sexta-feira, 7 de maio de 2021

Tradução do poema de Max Schhmoll - Por Marilena de Moraes

Era um dia ensolarado na floresta
Eu caminhava, distraído
Via o sol atravessar as folhas.
Os pássaros piavam, cantavam,
Lembro bem.

Recordo os dias de infância
Quando eu circulava entre essas árvores, corria e brincava

As folhas ainda úmidas das chuvas da manhã

Naquela época, o mundo me parecia muito mais agradável,
Puro, muito mais sincero e verdadeiro
Eu tinha tudo que queria
Um sol brilhante, um céu do azul mais azul

De repente, num susto, parei

Bem à minha frente,
a árvore que tanto amei
O carvalho gigante da floresta
Jazia ali, inerte sobre a terra

Como, pelos céus, uma árvore como essa pode morrer
Seus galhos, antes grossos e poderosos, agora estão secos

Quantas flores surgiram de seu humus
Quantos pequenos animais da floresta sua força alimentou
quantos pássaros, assustados por tempestades e trovões, ali se aninharam?

Naquele momento ficou claro
Em uma noite de tempestade sombria
Que esse gigante com tal poder,
Pode ser arrancado com raiz e tudo

Que chances tenho de sobreviver
Neste mundo rude
Cheio de ódio e erros?

De repente, meus pensamentos mudaram
Minhas lembranças do passado desapareceram
E comecei a pensar na morte

E então me perguntei
Estou preparado para enfrentar a morte?
Serei corajoso o bastante para morrer?

Ou, apavorado, vou chorar, soluçar
No meu último momento?

Covarde?
Não, não serei.
Não, não vou enfrentar minha última hora como o descanso
Um descanso tranquilo, há muito desejado.

Vou atraí-la,
Fazer dela convidada,
Tratá-la com delicadeza e
Talvez oferecer uma visão clara da vida

Vou me tornar seu amigo
Um amigo inesperado, inseparável
Que vai levar-me com mão forte e firme até o fim

Ela marcará minha hora precisa no cronograma da Morte
Mas espere: que nuvem negra encobre meus pensamentos e bloqueia minha mente?
O que interessam os pensamentos
Se meu destino já foi traçado?

Devo deixar a vida abraçar-me com vigor,
Pois a Morte não quer ser amiga de ninguém
Ela jamais faltou a um encontro!

Que nuvens negras cobriram meus pensamentos, que morbidez dominou minha mente
Em um dia ensolarado de primavera nesta floresta?
Continuo meu passeio, distraído, por entre os feixes de luz
Que atravessam as folhas.
Ouço os pássaros que cantam,
Os pássaros que cantam sem parar

Marilena de Moraes


O poema original pode ser lido aqui.

Um poema de Max Schhmoll

In a sunny day in a forest
As I went on carelessly strolling
Through filtered sunlight and tweeting birds
Tweeting birds I remember

The mind goes back to my childhood days
When I through this forest use to wander, running playing

The trees with it’s leaves still damp from early rains

To me in those days the whole world seemed much nicer
Pure much sincerer and true
I had all I wished for
A bright sun a sky of the bluest blue

Suddenly a shock, I came to a stop

In front of me stood
The dear beloved tree I much loved

The forest’s giant oak
It lay on earth, inert

How for the high heavens can such a tree die
So thick and powerful branches go dry

How many flowers grew from its hummus
How many little beasts of the forest by it’s strength were nursed
And how many birds by storm and thunder frightened nestled

That moment I clearly understood
In a dreary storm night
If such a giant with such a might,
Can so easily be torn from its roots

What chances have I
On this crude world
Full of hate and errors to survive

My thoughts had rapidly changed
My childhood past remembering quickly vanished

And they came to rest upon death
And so I asked myself
Am I prepared to face death?
Will I be courageous enough to die?

Or will I be hysterical, crying and  sobbing
In the last hour when I expire?

To be a coward
No I will not
No I will not I’ll face my last hour as of the rest
Long calm wanted, rest

I shall invite her
I shall make her my guest
I’ll treat her gentle and
Maybe give her a view clearly of life

I shall make her my friend
A sudden friend inseparable
That will lead me with strong and firm hand until the end

She will mark my hour exactly in the Death timetable.

But wait, what dark cloud cover my thoughts and  blocks my mind
Why bother with thoughts at all?
If my fate is ready traced

I shall let life, lusty  embrace me
For Death wants no friendship at all
Has she ever  spared one at all?

What dark clouds covered my thoughts what morbidity traced my mind
In such a sunny spring day in this forest
As I go on carelessly strolling
Through it’s filtered sunlight and tweeting birds
Tweeting birds as these.

Max Schhmoll


A tradução do poema, por Marilena de Moraes, pode ser lida aqui.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Luas sem véu

Fogo branco, a fé pelas cinzas
atravessando meu pecado
por entre as vozes ardentes que
se mantêm na fome eterna,
tantos lumes que só abrandam
à noite cheia, ante seu corpo

onde desabo, desafogo entre
seus laços num solavanco, atrás
de seus cachos, os tons num
brilho por se entregarem quietos,
deixam-me implorando,
largado nu nuns sorrisos bobos,

seus lábios que quase logo retribuem,
mas não diz, adivinhe, aquieta
meu gosto pelo risco ligeiro do eclipse,
a emancipação da minguante humana,
manancial de tesouros livres no peito,
prende-me aos restos da natureza em flama,

trajando na pele um terno estapafúrdio
ao penetrar por suas coxas
hirtas, pressionando aflito com palma
cheia o fio que queima,
arde, quero, teima, treme nas trevas
até que, dócil, doo-me

ao peso das provocações,
mas abraçado pelas estrelas
num losango triangular
de lâminas luminosas, fachos
cujo centro implode só,
pérola prata, lua de nada

Árion Lucas

terça-feira, 27 de abril de 2021

O sistema

Velhas paredes
De velhos prédios
De velhas cabeças
Trabalhando em velhos sistemas.

Luiz Ricardo

terça-feira, 20 de abril de 2021

Coruja (incensário)

atenta ao fogo
descamando bravo em sinuosos sopros
por sobre minha cabeça
e olhos que (quase) tudo alcançam
a brasa e o aroma de alecrim se encontram
numa saturnália grave e acesa 

Daniela Cassinelli

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Um poema de Maria Carolina

história escrita à lápis
não sou eu quem me escreve
danço no papel desenhando
das letras às palavras
dos sonhos às tristezas
esperando um ponto final que me leve

Maria Carolina

terça-feira, 13 de abril de 2021

Um texto de Clara Luz

fui desmontada uma vez — lembro bem, era 2006, fiz o trajeto tijuca–ilha do governador apertada entre a cômoda e a cama. me reergueram no segundo andar de uma casa rua professor veríssimo da costa. ali fui leve, colorida, movimentada. ali o tempo passou rápido, acabou abruptamente, tudo aquilo que habitava as minhas frestas me foi retirado, guardado numa caixa, e eu (outra vez desmontada) guardada noutra.

quando fui ver o sol outra vez já era 2015. fui parar numa quitinete na ilha da gigóia, meu peso se tornou outro. já não era mais remexida com frequência — agora era cuidadosamente catalogada, mais pesada, as cores mais sóbrias. vez ou outra adicionavam mais um à minha coleção. vez ou outra vinha alguém à casa, tomava um café, tirava um de mim e partia.

hoje vivo em copacabana. não fui desmontada no trajeto. a proximidade com o mar me enferrujou, não sou mais desmontável. sou cada vez mais pesada. quase não cabe mais nada em mim.

Clara Luz

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Tênis

Eu sigo os seus passos onde quer que cê vá
Te aqueço no frio, estou sempre aos seus pés
Corro uma maratona com você se preciso for
Já passamos por coisas, que ó… Só o Senhor!

Nem tudo são flores, nós sabemos bem
Às vezes desfaço o laço que dou
Tropeço na rua, mas quero o seu bem
Fui feito para te trazer conforto e não dor

Só peço que olhe os caminhos que vai
E cuide de mim pelo tempo que for
Menina, você me calçou muito bem
Assino, seu tênis, com todo amor

Hellen Otaviano


terça-feira, 6 de abril de 2021

O poema da missa

O que importa é amar a todos
O que importa é amar a todos
O que importa é amar ao próximo
O que importa é amar a Deus
Cantavam todos em coro,
Porém ao saírem
Comentaram,
Viram a roupa de Maria?
Ridícula, não?

Luiz Ricardo

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Procissão da Santa adormecida

No andor se revela a razão da velha
bruxa vir ver as flores
toda hora nesta tarde,
longe de casa, na clareira que desce

Afinal, por ali passam monstros antigos,
o réptil labiríntico que
lhe recobre as decisões,
serpente do átrio que a fere na face,

seu demônio cortado engrandece-se
das outras, vampiro
de sangue velho,
derretido a cada falso perdão repetido,

assemelhado à cara da lembrança estuprada,
sua droga no bolso estragada
pelas garras fétidas,
vil espinhento com dentes corrosivos,

predador nas tocas, canta, depois arrota,
ele a engana, engata
mas ela vomita, esgana, e,
na lâmina, a carne podre do macho à cama

Árion Lucas

quarta-feira, 31 de março de 2021

Parto

Sinto-me o vínculo,

entre divindades celestes,
e sua Terra esquecida.

Sou o ser desadormecido,
E que pacientemente aguarda
Suas coléricas vontades.

De mim usufruem,
deste meio coxo e frouxo,
submisso aos seus caprichos.

Nutrem-se de minhas energias,
que me escoam pelos dedos,
e que pintam esta poesia.

Com tintas de cor do mundo.

Maria Ana Guimarães

terça-feira, 16 de março de 2021

Luto

O homem do meu tempo
é um maléfico animal bélico e irracional.
Movido por maquinações
abusa mulheres e crianças
pulsa dentro de si um coração recheado de insensibilidades.
No lugar de cérebro
Um cemitério de gárgulas à espera da carniça
do primeiro a desistir dessa guerra sangrenta pelo poder.
Abafada está a voz de Deus pelo homem bomba
que respira guerra, ingere balas e as vomita na boca de inocentes.
Somos todos rebanhos à espera da sangria.

Diego Wayne

quinta-feira, 11 de março de 2021

Habitado

Não habito
meus fantasmas

           escondidos em armários
           com portas e chaves

habito o desconhecido
álibi em criminosas

cenas e me afasto
na chegada da polícia

habito o hálito inconfundível
do demônio e o histrionismo

do ator entre cenas
                habito o espaço
                das paixões
                arvoradas: assobio.

Pedro Du Bois

quarta-feira, 10 de março de 2021

Poemarço em Salvador!


POEMARÇO, a festa

A literatura, talvez por estar tão atenta ao presente, pode até adivinhar o futuro. E, assim, a pessoa que faz poesia é uma anunciadora dos tempos. Na cosmologia iorubá o orixá Exu é o instaurador de agoras. A ialorixá Stella de Oxóssi disse certa vez: “Exu quer só estar se movimentando, fazendo tic, tic, tic no ouvido dos outros”.

​Se pensamos a/o poeta como quem inaugura agoras, esse tic, tic que ela/ele produz em nossos ouvidos são os chiados do nosso tempo. Poemarço existe para celebrar a poesia. Para celebrar a vida das pessoas que trabalham essa linguagem nos anunciando esperanças, delatando crimes, expondo feridas, sussurrando amor. Esse movimento de agoras é poesia e merece ser festejado.

​Entre outras coisas, a arte é uma elaboração estética das linguagens em associação com uma compreensão política do mundo. E essa primeira edição de Poemarço é virtual por atenção ao nosso tempo. Vivemos no Brasil uma pandemia. Os movimentos para sair dessa situação são mínimos. Este evento acontece como uma cena artística que deseja ofertar vida em meio a esse caos. A arte pode oferecer, quiçá, algum breve equilíbrio ao mundo. É nesse mortal mundo pandêmico que Poemarço acontecerá como um lugar de encontros e trocas de vida.

​É na poesia concreta, na poesia experimental, na poesia oral que buscamos inspiração para compor nosso evento. O poeta baiano Almandrade é o homenageado da festa. Os títulos das mesas, com poetas, tradutoras, tradutores, editoras e editores, os títulos das apresentações de poesia visual e das gravações de poemas, do sarau e da conferência de abertura são versos ou referências, e até mesmo títulos de livros dos poetas Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Gilberto Gil e da poeta Stela do Patrocínio.

​As poetas e os poetas que participam dessas mesas e apresentações não têm necessariamente relações estéticas com essas e esses autores. A proposta do evento é exatamente estabelecer trocas e privilegiar a diversidade.

​Poemarço se sustenta como uma festa atenta a discussões de gênero e raça e da presença e visibilidade de pessoas e de temáticas LGBTQIA+. Da festa participam mais de 40 poetas. Desse número, 75% são mulheres indígenas, brancas, e as negras são a maioria. Pensamos Poemarço como uma festa atenta a complexidade e diversidade das definições identitárias no Brasil. E que estabelece diálogos com a produção contemporânea de países de língua portuguesa, como Moçambique e Portugal. Do Brasil temos convidadas do Ceará, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Santa Catarina, Paraíba, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Com mesas de conversa, oficinas, videopoemas e sarau, Poemarço oferece cinco dias intensos de encontros com a palavra, nossa grande homenageada.

A festa tem apoio financeiro da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e da Fundação Pedro Calmon (Programa Aldir Blanc Bahia) através Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

Luciany Aparecida e Mariângela Nogueira (Curadoras)

Mais em: www.poemarco.com


quinta-feira, 4 de março de 2021

Um poema de Yasmin Barros

o volume das horas diz que é tarde
mas o olhar ainda traz algum alento.
o copo de cerveja acaba lento,
a cachaça na boca já não arde. 

o assunto na mesa se reduz
a fumar um e mais outro cigarro.
o silêncio sepulcral jaz no carro,
e a bebida, mais que eu, nos conduz. 

nítido desejo, pulsão de morte.
não sei se na intenção de prolongar-me,
ou de adiar o momento maldito 

atiro-me aos braços de minha sorte,
em êxtase, a ponto de afogar-me:
o impossível queda no não-dito.

Yasmin Barros

segunda-feira, 1 de março de 2021

Que tempos são esses, Ignácio de Loyola Brandão?

 

Há muito o que se perguntar a um escritor da grandiosidade de Ignácio de Loyola Brandão, ainda mais com a inata curiosidade de extrair de um acadêmico ideias, vivências e percepções do mundo. No entanto, foi impossível não pensar numa pauta para esta entrevista em que a palavra tempo não se fizesse presente nas questões, ainda mais quando se percebe o quanto a pandemia da Covid-19, causa da morte de quase 140 mil brasileiros, nos obrigou a lidarmos com a urgência do tempo. Quando iremos tomar a vacina que irá nos tirar desta incômoda paralisia da vida? Quando seremos livres para nos abraçarmos e nos aproximarmos daqueles que não vemos há mais de seis meses? Em março governadores decretaram a quarentena, e a partir daí o distanciamento social foi necessário para conter o avanço do contágio do novo coronavírus.

Em Tempo. Conheço o Loyola há mais de vinte anos, quando fora meu editor na revista VOGUE. Foi preciso o tempo de uma quarentena para despertar em mim a vontade de realizar a entrevista, portanto, o tempo é o hoje!
 

Elisa – Loyola, estamos sob a ameaça de um vírus, e em função disso, tivemos que nos isolar. No entanto, isolar-se não é nenhuma novidade para um escritor, que precisa mergulhar em seu interior para dali extrair personagens, criar uma história. Dentro do atual cenário, pode-se supor que agora escrever é isolar-se duas vezes, no individual e no coletivo? 
Loyola: Neste momento, Elisa, escrever é romper a solidão, sair do cômodo confortável, e procurar saber como os outros estão vivendo, sobrevivendo, sofrendo. Saber como tudo afeta cada um, como cada um, sem nenhuma experiência nesta situação, precisa se reinventar, descobrir uma nova forma de viver, trabalhar, se defender, sobreviver. Os personagens nunca são retirados apenas de nosso interior, mas de todos a nossa volta.  Cada personagem representa uma humanidade inteira. Perplexidade total. O que é isso aí? Vai terminar? Haverá outros momentos iguais? É uma praga tipo aquelas bíblicas que assolaram a humanidade? E a ciência? Tão desenvolvida e incapaz? E aí você pode calcular o tamanho do imbróglio.

Elisa – A escrita do próximo livro será afetada por essa realidade? De que forma?
Loyola: Será. Só não sei como, porque tenho um projeto na cabeça, mas não encontro o meio para desenvolvê-lo. Estou diante do desconhecido. Há mil faces nesta questão envolvendo vida, sobrevivência e principalmente morte. Ler jornais e ouvir notícias sem parar, como venho fazendo, não é suficiente. Pre de mais. Mais o que? Mais conhecimento de filosofia, historia, psicologia, antropologia, economia, até de religião e psicoterapia. Preciso me aventurar em projeções, invenções, imaginário. Preciso conversar com mais gente, mais, mais. Mas não posso encontrá-las cara a cara, posso matar o outros ou ser morto por eles. Tudo on line. Mas o humano se perde no on line, os sentimentos se esfacelam. Lives e mais lives. Mas as lives começam a me dar a sensação de que a fantasia entra dentro dela, as pessoas  te comunicam coisas idealizadas. O que gostaria que fossem e não o que são realmente. Não está, nem será fácil reencontramos conosco, ou com o outros. Como vamos conviver daqui para a frente?

Elisa – O livro Zero, escrito em 1974, ano em que eu nasci, é um grito por liberdade ante os tempos de chumbo que o país vivia pelo regime militar. Hoje parece que o tempo não passou. Clamam pela volta da ditadura, pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Isso significa que eu não nasci e o Zero foi censurado novamente. Que tempos são esses?
Loyola: ZERO foi um documentário feroz sobre um tempo feroz em que a vida humana e a liberdade nada significavam. Estamos lentamente mergulhando na mesma via de volta.  Reconheço uma coisa, havia certa inteligência nos militares. Nos dias de hoje estamos diante da mediocridade, da ignorância, do reacionarismo fatal, de pessoas toscas, semianalfabetas. Estamos retrocedendo, caminhando para trás. Cultura ameaçada, liberdade de expressão também. O cerco é maior a cada momento sob o comando de um homem que quer armar mais e mais o povo, um homem cuja mente é regida pelo manual de um dos mais sangrentos torturadores dos tempos ditatoriais. [Loyola se refere ao ex-chefe do DOI-CODI, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de crimes de tortura, que foi citado pelo então deputado federal, Jair Bolsonaro, quando do seu voto a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, uma das vítimas do torturador]. Usos, costumes, moral, hábitos, tudo tem cheiro de ranço. As queimadas não são apenas amazônicas e no Pantanal, são também nas ideias e na filosofia e na maneira de viver.

Elisa – Um grupo de amigos compôs a canção Que tempos são esses que falar de amor é quase um crime [composição de Zé de Riba e Walmir Pinto]. Loyola, falar de amor é quase um crime, um ato revolucionário ou um grito solitário?
Loyola: Falar de amor é crime, porque a fala agora é de ódio. Odeie o teu próximo. Cada vez mais. Nunca vi tanta polarização, antagonismo, inimigos criados a cada momento. Famílias divididas, dilaceradas. Como viver alimentado pelo ódio, se este nos corrói, nos envenena, nos provoca úlcera e câncer, nos destrói internamente? O ódio em vez de trazer vida, traz morte, destruição, nos envenena, nos afasta, enraivece, consome.  O ódio traz solidão e amargura e ninguém nasceu para viver solitário.

Elisa – Vamos dar uma leveza na entrevista. 2019, ano da sua posse na Academia Brasileira de Letras, (Loyola ocupa a cadeira de número 11 da ABL), aos 83 anos de idade. Houve um tempo em que acreditou que pertencer à ABL não seria um sonho possível? 
Loyola: Nunca foi sonho. Foi a partir de um determinado momento, já maduro. Nem imaginava ser candidato. De repente, me vi eleito, com a mídia proclamando: “Enfim um escritor”. Eleito por unanimidade. Lá estou. Veio a pandemia, acabaram as reuniões, nos distanciamos. Enfrento uma nova academia. Estive em duas reuniões, ainda não sei como é. Apenas sinto que temos lá imensa responsabilidade e não podemos nos afastar do mundo real.

Foto: Arquivo Pessoal


Elisa Marina

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Conta-se o conto até a última gota

Tudo começa e termina na vida com aquele som. O som líquido, aquático e cursivo comum às palavras. Do despertar nostálgico à indefinição confusa e infinita que compõe o léxico do existir. Às vezes me pego lembrando. Espera. Não. Sempre.

Tudo começa e termina na vida com aquele som. O som doce e molhado da sua voz. Acho que ali você nasceu. Gotejava palavras lânguidas como longas lambidas da língua. Linhas não são suficientes. Eu sempre fui um. Em algum momento fomos dois. Lembro do medo e de desconfiar que pudéssemos ser três. Ai, não. Espera. Há muito perdi a conta. Mas o que é que estava contando?

Algumas palavras gotejam na minha mente. Latejam sempre. Tanto, que as vezes me pego cantando. Espera. Não. Cantando o quê? Não, não, não. Tem que contar direito! Eu sei que você começou para mim em algum momento. Me lembro que éramos dois. Não. Três, finalmente. Acontece que nunca gostei de lugares cheios, mas tudo sempre começa e termina com aquela música. Qual era mesmo? Uma que você cantava e que me fez dançar também! Não, não. Espera. Já não consigo mais contar quantos cantam. Seríamos só nós dois?

Às vezes me pego lembrando. Mas quem era você? Não me vem à mente agora. É falha a memória. Talvez depois. Não, não, não. Espera! Lembro sim de um som. Era o som áspero e atordoante das suas novas palavras. Não consigo me lembrar o que você gritava. Você jorrava no ouvido. Doía. Doeu bem forte. Doeu duro. Profundo. Ali sei, naquele momento, que éramos dois. Dali sei que só restou um. Há muito perdi a conta. Mas, afinal, o que é que estava contando mesmo?

Às vezes me pego tentando lembrar onde você começou. Bem, não importa mais. Você escasseou e eu agora terminei.

Daniela Suarez Pombo

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Três Riscos, poema de Arthur Henrique Martins

risco I:
 
se tu és o penhasco,
não desejo outra queda.
 
risco II:
 
entrastes em minha casa
e contigo toda poeira da rua.
 
mas viestes com espanador em mãos.
 
risco III:
 
corpo rijo em pendulares.
de um lado a outro, tu no meio.
conservado o movimento em newton.
até que o tédio dos ângulos opostos rompeu a corda.
 
o mundo não tem braços.

Arthur Henrique Martins

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Um poema de Leonardo Janeiro

o destino talvez não venha bater à porta
nenhum movimento que o anuncie
nada a que se chame instante
entre antes e além

o destino muito provável que seja isso
eterno estar aquém
à deriva sempre sem início
onde chegar não tem

Leonardo Janeiro

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Série de Leituras Abertas no insta do PB





Mais um espaço a ser ocupado por vocês: às terças, postamos vídeos de leituras de poema nas redes sociais, sem prazo para acabar.

O vídeo deve ter de 1 a 10 minutos de duração, e ser filmado com o celular em pé e — atenção — sem cortes.

Para participar, envie o vídeo em anexo para contato@jornalplasticobolha.com.br, com o assunto [LEITURAS PERFORMÁTICAS] + nome de poeta. No corpo do e-mail, o @ do instagram, o poema por extenso com título, se houver, + nome do autor — se for autoral, indicar. Até 3 vídeos por pessoa! 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Publique no Insta do PB!




É isso: mantendo a nossa tradição, vamos abrir mais um espaço para publicação de poemas, desta vez, pelo Instagram! Toda segunda-feira, sem prazo para acabar, publicaremos na página @jornalplasticobolha um poema enviado por vocês, selecionado pela nossa equipe de curadores. O tema é sempre livre e o formato, também, respeitando as limitações da plataforma:

poema em [VERSO]: .doc curtinho
poema [VISUAL]: 1080 x 1080 px (quadrado), 1080 x 1350 px (retrato) ou 1080 x 608 px (paisagem)
[VIDEO]poema: até 1 minuto, seguindo as dimensões acima

Para participar, envie o seu poema em anexo para contato@jornalplasticobolha.com.br, com o assunto [CHAMADA ABERTA PERMANENTE] + nome de poeta. No corpo do e-mail, apenas o @ do instagram, se tiver. Até 3 poemas por pessoa!

Compartilhem, marquem seus poetas prediletos e sigam a #chamadaabertapb para ficar por dentro!

terça-feira, 21 de abril de 2020

O papagaio


Uma vez ao meio-dia forte o meu fracasso ardia
Entre os livros tão banais que invejo não fazer iguais.
Como estava quente! e a luz do sol queimava Santa Cruz;
Quando o sono me é demais, escuto a impor os sons boçais
Golpes nunca assim cabais, à minha porta, os sons boçais;

Isto só - e nada mais!

Certo lembro-me era março - já sem grana nem disfarço -
Lia as críticas finais aos meus poemas tão formais...
Todas dizem - todas, sim! - que sou poeta bem ruim:
Meus fracassos são brutais, e agora ao ver vexames tais,
Todo um ego cai p'ra trás ao ver os seus vexames tais!

Golpes ouço - e nada mais!

É a dona de onde vivo - assim sussurro sem motivo -
"Ela deve ser, atrás de mim de novo, em dons astrais,
Quer as contas que eu não pago e sem carinho, sem afago,
Bate à porta em formas tais: batidas altas, sempre iguais,
São os sons que vêm mensais querendo quase mil reais";

Ela só - e nada mais!

Velha astuta, sente o cheiro quando ganho algum dinheiro,
Quer me dar lições morais - lições que julga vir dos pais -
Puto eu abro a porta, e o riso então agudo e sem juízo
Cai-me como nunca mais: na porta estava ali detrás
Seu José gemendo os ais de Cristo ao ler os seus jornais;

Seu José - e nada mais!

"Boa tarde, Seu José!" - lhe disse a rir, zangando-o até -
Nem responde e aqueles ais, ranzinza, geme a ler jornais!
"Quer ouvir poemas, Seu José, algum poema meu?" -
Ele apenas lê jornais e geme aqueles chatos ais...
Prosa tola ali detrás - e os sons agora aumentam mais!

Prosa tola ali detrás!

Para o quarto, então, voltando, sinto ainda os sons vibrando,
"São vulgares animais que batem na janela mais..."
Deles rindo agora, aos tombos, digo: "São aqueles pombos
Cujas caras desiguais se batem na janela mais -
São vulgares animais que têm as caras desiguais!

São os pombos, nada mais!"

Frente, pois, a tal janela, abrindo-a sem qualquer cautela,
Pronto, vejo ali detrás, no parapeito, em tons reais,
Um divino papagaio, que me olhando de soslaio,
Entra logo como um ás no quarto, e pousa bem atrás
De uma vela aos orixás - e, assim, dali não sai jamais;

Entra - e pousa - e nada mais! 

Senta ali enquanto escrevo, e num arroubo assim me atrevo:
"Louro, as plumas tem reais, e certo ilustres ancestrais!"
Mesmo que isto não se faça, digo: "Qual a sua graça,
Louro de épocas reais?" Dourado e verde até demais,
Ele, de épocas reais, não vai me responder jamais!

Diz o louro "Quero mais."

Quanto gosto ouvir seu nome, enquanto o tempo se consome,
Já que um nobre aos serviçais não fala frases pessoais!
E esse louro fala-me algo que não diz nenhum fidalgo:
Fala o próprio nome e mais, o louro de épocas reais,
Pois ninguém ouviu sem ais de um nobre nomes tão vitais,

Quanto o nome "Quero mais."

Não se presta a movimento algum enquanto ao pensamento
Vêm-me as críticas finais dos meus poemas bem formais -
Eu murmuro alguns dos versos, vendo como são perversos
Esses críticos - e mais murmuro os versos bem formais:
Olho a vela aos orixás, e quando vejo ali atrás,

Diz o louro "Quero mais."

Tão surpreso com a fala que uma dúvida me estala:
São respostas usuais que seu senhor lhe disse tais,
Desse mestre, que corrupto, o tempo teve ininterrupto
Para lhe ensinar as tais palavras - tramas usuais
De um político que mais deseja verbas ilegais;

Tramas são o "Quero mais."

Para toda a minha cisma não olhar em um só prisma
Alto leio verso atrás de verso - e versos ancestrais -
Para a vela que me assombra, de onde vem do louro a sombra;
Pois espero instantes tais aflito como nunca mais,
Pois espero instantes tais olhando-o como nunca mais!

Diz o louro "Quero mais."

O ego se infla novamente, existe um louro que me sente;
Quem me criticou demais, o louro de épocas reais,
Dá na cara e pede bis - bem feito para os imbecis!
Meus poemas ancestrais eu leio todos sem rivais.
Quando findo os recitais, e não possuo um verso a mais,

Diz o louro "Quero mais."

Ora, louro, já lhe li aquilo tudo que escrevi,
Pede, pois, ainda mais daqueles versos ancestrais!
Não possuo e não consigo novos versos, louro amigo,
Vê agora que não mais possuo versos bem formais,
Vê agora que não mais possuo versos bem formais?!

Diz o louro "Quero mais."

Todos já lhe foram lidos - louro de hábitos polidos -
Pois, pergunto: "Foram mais mentiras brancas, cordiais,
Só falou palavras boas que esse mundo de pessoas
Já me disse tais e quais, de meus poemas ancestrais,
Pelas redes sociais; que quer de meus poemas tais?!"

Diz o louro "Quero mais."

Nessa frase encerra a fraude, o mundo finge quando aplaude,
Só palavras cordiais que desonestas são iguais!
Como ao Face me elogia numa frase tão vazia,
Diga lá, em tons reais, que quer nas falas cordiais?!
Diga lá, em tons reais, que quer dos versos ancestrais?! 

Diz o louro "Quero mais."

Basta de cordialidades - nem mentiras, nem verdades -
Sejam as palavras tais, palavras pois então finais!
Não esqueça a sua pluma, mas não lembre estrofe alguma 
Desses versos ancestrais, pois não possuo um verso a mais;
Vá, enfim, me deixe em paz, que exausto não aguento mais!

Diz o louro "Quero mais."

Sua sombra qual ruína - ou glória -  vira a minha sina:
Quer os versos bem formais, e ao chão me pede mais e mais;
Pois agora bate palma, e quando quase não se acalma,
Para o chão me puxa mais, e em gestos sempre cordiais
Pede bis, e pede mais, e a minha vida leva e traz,

E esse bis - não quero mais!

Guilherme Ottoni



Guilherme Ottoni é colaborador constante do jornal Plástico Bolha e, dessa vez, nos brinda com esta bela recriação do poema clássico "O corvo" de Edgar Allan Poe, vertido para o contexto nacional.

domingo, 19 de abril de 2020

Arquivo, poema de Frederico Spada Silva


Colecionava miudezas,
pequeno e íntimo
museu de fragmentos
coletados ao acaso —
como a própria vida.

Frederico Spada Silva



Frederico Spada Silva é autor de "Coleção de ruínas". Publicou três livros de poemas, além de manter um canal no You Tube com depoimentos ligados à cidade de Juiz de Fora. Como editor e revisor atua nas Edições Macondo (MG).

sábado, 18 de abril de 2020

Três poemas de Vinni Correa


Erotismo motivacional

mesmo com a imensidão
são as pequenas coisas
que crescem com o tesão



Milf

mama mia
mama tua
mama todos



Matador alfa

já que touro alvo
o corpo é a arena
o buraco é o alvo

Vinni Correa



Vinni Correa é pornopoeta, autor de "Coma de 4", "Literatura de Bordel", "Lunch Box" e "Sexo a Três".


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Um poema de Alice Sant'Anna


quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

Alice Sant'Anna



Alice Sant'Anna (Rio de Janeiro, 1988) começou a escrever com 16 anos. É autora de "Dobradura". "Pingue-Pongue", "Rabo de baleia" e "Pé do ouvido". Atualmente mora em São Paulo.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Guia, poema de Adalberto de Queiroz


A minha solidão desperta-me, convocando
a um retiro longo e silente —
no mar Cáspio, diante do imaginário.

Trama transporta-me célere
ao deserto de Owami. Sozinho, posso ver
as vidas dizimadas em aldeias africanas —
naufrágios variegados,
embarcadiços da Esperança.

Imaculee Ilibagiza segredou-nos
o desastre — salvados somos
Tu e eu, leitor irmão, à imaculada
Madonna Nera clamamos:

Vinde Mãe Santíssima, em nosso socorro,
Valei-nos, Nossa Senhora da Guia!

Adalberto de Queiroz



Adalberto de Queiroz é autor de "Destino Palavra", Goiânia, 2016.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

mulher de malandro, poema de Angélica Freitas


mulher de malandro
malandra é
vai dizer que não pode
ser verdade
os dois, marido e mulher
vivendo na malandragem
na maior malandragem
permitida pelas engrenagens
do sistema capitalista
não são zen, não são budistas
não tem trabalho à vista
e se têm, fingem que não veem
hoje não fazem nada
amanhã vão passear
e nem sabem quem foi o henry miller

Angélica Freitas



Angélica Freitas nasceu em Pelotas (RS) em 1973. Publicou dois livros de poemas "Rilke shake" e "Um útero é do tamanho de um punho", além da HQ "Guadalupe", com arte de Odyr.

terça-feira, 14 de abril de 2020

matrioshka, poema de Caio Carmacho


você é como uma boneca russa
dentro de outra boneca russa
dentro de outra boneca menor
e russa

quantas personalidades uma mulher
pode ter?

só os futuros cientistas
poderão saber
em uma autópsia exata de sua psique

mas não saberão de ti
o que sei

o estrondoso momento
que precede os dias sangrentos

Caio Carmacho



Caio Carmacho nasceu em São Paulo, cresceu em Paraty e mora em Piracicaba. Escreve no blog Noutratez e organiza o sarau Picareta Cultural. É autor de "Livre-me", da coleção Patuscada da editora Patuá.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Pneumonia, poema de Carlos Cardoso


Há em meu peito uma praga!

O que em meu ombro pousa
não é uma chaga que repousa
nem um filho mau
que advém da graça divina.

Em um lado do peito o catarro infiltrado
encrosta em minha imunossupressão
e me deixa artifícios para uma noite morte.

Quão assim sou elevado estranho?
Tamanha é a dor que revolta e me ilude
com a vicissitude de que a morte chegue
e com ela o deslumbrante alívio.

Tenho que dizer-te que viver para mim
é quase sempre um tormento.

Há quem comigo conviva
que diga que sou a própria morte,

pois, por tanto amar a vida,
quando ela, a morte, me convida,
em face do sofrimento que finda,
eu parto agradecendo a sorte.

Carlos Cardoso



Carlos Cardoso é engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor do livro "Melancolia", vencedor do prêmio APCA 2019 como melhor livro de poesia.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Novo Jornal Plástico Bolha: Edição Latino-americana n° 2





Após um período de recesso o Plástico Bolha está de volta saudando nossos hermanos da América Latina. Nessa edição mais do que especial, poetas de todo o continente reúnem suas poéticas variadas para dar vida a esse encontro de versões nas páginas de nosso jornal. Acompanhe o lançamento também nas versos criadas especialmente para as redes digitais. É uma alegria para nós dar continuidade a esse projeto de união latino-americana através da poesia. E se você não conferiu a primeira edição basta clicar aqui.


Agradecemos mais uma vez os nossos apoiadores que, via Apoia.se, mantém vivo e ativo esse projeto de difusão poética:

Dani Pinheiro
Daniel Gil
Ana Paula Grillo El-Jaick
Maria Silvia de Souza Camargo
Lina Nunes Gomes
Mônica Gomes Azevedo
Bruna Peleio Amorim de Mattos
Marcello da Silva Azevedo
Saulo Dourado
Beatriz Junqueira Pedras
Fernanda Cordeiro Gazola
Pedro Vinícius do Valle Tayar
Domingos Guimaraens
Marília Rothier Cardoso
Laura Gurgel
Chiara Ciodarot Di Axox
Aline Teodoro de Moura
Paulo Henriques Britto
Lucas Brandão
Luiza Mussnich
Alexandre Bruno Tinelli
Francisco Pereira dos Santos
Barbara Brunbauer
Thiago Ferreira
Demetros Gomes Galvão
Gloria Regina Bandeira de Araujo
Thassio Ferreira

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

terça-feira, 8 de outubro de 2019

As senhoras da Gávea


Elegantes echarpes coloridas,
As suas joias são de azul-turquesa,
Possuem as vontades reprimidas:
Eis as damas da elite assaz burguesa!

Desfilam pela Gávea com seu brinco
Abrilhantado pelos seus diamantes!
E buscam o prestígio com afinco,
E rancorosas guardam-se pedantes!

Nas festas, nos seus chás, nos seus cafés,
No meio do marido infame e afoito,
Podemos enxergar o vil revés
Das saudades do século dezoito!

Sem corromper seu senso de justiça
No Domingo comungam blasfemadas!
Fazendo a caridade tão mestiça
De dar a esmola aos pobres nas calçadas!

Seus colares imensos de esmeralda
Refletem o sarcasmo deste mundo!
E o seu orgulho apenas se respalda
Na inocência do peito vagabundo!

São tolas, e o que têm de criminosas
Possuem também de índoles de santas!
Perdidas nas tragédias orgulhosas
De abafarem os gritos das gargantas!

Marido e filhos para olhar apenas
Das damas tiram todo encanto e luz...
E entristecem as vidas tão pequenas
Que ao padre prometeram sob a cruz!

Nem sabem que declinam por sofrer
Ao descobrir o esposo com a puta...
E choram ter perdido o seu poder
Das juvenis belezas em disputa!

Nenhum relógio marca o sofrimento
Das senhoras singelas e tão cultas,
Das senhoras que têm o sentimento
Oculto em terapêuticas consultas!

O seu pesar apenas se compassa
Na hierarquia fatal dos bons costumes...
Pois do que querem - vã vontade escassa -
A regra diz que querem só por ciúmes...

E das normas impera a língua má:
Se mais prata tiverem nos talheres,
Mais tristes riem risos, mas será
Que sofrem como todas as mulheres?

Guilherme Ottoni