terça-feira, 8 de outubro de 2019

As senhoras da Gávea


Elegantes echarpes coloridas,
As suas joias são de azul-turquesa,
Possuem as vontades reprimidas:
Eis as damas da elite assaz burguesa!

Desfilam pela Gávea com seu brinco
Abrilhantado pelos seus diamantes!
E buscam o prestígio com afinco,
E rancorosas guardam-se pedantes!

Nas festas, nos seus chás, nos seus cafés,
No meio do marido infame e afoito,
Podemos enxergar o vil revés
Das saudades do século dezoito!

Sem corromper seu senso de justiça
No Domingo comungam blasfemadas!
Fazendo a caridade tão mestiça
De dar a esmola aos pobres nas calçadas!

Seus colares imensos de esmeralda
Refletem o sarcasmo deste mundo!
E o seu orgulho apenas se respalda
Na inocência do peito vagabundo!

São tolas, e o que têm de criminosas
Possuem também de índoles de santas!
Perdidas nas tragédias orgulhosas
De abafarem os gritos das gargantas!

Marido e filhos para olhar apenas
Das damas tiram todo encanto e luz...
E entristecem as vidas tão pequenas
Que ao padre prometeram sob a cruz!

Nem sabem que declinam por sofrer
Ao descobrir o esposo com a puta...
E choram ter perdido o seu poder
Das juvenis belezas em disputa!

Nenhum relógio marca o sofrimento
Das senhoras singelas e tão cultas,
Das senhoras que têm o sentimento
Oculto em terapêuticas consultas!

O seu pesar apenas se compassa
Na hierarquia fatal dos bons costumes...
Pois do que querem - vã vontade escassa -
A regra diz que querem só por ciúmes...

E das normas impera a língua má:
Se mais prata tiverem nos talheres,
Mais tristes riem risos, mas será
Que sofrem como todas as mulheres?

Guilherme Ottoni

terça-feira, 24 de setembro de 2019

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Armadilha, de Amarílis Lage de Macedo - Primeiro Lugar do X PPBPP


em seguida coloque no segundo
a primeira metáfora do verso
cuidado pra não assustar a isca
retire o lacre do isqueiro feito
isso acenda os ponteiros vão
disparar pela página tal como

uma bússola transtornada como
já foi assinalado aqui segundo
o relatório de alertas em vão
que pode ser conferido no verso
se o teste sugerido for bem feito
obedecendo cada etapa à risca

verso barbante ponteiros faísca
cada palavra queimada bem como
cada significado insatisfeito
dará origem a cada segundo
a vozes e formas de outro universo
ao traduzir cuidado com o vão

na noite reescrita com carvão
ainda quente desponta uma pisca
-dela bussolar enquanto troverso
na escadafalso desse manicomo
alguém suspira um terço rarofeito

em homénage ao verbo liquefeito
que me quase vem nesse vaivão
dinoturnamente persegundo
a pista da isca da isca
à vista miragem de voz que como
na ponta da língua um ser subverso

aguarde a chama destruir o verso
e a mancha se tornar pouso perfeito
pros ponteiros confira a seguir como
aperfeiçoar seu morteiro em vão
na busca pelo sentido que pisca a
trezentos quilômetros por segundo

Amarílis Lage de Macedo

quarta-feira, 24 de julho de 2019

De cair a chuva, de Mateus Baldi - Primeiro Lugar de Prosa do X PPBPP


Um.

A manhã ainda não chegou por inteiro quando Karen abre os olhos e vê a neblina encobrindo o Pão de Açúcar. Seu primeiro pensamento é Meu filho dormiu sem tomar os remédios. Karen levanta e corre até o quarto ao lado. Sente a pressão cair. O menino dorme em silêncio. A cortina chacoalha contra o vento. Karen acha que está muito frio para o pulmãozinho dele. Se aproxima. Toca sua testa – Sem febre, ótimo. Karen volta ao quarto e se enrola no cobertor. Ela não sabe se aquilo nos postes é chuva ou sereno. Coloca os óculos e tenta discernir. Chuva. Fina. Caindo por cima dos postes e interrompendo o fluxo da luz. A manhã ainda não chegou por inteiro e ela decide sair para uma corrida. Fica de calcinha, os peitos nus diante dos vizinhos dormindo, e escolhe uma blusa e uma calça no armário. A tina está descascando. Precisa falar com o proprietário. Vai trocar a pintura. Mas antes o filho precisa curar da pneumonia. Tomar os remédios direito. E Rodrigo tem que voltar de Chicago. E Nova York. Só então a pintura. Karen fecha a porta – a corrida, é importante correr. Não é errado, questiona enquanto mastiga um pedaço de pão, deixar alguém com pneumonia dormindo para correr na beira da praia em dia de chuva? Joga o copo na pia, passa uma água e deixa ali. Dá uma última espiada no filho. Oito anos. Emergência do hospital. Rodrigo em Chicago. Mensagem rápida – Como tá aí? Dois tiques. Zero resposta. Fuso horário. Karen abre a porta do elevador e não encontra ninguém, só o mesmo cheiro de mofo. O síndico deveria banir esses cachorros fedidos. O dia mal raiou e Karen já sente o cheiro de mijo.

Dois.

Empresa inteligente. A brand new concept. A indústria garante. Rodrigo garante. Karen pega o fundo da demissão e investe. Porque a indústria – e Rodrigo – garantem. Karen bota o cabelo num rabo-de-cavalo que repuxa e sente que precisa afrouxar. Mas acha melhor não. A corrida vai desfazer os laços. Agora sim é dia. Karen desliza pela rua, atravessa sem olhar para os lados, sem iPod, sem nada, e começa um ritmo lento, um trote, cavalinho sem sair da chuva, Karen não para, pisa em duas poças em menos de um minuto, deixa o ódio para trás, apressa o passo, corre por debaixo do viaduto, assiste aos ônibus passarem, aumenta o ritmo – cardíaco, tudo –, o peito acelerado é bom sinal, uma gotinha de suor pinga da testa, precisa retocar a tinta, comprar lingerie nova, aniversário de casamento daqui a duas semanas, tanta coisa, o sinal fecha e Karen pisa num pé, pisa no outro, abre os olhos, fecha, o sinal fica verde, pode ir, vai, observa os pombos, escolhe a direção, o Pão de Açúcar ainda está em neblina, tudo está em neblina, eu mesma estou em neblina, Karen pensa, meu filho está em neblina, puta que pariu, meu filho, eu larguei meu filho, mas já agora ela já está rápida demais e não consegue parar, o dia aumenta de intensidade e o ritmo também e o tênis pisa com força e desliza e Karen zune pela pista até tropeçar e quase cair de cara, as mãos repuxam o impacto, Karen vê o ardido grunhir por todo o corpo, talvez o ombro tenha deslocado, não, não deslocou não, para de drama, volta a correr, ninguém sabe, ninguém viu, até o Pão de Açúcar está fechado pela neblina, isso, continua a correr, Karen, corre, Karen, você consegue, dane-se a dor, o ardido, corre, corre, corre, corre, corre, hoje você vai até a Urca e se seu filho abrir os olhos ele vai entender que a mãe precisou dar uma saidinha e que os lençóis retorcidos, a calcinha e o pijama jogados na cama não significam nada, mamãe volta já, querido, mamãe só foi dar uma corridinha, é preciso correr, tem que correr, tem que suar, tem que malhar, vamos lá, pulmão, coração, pulmão, coração, rins, costelas, ardência na ponta dos dedos, não estar nem aí para os dedos, Karen, é preciso não estar nem aí para os dedos, corre, Karen, corre, Lola, Karen, Lola, Catarina, Cecilia, isso, nossa, Cecilia, lembra da Polignano a Mare, as ondas lá embaixo e o italiano te olhando e perguntando teu nome e você – É Cecilia – e o italiano – Um nome bonito – e dizendo Titilia, você riu, lembra, Karen, você riu, você dormiu com o cara em Polignano, aquelas rochas lá embaixo, a praia de conchas, uma gruta ligando o oceano ao fim do mundo, a família com os adolescentes, o neném, o garoto com blusa escrito I ♥ Porn, você rindo, os trailers no camping, você rindo, Titilia, Cecília, o italiano – Rino, my name is Rino – e você pensando que Rino era gerúndio em Mesquina ou Belfort Roxo, ai, que horror, menina, Rino, você lembra do pau, do corpo, o peito nu com aqueles pelinhos e seu desejo incontido de ser anônima por um dia, sem filho, sem marido, viagem às pressas, já que no sul, por que não Polignano, por que não visitar uma cidade construída sobre as rochas, casinhas brancas, um mar absurdo lá embaixo, tudo tão lindo, tão bonito, uma noite de sábado, enganar um Rindo, não, é Rino, isso, Rino, enganar um Rino e trepar com ele e gozar como Rodrigo nunca conseguiu te fazer gozar, é um sexo diferente, é tudo diferente depois que os filhos nascem, a existência presume a decadência, mas também é tudo junto, uma troca consentida num restaurante onde Rino é garçom e te serve uma pasta cheia de camarões e mariscos e aquela suruba alimentar que você mastiga, Rino, você pergunta se tem vinho e ele diz que te leva para tomar na melhor espelunca da cidade, ele diz num inglês macarrone, é engraçado, tudo em italiano termina com vogal, então eles falam inglês botando vogal no fim das palavras e você acha graça, você achou graça, você deu pra ele, What’s your name – É Cecilia – e no instante seguinte ele está te puxando pelos cabelos que nem Rodrigo nos primeiros dias, ele morde sua orelha e te põe em cima da balaustrada, o mar lá embaixo, o apartamento é de um amigo, fica de fundos, e os fundos em Polignano são a porra do mar, o mar inteiro, e ele te chupa com o mar por testemunha, sua bunda na balaustrada de ferro grosso, você se sente dona do mundo e crava as unhas nos cabelos dele, zonza, tonta, tudo, absolutamente tudo, Cecilia te liberta, mas é Karen, por isso no dia seguinte você fugiu, não foi, você fugiu, Karen, Karenina, tanto faz, fugiu, não houve trem, é certo, mas você fugiu e abriu uma fenda talvez no coração do pobre garçom, tadinho do Rino, volta lá, Marcela disse, tu precisa pedir desculpas pro maluco, mas você não queria pedir desculpas, apenas sumir, retornar ao Rio e sua vidinha miserável – entrepreneur, está na bio do Instagram, agora você é entrepreneur e investe dinheiro numa empresinha nova, inteligente, a brand new concept, a indústria garante, Rodrigo garante, todo mundo garante mas não confirma, o dinheiro uma hora desanima, o mundo desanima, o Pão de Açúcar desanima e o sol não adivinha, baby, no coração do Brasil, do mundo, do Rio, da Urca, hora de voltar, ainda correndo, Rino, Polignano, balaustrada, entrepreneur, pneumonia, o menino está com pneumonia, dois tiques, Rodrigo, Chicago, Houston, we have a problem, I cheated on you but it wasn’t so good, com on, Houston, Houston, Oi, tudo sim, e aí, Francisco melhorou? Sim, Karen responde, mas a verdade é que nem sim nem não, Karen não sabe, você não sabe, Karen, seu filho tem pneumonia, controlada, claro, o pai viajando e você sendo ausente correndo até a Urca debaixo de uma garoa que gruda a malha fina da caminha na tua pele de mãe ausente, mãe demente, que absurdo, Karen, o menino vai morrer e a culpa vai ser tua, vai sair em todos os portais de notícia, a mãe relapsa, mas tudo bem, você sobrevive, Rino sobrevive, o mundo sobrevive, até deixar de existir o mundo ainda vai acabar muito, você sabe disso, decide fazer a curva e seguir correndo, não vai atravessar e passar por baixo do viaduto, não, vai seguir correndo, um bom ritmo, um bom pace, não precisa de aplicativo, olha o ritmo, segue o ritmo, Karenina, segue o ritmo, olha que bacana, ritmo, o marido ficaria orgulhoso, o mundo ficaria orgulhoso, Rino provavelmente perguntaria – Por que você fez isso?, mas quem se importa, não é mesmo, da sua vida já basta você se preocupar, e não só dela, porque há uma empresa e um filho, um filho é outra vida, embora todo mundo sempre tenha dito que um filho é parte sua, coisa nenhuma, ele é diferente, ele é Rodrigo menorzinho, ele reclama, responde, causa problema na escola, você é chamada, você acha um inferno, não foi para isso que eu engravidei, e olha que nem tinha Instagram, porque se tivesse é claro que seria mais fácil, tudo é mais fácil na vida visível do Facebook, do Twitter, do Google, será que Rino ainda posta aquelas breguices no Facebook – Forza Azurra!, va funcullo pezzi di merda, buon giorno a tutti, daje – ou parou, tomou jeito, como anda Rino e seu pau, como anda Rodrigo e seu pau, como andam os homens e seus paus, como suportam existir com aquele peso entre as pernas, haja cinismo, é mais fácil sorrir quando não se tem nada impedindo uma boa cruzada de pernas, uma boa cintura, só o deserto percorrido de estrias que é a tua pele, o maior órgão do corpo humano, corre, ritmo, olha o ritmo, Karen, mantém o ritmo, Rino, Francisco, Rodrigo, todos os homens da sua vida rimam, e rimam porque os homens nasceram para rimar entre si, existe o clube do Bolinha e o clube da Luluzinha, são impenetráveis as bolhas, a social media, a internet, o aluguel, o condomínio, impenetráveis na sua própria existência, corre, Karenina, corre desse homem, Cecilia, faz a curva, volta, volta, a chuva está apertando e seu corpo não aguenta, vai cair de novo, menina, volta para casa, toma um táxi, pede um Uber, grita, urra, espirra, tosse, só falta eu também pegar pneumonia, calma, Karenina, tudo sob controle, ritmo, pace, meia-maratona no fim do ano, maratona no início do dia, o ritmo, continua tudo sob controle, a existência, a vida, o silêncio da cidade, Rino vendo você sorrir no começo da mattina e perguntando se está tudo bem e você sem saber o que dizer, só querendo fugir dali ao que ele diz – Troppo silenzio – silêncio silêncio silêncio silêncio silêncio silêncio explodindo em barulho no teu ouvido, o rugido do mar nas grutas de Polignano, nas pedras balaustradabaixo de Polignano, o mar em tudo e em nada e Rino dizendo – Meu avô era promotor de justiça e sempre me dizia que a vantagem do silêncio é não perturbar os inocentes – você queria ir embora, você só quer subir as escadarias, dane-se o elevador e o cheiro de urina, Francisco, você precisa de Francisco, ele precisa de você, ele acordou e está chorando em desespero, você tem certeza, Francisco, calma, filho, eu tô chegando, foda-se o portal de notícias, eu vou ser a mãe do ano, eu sou a mãe do ano, a melhor mãe do mundo, a melhor corredora, eu sou, eu sou, eu sou eu sou eu sou eu sou eu a melhor mãe do mundo abre a porta Karenina corre até o quarto não para de correr olha como você foi burra Francisco ainda está dormindo e lá fora nunca para não para nunca
de
cair
a chuva.

Mateus Baldi

terça-feira, 23 de julho de 2019

Estrelas binárias, de Maria Cecilia Touriño Brande - Segundo Lugar de Poesia do X PPBPP


Não alcança
uma estrela
ao seu lado
e vice-versa
na casa
no cosmo

ora brilha
ora queima a
outra ora
feito halo
aliança

ao seu lado
cargas positivas
fusão nuclear
repulsão mútua

órbitas instáveis
gravitam
nebulosas
desgarram-se
do sol

duas estrelas
revezam eclipses
uma galáxia
degenerada

gás e poeira
matéria escura
dentro e fora
um desatino

às vezes ok
anos desabam
(feito chuva de
terra e água)

cortes
rochosos
meteoricamente
viram lampejo

a matéria estelar
(a explodir)
é silêncio
e energia

na casa
no cosmo

Maria Cecilia Touriño Brandi

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Um risco vermelho no cinza, de Eduardo Coletto Furlan - Segundo Lugar de Prosa do X PPBPP


Quão frio pode ser este lugar, pensa o viajante na trilha de lama e neve, seguindo em direção ao cume de uma montanha distante que num fumo torrencial desaparece e retorna com violência constante, a solidão da multidão que se forma na rua de asfalto machucado salta, grita, esbraveja e joga pedras contra uma linha bem formada de homens brutos e armados, não pode ficar mais frio do que isso, pensa o viajante na trilha de lama e neve, estremece quando tenta olhar para cima, mas o vento forte risca seu olho que queima e em brumas se esconde com medo, atrás do carro, bem posicionado, é possível ver o invólucro cilíndrico girando e como num raio um grito surdo estoura e faz desorientar toda vida da natureza que corre num misto de raiva e desespero, tropeça numa rocha escondida na neve e cai ao lado de um troco petrificado, abre os olhos com medo da cegueira e nota aos poucos que consegue ver, mas já não há trilha de lama e neve, tudo é confusão quieta, os olhos arregalados a boca aberta e o som oco distante invade o grupo de estudantes que paralisados observam os homens fardados arrastando o corpo amigo, um risco vermelho no cinza, levanta assustado sem saber onde está, olha em volta e não vê mais o cume distante, já não consegue lembrar por que subia a montanha, num beco ao lado refugia-se o grupo que em prantos questiona o sentido de tudo aquilo, tudo parecia surreal demais para ser verdade, separam-se e vão embora, nunca mais se veriam, após duvidar da própria sanidade o viajante olha fixo para seus pés e vê atônito um horizonte brilhante em tons rosados, cheio de palmeiras com suas frondes emplumadas que pendiam para todos os lados e se aproximavam cada vez mais de suas mãos, até que um solitário pássaro marinho levanta voo e estremece a realidade num grito áspero que ecoa no centro de sua razão, em delírios um poeta debruça-se sobre sua revolta e escreve, já não mais sangrarei nas páginas, já não mais cantarei nos palcos, já não mais escrutarei as ordens dos deuses da terra, triste observa uma última vez o cume dos sonhos, aquela espécie de braço prateado a meio caminho do céu, serra os lábios e o silêncio parece coagular-se, cai como cinzas sobre as páginas, que escorregam de seus dedos e voam por detrás dos altos troncos junto a uma atmosfera negra e sombria, desaparecem ao lado de adormecidas orquídeas pálidas e num último suspiro indaga, que espírito maltratado poderia ter um sono intranquilo naquele solo abençoado.

Eduardo Coletto Furlan

sábado, 20 de julho de 2019

Solstício, de Erick Monteiro Moraes - Terceiro Lugar de Poesia do X PPBPP


Do ápice do dia
a noite súbita:
o eclipse
da narcolepsia

Do ápice do dia
a guilhotina
da noite
sua lâmina exata

(a noite se dilata
nas pupilas
sob as pétalas
das pálpebras
vermelhas
das papoulas)

Do ápice do dia
a noite súbita:
íngua de luz
sob a língua

*

Na ânsia do açúcar
o olhar
caleidoscópico
das moscas
os músculos acesos
a explosão
telegráfica das asas

Sem jamais repousar
elas pousam
      nosso olhar
ora ali
ora aqui

Que tramam as moscas
no esfregar de mãos?
O fogo primitivo
dos gravetos?

Que secretam do sol
Dissoluto do açúcar?

O sonho insone
o relâmpago
dos gestos:

obsessivos
os calidoscópios
copiosamente observam

Erick Monteiro Moraes


sexta-feira, 19 de julho de 2019

Gengibre faz bem pra garganta, de Lucas César de Oliveira - Terceiro Lugar de Prosa do X PPBPP


- Dizer o que sente também!

Eu sempre joguei esse assunto para o outro lado do muro, mas como fugir agora, preso em um apartamento sozinho com ele!? Claro que não durou muito mais que duas horas, mas algumas gerações minhas se entediaram e morreram no desenrolar. Resisti: tinha almoçado e meu corpo dava conta de estar acordado. Eu quis pular da janela, ver se minhas asas bateriam, mas não aconteceu, eu escondi o rosto em minhas mãos até o libertador surgir, indiferente e comprometido no ofício de salvar vidas presas em apartamentos com a chave para fora. Vou, sigo para o próximo assunto até eu perceber que estou em uma sala espelhada, onde eu olho para frente e enxergo infinitas costas minhas encostadas nas costas de você sabe quem, eu também sabia mas preferi ficar quieto a invocar o nome. Meu temperamento nunca foi explosivo mas ando muito enérgico, procurando caixas com aranhas para enfiar a mão: adrenalina da mais urgente e sem chances de dar errada. Tudo bem, paro logo no primeiro cigarro já com a pressão baixa, de fato não sou um senhor com traços sérios e barbas grisalhas, até gostaria porque assim não seria eu e então não estaria tentando escrever para no fundo cavar o oco do meu peito em busca do desconforto que sinto ao estar com meu pai. Eu disse calado que não diria mais nada sobre. Por muito tempo aceitar sua morte em forma de ausência foi de fato mais fácil, era como ignorar a escara em corpo alheio. Agora não, filho do pai eu e ele, por estar em meu corpo, pegajoso pelo meu braço e escorrendo por toda minha pele: como me livrar se ao abrir o chuveiro eu escuto o eco do seu chamamento. Queimando eu tenho você me olhando, calmamente dizendo algo macabro; que medo sinto de cair no mar e mesmo morrendo te ver ali do meu lado, passivo de olhos fechados se deixando afundar, ao fim dar-se. Eu abri minhas meias queridas e coloridas, soletrei o abecedário inteiro e você não escutou, mas por que agora que me jogo nesse buraco sem profundidade chamado ser adulto, você surge!? Deixa-me, eu e minhas calcinhas que agora cavo no meu cu. Nunca me reprimiu de mim, mas que história engraçada essa contada no pé do meu ouvido que te traz como homem, assim, de bronze fervendo a luz do sol à noite. Meu Deus, que mulher sejas e tenhas misericórdia da minha alma que está sufocada, vamos!, ouça-me e me puxa para um lado no qual a música tocada me lembre apenas tapetes árabes dançante, luas em peixes e lagostas, além de bocas vermelhas dizendo lagostas. Oasis. Por hora estou na gengiva do meu pai, roxa, enquanto o escuto comer como quem tem urgência, barulhento e tirando de mim arrepios. Santo madre o papa e a palhaçada toda, juntando em mim Jó e os carneiros eu não teria paciência. Que qualidade de texto você me permitiria fazer se não fosse o fato de seguir digitando como um bêbado correndo em uma rua infinita? Há, aqui mesmo no meu vagão, um sentimento de ânsia que não se vomita, um desconforto deitado na tarde de domingo sem sono, uma surdez de subida de Serra sem viagem, é como caminhar para um velório: nunca fez muito sentido, mas respeito em silêncio. Com certeza diriam essas palavras de alguma forma diferente, mas eu proponho carne de diversas cores ecoando as diferenças que em mim chegaram ao se partir de você. Riachos, percorram acelerados enquanto eu possa caminhar em silêncio ao seu lado, meu pai, eu deitaria no seu colo calado se tivéssemos coragem e lá, na nossa história composta de agora, um carinho na cabeça não pareceria uma britadeira escandalosa no sábado a gritar pelas seis da manhã. Com os números aprendi que demoro a compreender as equações, mas que é possível. Eu não lhe cobro o que não tive, sabemos que faltou em mim essa peça que quem sabe numa velhice esquecida passa a fazer parte, mas não reclamo a ninguém, nem a mim mesmo, quem escreve este texto é uma alma morta pronta para reencarnar em alguém como coragem de se viver o risco em se assumir precisado. Alguém que aguarda. Eu suspiro triste o fato das paixões terminarem assim como o fósforo à noite e de eu não estar bêbado e mesmo assim sentir que todo esse vômito faz sentido e diz algo fossilizado em 1500 anos dos meus 21 vividos, sim, dei looping em noites à procura de um cu que eu pudesse colocar o dedo me sentir cheio; como não preenchi meu corpo espaçado, segui cutucando buracos até começar a escrever, jogando-me no abismo de vez. Que saber, pai sabido, aqui é confortável e eu consigo deitar minha cabeça nas paredes úmidas, não sinto tanto frio apesar dos musgos e eu posso chorar sem ter a chance de me calar olhando-me você no espelho: quantas camadas de nós couberam em cigarros fumados escondidos no banheiro sem luz? Em!? Vagueio, meu pai que caberia em meu colo, quente e afetuoso, enquanto eu posso imaginar que é realmente possível ser amado por outro homem. Depois disso, chegando minha estação sinalizada pela voz robotizada do metrô frio, eu vou achar tudo mais possível de se perder. Entre o agora possível e o instante que vivo, eu salto em nuvens de algodão, sim, que não pesam, mas que podem me aguentar sendo reais durante meu sonho que escrevo ou adio o choro pelas palavras que não são minhas, mas morreram na garganta apertada. Minha e sua.

Lucas César de Oliveira


quinta-feira, 18 de julho de 2019

Variação cabralina n. 1: criança, de Jorge Luiz Lima de Souza - Menção Honrosa de Poesia do X PPBPP


Criança teme duas coisas.
(Coisa nela que é ela toda
e coisa outra que se arrebenta.)
Há na pureza da palavra a criança,
não nela, que coisa pura não se
arrebenta. Criança é coisa que se
arrebenta no cerne e no osso, no miolo do osso da ideia de carne.
Igual a um cachorro.
Mas cachorro não é criança,
não é rio, cachorro não é
analogia de coisa alguma,
é só pedra de pernas.

Criança é pedra de infâncias,
pedra ilegítima,
que pedra legítima, igual palavra,
não é coisa que se arrebenta
igual a criança. (Pedra legítima
é só, se for pedra.) Criança nunca
se sabe se é qualquer coisa
e não há quem não saiba
que qualquer coisa é tudo
e tudo não é só criança,
é tudo o que na criança
escapole dela antes de arrebentada.

Criança não é igual a pedra e cachorro,
que são sempre pedra e cachorro,
rio, que é sempre rio, coisa de sempre
ser; criança não se incrusta em pedra
feito carrapato, feito correnteza,
criança é longe disso.
Se um arremedo de rio se forma,
logo se sabe, mas criança é feita de parecer,
não precisa de arremedo de criança,
que ela é arremedo sem ser
feita para isso.
Arremedo de rio tem.

Poesia de rio tem.
Poesia de criança, dito
de criança que criança não lê,
porque não sabe que é coisa que
arrebenta nela que faz poesia dela,
feito peixe de rio, riscada poesia nele.

Criança não quer ser coisa que arrebenta
e é. É o destino dela,
é pasto que ela come à força.
Criança é o destino dela cumprido
e ela e todos sabem,
não é segredo da gente,
que se resguarda de tudo.

Se a gente diz que criança
é coisa que se arrebenta
diante da criança,
ela chora, porque para a criança,
dito é coisa de fazer,
é verbo de fazer
verbo, de fazer feito.
Mas se a criança lê em papel
que ela é coisa que se arrebenta,
ela ri, porque para a criança,
escrito é só coisa candidata,
coisa deficiente feito coisa candidata
que se humilha.

Criança não é coisa que se arrebenta
feito asa de xícara. É antes
feito linha de pipa
que se arrebenta. Linha
de duas coisas inclinada
feito linha com pipa.
Se se entendesse que criança é feito
linha como pipa que se arrebenta,
a criança ia arrebentar-se igual
a linha de pipa, que isso é destino
dela e da pipa.
Criança é coisa que se arrebenta
e voa, feito linha com pipa
que se arrebenta no cabresto.

Jorge Luiz Lima de Souza

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Um dia quente, de Irma Caputo - Menção Honrosa de Prosa do X PPBPP


Nossa, que calor. Esse cúmulo de cinza toda ainda quente em cima da minha cabeça. Quase me sinto de morrer pela segunda vez. Ainda me lembro quando escutei aquela voz de mulher gritando no meu ouvido, depois de tanto tempo sem som, sem ar, só acostumada àquele barulho abafado vindo de cima. A mulher gritou tão forte que me lembrei do meu último respiro antes de morrer. Gritei tão forte também, tão forte que saiu sangue do meu nariz. O medo faz gritar, se não faz gritar faz recuar e desmaiar. Eu arregalei os olhos, acho que gritei ao mesmo tempo, talvez segundos depois e sim desmaiei. Assim que quando abri os olhos novamente, vi exatamente o bicho levantar a pata para arrancar meu coração do peito. Fiz a tempo de desmaiar pela segunda vez. Assim que tenho uma vaga lembrança da minha morte, desmaiei, acho que foi uma espécie de autodefesa para não sentir a dor do coração arrancado. Que medo que me deu aquele bicho estranho. Hoje vocês chamariam de urso. Na época era algo similar, só que maior e com mais pelo. Também tinha patas que vocês nunca viram. Todo o mundo que passava por mim, antes dessa merda de cinza quente cobrir minha cabeça e aquela porra de calor danado se espalhar por todos os lados, dizia, comentando para os que não sabiam, que na minha época eram os homens que caçavam. Porra nenhuma, quantas vezes me torci por dentro e tive aquele desejo forte de língua e traqueia para voltar a articular som e dizer para todo o mundo que estavam enganados. Estudando estudando e só conjeturando coisas, querendo falar do que não sabiam. Se os homens fossem os únicos caçadores que não teria morrido com a tenra idade de 20 anos. Maldito o meu pai, malditos meus irmãos. Já na época as mulheres faziam tudo. Hoje vocês chamariam de trabalho doméstico e trabalho externo, na época era tudo junto e misturado e escandia o tempo do nosso dia. A gente não tinha relógios. Na minha época o tempo era medido por dentro, com base no que sentia o nosso corpo (a hora de comer, a hora de dormir, a hora de foder, a hora de cagar e de mijar), e por fora, com base nos movimentos do céu (o sol que nascia, a lua despontando na linha do horizonte, a treva chegando). Tudo. Eu fazia tudo. A porra toda. Pois, aquela desgraçada da minha mãe também havia morrido bem nova, meu pai matou ela. Na época isso se chamava de direito do homem, hoje ainda acontece, só que vocês chamariam de violência doméstica, embora alguns insanos inomináveis não achem. Sincronicidade do azar. O meu e o seu, ela morria e eu era condenada à escravidão dos machos que só matavam um bicho de vez em quando para poder se mostrar na frente dos outros, dizer que eram os mais fortes para eventualmente ter o domínio. Por quê? Para fazer ainda menos, mais poder tu tinha, menos trabalhava, o negócio era tu mandar os outros fazerem. Para as mulheres nenhuma chance de mandar, sonhei muito com uma tribo de longe, onde, contavam uns homens que haviam viajado, eram as mulheres que mandavam. Tribos matriarcais, vocês chamariam hoje, na época se chamavam bando de mulheres perigosas. Imagina se tivesse o facebook ou instagram, com a vaidade que os homens da minha família tinham, aposto que aqueles merdinhas publicariam fotos segurando os bichos mortos pelas cabeças, assim ficariam mais desejáveis para aquelas putinhas dos clãs mais próximos. Eu sei que não dá para entender nada, que passo de um negócio para o outro, é que o calor sempre me deixou louca. Louca, louquinha. Mesmo. E hoje aquele fogo da porra atingindo tudo, deixou tudo quente em cima de mim, quilos de escombros quentes. Minha cabeça ferve sozinha. Eu caçava, cozinhava, ajeitava aquela cova fria com paredes de pedra e terra batida onde a gente dormia. Os meus irmãos até ficavam em cima de mim, aqueles merdas. Nunca dei para eles. Na nossa época estávamos um pouco mais avançados que os antepassados, a gente já sabia guardar comida. A comida vinha da caça e da colheita, mas a gente não sabia plantar. Enfim cuidávamos do nosso canto, tínhamos um lar fixo, mas para alguns ainda não estava clara a diferença entre a irmã e outra mulher para satisfazer seus desejos. Nossa! Essas vozes de gente chorando... Que incômodo, não me deixam raciocinar. Dizem que não sobrou nada. Quanta interrupção. Enfim, vamos lá, mas é que o calor me deixa louca. Louca, louquinha. Mesmo. E essas vozes abafadas vindo de cima me distraem. Aquele dia, lembro como se fosse hoje, nenhum dos merdas dos meus irmãos levantou nem para ir pegar água. Acordei cedo com uma sede do cacete. Mandei eles se ferrarem, gritei que não teria pego água também para eles. Só curtindo o dia todo e eu ralando para eles. Fui pegar água. Bebi, me lembro aquele sabor de nada fresco, um nada fresco escorregando no meu esôfago. Havia sonhado que quando estamos prestes a morrer, tudo fica mais vívido. Senti cada partícula de água escorrer na parede do meu esôfago refrescando cada centímetro tocado. Não sei se foi a sede satisfeita ou foi presságio. Na época também achei que estivesse ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Escutei uns moços comentarem dessa situação uma vez que haviam parado na minha frente para me observar. Era uma visita de escola e enquanto o guia falava, eles se haviam afastado para comentar do sábado anterior. Um deles disse que havia fumado um num show de reggae na fundição, e era toda erva natural, o negócio estava tão forte que começou a ter alterações dos sentidos, tudo mais forte, tudo mais à flor da pele, tUUUUUdOOOOOO mais AAAAAAAmplOOOOOOOOO, tUUUUUUUUdOOOOOOOO, mAAAAAAiOOOOOOOr e começou a visualizar a cerveja fria escorregando na garganta, sentia aquele rio de frescura invadir o estômago e cada órgão da ingestão se tornando gelado ao contato daquele líquido frio. Eu sei que não dá para entender, que passo de um negócio para o outro. É que o calor sempre me deixou louca. Louca, louquinha. Mesmo. Nossa! Essas vozes de gente chorando. Quanta interrupção! Dizem que não sobrou nada. Enfim, vamos lá, naquele dia também achava que estivesse ficando louca. Louca, louquinha porque o bofe do clã vizinho me queria, mas o meu pai e os merdas dos meus irmãos não me deixaram ir. Pois queriam algo em troca que não quiseram lhe dar. Queriam uma putinha loura que já estava nas graças de outro cara do outro clã. Toda politicagem. Mas eu gostava do bofe. Pensei que estivesse ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Decidi ir buscar comida, como pode acordar um bicho sem nada para comer? Aquele dia estava um puta calor, como nesta noite de setembro em que morri pela segunda vez, aquela sensação de abafamento, de calorão. E hoje aquele fogo da porra atingindo tudo, deixou tudo quente em cima de mim, quilos de escombros quentes. Minha cabeça ferve sozinha. Pela segunda vez. Insuportável. Os cientistas dizem, isso sempre sei pelas conversas das pessoas que paravam perto de mim, que há umas mudanças climáticas em cada época, mas uma coisa é certa, um puta calor estava no dia em que o bicho arrancou meu coração, um puta calor estava hoje à noite no momento em que vi fumaças e chamas se aproximando sem um mínimo recuo. Não, na verdade não. Houve recuo sim. Acho que estou ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Pois bem, em algum momento umas janelas explodiram e a entrada do ar frio gerou, depois de um primeiro recuo, um avançamento das chamas como um efeito pressão. Foi naquele momento que o fogo se espalhou por todos os lados. Alguém gritando, cadê a porra da água? Acho que estou ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Andei horas redondas para achar um bicho pequeno, daqueles que não me davam trabalho para matar e para limpar. Achei finalmente, o negócio era correr mais do que ele. Caraca, pequeno e ágil, difícil de enfiar aquele bicho, minha lança era curta demais. Estava ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Pensando no bofe me pedindo para namorar e o meu pai e aqueles merdas dos meus irmãos falando que não. Eu queria o bofe, mas na verdade o que queria mais era me libertar dos merdas. Fiquei pensando se um dia pudesse achar a tribo das mulheres perigosas, ou matriarcais se lhe agradar mais. Linda, livre leve e solta doida para beijar na boca, em vez de bela, recatada e do lar. Bela é o caralho. Recatada é o caralho. Do lar é o caralho. Que calor danado, porra! Minha cabeça está fervendo sozinha. Eles é que estavam me deixando louca. Louca, louquinha. Isso foi o último pensamento que tive antes do bicho vir em cima de mim. Urso, vocês chamariam hoje, se lhe agradar, só que na época era maior e com mais pelo. O medo faz gritar, se não faz gritar faz recuar e desmaiar. Eu arregalei os olhos, acho que gritei ao mesmo tempo, talvez segundos depois, e sim, desmaiei. Assim que quando abri os olhos novamente, vi exatamente o bicho doido levantar a pata para arrancar meu coração do peito. Fiz a tempo de desmaiar pela segunda vez. Assim que tenho uma vaga lembrança da minha morte, desmaiei, acho que foi uma espécie de autodefesa para não sentir a dor do coração arrancado.
Tive medo também nessa segunda morte. As chamas avançando, a porra do calor derretendo tudinho.
Só não tive olhos para arregalar, não tive coração para desmaiar. Só tive o medo.
Estava morrendo pela segunda vez. Condenada às trevas.
Luzia, condenada às trevas.
Aliás, todo mundo me chama de Luzia. Nunca entendi por quê. Que porra de nome é esse, hein? O meu nome até o momento da minha primeira morte sempre foi Ashaki. Acho que tô ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Luzia, isso sempre sei pelas falas que escutei do povo de latim que parava perto de mim, significa portadora de luz. Engraçado uma pessoa que foi condenada às trevas duplas, 11.500 anos de primeira e agora de novo para quem sabe quanto tempo, se chamar assim. Luzia, portadora de luz. O povo tá de sacanagem mesmo com a minha cara. Deveria me chamar Mnesys. Pois guardo em mim as memórias do mundo. No lugar onde eu estava não tinha ser ressecado mais velho que eu. Eu, Ashaki ou Luzia, que lhe agrade, era a mais importante, mas juro que nunca fiz biquinho quando tiravam selfies comigo. Eles que faziam, eu não, aliás, que saudade tinha da boca. Esse calor danado tá me deixando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Se vão me achar de novo será que continuarei sendo Luzia? Pensar que tinha me acostumado. Quase cheguei a gostar. Linha, livre, leve e solta, doida para beijar na boca, nem língua tinha mais. Acho que tô ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo.
Mnesys, gostaria mais.

Irma Caputo

terça-feira, 16 de julho de 2019

Soma, de Matheus Ribeiro A. Lima - Menção Honrosa de Prosa do X PPBPP



Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Antonio Cícero

A questão que me pega é sobre o motivo que tenha conduzido Samuel Rawet a guardar seus recibos de tinturaria. Se eu fosse apaixonado pelo tintureiro, provavelmente guardaria aqueles papeizinhos. Guardaria, se tivesse, sua assinatura pela simples razão de, como paixão guardada no peito, me valer do risco em tinta no papel – com um toque distraído, descompromissado, mas toque. Colecionaria aqueles autógrafos pela casa. Dessa forma, tanto pareceria produto da minha bagunça, acaso, inadvertimento, quanto não teria a preocupação de manter meu amor e seus papéis todos selados numa caixinha no fundo do armário entre as roupas para que ninguém os descobrisse.

Propunha essas coisas enquanto tentava organizar o pensamento, escrevendo, sentado na sala 114. As janelas abertas, eram ainda 14h quando reparei que a sala estava vazia e entrei. Do lado de fora, a chuva caía de sua maneira peculiar de cair pela PUC: como uma pluma. Gotas levíssimas. O caso Rawet era minha preocupação havia um tempo. Em seu recém-montado arquivo, em meio a cartas, projetos de engenharia civil e produção intelectual de qualidade inédita, havia muitos recibos de tinturaria. De tudo quanto se podia guardar num arquivo (no de David Zingg tem um acervo vasto de negativos e um par de sapatos), a reunião daquele tipo de notinhas ainda causava estranhamento.

A sala estava zoneada. Ou melhor, organizada de outra maneira que não a de uma métrica rígida, repetida, apenas um ritmo diferente de se dispor as cadeiras e mesas. Tirando eu e elas, só o ar preenchia a sala. Estava sentado para perto da porta. Foi quando o ouvi limpando a calça. Seria Lúcio? Descruzou as pernas, as abriu, e passou a palma pela calça de algodão. A calça entre azul ou preto, a blusa de manga comprida azul marinho. Cruzou novamente as pernas e os braços. A cara de enfado. Mas não o vi. Sentado para perto da porta, mantive-me no trabalho de detetive. Queria esmiuçar outras possibilidades para o caso, mas só conseguia pensar em Rawet e seu tintureiro. No mais clichê de duas mãos se tocando e olhares se trocando, ou na aversão do tintureiro a alguma abertura dada por Rawet, ou no mecânico em que nada de esplêndido acontece mas o coração do escritor bate mais rápido e ele sai da tinturaria com o ventre apertado gaguejando o que nem tinha para falar. E então voltando ao lugar onde se hospedava. A cabeça no carinho, no medo ou na insegurança. Quem sabe um dia chegou a tomar coragem. É o que eu faria. Levaria tempo, colocaria o corpo todo em preparação. E quando falasse, seria correspondido? e talvez não precisasse mais pagar, uma vez que o namorado tintureiro faria aquilo por favor. E se não fosse? e se fosse repelido? teria que mudar rapidamente de tinturaria ou mesmo parar com o serviço. Para essas possibilidades, o fim indicava uma expressão nos dados retidos.

Como faz parte do meu método, eu iria começar (e comecei) a criticar os caminhos que tomavam os meus argumentos. Por que jogava toda a culpa sobre as paixões? Mesmo para o caso de alguns recibos recolhidos, botava na conta de um amor. O que, por sua vez, é culpa dos romances. Fui a Bolaño. É bem reconhecido o uso que ele fez do romance policial como recurso de alcance ao público. A mim parece que falam que o detetivesco de seus romances seja puramente a forma que encontrou de falar dos amores humanos sem ficar preso às prateleiras e aos rótulos do intimismo; que os amores humanos são sua questão fundamental, toda a intenção de suas obras e que usa do recurso policial com mero meio de chegar a esse fim. Porém mesmo os amores humanos são mote de muitos best-sellers. Claro que com uma outra configuração, algo por vezes mais melodramático ou apelativo. Contudo, da mesma forma que Roberto Bolaño pode reconfigurar o romance policial a seu serviço, também o pode ter feito com as paixões – deixando sua questão para outro traço ou argumento a ser descoberto. Da mesma forma, eu poderia estar atribuindo a razão de um amor à história para que ela pudesse se tornar atraente para mim. O fantasma de Lúcio Cardoso soltou uma risada irônica de canto de boca. Estava largado na cadeira.

Pensei então que podia seguir o método oposto: atribuir ao fato da reunião dos recibos um motivo que me fosse desinteressante. Difícil. Tento me esforçar para não engessar meus horizontes de perspectiva. Tento achar que tudo quanto exista possa ser atraente. Ou que não gostar de certas coisas é como uma violência e que devo me abrir à experimentação. Nisso, lembrei de uma conversa com Diam no bar. O “m” em Diam é pronunciado como em latim, logo, não seria algo como “Díão”. Ele contou de como havia sido lidar com o arquivo do Rawet enquanto o organizava. O que mais mexeu com ele era a paranoia do escritor. Disse, de camisa aberta, peito desnudo, e um copo de cerveja na mão, de um caso dele envolvendo polícia. Certa vez, o escritor chegou numa delegacia querendo denunciar todos seus vizinhos por estarem perseguindo-o. Todos os seus vizinhos. “Os problemas clássicos: álcool, xenofobia, sexualidade marginalizada. E problemas seríssimos com o conceito do judaísmo e com a família”. Eu acho que não falei mais nada. Mas agora essa pista me abre um caminho. Dentro das paranoias que vi de perto, algumas necessitavam da marca de estar vivo como fuga. Não cair na ilusão de ser si próprio um fantasma. Para isso, tomar do habitual. Pião da origem. Nesse caso, o costume de ir à tinturaria se transforma nesse denotável e ter isso guardado era para ele confirmação de viver. Lá fora, a chuva dava trégua – ainda que seu cair seja uma trégua ele próprio. Começava a decantar a luz do dia. Nesse instante, o balançar da perna cruzada do fantasma de Lúcio Cardoso fazia-se audível. 

Minha caneta começou a falhar. Saí um pouco do ritmo da escrita. Olhei para fora e lembrei das vezes em que, nos primeiros períodos, abria o janelão, pulava e olhava para a enorme parede de mato. Podia-se facilmente passar dali para outro lugar, sair por outra sala. Mas isso não se fala. Depois fiquei olhando o quadro enquanto rabiscava o canto da página para que a tinta voltasse a correr. Não gosto de fazer isso, parece desgastar demais o papel e depois guardar nele tanto a marca de um erro quanto a marca do descontrole – da própria natureza do rabisco. Todavia, se incorresse em queimar a ponta da caneta (técnica infalível), deixaria o metal borrado pelo fogo. Como se rabiscasse também nele. No quadro, vinha escrito apenas o sobrenome de Ludwig Wittgenstein. Lembrei da parte de um sonho que tive. Estava na UERJ e comentava estar estudando-o com alguém. Um menino branco de cabelo ruivo então fala: “ah, até acho ele interessante, mas não me desce isso de que só existe uma opinião, um (esqueci), ou só a cor azul – e que o resto seja puro acaso”. Acho que Wittgenstein nunca falou isso. Ou que isso tenha de alguma forma a ver com seu pensamento. Falaram-me, não faz pouco tempo, que muitos animais, como peixes, não refletem a cor azul de fato. Têm apenas um pigmento chamado furta-cor que os dá essa tonalidade. Os gregos não tinham, nos cantos de Homero, uma palavra para azul. Na Odisseia ou na Ilíada, o mar é negro, o céu é branco. Nada de azul: só acaso? A caneta começa a soltar sua tinta. No fundo da sala, o fantasma de Lúcio Cardoso tem o braço direito pendido. Sente a dormência em completa inércia.

Matheus Ribeiro A. Lima

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Expresso Brasil, de Luma Rodrigues - Menção Honrosa de Prosa do X PPBPP


As cataratas nos olhos brancos do maquinista não o impediam de conduzir a grande máquina de metal com maestria em constante progresso rumo ao passado. No primeiro vagão, um ambulante vende pedaços de artefatos egípcios e de outras civilizações antigas. Um pedaço de sarcófago da 23ª Dinastia a 10 reais, promoção só aqui na minha mão, mas ninguém entende muito bem do que se trata. O presente ao fim do dia para os sortudos era a conquista de um assento rígido para endireitar as costas tortas e cochilar o sono dos maltratados. O ambulante recolheu as peças nos escombros do antigo Museu, sobre o qual hoje é construída a Igreja Memorial Brasil, em que os passageiros rezam que caiam por terra os inimigos que tentam roubar o meu assento, sejam pisoteados antes de entrarem no vagão. No jardim da igreja há um cemitério, sob o qual estão enterrados os yanomamis, os incas, os egípcios, sepultados por contarem heresias de terras distantes sem cruzes. Daquela grama, cresce uma árvore chamada Favela. Um profeta do último vagão faz uma oração, que o Senhor Deus dos Maquinistas conduza de volta esse país aos trilhos, amém, meus irmãos passageiros? Esta é a profecia que se cumpre ao povo faminto que ajudou a cravar com as próprias mãos a cruz no cemitério indígena porque a cruz era mais leve que a fome do luto, fome tão grande que faz o povo engolir sua própria História, que faz o povo aceitar comer um pão pra matar sua fome sem saber que o trigo era sua própria pele, como comem aos Domingos a carne do Cristo pisoteado no vagão. 

Luma Rodrigues

Vencedores do X Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia


No dia 22 de novembro de 2018, no Solar Grandjean de Montigny, na PUC-Rio, ocorreu a cerimônia de premiação do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia, concurso aberto a todos os alunos e funcionários da universidade. Organizado pelo PET-Letras, recebeu este nome em homenagem ao grande professor, poeta e tradutor Paulo Henriques Britto — um dos padrinhos do jornal Plástico Bolha. Os textos vencedores de cada categoria vocês conhecerão ao longo dessa semana, aqui, através do nosso Blog!

Segue a lista com os nomes dos vencedores do Prêmio Paulo Britto:

PROSA

1º lugar: De cair a chuva, de Mateus Baldi
2º lugar: Um risco vermelho no cinza, de Eduardo Coletto Furlan
3° lugar: Gengibre faz bem pra garganta, de Lucas César de Oliveira

Menções honrosas:
Expresso Brasil, de Luma Rodrigues
Soma, de Matheus Ribeiro A. Lima
Um dia quente, de Irma Caputo

POESIA

1º lugar: Armadilha, de Amarílis Lage de Macedo
2° lugar: Estrelas binárias, de Maria Cecilia Touriño Brandi
3° lugar: Solstício, de Erick Monteiro Moraes

Menção honrosa:
Variação cabralina n. 1: criança, de Jorge Luiz Lima de Souza


segunda-feira, 17 de junho de 2019

Em meu coração


Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, - nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.
Junqueira Freire

Enterneço-me apenas em recordar-te!
Eu que pensara — em um triste padecer, —
Nunca mais sentir o coração bater...
Mas, felizmente, só até encontrar-te!

Longe de ti, meu espírito se parte...
Perto, no entanto, sinto-me renascer.
Tu és o arquétipo de meu viver,
E a mais sacra e angelical obra de arte!

Porém, de que vale um amor que não fala?!
Próximo a ti tal sentimento se cala,
Como se nem fosses nada para mim...

Mas, na verdade, em minha vida, és tudo!
E se contigo por fora eu fico mudo,
Ressoam por dentro palavras sem fim.

Renan Tempest