quinta-feira, 9 de julho de 2020

Série de Leituras Abertas no insta do PB





Mais um espaço a ser ocupado por vocês: às terças, postamos vídeos de leituras de poema nas redes sociais, sem prazo para acabar.

O vídeo deve ter de 1 a 10 minutos de duração, e ser filmado com o celular em pé e — atenção — sem cortes.

Para participar, envie o vídeo em anexo para contato@jornalplasticobolha.com.br, com o assunto [LEITURAS PERFORMÁTICAS] + nome de poeta. No corpo do e-mail, o @ do instagram, o poema por extenso com título, se houver, + nome do autor — se for autoral, indicar. Até 3 vídeos por pessoa! 

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Publique no Insta do PB!




É isso: mantendo a nossa tradição, vamos abrir mais um espaço para publicação de poemas, desta vez, pelo Instagram! Toda segunda-feira, sem prazo para acabar, publicaremos na página @jornalplasticobolha um poema enviado por vocês, selecionado pela nossa equipe de curadores. O tema é sempre livre e o formato, também, respeitando as limitações da plataforma:

poema em [VERSO]: .doc curtinho
poema [VISUAL]: 1080 x 1080 px (quadrado), 1080 x 1350 px (retrato) ou 1080 x 608 px (paisagem)
[VIDEO]poema: até 1 minuto, seguindo as dimensões acima

Para participar, envie o seu poema em anexo para contato@jornalplasticobolha.com.br, com o assunto [CHAMADA ABERTA PERMANENTE] + nome de poeta. No corpo do e-mail, apenas o @ do instagram, se tiver. Até 3 poemas por pessoa!

Compartilhem, marquem seus poetas prediletos e sigam a #chamadaabertapb para ficar por dentro!

terça-feira, 21 de abril de 2020

O papagaio


Uma vez ao meio-dia forte o meu fracasso ardia
Entre os livros tão banais que invejo não fazer iguais.
Como estava quente! e a luz do sol queimava Santa Cruz;
Quando o sono me é demais, escuto a impor os sons boçais
Golpes nunca assim cabais, à minha porta, os sons boçais;

Isto só - e nada mais!

Certo lembro-me era março - já sem grana nem disfarço -
Lia as críticas finais aos meus poemas tão formais...
Todas dizem - todas, sim! - que sou poeta bem ruim:
Meus fracassos são brutais, e agora ao ver vexames tais,
Todo um ego cai p'ra trás ao ver os seus vexames tais!

Golpes ouço - e nada mais!

É a dona de onde vivo - assim sussurro sem motivo -
"Ela deve ser, atrás de mim de novo, em dons astrais,
Quer as contas que eu não pago e sem carinho, sem afago,
Bate à porta em formas tais: batidas altas, sempre iguais,
São os sons que vêm mensais querendo quase mil reais";

Ela só - e nada mais!

Velha astuta, sente o cheiro quando ganho algum dinheiro,
Quer me dar lições morais - lições que julga vir dos pais -
Puto eu abro a porta, e o riso então agudo e sem juízo
Cai-me como nunca mais: na porta estava ali detrás
Seu José gemendo os ais de Cristo ao ler os seus jornais;

Seu José - e nada mais!

"Boa tarde, Seu José!" - lhe disse a rir, zangando-o até -
Nem responde e aqueles ais, ranzinza, geme a ler jornais!
"Quer ouvir poemas, Seu José, algum poema meu?" -
Ele apenas lê jornais e geme aqueles chatos ais...
Prosa tola ali detrás - e os sons agora aumentam mais!

Prosa tola ali detrás!

Para o quarto, então, voltando, sinto ainda os sons vibrando,
"São vulgares animais que batem na janela mais..."
Deles rindo agora, aos tombos, digo: "São aqueles pombos
Cujas caras desiguais se batem na janela mais -
São vulgares animais que têm as caras desiguais!

São os pombos, nada mais!"

Frente, pois, a tal janela, abrindo-a sem qualquer cautela,
Pronto, vejo ali detrás, no parapeito, em tons reais,
Um divino papagaio, que me olhando de soslaio,
Entra logo como um ás no quarto, e pousa bem atrás
De uma vela aos orixás - e, assim, dali não sai jamais;

Entra - e pousa - e nada mais! 

Senta ali enquanto escrevo, e num arroubo assim me atrevo:
"Louro, as plumas tem reais, e certo ilustres ancestrais!"
Mesmo que isto não se faça, digo: "Qual a sua graça,
Louro de épocas reais?" Dourado e verde até demais,
Ele, de épocas reais, não vai me responder jamais!

Diz o louro "Quero mais."

Quanto gosto ouvir seu nome, enquanto o tempo se consome,
Já que um nobre aos serviçais não fala frases pessoais!
E esse louro fala-me algo que não diz nenhum fidalgo:
Fala o próprio nome e mais, o louro de épocas reais,
Pois ninguém ouviu sem ais de um nobre nomes tão vitais,

Quanto o nome "Quero mais."

Não se presta a movimento algum enquanto ao pensamento
Vêm-me as críticas finais dos meus poemas bem formais -
Eu murmuro alguns dos versos, vendo como são perversos
Esses críticos - e mais murmuro os versos bem formais:
Olho a vela aos orixás, e quando vejo ali atrás,

Diz o louro "Quero mais."

Tão surpreso com a fala que uma dúvida me estala:
São respostas usuais que seu senhor lhe disse tais,
Desse mestre, que corrupto, o tempo teve ininterrupto
Para lhe ensinar as tais palavras - tramas usuais
De um político que mais deseja verbas ilegais;

Tramas são o "Quero mais."

Para toda a minha cisma não olhar em um só prisma
Alto leio verso atrás de verso - e versos ancestrais -
Para a vela que me assombra, de onde vem do louro a sombra;
Pois espero instantes tais aflito como nunca mais,
Pois espero instantes tais olhando-o como nunca mais!

Diz o louro "Quero mais."

O ego se infla novamente, existe um louro que me sente;
Quem me criticou demais, o louro de épocas reais,
Dá na cara e pede bis - bem feito para os imbecis!
Meus poemas ancestrais eu leio todos sem rivais.
Quando findo os recitais, e não possuo um verso a mais,

Diz o louro "Quero mais."

Ora, louro, já lhe li aquilo tudo que escrevi,
Pede, pois, ainda mais daqueles versos ancestrais!
Não possuo e não consigo novos versos, louro amigo,
Vê agora que não mais possuo versos bem formais,
Vê agora que não mais possuo versos bem formais?!

Diz o louro "Quero mais."

Todos já lhe foram lidos - louro de hábitos polidos -
Pois, pergunto: "Foram mais mentiras brancas, cordiais,
Só falou palavras boas que esse mundo de pessoas
Já me disse tais e quais, de meus poemas ancestrais,
Pelas redes sociais; que quer de meus poemas tais?!"

Diz o louro "Quero mais."

Nessa frase encerra a fraude, o mundo finge quando aplaude,
Só palavras cordiais que desonestas são iguais!
Como ao Face me elogia numa frase tão vazia,
Diga lá, em tons reais, que quer nas falas cordiais?!
Diga lá, em tons reais, que quer dos versos ancestrais?! 

Diz o louro "Quero mais."

Basta de cordialidades - nem mentiras, nem verdades -
Sejam as palavras tais, palavras pois então finais!
Não esqueça a sua pluma, mas não lembre estrofe alguma 
Desses versos ancestrais, pois não possuo um verso a mais;
Vá, enfim, me deixe em paz, que exausto não aguento mais!

Diz o louro "Quero mais."

Sua sombra qual ruína - ou glória -  vira a minha sina:
Quer os versos bem formais, e ao chão me pede mais e mais;
Pois agora bate palma, e quando quase não se acalma,
Para o chão me puxa mais, e em gestos sempre cordiais
Pede bis, e pede mais, e a minha vida leva e traz,

E esse bis - não quero mais!

Guilherme Ottoni



Guilherme Ottoni é colaborador constante do jornal Plástico Bolha e, dessa vez, nos brinda com esta bela recriação do poema clássico "O corvo" de Edgar Allan Poe, vertido para o contexto nacional.

domingo, 19 de abril de 2020

Arquivo, poema de Frederico Spada Silva


Colecionava miudezas,
pequeno e íntimo
museu de fragmentos
coletados ao acaso —
como a própria vida.

Frederico Spada Silva



Frederico Spada Silva é autor de "Coleção de ruínas". Publicou três livros de poemas, além de manter um canal no You Tube com depoimentos ligados à cidade de Juiz de Fora. Como editor e revisor atua nas Edições Macondo (MG).

sábado, 18 de abril de 2020

Três poemas de Vinni Correa


Erotismo motivacional

mesmo com a imensidão
são as pequenas coisas
que crescem com o tesão



Milf

mama mia
mama tua
mama todos



Matador alfa

já que touro alvo
o corpo é a arena
o buraco é o alvo

Vinni Correa



Vinni Correa é pornopoeta, autor de "Coma de 4", "Literatura de Bordel", "Lunch Box" e "Sexo a Três".


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Um poema de Alice Sant'Anna


quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

Alice Sant'Anna



Alice Sant'Anna (Rio de Janeiro, 1988) começou a escrever com 16 anos. É autora de "Dobradura". "Pingue-Pongue", "Rabo de baleia" e "Pé do ouvido". Atualmente mora em São Paulo.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Guia, poema de Adalberto de Queiroz


A minha solidão desperta-me, convocando
a um retiro longo e silente —
no mar Cáspio, diante do imaginário.

Trama transporta-me célere
ao deserto de Owami. Sozinho, posso ver
as vidas dizimadas em aldeias africanas —
naufrágios variegados,
embarcadiços da Esperança.

Imaculee Ilibagiza segredou-nos
o desastre — salvados somos
Tu e eu, leitor irmão, à imaculada
Madonna Nera clamamos:

Vinde Mãe Santíssima, em nosso socorro,
Valei-nos, Nossa Senhora da Guia!

Adalberto de Queiroz



Adalberto de Queiroz é autor de "Destino Palavra", Goiânia, 2016.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

mulher de malandro, poema de Angélica Freitas


mulher de malandro
malandra é
vai dizer que não pode
ser verdade
os dois, marido e mulher
vivendo na malandragem
na maior malandragem
permitida pelas engrenagens
do sistema capitalista
não são zen, não são budistas
não tem trabalho à vista
e se têm, fingem que não veem
hoje não fazem nada
amanhã vão passear
e nem sabem quem foi o henry miller

Angélica Freitas



Angélica Freitas nasceu em Pelotas (RS) em 1973. Publicou dois livros de poemas "Rilke shake" e "Um útero é do tamanho de um punho", além da HQ "Guadalupe", com arte de Odyr.

terça-feira, 14 de abril de 2020

matrioshka, poema de Caio Carmacho


você é como uma boneca russa
dentro de outra boneca russa
dentro de outra boneca menor
e russa

quantas personalidades uma mulher
pode ter?

só os futuros cientistas
poderão saber
em uma autópsia exata de sua psique

mas não saberão de ti
o que sei

o estrondoso momento
que precede os dias sangrentos

Caio Carmacho



Caio Carmacho nasceu em São Paulo, cresceu em Paraty e mora em Piracicaba. Escreve no blog Noutratez e organiza o sarau Picareta Cultural. É autor de "Livre-me", da coleção Patuscada da editora Patuá.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Pneumonia, poema de Carlos Cardoso


Há em meu peito uma praga!

O que em meu ombro pousa
não é uma chaga que repousa
nem um filho mau
que advém da graça divina.

Em um lado do peito o catarro infiltrado
encrosta em minha imunossupressão
e me deixa artifícios para uma noite morte.

Quão assim sou elevado estranho?
Tamanha é a dor que revolta e me ilude
com a vicissitude de que a morte chegue
e com ela o deslumbrante alívio.

Tenho que dizer-te que viver para mim
é quase sempre um tormento.

Há quem comigo conviva
que diga que sou a própria morte,

pois, por tanto amar a vida,
quando ela, a morte, me convida,
em face do sofrimento que finda,
eu parto agradecendo a sorte.

Carlos Cardoso



Carlos Cardoso é engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor do livro "Melancolia", vencedor do prêmio APCA 2019 como melhor livro de poesia.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Novo Jornal Plástico Bolha: Edição Latino-americana n° 2





Após um período de recesso o Plástico Bolha está de volta saudando nossos hermanos da América Latina. Nessa edição mais do que especial, poetas de todo o continente reúnem suas poéticas variadas para dar vida a esse encontro de versões nas páginas de nosso jornal. Acompanhe o lançamento também nas versos criadas especialmente para as redes digitais. É uma alegria para nós dar continuidade a esse projeto de união latino-americana através da poesia. E se você não conferiu a primeira edição basta clicar aqui.


Agradecemos mais uma vez os nossos apoiadores que, via Apoia.se, mantém vivo e ativo esse projeto de difusão poética:

Dani Pinheiro
Daniel Gil
Ana Paula Grillo El-Jaick
Maria Silvia de Souza Camargo
Lina Nunes Gomes
Mônica Gomes Azevedo
Bruna Peleio Amorim de Mattos
Marcello da Silva Azevedo
Saulo Dourado
Beatriz Junqueira Pedras
Fernanda Cordeiro Gazola
Pedro Vinícius do Valle Tayar
Domingos Guimaraens
Marília Rothier Cardoso
Laura Gurgel
Chiara Ciodarot Di Axox
Aline Teodoro de Moura
Paulo Henriques Britto
Lucas Brandão
Luiza Mussnich
Alexandre Bruno Tinelli
Francisco Pereira dos Santos
Barbara Brunbauer
Thiago Ferreira
Demetros Gomes Galvão
Gloria Regina Bandeira de Araujo
Thassio Ferreira

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

terça-feira, 8 de outubro de 2019

As senhoras da Gávea


Elegantes echarpes coloridas,
As suas joias são de azul-turquesa,
Possuem as vontades reprimidas:
Eis as damas da elite assaz burguesa!

Desfilam pela Gávea com seu brinco
Abrilhantado pelos seus diamantes!
E buscam o prestígio com afinco,
E rancorosas guardam-se pedantes!

Nas festas, nos seus chás, nos seus cafés,
No meio do marido infame e afoito,
Podemos enxergar o vil revés
Das saudades do século dezoito!

Sem corromper seu senso de justiça
No Domingo comungam blasfemadas!
Fazendo a caridade tão mestiça
De dar a esmola aos pobres nas calçadas!

Seus colares imensos de esmeralda
Refletem o sarcasmo deste mundo!
E o seu orgulho apenas se respalda
Na inocência do peito vagabundo!

São tolas, e o que têm de criminosas
Possuem também de índoles de santas!
Perdidas nas tragédias orgulhosas
De abafarem os gritos das gargantas!

Marido e filhos para olhar apenas
Das damas tiram todo encanto e luz...
E entristecem as vidas tão pequenas
Que ao padre prometeram sob a cruz!

Nem sabem que declinam por sofrer
Ao descobrir o esposo com a puta...
E choram ter perdido o seu poder
Das juvenis belezas em disputa!

Nenhum relógio marca o sofrimento
Das senhoras singelas e tão cultas,
Das senhoras que têm o sentimento
Oculto em terapêuticas consultas!

O seu pesar apenas se compassa
Na hierarquia fatal dos bons costumes...
Pois do que querem - vã vontade escassa -
A regra diz que querem só por ciúmes...

E das normas impera a língua má:
Se mais prata tiverem nos talheres,
Mais tristes riem risos, mas será
Que sofrem como todas as mulheres?

Guilherme Ottoni

terça-feira, 24 de setembro de 2019

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Armadilha, de Amarílis Lage de Macedo - Primeiro Lugar do X PPBPP


em seguida coloque no segundo
a primeira metáfora do verso
cuidado pra não assustar a isca
retire o lacre do isqueiro feito
isso acenda os ponteiros vão
disparar pela página tal como

uma bússola transtornada como
já foi assinalado aqui segundo
o relatório de alertas em vão
que pode ser conferido no verso
se o teste sugerido for bem feito
obedecendo cada etapa à risca

verso barbante ponteiros faísca
cada palavra queimada bem como
cada significado insatisfeito
dará origem a cada segundo
a vozes e formas de outro universo
ao traduzir cuidado com o vão

na noite reescrita com carvão
ainda quente desponta uma pisca
-dela bussolar enquanto troverso
na escadafalso desse manicomo
alguém suspira um terço rarofeito

em homénage ao verbo liquefeito
que me quase vem nesse vaivão
dinoturnamente persegundo
a pista da isca da isca
à vista miragem de voz que como
na ponta da língua um ser subverso

aguarde a chama destruir o verso
e a mancha se tornar pouso perfeito
pros ponteiros confira a seguir como
aperfeiçoar seu morteiro em vão
na busca pelo sentido que pisca a
trezentos quilômetros por segundo

Amarílis Lage de Macedo

quarta-feira, 24 de julho de 2019

De cair a chuva, de Mateus Baldi - Primeiro Lugar de Prosa do X PPBPP


Um.

A manhã ainda não chegou por inteiro quando Karen abre os olhos e vê a neblina encobrindo o Pão de Açúcar. Seu primeiro pensamento é Meu filho dormiu sem tomar os remédios. Karen levanta e corre até o quarto ao lado. Sente a pressão cair. O menino dorme em silêncio. A cortina chacoalha contra o vento. Karen acha que está muito frio para o pulmãozinho dele. Se aproxima. Toca sua testa – Sem febre, ótimo. Karen volta ao quarto e se enrola no cobertor. Ela não sabe se aquilo nos postes é chuva ou sereno. Coloca os óculos e tenta discernir. Chuva. Fina. Caindo por cima dos postes e interrompendo o fluxo da luz. A manhã ainda não chegou por inteiro e ela decide sair para uma corrida. Fica de calcinha, os peitos nus diante dos vizinhos dormindo, e escolhe uma blusa e uma calça no armário. A tina está descascando. Precisa falar com o proprietário. Vai trocar a pintura. Mas antes o filho precisa curar da pneumonia. Tomar os remédios direito. E Rodrigo tem que voltar de Chicago. E Nova York. Só então a pintura. Karen fecha a porta – a corrida, é importante correr. Não é errado, questiona enquanto mastiga um pedaço de pão, deixar alguém com pneumonia dormindo para correr na beira da praia em dia de chuva? Joga o copo na pia, passa uma água e deixa ali. Dá uma última espiada no filho. Oito anos. Emergência do hospital. Rodrigo em Chicago. Mensagem rápida – Como tá aí? Dois tiques. Zero resposta. Fuso horário. Karen abre a porta do elevador e não encontra ninguém, só o mesmo cheiro de mofo. O síndico deveria banir esses cachorros fedidos. O dia mal raiou e Karen já sente o cheiro de mijo.

Dois.

Empresa inteligente. A brand new concept. A indústria garante. Rodrigo garante. Karen pega o fundo da demissão e investe. Porque a indústria – e Rodrigo – garantem. Karen bota o cabelo num rabo-de-cavalo que repuxa e sente que precisa afrouxar. Mas acha melhor não. A corrida vai desfazer os laços. Agora sim é dia. Karen desliza pela rua, atravessa sem olhar para os lados, sem iPod, sem nada, e começa um ritmo lento, um trote, cavalinho sem sair da chuva, Karen não para, pisa em duas poças em menos de um minuto, deixa o ódio para trás, apressa o passo, corre por debaixo do viaduto, assiste aos ônibus passarem, aumenta o ritmo – cardíaco, tudo –, o peito acelerado é bom sinal, uma gotinha de suor pinga da testa, precisa retocar a tinta, comprar lingerie nova, aniversário de casamento daqui a duas semanas, tanta coisa, o sinal fecha e Karen pisa num pé, pisa no outro, abre os olhos, fecha, o sinal fica verde, pode ir, vai, observa os pombos, escolhe a direção, o Pão de Açúcar ainda está em neblina, tudo está em neblina, eu mesma estou em neblina, Karen pensa, meu filho está em neblina, puta que pariu, meu filho, eu larguei meu filho, mas já agora ela já está rápida demais e não consegue parar, o dia aumenta de intensidade e o ritmo também e o tênis pisa com força e desliza e Karen zune pela pista até tropeçar e quase cair de cara, as mãos repuxam o impacto, Karen vê o ardido grunhir por todo o corpo, talvez o ombro tenha deslocado, não, não deslocou não, para de drama, volta a correr, ninguém sabe, ninguém viu, até o Pão de Açúcar está fechado pela neblina, isso, continua a correr, Karen, corre, Karen, você consegue, dane-se a dor, o ardido, corre, corre, corre, corre, corre, hoje você vai até a Urca e se seu filho abrir os olhos ele vai entender que a mãe precisou dar uma saidinha e que os lençóis retorcidos, a calcinha e o pijama jogados na cama não significam nada, mamãe volta já, querido, mamãe só foi dar uma corridinha, é preciso correr, tem que correr, tem que suar, tem que malhar, vamos lá, pulmão, coração, pulmão, coração, rins, costelas, ardência na ponta dos dedos, não estar nem aí para os dedos, Karen, é preciso não estar nem aí para os dedos, corre, Karen, corre, Lola, Karen, Lola, Catarina, Cecilia, isso, nossa, Cecilia, lembra da Polignano a Mare, as ondas lá embaixo e o italiano te olhando e perguntando teu nome e você – É Cecilia – e o italiano – Um nome bonito – e dizendo Titilia, você riu, lembra, Karen, você riu, você dormiu com o cara em Polignano, aquelas rochas lá embaixo, a praia de conchas, uma gruta ligando o oceano ao fim do mundo, a família com os adolescentes, o neném, o garoto com blusa escrito I ♥ Porn, você rindo, os trailers no camping, você rindo, Titilia, Cecília, o italiano – Rino, my name is Rino – e você pensando que Rino era gerúndio em Mesquina ou Belfort Roxo, ai, que horror, menina, Rino, você lembra do pau, do corpo, o peito nu com aqueles pelinhos e seu desejo incontido de ser anônima por um dia, sem filho, sem marido, viagem às pressas, já que no sul, por que não Polignano, por que não visitar uma cidade construída sobre as rochas, casinhas brancas, um mar absurdo lá embaixo, tudo tão lindo, tão bonito, uma noite de sábado, enganar um Rindo, não, é Rino, isso, Rino, enganar um Rino e trepar com ele e gozar como Rodrigo nunca conseguiu te fazer gozar, é um sexo diferente, é tudo diferente depois que os filhos nascem, a existência presume a decadência, mas também é tudo junto, uma troca consentida num restaurante onde Rino é garçom e te serve uma pasta cheia de camarões e mariscos e aquela suruba alimentar que você mastiga, Rino, você pergunta se tem vinho e ele diz que te leva para tomar na melhor espelunca da cidade, ele diz num inglês macarrone, é engraçado, tudo em italiano termina com vogal, então eles falam inglês botando vogal no fim das palavras e você acha graça, você achou graça, você deu pra ele, What’s your name – É Cecilia – e no instante seguinte ele está te puxando pelos cabelos que nem Rodrigo nos primeiros dias, ele morde sua orelha e te põe em cima da balaustrada, o mar lá embaixo, o apartamento é de um amigo, fica de fundos, e os fundos em Polignano são a porra do mar, o mar inteiro, e ele te chupa com o mar por testemunha, sua bunda na balaustrada de ferro grosso, você se sente dona do mundo e crava as unhas nos cabelos dele, zonza, tonta, tudo, absolutamente tudo, Cecilia te liberta, mas é Karen, por isso no dia seguinte você fugiu, não foi, você fugiu, Karen, Karenina, tanto faz, fugiu, não houve trem, é certo, mas você fugiu e abriu uma fenda talvez no coração do pobre garçom, tadinho do Rino, volta lá, Marcela disse, tu precisa pedir desculpas pro maluco, mas você não queria pedir desculpas, apenas sumir, retornar ao Rio e sua vidinha miserável – entrepreneur, está na bio do Instagram, agora você é entrepreneur e investe dinheiro numa empresinha nova, inteligente, a brand new concept, a indústria garante, Rodrigo garante, todo mundo garante mas não confirma, o dinheiro uma hora desanima, o mundo desanima, o Pão de Açúcar desanima e o sol não adivinha, baby, no coração do Brasil, do mundo, do Rio, da Urca, hora de voltar, ainda correndo, Rino, Polignano, balaustrada, entrepreneur, pneumonia, o menino está com pneumonia, dois tiques, Rodrigo, Chicago, Houston, we have a problem, I cheated on you but it wasn’t so good, com on, Houston, Houston, Oi, tudo sim, e aí, Francisco melhorou? Sim, Karen responde, mas a verdade é que nem sim nem não, Karen não sabe, você não sabe, Karen, seu filho tem pneumonia, controlada, claro, o pai viajando e você sendo ausente correndo até a Urca debaixo de uma garoa que gruda a malha fina da caminha na tua pele de mãe ausente, mãe demente, que absurdo, Karen, o menino vai morrer e a culpa vai ser tua, vai sair em todos os portais de notícia, a mãe relapsa, mas tudo bem, você sobrevive, Rino sobrevive, o mundo sobrevive, até deixar de existir o mundo ainda vai acabar muito, você sabe disso, decide fazer a curva e seguir correndo, não vai atravessar e passar por baixo do viaduto, não, vai seguir correndo, um bom ritmo, um bom pace, não precisa de aplicativo, olha o ritmo, segue o ritmo, Karenina, segue o ritmo, olha que bacana, ritmo, o marido ficaria orgulhoso, o mundo ficaria orgulhoso, Rino provavelmente perguntaria – Por que você fez isso?, mas quem se importa, não é mesmo, da sua vida já basta você se preocupar, e não só dela, porque há uma empresa e um filho, um filho é outra vida, embora todo mundo sempre tenha dito que um filho é parte sua, coisa nenhuma, ele é diferente, ele é Rodrigo menorzinho, ele reclama, responde, causa problema na escola, você é chamada, você acha um inferno, não foi para isso que eu engravidei, e olha que nem tinha Instagram, porque se tivesse é claro que seria mais fácil, tudo é mais fácil na vida visível do Facebook, do Twitter, do Google, será que Rino ainda posta aquelas breguices no Facebook – Forza Azurra!, va funcullo pezzi di merda, buon giorno a tutti, daje – ou parou, tomou jeito, como anda Rino e seu pau, como anda Rodrigo e seu pau, como andam os homens e seus paus, como suportam existir com aquele peso entre as pernas, haja cinismo, é mais fácil sorrir quando não se tem nada impedindo uma boa cruzada de pernas, uma boa cintura, só o deserto percorrido de estrias que é a tua pele, o maior órgão do corpo humano, corre, ritmo, olha o ritmo, Karen, mantém o ritmo, Rino, Francisco, Rodrigo, todos os homens da sua vida rimam, e rimam porque os homens nasceram para rimar entre si, existe o clube do Bolinha e o clube da Luluzinha, são impenetráveis as bolhas, a social media, a internet, o aluguel, o condomínio, impenetráveis na sua própria existência, corre, Karenina, corre desse homem, Cecilia, faz a curva, volta, volta, a chuva está apertando e seu corpo não aguenta, vai cair de novo, menina, volta para casa, toma um táxi, pede um Uber, grita, urra, espirra, tosse, só falta eu também pegar pneumonia, calma, Karenina, tudo sob controle, ritmo, pace, meia-maratona no fim do ano, maratona no início do dia, o ritmo, continua tudo sob controle, a existência, a vida, o silêncio da cidade, Rino vendo você sorrir no começo da mattina e perguntando se está tudo bem e você sem saber o que dizer, só querendo fugir dali ao que ele diz – Troppo silenzio – silêncio silêncio silêncio silêncio silêncio silêncio explodindo em barulho no teu ouvido, o rugido do mar nas grutas de Polignano, nas pedras balaustradabaixo de Polignano, o mar em tudo e em nada e Rino dizendo – Meu avô era promotor de justiça e sempre me dizia que a vantagem do silêncio é não perturbar os inocentes – você queria ir embora, você só quer subir as escadarias, dane-se o elevador e o cheiro de urina, Francisco, você precisa de Francisco, ele precisa de você, ele acordou e está chorando em desespero, você tem certeza, Francisco, calma, filho, eu tô chegando, foda-se o portal de notícias, eu vou ser a mãe do ano, eu sou a mãe do ano, a melhor mãe do mundo, a melhor corredora, eu sou, eu sou, eu sou eu sou eu sou eu sou eu a melhor mãe do mundo abre a porta Karenina corre até o quarto não para de correr olha como você foi burra Francisco ainda está dormindo e lá fora nunca para não para nunca
de
cair
a chuva.

Mateus Baldi

terça-feira, 23 de julho de 2019

Estrelas binárias, de Maria Cecilia Touriño Brande - Segundo Lugar de Poesia do X PPBPP


Não alcança
uma estrela
ao seu lado
e vice-versa
na casa
no cosmo

ora brilha
ora queima a
outra ora
feito halo
aliança

ao seu lado
cargas positivas
fusão nuclear
repulsão mútua

órbitas instáveis
gravitam
nebulosas
desgarram-se
do sol

duas estrelas
revezam eclipses
uma galáxia
degenerada

gás e poeira
matéria escura
dentro e fora
um desatino

às vezes ok
anos desabam
(feito chuva de
terra e água)

cortes
rochosos
meteoricamente
viram lampejo

a matéria estelar
(a explodir)
é silêncio
e energia

na casa
no cosmo

Maria Cecilia Touriño Brandi

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Um risco vermelho no cinza, de Eduardo Coletto Furlan - Segundo Lugar de Prosa do X PPBPP


Quão frio pode ser este lugar, pensa o viajante na trilha de lama e neve, seguindo em direção ao cume de uma montanha distante que num fumo torrencial desaparece e retorna com violência constante, a solidão da multidão que se forma na rua de asfalto machucado salta, grita, esbraveja e joga pedras contra uma linha bem formada de homens brutos e armados, não pode ficar mais frio do que isso, pensa o viajante na trilha de lama e neve, estremece quando tenta olhar para cima, mas o vento forte risca seu olho que queima e em brumas se esconde com medo, atrás do carro, bem posicionado, é possível ver o invólucro cilíndrico girando e como num raio um grito surdo estoura e faz desorientar toda vida da natureza que corre num misto de raiva e desespero, tropeça numa rocha escondida na neve e cai ao lado de um troco petrificado, abre os olhos com medo da cegueira e nota aos poucos que consegue ver, mas já não há trilha de lama e neve, tudo é confusão quieta, os olhos arregalados a boca aberta e o som oco distante invade o grupo de estudantes que paralisados observam os homens fardados arrastando o corpo amigo, um risco vermelho no cinza, levanta assustado sem saber onde está, olha em volta e não vê mais o cume distante, já não consegue lembrar por que subia a montanha, num beco ao lado refugia-se o grupo que em prantos questiona o sentido de tudo aquilo, tudo parecia surreal demais para ser verdade, separam-se e vão embora, nunca mais se veriam, após duvidar da própria sanidade o viajante olha fixo para seus pés e vê atônito um horizonte brilhante em tons rosados, cheio de palmeiras com suas frondes emplumadas que pendiam para todos os lados e se aproximavam cada vez mais de suas mãos, até que um solitário pássaro marinho levanta voo e estremece a realidade num grito áspero que ecoa no centro de sua razão, em delírios um poeta debruça-se sobre sua revolta e escreve, já não mais sangrarei nas páginas, já não mais cantarei nos palcos, já não mais escrutarei as ordens dos deuses da terra, triste observa uma última vez o cume dos sonhos, aquela espécie de braço prateado a meio caminho do céu, serra os lábios e o silêncio parece coagular-se, cai como cinzas sobre as páginas, que escorregam de seus dedos e voam por detrás dos altos troncos junto a uma atmosfera negra e sombria, desaparecem ao lado de adormecidas orquídeas pálidas e num último suspiro indaga, que espírito maltratado poderia ter um sono intranquilo naquele solo abençoado.

Eduardo Coletto Furlan

sábado, 20 de julho de 2019

Solstício, de Erick Monteiro Moraes - Terceiro Lugar de Poesia do X PPBPP


Do ápice do dia
a noite súbita:
o eclipse
da narcolepsia

Do ápice do dia
a guilhotina
da noite
sua lâmina exata

(a noite se dilata
nas pupilas
sob as pétalas
das pálpebras
vermelhas
das papoulas)

Do ápice do dia
a noite súbita:
íngua de luz
sob a língua

*

Na ânsia do açúcar
o olhar
caleidoscópico
das moscas
os músculos acesos
a explosão
telegráfica das asas

Sem jamais repousar
elas pousam
      nosso olhar
ora ali
ora aqui

Que tramam as moscas
no esfregar de mãos?
O fogo primitivo
dos gravetos?

Que secretam do sol
Dissoluto do açúcar?

O sonho insone
o relâmpago
dos gestos:

obsessivos
os calidoscópios
copiosamente observam

Erick Monteiro Moraes


sexta-feira, 19 de julho de 2019

Gengibre faz bem pra garganta, de Lucas César de Oliveira - Terceiro Lugar de Prosa do X PPBPP


- Dizer o que sente também!

Eu sempre joguei esse assunto para o outro lado do muro, mas como fugir agora, preso em um apartamento sozinho com ele!? Claro que não durou muito mais que duas horas, mas algumas gerações minhas se entediaram e morreram no desenrolar. Resisti: tinha almoçado e meu corpo dava conta de estar acordado. Eu quis pular da janela, ver se minhas asas bateriam, mas não aconteceu, eu escondi o rosto em minhas mãos até o libertador surgir, indiferente e comprometido no ofício de salvar vidas presas em apartamentos com a chave para fora. Vou, sigo para o próximo assunto até eu perceber que estou em uma sala espelhada, onde eu olho para frente e enxergo infinitas costas minhas encostadas nas costas de você sabe quem, eu também sabia mas preferi ficar quieto a invocar o nome. Meu temperamento nunca foi explosivo mas ando muito enérgico, procurando caixas com aranhas para enfiar a mão: adrenalina da mais urgente e sem chances de dar errada. Tudo bem, paro logo no primeiro cigarro já com a pressão baixa, de fato não sou um senhor com traços sérios e barbas grisalhas, até gostaria porque assim não seria eu e então não estaria tentando escrever para no fundo cavar o oco do meu peito em busca do desconforto que sinto ao estar com meu pai. Eu disse calado que não diria mais nada sobre. Por muito tempo aceitar sua morte em forma de ausência foi de fato mais fácil, era como ignorar a escara em corpo alheio. Agora não, filho do pai eu e ele, por estar em meu corpo, pegajoso pelo meu braço e escorrendo por toda minha pele: como me livrar se ao abrir o chuveiro eu escuto o eco do seu chamamento. Queimando eu tenho você me olhando, calmamente dizendo algo macabro; que medo sinto de cair no mar e mesmo morrendo te ver ali do meu lado, passivo de olhos fechados se deixando afundar, ao fim dar-se. Eu abri minhas meias queridas e coloridas, soletrei o abecedário inteiro e você não escutou, mas por que agora que me jogo nesse buraco sem profundidade chamado ser adulto, você surge!? Deixa-me, eu e minhas calcinhas que agora cavo no meu cu. Nunca me reprimiu de mim, mas que história engraçada essa contada no pé do meu ouvido que te traz como homem, assim, de bronze fervendo a luz do sol à noite. Meu Deus, que mulher sejas e tenhas misericórdia da minha alma que está sufocada, vamos!, ouça-me e me puxa para um lado no qual a música tocada me lembre apenas tapetes árabes dançante, luas em peixes e lagostas, além de bocas vermelhas dizendo lagostas. Oasis. Por hora estou na gengiva do meu pai, roxa, enquanto o escuto comer como quem tem urgência, barulhento e tirando de mim arrepios. Santo madre o papa e a palhaçada toda, juntando em mim Jó e os carneiros eu não teria paciência. Que qualidade de texto você me permitiria fazer se não fosse o fato de seguir digitando como um bêbado correndo em uma rua infinita? Há, aqui mesmo no meu vagão, um sentimento de ânsia que não se vomita, um desconforto deitado na tarde de domingo sem sono, uma surdez de subida de Serra sem viagem, é como caminhar para um velório: nunca fez muito sentido, mas respeito em silêncio. Com certeza diriam essas palavras de alguma forma diferente, mas eu proponho carne de diversas cores ecoando as diferenças que em mim chegaram ao se partir de você. Riachos, percorram acelerados enquanto eu possa caminhar em silêncio ao seu lado, meu pai, eu deitaria no seu colo calado se tivéssemos coragem e lá, na nossa história composta de agora, um carinho na cabeça não pareceria uma britadeira escandalosa no sábado a gritar pelas seis da manhã. Com os números aprendi que demoro a compreender as equações, mas que é possível. Eu não lhe cobro o que não tive, sabemos que faltou em mim essa peça que quem sabe numa velhice esquecida passa a fazer parte, mas não reclamo a ninguém, nem a mim mesmo, quem escreve este texto é uma alma morta pronta para reencarnar em alguém como coragem de se viver o risco em se assumir precisado. Alguém que aguarda. Eu suspiro triste o fato das paixões terminarem assim como o fósforo à noite e de eu não estar bêbado e mesmo assim sentir que todo esse vômito faz sentido e diz algo fossilizado em 1500 anos dos meus 21 vividos, sim, dei looping em noites à procura de um cu que eu pudesse colocar o dedo me sentir cheio; como não preenchi meu corpo espaçado, segui cutucando buracos até começar a escrever, jogando-me no abismo de vez. Que saber, pai sabido, aqui é confortável e eu consigo deitar minha cabeça nas paredes úmidas, não sinto tanto frio apesar dos musgos e eu posso chorar sem ter a chance de me calar olhando-me você no espelho: quantas camadas de nós couberam em cigarros fumados escondidos no banheiro sem luz? Em!? Vagueio, meu pai que caberia em meu colo, quente e afetuoso, enquanto eu posso imaginar que é realmente possível ser amado por outro homem. Depois disso, chegando minha estação sinalizada pela voz robotizada do metrô frio, eu vou achar tudo mais possível de se perder. Entre o agora possível e o instante que vivo, eu salto em nuvens de algodão, sim, que não pesam, mas que podem me aguentar sendo reais durante meu sonho que escrevo ou adio o choro pelas palavras que não são minhas, mas morreram na garganta apertada. Minha e sua.

Lucas César de Oliveira


quinta-feira, 18 de julho de 2019

Variação cabralina n. 1: criança, de Jorge Luiz Lima de Souza - Menção Honrosa de Poesia do X PPBPP


Criança teme duas coisas.
(Coisa nela que é ela toda
e coisa outra que se arrebenta.)
Há na pureza da palavra a criança,
não nela, que coisa pura não se
arrebenta. Criança é coisa que se
arrebenta no cerne e no osso, no miolo do osso da ideia de carne.
Igual a um cachorro.
Mas cachorro não é criança,
não é rio, cachorro não é
analogia de coisa alguma,
é só pedra de pernas.

Criança é pedra de infâncias,
pedra ilegítima,
que pedra legítima, igual palavra,
não é coisa que se arrebenta
igual a criança. (Pedra legítima
é só, se for pedra.) Criança nunca
se sabe se é qualquer coisa
e não há quem não saiba
que qualquer coisa é tudo
e tudo não é só criança,
é tudo o que na criança
escapole dela antes de arrebentada.

Criança não é igual a pedra e cachorro,
que são sempre pedra e cachorro,
rio, que é sempre rio, coisa de sempre
ser; criança não se incrusta em pedra
feito carrapato, feito correnteza,
criança é longe disso.
Se um arremedo de rio se forma,
logo se sabe, mas criança é feita de parecer,
não precisa de arremedo de criança,
que ela é arremedo sem ser
feita para isso.
Arremedo de rio tem.

Poesia de rio tem.
Poesia de criança, dito
de criança que criança não lê,
porque não sabe que é coisa que
arrebenta nela que faz poesia dela,
feito peixe de rio, riscada poesia nele.

Criança não quer ser coisa que arrebenta
e é. É o destino dela,
é pasto que ela come à força.
Criança é o destino dela cumprido
e ela e todos sabem,
não é segredo da gente,
que se resguarda de tudo.

Se a gente diz que criança
é coisa que se arrebenta
diante da criança,
ela chora, porque para a criança,
dito é coisa de fazer,
é verbo de fazer
verbo, de fazer feito.
Mas se a criança lê em papel
que ela é coisa que se arrebenta,
ela ri, porque para a criança,
escrito é só coisa candidata,
coisa deficiente feito coisa candidata
que se humilha.

Criança não é coisa que se arrebenta
feito asa de xícara. É antes
feito linha de pipa
que se arrebenta. Linha
de duas coisas inclinada
feito linha com pipa.
Se se entendesse que criança é feito
linha como pipa que se arrebenta,
a criança ia arrebentar-se igual
a linha de pipa, que isso é destino
dela e da pipa.
Criança é coisa que se arrebenta
e voa, feito linha com pipa
que se arrebenta no cabresto.

Jorge Luiz Lima de Souza

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Um dia quente, de Irma Caputo - Menção Honrosa de Prosa do X PPBPP


Nossa, que calor. Esse cúmulo de cinza toda ainda quente em cima da minha cabeça. Quase me sinto de morrer pela segunda vez. Ainda me lembro quando escutei aquela voz de mulher gritando no meu ouvido, depois de tanto tempo sem som, sem ar, só acostumada àquele barulho abafado vindo de cima. A mulher gritou tão forte que me lembrei do meu último respiro antes de morrer. Gritei tão forte também, tão forte que saiu sangue do meu nariz. O medo faz gritar, se não faz gritar faz recuar e desmaiar. Eu arregalei os olhos, acho que gritei ao mesmo tempo, talvez segundos depois e sim desmaiei. Assim que quando abri os olhos novamente, vi exatamente o bicho levantar a pata para arrancar meu coração do peito. Fiz a tempo de desmaiar pela segunda vez. Assim que tenho uma vaga lembrança da minha morte, desmaiei, acho que foi uma espécie de autodefesa para não sentir a dor do coração arrancado. Que medo que me deu aquele bicho estranho. Hoje vocês chamariam de urso. Na época era algo similar, só que maior e com mais pelo. Também tinha patas que vocês nunca viram. Todo o mundo que passava por mim, antes dessa merda de cinza quente cobrir minha cabeça e aquela porra de calor danado se espalhar por todos os lados, dizia, comentando para os que não sabiam, que na minha época eram os homens que caçavam. Porra nenhuma, quantas vezes me torci por dentro e tive aquele desejo forte de língua e traqueia para voltar a articular som e dizer para todo o mundo que estavam enganados. Estudando estudando e só conjeturando coisas, querendo falar do que não sabiam. Se os homens fossem os únicos caçadores que não teria morrido com a tenra idade de 20 anos. Maldito o meu pai, malditos meus irmãos. Já na época as mulheres faziam tudo. Hoje vocês chamariam de trabalho doméstico e trabalho externo, na época era tudo junto e misturado e escandia o tempo do nosso dia. A gente não tinha relógios. Na minha época o tempo era medido por dentro, com base no que sentia o nosso corpo (a hora de comer, a hora de dormir, a hora de foder, a hora de cagar e de mijar), e por fora, com base nos movimentos do céu (o sol que nascia, a lua despontando na linha do horizonte, a treva chegando). Tudo. Eu fazia tudo. A porra toda. Pois, aquela desgraçada da minha mãe também havia morrido bem nova, meu pai matou ela. Na época isso se chamava de direito do homem, hoje ainda acontece, só que vocês chamariam de violência doméstica, embora alguns insanos inomináveis não achem. Sincronicidade do azar. O meu e o seu, ela morria e eu era condenada à escravidão dos machos que só matavam um bicho de vez em quando para poder se mostrar na frente dos outros, dizer que eram os mais fortes para eventualmente ter o domínio. Por quê? Para fazer ainda menos, mais poder tu tinha, menos trabalhava, o negócio era tu mandar os outros fazerem. Para as mulheres nenhuma chance de mandar, sonhei muito com uma tribo de longe, onde, contavam uns homens que haviam viajado, eram as mulheres que mandavam. Tribos matriarcais, vocês chamariam hoje, na época se chamavam bando de mulheres perigosas. Imagina se tivesse o facebook ou instagram, com a vaidade que os homens da minha família tinham, aposto que aqueles merdinhas publicariam fotos segurando os bichos mortos pelas cabeças, assim ficariam mais desejáveis para aquelas putinhas dos clãs mais próximos. Eu sei que não dá para entender nada, que passo de um negócio para o outro, é que o calor sempre me deixou louca. Louca, louquinha. Mesmo. E hoje aquele fogo da porra atingindo tudo, deixou tudo quente em cima de mim, quilos de escombros quentes. Minha cabeça ferve sozinha. Eu caçava, cozinhava, ajeitava aquela cova fria com paredes de pedra e terra batida onde a gente dormia. Os meus irmãos até ficavam em cima de mim, aqueles merdas. Nunca dei para eles. Na nossa época estávamos um pouco mais avançados que os antepassados, a gente já sabia guardar comida. A comida vinha da caça e da colheita, mas a gente não sabia plantar. Enfim cuidávamos do nosso canto, tínhamos um lar fixo, mas para alguns ainda não estava clara a diferença entre a irmã e outra mulher para satisfazer seus desejos. Nossa! Essas vozes de gente chorando... Que incômodo, não me deixam raciocinar. Dizem que não sobrou nada. Quanta interrupção. Enfim, vamos lá, mas é que o calor me deixa louca. Louca, louquinha. Mesmo. E essas vozes abafadas vindo de cima me distraem. Aquele dia, lembro como se fosse hoje, nenhum dos merdas dos meus irmãos levantou nem para ir pegar água. Acordei cedo com uma sede do cacete. Mandei eles se ferrarem, gritei que não teria pego água também para eles. Só curtindo o dia todo e eu ralando para eles. Fui pegar água. Bebi, me lembro aquele sabor de nada fresco, um nada fresco escorregando no meu esôfago. Havia sonhado que quando estamos prestes a morrer, tudo fica mais vívido. Senti cada partícula de água escorrer na parede do meu esôfago refrescando cada centímetro tocado. Não sei se foi a sede satisfeita ou foi presságio. Na época também achei que estivesse ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Escutei uns moços comentarem dessa situação uma vez que haviam parado na minha frente para me observar. Era uma visita de escola e enquanto o guia falava, eles se haviam afastado para comentar do sábado anterior. Um deles disse que havia fumado um num show de reggae na fundição, e era toda erva natural, o negócio estava tão forte que começou a ter alterações dos sentidos, tudo mais forte, tudo mais à flor da pele, tUUUUUdOOOOOO mais AAAAAAAmplOOOOOOOOO, tUUUUUUUUdOOOOOOOO, mAAAAAAiOOOOOOOr e começou a visualizar a cerveja fria escorregando na garganta, sentia aquele rio de frescura invadir o estômago e cada órgão da ingestão se tornando gelado ao contato daquele líquido frio. Eu sei que não dá para entender, que passo de um negócio para o outro. É que o calor sempre me deixou louca. Louca, louquinha. Mesmo. Nossa! Essas vozes de gente chorando. Quanta interrupção! Dizem que não sobrou nada. Enfim, vamos lá, naquele dia também achava que estivesse ficando louca. Louca, louquinha porque o bofe do clã vizinho me queria, mas o meu pai e os merdas dos meus irmãos não me deixaram ir. Pois queriam algo em troca que não quiseram lhe dar. Queriam uma putinha loura que já estava nas graças de outro cara do outro clã. Toda politicagem. Mas eu gostava do bofe. Pensei que estivesse ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Decidi ir buscar comida, como pode acordar um bicho sem nada para comer? Aquele dia estava um puta calor, como nesta noite de setembro em que morri pela segunda vez, aquela sensação de abafamento, de calorão. E hoje aquele fogo da porra atingindo tudo, deixou tudo quente em cima de mim, quilos de escombros quentes. Minha cabeça ferve sozinha. Pela segunda vez. Insuportável. Os cientistas dizem, isso sempre sei pelas conversas das pessoas que paravam perto de mim, que há umas mudanças climáticas em cada época, mas uma coisa é certa, um puta calor estava no dia em que o bicho arrancou meu coração, um puta calor estava hoje à noite no momento em que vi fumaças e chamas se aproximando sem um mínimo recuo. Não, na verdade não. Houve recuo sim. Acho que estou ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Pois bem, em algum momento umas janelas explodiram e a entrada do ar frio gerou, depois de um primeiro recuo, um avançamento das chamas como um efeito pressão. Foi naquele momento que o fogo se espalhou por todos os lados. Alguém gritando, cadê a porra da água? Acho que estou ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Andei horas redondas para achar um bicho pequeno, daqueles que não me davam trabalho para matar e para limpar. Achei finalmente, o negócio era correr mais do que ele. Caraca, pequeno e ágil, difícil de enfiar aquele bicho, minha lança era curta demais. Estava ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Pensando no bofe me pedindo para namorar e o meu pai e aqueles merdas dos meus irmãos falando que não. Eu queria o bofe, mas na verdade o que queria mais era me libertar dos merdas. Fiquei pensando se um dia pudesse achar a tribo das mulheres perigosas, ou matriarcais se lhe agradar mais. Linda, livre leve e solta doida para beijar na boca, em vez de bela, recatada e do lar. Bela é o caralho. Recatada é o caralho. Do lar é o caralho. Que calor danado, porra! Minha cabeça está fervendo sozinha. Eles é que estavam me deixando louca. Louca, louquinha. Isso foi o último pensamento que tive antes do bicho vir em cima de mim. Urso, vocês chamariam hoje, se lhe agradar, só que na época era maior e com mais pelo. O medo faz gritar, se não faz gritar faz recuar e desmaiar. Eu arregalei os olhos, acho que gritei ao mesmo tempo, talvez segundos depois, e sim, desmaiei. Assim que quando abri os olhos novamente, vi exatamente o bicho doido levantar a pata para arrancar meu coração do peito. Fiz a tempo de desmaiar pela segunda vez. Assim que tenho uma vaga lembrança da minha morte, desmaiei, acho que foi uma espécie de autodefesa para não sentir a dor do coração arrancado.
Tive medo também nessa segunda morte. As chamas avançando, a porra do calor derretendo tudinho.
Só não tive olhos para arregalar, não tive coração para desmaiar. Só tive o medo.
Estava morrendo pela segunda vez. Condenada às trevas.
Luzia, condenada às trevas.
Aliás, todo mundo me chama de Luzia. Nunca entendi por quê. Que porra de nome é esse, hein? O meu nome até o momento da minha primeira morte sempre foi Ashaki. Acho que tô ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Luzia, isso sempre sei pelas falas que escutei do povo de latim que parava perto de mim, significa portadora de luz. Engraçado uma pessoa que foi condenada às trevas duplas, 11.500 anos de primeira e agora de novo para quem sabe quanto tempo, se chamar assim. Luzia, portadora de luz. O povo tá de sacanagem mesmo com a minha cara. Deveria me chamar Mnesys. Pois guardo em mim as memórias do mundo. No lugar onde eu estava não tinha ser ressecado mais velho que eu. Eu, Ashaki ou Luzia, que lhe agrade, era a mais importante, mas juro que nunca fiz biquinho quando tiravam selfies comigo. Eles que faziam, eu não, aliás, que saudade tinha da boca. Esse calor danado tá me deixando louca. Louca, louquinha. Mesmo. Se vão me achar de novo será que continuarei sendo Luzia? Pensar que tinha me acostumado. Quase cheguei a gostar. Linha, livre, leve e solta, doida para beijar na boca, nem língua tinha mais. Acho que tô ficando louca. Louca, louquinha. Mesmo.
Mnesys, gostaria mais.

Irma Caputo

terça-feira, 16 de julho de 2019

Soma, de Matheus Ribeiro A. Lima - Menção Honrosa de Prosa do X PPBPP



Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Antonio Cícero

A questão que me pega é sobre o motivo que tenha conduzido Samuel Rawet a guardar seus recibos de tinturaria. Se eu fosse apaixonado pelo tintureiro, provavelmente guardaria aqueles papeizinhos. Guardaria, se tivesse, sua assinatura pela simples razão de, como paixão guardada no peito, me valer do risco em tinta no papel – com um toque distraído, descompromissado, mas toque. Colecionaria aqueles autógrafos pela casa. Dessa forma, tanto pareceria produto da minha bagunça, acaso, inadvertimento, quanto não teria a preocupação de manter meu amor e seus papéis todos selados numa caixinha no fundo do armário entre as roupas para que ninguém os descobrisse.

Propunha essas coisas enquanto tentava organizar o pensamento, escrevendo, sentado na sala 114. As janelas abertas, eram ainda 14h quando reparei que a sala estava vazia e entrei. Do lado de fora, a chuva caía de sua maneira peculiar de cair pela PUC: como uma pluma. Gotas levíssimas. O caso Rawet era minha preocupação havia um tempo. Em seu recém-montado arquivo, em meio a cartas, projetos de engenharia civil e produção intelectual de qualidade inédita, havia muitos recibos de tinturaria. De tudo quanto se podia guardar num arquivo (no de David Zingg tem um acervo vasto de negativos e um par de sapatos), a reunião daquele tipo de notinhas ainda causava estranhamento.

A sala estava zoneada. Ou melhor, organizada de outra maneira que não a de uma métrica rígida, repetida, apenas um ritmo diferente de se dispor as cadeiras e mesas. Tirando eu e elas, só o ar preenchia a sala. Estava sentado para perto da porta. Foi quando o ouvi limpando a calça. Seria Lúcio? Descruzou as pernas, as abriu, e passou a palma pela calça de algodão. A calça entre azul ou preto, a blusa de manga comprida azul marinho. Cruzou novamente as pernas e os braços. A cara de enfado. Mas não o vi. Sentado para perto da porta, mantive-me no trabalho de detetive. Queria esmiuçar outras possibilidades para o caso, mas só conseguia pensar em Rawet e seu tintureiro. No mais clichê de duas mãos se tocando e olhares se trocando, ou na aversão do tintureiro a alguma abertura dada por Rawet, ou no mecânico em que nada de esplêndido acontece mas o coração do escritor bate mais rápido e ele sai da tinturaria com o ventre apertado gaguejando o que nem tinha para falar. E então voltando ao lugar onde se hospedava. A cabeça no carinho, no medo ou na insegurança. Quem sabe um dia chegou a tomar coragem. É o que eu faria. Levaria tempo, colocaria o corpo todo em preparação. E quando falasse, seria correspondido? e talvez não precisasse mais pagar, uma vez que o namorado tintureiro faria aquilo por favor. E se não fosse? e se fosse repelido? teria que mudar rapidamente de tinturaria ou mesmo parar com o serviço. Para essas possibilidades, o fim indicava uma expressão nos dados retidos.

Como faz parte do meu método, eu iria começar (e comecei) a criticar os caminhos que tomavam os meus argumentos. Por que jogava toda a culpa sobre as paixões? Mesmo para o caso de alguns recibos recolhidos, botava na conta de um amor. O que, por sua vez, é culpa dos romances. Fui a Bolaño. É bem reconhecido o uso que ele fez do romance policial como recurso de alcance ao público. A mim parece que falam que o detetivesco de seus romances seja puramente a forma que encontrou de falar dos amores humanos sem ficar preso às prateleiras e aos rótulos do intimismo; que os amores humanos são sua questão fundamental, toda a intenção de suas obras e que usa do recurso policial com mero meio de chegar a esse fim. Porém mesmo os amores humanos são mote de muitos best-sellers. Claro que com uma outra configuração, algo por vezes mais melodramático ou apelativo. Contudo, da mesma forma que Roberto Bolaño pode reconfigurar o romance policial a seu serviço, também o pode ter feito com as paixões – deixando sua questão para outro traço ou argumento a ser descoberto. Da mesma forma, eu poderia estar atribuindo a razão de um amor à história para que ela pudesse se tornar atraente para mim. O fantasma de Lúcio Cardoso soltou uma risada irônica de canto de boca. Estava largado na cadeira.

Pensei então que podia seguir o método oposto: atribuir ao fato da reunião dos recibos um motivo que me fosse desinteressante. Difícil. Tento me esforçar para não engessar meus horizontes de perspectiva. Tento achar que tudo quanto exista possa ser atraente. Ou que não gostar de certas coisas é como uma violência e que devo me abrir à experimentação. Nisso, lembrei de uma conversa com Diam no bar. O “m” em Diam é pronunciado como em latim, logo, não seria algo como “Díão”. Ele contou de como havia sido lidar com o arquivo do Rawet enquanto o organizava. O que mais mexeu com ele era a paranoia do escritor. Disse, de camisa aberta, peito desnudo, e um copo de cerveja na mão, de um caso dele envolvendo polícia. Certa vez, o escritor chegou numa delegacia querendo denunciar todos seus vizinhos por estarem perseguindo-o. Todos os seus vizinhos. “Os problemas clássicos: álcool, xenofobia, sexualidade marginalizada. E problemas seríssimos com o conceito do judaísmo e com a família”. Eu acho que não falei mais nada. Mas agora essa pista me abre um caminho. Dentro das paranoias que vi de perto, algumas necessitavam da marca de estar vivo como fuga. Não cair na ilusão de ser si próprio um fantasma. Para isso, tomar do habitual. Pião da origem. Nesse caso, o costume de ir à tinturaria se transforma nesse denotável e ter isso guardado era para ele confirmação de viver. Lá fora, a chuva dava trégua – ainda que seu cair seja uma trégua ele próprio. Começava a decantar a luz do dia. Nesse instante, o balançar da perna cruzada do fantasma de Lúcio Cardoso fazia-se audível. 

Minha caneta começou a falhar. Saí um pouco do ritmo da escrita. Olhei para fora e lembrei das vezes em que, nos primeiros períodos, abria o janelão, pulava e olhava para a enorme parede de mato. Podia-se facilmente passar dali para outro lugar, sair por outra sala. Mas isso não se fala. Depois fiquei olhando o quadro enquanto rabiscava o canto da página para que a tinta voltasse a correr. Não gosto de fazer isso, parece desgastar demais o papel e depois guardar nele tanto a marca de um erro quanto a marca do descontrole – da própria natureza do rabisco. Todavia, se incorresse em queimar a ponta da caneta (técnica infalível), deixaria o metal borrado pelo fogo. Como se rabiscasse também nele. No quadro, vinha escrito apenas o sobrenome de Ludwig Wittgenstein. Lembrei da parte de um sonho que tive. Estava na UERJ e comentava estar estudando-o com alguém. Um menino branco de cabelo ruivo então fala: “ah, até acho ele interessante, mas não me desce isso de que só existe uma opinião, um (esqueci), ou só a cor azul – e que o resto seja puro acaso”. Acho que Wittgenstein nunca falou isso. Ou que isso tenha de alguma forma a ver com seu pensamento. Falaram-me, não faz pouco tempo, que muitos animais, como peixes, não refletem a cor azul de fato. Têm apenas um pigmento chamado furta-cor que os dá essa tonalidade. Os gregos não tinham, nos cantos de Homero, uma palavra para azul. Na Odisseia ou na Ilíada, o mar é negro, o céu é branco. Nada de azul: só acaso? A caneta começa a soltar sua tinta. No fundo da sala, o fantasma de Lúcio Cardoso tem o braço direito pendido. Sente a dormência em completa inércia.

Matheus Ribeiro A. Lima