segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sobre os goleiros



Medita o goleiro-engenheiro na geometria
dos gestos mais econômicos
Traves são planetas grávidos de gols,
vicejados de noite

O gol é o melhor psicanalista do atacante,
o gol redime quase tudo
É a meta representação ideal para toda cirurgia do jogo;
para o verão forçado de um gol

Antes de qualquer tempo inaugural,
já pairariam os goleiros
com suas aparências desoladas
a beijar solitariamente suas traves

Goleiro, mãe do galináceo,
guardião do marco zero
O mistério dos goleiros:
Eles também não aprenderam a voar



Augusto Guimaraens Cavalcanti

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Poeta Lucas Viriato no Midrash


O poeta Lucas Viriato estará na noite de hoje, 18 de abril, no Midrash Centro Cultural, para uma exclusiva leitura de poemas e um bate-papo amigável e descontraído com o público. Esperamos vocês lá!


domingo, 15 de abril de 2018

o nosso céu



a cama
ainda quente
nossos corpos
cansados
suados
(porém felizes)
se abraçam

e suas bochechas de pêssego
descansam
sorrindo
em meus braços

e eu,
olho pra cima
e me pergunto
se existe algum céu
mais bonito
e estrelado
que o teto do nosso quarto



Victor Hugo



sábado, 14 de abril de 2018

Um poema de "Nihil Zine", de Nelson Neto


Será que serei brindado novamente
com o olhar dessa menina
Será que conseguirei esquecer
dos segundos em que nos fitamos

Acalento, de momento,
Proporcionado pela beleza
mais que carnal,
Divina em platonismo

sonho a preencher com sorriso
toda a roda da fortuna.
Toada de dezembro canto do silêncio
marcado por um só expectador


Nelson Neto

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Plástico Bolha no Abril Gráfico da Audio Rebel



Neste fim de semana, esperamos vocês com edições do Plástico Bolha, além dos livros da OrganoGrama Livros, muita conversa, simpatia e animação na feira Abril Gráfico — Publicações e Arte Impressa, na Audio Rebel. Mais informações no flyer abaixo.


Orbison


Only the lonely knows
what happens in dreams
when pretty woman
walks away


Augusto Guimaraens Cavalcanti

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Viagem



Uma embarcação no leito
e a lenta morte fazia sua hora.

O barco de papel trazia
um alfabeto de esqueletos mágicos.

O sol penetrava nos cabelos
das palavras doces
do livro itinerário.

No rio de símbolos
costurados pelo céu
um tapete de lágrimas.

A chuva se fez prece dos viajantes
percorrendo os papéis do vento.

Duas taças, a aliança
no ritmo dos vagalumes
a luz, acesa a espera.

O mapa do mistério da morte
amor em pedaços, sangra a lua.

A viagem pela escrita
um vazio de tempo
a bússola inumana das raízes.

O papel se mancha de tinta ácida
o rio percorre as pupilas – lenda
viajante sou de um barco maior –
o mar.



Alexandra Vieira de Almeida

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Cabelos versados versos trançados




Hora de virar a página, preta
Aquela escrita lisa e rasa
Deu lugar às escrituras encrespadas, sagradas
Tua história é permeada em cada  linha de teus versos
No entrelace da tua trança
Mãos, dedos e a magia dessa dança
Mechas versos embalados
Na criança, menina, mulher
Fios da memória e a paciência de quem hoje
Sabe o lugar que se quer
Trançar palavras 
É o mesmo ritual de versar os cabelos



Elizabeth Manja

terça-feira, 10 de abril de 2018

Maturidade


Eu sou um privilegiado
e nem percebia:
vivo a minha fantasia.

Tenho tanto
em tão pouco
mas não me basto
no pleno usufruto
do qu'eu queria.



Antonio Miranda

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Na boca Lâminas, de Domingos Guimaraens


Como se tivéssemos na boca
Lâminas de slide
Algo comum
Maravilhoso
Porém
Diário

Lâminas que com a baba
Enquanto estrutura
De bola de sabão
Criássemos películas
Para projetar imagens
Ao invés de projetar o som

Das bocas projetoras
De toda milimitragem
Sairiam as imagens
Dos nossos sonhos
Como a do Lula livre
Abraçando o povo

Projetando da sua boca
Projecionista
O Brasil que queremos
E que ele sempre
Sonhou

Imagens cortantes
Pois não é fácil
Mudar 500 anos
De projeções de
Privilégios
Acabar com os vários andares
Dessa sala de cinema do real
Que deixam uns tão perto
E outros tão longe
Das imagens que são sonhos

Transformar a vida
Em cinema a céu aberto
Em praça pública de encontros
Para que cada boca
Possa estar equidistante
Da tela onde quer proejtar
Seu sonho

Sonho que continua em nossas bocas
Como uma lâmina de slide
Maravilhosa
Cotidiana

Se aquela boca presa
Censurada
Velada
Injustiçada
Continua projetando sonhos
Não é a nossa
Aqui livre
Que pode parar
De inundar o mundo
Com as imagens
Do Brasil que queremos
Do país
Que ele sempre sonhou

Pense numa imagem para:
A luta continua, companheiros.
Abra a boca.
Inunde com ela o mundo.

Domingos Guimaraens

domingo, 8 de abril de 2018

À margem do douro, poema inédito de Paulo Henriques Britto



Não espero nada, e já me satisfaço
com a consciência de ainda estar em mim
e não de volta ao nada de onde vim.
Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,
junto a uma mesa no Cais da Ribeira;
permito-me, sem culpa, desfrutar
de pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,
todo o entorno da minha cadeira.
Que os dias que me restam não me tragam
apenas a miséria de contá-los
pra ao fim ver que as contas não fecham. Peço
demais? Eu, que não sou desses que tragam
a vida num só gole e no gargalo,
sem ter nem mesmo perguntado o preço.

Paulo Henriques Britto



Paulo Henriques Britto, é professor da PUC-Rio e um dos maiores tradutores e poetas atuais do Brasil. Irá lançar seu próximo livro, que está com o título provisório de "Nenhum mistério", no segundo semestre deste ano.

terça-feira, 3 de abril de 2018

suor


deslizemos juntos
depois da siesta
deixando todos nossos problemas

coloque uma onda sobre mim
trago o trago da tarde
a rede do depois

o desfazer da barba
a cama larga
joelhos que se opõem

meu todo antes

Gabriele Gomes

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Meu coração


Meu coração é um túmulo funéreo,
Um mausoléu desértico, esquecido,
Que bate solitário e adormecido,
Nos becos de um soturno cemitério...

Meu coração é triste, um tom cinéreo...
No escuro de meu peito empedernido,
Ele palpita lento e dolorido,
Repleto de agonia e de mistério...

Silente ele se tranca enclausurado,
Na nostalgia ingrata do passado,
Recôndito de angústia e de amargura...

E no atro descompasso da batida,
Nas curvas cadavéricas da vida,
Tornou-me solitária sepultura...


Sérgio Márcio

sexta-feira, 30 de março de 2018

O vento


empurra
porque não sabe
abraçar.

Ramon Ramos

terça-feira, 27 de março de 2018

Brooklyn


Ela ia para o Brooklyn. Na América do Norte. Mais precisamente, Manhattan. Chegara havia uns poucos dias. Pegou o ônibus turístico, vermelho, para mapear a cidade e depois visitaria com mais vagar os pontos que mais lhe agradassem. Desceu num quase ponto final. Era ali, lhe informaram. Depois da praça, teria que dobrar à esquerda, caminharia mais uns tantos metros; do píer, o barco chegaria logo ao destino. Era só cruzar o Rio East. Desceu do ônibus, andava bem rápido para sobrar-lhe um tempo maior para o passeio, o almoço e ainda voltar e assistir ao show de rock no Central Park.

Ela virou à esquerda, mas de cabeça para baixo! Uma multidão de ninguéns! Uma tristeza, aliás, angústia da mais pura. Sentiu um cheiro abstrato, inexplicável, vãos e espaços, alturas descomunais, Calatrava, o prédio adotado à sua frente, filhote do World Trade Center depois daquilo tudo!

O indizível com duas piscinas com águas infinitas e um ralo, melhor, um ralão dentro delas onde escorriam infinitamente dor, corpos, memórias, gentes, muitas gentes queimadas e agora suas almas na água para alívio dos céus.

Escoamento de vidas perdidas, ou lavagem de memória, ou apagando o fogo tardiamente, ou água das bombas dos bombeiros que não deram conta do ódio, da crueldade desse mundo seco de amor! Nomes possíveis daquilo!

Não foi ao Brooklyn. Ficou um número de horas, um tempo incomensurável nessa inércia, paralisada observando, no museu ao lado, fotos das pessoas bem pequenininhas que caíam pelas janelas!

Rosália Milsztajn

domingo, 18 de março de 2018

O eu e eu



Nem é preciso dizer
você já sabe: eu
sou
o sujeito aqui
desse enunciado.

Estou entretanto
fora dele
e de fora
o observo
espantada.

Pra falar do eu
(que seja o meu
ou o seu –
esse que em todos fala)
substantivo-me
masculina
num passe de mágica:
traumática, sequer,
a operação gramática
em todo caso
não doeu.

Aos trancos e barrancos
entre cacos
estilhaços
seguimos lado a lado:
o eu
homem de palavra
e eu
que sempre
de um passo
o ultrapasso.


Patrícia Lavelle

sexta-feira, 16 de março de 2018

Um poema para Marielle Franco, de Beatriz Strattner



Com ela morreu um pouco de todas nós
Ela morreu por nós
A luta dela é nossa luta

HOJE AS MINHAS PALAVRAS SÃO NULAS. Eu não consigo parar. Não dá pra parar.
Hoje a gente percebe que não são só estatísticas.
Hoje a gente se une novamente. 1 semana depois da união de todas as mulheres no mundo. Hoje a gente se une por que MAIS UMA DE NÓS FOI MORTA. FOI OPRIMIDA, FOI REPRIMIDA.
EU sou ofendida todos os dias, NOIS somos ofendidas todos os dias.
A luta de uma é de todas
A morte de uma é por NOIS
A vida de uma é por nois é por todas é por uma é pra sempre.
Eu não sei o que fazer
Não sei o que achar
Meu mundo parou
Simplesmente parou
Meu coração entrou em transe assim como de todas a mulheres mortas vivas HOJE.
HOJE. AMANHÃ. ONTEM. Quando?
Quando?
Quando? A gente consegue não ser morta
Quando? A gente consegue viver
Quando, A gente consegue ser você?
— Eu não quero. Eu quero ser eu. Quero ser a porra de mim mesma. Sem temer
— Sem tu, temer









Beatriz Strattner




Beatriz Strattner é aluna de primeiro ano do Ensino Médio no Rio de Janeiro.

quinta-feira, 15 de março de 2018

O homem da pipoca



ele nunca foi grande coisa
em matéria de brilho

e escolhe o milho não
por falta de amor próprio
mas um jeito de vingar
as olheiras
certas perdas
os barulhos da rua
e isso lhe permite a luta a luz o óleo
invadindo ao osso

como um troço que rói,
que dói quando aceita
ser ele seu próprio custo
a consumir tudo
o que já foi inox

por isso projeta na pipoca
seu resgate
e vê nos pombos
alguma forma de aceitação.


Ramon Ramos

sexta-feira, 9 de março de 2018

WALTZ


[para Pórtia Dourado]

grafas
entre pinheiros
um punhado de palavras
pinheiros
sob branda alba
solitária
a neve baila
— Viena.

Israel Azevedo


Edição ao Vivo: com Marcelo Dolabela, Norma de Souza Lopes e Renato Negrão



terça-feira, 6 de março de 2018

O que os olhos veem


O que os olhos não veem
o coração assente
a intuição denuncia
O que os olhos não veem
os lábios asseguram
a língua prova e vicia
O que os olhos não veem
o ouvido delineia
com agilidade estupenda
O que os olhos não veem
o vento captura
e o olfato desvenda
O que os olhos não veem
encharca o corpo
enaltece o espírito
O que os olhos não veem
não está longe nem perto
não é aquilo nem isto
O que os olhos não veem
não precisa ser visto

Noélia Ribeiro

sexta-feira, 2 de março de 2018

Cidade


Cidade:
sopro aberto
corpo de artérias
carne claustrofóbica
berro de desertas vidas
veias
veios
rios
rochas cegas
chaga infectada
trincheira adormecida
miragem imolada
horizonte amputado
multidão insone tropeçando nas palavras
trens cheios de gente
medusa mascarada
serpente intocada do idioma alheio
infinita ilha babilônica
moinho de atrair delírios
argamassa elétrica de arrastar tragédias
epiderme tectônica
ar que arranha o vidro
olho sem colírio
noturno monolito
ícaro de algum sol invertido
dédalo perdido
arquitetura de gargantas mortas
engrenagem enferrujada
tarde gangrenada
sal que marca
e arde na ferida aberta
margem que devora os mares
esperma de palavras brutas
lugar de exílio dos poetas
âmago inerte do inferno
trânsito sonâmbulo do carbono
escafandros bruscos de perdidos hemisférios
mar que arrasta troços
e traz de volta
os destroços do naufrágio
submersas multidões 
e fôlego oprimido de tantas Áfricas


Salvador Passos

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Essa voz


Essa voz que é carne e vida
                que é tua e arde e linda
                que aprende qualquer língua
                e erra o timming de calar

Essa coisa quase água quase viva
                  quase o ar que alguém respira
                  quase dava pra pegar

Era canto era pranto era ainda
                era a calma que amansa briga
                era o amor que ninguém pisa
                era o susto de me levar.

Essa voz que me mastiga
               quando beija é só saliva
               faz o tipo ventania
               busca um corpo pra ficar

Ramon Ramos

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Livre


Foi assim que começou a sentir o espaço à sua volta, alargado, imenso, onde não mais se mexia – dançava. Subia e descia dos ônibus ainda com destreza inesperada, quase como uma bailarina. Ia de lá pra cá, de cá pra lá, por ali, acolá. Em todas as paradas podia fazer baldeações, vadiar, conhecer o último beco que tinha visto passar rapidamente pela janela – agora mais que nunca – como uma arte maior – saltar e ir revelando a cidade que agora lhe pertencia.

Dona de si, dona da cidade, dona de seu cartão de gratuidade, flanava.

Esse domínio de ir e vir lhe chegou com aquilo que chamam de – idade. Sessenta e cinco anos estipularam sua velhice e pularam todo esse prazer inesperado de caminhar, de conhecer, de bailar por esses velhos novos caminhos desenhados agora pelo frescor desse aniversário. Afinal adquirira esse direito. E inesperadamente sua liberdade. Descobriu que o viver era gratuito!

Rosália Milsztajn

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Escuridão


Tal qual Alice no País das Maravilhas, estou eu aqui
A cair, cair, cair... em queda livre, numa escuridão profunda...
Diferentemente de Alice, não estou imersa em um sonho
Estou roteando em um pesadelo sem fim,
Sei que não encontrarei a chave, nem a porta...
Está tudo tão escuro aqui, e eu não sei se quero sair...
Que medo! Lá fora não há luz!
Onde estão os semi-deuses? Cansei dos deuses, dos deuses do meu país...
Hoje, os deuses decidiram que "são consideradas desproduzidas as provas produzidas, caso
 interfiram no que não devam interferir".
Os deuses do meu país me fazem rememorar que o país das Maravilhas está lá fora...
Lá fora a justiça rege!
Os deuses daqui são as moiras romanas, eles determinam o destino dos deuses e dos humanos...
E antes que eles determinem que eu acorde pra realidade
Eu não quero sair da minha escuridão, ela dói menos que acordar
Justo eu que tanto sonhei com meu país, hoje prefiro o pesadelo, a escuridão que tenho...
Só me acorde se for para adormecer de novo, e em queda livre, cair em outro país!
"Para o mundo, eu quero descer!"


Izabela Botelho

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Poema de Camila Araújo


acordei.limpei.organizei.saí
Mas antes,
fechei janelas e porta.

Verifiquei, fora dali,
a cinco metros de distância,
se os vãos permaneceriam
in-vi-o-lá-veis.
***
Moro no térreo.
O tal prédio não me pertence,
apenas uma parte dele: uma parte mínima
que condiz
e-xa-ta-men-te
como me sinto
às vezes.
E, só, às vezes...
Eu
acordo, limpo, organizo
e, sim-ples-men-te, saio

Camila Araújo

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Poema de Cely Pereira


O que se envolve em mim agora:
O não-saber
Não-saber antigo, vívido e vivido em mente e à cores desde os
Anos iniciais de vida
Em uma outra abordagem:
O não-saber me causa angústia, dor, sofrimento e tudo de ruim que seja possível imaginar; todos os tipos de desconfortos de vida: meu corpo só queria se esquivar de tanto sentir...
O reconhecimento do não-saber:
Meu esquecimento precoce ou inexistente
Pupilas falhas, calejadas de tantas amarras
A dor de ver outro(s), não só de ver... de estar também
E sobreviver e resistir e lutar e treinar você mesma num exercício constante, doloroso, mas constante, que nem o não-saber.
Não-saber que me move, me abraça, dolorosamente, inconstante, inesperado:
Sinto o baque, esgarço, me esvaio, e saio, parto pra um lugar confortável que eu mesma não saiba.
Mas eu vejo
Que o meu não-saber
                                   [o que chamo de não-saber
Me (des)constrói, me corrói
E isso me deixa estupidamente feliz

O não-saber de agora não é o não-saber de ontem, talvez reciclável.

Cely Pereira

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Meu Escuro


Duas pessoas que nunca se viram na vida, de repente compartilham o mesmo ônibus, o mesmo elevador e, quem sabe, o mesmo consultório médico. Duas pessoas que nunca se viram na vida, à vezes compartilham a mesma patologia, a mesma filosofia, o mesmo cinema, o mesmo filme, a mesma rede social, o mesmo sinal de wifi...

Olga Duarte

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Wishyouwerehere


So, so you think you can tell Heaven from Hell, blue skies from pain.
Can you tell a green field from a coldsteel rail? A smile from a veil?
Do you think you can tell?
(Pink Floyd)

Quando eu sai da aula de criação literária, tava apressada. Eu e meu brother A. Voamos pro carro, porque ele ia pegar o ônibus de Portão, depois de Lauro de Freitas! Já era 10 horas, e ele disse:

- Meu bairro tá barril. Essa hora é assalto, o caralho...

Meu irmãozinho é um cara lindo, quarentão, sexy, magrinho, cheinho de amor prá dar. Mas, ele tá fodido. Desempregado, cardíaco, depressivo, e, prá piorar, a mulher dele foi embora.

Eu ouvi a história dele e me lembrei da minha.

No carro, prá relaxar, botei meu CD de Pink Floyd, o álbum de 75. E perguntei:

- Cê gosta de Pink?

E ele demorou de responder, mas, quando ele falou, o rosto dele parecia que tava crescendo, crescendo, ficando deformado, a boca dele ficou estranha. Eu me lembrei que eu ralava muito prá ouvir Pink, mas, quando eu tinha 18.

- Eu nunca consegui gostar de Pink Floyd.

- E aí?

- Sei lá, eu acho esses caras... babacas prá se foder.

-Porra meu! Babaca prá se foder?

- Oh! Minha irmã, eu sou favela.

E ele continuou falando da vida dele. E eu ouvindo minha porra de meu rock. Aí, teve uma hora que eu disse:

- Se for contar cada nota de 100 pau que eu já dei prá ralar 1 puta de uma grama, Pink é babaca e a mãe dele também.

Aí, meu irmãozinho me disse:

- Mas você, não. Você não é babaca não. Mas, os elogios, eu deixo prá seu marido.
Quando ele saltou do carro, correu prá pegar o busú, que já vinha vindo, e o motorista tava envenenado.

Eu pensei: eu sou pequeno-burguesa e fodida. Mas, o que posso dizer prá meu amigo é que: “Wishyouwerehere!”

Jací Pinho Alves Lopes

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Deus exmachina


Sempre quis visitar os momentos mais importantes da história.Mas com um superpoder: saber toda a história. Saber como a minha presença poderia mudar o rumo. Ser a voz que ousou. Dizer“vá em frente” ou “não vá que é barril”. Hoje acredito está vivendo o momento mais importante da história, o mais importante porque é o meu momento.Mas no meu tempo, sou apenas uma observadora passiva. Vivo a cada dia numa sucessão de coincidências com o passado. Reproduzindo por medo de errar. Hoje eu sigo o fluxo. Uma banda que eu gosto diz: O silêncio é mais ensurdecedor. Devo estar distraída.

Mirela Souza

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O que é o contemporâneo?


É entender o seu tempo sem se apegar a único instante.
É ser eu atemporal.

É ler o que se apaga na claridade.
É se perder na luz.
É se encontrar na escuridão.

É a mudança de ângulo.
É fazer isso sem sair do lugar.

É o dinâmico do estático.
É ir pra frente.
É ir pra trás.

É o passado presente.
É além do cronológico.

É viver o não-vivido.
É a busca pelo ineditismo.
É o encontro da surpresa de ver tudo e ser nada.

Mas afinal, o que é o contemporâneo?

Carolina Silva Leite

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

As linhas do contemporâneo


A busca do homem é sempre incansável
É sempre questionadora
É Sempre destruidora
É sempre renovadora...
A esperança que se cria,
Gera dentro de nós, homens-sociedade
Uma dor de parto da qual todos olham a criança
E gostariam que fossem iguais.
Crianças uniformes, crianças não disformes.
Seguindo uma linha tênue
O que sempre chamamos – ou achamos por contemporâneo
É sempre o momento do não saber exatamente o que é isso,
É quando dentro de um quarto escuro o tempo de olhos abertos
Vai revelando a nós cada canto, cada cômodo, cada item daquele momento.
É um não-saber, se baseando nas linhas limítrofes
Nas separações, nas formulações, na conceitualização
Do que não se conceitualiza estaticamente: a literatura!
Será que a sociedade que se diz tão moderna
Ainda me recriminará pelo lixo que vejo arte?
Pela fera que vejo bela? Pela parte em que vejo um todo?
Pela tinta, pelo lápis, pelo eu sempre chamo de arte?
Estética, estilo, estilística, escrita, forma de violão...
Se prefiro curvas da Estrada Santos
Ou se prefiro as buraqueiras do meu subúrbio
Se vou de alto ao baixo...
Acaso não há estilo e conteúdo?
A Lei Áurea quebrou grilhões da escravidão
E pôs os negros em outras gaiolas.
Prisão é prisão!
A literatura foi liberta de preconceitos
Mas foi posta em moldes, da qual queremos libertar
Aqui, prisão também é prisão!
Por isso, cada dia que abrimos os olhos
E vemos que nem o nascer do sol é igual
Dá-nos a certeza de que
Somos seres plurais,
Somos o livro que se abre ao mundo
Que a tinta se pôs a escrever
Que alma se pôr a ler.

Adriano Souza