segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Ressaca


como se o sono fosse o mar
dormi com saudade
acordei com saldade

Andressa Coutinho

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Tormento


Astro maligno
poeira no vento
silêncio no escuro
do apartamento

informo
aos meus sentidos
o lamento

é um só
não aguento
o tormento.

Carlos Cardoso

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

gênese II


no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.

Gregorio Duvivier

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

cavalo marinho


meus passos pela terra exibem certeza 

quando olham para os seus 

vagarosos 

de encontro contra a correnteza 

sei que trocamos os papéis 

e seu corpo de cavalo te implora a languidez da água 

enquanto o meu 

de serena sereia 

suplica a espessa dura beleza 

que sustenta uma pegada na areia

Paula Reis Vianna

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

QUEBRA-CABEÇA


Um dia vai descobrir
É necessário errar
Pra evoluir.

Monique Nix

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

war, poema de Paula Reis Vianna


estou na cama— 
sem roupas, sem tropas 
a cerca de 70 passos do mar

se solto o pensamento 
volto àquela criança 
sua insatisfação dinâmica me fez lembrar da minha
antiga 
presente na palpitação cardíaca

mas ontem era noite 
e a criança saiu irritada 
farejou o descaso com a guerra 
o segredo suspenso entre os adultos: a trégua
verdadeiro conluio para que fôssemos dormir

saiu bufante 
criando um conflito determinante: o seu
e que portanto ninguém teria o poder 
de desfazer
batia os pés emburrada 
sumindo nos degraus de cimento 
e nós enfim pudemos 
desfazer os territórios 
afrouxar os limites 
e jogar como adultos jogam 
à condição de mortais

Paula Reis Vianna

domingo, 21 de janeiro de 2024

Um abraço


Um abraço apertado
despedaça até
a mais robusta
dor.

Márcio Kozlowski

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Arquivo


Colecionava miudezas,
pequeno e íntimo
museu de fragmentos
coletados ao acaso —
como a própria vida.

Frederico Spada Silva

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

pornô


um homem não perde
a oportunidade de gozar
da cara
na cara
de uma mulher

Anelise Freitas

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Um poema de Paula Reis Vianna


dorme-se um, acorda-se um

pouco diferente.

nada grave: um dia mais tarde.

pra sempre será

assim.

até não ser mais, 

e então será bom

— morrer

de tanto mudar. Paula Reis Vianna

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

EU


    sou pequeno
o intelecto me basta
mas quero meu físico na tua cama
— me arrasta?

Pedro Rocha

Ressaqueando


Ressaqueando

ou ressacando,

sacando a lição Ressaca, saca?

Seu passar saqueado pelo saque dessa noitada.

Dessa, mais uma. Desce mais uma

e vai ressaqueando no dia seguinte o giro da cuca

que por pouco luta pra se manter

na labuta e ganhar de novo

a linha dessa ressaca tão justa.

Yan de Holanda

sábado, 30 de dezembro de 2023

Um poema de André Dahmer

1.

não sentir medo

nem andar com pessoas

que sentem medo

2.

não subir a serra

para respirar ar puro

lutar por ar puro

na cidade em que você mora

3.

não invejar

o voo dos pássaros

o sono das plantas

a luz do sol

brilhar no escuro

do apartamento André Dahmer

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

ernaux

quando acabo a leitura
me demoro na foto da capa 
ela está  bonita
com o braço apoiado
de modo a ser cortado
pela moldura

ela está bonita
e eu
abro
o livro ao meio
tentando realçar o efeito
inclino a capa e agora
a sombra da brochura
corta metade do braço fora

o retrato dessa perspectiva o afina
à semelhança da atrofia
típica de um braço mórbido
e me agrada poder ser bonita assim
de batom vestido relógio

mas gosto mais ainda pois penso que ela me ensina
a trabalhar na escrita um palco
retirar as memórias
de seus cubículos
fazer das lembranças
um espetáculo

Paula Reis Vianna

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

SONETO EMPOEIRADO


Nos museus, por todo o mundo afora,

nas sessões de antiguidades há sempre

a série sem fim (caixa de pandora)

de cumbucas ancestrais. Ele cumpre

a tradição, criança não demora:

nada de interessante nessas coisas,

naquelas cumbucas… Já nessa hora

eu só queria ver os tais sarcófagos.

Mas ao chegar em casa, hoje, jantei

com uma cumbuca de porcelana.

E, enfim, depois de uma eternidade, pensei:

Que coisas fabulosas são as cumbucas

ancestrais. Eu, você, os próprios neandertais

Comemos nas mesmas cumbucas, dos mesmos materiais. Vicente Valle

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Um poema de Alice Sant' Anna


quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

Alice Sant' Anna

domingo, 24 de dezembro de 2023

ESCOMBRICÍDIO:


O੫ çAh
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                                        In
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CrIAR al-AzAR,
DIVERTKOSMOS
Fullllll
א-oS κopos

⇅ i'm A
Oᖷ eՒ EՈdA ≥
Mᐿ
I ≈ Mcપmხa, tá?

νIԎuᵽé=ᕬr

Sandro Silva

sábado, 23 de dezembro de 2023

Rotina, Nilo Nobre


Um dia, 
Como outro dia, 
Como outro dia, 
Assim vou devorando os anos.

Nilo Nobre

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Ícaro


ali
avenida primeiro de março
estropiado entre buzinas
e gritos de todas as gentes
que largo mão do sol
para recomeçar a Terra Ismar Tirelli Neto

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Passado e presente


Já fui garoto das chuvas.
Fui, por longo tempo,
menino nas tempestades.
Um ser dia cinzento.

Hoje, sou homem do sol.

Thássio Ferreira

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Gazel para um amor virtual de uma oficina poética, uma ousadia de Vicente Valle


Querida, Zilka, já não sei se vale,

ao teu talento, nada equivale.

Me apaixonei pelos teus lindos versos.

Quero vestir o teu mui belo xale.

Quero declamar a ti todo o meu

amor, mas sem que nada encavale.

Que você venha se casar comigo,

no contrato sagrado assinale.

E se um dia sentires enorme raiva,

me mate, esvazie, e logo me empale.

E se mesmo no Fim do Mundo Todo,

você ainda quiser que eu pedale,

é só sorrir pra mim, e eu pensarei:

“É a mulher da minha vida. Dá-lhe!”

Sou eu, o homem mais feliz do planeta —

Vicente Ruiz de Gamboa do Valle!

Vicente Valle

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

GAZEL ENJOADINHO

Meu caro Hafiz, achei tão belos

os teus gazais — gazéis? gazelos? —


achados numa antologia

que resolvi também fazê-los,


quer dizer, pelo menos um.

Porém a musa aos meus apelos


se fez de muda, e em pouco tempo

fiquei arrancando os cabelos.


Mais tarde, respirei bem fundo,

consultei mais alguns modelos


e pensei, após devorar

um pacote de caramelos:


“Vou conseguir, ou não me chamo

Zilka do Amaral Vasconcelos!”

Zilka Vasconcelos

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

desobediência do estado civil

que se faça essa reforma

meu deus que me importa

e se tanto te importa vai

faz aí tuas revoluções

aproveita e faz também por mim

as minhas malas que eu não consigo

que tô de ressaca enfia por mim

minhas coisas nas caixas

faz teus votos de cassação

ou castidade que pra mim

dá no mesmo eu não ligo


vai muda o nome no contrato

um nome é só o que se gasta

da tinta da caneta: um mililitro

um papel não muda muito

a vida a casa

vamos e venhamos

quanto mais você quer

apagar meus rastros

mais você confirma

que eu existo


pode brigar sozinho pelos

pratos pelos impostos

sonegados ninguém

vai me vaiar anyways

quando eu sair pela porta

da frente com uma mão atrás

e outra fumando


eu só fico

impressionada com uma coisa:

tudo se ajeita a vida segue

com golpe ou sem golpe

com ou sem sete de setembro

jajá estaremos acostumadíssimos

que horror

já saber se a vida segue

sem você isso eu

não sei

mas hoje não vou protestar

vou dormir Adelaide Ivánova

domingo, 17 de dezembro de 2023

Um poema de Mariana Fonseca

A forma da sua mão tece.
Aquilo pra mim é tudo. O amor das suas mãos, seus dedos firmes que me erguem e me limpam o traseiro. Me saboto, me dobro até onde quero e depois choro por não saber voltar. Você me abraça, me recolhe do mundo e me da leite de beber. Gravo teu rosto em ferro forjado e queimo os dedos desenhando tua boca. Seus olhos são os primeiros e os mais lindos que já vi. De costas pra vida só sei falar a tua língua, mamãe.
Mariana Fonseca

sábado, 16 de dezembro de 2023

carme


missão ingrata te arriscar
um poema esta hora da manhã.

veja, pessoas feito nós tem uma
certa predisposição a acabar
enroladas entrelaçadas ou cegas
quando chega o fim da noite.

puta classezinha
de enfermos e o mundo
nos ruminando sem trégua
seus dentes de alumínio

afiado palitar teu diastema
com nossas costelas
guardar as vísceras
para lugares mais obscuros.

que bom que sorte
somos como cáries, meu amor
somos como parasitas
abrindo buracos em bocas dóceis
bocas de fumo e dicionários.

veja, é necessário confundir
as línguas por favor entenda
não é que eu acompanhe
religiosamente o MasterChef
mas

neste dia que foi decretado
como o nosso — talvez
valha a pena mesmo
se juntar às terças onde
o sol não possa nos castigar

jantar os cacos
shimejis e torradas.

Kiki

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

AUTORRETRATO EM TRÊS MINUTOS

dois parafusos e um marcapasso dois corações um pai uma mãe e um irmão quatro namorados  uma costela a mais pavor de piolho nunca fui a disney nem comi hóstia mesmo tendo feito  primeira comunhão tenho pavor Maria Santos

quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

curitiba

o amor é história para se viver com pele vá tirando os casacos

Francisco Mallmann

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Um poema de Ana Estaregui

tudo será um limite

escrever com uma ou duas mãos

poder engolir somente pela boca

não poder ver uma tamareira nascer

e dar tâmaras

as palavras terem sentidos

andar e não andar

dormir e não dormir

nascer, ter um filho,

dar-lhe um nome Ana Estaregui

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Um poema de Luna Vitrolira


não conheço uma mulher que não tenha

amado seu travesseiro

que entregue aos instintos

rezou ao tocar seus seios

ao se enfiar os dedos

gemendo em quase silêncio

com medo de ser vista por deus e excitá-lo

Luna Vitrolira

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Duas mãos e o sentimento do mundo (VI)


VI. Considerações finais

Carlos Drummond de Andrade tem um papel fundamental na literatura lusófona, não só na própria produção, mas também no que diz respeito ao fazer poético. Sua inquietude e gauchismo o tornaram um autor profundamente crítico, inclusive de si, mas sua natureza era de uma sensibilidade única, como relata o escritor Silviano Santiago:

Há várias questões na poesia dele que você percebe que foram colhidas com o tempo, pelo contato humano com gente que enriquece. Agora, tem que ter saco e ele tinha. Ele detectava uma faísca e ia atrás dela.

Tenho duas mãos e o sentimento do mundo; assim abre o poema Sentimento do Mundo, integrante do livro homônimo, publicado em 1940. Com esses elementos, o poeta deslumbrou a verdade e tantos outros mistérios do viver e do sentir. Seus poemas, tanto subjetivos, são profundamente acolhedores nas dores, revoltas, amores ou outros afetos. Era um verdadeiro minerador do outro, ao passo que utilizava de sua sensibilidade e singeleza no cuidado com a produção poética e na forma que a direcionava e redigia.

Um dos fatores mais curiosos da Antologia Poética é a sua seleção e divisão, feitas por Drummond em cima de sua própria obra, e a certo ponto, sobre si mesmo e sua história. Parte de sua trajetória de vida está atravessada nestes textos e na forma que estão organizados: o ferro na alma, fruto de Itabira, sua vinda e permanência no Rio de Janeiro, a perda do filho, o envolvimento político, as paixões amorosas; suas ideias de justiça, revolta e sono, como descrito no poema Os Últimos Dias, e tantas outros pontos marcantes de suas vivências. O poeta das nove faces da antologia era, ainda, o menino de Itabira do Mato Dentro, expulso do colégio aos 17 anos por insubordinação mental. Era, também, o poeta que aventurou-se no meio do caminho, risco que reverbera até os dias atuais. Um mestre em versar inquietudes de qualquer âmbito, Carlos Drummond de Andrade e sua poesia afetam, atravessam e narram a realidade até hoje, mesmo 120 anos depois de seu nascimento e 35 anos de seu falecimento. O pensador e escritor Ailton Krenak crava: Drummond caminha entre nós, com suas palavras gentis e gestos de indizível graça, como se evitasse fazer algum desnecessário ruído (KRENAK, 2023).

Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas que tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem ditongo eu mesmo 
o vivido e o inventado.


Luisa Issa 

 

GREAT WHITE SHARK


heard she saying
love is a short boat
desire is
the open sea

Matheus Hotz

domingo, 10 de dezembro de 2023

Um poema de Abel Silva


Escrever
como minha mãe
catava feijão.

Separando o grão
do que não se come,
com os olhos, as mãos,
e a precisão
da fome.

Abel Silva

sábado, 9 de dezembro de 2023

Um poema de Chico Alvim


Paixão.

Se tivesse um remedinho contra
eu tomava.

Chico Alvim

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Um poema de Mariana Fonseca

Um sol duro.
Um pequeno menino brincando na piscina antes da ceia.

A água clara, a piscina rasa e o pai
do menino (aqueles dois prédios cercando a piscina, trazendo uma sombra desagradável, que cortava a vida ao meio).

Minha cachorra caindo desesperadamente do décimo
terceiro
andar.

Minha avó assistindo tv na sala.
O porteiro que não soube avisar
os parentes chegando com suas tortas, perguntas
e
outras consolações preparadas.

O menino na piscina, a cachorra caindo.

O pai,
a água
(e aquele barulho desagradável que cortava a vida ao meio). Mariana Fonseca

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

tip toe thru the tulips


esta noite sonhei que corria
em um vasto jardim de tulipas
era um cenário sinuoso e soturno
como são sempre os jardins livres
 
eram flores de silhuetas enganosas
e vestidas com as cores da derrota as
nossas derrotas que de tão ordinárias
formam quadros quentes surrealistas
 
ali me sentia em casa era um campo como
uma cidade uma cidade como um crime
tantos crimes todos suculentos e macios
era um segredo doce por detrás dos dentes
 
mas era também ou sobretudo a cova rasa
das bestas e beatos banguelas que foram
tantos guerreiros esmagados pelo Tempo
pois contra o Tempo não se ganha nunca
 
e havia algo entre calor e desejo no ar
um bafo santo que sopra sempre e sempre
adiante mesmo que exista medo ou saudade
no fim é a mesma coisa eu estou tremendo
 
penso agora em você e já está chovendo
os jardins são campos de batalha adormecidos
as tulipas são demônios de pernas curtas
e o céu é um abismo esfomeado chamando
 
amanhã talvez uma pérola se realoje no meu
ventrículo e eu reencontre a pulsão pela qual
uma veia não será nunca apenas uma viela por
onde se bombeia a cor que vale a potência da vida
 
admiro o brilho nos olhos dos que estão sempre
prontos para as grandes guerras que se demoram
e por mais sinistro que isso possa parecer
acreditem eu ainda estou falando de amor

Kiki

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

homenagem à cesário verde


minha prima me ligou de manhã
lá pras nove
pra dizer que o burro
da vizinha da esposa do seu tio homero
havia falecido de mal súbito
(como os verdadeiros heróis, completou)
não sou boba nem nada
(nada mesmo)
e fui atrás desse burro
prestar serviços à comunidade
também sou burra
como um burro
fico de quatro e adoro morrer
subitamente
mas isso cesário verde também fez

Maria Santos

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

censorial, de Vinni Corrêa

toda vez que um mamilo democrático se atrevia a protestar pelo decote o censor dava-lhe com o pau por mera ordem do orifício

Vinni Corrêa

INNER


sur

presa 

de

ser

quem 

sou

sem

outer

nativa Zilka Vasconcelos


segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Duas mãos e o sentimento do mundo (VI)


VI. A procura da poesia

Na sétima sessão, Poesia Contemplada, o autor mineiro explora a própria produção da poesia. Os textos apresentam um caráter metalinguístico, à medida que Drummond concebe uma meditação sobre o próprio fazer poético. É o momento em que penetra surdamente no reino das palavras, como instrui o poema Procura da Poesia, do livro A Rosa do Povo. Há o alcance de uma consciência sobre o senso estético e de produção, e a linha entre o eu e o mundo se retrai, já que o eu-lírico se coloca entre os dois territórios para situar-se no campo da linguagem. Isso se observa neste segmento de Procura da Poesia:

Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Seguindo no campo da exploração poética e literária, a categoria Uma, duas argolinhas, onde o autor trabalha seus exercícios lúdicos. São produções marcadas pela exploração do humor e da ironia. Brincadeiras com rimas, palavras e formas e o uso de neologismos também estão presentes. Essa face jocosa e irônica se evidencia no poema Política Literária: 
O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

A última categoria, Tentativa de Exploração e de Interpretação do Estar-no-mundo, se encarrega, segundo o próprio autor, de uma visão, ou tentativa de, da existência (DRUMMOND, 1962). Essa categoria é composta por poemas que propõem uma reflexão em cima do ato de se estar no mundo e o sentido da vida e do ser humano. Textos Cantiga de Enganar, Rola Mundo e Tristeza no Céu se debruçam sobre a existência com forte angústia e melancolia. Vide o fragmento de Composição:

Onde vivemos é água. O sono, úmido,
em urnas desoladas. Já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão.

O mais é barro, sem esperança de escultura.

Partindo, em diversos momentos, de um ponto de vista subjetivo, o autor se propôs a se debruçar sobre as diversas formas de existência. Evidencia-se novamente o eu inquieto de Drummond, que permeia toda sua poesia. Trata-se, portanto, de uma sessão dedicada a indagar-se sobre o existir e sobre a vida, seja ele presente, em dissolução (como no poema A Um Hotel em Demolição) ou em transformação (visto na produção Resíduo). Exemplifica-se no poema Cerâmica:

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara. 
 
Sem uso, 
Ela nos espia do aparador.


Luisa Issa