quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Sede | Thirst — Poema de Pedro du Bois e tradução de Marina du Bois


Porque da sede somos o cantil repleto 
temos deveres e direitos em obrigações 
diversas dos outros que são a seca
no copo vazio onde não aplacam iras
nem votos declarados como prática
da ética: infiéis procuram nas luas
sinais externos de que a vingança
se fará breve e ilusória na hora
em que apenas o sonho for visto
sobre dunas em águas salgadas

meu barco não será seu barco
nem nosso o impulso dos remos
que nos levará as terras opacas
entre espelhos foscos
e o cantil estará pela metade

instante em que nos vemos
sem entendermos as razões
além das órbitas e rotações

por ciúme derramamos o líquido
sobre as faces que na sede
temos o cantil vazio: em areias
encalhamos o barco ao fazermos
as mãos destrançadas em ritmos
e gestos de até logo.

Pedro du Bois



Thirst
  
As we are the full cantel for the thirst
we have duties and rights in different
obligations from the others who are the
drought in the empty glass where they
do not placate ehtics wraths or declared vows
as ethics’ practice: infidels seek on the moons
external signs that revenge will become brief
and illusory at the time that only the dream
is seen above dunes in salt water

my boat will not be your boat
nor ours the impulse of oars
which will take us to opaque lands
between frosted mirrors
and the cantel will be in half

moment that we see ourselves
without understanding the reasons
beyond the orbits and rotations

out of jealousy we pour the liquid
on the faces that on the thirst
we have an empty cantel: on sands
we run aground the boat as we do
with untied hands in rhythms
and gestures of good-bye.

Marina du Bois

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Poema da banana


quando você compra uma banana
e deixa ela muito tempo na fruteira
alguma coisa vai lá e
come parte da banana.

a vida é estranha e
tem louça o tempo inteiro
e esquecer de passar o fio dental é
problema seu.

um ano passa rápido, mais rápido que
a terceira série
e conhecemos menos pessoas interessantes
do que esperávamos.

de qualquer forma,
não tenho medo de muita coisa.
tenho medo da dúvida

(e daquilo que come a banana).

Juliane Leão

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Calendário


No início era um sábado
Sem hora ou lugar pra ir
Tempo suspenso ao seu lado
Sol em junho, julho a florir

Então chegou a rotina
De tédio tudo se inunda
Verbo vira guilhotina
Folga se torna segunda

Não sei se era choro ou chuva
No dia que te vi partindo
Em vão eu pedi ajuda
Tudo acabou em domingo

Daniella Clark

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Tive do verbo terei


Tive você e isso me basta.
Tive por anos, por noites e noites de pés tocados pela certeza de que estávamos ali, um pro outro.
Tive em almoços em frente à TV, em restaurantes sofisticados, em Paris, em Viena.
Tive em jantares
Tive você em muitas camas por esse mundo.
Tive você em Réveillons, em aniversários, em praias, em paisagens.
Tive você nas minhas maiores angústias, medos, dores.
Tive nas suas também.
Tive você no meu amadurecimento,
Tive você no meu aprendizado.
Tive você em meus melhores conselhos, em aconchegos, afagos e repousos.
Tive seu colo
Tive a ponto de sermos lastro
Tive e viramos lembrança.
Tive tanto que isso me basta.
Tanto que nem precisava
Tanto que fez morada, memória, vida
Tanto que nem se foi
Tanto que não se acabou
Tanto que não virou passado
Tu és presente eternizado
Tive e somos além
Futuro do pretérito de ti eu não seria
Eu tenho você e mais que isso
Terei você, e basta

Luciana Targino

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Distância


Pudera ser o toque da minha mão,
O destino dos meus lábios,
O motivo do meu pulso.

Escolhera ser um olhar na multidão,
Um vulto oculto entre vários,
Ser de mim, avulso.

Mérilin Silveira

sábado, 7 de outubro de 2017

Manifesto do Realismo Mântico



Primeiro gesto de um realista mântico: aceitar a proteção do acaso. A nossa poesia está em pré-dizer o belo. Não somos imunes a nenhum tipo de beleza. Descendemos da prosa de miraculação. A prosa de ficção é nosso antepassado distante.       


            Mântra do Realismo Mântico:

Sobrenatural é o poema,
porque é natural
mas está sempre
                                                                              sobre.

O extraordinário é nosso estado de espírito. O ordinário é nosso arquinimigo, faz séculos que estamos tentando bani-lo.


É preciso se abandonar todos os dias. Vivenciar a ambivalência do risco. Escrita e perigo. Vivo no risco para que haja escrita. Vivo no risco para que haja perigo. Produzo linhas, desconfio de meridianos que não crio. Me arriscar significa me inscrever no mundo. Me catapulto no equador da vontade do acaso.


Não somos predestinados. O destino vem nos pedir que o interpretemos, porque ele mesmo não sabe de si.


Primeira crença de um realista mântico: a maravilha está sendo providenciada. Confiamos no livre arbítrio da maravilha, isto é, nada diferente dela se manifesta. Confiamos na liberdade de expressão do insólito.


Só é comum o que é dito de maneira comum.O evidente exige clarividência. Pela transubstanciação do lugar comum e do senso comum através de formas encantatórias. O absurdo é nosso milagre. O absurdismo miraculoso é uma de nossas formas a priori.


Primeira medida de um realista mântico: adotar uma estrela para ser teu coração. Guardar o firmamento no lado esquerdo do peito.


Não se deixe roubar a exceção, ela te pertence.No mundo dos homens,os milagres não concedem exceções, por que você deveria ter compaixão pela regra? A regra é um estado de misericórdia. Chega de pedir perdão.


Só Exu expulsa o Malafaia das pessoas.


A aparência real da coisa é aquela que provoca encantamento, é o único modo de dizer a coisa, de lembrá-la. A maravilha é uma memória afetiva. Tornar as coisas ordinárias é a melhor forma de esquecê-las.


O sublime é cotidiano e mínimo. Mântico: linguagem escolhida para capturar os pequenos gestos. Nossos temas não são celestiais. Acreditamos, por exemplo, que quando alguém que amamos morre vira um ponto em nossa íris e não uma estrela. Acreditamos no milagre do encontro. A real beleza das pessoas não se pode pegar com a mão, só se pode tocar com o mântico. Mânticas são as mãos da nossa imaginação intuitiva.


Afagar o impossível até que ele possa nos tratar com ternura.


Não tentem nos sabotar pela etimologia. Nosso movimento não é a perda de uma sílaba. Não somos Ro-mânticos. O amor é nossa benção, não é nossa maldição e nos realizamos completamente em vida. Também não somos místicos, nossa devoção é ao gênero humano pelo que pode realizar de inesperado.


Só depois do primeiro amor é que se tem contato pela primeira vez com a linguagem.


Prevemos que os de nossa extirpe possam degenerar em Realismo’s Miraculoso,  Místico, Oracular, Profético e outras qualidades de esoterismo barato, misticismo arcaico. Porém, é importante que se diga: O Realismo Mântico não sabe falar sobre o que não existe: o que existe já dá bastante trabalho.


Nossa mediunidade é saber chegar ao outro, precisamos ser capazes de nos incorporar uns nos outros. Hei de cantar o ponto que fará você baixar em mim. Hei de fazer a prece que fará você ser eu. A única oração: o poema.


O poema é um vocativo, atráves dele te invocamos, contrapomos o imperativo do olhar desavisado. Mesmo o passado na literatura mântica, quando vem, inevitavelmente vem sob a forma de aviso. O que deixamos passar sempre volta. Também não é errado dizer que o poema é a vocação do outro, nunca nossa.


Nosso trabalho é mais importante que nossa identidade. O Realismo Mântico é uma grande entidade. Oxímoro Mandrágora é nosso codinome. Somos regidos pelo Oxímoro, lei do universo, aceitamos a dualidade, a co-existência dos contrários. Mandrágora é qualquer mitologia sem nome. Pegamos o sobrenome emprestado como sinônimo do extraordinário que nos escapa.


Os descendentes de Macunaíma dizendo “Ai! que saudade...” do que não fomos.


Por um Brasil mais América do Sul. Brasil, continente perdido,
volte para casa.


Enriquece a nossa literatura o estudo do espanhol, tupi-guarani, yorubá,  quéchua, aimará. São as palavras renegadas de nossos irmãos. A língua cria realidade. A poesia dessas línguas nos abre a dimensão oculta do que ainda não somos. Menos networking e mais compañerismo, amistad, red de contactos. Devolvam as terras dos filhos de ñanderu. Aruanda: a metáfora habitada nos turbantes, porque alguns de nós já não podem voltar para casa. A ancestralidade vivificada na figura de linguagem.


Os poetas mortos são oráculos a ser consultados apenas. Não tenha medo de interpretar a mensagem. Os textos dos mortos devem ser profanados. Pelo saque aos túmulos.


A história da literatura é uma ata de eclipses.


Escreva o que ouviu do além com suas próprias palavras.
Diga aos ancestrais para ler os vivos.


A apreciação estética do poema se dá por excelência através do sexto sentido.


Porque é miraculoso, o poema não se faz, o poema acontece.Ele só existe quando chega até o outro. É no outro que ele dá o primeiro suspiro. Antes disso, o poema é apenas porvir.


Somos os herdeiros de Houdini, o miraculoso.


O milagre é visto. O poema imprevisto. Exemplos de imprevisão do poema:  

1. Insistência de uma imagem, de uma frase, de uma palavra em nosso pensamento que vai se materializando em tudo no mundo ao redor, o poema é um gesto do mundo. 2. Um homem-estátua, pintado de prateado, voltando para casa de ônibus e dormindo no último banco. 3. Um mendigo que em lugar de pedir esmolas, pergunta se você tem medo de borboletas e quando você responde que não, como se fosse algo absurdo, ele passa uma borboleta pousada na mão dele para a sua blusa. Essa borboleta abre e fecha as asas. Você descobre que sim, tem medo de borboletas, pelo menos uma borboleta assim tão de perto, tranquila, pousada em você. O mendigo ri, explica que criou a borboleta desde pequena, tira a borboleta da sua blusa e desaparece levando o milagre consigo. 4. Encontrar um homem de classe média alta com a sobrancelha esquerda branca na fila do cinema e pensar que aquela marca de nascença é tão rara que nunca viu igual. Voltando para casa de trem no mesmo dia encontrar outro homem, um operário, com a sobrancelha direita branca. 5. Ganhar de presente O pequeno príncipedepois de grande na véspera da morte de seu pai. Sentar no ônibus ao lado de uma mulher no momento exato em que ela abre O pequeno príncipe e começa a ler o livro.6.Ouvir da boca de uma desconhecida que você não tem ligação alguma com os arquétipos mundanos e nem planetários. “Você não é daqui, você veio das estrelas. E teu lugar de poder é com os índios das Taigas, os adoradores da lua, pertencentes a lugares frios da região norte como Canadá, Noruega, Groenlândia”. Ela não sabe que teu sonho é ver neve. Viver onde é seis meses dia e seis meses noite. Muito menos imagina que você toca um piano feito de aurora boreal. 7. Um grande amigo seu, poeta, ser chamado para ser o juiz de paz de um casamento em que o noivo está prestes a ser preso, já foi condenado e está aguardando a voz de prisão. A cerimônia é linda. O noivo está radiante. No dia seguinte a polícia vem buscar o noivo recém casado às 6 horas da manhã, arrancando o homem de seu sonho. Um vizinho que acompanhou tudo disse “Depois que levaram ele, o silêncio ficou de luto”. Seu amigo foi o responsável por unir aquelas almas na eternidade. O alívio do preso é que lá o tempo não existe.


A superficialidade é um olhar desatento e o milagre está a 90° da superfície.


Eliminar a superficialidade da forma, do amor, do discurso vazio, da palavra dita sem intenção, da falta de presença, até que só reste o milagre.


O poema que não abre um canal de comunicação mântica, que não fala com o afeto do outro, é uma invenção. O poema não pode ser uma invenção. Se é invenção não é poema.  Se chega até o poema, se acha o poema. Enterrado no deserto. No fundo falso das coisas. Nas escavações arqueológicas debaixo do seu travesseiro. A palavra foi desapropriada pela discursividade. O poema oferece morada à palavra exilada. Poema não é discurso.


Não sei amar, não sei sentir, não sei viver,
não sei quem sou, no poema eu aprendo.


Já disseram que amor é tanta coisa que ele acabou sendo nada. Mal contemporâneo. Se tiver que dizer poesia, já não é. Se disser nosso nome, já não somos. Use todos os recursos necessários ao encantamento, para que a revelação aconteça.


Ofereça ao leitor uma linguagem sem perdão. Misericórdia é a miséria do coração, o verso mântico quer tirá-lo da miséria em que se encontra. É por isso que o poema jamais é uma trégua. O poema é um despertar.


Podem te ajudar em tua reza contigo mesmo:

1 – A rima do entendimento: no verso mântico são os conceitos que rimam. A musicalidade do poema é aquela que faz adentrar o silêncio. O poema mântico é o ensinamento da música do silêncio. Encontrar o presente dentro da rima do silêncio. Tempo e dádiva. As palavras estalam os ossos e aqueles ossos musicais calam o mundo.

2  – A sentença miraculosa: é quando ela não pode ser dita de modo diferente do que foi profetizada. Mas não se engane, profecia tem mais a ver com singularidade da linguagem e menos com adivinhação.Literatura não é abracadabra. Sentença miraculosa é aquela que não permite tradução. Encontre a informação estética do indizível.

3 – A forma extraordinária: o milagre está no mundo, porém a formação literária de um realista mântico consiste justamente em despir o milagre de suas roupas cotidianas. Não se pode simplesmente esperar que o milagre aconteça( “Acontecer” é qualidade do que é visto. Quando se torna algo visível, aquilo acontece). Veja primeiro para que possa acontecer. Conjure o sobrenatural da linguagem. Seja extraordinário, esteja fora da ordem, não compactue com o ordinário. Insinue o invisível,  o sentimento do invisível substitui as lacunas do olhar. Nossa preocupação é com a técnica perfeita do afeto, a técnica da iluminação. Não esqueça, contudo, que para revelar a escuridão é preciso trazer parte dela consigo.

4  – O sussurro da escuridão: é aquele que vem do jamais. A palavra deve trazer assombro tanto pelo espanto, quanto pela suspensão da luz. Em plena luz do dia os mistérios ofuscam, na noite se revelam pela penumbra, pela opacidade, que é quando podemos vê-los. Ninguém é capaz de olhar para o sol diretamente. Para que as estrelas apareçam é preciso evocar a noite. O verso perfeito não é o que está perfeitamente escrito, pontuado, metrificado, rimado, é aquele que é capaz de fazer o leitor “cumprimentar a  beleza”. Para falar ao coração do outro e que o outro aceite a mensagem é necessário algo mais do que perfeição. A revelação vem de lado, oblíqua, para poder atravessar, o que vem de frente é atropelamento. “Nas próprias antecâmaras do sentimento é proibido ser explícito”.

5 – A quintessência da língua: só o quintessencial deve permanecer, o essencial não precisa ser dito, apenas sentido. A quintessência do sentimento é que garante o dizer. É essencial olhar para dentro de si até que a miração aconteça, isto é, a linguagem encontre sua quintessência. O outro da linguagem é a sua forma quintessencial.

6 – O insólito deve ser motivo de fé. A linguagem deve adorá-lo.


Não nos deixemos seduzir pela forma. Só escreve poema aquele que descobriu um segredo. Sem segredo revelado não há poema.


Desejamos que nossa linguagem seja como nossas mãos. É preciso que o leitor sinta o poema como se olhasse para as próprias mãos pela primeira vez. Preponderamos o tato com o indizível.


Andamos de mãos dadas com a miragem.


Somos os últimos falantes do dialeto da maravilha, nossa profissão de fé é que este idioma não morra.


Quântico  confabula  com mântico não só por aproximação sonora, é qualidade da da nossa estética ser quântica quando evoca os amores que não se realizam, os amores perdidos, o primeiro amor, os amores que negamos, os amores que não aceitamos, os amores que nos negam, os amores que vivemos sozinhos. Não é que sejamos platônicos, os exemplos acima constatam um dado sentimental: o que perdemos, o que não foi, o que não é, inevitavelmente nos quantifica.


A estética mântica é uma tentativa de quantificar o imponderável, por exemplo, quanto amor existe no coração de uma baleia. Ainda cantaremos o quântico dos quânticos.


Parágrafo primeiro e único: natural é aquilo que não vemos direito.


A pré-adolescência da eternidade é nossa idade por excelência e por unanimidade. Alguns de nós são pré-adolescentes da eternidade aos 70 anos e outros aos 23 apenas. A modernidadenos fez prematuros em ruínas. A nossa juventude é milenar. Trazemos a inocência dos apocalipses.


Fomos alfabetizados pela lua cheia.


A epifania no poema frequentemente é anunciada por lágrimas. Ser poeta é  apenas um instante. No resto do tempo só contagem de estrelas. Clamamos pelo instante, nosso lugar de existência. O efêmero é nosso guru. A lágrima: aplauso do coração. Nossa medida de recepção são esses aplausos cristalinos dos olhos. É por isso que escrevemos o poema não pelo poema, mas pelo silêncio depois dele.


Quando vivo era apenas Poe. Quando morreu virou Poema.


Encantamento não tem necessariamente a ver com o que é bom para si mesmo. Fosse assim os olhos da serpente não encantariam. O perigo não seria tão atraente. A vertigem não seria a vontade de se jogar no precipício. Os olhos de um assassino podem ser tão encantadores no momento em que escolhe a próxima vítima quanto a pureza nos olhos de um recém nascido. As coisas belas são fatais. A literatura também sabe hipnotizar a crueldade. O poeta escreve seu último poema para o que ou quem o mata, porque lhe apresenta a beleza insuportável da morte.


Somos uma asa cortada: nossa literatura convence os anjos a que fiquem. É necessário escrever o poema que vai conquistar o coração de um anjo e fazê-lo se reproduzir na terra. Nossa literatura é pé no chão, mas a Terra está suspensa no mistério.


Não somos herméticos porque nossa ética não vem de Hermes. O poema não cria um segredo, é através do poema que o segredo chega. Somos contra o hermetismo. Ouvimos a mensagem de Hermes e a mensagem de Exu. Violamos correspondências divinas.


Aceitamos a impermanência: nada é nosso e tudo se transforma.


Os mensageiros somos nós, mas não se esqueça nunca que a mensagem vem de longe. Impermanência. A mensagem vem de longe porque vem de nós mesmos.


Por uma vida mitológica. Viva uma vida lendária.


O sentimento lendário se perdeu ao ponto de acharem que qualquer história para boi dormir se encaixa no gênero. Nos enganaram. Através de falsas lendas, instituiram o desaparecimento.Se você não existe, não tem lugar de fala. Te contaram que índio é coisa do passado. Te contaram que não tem mais quilombolas. Os personagens dessas lendas, porém, continuam vivos. Querem torná-los lendas pela força e pelo aniquilamento. Para nós, lenda tem a ver com vivência.


Por um Brasil menos norte americano e mais Rio Grande do Norte.


Não é preciso impregnar a literatura de cor local. Estamos cansados de ser exóticos. O espírito de um povo, a nacionalidade, não tem a ver com exuberância.


Não somos um movimento brasileiro. Somos um movimento latino-americano. Ainda que não saibamos muito bem o que é ser latino-americanos. Contudo, não sabemos também o que é ser brasileiros.


É preciso falar a língua de nosso povo. É tão importante escrever poemas quanto conversar sobre política com a população de um modo que ela entenda. Traduzir qualquer complexidade filosófica à coloquialidade. Saber falar academês e a gíria da esquina.


Saber recitar Augusto dos Anjos e em seguida dizer “Para aí no próximo ponto que eu vou descer, piloto!”.


Realismo Mântico também é o que fazemos fora dos livros. Seja uma prolongação de seus poemas. Ao fechar o livro, outro poema começa.


O cotidiano é poliglota.


O poliglotismo é nossa escolha. Não é nosso mandamento porque ninguém manda nada. Estudar todas as línguas dentro da própria língua e falar todas.


A cultura oficial é um engôdo.


Consideramos a literatura oral patrimônio imaterial da humanidade.


Aqueles que quiserem resgatar o sentimento da literatura oral serão muito bem acolhidos por nós e fortalecerão em muito nosso movimento. Vertentes do Realismo Mântico: literatura escrita, literatura oral, literatura-canção-popular, literatura-ponto-de-macumba, literatura-jeito-de-andar, literatura-dança. Nenhuma é melhor que a outra.


Por uma métrica de tambores.


Odisseu e sua tripulação sucumbiram às sereias porque não sabiam falar a língua delas. Aqui no Brasil ouvimos seu canto todos os dias, as sereias nos cantam canções de ninar, as sereias nos abençoam. Pobre Ulisses, não sabia dizer Odoyá. Era a palavra mágica para voltar para casa mais cedo.


Pelo fim da matança de baleias e pelo fim do uso de seu nome em vão. O jogo da baleia azul só demonstra a insensibilidade com que nosso mundo está lidando com milagres. Não satisfeitos com a caça ilegal de baleias, agora querem atribuir a elas a morte.


Pelas danças populares. O Coco, o Jongo, o Maracatu, o Cacuriá, o Cavalo Marinho, a Ciranda, etc ad aeternum ainda não foram culturalizados. Pela Umbanda, pelo Candomblé e pelo Toré. Pela Capoeira como prática acadêmica. Se é pra falar de academia, Platão era conhecido por esse epíteto porque tinha as omoplatas muito desenvolvidas de tanto que se exercitava, era um homem fortíssimo.


Chega de intelectualidade sem coordenação motora. Não pode existir um intelectual brasileiro que não dance e não pegue sol.


Os índios e os quilombolas ainda estão vivos. Vida longa a esses sábios. Pelos conselhos ao pé do Preto-Velho. Pela sabedoria dos pajés. Se torne pajé. O pajé é aquele que pode visitar todas as tribos sem ser atacado. Se houvesse mais pajés haveria menos guerras.


Pela sabedoria da floresta.


Pelo fim do anarco-xamanismo e da macumba-freestyle. Vá buscar em outras dimensões a sabedoria para viver da melhor maneira possível nesta dimensão, não se perca por lá. Quem se iluminou já não está mais aqui, se você fosse santo já tinha partido. A quinta dimensão não é lugar de passeio. Viver fora da terceira dimensão é alienação espiritual. Guias espirituais não são call center. Ayahuasca não é suco de laranja. Rapé não é Rinosoro. Jurema não é Gatorade. As plantas de poder devem ser respeitadas.


Abunda o fundamentalismo religioso e falta espiritualidade. A intolerância religiosa é ranço de nosso estrangeirismo, da nossa dificuldade em ser brasileiros. Não nos converteram à cristandade, nos converteram ao eurocentrismo. Brigamos entre nós pelo que é dos outros. Os pastores nos roubaram a palavra de Deus.


Vivemos em um mundo que perdeu a noção de sagrado. Saiba tornar as coisas sagradas por si mesmo. Sacralize o cotidiano. Sacralize cada gesto. Sacralize a efemeridade. Tenha fé no momento. A vida não é um despacho, a vida é assentamento.


Pela astrologia enquanto linguagem poética. O valor literário do esoterismo nos interessa.


A política não é de Deus.  Os “homens de Deus” só tem servido para roubar nosso dinheiro e patrulhar nossos corpos. Roubaram o espírito da palavra, calaram nossos verbos. Pelo dinheiro do dízimo investido em poesia.


Os Deuses são a parte desconhecida de nós mesmos.


A poesia não quer ser beatificada, isto é, canonizada. O que não quer dizer que a poesia não seja um estado de beatitude, um estado de graça. Os santos quando são canonizados é pelos milagres que fizeram e morreram com eles. Enquanto a poesia não for canonizada é porque ainda vive. A poesia não é uma santa. A poesia não quer ser santificada.


Fomos batizados na Baía de Todos-os-Santos, a hierarquia entre eles não é problema nosso.


Pelo Estado laico. A literatura, nosso culto ecumênico.


A arte é o único messias.


A arte é o único messias.


A arte é o único messias.


E a arte é feita por homens. Os salvadores estão aqui. Faça arte, quero me salvar. Preciso que você me salve.


Pela premonição do agora. O Brasil está cansado de ser profecia.


Pela caligrafia da mão esquerda que sonda as coisas do outro lado. Pela oniromancia e pela onironáutica, ou seja, pela interpretação de sonhos e pela viagem onírica.


São 99 os nomes de Deus, mas são infinitos nossos nomes.
Nenhum de nossos nomes deve ser esquecido.


Abençoar o destino que o outro nos traz. Beijar a palma da mão do ilegível.


Todos em algum momento esbarramos com o divino. Porém, nós propomos o mântico em tempo integral. Exemplos de momentos de maioridade do ser:

Carl Jung é realista mântico na intuição sobre a natureza da mente humana e na sua exploração inconsciente. Os Sete sermões aos mortos são essencialmente mânticos, assim como sua autobiografia Memórias, sonhos e reflexões e O livro vermelho.  Frederico Garcia Lorca é realista mântico em sua linguagem onírica, em Ciudad sin sueño. Manoel de Barros é realista mântico na observação da natureza e em saber extrair dela o descuido linguístico. Roberto Bolaño é realista mântico em sua vontade literária, em sua crença radical na verdade da poesia. Amuleto é seu livro mais divinatório. Mia Couto é realista mântico em suas Estórias Abensonhadas. Guimarães Rosa é realista mântico em suas pirlimpisiquices. Júlio Cortázar é realista mântico em suas correspondências. Gabriel García Marquez é realista mântico em transformar cem anos de solidão em algo fantástico, outros sucumbiram por muito menos. Jorge Luis Borges é realista mântico no Ficciones. Richard Linklater é realista mântico em Waking Life, em Boyhood e na Trilogia Before. A Bíblia é a primeira obra mântica da humanidade, mas apresenta muitas ideias corrompidas. E os leitores da Bíblia destruíram grande parte  de seu conteúdo com interpretações profanas, além de usar o livro para fins hediondos. Gaspar Noé é realista mântico em Enter The Void. Mahatma Ghandi é realista mântico em sua guerra pacífica. Jim Jarmusch é realista mântico em Paterson. Walter Benjamin é realista mântico na Tarefa do tradutor, em sua nostalgia pelo narrador e nas Teses sobre o conceito de história. Clarice Lispector é realista mântica em olhar para o abismo, em não temer o êxtase da palavra, nas epifanias que abrem outras dimensões. Eduardo Galeano é realista mântico no Livro dos abraços. Murilo Rubião é realista mântico ao ver estrelas vermelhas. Octávio Paz é realista mântico na Tradição da Ruptura. Haroldo de Campos é realista mântico em suas galáxias e em suas transcriações. Vilém Flusser é realista mântico em Língua e Realidade. Mário de Andrade é admiravelmente mântico em Macunaíma. Kaká Werá é realista mântico em Tupã Tenondé.Eu sou realista mântico ao acreditar em baleias. Fernando Pessoa é realista mântico nas Reflexões Paradoxais, mas não só, seu materialismo mântico é louvável, e sua multiplicação heteronímica de milagres é coisa a ser investigada. Paul Auster é realista mântico no Caderno Vermelho. Rilke é realista mântico nas Elegias de Duíno e nas Cartas a um jovem poeta.


Axé para quem é de axé.


Este Manifesto não foi escrito em aforismos. Foi escrito em hexagramas, em sortes do dia. Quando a literatura puder ser lida como oráculo, um livro ser espalhado em frases soltas que trazem o destino, conseguimos.

Vinicius Varela e Oxímoro Mandrágora, em algum lugar do universo, na via-láctea, no sistema solar, no planeta terra, na América do Sul, no Brasil(mas com o coração no Uruguai), no Rio de Janeiro(e em Montevidéu), em um dos pavilhões da Universidade Desconhecida, em um dos hexágonos da Biblioteca de Babel. 31/07/2666

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Poema de Yassu Noguchi


coisa mais infame
me amar desejando
que eu te ame

domingo, 1 de outubro de 2017

Dois haicais de Flávio Machado


*
o vento na
memória
espécie de sombra.

*  
invade as cidades
o cheiro de morte
rastro de pólvoras.

Flávio Machado

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Poema de Yassu Noguchi


a  a cada dia
 enxergo menos (miopia)
e no mesmo a cada dia
 enxergo longe (utopia)

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Não entendo


 Não entendo dos tempos que me passam e
dos que se desviam
dos edifícios e das calçadas intactas
da rua onde morei há trinta anos
das janelas as mesmas portarias
as fotos que bati com meus olhos
que hoje revelo na memória:
está ali eu
- que não sou mais essa -
passeando com um carrinho de bebê
sorrio o sorriso do meu filho que olha a
brincadeira do vento com as folhas
pisco os olhos
sinto saudades
assim é o tempo
esse piscar de olhos

Rosália Milzstajn

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Não fales tanto


Não fales tanto
Com o tempo
o eco reverbera
e fica insuportável

cale-se enquanto
é tempo e por dentro
teça um instrumento
para a composição da melodia

a melodia quando pronta
alcança os justos e inocentes
e saberás quem anda ao teu lado

Rosália Milzstajn

sábado, 23 de setembro de 2017

O pássaro solitário


Dentre os pássaros, um rei
encolhido, solitário
na sua plumagem dourada
contradiz os sons e alaridos.

O silêncio se acostuma com as horas
Pássaro e ousado
a leitura do mundo em seus olhos.

Acordado no dia
o sol, límpido e austero.

Voo em alinho
no alinhave da rede humana.

Malabares em surdina
cortejando o chão, voo.

O entrecortar de nuvens, ar
no longínquo espaço do risco.

Ziguezagues em desatino, lindo
o ar se molha de chuva
É o choro do pássaro
na sua solidão profunda.

Alexandra Vieira de Almeida

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Eros


Cama macia
Pele macia
Arde no meio
Da noite

Atiçamos a brasa
A nudez velada
A boca se abre faminta

A fome não cessa
A terra gira as palavras
Escapam como balões de ar

Suor e sal
Momento irracional
No peito o coração implode
A alma padece no íntimo.

Diego Wayne

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Prece de um dia quase igual a todos


Deus dos delicados, não me abandone nessa guerra insana.
Minha máquina de ser beira a pane enquanto o veludo da voz de Billie
lambe as paredes do lusco fusco.
Abençoe, senhor, tudo que dói em nós, indispensável.
As tardes despenteadas em Grumari,
as lágrimas do homem que me amou e nunca disse,
o negro agonizante sob o sol narcísico de Ipanema,
as crianças que tão cedo me deixaram farta de lágrimas e leite.
Abençoe as escarpas da minha vida enquanto desenterro estas palavras
- o carmim destas palavras - com as lascas afiadas da dor.
Sonho piscinas, atraída pelas labaredas.
Preciso dormir bem dentro das suas asas enormes, pai.

Ledusha

sábado, 16 de setembro de 2017

Excitação sobre o amor humor na poesia contemporânea


Amor Humor, Flamor x Flumor, sempre um clássico, jogado há 90 milhões de eras o Amor Humor nasceu como o Fla x Flu, 45 minutos antes do nada.

Amor, humor. Quando Oswald de Andrade escreveu isso foi o momento da descoberta da fusão atômica. A fusão é diferente da fissão. Na fusão dois átomos se juntam para formar um só. Mais energia é liberada e não há radioatividade. Amor/humor é a fusão poética clássica. Oswald estava ali na ponta de lança do movimento poético da mais alta tecnologia de ponta, mas o que fez foi olhar para trás e buscar no inconsciente coletivo o que de mais básico existe em todos nós. Um nó de coisas que não são nada simples.

Eu sempre olhei esse poema pensando “por que Amor não tem H, porque Humor tem H?” Achei durante muito tempo que a linguagem era aquilo que tornava possível a comunicação, mas no dia que eu descobri que a batata doce é a melhor para os diabéticos pois é a que tem o menor índice glicêmico, tudo caiu por terra! Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão! Como pode a batata doce, já diz o nome DOCE, ser a menos doce das batatas?! Terra devastada! Eu percebi que a linguagem não serve para comunicar, serve só pra poesia mesmo. Isso parece engraçado, mas na verdade nos deixa vendidos, num mundo de caos, ou de caôs? Tá vendo, uma mudançazinha de som e já não estamos entendendo mais nada.

O Octavio Paz comparou uma vez a linguagem, poesia e sexo num livro chamado a Dupla Chama. Muita gente entende que sexo é só para procriação, isso é como acreditar que a linguagem serve só para a comunicação. Outros acham que o sexo é mais do que isso, é erotismo, é prazer, gozo mutuo, festa do corpo e do espírito. Para esses a linguagem não serve só para comunicar, e essa linguagem que não está nem aí para a comunicação é a poesia. Ela é a erótica do texto.

O sexo só para procriação só pode acontecer entre um homem e uma mulher, o sexo pelo prazer erótico pode acontecer entre quem quiser, até entre indivíduos de espécies diferentes! Assim também é a linguagem. Se você quer se comunicar escreva direitinho, num papai mamãe linguístico, mas se quiser gozar junto, se solta, solta a franga, despiroca, se embuceta.

Essas inversões e diversões me lembram os travestimentos. A poesia é um travesti. Ela usa a linguagem como vestimenta e arma para se transformar numa coisa que ela não é, mas a partir do momento que faz isso ela já é aquela coisa que ela não era.

Macunaíma, capítulo IV: A Francesa e o Gigante: “Resolveu enganar o gigante. Enfiou um membi na goela, virou Jiguê na máquina telefone e telefonou pra Venceslau Pietro Pietra que uma francesa queria falar com ele a respeito da máquina negócios. O outro secundou que sim e que viesse agorinha já porque a velha Ceiuci tinha saído com as duas filhas e podiam negociar mais folgado. Então Macunaíma emprestou da patroa da pensão uns pares de bonitezas, a máquina ruge, a máquina meia-de-sêda, a máquina combinação com cheiro de cascasacaca, a máquina cinta aromada com capim cheiroso, a máquina decoletê úmida e patchuli, a máquina mitenes, todas essas bonitezas, dependurou dois mangarás nos peitos e se vestiu assim. Pra completar inda barreou com azul de pau campeche os olhinhos de piá que se tornaram lânguidos. Era tanta coisa que ficou pesado mas virou numa francesa tão linda que se defumou com jurema e alfinetou um raminho de pinhão paraguaio no patriotismo pra evitar quebranto.”

O Mario de Andrade também sabia das coisas e Macunaíma é travesti francesa, armada de meia de seda, salto alto e de linguagem para derrotar o gigante. Isso é amor, isso é humor, e sempre funciona.
Ou não funciona tanto, porque nem eu mesmo estou entendendo do que eu estou falando. Sou um incompreendido de si próprio. Mas pelo menos se dá pra rir de si ainda dá pra se amar. Só é possível se amar quando se consegue rir de si mesmo. Só é possível amar o outro quando é possível rir um do outro meu bem, se não o que resta é chorar. Sim, eu citei Los Hermanos, o Vento.

E com eles chego ao contemporâneo, ao agora, essa busca incessante pelo presente. Mas o que é o contemporâneo? Só quem está vivo aqui com a gente, ou essa galera toda que já morreu, mas a gente conversa direto, tipo o David Bowie? Para mim são todos contemporâneos, os que aqui estão vivos nessa sala e o velho Alphonsus de Guimaraens morto em 1921, que se foi não sem antes dizer para o Osório Duque Estrada que preferia o livro “A arte de fazer vatapás a baiana”, do que célebre: “A arte de fazer versos”. Eu acho isso uma grande piada e uma grande sacanagem com o vatapá e as baianas. Comparar essa cultura maravilhosa com aquele livro chato do cara que escreveu aquela letra do hino nacional toda cheia de inversões sintáticas incompreensíveis.

Mas eu não posso falar mal dele se estou dizendo o tempo todo que poesia não é para comunicar. É para gozar. E afinal dá pra gozar muito nas inversões, como já vimos com o Macunaíma.

Talvez o Osório tenha tentado fazer uma grande piada quando escreveu o hino nacional. Vejam o David Foster Wallace, contemporâneo, porque nasceu ali em 1962, mas já morreu então não é mais contemporâneo, difícil esse conceito. Mas enfim, ele uma vez escreveu uma crônica chamada: “Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante”. Diz o David: “Para mim, uma frustração marcante de tentar ler Kafka com universitários é ser quase impossível fazer com que percebam que Kafka é engraçado”. Kafka, engraçado?! Eu juro que tentei! Li várias vezes a crônica, reli o Kafka, mas não tem jeito,  termino sempre chorando. Talvez eu tenha errado de livro, mas o que estava mais perto na hora que eu escrevia esse texto era o Carta ao Pai então vamos rir com o Kafka: “Querido Pai: Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento.”
OUCH! Nunca consegui passar desse parágrafo do livro. É muita porrada, não é engraçado.

Mas brincadeiras à parte eu entendo o David Foster Wallace. Ele diz que existem muitos humores e que os americanos estão acostumados ao stand-up, ao humor fácil, de piadas prontas, da punch line. Talvez eu esteja totalmente colonizado e seja um dos universitários americanos lendo Kafka, é sempre difícil entender a língua e o humor do outro. Mas sempre vale o esforço.

Pra mim engraçado e muito mais do que engraçado é o livro da Gaúcha Angélica Freitas.

“Um útero é do tamanho de um punho” é amor/humor em sua potência mais contemporaneamente exacerbada. Um livro que trata com amor e humor um tema porrada: O que é ser mulher hoje! Página 39 da primeira edição. Poema Mulher de respeito: “diz-me com quem te deitas / Angélica Freitas”. Todo mundo quer saber com quem você se deita / nada pode prosperar! Citei o Caetano agora pra compensar o Los Hermanos.

Amor Humor, Flamor x Flumor, sempre um clássico. Mas não na acepção mais comum do termo Fla x Flu, que quer dizer embate sem fim de contrários e sim na ideia, que no fundo reside em cada arquibancada de cimento, de que sem Fla não há Flu, sem Flu não há Fla. Opostos complementares, espelhos invertidos, o mesmo lado da outra moeda.
E fico devendo pra vocês a punch line!


Domingos Guimarãens

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

quintanares


vesti roupas novas
sapatos noturnos
para derrubar muros
e ser moderno.

Flávio Machado

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Poema de Yassu Noguchi


a potência
de uma coisa
está na beleza
da mesma
encontrar
sua sutileza


segunda-feira, 11 de setembro de 2017

À venda


Vende-se uma casa
com tudo dentro,
incluindo o cachorro.
Vende-se uma casa
com infiltração na cozinha
e alguns pratos quebrados,
onde por algum tempo
os donos foram felizes.
Compraram-na à prestação,
assim como a geladeira inox,
a mesa de madeira e a cama Box
onde eles tanto suaram.
A piscina acumulando mosquitos,
atuais residentes
do que um dia foi motivo de alegria.
Agora é caso de polícia,
o amor de briga.
E tudo será repartido
como o coração dos donos.

Diego Wayne

sábado, 9 de setembro de 2017

To say | Dizer — poema e tradução


To say

The man says: should not be here
        my way shows the other side
to where I will go
and where I will settle down and believe
I have reached my destination: the path
will be completed by the songs
I will play at the end of days

nothing happens by chance and songs are
sounds unestablished in the musical sheet
which improvisation surpasses reason
in the ignorance of dreams

the man says: no matter how bad
I am available and my readings
complete what I was thaught
almost nothing
            very little of this crazy science
that changes concepts of what is known
today and was known yesterday that tomorrow
will be new instruments and my silent voice
will say nothing at the end of the day.

Marina Du Bois


Dizer

O homem diz: não deveria estar aqui
       meu caminho indica o outro lado
para onde irei
e onde me estabelecerei e acreditarei
chegar ao meu destino: o caminho
se fará completo nas músicas
que tocarei no final dos dias

nada acontece por acaso e músicas
são sons não estabelecidos na pauta
que o improviso sobrepuja a razão
no desconhecimento dos sonhos

o homem diz: por pior que seja
estou disponível e minhas leituras
completam o que me foi ensinado
quase nada
         muito pouco dessa ciência louca
que muda conceitos do que se sabe
hoje e se sabia ontem que amanhã
serão novos instrumentos e minha voz
calada no final do dia não dirá nada.

Pedro Du Bois

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Pintura Renascentista


Emoldurado
por uma árvore
de folhas verdíssimas
por um céu
azulíssimo
ao lado de uma construção
despedaçada
quase uma ruína grega
sentado descuidadamente
uma perna jogada
ao acaso
as mãos apoiando
o corpo desenhado
a la Miguel Ângelo
com seus músculos
ligeiramente
flexionados
e seus cabelos esvoaçantes,
lá estava ele:
- O dândi moderno.

Max Leite

terça-feira, 5 de setembro de 2017

de leve


feminista sábado domingo segunda terça quarta quinta
e na sexta lobiswoman


Ledusha

domingo, 3 de setembro de 2017

Viagem


Uma embarcação no leito
e a lenta morte fazia sua hora.

O barco de papel trazia
um alfabeto de esqueletos mágicos.

O sol penetrava nos cabelos
das palavras doces
do livro itinerário.

No rio de símbolos
costurados pelo céu
um tapete de lágrimas.

A chuva se fez prece dos viajantes
percorrendo os papéis do vento.

Duas taças, a aliança
no ritmo dos vagalumes
a luz, acesa a espera.

O mapa do mistério da morte
amor em pedaços, sangra a lua.

A viagem pela escrita
um vazio de tempo
a bússola inumana das raízes.

O papel se mancha de tinta ácida
o rio percorre as pupilas – lenda
viajante sou de um barco maior –
o mar.

Alexandra Vieira de Almeida 

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

gás


deveria
ser mais do que um grito
de libertação

mas é apenas um
poema.

Flavio Machado

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Viagem aos seios dela


Faz tempo e tempo e tempo, mas sei que estive aqui com os pés
enterrados nesta areia e a água nos tornozelos porque o aroma é
peculiar e familiar, paira no ar, maresia áspera em mistura com
cheiro de mato molhado pela chuva invernal na beira da praia, e o
seu hálito quente e parecido com jasmim dizem que as donzelas
emanam assim e é verdade pelo menos com você no seu caso que
pude sentir naquele dia de sol recém-nascido tardio parido das
nuvens escuras que mandaram chuva para molhar o mato e fazer
surgir esse aroma misturado com o seu e também o sol saído veio
alumiar sua pele bronzeada em parte e em parte branca por sob o
maiô, que saquei, não propriamente saquei mas retirei com
cuidado, desamarrando os nós enquanto você olhava meus
desajeitados movimentos quando lhe ergui nos braços e lhe fiz
deitar na areia dura e o mar vindo e voltando em nossos corpos.

João Luiz Azevedo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A Tarde


A tarde é uma mulher recém saída do banho
pingos de chuva em sua pele lisa
como as calçadas nuas e escorregadias

escorre um recomeço verde
revelado nesta luminosidade
frescor de folhas estalando
coisa de florescer

eu e a tarde
suspensas no tempo fotográfico
num canto das folhagens
nos lábios vermelhos de sol - um sorriso
vários verdes desfilam como vestidos
o que guarda esta paisagem
um encontro
um amor?

Rosália Milzstajn

sábado, 26 de agosto de 2017

meu primeiro caderno de poesia


para Oswald de Andrade

confidente
de expectativas frustradas

absurdas utopias.

Flavio Machado

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Poema de Flavio Machado


a
   
solidão
  
dos
mortos
a
dor
dos mortos
absurda
dor
 a
  
solidão

dos
mortos
provisória
ausência de consciência
provisória

dor.

Flavio Machado

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

6º Curta na Uerj — festival de vídeos


O festival, promovido pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) tem como propósito incentivar a divulgação de produções não profissionais em vídeo e animação, bem como revelar novos talentos. Nesta 6ª edição o Curta na Uerj desafia os realizadores a abordar um tema amplo e complexo: Identidades. O tema vem de encontro com esse mundo globalizado, de fronteiras fluídas e de informação que trafega na velocidade da luz e tenta entender como os indivíduos constroem seu pertencimento a comunidades e criam novas formas de se relacionar com o mundo.
Os vídeos poderão abordar várias questões acerca do tema "Identidades", tais como diversidade, interação com diferentes grupos, trocas culturais e tolerância às diferenças.

Podem participar produções em vídeo ou animação realizadas com celular, filmadora ou máquina fotográfica. O Festival é organizado em duas categorias: Teen (para autores de 12 a 17 anos) e Adulto (a partir de 18 anos).

Os vencedores de cada categoria receberão câmeras digitais, smartphones e tablets. Os vídeos podem ser enviados até o dia 11 de setembro de 2017.


Inscrições e regulamento no site www.curtanauerj.com.br


terça-feira, 22 de agosto de 2017

A casa


A casa é um lugar dentro da gente
que as vezes cresce para fora
e a gente mora

Rosália Milzstajn

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A revolução da palavra


“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” (A revolução dos Bichos – George Orwell)

Uma letra mais um som. Um conjunto de letras e sons. Um conjunto de letras e uma escrita. Temos, pois, senhoras e senhores, uma palavra. Tão inocente e ao mesmo tempo tão perigosa, ela é o núcleo das acusações feitas perante este tribunal. Apresento, hoje, a defesa da ré- a palavra.

A acusação, como bem se sabe, é antiga. Muitos a diziam descaradamente, mas a maior parte da censura ocorria no plano do invisível. A palavra era acusada de pequenas subversões, uma ali outra aqui, mas foi sempre reprimida, desconsiderada, chegando até a não ser valorizada pela sua riqueza. Por isso, os poetas da década de 70 foram denominados de “marginais”, pois estavam à margem do uso valorizado - o editorial - da palavra.

Essa simples senhora - a palavra - submeteu-se durante anos a limitações. E não foram poucas. Houve até quem lhe 'parnasianisasse' e a pusesse como mera obra de arte num papel ou na boca de intelectuais. Tiraram a palavra do povo, subtraíram-lhe a vida.A palavra, porém, senhoras e senhores, está aqui diante de vós. Sem encobrimentos, sem vestimentas pedindo apenas o básico que deve ser dado a todo o ser: uma certa liberdade.

Não é pedir muito. Vejam: a palavra não precisa ser excluída de um espaço em detrimento de outro. A palavra não quer ter preferências. Só quer ser fluida como a "modernidade líquida" e poder ir de um local a outro, permear diversos campos, usar todo o seu potencial. Por que uma identidade apenas? - Eu pergunto: Por que não "celebrações móveis" de palavra? Percebam que o peso que impomos a ela não é o que impomos a nós mesmos. Se podemos viver em constante adaptação e mudança, por que a palavra não? Isso é injusto. E estamos aqui para tentar fazer justiça. Uma justiça de palavra.

Os senhores e senhoras devem estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com a exposição? Pois bem! A exposição não foi nada mais do que uma revolução. Algo que não foi tão planejado, que já vinha acontecendo em doses homeopáticas e agora tomou um espaço um tanto inusitado: o de uma exposição em um centro cultural. Inusitado porque estávamos acostumados a ler livros de poetas já falecidos e a colocá-los à frente das manifestações contemporâneas e vivas de poesia, de usos da palavra.

E que problema há em revoluções? Nós, Meritíssimo, fomos durante muito tempo inocentes quanto às mudanças que a própria palavra provocou. Uma abertura aqui, outra ali. Uma manifestação na periferia, uma manifestação na intelectualidade... A palavra, senhoras e senhores, não se deixou abater. E isso é digno de reconhecimento! Continuou a tentar se expandir e ampliar horizontes. Hoje, ela montou uma exposição de si mesma. Uma exposição, que como disse, é uma revolução. Uma revolução, eu diria, tão justa quanto a Industrial ou a Francesa. Uma revolução que muitos acreditam, e eu ponho fé, entrará para os anais da história.

É importante lembrar que, durante os anos e ainda hoje, a palavra foi além da mera comunicação, virou inclusive uma questão de poder (Foucault explica). Palavra é expressão, palavra é poesia. E por isso "Poesia agora". Palavra não é só direito dos livros de quem já está morto, de quem é conhecido, de quem sabe rimar. A palavra quer estar em todos os lugares: nas academias, nos parques, nas ruas, nas exposições, na boca e no corpo dos poetas. Na exposição, como já foi dito pela acusação, ela está nas lâmpadas, nas paredes, nos vídeos dos poetas, no banheiro e nos livros também. E quem a usa? Pessoas. Famosas ou não. Ricas ou pobres. Conhecidas ou não. A palavra, Meritíssimo, só quer o direito de ir e vir, previsto na nossa constituição.

É uma revolução? Sim! É uma revolução. A revolução da palavra! Como isso ficará lindo nos livros de história! Nossas crianças aprendendo desde cedo que a palavra não está morta, mas viva! E viva para se usar.Nossos meninos e meninas vendo, aprendendo e fazendo poesia, porque sabem que a palavra não quer ser direito de alguns.Não podemos derrubar a revolução da palavra. Tudo o que minha cliente pede, Meritíssimo, é o direito a uma certa liberdade. Direito esse que deve ser concedido à palavra, uma mera subalterna das emoções humanas. "Pode o subalterno falar?"- pergunta Spivak, e a palavra disse que sim. De fato, ela falou. Organizou uma exposição. Algo inovador. Notem que a minha cliente quer deixar de ser exclusividade de alguns e se mostrar viva. Seja no papel, seja nas ruas, na periferia, nos morros, na academia. A palavra deve ser livre!E olha que a ré não pede muito. Quer apenas continuar a ser usada pelas emoções humanas, só que com uma certa liberdade.

Na verdade, creio que, independente do que digamos aqui hoje, a história está mudando. A revolução já começou. Nossas atitudes não podem impedir um movimento tão digno quanto o da palavra. Entrará para a história. Isso é um fato. Mas como a história será contada? Como nossos nomes serão escritos pela palavra?

Dito isso, sem mais nada a acrescentar, deixo ao Meritíssimo a decisão.

À palavra, o meu agradecimento.


Caroline Ferreira de Oliveira Brizon

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