabrina que ao certo não lhe sabia o nome, mas o acreditava assim.

Hoje chegou visivelmente cansada, talvez estivesse aborrecida com algo no trabalho, ou o trânsito lento. Deitou-se no chão frio da sala entre livros e quadros. Cartazes de filmes, portarretratos. Folhas de papel soltas e uma outra presa à máquina de escrever. Chegou e deitou-se no chão frio. O tapete levara para lavar. De certo o buscaria amanhã. Ou depois. Ficou por muito tempo ali, e foi tirando o casaco, que dificuldade fazê-lo passar pelos ombros, assim deitada. Seria interessante projetar um casaco novo, diferente, que fosse ligado por fitas, uma na frente e outra atrás, unido apenas assim, duas mangas compridas de jeans. (Já posso imaginar seus dedos finos puxando delicadamente a fita verde e o peito inflando-se em liberdade. Bonito essas unhas rosas assim, com a fita verde). Já tirara a calça também.
Levantou-se e se olhou no espelho. Seu reflexo ali, emoldurado pelos pedacinhos coloridos, azuleijando-a. O rosto como um quebra-cabeça transparente que é preciso tocar para sentir os contornos de cada peça. Fechava os olhos e se via no quadrado. Um chumaço de algodão no lugar do cérebro. Algodão azul. Fofo, podia acariciá-lo, apertá-lo como se faz quando passamos xampu.
Abriu os olhos e estava com as mãos na cabeça.
Fez-lhe um carinho e observou sua face. Passando as mãos suavemente, sentindo cada poro, respirando. Abria e fechava os olhos. Imaginava-se. Sonhava, acordava. Boiando no fundo de uma piscina muito azul, abria os olhos e via somente os raios de sol encontrando a água. Gosto bom de cloro que fica nos dedos. Gostava de chupá-los depois do banho, lhe traziam essa lembrança d’água.
Abriu os olhos e novamente o espelho. De súbito olhou para a janela buscando o sol. Era noite escura mais eu. Ligou o som e foi tomar banho. Não sei se me viu.

2

O banheiro de Sabrina não era tão público, digamos assim, como sua sala e seu quarto. Havia somente uma janela, daquelas pequenas, onde eu conseguia ver o xampu apoiado no vidro. Era bem na direção do meu banheiro. Chegamos, algumas vezes, a tomarmos banho juntas. Esse sábado, de madrugada, vi essa luz acender. Como eu já estava há muito enrolando, fiz disso uma motivação para ir também ao chuveiro. Vi, entorpecida, quando suas mãos surgiram molhadas em busca do frasco. Demorava-se para tirar toda a espuma dos cabelos, eu via sua testa, e tinha a visão de seu rosto inteiro. Olhos fechados, boca um pouco aberta, respirando, ora enchendo-se de água, então cuspindo-a e o novo líquido a escorrer por seu corpo nu. Às vezes a ajudava a se ensaboar, passava a esponja com cuidado em suas costas, umas pequenas sardas travessas. A água esfriou de repente e despertando me vi sozinha. A luz na janela da frente já havia se apagado.

3

Confesso que passei um dia inteiro em casa a esperá-la. Algumas vezes. Como quando acompanhamos nossa novela preferida. Mas eu preferia a televisão da vida real. Aquela personagem era tão próxima a mim. Mais próxima que muitos dos poucos amigos com quem me relaciono. Talvez até mais próxima do que meu eu de mim.
Gostava de vê-la aos domingos, depois da feira. Chegava carregada de sacolas e perfumes. Adoramos cheiro-verde. E aipim. Pela manhã, cozida com manteiga e sal. Sabrina cozinhava pouco, mas intensamente. Fazer comida para si, preparar os ingredientes, esperar assar enquanto dança. Meu prato preferido foi bolo de chocolate com vestido branco ao tango. O cheiro do forno a envolvia da cozinha para a sala e seu corpo rodopiava de alegria. Era muito elegante e esguia. Uma bailarina não realizada. Talvez seus sonhos não coubessem em seu corpo. Talvez dançando se encontrasse. Cozinhando, escrevendo, deitando no chão gelado e atirando os sapatos. Sendo sonhada por mim.

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Recebia poucas visitas. Eu e ela. Em verdade a visitava todos os dias. Assim logo que o sol saía pela manhã. Sabrina tinha o hábito de dormir com as janelas abertas em noites quentes. Cobria-se com a luz do luar. E eu mal podia dormir. Nenhum sonho poderia alcançar a beleza daquela imagem, a cena preferida do meu filme mais querido. Seu corpo, dormindo, sonhava energias que me despertavam. Eu acordava, a olhava, e voltava a dormir até ser despertada por ela outra vez. E assim ao longo da noite. Durante o horário de verão.

Hoje levantei bem cedo, não queria continuar o pesadelo e acordei. Despertei dos sonhos de outra vida. Evitei a janela, não abri as cortinas. Mas de tarde, na impetuosa tarde, a chuva veio e com ela o frio, o vento, o medo. Tudo voava e precisei fechar os vidros. Escancarada em minha janela, braços abertos, peito erguido, olhei de frente e vi. Sabrina resgatando sua cortina e estendendo os braços, abaixando o vidro. Estava de batom, perfumada e bolsa pendurada. Sorriu. Para mim? Pegou as chaves na mesa e foi em direção à porta. Não vá, pensei. Sabrina!, gritei. Mas fez que não ouviu.


Aline Ferreira



Aline Ferreira ficou em terceiro lugar no 4º Prêmio Paulo Henriques Britto de Prosa e Poesia, categoria prosa, organizado pelo PET-Let da PUC-Rio.
Lembrete! No próximo dia 17, às 17:00 hrs, será a entrega do 5º Prêmio Paulo Henriques Britto, no Laboratório de Artes Cênicas (LAC) da PUC-Rio.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Tríptico


I. NOITE
Ou blues para Peim

Abre a tua cara, ri, naufraga
Na sepultura desta noite.
Deixa que a música te açoite,
Engole o arpão da madrugada,

Chupa o estalactite, o chicote
Frio do ar, música gelada,
O Blues que o som do trem apaga...
Dança, antes que a razão te afoite.

Pé ante pé, desce os degraus
Desta estação velha – Bauhaus –
Tanto barata quanto rara,

De graça... vida de palhaço;
Contorce em macarrão teu aço:
– Naufraga, ri, abre a tua cara.




II. AMANHECER
Ou semiose chinesa para Ezra Pound sorrir

Não sei pra que serve o ego,
esta di-visão, quimera
de-marcar “era” & “não era”,
ego ainda quando nego...

Que tal ver a forma inteira,
que o partido aparta, cego?
Sigo a ponte ao meio e rego
signos para a sementeira

de acordar acordos.  Rogo,
pois a forma FLOR aFLORa
demonstrando a estrada, agora...

Pura analogia.  Logo,
quem já for treinado em fogo
lerá   em vez de Aurora.




III. MEIO-DIA
Ou dissoneto de Rogério “Caos”

Tal como Shakespeare cantou Southampton.
Não.  Como Neruda quebrou as rimas.
Não.  Como Pessoa quebrou o ego?
Não!  Nem Petrarca nem Camões.  Já chega!

Quero um soneto de verdade, vivo,
que rime como um furacão demente,
que fale como o céu cuspindo gelo;
na primavera rime de repente,

cantando um sapo bobo de haikai
e termine faltando um quarteto

– ou não termine nunca, como o céu
e te arrebente de azul
e te arrebente de azul
e te arrebente de azul


Carlos Pittella-Leite



Carlos Pittella-Leite ficou em segundo lugar no 4º Prêmio Paulo Henriques Britto de Prosa e Poesia, organizado pelo PET-Let da PUC-Rio.
Lembrete! No próximo dia 17, às 17:00 hrs, será a entrega do 5º Prêmio Paulo Henriques Britto, no Laboratório de Artes Cênicas (LAC) da PUC-Rio.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

a fábrica de tecidos


a vida do casal
tem pouco com
as questões desmedidas

pouco a pouco é costurada
              como faz a aranha,
arquiteta genuína

são amigos
calculam o gasto no fim do mês
não praticam exorbitâncias

da teia no alto da coluna
             a aranha desce acrobata de circo
para o tapete parcelado em 10x sem juros

a vida do casal é franca
micro empresa de grandes projetos
já compraram o novo fogão

a sombra passeia no teto
              silenciosa planeja a teia
presença insuspeita nessa família  

as patas do ressentimento
               desejam ao casal maduro
a peleja dos intempestivos

pela chama dessa vela acesa
do casamento só restam cinzas
da viúva negra, inquilina intrusa.


Ana Salek


Ana Salek ficou em primeiro lugar na categoria Poesia do 4º Prêmio Paulo Henriques Britto de Prosa e Poesia, organizado pelo PET-Let da PUC-Rio.

Lembramos que no próximo dia 17, às 17:00, será a entrega do 5º Prêmio Paulo Henriques Britto, no Laboratório de Artes Cênicas (LAC) da PUC-Rio. 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

As múltiplas faces de Madame Satã


Lançamento do livro "As múltiplas faces de Madame Satã: estéticas e políticas do corpo", de Geisa Rodrigues, com prefácio de Ana Paula Kiffer e orelha de Marília Rothier

Plástico Bolha no Labirinto Poético


No último sábado, 05/10, o Plástico Bolha esteve presente em mais uma edição do Labirinto Poético! Dessa vez, foi na estreia do evento na Cidade das Artes, como parte da FLIZO (Festa Literária da Zona Oeste). Apesar do vento e do frio, a noite foi maravilhosa, repleta de artistas quentes e muita poesia! Agradecemos à organização do evento, esperamos aportar pela Cidade das Artes novamente em breve. O álbum de fotos do evento pode ser visto no link: https://www.facebook.com/labirintopoetico/media_set?set=a.355939917873566.100003726827829&type=3

Sigamos perdidos na poesia!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Soneto de quebra


às vezes como se fosse
outras vezes quase perto
os troços que a vida trouxe
os truques a céu aberto

os traços em movimento
na tela depois do almoço
e um soneto sonolento
fabricado osso a osso

passo a passo peça a peça
os pés após a cabeça
os braços saem dos ombros

as pernas saem das coxas
em ondas heterodoxas

quebrando em versos de escombros

Luiz Henrique


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

às vezes


às vezes somos todos peixes,
(ela disse lendo
um poema de Quintana)

abrindo e fechando a boca sem
dizer nada.

isso ela disse na saída do metrô,

alagados calçamento
e asfalto,

guarda-chuvas
com os cabos curvos, quase
anzóis,

segurando pessoas
afobadas,
se debatendo,

verdadeiros peixes

fisgados.

Rafael de Oliveira Fernandes



Rafael de Oliveira Fernandes é colaborador da cidade de Santana, SP. 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Ao caçar passarinhos

“Tudo é exílio. Tudo, exceto a poesia"
Dante Milano

um passarinho
(sistema singular)

é um voo sem palavras
- não pertence ao poema –
mantém-se estranho

daí ao caçá-lo
querer sê-lo;
e me aplumo
                     no poema

o voo que só é
                        sendo
às asas não se diz
- nós é que estamos dizendo

(colecionamos pássaros mortos)

o pássaro não se interroga
                não se publica
                não se pertence

tal qual o poema
que se pretende
voo em outras asas

mas vale a ele se ater
no que dele tenho
e a ele não posso me ter


nos resta então este jogo,
                             um voo do escrito:

entre o que me deixo
passarinho permanecido
e o que minhas asas

não sabem ao que bater

Flávio Morgado