Lucas Viriato
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Acéfalo, de Lucas Viriato
Lucas Viriato
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Marília por Alice — depoimento homenagem
Alice Sant'Anna
domingo, 10 de agosto de 2025
Brilho de Gregorio se expande no céu com Camões entre o humor e a poesia ✨✨✨

foto de Raquel Pelicano
Gregorio Duvivier roça a língua de Luís de Camões (1524–1580) em monólogo que estreou em novembro do ano passado em Portugal, pátria do poeta nascido há cinco séculos, e que circula pelo Brasil desde fevereiro deste ano, estando de volta em agosto à cena do Rio de Janeiro (RJ), em temporada que se estende até 31 de agosto no Teatro Casa Grande.
“O céu da língua” é um solo autoral do ator e escritor carioca Gregorio Duvivier sob direção de Luciana Paes. Mas Gregorio não está sozinho em cena. Habita o palco com ele o instrumentista Pedro Aune, contrabaixista e diretor musical desse monólogo que transita entre a poesia e a piada.
Há momentos em que a apresentação soa como recital de poesia, com direito ao canto de “Livros” (1997), música de Caetano Veloso cuja letra tem versos alusivos aos da canção “Chão de estrelas” (1939), clássico da parceria do cantor e compositor carioca Silvio Caldas (1908–1988) com o compositor Orestes Barbosa (1893–1988).
Caetano também é, cabe lembrar, o compositor de “Língua”, tema de 1984 que parece nortear a viagem de Gregorio Duvivier pelo idioma de Camões com escalas na música e no humor. Até porque há momentos em que “O céu da língua” resvala no formato popular de um stand-up de humor mordaz, como “Z.É. – Zenas emprovisadas”, espetáculo de 2003 com o qual o ator pôs os pés na profissão.
No palco nu, à frente de imagens manuseadas pela irmã Theodora Duvivier, Gregorio mostra que a língua portuguesa está viva. E que línguas mortas podem ser reanimadas, trazidas da tumba diretamente para o papo de bar. Entre uma piada e outra com a reforma ortográfica de 2009, o artista põe em debate palavras ressignificadas, como “sinistro”. Nesse sentido, a peça é sinistra!
De início, Gregorio entra em cena recitando versos de Camões, poeta nascido há 501 anos em Portugal, quando surgia com Gil Vicente o teatro português propriamente dito e onde o monólogo do artista brasileiro cumpriu temporada consagradora.
Do solene ao coloquial, o fluxo verbal de Gregorio Duvivier mantém o espectador atento à trama e ao trema. Sim, trema! Que outro ator consegue discorrer sobre a desvalorização do trema na reforma ortográfica de 2009 sem entediar o espectador? Ou partir em defesa emocionada de decassílabos, o verso mais clássico da poesia de expressão portuguesa, composto de dez sílabas poéticas, que caiu em descrença para parte da poesia brasileira atual e costuma estar ausente de conversas de bar? Ou então enfatizar o quanto de repulsa é gerada pela simples menção de uma palavra como afta, dita em cena com toque de humor, mas sem perda de respeito pela língua-mãe? Aplausos para Gregorio, portador de um discurso repleto de ironia, sarcasmo e sentimento.
Em “O céu da língua”, o espectador é surpreendido pela palavra. Palavra orquestrada para a cena, já que Gregório assina a dramaturgia do monólogo, roçando sem pudores a língua de Camões, às vezes como poeta de um passado remoto, outras como humorista do stand up mais popular da temporada.
Contudo, não há apelações. Chega-se ao céu da língua em voo de brigadeiro, sem turbulências. As fricções são das palavras, convulsionadas pelo ator para expor a elasticidade de uma língua que, na realidade, extrapola Camões, sem apego ufanista a um idioma que fez travessia intercontinental até aportar no Brasil como imposição da coroa portuguesa. A senhora da cena é uma língua que descende tanto de Camões quanto de indígenas e de africanos escravizados, que a transformaram com sua cultura e sua riqueza linguística.
Dedicado a criar no palco “confusões de prosódias” e uma “profusão de paródias”, sem deixar de realçar a devoção à língua-mãe, Gregorio Duvivier roça o céu para quem defende a presença da poesia no teatro.
Mauro Ferreira
sábado, 26 de julho de 2025
A paixão de Nelson Rodrigues ecoa em cena na voz e na alma de Fernanda Montenegro
Quem conta esse episódio é a própria Fernanda no palco do Teatro Multiplan, onde a artista carioca fica em cartaz até este sábado, 26 de junho, com a leitura do texto “Nelson Rodrigues por ele mesmo”, antes de partir em turnê pelo Brasil. O espetáculo vem arrebatando multidões desde 2014, em apresentações alternadas com a peça em que a artista lê texto da escritora francesa Simone de Beauvoir (1908–1986), ícone do feminismo.
Essa passagem do texto “Nelson Rodrigues por ele mesmo” adquire humor involuntário, uma fina ironia, por ser contada pela própria atriz que protagonizou a ocorrência dramatúrgica. Escrita por Nelson em 1960, “O beijo no asfalto” chegou à cena em 1961 em marcante montagem dirigida por Gianni Ratto (1916–2005) para o Teatro do Sete, grupo integrado por Fernanda com Sergio Britto (1923–2011), Ítalo Rossi (1931–2011) e o companheiro de vida, palco e coxia Fernando Torres (1927–2008), entre outros dos grandes pioneiros do teatro brasileiro.
Quatro anos depois da estreia da peça “O beijo no asfalto”, Fernanda Montenegro cruzou novamente seu caminho profissional com o de Nelson Rodrigues ao estrelar, em 1965, o filme “A falecida”, dirigido pelo cineasta Leon Hirszman (1937–1987), a partir de outro texto para teatro escrito pelo dramaturgo com o rótulo de “tragédia carioca”.
Contudo, na leitura de “Nelson Rodrigues por ele mesmo”, essas interseções biográficas importam menos do que a habilidade extraordinária da atriz para captar todos os sentimentos do mundo impressos nas linhas e sublinhas do texto em que Nelson Falcão Rodrigues (23 de agosto de 1912–21 de dezembro de 1980) recorda trechos fundamentais da vida gerada no Recife (PE), mas vivida desde a infância no mesmo subúrbio carioca que pariu Arlete Pinheiro Esteves da Silva, nome de batismo de Fernanda Montenegro, nascida em 16 de outubro de 1929, há quase 96 anos.
Arlete virou Fernanda em cena, a partir de 1950. É com a técnica e a alma distintivas de uma atriz inigualável que Fernanda lê Nelson Mas ler é verbo insuficiente, impreciso, diante da imensidão da cena, do vasto mundo amplificado pelas palavras do dramaturgo na voz grave da atriz. Mesmo que o espectador desconheça por completo o universo da obra de Nelson Rodrigues, ele sairá do teatro com a percepção de que o escritor foi um espírito em desassossego, atormentado, entre outras coisas, pela “visão já conhecida” do assassinato do irmão Roberto Rodrigues (1906–1929), falecido com 23 anos de idade. Então, Nelson tinha apenas 17 anos.
A sombra da morte permeou a vida de Nelson, aquele cujo destino parecia ser exaltar o pecado na escrita. Fernanda diverte o público ao contar do tema da primeira redação escolar do futuro escritor (o adultério), comove a plateia ao mencionar os retiros do escritor em cidades como Campos do Jordão (SP) para tentar escapar da sanha assassina da tuberculose e surpreende os espectadores ao realçar a vaidade aflorada do dramaturgo a partir da aclamação unânime com a segunda peça, “Vestido de noiva”, marco da modernidade do teatro brasileiro na encenação de 1943 orquestrada sob direção de Ziembinski (1908–1978).
Todos esses acontecimentos parecem ganhar vida na voz, no corpo, nas inflexões e nos olhares de Fernanda Montenegro. Não é uma leitura o que se vê e ouve no palco, mas uma intepretação enriquecedora da obra escrita pela filha de Nelson, Sonia Rodrigues, e apresentada em 2012 com a reunião de declarações do dramaturgo em entrevistas.
A seleção de Fernanda Montenegro torna ainda mais fina a costura da obra. Há princípio, meio e fim na transposição de “Nelson Rodrigues por ele mesmo” para o palco. Há sobretudo o ritmo dado pela atriz, senhora dessa cena aliciante em que desvenda obsessões e delírios de Nelson Rodrigues, cujas angústias dores e lágrimas podem até gerar na plateia nervosos sorrisos de ironia, como sugerem os versos da ária “Vesti la giubba” (1892), tema da ópera italiana “Pagliacci” ouvido em cena como espécie de prólogo para tudo que será lido pela atriz.
No circo de ilusões e horrores da vida, Nelson Rodrigues nunca foi um palhaço, mas um escritor de alma atormentada e assumidamente reacionária que se redimiu pela obra magistral, pela revisão da postura política (a partir da prisão e tortura do filho Nelson Rodrigues Filho na década de 1970) e que, no resumo da ópera, deu o máximo de si mesmo, como sublinha ao fim Fernanda Montenegro, dama da cena, ao alimentar a eternidade do escritor na magia do palco.
Mauro Ferreira
quinta-feira, 24 de julho de 2025
O chapéu de Beckett — Helena Martins (trecho)
Helena Martins
Se você gosta de Teatro e também quer simplificar a vida, basta ler o texto completo da professora Helena Martins, pulicado no número 26 da Revista Gragoatá, de Niterói, clicando aqui!
segunda-feira, 21 de julho de 2025
Uma análise do poema "Portuñol/Portunhol", de Ivana Vollaro — por Rafaela Albernaz
Foi somente aos doze anos, quando comecei a estudar francês na escola, e fiquei fascinada por suas semelhanças e diferenças com o português, que eu mergulhei pela primeira vez na linguística, e me surpreendi ao aprender que quase todas as línguas europeias (e algumas asiáticas) possuíam uma origem comum, tendo evoluído a partir do Proto-Indo Europeu.
Também descobri o conceito do contínuo dialetal, que descreve um conjunto de dialetos falados numa área geográfica. Em tais contínuos, dois dialetos vizinhos são facilmente compreensíveis, como o português e o espanhol, enquanto dois extremos, como o português e o romeno, são de mais difícil compreensão. Existe até uma famosa expressão descrevendo a dificuldade de definir se duas línguas próximas são distintas ou dialetos de uma língua só, e como a política está bem envolvida neste processo: “Uma língua é um dialeto com um exército e marinha.”
Ao descobrir essas complexidades e entender que línguas são primeiramente um meio de comunicação, e que a gramática não é uma lei sagrada, passei a me sentir bem envergonhada a respeito de minhas opiniões infantis e ignorantes sobre o portunhol, que, como todas as línguas misturadas, serve como uma ponte entre dois povos. Ao ver este poema, lembrei dessas antigas emoções, e fiquei me perguntando como teria me sentido se o tivesse visto ainda possuindo aqueles preconceitos.
Quanto aos modos de compreensão, apesar de ser classificado como um poema, esta obra, assim como muitas outras presentes na revista “Artéria”, poderia ser classificada como um quadro/obra de arte visual. Afinal, a poesia visual é uma síntese destes dois meios, e esta obra foca mais no aspecto visual do que verbal, tendo como palavras completas apenas as duas versões do título.
O til/h pequeno brinca com a própria origem do eñe espanhol. Originalmente, o fonema /ɲ/ era representado pelo dígrafo “nn”, que representava um n longo em Latim. Já que pergaminho era um material bem escasso e caro na era medieval, escribas desenvolveram um sistema extenso de abreviações para certos dígrafos e palavras, que costumavam envolver ou colocar uma letra minúscula em cima de uma letra de tamanho normal, ou um acento, como o próprio til. Neste poema, o til/h faz referência a ambos os métodos. Ademais, o til/h parece o símbolo matemático “≉”, que significa “não é quase igual a”.
Há ainda uma estratégia de oralidade nesta obra: a brincadeira oral deste poema surge do fato de ambas as línguas pronunciarem o título da obra da mesma forma, apesar da grafia diferente: o eñe espanhol, e o dígrafo nh, que aqui representa o português. (Interessantemente, ele originalmente surgiu na lingua occitana, outra integrante da família românica, e mãe do trovadorismo.)
Além de representar o fenômeno do Portuñol/Portunhol de uma maneira concisa e memorável, o poema me fez pensar sobre como sua premissa, retratando as diferenças marcantes entre duas línguas irmãs, e como elas se misturam, poderia ser adaptada para outras línguas. Por exemplo, a língua russa tem pelo menos dois “portunhóis”: o Surzhyk (mistura com o ucraniano) e a Trasianka (mistura com o bielorrusso).
Além disso, também me lembrei do Galego, a língua mais próxima ao português, descrita por muitos que a encontram pela primeira vez como “portunhol oficial”, ou “brasileiros tentando falar espanhol”. Embora o poema não tenha qualquer ligação proposital com esta língua, outra coincidência interessantíssima é o fato de ela usar tanto o ñ (representando o mesmo som que em espanhol) e o dígrafo nh (representando o som /ŋ/, o “ng” do inglês.)
Rafaela Albernaz
Rafaela Albernaz é aluna do curso de Letras da PUC-Rio, onde se destaca pelo seu amplo conhecimento linguístico e interesse encantador pelo mundo das palavras!
domingo, 20 de julho de 2025
Um poema a partir do Limo — por Ana Chiara
A palavra fica imóvel
na ponta da língua
Recusa-se a pular
para o mundo
(estarei aqui enquanto
você precisar)
O corpo um alambique
transforma o sentido das coisas destilando
Inveja, ironia, reiva
em poesia de sílabas
contadas,
tão perfeitinha
que nem aparece,
querida,
o limo que se agarra
a ela.
Ana Chiara
sábado, 19 de julho de 2025
Chico Diaz questiona os conceitos de loucura e sanidade no libertário fluxo poético do monólogo “A lua vem da Ásia” 🌙
No quadrado do palco, iluminado de forma tão delicada quanto poética por Rodrigo Belay, o ator dá vida e voz a um louco-são que, com grau adicional de mordacidade (contribuição do ator ao texto de Campos de Carvalho), dispara torpedos políticos, tingindo o romance com o verniz da atualidade. Direita? Esquerda? Centro? Que caminho seguir? O narrador criado por de Campos de Carvalho segue os caminhos imprevisíveis e insondáveis da própria mente, ciente de que cada mente humana é uma ilha isolada, cercada de loucuras por todos os lados.
Adaptador do romance para o palco, Chico Diaz tem intimidade com o texto de Campos de Carvalho. O ator já encenara “A lua vem da Ásia” em 2011. A montagem ora em cartaz no Rio de Janeiro é uma segunda versão do texto trabalhado pelo ator para a cena. Em rotação pelo Brasil desde 2021, essa remontagem se afina com a quentura e a fricção de um país polarizado e em ebulição política desde 2016. Não há panfletagem em cena, mas o lucidez alucinada de Diaz sabe e aponta os caminhos a serem seguidos, com direito a uma saudação ao revolucionário marxista Che Guevara (1928–1967).
É preciso ter prévio conhecimento da obra de Campos de Carvalho para poder fruir, em toda a plenitude, essa adaptação cênica que concilia suavidade e surrealismo, tangenciando o universo do Teatro do Absurdo. A mente desgarrada do “ser insano” é a válvula de escape, o passaporte que garante amplo trânsito por um mundo sem fronteiras. Em essência poética, “A lua vem da Ásia” é uma volta ao mundo dentro da própria cabeça. E a moral da história é que a liberdade da loucura é a única possível rota de fuga que leva à sanidade mental.
Além de iluminar consciências com o tom provocativo do texto, a lira do delírio de “A lua vem da Ásia” é veículo para a exposição do talento sobressalente de Chico Diaz. Longe de qualquer traço caricatural, a máscara facial do ator realça a imensidão da imaginação do louco lúcido que encarna em cena. Nada sobra. Nada tampouco falta. Ajudado por figurinos que evocam a leveza e a liberdade que movem o suposto “doido”, Diaz é a imagem poética da precisão em cena, transitando com naturalidade entre a memória de alguns fatos e a invenção de outros fatos pela mente delirante do personagem.
Campos de Carvalho chegou a caracterizar a narrativa de “A lua vem da Ásia” como um “gigantesco grito lançado sobre a vulgar balbúrdia cotidiana”. No sanatório geral de 2025, o grito do poeta reverbera nas palavras de Chico Diaz no centro de um palco que representa o mundo livre e são da imaginação.
Mauro Ferreira
Um pouco da sabedoria de Dercy Gonçalves! 💩
segunda-feira, 14 de julho de 2025
“Senhora dos afogados” realimenta no Teatro Oficina o fogo sagrado de Zé Celso 🔥🔥🔥
Na química da natureza, a água traga e apaga o fogo. Na combustão
do teatro, na cena armada pela diretora Monique Gardenberg no
palco-corredor do Teatro Oficina, as águas míticas de “Senhora
dos afogados” trazem à tona e realimentam o fogo sagrado do
dionisíaco encenador José Celso Martinez Corrêa (1937–2023),
criador do Oficina e um dos mais relevantes arquitetos da cena
teatral brasileira em todos os tempos.
Em
cartaz no Oficina de sexta-feira à segunda-feira, na sede paulistana
do teatro projetado pela modernista arquiteta Lina Bo Bardi
(1914–1992), a encenação de “Senhora dos afogados” é a
primeira produção do Oficina após o encantamento de Zé Celso, há
dois anos, em decorrência de queimaduras sofridas em incêndio, numa
trapaça da sorte que corroborou a presença do fogo como elemento de
ascensão, crescimento e desaparecimento (físico) no destino do
artista.
Um
dos textos mais malditos da obra do dramaturgo carioca Nelson
Rodrigues (1912–1980), “Senhora dos afogados” era um desejo,
quase obsessão, de Zé Celso. Escrita em 1947, mas somente liberada
pela censura em 1954, a tragédia mítica — assim classificada na
dramaturgia desse escritor que deu contornos modernos ao teatro
brasileiro em 1943 com a montagem de “Vestido de noiva” erguida
sob direção do polonês Ziembinski (1908–1978) — simboliza no
Oficina uma interseção entre o estilo orgiástico das encenações
de Zé Celso e a arquitetura visual dos espetáculos de Monique
Gardenberg, diretora que se vale de recursos audiovisuais para criar
no palco imagens projetadas com forte aderência na mente do
espectador.
O
texto de Nelson está lá, íntegro, mas potencializado pela
convergência desses estilos e referências aparentemente díspares.
Na tela gigante colada numa das paredes, imagem das águas revoltas
de um mar banham a montagem e refletem a agitação existencial da
família Drummond, atormentada por mortes — todas relacionadas às
águas do mar que levam os corpos inertes ali jogados para a
eternidade — e desejos proibidos.
Não
por acaso, uma canção pouco lembrada de Roberto Carlos e Erasmo
Carlos (1941–2022), gravada por Wanderléa em 1969, reverbera na
cena, no registro original da “Ternurinha”, e se impõe na trilha
sonora pautada pela intensidade afinada com a alma das personagens.
Nessa trilha, cabem tanto um fado — “Nem às paredes confesso”
(1952), ouvido na voz referencial de Amália Rodrigues (1920–1999)
e Anabela — quanto uma valsa dilacerada de dor, “Súplica”
(1940), gravada por Orlando Silva (1915–1963) em período áureo.
Tudo
se afina com o texto em que, na trágica trama familiar de Nelson
Rodrigues, a ação opõe mãe (Dona Eduarda, personagem de Leona
Cavalli, atriz que vive momento de consagração com a autoridade de
ter sido revelada como a Ofélia de um já longínquo “Hamlet”
encenado por Zé Celso) e filha (Moema, vivida por Lara Tremouroux,
grande surpresa do elenco por manter a alta voltagem emocional do
espetáculo nas muitas cenas protagonizadas por Moema) em jogo de
amores, ódios e crimes que nem às paredes mãe, filha e demais
integrantes da família confessam.
Paira
na cena, com o olhar perdido e longe dos loucos, Dona Marianinha, a
matriarca interpretada com maestria por Regina Braga. Dona Marianinha
perdeu a sanidade por ação do filho, Misael, personagem de Marcelo
Drummond, peça também importante nesse jogo de lances arriscados e
passionais.
Na
ação dominada por mulheres, há também o fantasma da prostituta
assassinada na beira do cais, personagem de Sylvia Prado, e o luxuoso
coro das vizinhas interpretadas por Cristina Mutarelli, Giulia Gam,
Ligia Cortez e Michele Matalon. Com a acidez das línguas, as
vizinhas simbolizam em “Senhora dos afogados” uma representação
mais ferina do coro das tragédias gregas. Mas a tragédia acontece
no Brasil de hipocrisias e conservadorismo.
Imersa na plenitude emocional do elenco, a encenação do texto pelo
Teatro Oficina faz emergir o poder aliciante de um dramaturgo sem
papas na língua e que se revela ainda e sempre poderoso na cena
imagética de Monique Gardenberg, hábil ao reacender o fogo sagrado
de Fênix-Zé Celso sem apagar a própria carga autoral como diretora.
Mauro Ferreira
segunda-feira, 7 de julho de 2025
“Prima Facie” expõe a equação imprecisa entre cumprir a lei e fazer justiça, por Mauro Ferreira
No centro do palco, no jogo cenográfico de cadeiras e mesas, uma cadeira se impõe, alocada bem ao alto, solene, soberana. A cadeira elevada na cena de Prima Facie representa a autoridade austera de um juiz, senhor da razão e das decisões sobre vidas alheias. É sobre a Justiça — ou melhor, sobre o desequilíbrio da balança imprecisa da Justiça — que a dramaturga e advogada australiana Suzie Miller discorre no texto que estreou em Sidney em 2019 e que, desde então, vem arrebatando plateias e conquistando láureas mundo afora, inclusive no Brasil.
A peça arrebatou plateias inglesas e norte-americanas em 2022. Em palcos nacionais, Prima Facie se tornou um dos acontecimentos teatrais de 2024, impactando o público e alçando a atriz Débora Falabella ao topo do ranking das atrizes mais premiadas do ano passado. A ponto de o espetáculo continuar em cartaz com fôlego neste ano de 2025, no momento com sessões que vêm lotando o Teatro Clara Nunes, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em temporada que se estenderá até o fim de julho.
Em cena, sob a direção de Yara de Novaes, Débora é Tessa, advogada implacável na defesa de homens acusados de agressões sexuais contra mulheres que Tessa, impiedosa, descredibiliza diante de um tribunal geralmente masculino com a frieza dos profissionais puro-sangue do Direito.
O turning point da dramaturgia de Prima Facie acontece quando Tessa deixa de ser a advogada calculista e invencível para virar a mulher vítima de estupro que busca justiça no tribunal, lutando para condenar o colega de trabalho que forçou uma relação sexual, usando inclusive a força física, no desenlace trágico de uma noite de bebedeira.
Quando o jogo vira e os papéis se invertem, Tessa personifica a própria “Girl on fire” do título da música de Alicia Keys, que se impõe na trilha sonora do espetáculo. É quando Tessa passa a sentir na pele e na alma machucadas os efeitos cruéis da equação imprecisa entre cumprir a lei (usando todas as brechas dessa lei para inocentar homens culpados, como ela sempre fizera com alardeado orgulho) e fazer justiça.
Quando uma mulher é ouvida em tribunal como vítima de crime de natureza sexual, a balança da Justiça pende sempre para o lado dos homens. Porque o sistema é patriarcal. Porque uma mulher terá sempre que provar inocência mesmo quando é ela quem acusa um réu já previamente absolvido pelas convenções machistas.
Algo tem que mudar, reconhece Tessa, dando a moral da história de Prima Facie, quando a advogada tornada vítima tem a certeza de que o jogo está perdido para uma mulher que busca reparação judicial após ter sofrido um estupro ou qualquer outro tipo de agressão sexual. E, sim, esse jogo está sempre perdido quando o réu tem dinheiro para contratar os advogados puro-sangue da raça a que um dia Tessa pertenceu.
A cenografia soturna e imponente de André Cortez acentua o papel opressor da Justiça. Tessa, que antes apequenava mulheres no tribunal para não “chegar em segundo” (eufemismo usado por ela para perder uma causa), agora sente o peso de se ver minimizada, esmagada, pelo sistema que usara com força. Mas a indignação de Tessa a engrandece aos olhos do espectador, cúmplice da dor da personagem interpretada com intensa veracidade por Débora Falabella sem qualquer ranço de melodrama ou sentimentalismo.
E é aí que Prima Facie se agiganta como dramaturgia. Ao fim de um jogo bem armado, o texto escancara as cartas marcadas de uma Justiça feita para absolver homens e condenar mulheres que, recusando o discurso intimidador da vergonha, se encorajam e ousam apontar o dedo na cara de estupradores e abusadores. Mulheres em busca de Justiça. E, sim, algo precisa mudar com urgência no sistema judiciário para que a balança não penda descaradamente para o lado dos homens mais ricos e mais canalhas.
Mauro Ferreira
Ficha Técnica
Texto:
Suzie Miler
Direção:
Yara de Novaes
Tradução:
Alexandre Tenório
Cenário:
André Cortez
Figurino:
Fabio Namatame
Iluminação:
Wagner Antonio
Trilha
Sonora: Morris
Consultoria
jurídica: Maria Luiza Gomes e Mateus Monteiro
Assistentes
de direção: Ivy Souza e Renan Ferreira
Coordenação
administrativa: Coarte
Assessoria
de Comunicação: Pedro Neves e Lucas Viriato / Clímax Conteúdo
Produção
Executiva: Catarina Milani
Direção
de Produção: Edson Fieschi e Luciano Borges
Realização:
Borges & Fieschi Produções e Antes do Nome
segunda-feira, 24 de junho de 2024
ARQUIVOS EM CONFRONTO, Marília Rothier Cardoso
Se, ainda nos anos sessenta, a lição de Bakhtin veio somar-se às considerações barthesianas, desenvolveram-se, nas décadas seguintes, de um lado, a chamada crítica genética, e, de outro, os estudos culturais. A primeira alargou os domínios da textualidade literária para abarcar as notas de leitura, os rascunhos, os manuscritos rasurados, a coleta de dados, a correspondência, os diários, enfim, tudo que restou, nas gavetas privadas do escritor, depois que sua obra tornou-se pública. O interesse por
Fichas como as usadas na parte escrita sobre Torres Homem. Apenas o modelo pois foram inutilizadas milhares de outras fichas à medida que se escrevia, tal qual foi feito com as de Baú de ossos e Balão cativo, até que veio o conselho de Drummond: guardar tudo, jogar nada fora.(AMLB-FCRB)
Adquirido pelo IEB, em 1973, seis anos após a morte do escritor, o arquivo de Guimarães Rosa, embora contendo os originais das obras de juventude (inclusive os preciosos originais de Sezão que, revisto e amputado de alguns de seus contos, publicou-se com o título de Sagarana), concentra-se, tendo em vista a documentação do processo escritural, no período de maturidade, quando o médico e diplomata se profissionaliza na carreira literária. Pelos meados dos anos quarenta, quando já havia contemplado os principais monumentos da Europa culta – e registrado, com croquis e descrições pormenorizadas, seus trajetos de turista e de visitante contumaz dos museus e galerias --, Guimarães Rosa começa a trabalhar, sistematicamente, encaminhando, em definitivo, sua obra na direção do resgate da tradição épica. Ana Luiza Martins Costa (COSTA, 2002), boa conhecedora do arquivo, enfoca paralelamente os dois rumos da pesquisa do escritor: o de leitura cuidadosa da epopéia antiga, registrada nos poemas eruditos (Ilíada, Odisséia, Divina comédia), e o de levantamento da narratologia sertaneja, tanto estudando os relatos de viajantes, quanto procedendo à busca etnográfica do saber oral dos vaqueiros de Minas, do Pantanal e da Bahia. Essas duas vertentes da preparação para os grandes livros de 1956, Corpo de baile e Grande sertão: veredas, responsáveis, também, pelos volumes de contos posteriores, acham-se representadas, no arquivo, sob a forma primeira de cadernetas de campo e de cadernos com notas de leitura. Correspondendo a uma segunda elaboração do material, encontram-se numerosos “estudos para a obra”, que consistem num exercício de passar a limpo as anotações, buscando, certamente, incorporá-las à memória pessoal e imprimindo nelas o selo estético da assinatura do autor. Esses estudos revelam um paciente manuseio reflexivo, pois estão marcados com lápis de cor, com classificação de assunto ou indicação do texto que devem compor. Alguns das cadernetas mereceram mais de uma reelaboração, como é o caso daquelas onde se registrou a viagem de 1952, quando Rosa seguiu, durante dez dias, a comitiva do vaqueiro Manuelzão, conduzindo um gado da fazenda da Sirga até a de São Francisco. Conforme a classificação do IEB, há quatro pastas (E-26, E-27, E-28, E-29), de retranscrições e comentários, sob o título “Boiada”. Trata-se de um dos elos mais importantes da gênese do Grande sertão e também das sete novelas de Corpo de baile.










