quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Cão de Asas



Sérgio Monteiro de Almeida



Sérgio Monteiro de Almeida é um poeta e artista visual, mora em Curitiba, Brasil. Investiga a poesia não convencional, independente do papel. Seu trabalho foi publicado no Brasil, México, Argentina, Portugal, Londres, Bélgica, Holanda e nos Estados Unidos. Destaque para as revistas Cult, Nicolau, Oroboro, The Lost & Found Times, Plot, Rampike (University of Windsor), La Manzana Poética, Fleursdumal magazine for art & literature, Candido, Relevo. PVs expostos em vários locais do mundo: 51° e 53° Bienal Internacional de Veneza (Ilha da Poesia, 2005; Virtual Mercury House, 2009; ambas com curadoria de Caterina Davignio); Bienal Internacional de Poesia Visual e Alternativa do México (1987, 1990, 1992, 1996, 1998); Harvard’s Visual Poetry exhibition (2004, 2005); VII e VIII Salón International de Arte Digital, Havana, Cuba (2005, 2006). 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Sobre a multiplicação do amor


A vida humana é a tensão que se dá entre veste e nudez. (E. Coccia)


“Recepção”

quero me despir de toda a hipocrisia da saudade
e te sofrer como um espelho


“Partilha”

eles querem limpar as nossas ruas
eles querem duplicar as avenidas
eles querem acabar com todo o amor

mas nós nos absteremos da política
como de uma coisa infecta
e abjetamente desprezível

meu coração não é um motor


“Cogito”

penso em você
logo
o amor existe


“Fânero”

veste
meu corpo nu
a sua imagem e semelhança


“Matéria estranha”

sou o amante e a coisa amada
o meu corpo e o seu
o nada que ergo em sua falta
a forma que devolvo como a lei

o nosso amor
nessa guerra anunciada
defenderei defenderei defenderei


“Reprodução”

aquém da alma
além da pele
habito a matéria estranha do seu meio
e penso
que se vivo sem você
quero perder-me


“Amor”

tumor


“Como foi”

minha imagem era a sua
sua imagem era a minha
você não teve alegria
eu tampouco tive alguma


“Despedida”

você
voa agora daqui
para lá
onde tudo
sempre
se perde no passado
mas diariamente ainda
nasce
e se põe
como o sol


“Envoi”

preciso aceitar a ideia
de que a negação
não
significa um nada

que quando os espelhos
não devolvem a nossa imagem
não
quer dizer que não há nada a se observar


“Nachleben”

meu corpo é o que restou de nós dois


“Encerramento e gran finale”

só você me interessa
só me interessa o que não é meu



Rafael Castro é mestre em estudos literários pelo Pós-Lit/UFMG com a dissertação “A vida sensível do mito na literatura Huni Kuĩ”. É indigenista na Fundação Nacional do Índio. 

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Estranheza Ansiosa


Como um mero terceiro
Observo a escuridão tomando conta de
Pensamentos já, há tempos, obstinados.

Como um mero espectador
Clamo pela impaciência dos fótons, para
Que possam se intrometer nas loucuras
Visuais e mentais que nos assolam.

Como um simples cidadão
Perco-me nas imensidões à minha disposição.
Com mãos calejadas, horas e horas se esvaem em poucos minutos
Até o momento em que a deusa dos mares nos preenche com sua presença
Indicando sutilmente o repouso.

Como um simples ser
Noto a irregularidade cotidiana dos fantoches
e meus pensamentos me acentuam questões
que me fazem pensar se não sou apenas mais um.

Em um delírio pós-moderno
Fragmento-me. Dilacero-me. Reconforto-me
em saber que um dia tudo acabará.

HISTORY

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

x


é uma entrada de luz por um furo
que pode ser um poro
e a luz pode ser um touro
o amor pode ser um apuro
uma brutalidade
e pra retirar o bicho cirurgicamente
pode ser duro
pode ser duradouro
uma eternidade
tecnicamente uma fraude
um silogismo indecente
há um sismógrafo no escuro
que pode ser um soro
o sangue sumidouro
daí o amor pode ser puro
novamente (e novamente)

calí boreaz

Evento HIATUS na PUC-Rio



segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Discurso de formatura Letras 2018


Bom dia a todas e todos.

Primeiramente, uma ressalva: escrevi este discurso, principalmente, como um ou uma estudante de Letras, e não para o ou a estudante de Letras.

Toda e todo estudante de Letras sabem que os tempos não vão bons para nós, os vivos. Já faz um tempo que eles não estão bons. Fala-se demais nestes tempos (e, inclusive, cala-se). As palavras se esmagam entre o silêncio que as cerca e o silêncio que elas transportam. É cada vez mais pesada a paz do dia-a-dia (há paz no dia-a-dia?). Mas o que é feito das palavras senão as palavras? E o que é feito de nós senão as palavras que nos fazem? Todas as coisas são perfeitas de nós até o infinito — somos, pois, divinos. E uma maneira trivial de exercer nossa divindade é por meio de nosso poder de escolha. 

Podemos escolher o que fazer após sair daqui, onde almoçar ou até mesmo se vamos dar um pulo na praia. Isso também é importante. Mas o essencial é que podemos escolher o que pensar. E nosso trabalho é destruir, aos poucos, e com muita intensidade, os pensamentos dominantes que promovem abismos sociais, preconceitos, desrespeito, desamor — e morte. Vamos imaginar que você saia daqui e resolva almoçar. Ao chegar ao restaurante, você pede seu prato favorito: um filé, mal passado, com fritas. Quando a comida chega, você percebe que sua carne está bem passada. O que você faz? Provavelmente, você reclama com o garçom.

Da mesma forma que você reclama, mesmo que internamente, do motorista que não te dá passagem na pista da esquerda ou da caixa de supermercado que insiste em conversar com os clientes e que, por isso, atrasa todo o andamento da fila. E assim, no tédio da rotina cotidiana, no tédio disso que as pessoas chamam de Vida, você vai, automaticamente, esgotando a si mesmo e aos outros.

Mas você pode escolher o que pensar. Você pode escolher pensar que o cozinheiro poderia estar tendo um dia estressante, muito parecido com (mas muito distante do) seu, após ficar mais de uma jornada de trabalho dentro de uma cozinha fervendo e entupida de gente, tendo saído de casa às 04:00 da manhã, fazendo uso de todos os meios de transporte público possíveis para chegar ao trabalho, pontualmente, às 08:00. E quanta história nas costas do motorista à sua frente não segura o carro dele; quanta coisa no peito da caixa de supermercado não a leva a puxar assunto com desconhecidos e retardar o andamento da fila?

Aqui chegamos a um ponto importante — mas muito, realmente muito mal visto e muito, muito pouco considerado atualmente: vou chamar esse ponto de “O Outro”. “O Outro”: essa entidade que, neste exato momento, por exemplo, está ao lado de cada um de vocês e também está bem aqui, no centro de toda beleza, lendo este discurso. Quem diria: logo eu, que quando criança sempre brincava sozinho. 

Hoje, eu não estou sozinho. Quem me olha agora vê não um, mas muitos. Neste discurso, inclusive, há outras escritoras e outros escritores presentes. E eis o grande segredo que mantém as estrelas no céu, eis a unidade mítica de todas as coisas: nós não estamos sozinhos. Eu sou todos vocês. E todos vocês são eu. O coração de vocês bate pelo meu coração. Mas somos filhos da época e toda época é política. Essa é a verdadeira educação que devemos levar de agora em diante. Para entender isso, é preciso coragem, amigas e amigos. Afinal, a vida é coisa perigosa — é feita de escolhas, e escolher requer coragem.
Encerro este breve discurso agradecendo a todas e todos que participaram desta caminhada: cada professora e professor, homenageada ou não, famílias, amigas e amigos, que compartilharam momentos, alegrias e agonias. De uma coisa vocês podem ter certeza: somos gratos pelo que aprendemos e pelo que vivemos e saímos daqui prontos para seguir a boa luta. Obrigado.

Alexandre Bruno Tinelli

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Episódio saturnino


Persuadido pelo insondável
Transponho o tédio matinal
E o espectro rastejante da labuta
Trava com a indolência sua luta;

Coagido pela ventura inescrutável
Reconheço o pendor bestial
Projetando múltiplas representações
No rascunho torto das imperfeições;

– Ainda respiro, digo em solilóquio
E o existir dura em seu imbróglio
Como a dor de um convalescente;

A consciência inflada de paradoxos
No irremediável niilismo – tóxico
Submerge em fluxo decrescente.

Cássio R. Alves da Silva



Cássio Robson Alves da Silva nascido em Fortaleza - CE, é doutorando em Filosofia pela Universidade Federal do Ceará, tem seus poemas publicados em algumas coletâneas e, gradativamente, está aperfeiçoando a técnica para fabricar caleidoscópios artesanais.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Boleto - Um quadrinho de Linhas Tremidas



Reno



Quadrinista e ilustrador, Reno aborda dramas e conflitos psicológicos em seus trabalhos, frequentemente fazendo uso da ironia e do bom humor.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Ainda por cima


todos
por baixo de suas carnes cálidas
maçãs coradas istmos
ajambrados peles adornadas
contêm os alicerces respectivos
de um esqueleto surrado e frágil
que em sua fria feiúra
sustenta todas as energias
líquidos e músculos
todos
nos subterrâneos de seus sorrisos
francos falas encadeadas firmes
apertos de mão
guardam dispersas dentaduras
resistentes cucas hesitantes
tremores controláveis
à espera do comando
convincente
sob cada mecha doirada e leve
paira a aridez de um couro
cabeludo pálido e reticente
no contraponto da retina ubíqua
a breve cegueira das manhãs mal
despertas
à revelia de cada nome cada
mãe cada manhã
o número incontável de
fragmentos de poeira estelar
na ausência de cada presença
incógnita certeza de vida
acima de cada corpo inteiro
um espírito anêmico pronto para
a qualquer momento
flanar

Clidevar Araujo

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ulisses


Depois de tudo
deixo o teu leito
com tudo
o mais de óbvio:
molhado de suor,
com a face relaxada,
e uma ferida
encravada no dorso.

Deixo o teu leito
como quem
cumpriu uma promessa,
esperando o pão com manteiga
que chega com o cheiro do café
perpassado pela alvorada,

Deixo o teu leito
com a incerteza
de um retorno tranquilo
à minha Ítaca sonhada

— barco sem porto
faço de ti meu ancoradouro.

Deixo o teu leito
com um adeus
desacenado
de quem procura te
encontrar,

— após batalhas
contra troianos, ciclopes e
sirenes encantadas —

na próxima
dedirrósea manhã.

William Soares dos Santos



William Soares dos Santos (1972), é carioca, professor da UFRJ e escritor. Dentre os seus trabalhos literários se destacam o livro de contos Um Amor (2016) e os livros de poesias Rarefeito (2015), Raro - Poemas de Eros (2018) e Poemas da meia-noite (e do meio-dia), livro ganhador do Prêmio PEN Clube do Brasil para livros de poesias em 2018 e finalista do 3° Prêmio Rio de Literatura 2018.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Zoometarquia


Chinelos vermelhos
Tramas na geladeira
Quinta da carne
Terça das verduras
Papai e mamãe perderam a posição
Há sangue nas gavetas
Quarta do frango
Sexta da cerveja
Há umbigos roçando desonestos
Cristina chora no quarto escuro
Ao lado da goteira, afirmando:
“O mundo perdeu-se por andar em círculos”
Domingo teatro
Segunda folga
Feriados, sacolas cheias de água
Chico empresta dinheiro para a esposa
Com juros abusivos
Há um frasco de remédio vazio
Pendurado como um guarda-chuva
Na hélice do helicóptero
Urubus são anjos que deram certo
Sábado
A colheita, a colheita, a colheita
Dias, sabores
Quinta da carne
Terça das verduras
Kama sutra além do livro de receitas para colorir
Ingredientes sem giz de cera
Carnes, verduras
Tramas na geladeira
Chinelos vermelhos
O palhaço do semáforo
Após deixar seu nariz de plástico cair
Embute:
“Contudo,
Com nada
Se perde tudo”
Eu deixei as moedas em casa hoje

Ramon Carlos



Ramon Carlos (Santa Catarina, 1986). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Sua carreira literária resume-se a dois contos publicados em uma antologia, além de materiais diversos em revistas como: Mallarmargens, InComunidade, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau, Bacanal, Ruído Manifesto, Literatura & Fechadura e Jornal Plástico Bolha.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Patifes e Sherifes

Que Deus abençoe a América!
Terra de patifes
e sherifes.
De Marlon Brando
a Omar Sharif.
Finalmente, quem impera
é a cultura da burrice.

O sonho americano
se transforma em um verdadeiro monstro
quando você acorda.

Você não!
Aqui não pode mais!
Obrigado por tudo,
mas não te devemos nada.
Hahahahahahahaha
Hahahahahahahaha
Desculpe pela risada.
Esqueci que não “hablas” a minha língua
e não consegue
entender a piada.

Márcio Kozlowski

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Acontecido


Saudade tenho dos bons dias
em sua linha
vejo sorrisos e amigos.

Quanto a mim,
que penso em ti
admiro a imagem desses sorrisos
como se nada tivesse acontecido.

Olho para mim e vazio
minha linha
é um daqueles, imenso.

Quanto ao outro
que vai-se aos poucos
reconsidero, mas parece cinismo
como se nada tivesse.

E meu peito esfarela.
Não quero, mas me pulverizo…
E não adianta lutar,
eu vou somente fluir
como se nada.

Essa felicidade tão intensa
você vai explodir em luz
overdose de plenitude
em sua linha
como, se…

E passo adiante
só o necessário
como?

Geovani Gomes

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Amazona


Teu corpo vagando nu pela mata intocada da minha alma.
Você, guerreira, imponente, potente. Grandeza e força.

Eu que não sou poeta, nem poetisa.
Sou poema, rima e verso.
Sou língua macia, certeira, inquieta.
Teu corpo suado revela as mensagens que a tua boca faminta insiste em engolir.
As pontas dos meus dedos fazem uma leitura exata do teu ser pelo avesso.
Avesso da tua profundidade molhada e morna, caminhos ora conhecidos, ora cenário
escuro para que eu possa tatear, apertar, amassar, morder e me perder.

Sigo deslizando pelas plumas das tuas asas que me embalam, me tiram o ar e, então,
me devolvem a vida.
Vida que se concentra nas gotas de suor instaladas nas dobras dos teus joelhos, na
curva do teu pescoço e nas linhas perfeitas dos teus seios.

Andas nua pela mata banhada de sol da minha alma. Amazona, grandiosa e
desenvolta, me guias para dentro do teu templo, enlaças meu corpo com tuas pernas
velozes, me derretes e transformas minha fome em deusa que descansa no sagrado do
meu ser. Ser este – que agora e há vidas  possuis na palma de tuas mãos.

1. Amazona S.f.(a) 1. Na mitologia grega, membro de uma tribo de mulheres
caçadoras e guerreiras que teriam vivido na Europa oriental. 2.P.ext. Mulher alta e
resoluta. de ânimo agressivo e varonil. 3. Mulher que pratica a equitação 4. Traje
especial feminino, para montaria.

Mari Cê

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

essência


o cheiro que te perfuma
tem meu sexo
na assinatura

Vinni Corrêa

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Poema prosaico


Rasgada esta candura das palavras
sobeja-se o falso amargor reprimido.
Prévio conhecimento, tolo, em lavras,
puramente utopia costurada ao tecido.

A limitação do cérebro sem oxigênio
privado, então, teu principal sentido,
iludido, crendo num dom, feito gênio,
ignorando àquilo realmente contido.

Compondo meras anedotas rimadas
Nomeando-se poeta; repreendido!
Dessa eloquência vil de outrora, cada
dor ou vício terminou por esquecido.

Lucas Luiz



Lucas Luiz nasceu em Guararema - SP, em 1991. Iniciou publicando crônicas no “Jornal D’Guararema” e depois poemas no site de variedades “Guararema Tem”. Recentemente colaborou com as Revistas Literárias: Avessa, Inversos, LiteraLivre, Ser Esta e Mallarmargens. Participou da Antologia “Além do céu, além da terra” da Editora Chiado.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

atacados os atabaques


sim, atacados os atabaques
certos timbres de couro proibidos
certos nomes de entidade
doces de Cosme e Damião
lá onde rasga insistente o motor da moto
e empinada a roda toca a lua
na madrugada de morros e encruzilhadas
e a luz azul neon na cruz da matriz
e no letreiro próximo do motel
e o pisca-pisca no manto da virgem
e seu rosto imaculado de manequim
alvo como o da modelo de peruca
na loja do outro lado da rua
um troféu de cimento e latão dourado
da altura de uma criança de dez anos
garrafas de cerveja derramando-se dentro
da copa, do grande cálice
a ser passado de lábio em lábio
mas primeiro nos do goleiro
que em seu salto de jaguatirica
afastou o último pênalti
garantindo o campeonato inédito
atual maior herói da galáxia
e no perímetro não há balde ou bacia
que já não tenha virado tambor
em contra-ataque indiscutível dos atabaques
e da música liberada dos terreiros.

Tomaz Amorim Izabel



Tomaz Amorim Izabel é doutor em Letras e poeta. Publicou recentemente "Plástico pluma", seu primeiro livro de poesia.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Homenzinho


O homem caminha lentamente. Seu tamanho chama a atenção. Melhor dizendo, não chama, pois quase não se nota. Ele não passa de centímetros. E mesmo assim é uma perfeita miniatura humana. Braços, pernas, tronco, cabeça, ombros, joelhos e pés, tudo bem formado. 

Sua origem é um tanto desconhecida. Nascera daquele tamanho ou encolhera? O certo é que estando nessa condição de homenzinho, muitas dificuldades ele enfrenta. Complicações essas que fazem parte já do seu cotidiano de desprezo e insignificância. 

Mora numa pensão. Conseguiu nela uma vaga. Mas ali ninguém interage com ele, ninguém conversa com ele, em suma, ninguém o nota. Muitas foram as suas tentativas de fazer amizade. Entretanto, não obtivera sucesso. Sempre que puxava ou se lançava pela roupa de algum morador dali, logo o expulsavam. Era confundido com mosquitos, com insetos. Será que nunca ouviam o seu clamor? 

Quando sai às ruas não é diferente. É como se ele fosse invisível. Em lojas não pode entrar, pois não haverá quem o atenda, não conseguirá comprar qualquer produto que seja. As prateleiras são altas, tudo é muito grande e pesado quando se tem poucos centímetros. É difícil sua locomoção, seu andar, sua vida é difícil. Nada é para ele adaptado. Não há cama de centímetros, não há chuveiro em miniatura, não existem sequer roupas que satisfaçam seu tamanho. 

Apesar de tudo isso, ele não cansa de buscar uma utilidade. Sim, porque ele poderia muito bem passar horas, dias, meses, sem nada fazer e ninguém notaria. Mas em seus momentos reflexivos, ele se inquieta e examina em que pode ser útil. Certamente, em pequenas coisas, pois em grandes falharia, sequer conseguiria. O homem junta pequenos papéis deixados pelo chão, estica tapetes chutados, dentre outros feitos. 


Aguardam na pensão a chegada dum novo morador. Haviam preparado um quarto para a ocasião. O homem, vendo naquilo oportunidade duma possível amizade, planeja como se aproximar do novo hóspede. Já sabe. Ficará em cima da cama. E o incomodará, caso o desavisado deite ou sente sobre ele. Depois disso, se apresentará, contará sua história. E serão amigos. 

Assim acontece. O novo morador ao chegar no quarto, não demora a depositar o corpo na cama. Ali está ele, muito pequeno, muito ínfimo. Baterá nele até que o hóspede recém chegado o note. Ao sentir um incômodo em seu pé, o morador inexperiente se aproxima dele. 

– Mas o que é isso? – assusta-se.  
– Ah... Oi! Oi! Meu nome é...
– O que está fazendo aí? – interrompe o outro. 
– Bom, eu moro aqui. 
– Aqui? Como? 
– Cheguei aqui, fui ficando, ficando. 

Conversam muito. O novo hóspede ao ganhar proximidade, coloca o homem sobre seu peito. Ele por sua vez, por ali caminha, desviando-se dos pelos. Na presença dele, procura demonstrar sempre satisfação. Não quer desagradar o quase amigo. Relatado o drama, ele tinha conseguido o que queria. Pelo menos alguém, única pessoa que fosse, havia dado atenção para ele. Havia-lhe escutado a história de desprezo e insignificância. 

Agora eram bons companheiros. Ele resolve mudar-se para o quarto do amigo, que por sua vez havia adaptado alguns objetos para seu uso. Agora, com a permanência de bancos que serviam de escalada até a pia, o banho estava fácil. Girava a torneira e se refrescava nas águas. Depois descia e se vestia, podendo escolher entre calças e blusas, costuradas à mão por seu gentil amigo. 

Rara é a vez que seu mais novo amigo o nega conversa. De vez em quando, é tratado como sempre. Nem mesmo o seu companheiro de quarto o reconhece. Desprezo ele até entenderia, o que não suporta é ser confundido com pernilongos ou coisa do tipo. Como poderiam fazer aquilo? E faziam muito. Ao menor sinal dele puxando a calça ou blusa de alguém, ou mesmo tocando braços ou pernas, recebia bem perto uma palma de mão ou dedos que escorriam sobre onde estava. Obrigava-se então imediatamente a desviar-se, indo para outras superfícies, outros corpos. 

Quando saem para passear, é colocado no bolso. Aí, quando o amigo quer mostrar-lhe algo, retira-o cuidadosamente e coloca-o em sua grande mão. Satisfeito como criança, valorizado como um homem, só volta à tristeza quando precisa regressar ao bolso. Mas essa é uma condição quase necessária para que ele veja o mundo de outro ângulo. Ora, afinal não custa muito aguardar dentro de tecido sombrio, o momento de ver a luz do sol, o movimento da gente, tudo isso numa boa altura. 


O seu parceiro de aventuras, decide apresentá-lo aos demais moradores da pensão. Mas não o avisa de nada. Num habitual jantar, após levar-lhe várias vezes, grãos de arroz e pequenos pedaços de carne até a boca, fazendo repetidos e discretos movimentos entre seu prato e seu bolso, chega a hora. 

– Quero apresentar pra vocês o meu amigo – diz retirando o homem do bolso. 

Todos olham com admiração. 

– Ele mora aqui há muito tempo – aponta para a mesa. 

O homem que agora está sentado na borda da tigela de feijão, fica todo sem jeito e não consegue dizer palavra. Transtornado com tantos olhares, cresce ligeiramente. 

Dum instante para outro, surge na mesa um homenzarrão de quase dois metros.

Felipe Feijão



Formado em Filosofia. Blogueiro em portal de notícias. Escreve para jornais de Fortaleza.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Amazonidas


Somos filhas da ribanceira
Netas de velhas benzedeiras,
Deusas da mata molhada,
Temos no urucum a pele encarnada,

Lavando roupa no rio, lavadeiras,
No corpo o gigado de carimbozeiras,
Temos a força da onça pintada,
Lutamos pela aldeia amada,

Mas, viver na cidade não tira o direito de ser
Nação, ancestralidade, sabedoria, cultura,
Somos filhas de Nhanderú, Senerú, Nhandecy
O Brasil começou bem aqui...

Não nos sentimos aculturadas,
Temos a memória acesa,
E vivemos na certeza de que nossa aldeia
Resistirá sempre ao preconceito do invasor,
Somos a voz que ecoa. Resistência? Sim senhor!

Marcia Wayna Kambeba

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Índia Makusi


Escorro diamantes imprecisos
Do leito da trilha.
Lágrimas índias da tribo Makusi
Minha cintura vale mais!
Makunaima passou pelo meu ventre
Fez morada ali
Subiu a Serra Grande e ventou a Cruviana
Assustou seus irmãos que tinham inveja
De sua pele castanha
Mas não esqueceu que seu azul se confunde com o olhar de outro céu,
Que seu Branco são areias de outro rio
Ensinei que são meus cabelos que enegrecem a noite
Embalam o sono da rede do curumim
Deixei que brincasse com meus colares
Ao longo da Ponte Laranja
Do céu é mais bonito o espetáculo dos homens
Na terra de Makunaima
Sou índia Makusi
Sou filha e mãe de Roraima.

Sony Ferseck

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Presépio


Começaram a cavar um precipício entre nós
                [mais do que nunca o wifi cria ilhas no lugar de redes]
e o buraco é alimentado agora por nossas próprias mãos
se servindo de memes e de “lacração”

Urge ri da desgraça
saber tudo é imperatório
ser inteligente e engraçado soa mais curtível
do que abrir a cortina
do que combater a confusão

Cada qual do seu lado do precipício
dá ao mundo uma mostra
do quão eficaz é manusear o medo
 o desamparo, a afetação

Viva o mal entendido!
Alucinação acima de tudo!
Não importa o quanto isso custe
é vital o gozo da presunção

Das mãos e bocas cheias de goiabas
                             [e laranjas]
as respostas já vem prontas
Control C - Control C - Control C
Tudo está sob controle – indicam em gestos e sinais

enquanto esbanjam sorrisos e cochicham:
“eles já não enxergam as pautas, não escreverão nada mais”
e gritam aos quatro cantos
                    [e contas e contos]
que serão visíveis as imprescindíveis mudanças

Nesse grande acordo nacional
nossas ilhas e mínimos salários e barulhos
                        [curtida não se mede em hertz ou decibéis]
casam bem com os máximos privilégios dos que circulam no tribunal
julgando quem merece e quem não merece
ser cidadão de bem ou do mal

Renata Rosa


sábado, 5 de janeiro de 2019

Klimt Kat - Karenina Marzulo



Klimt Kat é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

armadilha


armadilha da noite de natal,
sob o signo de destilados anônimos, diz adeus e morre de delicadeza.

essa noite o céu parece uma
piscina vazia, pontilhada por estrelas de streptomyces.

a tevê acentua essa ausência,
cospe um crime com vodka na minha cara, me leva pra perto de portas intocadas.

Ígor M.



Ígor M. tem o ensino fundamental incompleto, trabalha em uma fábrica de ferramentas, corta o próprio cabelo e tem um gato chamado Ubu Rei.

Prêmio MTD de Fotografia



O Prêmio MTD de Fotografia: Walter Firmo é uma iniciativa pioneira cuja essência é a valorização do “olhar”, a difusão da arte fotográfica e o incentivo a todos os amantes da fotografia, de toda a cidade do Rio de janeiro, por meio de um concurso que premiará os vencedores em uma inédita Cerimônia de Premiação e Mostra fotográfica na Zona Oeste do município, em Santa Cruz, no Casarão Imperial Palacete Princesa Isabel que abriga o Ecomuseu de Santa Cruz. 

Para mais informações, acesse:

sábado, 29 de dezembro de 2018

O Galo gago - Clara Gavilan



O Galo gago é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Exposição "Arruar Tapacurá", de Joana Passi




“ARRUAR é sentir a cidade. Evocar seu passado, partilhar do seu presente, sonhar com o seu futuro. Conhecer e recordar. Pisar e querer adivinhar os que pisaram. Ser ao mesmo tempo a geração de agora e as gerações de outrora. Regalo dos olhos e entendimento dos espíritos.” (Mario Sette)

“ARRUAR TAPACURÁ”, a ser realizada na Torre Malakoff, é uma exposição dos trabalhos de Joana Passi, com data de abertura para o público no dia 04 de janeiro. A artista ocupará as 6 salas do centro cultural com trabalhos resultantes de uma pesquisa sobre Tapacurá – antiga região de São Bento, onde atualmente é localizada a Reserva Ecológica de Tapacurá e a Barragem de Tapacurá, situada a poucos quilômetros do Recife e protagonista do maior boato que entrou para a história da cidade – “Tapacurá Estourou". 

A exposição apresentará videos, desenhos, mapas, pinturas e instalações: trabalhos que surgiram do esforço da artista em vislumbrar a paisagem submersa, lembranças e narrativas sobre Tapacurá. 

A parceria com a Torre Malakoff teve início em julho, com uma ação na data em que o boato completou 43 anos. No dia 21 de julho de 2018, a artista realizou uma espécie de “monumento efêmero” e percorreu as ruas da cidade do Recife com um carro de som relembrando o grito que correu as ruas em 1975. 

A ocupação na Torre Malakoff ocorrerá durante todo o mês de dezembro, com a montagem de um laboratório no espaço do centro cultural para distribuir seus trabalhos nas salas de exposição. A artista realizará, também, um encontro com estudantes e professores da rede de ensino da Secretaria de Educação do Estado para realizar trabalhos sobre memória e histórias locais. 

Sobre a arista: 

Joana Passi é artista plástica e seu trabalho consiste em investigações realizadas no ateliê, sobre histórias e paisagens. Suas ferramentas investigativas são de diferentes mídias, como pintura, desenho, vídeo e escultura. Formada em Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, atualmente é doutoranda do departamento de Literatura da PUC-Rio. Atua como professora de desenho e artes visuais, já lecionou na UFRJ e ocupou o cargo de arte-educadora do Instituto Moreira Salles. Desenvolveu trabalhos em cinema e teatro, onde obteve  premiação como cenógrafa e foi indicada a prêmios como figurinista.

A curadoria da exposição é de Juliana de Moraes. 

Co-criações artísticas:
Os videos que fazem parte da exposição contam com a fotografia de Bento Marzo, a criação musical de Jam da Silva, e sound-design de Gian Ciminelli, gravados no estúdio da Áudio Rebel. 


ABERTURA: 
04 de janeiro de 2019 às 19 horas 

SERVIÇO: 
Local:  Torre Malakoff - Praça do Arsenal, s/n - Recife, PE.
Visitação:  04 de janeiro à 28 de fevereiro de 2019
Horários: terça a sexta, de 10h às 17h; sábado, de 15h às 18h; domingo, de 15h às 19h30

Narciso


Cinéreo Gris



Cinéreo Gris é Bruno Oliveira Fernandes: formado em Letras pela UERJ; músico licenciado; skatista aposentado; escritor não publicado; poeta por necessidade da alma; professor por necessidade do corpo. Ele é, também e principalmente, marido devotado; pai apaixonado; esquerdopata congênito e crônico; punk rocker que sofre da síndrome de Peter Pan e vive a crise da meia-idade.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Deixar para trás - Márcia Monteiro



Deixar para trás é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Achados & Escritos 1


Na medida do impossível ela caminhava entre os escombros de sua sanidade.

Aos tropeços se equilibrava em devaneios para não se perder na realidade que a consumia.

Os dias já não eram suficientes para preencher o vazio que transbordava de suas vestes.

Esquecer tornou-se uma necessidade que a afligia a cada estalar de suas memórias.

Ricardo Dantas



Artista sonoro e visual, participa do Coletivo inTRANSEgente! – “Hibridismo das Artes” (poesia, microconto, nanoconto, vídeo poema, intervenção sonora, etc). Aluno do Curso de Música da Universidade Estadual de Londrina integra os Projetos de Pesquisa e Extensão “Botequim de Música Contemporânea” com um projeto de Iniciação Científica sobre Instalação Sonora. Participa também do Grupo Armila, pertencente ao CLIC (Coletivo de Livre Improvisação Contemporânea).  

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

karma sutra


uma estranha sensação
de que já vi este cu.
ou de outra encarnação,
ou é mero deja vu.

Vinni Corrêa

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Korean Woman #3 Hanbok - Helena Carneiro



Korean Woman #3 Hanbok é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

Incandescente


Corpos nus, sua chama ereta; nós fundimos e nossas retinas se aliaram.
Nossos gemidos deram um tom desconcertante, a madrugada fria e aparentemente silenciosa.
Banhados e emaranhados em suor, nos tornamos unos e nos flagramos sorridentes...
Diante do gozo – passado e futuro viraram borrões e o presente resplandeceu.

Rosa Maria

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Lançamento dos minilivros "Para quando faltarem palavras", de Luiza Mussnich, e "O caçador de ginseng", de Ana Bartolo



Dèjá vu


A Bahia da minha lembrança,
onde me banho
desde o princípio,
corre por ladeiras à boca do céu,
escapa,
mas não passa de mim.

À distância,
no encalço da imagem indefinida,
ganha a forma de um
desejo íntimo.
Alcança meu tamanho,
de mim não passa,
bate no teto dos
meus (quase) trinta anos.

Trago seu canto sem saber palavra.
O saber das ruas e das coisas,
de olhá-las
e guardá-las. Onde mais
o esquecimento, mais o amor,
não palavra,
irrompe de um gesto,
que é todo o movimento,
                          das folhas aos pássaros,
de perder e achar e
querer e não falar.

Tem essa Bahia o viço
da pele ingênua debaixo da barba,
donde brota já
o primeiro fio de cabelo branco.
Terra sempre nova
que por algum feitiço
hesito pisar.
Põe-se a meio caminho, noutro plano.
Bahia que é minha e
dos baianos.

Daniel Marones



Daniel Marones tem 35 anos, nasceu e mora no Rio de Janeiro, e já leu seus poemas em alguns saraus, apesar de nunca tê-los publicado.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Refúgio e suas margens/deslocamentos e acolhida a Venezuelanos no Brasil: reflexões preliminares



Granada


Da mancha no olho casto
Do prurido na pele branca
Dos calos relevantes no pé 33
Das paisagens que sobram na cama
Leio Azevedo por 3,99
O primeiro livro vendido no bazar
Segundo a caixa
Pedido de ordem nas cruzadas
Não sei a capital do Líbano
Sugiro Lindóia do Sul
Muita letra
“Não sei”, por fim, nos une
Uníssonos
Tocamos cabelos e formigas
Nas paredes mofadas
Nos panos de pia
No pacote de lixo
Na folhagem que atrai abelhas
Nas folhagens que nos une
Que regamos com suco de limão
E adubamos com erva molhada
Assim sentamos à margem
Das tristes notícias do erro comum
Das traças viciadas em naftalina
Dos equívocos das tesouras com ponta
Do nome no lápis sem ponta
Da taça trincada por um erro comum
Dos beijos si-lá-bi-cos
Voltamos a caminhar
Torcemos nossos corpos
Na quina do sofá
Na porta do box
Achamos engraçado esse porte de arma
Quebramos, esparramamos
Os cacos da porcelana verde por dentro
Vamos embora, vamos embora
Nosso chão tem carvão em brasa
Nossos símbolos vestem chapéu
Nossa ternura usa bigode
Nossas extravagâncias estão no sótão
Deixo a toalha de banho marcada de cera
Uso dois pingos de gel
Repito a cueca
Corto as unhas dentro do cinzeiro (um pote de metal para presente)
Cheio de ilustrações geométricas
Mas saem voando, capazes de orbitar
Vamos embora, vamos embora
Ela deixa rastros de primavera pela casa
Ela queima como um verão bêbado
Ela é outono quando sonha e inverno quando chora
Suas toalhas de banho têm cheiro de pêssego
Seus cigarros ardem como incenso
Damos nomes aos insetos que respiram pela boca
Das patrulhas pelas travessas
Do mendigo que fala chinês e mendiga em espanhol
Da noite que embrulha a ópera
Dos centímetros que separam metros
Do último furo no cinto
O álibi como um simples não
À margem, à margem
De um confuso ato
Os espelhos podem marinar
A recompensa que nunca acaba
Ela já está dormindo
Minha lira de 29 anos

Ramon Carlos



Ramon Carlos (Santa Catarina, 1986). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Sua carreira literária resume-se a dois contos publicados em uma antologia, além de materiais diversos em revistas como: Inutensílio, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau, Bacanal, Ruído Manifesto, Literatura & Fechadura e Jornal Plástico Bolha.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Plástico Bolha no evento Edição comentada: estudos sobre o livro



No dia 12 de dezembro, quarta-feira, João Moura Fernandes, membro da equipe do Plástio Bolha, estará no evento do Selb falando sobre edição de poesia.

Para mais informações, clique aqui.


Figurando um planeta


Houve um tempo em que tudo era mais simples e plano. Até o planeta era plano. Um mundo do tipo match column A and column B:

(1) céu                      ( 1 ) conecta duas unidades em uma oração
(2) da                       ( 3 ) para muitos, representa onde tudo começa e onde muita coisa termina
(3) boca                   ( 2 ) frequentemente aparece em caso de posse inerente

Nesse mundo, correspondências eram óbvias. Os nomes dados às coisas eram seus nomes certos, e era possível dizer por meio da palavra o que era e o que não era. Quanto às orações, não a todas cabia um julgamento entre verdadeira ou falsa: às orações, por exemplo, não cabia. Assim, os habitantes desse mundo não eram deixados cair na tentação de misturar da linguagem suas parcelas racional e poética; amém.

É importante (?) declarar qual seria a parcela racional e qual seria a poética, porque, estando em outro mundo hoje, pode ser que não tenhamos esses aspectos tão evidentes – não sei bem se algum dia alguém os teve de fato, mas sei que acreditavam ter. À parcela poética correspondem todos os usos metafóricos da linguagem: os usos escorregadios, bêbados, incertos, deslizantes. Um óbvio exemplo desses casos seria “Aqui minha nave se deteve”. Não pelo uso hoje bastante estranho da palavra nave (não significando uma nave espacial, mas sim um navio), ou por dizer que a própria nave se deteve, quando ela certamente foi detida por alguém, mas pura e simplesmente pelo uso do verbo deter-se. Sabemos, é claro, como falantes da língua, que deter-se é um termo genérico, e que a este caso melhor caberia o uso específico. Não sabemos? “Aqui minha nave ancorou” seria a forma literal de dizer tal frase; o fato de a nave ser personificada nesse caso deve ser, tal qual a resistência do ar, desprezado.

A outra parcela de linguagem, aquela que é racional, opera de modo diferente. Ela é simples, direta, e pode sempre ser julgada em verdadeiro ou falso. “Michel Temer exerce seu poder de modo ilegítimo”. Essa é uma declaração, puramente racional, suscetível a julgamentos subjetivos, desprendida de qualquer termo figurativo. Diferente de quando se diz que “Michel Temer, tal como um vampiro, suga nosso sangue”. Apesar de me parecer que essa também pode ser julgada como verdade, analogamente à primeira. Mas vai saber. Se são padrões tão bem delimitados e indiscutíveis, melhor não ficar procurando chifre em cabeça de cavalo.

Reasseguro aos leitores a certeza que esse mundo trazia de que as metáforas da linguagem são o simples transporte de nomes de uma coisa para outra. Claro, inteiramente controlado e regrado. O fato de a palavra “transporte” aqui ser usada também personificada e fora da sua forma mais tradicional e literal deve novamente ser descartado pelos leitores, mais perspicazes e atentos do que desejamos para o momento. Por enquanto fiquemos agarrados à impressão de que falas figuradas são erros em meio a um sem-número de absurdos, insinuadoras de ideias erradas e consumadas fraudes. Fora do meio poético, só servem para enganar e persuadir. Que nem os sofistas.

Mas eis que um dia o mundo arredondou. As pessoas também. Os entendimentos também. A linguagem também. Assim, ficava difícil definir tudo em termos diametralmente opostos, porque nada parecia ter só dois lados, como são as coisas planas. Ingenuidades precisaram sair de cena para dar lugar a dúvidas. E como dúvidas não têm valor em lugar nenhum, as explicações precisaram passar a ser tantas quantas pudessem ser as ocorrências. Precisamos das caixas. De muitas caixas. Nos munimos de um arsenal de caixas para fazer tudo caber e ser devidamente categorizado. Nunca esperamos nos deixar soterrar pelo excesso de possibilidades, nunca esperamos não estar num ponto alto o suficiente para recortar a onda e observar seu único movimento. (O leitor atento pode aqui observar que a ingenuidade nunca nos deixou inteiramente.)

A língua também foi vítima das caixas. A parcela racional foi lacrada e uma etiqueta que dizia GRAMÁTICA NORMATIVA foi colada bem na sua frente. Suas possibilidades de movimento foram lançadas ao mar aberto (e Palomar nem viu). Lá dentro dessa caixa, vários compartimentos foram colocados para delimitar bem o funcionamento de cada uma das partes. Tolinhos, nem viram que os conteúdos se liquefaziam e passavam por entre os compartimentos com muita facilidade. Os que não
se deram conta disso em momento algum seguiram firmes, acreditando terem resolvido todos os problemas da linguagem racional, sóbria e orientada, e partiram para a outra parcela.

A parcela poética, figurativa, periférica da linguagem também foi encaixotada. Na caixa, um papel que dizia METÁFORAS já vinha de fábrica colado. Consideravam que elas fossem um gênero do qual todas as ocorrências seriam apenas espécies; o guarda-chuva sobre o qual todas as emissões bêbadas se abrigavam. Depois parece que repensaram, encontraram mais umas classes que mereciam se juntar ao gênero, e mudaram para um nome mais genérico: FIGURAS DE LINGUAGEM. Diz-se também que no estágio inicial da caixa, não sentiram necessidade de colocar compartimentos, mas
depois viram que podia ser melhor ter lá um ou outro. Traçaram a princípio três: metáfora, metonímia e sinédoque.

Depois disso, parece que perderam o senso. Tudo desandou. Saíram dividindo e redividindo, e então dividindo uma vez mais para tentar abrigar caso a caso com a maior distinção e o maior detalhamento possível. Explodiram não sei quantas definições, e nunca deixam de surgir mais. Lembro-me que certa vez, pelos treze anos, dediquei dias ao esforço de redigir um resumo de toda a matéria do ano. Constavam lá as famigeradas. Eram, à época, onze: comparação ou símile (quem diria que comparar duas coisas era na verdade um recurso estilístico decorativo); metáfora; prosopopeia ou personificação; hipérbole; eufemismo; disfemismo; antítese; ironia; sinestesia; metonímia; antonomásia. A maioria delas era facilmente percebida em discursos correntes do dia a dia, portanto foi curioso perceber que seriam assunto de prova e tema de aprofundado estudo nos anos escolares.

Quando concluí que até tinha certo sentido debruçar algum olhar cuidadoso sobre esses fenômenos esquisitos, descobri que tinham mais casos: paradoxo; anáfora; pleonasmo; coisificação ou reificação. E mais: aliteração; pleonasmo sintático. E mais: silepse, catacrese, elipse, zeugma, quiasma. E hipérbato apóstrofe gradação assonância paronomásia onomatopeia polissíndeto assíndeto anacoluto perífrase e por aí vai aparentemente sem poder nem parar para respirar. Pausa.

Ouvi quinhentas vezes e disse aqui quinhentas e uma (hipérbole; zeugma) que as figuras de linguagem pertencem à parcela da linguagem poética. Ornamental. Figurativa. Decorativa. Talvez os habitantes do mundo plano olhassem hoje para o que fazemos com as metáforas e as enxergassem como golpistas que se apropriam de um lugar da linguagem a que não deveriam pertencer. Diriam: Não é certo que não encontremos outro nome para dizer pé da mesa ou céu da boca ou braço da cadeira sem que pareçamos ridiculamente desconectados da nossa própria língua. Não é certo que não encontremos força nas expressões literais para comunicar o que desejamos. Não é certo que não vejamos saída e forma de estar na língua que não envolva esta parcela que antes julgavam tão descartável. Não é certo que o inútil, recusável e imperfeito canto a que relegamos as figuras se misture e de repente seja tão racional quanto o campo racional.

Há algo que parece muito engraçado, curioso ou patético da parte dos que legislam sobre a língua (e aqui digo dos que de fato legislam, não de uma possível analogia com certo tear de que certa vez ouvi falar). Eles seguem buscando o estrito caroço de um conceito. Já existe uma palavra para falar sobre casos em que designamos a um ser um outro nome próprio para que se o reconheça, por exemplo. Não digo por isto chamar Montecchio de Capuleto; digo chamar Pelé de Rei do Futebol, chamar Rio de Janeiro de Cidade Maravilhosa. Mas alguém um dia achou que era bagunça colocar pessoas e tropos sobre a mesma classificação, e bipartiu: perífrase e antonomásia. Fez assim também para elipse e zeugma; metáfora, metonímia e sinédoque; e um bocado de outras variantes. Aliás, parece que fez assim para tudo. Explodiu em pormenores aquilo que nenhuma divisão ultradetalhada será capaz de encerrar.

Vazam. Vagam. Vagueiam. Esvaziam. Escorrem por entre os dedos as línguas os ares as mentes sem que sequer nos demos conta. Não damos conta. Nada dá conta. Talvez tentemos controlar a língua quando na verdade ela nos controla. Talvez tentemos chamar de metáfora uma parcela da língua quando ela é o todo e mais um pouco. Talvez pensemos no substitutivo em lugar de aditivo. Vai saber. Não sei. Concluo nada e penso muito. Deixo aqui em suspense o suspense de lidar com a linguagem figurada que talvez melhor seria dita linguagem protagonizada. Vai saber.





Caramba! Já agora, indo embora, me dei conta de uma falta gravíssima! Desculpe, leitor. Sabe o que é? Não me curei dessa doença de ser artista. Isso faz mal, a gente acaba imitando um pouco as coisas do mundo real sem nem perceber. É por isso que acabei copiando aqui uma frase ou outra de Platão, Aristóteles, Locke, Hobbes, Calvino, Eco, Helena Martins. Seria uma pena se eu ficasse de fora da República por um deslize desses... Mas, afinal, quem no Brasil hoje não está?

Yasmin Barros


sábado, 8 de dezembro de 2018

Corpo de Carne sobre um Corpo de Água - Lari Arantes





Corpo de Carne sobre um Corpo de Água é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

Edição comentada: estudos sobre o livro




Desde a sua inauguração, em março de 2016, o Laboratório de Publicações Lima Barreto vem trabalhando ativamente na difusão das práticas editoriais no Instituto de Letras (ILE) da Uerj. Mantendo-nos sempre alinhados à missão de fomentar, produzir e editar projetos acadêmicos e literários, exercemos nossas atividades com o objetivo de oferecer capacitação teórica e prática aos estudantes de Letras e de áreas afins para a atuação no setor editorial.

Em 2016, numa tentativa de atender ao interesse dos estudantes do ILE e de trazer de volta a uma Uerj em crítica greve alunos, professores, técnicos, estudos, discussões, produções, realizamos o ciclo de debates Mercado editorial: inserção, atuação e análise, um evento-teste, experimental em muitos aspectos. Neste ano, retornamos com um evento repensado, reestruturado, renomeado, o ciclo Edição comentada: estudos sobre o livro.

10 a 14 dezembro, manhã, tarde e noite
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Campus Francisco Negrão de Lima (Maracanã)
Rua São Francisco Xavier, 524
Maracanã – Rio de Janeiro, RJ – 20550-900

Para mais informações, clique aqui.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Jardins


Quando no outono das tardes sombrias,
Entre a caligem, nos gráceis abrigos,
Eu me recordo dos tempos antigos
De auras divinas, porém, fugidias...

Pelas soturnas ruelas esguias,
Na soledade dos ternos jazigos,
Jogo-me sobre os relvedos pascigos,
Molho teu leito de lágrimas frias...

Neste semoto moimento das dores,
Onde adormecem os nossos amores,
Desta fulgente e fugaz mocidade...

Ali, me perco e me encontro, em meus sonhos,
Na realidade dos tempos medonhos,
Nestes soturnos jardins da saudade...

Sérgio Márcio

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O torneio


Foi na esquina da Marnoco e Sousa com a Dr. Júlio Henriques, no Bar do Borges. O ano, penso que 2015. Era a final do campeonato de sinuca e o pequeno estabelecimento mal suportava a quantidade de estudantes que se apinhava ali, uns em cima dos outros, ao redor da mesa. O barulho intenso de risos, gritos e choque de copos invadia a rua silenciosa, às duas da manhã, e ecoava por pelo menos dois quarteirões acima, subindo na direção do Penedo. Quem entrasse por último não acharia possível dar um passo a mais em meio aos corpos que se apertavam, mas no final, sempre cabia mais um. Uma vasta e densa fumaça de cigarros se acumulara no teto, dando ares de neblina às fracas luzes da casa. Todo ano seu Borges colocava os móveis nos cantos e trazia a mesa que jazia sob o pó da garagem. As bolas, de tão velhas, perdiam a tinta, e a branca tinha traços pretos e indeléveis que algum inconsequente havia desenhado.

Durava cada vez mais aquela confusão, porque todo ano aumentava o número de participantes. Havia estudantes, professores e funcionários da Universidade de Coimbra tentando a sorte. Neste ano cinco finais de semana foram necessários para se chegar aos dois últimos contendores. Arthur, detentor do título, graduando de História, jogava com os incentivos da namorada, a francesa Delphine, que com a cabeça cheia de imperiais consumidos ao longo de pelo menos cinco horas, soltava, vez por outra, palavrões em sua língua pátria, logo encobertos por uma saraivada de impropérios lusitanos. Jorge, quarto ano de Medicina, argentino alto como um tronco de árvore, nunca participara de uma final, mas tinha naquele ano eliminado com extrema eficiência todos os seus adversários, que não foram poucos, diga-se de passagem. Ao contrário do seu oponente, que começava a ficar um tanto vermelho por conta das taças de vinho consumindo ao longo do torneio, Jorge não ingeria álcool. Em compensação fumava um cigarro atrás do outro.

A excitação era intensa. A partida ganhara ares de final de copa do mundo. Delphine, namorada de Arthur, de postura selvagem por trás dos olhos pequenos e pretos, explodia a aproximadamente cada vinte minutos, para reclamar dos cigarros: Mais arretez cette fumée de merde, connards!, ao que se seguia um murmúrio incompreensível de expressões confusas, oooooeeeoopáááá, ôôôôconarda é tu, ó parva! – e a fumaceira continuava. A gritaria só se suspendia um pouco em duas ocasiões: quando chegava uma nova rodada de cerveja, que Maria trazia a muito custo equilibrando a bandeja acima da cabeça, sob as orientações já não tão seguras do velho Borges, bêbado, os cotovelos no balcão, a observar a partida com seus olhos turvos; ou quando um dos competidores se preparava para dar sua tacada. Era um instante de silêncio, como se estivessem todos na quadra de Roland Garros, só entrecortado pelas vozes da francesa, que nesse instante encontrava sempre o que dizer, ainda que ninguém a compreendesse. Depois tudo voltava ao normal, as mesmas vozes altas, o tilintar dos copos, os gritos e conversas intermináveis, a variação nos valores das apostas sendo lançadas aos gritos de uma ponta a outra do bar, com o Pedro, um sujeito de óculos embaçados pelo suor que se mantinha em pé em cima de uma mesa, a anotar no seu caderninho o aumento ou a redução de euros envolvidos na jogatina.

A partida estava difícil para Jorge. Nunca chegara tão longe no torneio e aquela euforia mexia um pouco com seus nervos. Começou sendo praticamente massacrado, o adversário distanciando-se com segurança na pontuação. Depois, da metade da partida em diante, Arthur perdera a concentração, permitindo que o argentino se aproximasse. De tal forma que a mesa agora se esvaziava com equilíbrio, bolas eram encaçapadas de ambos os lados. O nervosismo não permitia que qualquer dos oponentes se impusesse e terminasse o jogo de uma vez. Erravam-se tacadas fáceis, e em lances mais difíceis, algumas vezes, ocorriam pequenos milagres. A torcida seguia as emoções do jogo como o par de uma dança excitante, com rompantes de alegria e momentos de decepção, a depender das afinidades, e à medida que se reduzia quase a zero o número de bolas, a tensão atingia o ápice. 

Os derradeiros movimentos eram a partir de então acompanhados por um silêncio profundo. A bola branca batia com violência nas outras, ninguém queria deixar de graça os últimos lances ao adversário. Além dela, só mais duas restavam no tapete verde. Na vez de Jorge, o futuro médico conseguiu pôr na caçapa a penúltima esfera e ainda deixou a branca numa posição perfeita para finalizar a última – a preta. Um murmúrio percorreu o ambiente, cabeças viraram para não ver e, sobretudo, para não ter que desembolsar quantias financeiras já estratosféricas. Arthur recostou-se no banco alto, segurando o taco encostado no chão, entre os dois pés, a ponta na direção do teto. Delphine segurava seu braço. Cochichavam-se comentários técnicos. Jorge se concentrava, a boca contraindo-se em meia palavra dita para si mesmo. 

Contaria mais tarde que refletira bastante sobre aquela jogada pouco antes de executá-la. Deveria colocar suavemente a bola, como exigia, certamente, a situação, ou finalizar com violência, para causar um efeito na plateia? A proximidade da vitória, o rush de sangue que lhe correu pelas veias foi decisivo: terminaria com uma forte batida de mão esquerda (era canhoto), tomando cuidado, claro, para posicionar o taco de maneira a que a bola branca não seguisse a preta no buraco, mas retornasse de onde partira. Posicionou-se. Jorge pôs a mão direita firme sob o taco, fazendo um “v” com o polegar e o indicador, ao passo que com a esquerda movimentava, num pêndulo preciso e concentrado, o instrumento da vitória. 

Tudo ocorreu muito rápido – muito mais do que o ritmo de qualquer narração. A pancada veio violentíssima, acompanhada por um estalo característico, mas decuplicado em intensidade sonora, e pelo grito de Delphine: nom de Dieu! A bola branca não se movera um milímetro. Não é que Jorge não a tenha tocado, ao contrário: acertou-a em cheio, justo onde queria, mas ela se manteve ali, imóvel, sólida como uma rocha, e o resultado foi o estudante sofrer o imediato contragolpe daquela imponente inércia: foi jogado para trás com a mesma força que havia usado para atacá-la, o taco partindo-se em dois e o jogador caindo de costas no chão, não sem antes atropelar uma cadeira, cujos quatro pés se quebraram como frágeis palitos de fósforo.

O estrondo de um trovão fez tremer os alicerces do Bar do Borges. Era a gargalhada dos torcedores, misturada a copos estilhaçados no chão e a gritos ensurdecedores de gozo incontido. Riam a plenos pulmões, apontando para o infeliz, como teriam feito de alguém que vissem tropeçar e cair no meio da rua. O argentino, estatelado no chão com as mãos apoiadas para trás, olhava o pedaço de madeira partido com ar assustado. Fixando a bola branca percebeu, pela primeira vez e antes do seu lendário desmaio, que o desenho que nela fizeram eram dois olhinhos pretos e uma boca. Os olhos o encaravam; a boca sorria.

Bruno Mendonça

sábado, 1 de dezembro de 2018

Retrato de Família - Laura Loyola




Retrato de Família é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Cidade vigiada


A cidade vigiada
tem seus medos
e angústias.

As largas avenidas e ruas
e sua l’architecture francesa
se despem à noite
aos ratos, fantasmas e bêbados.

Os currais...
Horizontes ali, tão belos!
A princípio postos ao chão,
subordinados ao tempo;
erguidos e assim – endireitados.

Suscito de razão.

A modernidade paira no ar
dos cafés e agora
velhas esquinas.

Nos contornos – e lá fora solidão do
Ocidente – os vossos parques e regimentos
De Terezas, Afonsos e Cristinas
mancham vossa liberdade
que nos sangra
e não nos
deixa
quietação.

Maria Tereza Amaral

Lançamento do livro "Sangue nos olhos", de Eber Inácio, na Lapa



quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um poema de Gustavo Zeitel


duas tatuagens escorrendo pelos braços
e dois olhos gordos. tão gordo,
que pareciam desejar sair do rosto magro
da vendedora magra. quero sorrir com você
mais vezes.

uma espanhola olhando os livros de drummond.
não tenha medo de mim, eu também leio poesia.
você diz não me achar sexy. você não me acha sexy.
quero o divórcio, mas nem perguntei teu nome.
remorso é um arrependimento para dentro.
aquele nariz pontudo era tão bonito quanto a face
jamais vista da menina que estava na gare d’annecy.

as última vinte e quatro horas passaram igual a um tgv. tudo
é leito de rio. à noite, vou colocar meus óculos escuros
e me masturbar. não posso esquecer de tomar
o anticoncepcional. as últimas vinte e quatro horas passaram
igual a um tgv. tomo um aperol spritz. tudo é leito de rio.

gustavo zeitel



gustavo zeitel tem vinte anos, nasceu no rio de janeiro e estuda jornalismo. o submundo do meu quarto (multifoco, 2018) é o seu primeiro livro de poesias.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Greve geral


O dia amanheceu azul.
Ela deixou a chaleira apitando e desapareceu.
Ou, partindo de outra interpretação,
Tanto a evocaram que
Brevemente acreditou-se em sua existência.
O monarca desnudo se fingiu atônito em horário nobre
Convocou os seus ministros tal qual o técnico sua seleção
E vendeu o mar e penhorou o céu para arrecadar fundos
Em suposta diligência pela moça cujo nome ele tantas vezes errou
Na nação a submissão tosca deu lugar ao entusiasmo débil
Que deu lugar ao existencialismo de botequim
Que precedeu o grito rouco da máquina
E a melancólica procissão dos bêbados tristes que já não lembravam quem se fora
Mas há certos elementos atemporais
E cada filete de sangue que escorria nos becos tateava cegamente à sua procura,
Serpenteava pelo chão em uma súplica instintiva
Até pintar toda a cidade de vermelho
Até quase pintar todo o tempo em tons de esquecimento
Acontece que a imortalidade é uma manobra semântica
Um truque de baralho
E o inconteste é que ela sumiu aos poucos
Desaparecendo por entre as rachaduras da vida cotidiana
Se dissolveu em uma manchete de jornal
Navegara à deriva pelas medidas provisórias
Enfim buscou refúgio na memória do aroma de café
E hoje se esconde na euforia dos loucos

Arthur Maurício Rodrigues

As aventuras de Cecília - Jéssica Góes



As aventuras de Cecília é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

atemporal


peço perdão toda vez que fecho os olhos
e consigo me desfazer da realidade
quando o ódio adormece
e os pássaros se fundem em metal pesado
e tinta amarela
quando a cantoria habitual
torna-se um ruído cortante
impossível de ser digerido
e meu pai incomodado desce da cruz
para discutirmos sobre aquele aluguel
que atrasei quando tinha
nove anos
de absolutamente,
nada.

Eduard Traste



Eduard Traste descobriu que não tinha salvação. Desde então vem destilando os necessários pingos de vida para seguir em frente, de seus escritos e outros tragos. Escreve no projeto www.estrAbismo.net, e tem materiais publicados nas revistas: Alagunas, Escambau, LiteraLivre, Philos, Ruido Manifesto e Subversa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

X edição do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia



Amanhã, dia 22 de novembro de 2018, ocorrerá a cerimônia de premiação da X edição do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia. O evento acontecerá no Solar Grandjean de Montigny da PUC-Rio, às 18h, e contará com atrações, leitura de textos e muito mais! Vamos juntos celebrar a literatura, as artes, e o sucesso de uma década do Prêmio.

O que é um fim?


Um fim é um momento à toa
cercado de ingênua
perplexidade
em que
se vê
se sente
se pré-sente
o
fulcro
de um mundo imaginário
construído lentamente a dois
se esfarelar em
centenas de
milhares de
fragmentos de
memória

Memória:
migalhas que se prendem à vida
fazendo do fim
uma perpétua
lembrança
da fragilidade
do instante

Instante:
átimo que se fecha
na contingência de um tempo-denso:
puro começo
pura presença
pura abstração

Um fim é um momento à toa
que se estende por
longos dias
de sol
de chuva
de sonhos
e tormentos

O fim é
o som
o cheiro
a briga
a brisa
o brinco
o ar
que
não
acaba
de
acabar

Um fim é um momento à toa
que insiste em invocar
a cada passo a
impossibilidade
de voltar
atrás

Wemerson Felipe Gomes

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Tudo tinha ruído


(baseado no relato de B. C. S.)

Eu gostava do cheiro de cigarro. Ainda criança, lá pelos oito, nove anos, imaginava a fumaça do cigarro da minha mãe subindo disforme até se transformar numa nuvem lá no céu. Eu pulava atrás das baforadas quentes que se perdiam pelo ar. Quando encontrava um maço esquecido, roubava um cigarro pra criar minha fantasia preferida: Sherlock Holmes.

Eu era um detetive sério: investigava cada ruído da noite, todos aqueles mistérios noturnos. “Os mortos levam muito tempo pra deixar o nosso plano. Eles não sabem que morreram”, minha irmã disse depois da morte do meu vizinho. Encuquei. O mínimo barulho e eu já imaginava o espírito do vizinho invadindo a casa errada. Meu pai não entendia. Deixa disso, essa história de fantasma não existe, mas foi assim que ganhei uma cama no quarto dos meus pais.

Com a mudança de quarto, novos barulhos: o motor da geladeira apitando na cozinha, os passos pesados do meu pai indo pro banheiro de madrugada, o choro contido e intermitente da minha mãe. Ela sentia muita dor nas pernas. Meu pai dizia culpava o cigarro. Isso aí é um veneno, Bruno, e fumando assim, um cigarro atrás do outro, pode acontecer coisa ainda pior.

Geralmente, a gente passava um pouco de álcool nas canelas e nas coxas dela, massageava e esfregava até evaporar todo o álcool, até a pele ficar bem quente, e ela sentia alívio. Mas naquela noite o choro estava diferente: mesmo passando álcool nas pernas, ela não acalmava. 

Vou levar a sua mãe lá no hospital, tá? Meu pai chamou uma ambulância e ó, fique com a sua irmã. Não saiam até a gente voltar e eu obedeci. Fiquei em casa com minha irmã, esperando, esperando, mas não voltavam. Eu dormi e acordei com minha irmã dizendo que precisávamos ir pra casa do meu primo. Eu até gostei. 

Nunca tinha ido pro apartamento do Marinho. Ele morava longe de casa. Minha irmã, que já tinha carteira de motorista, pegou o carro do meu pai e dirigiu até lá. Tive que ir no banco de trás. Eu não quero perder a minha habilitação, Bruno, não faz nem um mês que eu peguei. Não contestei.

No caminho, sempre que eu perguntava quando nossos pais voltariam pra casa, a Renata desconversava. Voltam rápido, fique tranquilo, mas não voltaram rápido. 

Fiquei seis dias na casa do Marinho. Sempre que um tio ou tia entrava no apartamento, olhava primeiro pra minha irmã, com cara de pânico. Quando finalmente me notavam, eles disfarçavam, sorriam e como você tá, guri? Tô bem, tio, mas eu desconfiava, queria saber o que estava acontecendo. Sabia que escondiam alguma coisa de mim. Não entendia aquilo. É da minha mãe que estão falando. Minha mãe! Comecei a sentir raiva deles, raiva de ser criança. Se fosse adulto, saberia a verdade, e poderia dividir as minhas preocupações com eles. Sempre que disfarçavam pra falar comigo, eu sentia mais raiva de ser uma criança, de ser o único que não podia saber a verdade, de ser invisível e ignorado, como se não pudesse, não tivesse o direito de sentir tristeza. 

No fim do sétimo dia, minha irmã e eu fomos ao hospital. A mamãe tá bem, Bruno. Lembra aquela dor que ela sentia na perna e pela janela do carro eu olhava pras nuvens no céu e imaginava que ela continuava soltando suas cortinas de fumaça. Os médicos fizeram de tudo pra ajudá-la, mas a mamãe fumou muito, você sabe, mas não, eu não sabia de nada. Agora, não queria saber de mais nada. Quando chegamos ao hospital, antes de entrar no quarto, me contaram que a sua mãe teve que amputar as pernas, Bruno, infelizmente. Foi melhor pra ela. Melhor pra ela? Meu pai me subiu num abraço apertado. Foi esse maldito cigarro e continuou me apertando, encharcando a minha camiseta e quase me sufocando.

Não chorei. Continuava com raiva. Tiraram o meu direito de saber a verdade, de sofrer como eles, de ajudar a minha mãe. Quando entrei no quarto, ela parecia bem, me recebeu com um sorriso. Deitei ao seu lado. Ela levantou um pouco o lençol e vi as pernas um pouco menores, enroladas por gaze e esparadrapos, terminando um pouco acima dos joelhos. Um silêncio profundo inundou o quarto. Meu pai e minha irmã olhavam pra mim, acho que esperavam uma crise de choro, de desespero. 

Não perceberam que tudo tinha ruído.

Julian Guilherme