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sábado, 3 de janeiro de 2026

2113


um dia eu sei farão
estátuas peroladas de nós dois
assim artistas claramente escuros 
no centro ardido das multidões estreitas
e seremos mais eficazes que todas as placas 
e mais abertos que todas as avenidas
porém entre os corpos muitos
somente nos amarão os
pombos que nunca
descobriram bem
onde se
depositar um voo
e outro.


Maíra F.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Cristal


Desabotoa-se por fim a cena
que se desenhava no baço
da janela do sonho (o sonho
é uma espécie de vidraça?)

e tudo o que se realiza vive
da necessidade, agora que
o motor do instante se agita
e vibra sua perfeição. Enfim,

vem à luz a experiência que
se vinha elaborando no laboratório
de algum andar do sonho (o sonho
é uma espécie de edifício?): o mar

nasce de amar, e — cristalinas — águas
sem margens usurpam a cidade,
arrastam inocentes. Os amantes
gozam. É justo que seja assim.


Eucanaã Ferraz

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

La ascensorista


la primeira vez que vi a teresa
fue hoy por la mañana cuando
bajé en el ascensor

cuando vi a teresa otra vez
fue hoy por la tarde cuando 
subí en el ascensor

no vi nada la vez tercera
bajé por la escalera


Lucas Viriato

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A vida nos encontros


Como uma labareda de fogo
Movimento em passos aleatórios.
Isso enquanto chama.
Enquanto onda não sou nada.
Nada definido pelo menos.
As ondas se cruzam,
se amam e tornam-se algo,
real, palpável.

Como alma e corpo imoral,
caminho na rua inexpressivo.
Andrógino até o próximo contato.
Até que uma nova onda cruze
minha potencialidade de tomar forma,
contorno, identidade, palavras.
Até lá sou puro som sem melodia.
Uma onda de gente, aleatória;
indefinida até o próximo cruzamento.


Dimitri Merino

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Da minha banda


da banda de Seo Tranca Rua
de Seo sete Encruza
de Seo Calinô
cheguei da banda de lá
molhada de chuva 
e trazendo uma flor
vim mordendo um sorriso
sabendo que o mundo
é feito de dor


Roberta  Attili

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Raça extinta


Onde está o meu poovo?
Eu não os vejo.

Nos programas de televisão.
Nas profissões liberais.
E nos comerciais.

Estão invisíveis?
Eu não os vejo.

Calaram sua voz?
Eu não os escuto.

Onde está o meu povo?
Será que estão nas favelas?
Onde, ainda nas senzalas?

Onde está o meu povo?
Eu não os vejo.


Rosângela Muniz

domingo, 23 de novembro de 2025

Alma Corsária


De tanto sono me baixa uma lucidez estranha
em que a amendoeira pousa, luminosa, rara,
sob o fundo escuro da noite meio baça
(cilíndrica, roliça, bizarra)
seu vulto verde acocorado sobre a água
da piscina que não tem um pensamento.

Eu sinto inveja dessas águas anuladas
tão plácidas, idênticas ao próprio contorno
enquanto eu mesma nem sei onde começo,
quando acabo
e sofro o assédio de tudo o que me toca.

O mundo ora me engole, ora me vara
e tudo o que aproxima me desterra.
Chorei, ao ver no chão da cela,
o botão arrancado na contenda,
os óculos pisados do escritor judeu.

Tenho um coração que estala
com o peteleco das palavras de Clarice.
Numa vila miserável na Bahia,
um negro lindo, lindo,
dança ao som do corisco
— e só me apaixono por casos perdidos,
homens com um quê de irremediável.

Mais de uma vez, imóvel, circunspecta,
vi abrir-se a máquina do mundo
sob a luz inclinada de Ipanema,
na Serra da Bocaina, no meio da floresta,
no alto da escada no topo do morro
por onde a moça sequestrada vinha subindo
debaixo das lágrimas do pai.

Mais de uma vez meu coração trincou feito vidro
diante da página impressa,
e sempre que a palavra justa vem tirar seu mel
de dentro da copa do desespero de amor.
Acredito, do fundo das minhas células,
que uma amizade sincera "é o único modo de sair da solidão
que um espírito tem no corpo".
Sim, eu acredito no corpo.

Por tudo isso é que eu me perco
em coisas que, nos outros,
são migalhas.
Por isso navego, sóbria, de olho seco,
as madrugadas.
Por isso ando pisando em brasas
até sobre as folhas de relva,
na trilha mais incerta e mais sozinha.

Mas se me perguntarem o que é um poeta
(Eu daria tudo o que era meu por nada),
eu digo.
O poeta é uma deformidade.


Cláudia-Roquette Pinto


(Essa é a versão do poema publicada no Plástico Bolha, n7, em setembro de 2006 e posteriormente publicada  na Antologia de Poesia Plástico Bolha em 2014. Confira o livro Alma Corsária, lançada pela autora em 2022.) 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Bembé da liberdade


Os pretos todos novos
Jogados à terra em flor
Foram aterrados aos poucos
Não como gente de valor

As ruínas do cais do Porto
O Valongo que se mostrou
Vem revelar um passado
que nos é constrangedor

São camadas e camadas
De terra, tempo, rancor
Tentativas e descasos
Pra se esconder o horror

Congo, Angola e Benguela
Pedra do Sal testemunhou 
A diáspora africana
Roma Negra Salvador

Ben Ben Bembé 
Dá licença que me vou
Ben Ben Bembé
Ben Ben Bembé
Vou tocar meu Agogô

Ben Ben Bembé
Ben Ben Bembé

Dá licença que me vou
Ben, Ben Bembé
Ben Ben Bembé
Vou pro Bembé bater meu tambor

A história permanece
Não prescreve uma dor
Deixa rastro sobre o lastro
Do chão em que se pisou

Hoje eu canto a minha graça
O meu credo, o meu valor
Não vou deixar barato
Qualquer preconceito de cor

Reafirmo a minha presença
Com toda glória e vigor
Grito forte, canto alto
Foi o Bembé que me ensinou


Osvan Costa

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Oxumaré


Senhor que une a terra
Suas cores incendeiam os céus
Céus e terra
Terra e céus
Serpentes que giram
Entrelaçam mundo 
Fio de contas amarelo e preto
Todas as cores são Suas são
Ri dos gêneros humanos
Feminino e masculino
Para Ele não há 
Apenas existir
Infinitamente
Cobrarcoíris
Apenas É
Arroboboi Oxumaré!
No fim do arco-irís
Tem riqueza
Quem é digno de ir lá?
E se tudo mudar
E se tudo muda
Deixe a roda girar
A vida é pra dançar


Guaiamum 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Um poema de Vic Torinno


Sempre disseram que preto não pode falar
Preto não tem voz
O preto que tem voz é sempre calado

Mais um sorriso preto apagado
Mais uma esperança preta tombada
Mais um corpo preto no chão
Mais sangue preto que escorre
Mais uma preta pra estatística
Mais um dos nossos mortos.
Descansa
Luz no teu caminho porque o povo de Aruanda te abraça e te ilumina
Descansa.


Vic Torinno

sábado, 8 de novembro de 2025

Prece de areia


Ogum Beira-mar
corre maré solta
traz faísca no olhar
quebra a louça

Ogum Beira-Mar
vem navegar
no fio da navalha
nos olhos de Mãe Iemanjá

Ogum Beira-Mar
vou contigo, não arrisco

caio no mar
vou navegar

Sétima onda
rajada de vento
Iansã no terreiro
na água e no mar

Dá passagem
Ogum Beira-Mar

Armadura prateada
búzio em flor
água salgada
na ronda da Calunga Grande
Seu Beira-Mar faz morada

Como bravos navegantes
de destino incerto
pedimos sua proteção
nos caminhos dos mistérios

Ogum Beira-Mar
vou contigo, não arrisco

caio no mar
vou navegar


Karina Gercke 

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Haicai de Verão


de infinitas lágrimas
e farelo de polvilho
são feitas as praias


Lucas Viriato

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Pranto


nada machuca tanto
(e gera mais espanto)
do que este curto corte
da fina folha em branco


Lucas Viriato

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Um poema de Isabel Diegues


intuo
tua boca
carnuda
dando
(doce
cena)
na maior
orgia
a língua
a alguém
enquanto
todo mundo
doido
duvida
da tua
aliteração


Isabel Diegues

sábado, 26 de julho de 2025

Saudade — poema de Manuelle Rosa


Saiba,
às vezes
a ausência da tua presença
me assalta
e quase me rouba umas lembranças boas...
umas memórias caras...
justamente aquelas que me farão mais falta.


Manuelle Rosa

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Espaços


Nos cadernos de faculdade
Os poemas
Lutavam
Por espaço
Entre as matérias
Minhas poesia
Nunca foi covarde


Fillipe José Diniz

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Esboço — poema de capa da edição do PB #30


                                                                                      ilustração de Angelo Abu



no pé do caderno
comecei a tracejar
esse caminho
quase acabado.

sonhei com rampas
e prédios incendiados
esbocei que era Nero.


Natalia Eme

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Drama — um poema de Catharina Wrede


Olhou a navalha com espanto e fez que
ia segurar o pranto mas num grito agudo
caiu na calçada dura com o vestido sujo de
lama e o rosto triste de choro cegando os olhos
com as mão trêmulas em lábios de súplicas
erguendo a cabeça pra ver o que era:
apenas o amolador de facas.


Catharina Wrede 

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Minas — de Ana Martins Marques


Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridentes
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais


Ana Martins Marques

sábado, 22 de março de 2025

Um poema de Numa Ciro


passarei a tarde toda
descascando cebolas
só pra chorar sem motivo


Numa Ciro