sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Conferências da ABL: o trópico como refúgio

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Lançamento de "Indira" em Belo Horizonte!

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Instante — um poema de Carlos AA. de Sá

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Manhã de inverno.

Na praia deserta
eu caminhava
devagar
opresso
esmagado
pelo horizonte.

Entre a areia clara
e o mar barrento
— faixas estendidas
infinitamente —
eu
solitário
e ambulante ponto.

Será que ao menos nesse instante
Deus me viu?
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Carlos AA. de Sá
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Carlos AA. de Sá é jornalista e estreou na literatura em 1972 com o livro de poemas Canto Tentado. Já teve diversos trabalhos publicados na imprensa campista, mineira e no jornal carioca Tribuna de Imprensa. Também já saiu em publicações estrangeiras, como a revista espanhola Batarro. No jornal Plástico Bolha, ele fechou com chave de ouro a edição #25, com seus Cartões-Postais, e agora está na edição #27 com o Poema do Cajueiro. Além disso, Carlos também é o aliado cultural do Bolha em São João da Barra, RJ, onde distribui os exemplares do jornal na Casa de Cultura Zenriques.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Outro verão — um texto de Tânia Tiburzio

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Toda vez que passo em frente aquela banca de jornais lembro que foi lá que você esqueceu dois maços de cigarros antes de irmos para a praia. Lembro também que calor úmido de janeiro não nos repelia, ao contrário nos atraia, porque nossos corpos grudados dissipavam o calor que nos consumia não por fora, mas por dentro. O mar azul, palavras que eu sussurrava em seus ouvidos perfeitamente compreendidas, apesar de não serem ouvidas. O sol agarrado aos telhados das casas, a música soando alta e continuadamente pela sala, por toda a rua, por todo o verão. Suaves delírios, o gosto do sal pelo corpo, a cama desfeita, a algazarra das refeições, o ventilador girando, girando e minha cabeça, meus sonhos girando com ele. A chuva fria no meio da noite e outros cigarros mentolados sendo acessos no lugar daqueles esquecidos em cima do balcão de uma banca de jornais na esquina da Paulista.
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Tânia Tiburzio
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A sinceridade retórica de J. M. Coetzee

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Coetzee, J. M. Desonra. São Paulo. Companhia da Letras, 2000.
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Não é de admirar que sejam tão veementes contra
o estupro, ela e Helen. Estupro, deus do caos e da
mistura, violador da reclusão. Estuprar uma lésbica
é pior que estuprar uma virgem: o golpe é maior.

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Um romance desconcertante. John Maxwell Cotzee — sul africano de dupla formação, lingüística e matemática — começou a escrever há algum tempo, tendo seu primeiro livro publicado em 1969: Dusklands. Em 2003 recebeu o prêmio Nobel de literatura. A partir da leitura de Desonra é possível perceber a importância de seus escritos, de raro valor contemporâneo: viés sólido, de pungente crítica sócio-política enfiada na alegoria da personificação, cara demais à literatura. David Lurie é um professor acadêmico da Escola Técnica da cidade do Cabo (Cape Town), na África do Sul. É adorador do literato William Wordsworth e estudioso de Byron. Oscila seu tempo entre estudos sistemáticos de literatura inglesa e o magistério. Sente-se, entretanto, recorrentemente pungido ao sexo, e não hesita em fazê-lo, mesmo que acarrete em depressões morais: “Fui um servo de Eros: é isso que ele quer dizer, mas será que tem coragem? Era um deus que agia em mim”. Justifica-se nas razões da carne, razão dum cinismo mantenedor e vigorosamente coerente. Em ação motivada pelo acaso acaba se envolvendo com uma aluna, experimentando pelo sexo a interferência do seu ofício: chega ao ponto de, através das avaliações, construir a relação sexual de posse e domínio — relações erógenas que partem dos números (a nota dos testes). Ao referir-se a Melanie, sua aluna e amante, no dia em que perdeu uma aula e um teste, posiciona-se: Ao preencher a ficha de depois, ele marca uma presença para ela e dá-lhe nota sete. Ao pé da página, a lápis, anota para si mesmo: ‘provisório’. Sete: nota dos indecisos, nem boa, nem má”.

Explode a imprecisão acadêmica. Ele é acusado pela Universidade por intermédio de uma queixa da própria aluna. Pais, amigos e um suposto affair da garota atribulam-lhe a vida. Passa por um processo interno da instituição de ensino, assumindo os erros por completo, recusando, inclusive, ler o processo e as acusações. Sente-se velho demais para mudar ou se retratar. Consiste em sua existência um depreciado pedantismo acadêmico, da vernácula verdade de crer nos livros acima de tudo, nos recursos poéticos com lições prontas da vida. Tem cinqüenta anos e bastante restrição à sociedade, quer o mínimo de hipocrisias em seus modos, mesmo que eles o coloquem assim em posições desconfortáveis e aviltantes. Não que não se faça hipócrita — por vezes é —, no entanto, impõe seus próprios limites às explicações que residem dento da moral e dos bons costumes.

Muda-se para a África interiorana, África pós-apartheid, África das disputas pela terra, dos embates raciais. Sua filha — lésbica e quase camponesa — recebe-o cordialmente, mesmo sabendo do caso de assédio que revira as manchetes dos jornais. Em conversas esporádicas, faz-se tentar compreender ao menos à filha: seus diálogos têm algo da sinceridade paternal. A casa de Lucy — sua filha — é assaltada por três negros. David fica preso no banheiro enquanto os três estupram a filha. O trauma, desde então, passa a ser o incidente da convivência. Lucy se recusa a sair de sua terra; seria acovarda-se frente a uma questão social, recolocar em prática o apartheid, fugir, por medo da morte. O pai tenta-lhe convencer das facilidades da mudança, da importância de exorcizar seus fantasmas: nada adianta.

As relações se engalfinham em terras longínquas, onde o poder público toca, quando muito, só com os olhos. Petrus, seu vizinho e caseiro, faz confortável a situação; a terra que lhe foi cedida aos poucos se expande e divide cerca com a propriedade de Lucy, cerca que sequer existia. Suas ambições começam a fenecer; o conflito histórico se mostra maior que as pretensões de uma geração inteira. A terra e o embate de raça; tônus recíproco das relações sociais.

Coetzee, em uma narrativa retrátil e novelesca, faz um texto visceral. A atenção à história dá-se nas proezas estilísticas do texto entrecortado e sarcástico; realista e questionador. “Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser pai; só que, tecnicamente, dá para ser pai aos doze”. São postas, então — neste linguajar —, as condições da disputa, e não as resoluções: este romance não quer achá-las, elas não existem nas enfermidades opressivas; não há simplesmente como desfazer de um dia para o outro o ódio que ronda gerações. Brancos versus negros; moralidade versus imoralidade; segurança versus insegurança; literatura versus vida real: todas as ambivalências deste livro são feitas não enquanto elegíacas, somente. São construções que não querem se colocar em posições hierárquicas, em pólos distintos: trata-se de ordens filosóficas imbricadas na imprecisão gerativa da condição humana, no conflito cotidiano insurrecto pela posse. Não há solução para o trivial das tragédias cotidianas.

Na Grécia, nos tempos da República, a tragédia exercia peremptória razão social. A partir da sublime desgraça, do fardo dos deuses e semi-deuses, os homens aprendiam. Faziam dos seus atos espelhos atrozes dos ensinamentos das artes, de modo geral. A desonra de um estupro figura nas estatísticas da África do Sul. O joguete moral do ato consiste numa dominação fálica, sexual. Os homens negros ao estuprarem Lucy dão provas de uma das opressões sul-africana; querem além do roubo um outro apetrecho, sádico e pernicioso. Imprimem-se na tragédia dos jornais, na fúria das gerações, querem para além da posse física, a posse existencial: apoderam-se da vida da mulher com imagens que lhe vão correr o imaginário por toda a vida, como uma cicatriz. A colonização africana foi bem mais que um povoamento mal medido, foi um estorvo. A tragédia grega, nesse romance, é o nódulo que indica o tumor, entretanto, sua aparência é meramente alegórica, serve para compor o cenário e condenar a arritmia das questões sociais. O ensinamento só pode valer partindo de um surto reacionário.
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Por fim, toda a narrativa termina como começou — num gesto prosaico, sem mesura. A vida das personagens recai sobre suas rotinas e frustrações: a condição humana é se degradar ante a morte, pouco a pouco, como um estupro faz com a lembrança, ligada, quer queiramos, quer não, aos conflitos humanos que espoliam a sensação letárgica de ser feliz num mundo de contradições. Coetzee nos choca por sua sinceridade, nada mais.
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Lançamento de algum lugar, de Paloma Vidal

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domingo, 29 de novembro de 2009

Encontro de quatro poetas na UERJ!

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sábado, 28 de novembro de 2009

Labirinto — 1º lugar de Poesia

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I

Labirinto sem saída,
Te amo de um jeito simples:
Como um narcisista
Que se olha no espelho.

II

Teu rosto eterno retorna
Emaranhado de fios, novelo
De nove voltas sem saída
Que desfaço
Sete vidas fito um gato
Luminescente no sorriso
Vazio cruel e cariado
De uns dentes doces
Meu sexo

Teu rosto eterno retorna
Escorrendo por buracos, nos baixios
Se me penetra te devoro
Nove vezes sete mortes
Versus nove sem saída
Lascívia de heras na esteira
Mastigo as tripas e os espinhos
Nos teus cachos de parreira
Meu filho

Teu rosto eterno retorna
Retorcido nos escombros
Em movimento no youtube
Estático no jornal.
Na insônia redivivo
Teus nomes de desejo
O Google me devolve (obsessivo)
Silêncio perseguido
Meu surto

Teu rosto eterno retorna
Fulgurante como as trevas
Que escapa pelos olhos
Que engulo com os lábios
Farpas, pregos, língua, sapos
Coagulados na garganta (o nome)
Violento salto sem terra
Meu nunca

Teu rosto eterno retorna
Carregado de pústulas
Corroído por vermes
Descascado na tortura
Da imagem cultivada
Cicatriz no tempo
lâmina, o corpo num rosto
Forjado em incerteza
Meu deserto.
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Ana Beatriz Ferreira Batista
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Ana Beatriz Ferreira Batista foi a grande vencedora da categoria poesia com este Labirinto. O 1º Prêmio Paulo Britto é uma realização do PET do Departamento de Letras da PUC-Rio, com o apoio do Jornal Plástico Bolha. Parabéns aos vencedores!
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Escreviver — 2º lugar de Poesia

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Se alguém pudesse ver tudo que eu penso provavelmente não acreditaria. É um parque de diversões sem bilhete pra entrar, e assim fica lotado. Eu sou mais fraco que eu. Minha fragilidade se abre para um mundo que pouco conheço; escrevo para conhecê-lo melhor. Ao fim de cada frase agradeço como no fim de uma oração.
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Na minha fragilidade o mundo entra em mim e é uma avalanche. Morrer seria desperdício. Sou a bola de neve que cresce quase que ao infinito e fica mais forte. Despenco pelas ladeiras. Viver me acumula tanto.
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Queria dizer que escrever é como tirar leite de vaca. É a alma nua ajoelhada diante daquele animal sagrado e o cumprimento do ritual: espremer, puxar. Limito-me a um balde a cada dois dias.
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Há certos dias que parecem uma anunciação. É assim: você levanta da cama e lembra de novo dos raios de sol. Escrever é colher esses raios de sol em dias de anunciação: inventa-se mundos. Aprecio as tatuagens, embora com uma certa distância. Mas é que queria ir escrevendo minha história em meu próprio corpo. Palavras escritas na carne. Palavra-corpo. O horizonte amarelo que esmaece vermelho no fim de tarde.
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As palavras formam jogos complicados em minha mente. Barulho de cartas espalhadas. Minha recusa em agir é um tanto consciente e irreal. É o portão que se fecha segundos antes do carro chegar e a frustração. O vaivém do balanço naquele fim de tarde.
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Tudo o que escrevo são jatos de tinta na parede e não há ninguém com um pincel para alisá-los. São meus esforços incompletos que se estiram pelo chão gritando. Sinfonia. A lâmpada e dentro dela um inseto morto há algum tempo (já o havia visto antes). Estala e incandesce: viver e suas surpresas dentro.
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Não saber sobre o que escrever já se tornou constância. A parede lisa e os borrões de tinta. Total que – não achei expressão semelhante em português a esta em espanhol que parece trazer tudo a um clímax e encerrar um resumo – total que já não sei. Sinfonia, não – rapsódia.
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Por isso escrevo mundos e escrevo vida e vivo. Vivo porque escrevo – o absurdo. O clique do gatilho prestes a explodir e o clique das teclas uma após a outra em ritmo descompassado. I’ve never loved nobody fully, always one foot on the ground. Custa escrever a palavra amor. A-mor. É que lembra morte. Amar é morrer-escrever, talvez. O teclado encharcado de lágrimas.
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Se escrever é só metaforizar então melhor parar (bem como parar de rimar ar com ar). Amor, a morte, a continuação. Escrever é também citar, às vezes. Já duas em apenas dois parágrafos. E o coração cheio de pulsação por vida mas a incapacidade. São mil citações de fora, palavras gestos continuações. Continuar vivo parece prescindir o esquecimento das citações. Mas quem sou eu, esse conjunto de citações e um pouco de originalidade? Senão. Escrevo parecido com alguns escritores que admiro. Nada se crea, todo se transforma (mais uma). Eu me transformando em mim.
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Melhor escrever para crianças. A criança em mim. Infância e rancor. Palavras que ficaram contidas. Explosão. A pétala da flor que não conseguiu se abrir e murchou. A lagarta que nunca saiu do casulo e as asas que não ruflaram de par em par.
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A pior das dores é aquela que não é sua. É entrar dentro de um filme e sentir-se personagem. Não quero escrever por identificação. Ser autobiográfico ou não, dane-se, não importa, importa enxergar. Venha ver o pôr-do-sol. Palavras-espelho. Palavras e paisagens e pores-de-sol. Escrevo porque me faltam as palavras e de repente aparecem.
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E o fim do texto. Imaginei que seria um happy end. Escrevo rápido e releio às vezes. Escreviver. Melhor deixar assim em aberto: a possibilidade: pisar no pedal e fixar a nota do piano: a flor que renasce: o reino que está por vir e a esperança: o dia que se chama hoje: meu caminho em direção ao mar
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Miguel Del Castillo, que foi o grande vencedor na categoria Prosa, também conquistou o segundo lugar de Poesia com este Escreviver. Parabéns Miguel!
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Remix musical número 1 — 3º lugar de Poesia

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Leros e leros. Que só me dão tédio.
Hoje está passando um filme de terror. O horror, o horror.
Que mulher danada essa que eu arranjei. Só me enche a paciência. Ontem, quando eu cheguei em casa, às sete horas...ela não estava.
Pobre meu pai. Mas está ficando rico.
Por trás dos edifícios. Há mais edifícios. E é difícil.
Eu tenho os dias contados, isso é certo, e não pela morte inevitável de todos nós, mas pela minha morte mesmo, mais inevitável ainda.
Fugi pela porta do apartamento. Estava muito sufocado.
Viajei de trem. Não de metrô.
O ar poluído polui ao lado. Tudo me parece poluído hoje em dia.
Viajei de trem, eu viajei de trem. Não de carro.
Um aeroplano pousou em Marte. Quero ir para Marte.
Viajei de trem. E não de aeroplano.
Queria estar perto do que não devo. E, às vezes, estou mesmo.
Seus olhos grandes sobre mim. Coisa linda.
Suje os pés na lama. Os meus já estão imundos.
Os automóveis estão invadindo. Haja engarrafamento. Entre as flores escondidas. Acho que o tempo é mesmo de esconder as flores. O auditório aplaudiu a canção. Não era minha, claro. Que eu estou no paradeiro... no paradeiro de quê?
Não é vivendo que se aprende, Odete. Mas a gente vai vivendo. E não aprendendo.
Há quem diga que eu dormi de touca. Desperdicei, mesmo, aquele que seria o período mais bonito de minha vida. Há quem diga que eu não sei de nada. Deve mesmo ser verdade, já que desperdicei parte de minha juventude. Eu, por mim, queria isso e aquilo.
Mas não consegui muita coisa. Eu quero é botar meu bloco na rua. Mas ele está mesmo no meu quarto.
Meu nome é Raulzito Seixas. Mas nem gosto das minhas músicas.
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Rodrigo Cazes Costa
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Carta para Ana — 1º lugar de prosa

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I.
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Tão estranho não ter a quem escrever, Ana. Todos os da casa se foram. Carlos casou-se; Vitória foi tentar a vida na cidade. Sobramos eu e a mãe, a casa toda atrás de nós. A mãe não pode ler, está cega e vive pedindo-me que lhe leia algo, que lhe conte alguma história. Estou sem histórias, Ana. Não consigo mais contar da morte do pai que inventei
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(o canalha na verdade se foi)
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aquele funeral fictício, eu chorava e a mãe também ao meu lado no meio do cemitério sem mais ninguém por perto
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– Seu pai não era querido Joel?
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– Era sim mãe o caso é que o enterro caiu em dia de semana fica difícil pro povo faltar o serviço
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a mãe pedindo-me que lhe vestisse de preto todos os dias por causa do luto, eu sentindo raiva daquele desgraçado que nos deixou, deixou-me com minha mãe cega e com dois aluguéis atrasados da casa, estamos sem televisão pois cortaram a eletricidade, disse à mãe que o aparelho quebrou, disse que não precisamos de TV afinal posso contar-lhe histórias e temos o rádio de pilhas para ouvir, mas estou sem histórias
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(já não escrevo, minha mão não presta a não ser para escrever a você cartas que nunca enviei, todas as minhas memórias que rasgo dois dias depois)
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minha mãe perguntando-me como está a cidade, se o futuro já chegou por aqui, pedindo-me que a leve ao rio mas não há mais rio, secou como todos sabem, o rio em que eu e você tomávamos banho, está lembrada, Ana?, divertíamo-nos brincando de cabra-cega, mergulhávamos como um dia vimos na TV que transmitia as Olimpíadas, e você me prometia que quando crescêssemos iríamos juntos para a cidade, sobramos eu e a mãe, a casa toda atrás de nós, e não sei ainda para que cidade você foi. A mãe perguntando-me por você
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– Joel que é feito da Ana?
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– Morreu
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informo-lhe, como se nunca o tivesse feito, e ela se choca a cada vez que dou essa mesma notícia, você morreu e enterrou-se só em alguma cidade que desconheço, a mãe vestida de preto olhando para o nada, a escuridão à sua frente, fazendo mais um cachecol de tricô sem serventia alguma na quentura desse sertão.
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Não posso mais ouvir música, acabou-se a pilha do radinho e minha mãe canta um velho hino de sua igreja, como pode a velha ainda ter fé no meio desse calor sem mato, sem rádio, sem televisão, a mãe canta como se tivesse seus quinze anos, cantora de coral, disseram uma vez que a levariam para cantar na cidade grande, meu pai se apaixonou pela cantora e não a deixou sair do sertão, aquele canalha que agora nos abandonou, morreu, o enterro fictício, minha mãe de preto cantando na volta para casa, pedindo-me uma história, cantando que existe a esperança, que o céu tem rios que não secam, o São Francisco seco e ela querendo tomar banho, cantando e ensaiando com as mãos secas as notas no piano que também sabia tocar, mexendo os dedos um a um como quando faz tricô, e eu assistia com lágrimas nos olhos, Ana, como quando você se foi e não disse adeus, as mãos inchadas, fortes e fracas da minha mãe, estava vestida de preto e cantava enchendo os pulmões, levantando, rodando pela casa, esbarrando na TV que não funciona mais, a velha iluminava a casa e sorria, que no céu há rios que nunca secam, cantando e tocando piano, como pode ainda ter fé a desgraçada, Ana?
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Eu inventando como foi que o pai morrera, dizendo que tomasse cuidado para não cair e ela rodopiava, minha mãe com quinze anos cantando no coral, dançando a valsa com meu pai
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aquele
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minha mãe que devia tomar dois remédios por dia mas não tenho o dinheiro, não tenho mais histórias nem luz, minha mãe dançava sozinha, sem marido, ela era luz e sorria no meio da casa sem flores, como quando éramos crianças e ela cantava para nós de perto, dizendo que não nos preocupássemos que a primavera já chegava, que a chuva já vinha, que o pai já conseguia um emprego, minha mãe comigo no colo rodopiando pela casa festiva, as lágrimas saindo-me dos olhos, não conseguia pará-la, eu desistindo de alertar-lhe a respeito dos objetos no seu caminho, girando e enfim sorrindo também, como no dia em que você me disse que éramos gigantes, que nunca morreríamos ou nos separaríamos, Ana, como quando você me disse que tão logo crescêssemos iríamos juntos para a cidade grande.
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II.
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Ontem fui até o rio, Ana, ou o que costumava ser o rio, e atirei-me à lama que substituiu há algum tempo a água que lá pousava. Saí todo sujo, os meninos correndo gritando
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– Tia tem um maluco lá no rio
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e eu não sei mais se sou louco ou normal, a mãe diz que sou o preferido, que só eu mesmo pra ficar ao lado dela cega, as pessoas chegando até nossa casa pra vê-la
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– Dona Neusa está tudo bem com o Joel? Ontem ele ficou rodando deitado no rio parecia um maluco
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minha mãe sentando
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– Não mentira não pode ser o Joel
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eu me aproximando dela, perguntando o que havia acontecido, explicando que esse povo é que é doido e fica inventando história pra perturbar a gente
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– Está certo filho você pode ir à feira comprar dois quilos de batatas e alguns jilós?
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comprei meio quilo e um jiló mas disse à mãe que fiz tudo como ela pedira, o dinheiro acabou mais uma vez, Ana, a Vitória ingrata nem pra aparecer aqui em Pão de Açúcar ou ao menos mandar um dinheirinho, já deve estar rica lá em São Paulo, o Carlos nem quero pensar, tomara que nunca consiga ter aquele filho, só de pensar no que ele fez com você, Ana, coisa de animal, nunca vou perdoá-lo mesmo que você volte aqui me pedindo de novo, dizendo que você consentiu, já disse que não sou homem de retirar minhas palavras
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– Joel olha ontem eu e o Carlos
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fui revoltado ao encontro do idiota que não entendeu nada quando recebeu um soco no meio do rosto e nunca mais lhe dirigi a palavra, nunca mais, nós dois na mesma casa se esbarrando, o Carlos tentando falar alguma coisa, e eu passava por ele mudo sem nem olhar nos olhos, você
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– Joel olha ontem
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sem pudor, sem vergonha, hoje eu penso como você pôde, Ana, depois de tudo aquilo, que nunca nos separaríamos, eu dormia pensando em você, no seu biquini amarelo, pensava em nós dois em Pão de Açúcar, nosso casamento na Igreja Batista seria bonito e teria flores por todo lado, as damas de honra poderiam ser as suas sobrinhas, o arroz, você entrando deslumbrante pela porta, o pessoal do coral cantando e minha mãe provavelmente não resistiria, eu dentro de você, nossos filhos, tudo isso se perdeu, Ana, se perdeu quando você
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– Joel olha
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se foi, não te vi mais, seus olhos me lembravam a cor do São Francisco, a palma da sua mão branca, sua pele mulata que dava até medo de abraçar. Hoje tenho uma mãe cega, uma TV que não funciona, um radinho sem pilhas, aluguéis atrasados e mais nada depois que você se foi, fugi naquele dia de chuva que todos esperavam menos eu, em dias assim o rio voltava a parecer com o que já fora
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– Joel
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não quis ouvir
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– Jo
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e hoje te escrevo porque preciso te ouvir. Pergunto-me se algum dia terei um destinatário, se terei seu endereço, Ana, e finalmente não rasgarei minhas cartas e minhas memórias dois dias depois.
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III.
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Ana, resolvi parar de rasgar minhas cartas. De agora em diante vou guardá-las no armário para o caso de um dia você voltar e poder, quem sabe, dar de cara com elas ao vir me visitar, dizendo que estava de volta a Pão de Açúcar, que não aguentava mais estar longe de mim, que aquilo tudo com o Carlos não havia sido nada, que suas sobrinhas seriam nossas damas de honra e espalhariam arroz por toda igreja, que você quis ligar e enviar cartas mas não conseguia de jeito algum lembrar meu número e meu endereço, que estava com saudades do São Francisco e não podia acreditar na lama em que o nosso rio havia se transformado.
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IV.
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Estou mergulhado nesse rio de memórias, Ana, nas quais me perco. E já não sei se nos beijamos ou se era apenas a minha vontade, já não lembro por que brigamos, por que soquei o Carlos, por que você partiu. Tudo que agora conto e recordo terá de fato acontecido?
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Miguel Del Castillo, aluno de Arquitetura da PUC-Rio, foi o grande vencedor da categoria prosa do Prêmio Paulo Britto com esta Carta para Ana. Miguel, que é editor da Revista NOZ, já publicou vários poemas no Blog do Bolha e está estreando nas páginas do jornal impresso na atual edição #27.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

O caçador de sombras — 2º lugar de prosa

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Esgotaram-se os pássaros e seus cantos fiaram-se num silêncio entrecortado por uma brisa vacilante que lamentava de vez em vez as vidas perdidas no campo de batalha. Misturado ao som ritualístico da Morte, abria-se para a platéia de um só espectador uma cortina de cheiro de sangue, que tingia o ar com notícias que chegariam desesperadoras aos ouvidos ansiosos e distantes dali.

Ele andava pelo palco formado por cadáveres e, por mais que seus passos estivessem tão pesados quanto sua cabeça, seguia o roteiro, segurando a respiração e com a espada ainda empunhada na mão. No entanto, a espada tinha sua ponta virada para a terra, desenhando nela, através do sangue de outrem que escorria por sua lâmina, seu próprio caminho. Acompanhavam-no ainda as risadas dos amigos e as carícias da mulher sonhada, que em mais uma noite alentou suas esperanças de um futuro calmo. Assombrações da noite passada, tão vivas e presentes em sua mente que faziam-no não esquecer do que era feita a dor.

Seus passos eram ritmados por uma música de câmara, tocada pelo órgão interno em seu peito, segundo as batidas de seu desespero seco e entalado. Assim foi seguindo, até virar trapo e tombar no chão. A boca ficou cheia de terra e sangue que entravam também pelos seus poros. Isso não mais o incomodava. Por favor, que abaixassem os holofotes agora. Queria morrer na escuridão do último ato e se tornar eterno nas bocas dos jovens atores que viessem depois dele.

A Morte, contudo, não tem dono. Ela vem quando quer e não quando é convocada. Então, vendo-se ainda vivo, abriu os olhos. Ali era o Inferno e em breve o demônio cantaria seu nome. E pode ouvi-lo, numa graça de Ave Maria, que o arrepiou por debaixo de sua armadura, outrora tão brilhante quanto o próprio escudo de Aquiles.

Levantou-se, apoiando-se em sua espada, e seguiu o chamado que mais parecia um choro baixo, quase miado, no meio dos sons da Morte, que lhe estalava a língua como se para seduzi-lo. Revirou alguns corpos, ou eram sacos de farinha trajados de pessoas?, até deparar-se com um homem que vestia o uniforme rasgado do inimigo.

Os olhos do ator coadjuvante, numa emocionante interpretação, estavam voltados para o céu como se por entre as roldanas, cabos de ferro, passadiços e contra-regras, pudesse ver um véu de estrelas cobrindo-lhe o túmulo.

O ator principal, aqui se faz necessária a explicação por questão de créditos e egos, notou que no peito rasgado do homem havia uma ferida feita por sua espada. Há incontáveis dias agora, num tempo perdido no espaço, seu mestre ensinou-lhe a arte de matar e assinar a presa ao mesmo tempo. E, pela primeira vez, ele se arrependeu de ver ali, inegavelmente, a sua marca no último homem vivo.

Caiu de joelhos ante a dor. Sabia matematicamente que o homem morreria, pois era o melhor soldado de seu batalhão e quando empunhava uma espada era para matar. Apesar da situação, teve que congratular o homem por ser bravo e continuar acorrentado a sua vida até o fim. Remorso misturou-se à admiração e inveja, criando uma mélange que o fez segurar forte o cabo de sua espada.

Antes que qualquer ato pudesse ser criado, alongando mais essa cena, seu punho foi agarrado pelo homem com uma força de quem ainda tinha vida e que não se entregaria antes da hora. Reverenciou-se com despeito, afinal era ele o personagem principal.

O homem encarava-o como se o céu estivesse traçado nas linhas de seu rosto. Veio à mente a possibilidade de ter sido reconhecido como o invocador da Morte calada. E essa já vinha cheirando o cangote do homem, bebericando a sua vida em pequenos e saborosos goles, que também iam deixando-o zonzo. Um balbucio vazio, quase bêbado, tentava se equilibrar nos lábios do homem, mas caíram por terra antes de chegarem aos seus ouvidos.

Não demorou muito. Nem para ele notar que em sua mão fora colocado o retrato de uma mulher. Nem para o homem ver Deus em seus olhos e não inspirar mais.

Sob os aplausos surdos de uma platéia fantasma morria o último homem vivo.

Um grito despertou o tempo e sacudiu os pássaros que voltaram a tecer seu luto.
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Enquanto o sol ia se pondo, ele via as marcas de sangue seco em suas mãos transformando-se em negras. Negras como o abismo diante de si, como o cheiro do seu futuro. Fechou os olhos e apertou firme os punhos doloridos e marcados. Quebraria a própria vida com aquele aperto se pudesse, mas a Morte era uma paqueradora que seguia suas próprias regras e, às vezes, parecia partidária apenas do amor platônico. Soltou a própria força sobre si, querendo sentir vida antes de morrer. Suas unhas sujas entravam na sua carne, fazendo-o sangrar, pela primeira vez, seu próprio sangue. Apertou mais a mão e voltou-a para o solo. Seu sangue era uma oferenda à Morte. Doce ou amargo, fosse qual fosse o sabor, que a Morte decidisse dele experimentar agora e o resto que sumisse no turbilhão das horas, engolfado pelos bicos dos críticos abutres que nos céus já desfilavam, ao som de asas tamborins, a sua plumagem de falso luto.
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As estrelas observavam aquela criatura sentada à beira do palco, provavelmente pensando se ele duraria ou não o suficiente para encontrá-la. E eles estavam mais próximos do que qualquer um poderia imaginar. Ela, a mulher por ele sonhada incontáveis vezes, estava ali, com ele, em suas mãos, sorrindo tristemente no retrato dado à outro homem.
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Ele olhou para as estrelas como se tivesse entendido seu sussurro e contemplou o retrato manchado de sangue. A imagem dela queimou seus olhos por um momento. Então ela existia de fato. Não eram sonhos numa imensa cama fria. Ele acariciou o rosto gelado dela. Era sua última visão da vida antes da Morte. Agora seres mortos faziam seu caminho por onde passava, prontos para ajudá-lo a não mais ser. Não poderia nunca mais voltar à sua velha vida, ao seu velho eu de atorzinho desconhecido. Ele também estava morto, apenas seu corpo é que não sabia disso, pois era regularmente possuído por outros que não ele. Não se diria um sobrevivente. Era apenas uma besta vivente caçando sombras, perseguindo a Morte, até ela dele se encantar e resolver entregar-se a ele como a um amante, deixando-se entrelaçarem num explosão definitiva.
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Esperar-se-ia ainda séculos de atos e desatados destinos para que este dia acordasse na memória de um autor. Um grito de esperanças e sonhos quebrantados, começado muitos séculos antes, quando os seres nem nome tinham e o título ainda não era “O Caçador de Sombras”. Por enquanto, não havia mais texto nas páginas do roteiro. Tudo em branco. As luzes deste ato foram apagadas. O palco verteu-se em escuridão. As cortinas foram fechadas e depois retiradas para lavagem. Mesmo assim ainda ouvia uma espécie de ovação ao longe. E o guerreiro, de volta à sua imensa cama fria, com lençóis de áspero cetim cor de sangue e terra, caçava mais uma sombra dentro de si. Esgotaram-se os sonhos com a mulher amada. Estava apenas à espera da Morte, pronto para enlaçar-lhe por entre as pernas e domá-la definitivamente, fazendo-a sua em meio as sombras com as quais ela tanto gostava de lhe provocar. O que pareceu ter acontecido por ínfimos segundos. A Morte chegou perto de dar-se por vencida, mas era apenas um truque para requentar a relação.
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Chamou-lhe o nome para que abrisse os olhos e emergisse de si desembocando num clarão branco que quase o cegou. Foi penetrando nessa branquidão dolorosa, caçando sombras que sobre ele se inclinavam, e pacientemente deixando que as assombrações se transformassem, ganhando os contornos de uma enfermeira a lhe sorrir numa triste alegria, coisa que só boas atrizes eram capazes de fazer. Era um sorriso extremamente fotogênico, notou.
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Chiara di Axox
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Chiara di Axox já publicou diversos textos no jornal Plástico Bolha. O caçador de sombras ficou em segundo lugar na categoria prosa do Prêmio Paulo Britto.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Brincadeira — 3º lugar de Prosa

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Quando se observa a vida de cada indivíduo,
de modo geral, destacando apenas seus traços
mais significativos, percebe-se que ela não
passa de uma tragédia; porém, se examinada
em seus detalhes, tem o caráter da comédia.
Arthur Schopenhauer
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Você sai do trabalho com o corpo dolorido, mas não sente a mínima vontade de ir para casa. Como todos os dias, você resolve ficar um tempo a mais na rua, ignorando os apelos de seus músculos e ossos que clamam por descanso. Você sabe que já está velho e não deveria travar esta batalha contra o seu organismo, mas o faz mesmo assim. Faz de tudo para não ter que retornar ao inferno que um dia foi chamado de lar. Mas, ultimamente, o que não tem sido um inferno para você?

Você senta num bar, mas não tem sede nem fome. Você pensa na sua casa, no seu emprego, na sua família, mas só distingue lugares e rostos estranhos. Lugares e rostos que ainda há pouco tempo você enxergava com afeto. Agora tornaram-se todos cinzentos, descoloridos. Como a sua vida. O jogo está para terminar. A derrota é inevitável. Você percebe, a cada segundo, o efeito do tempo que te destroça sem qualquer piedade. Logo não restará qualquer vestígio físico nem lembrança sua. Você deseja apenas que aconteça rápido e não cause uma dor ainda maior do que essa que te assola agora. Você aprendeu a desejar pouco. Você só queria viver a sua velhice em paz. Paz? Que grande piada! Você sabe que a paz não existe. A vida é um eterno estado de guerra. Os inimigos estão em toda parte, sempre à espreita. Você é capaz de percebê-los pela respiração e tem certeza de que eles também identificam a sua. Eles se multiplicam como protozoários, a cada instante surgem milhares. Mas... você nunca quis fazer inimigos. Não importa. Se você não os fizer, eles se fazem mesmo assim.

Você se recorda da época em que foi jovem. Existiam os ideais, as certezas, a esperança e o amor. Ilusões. Antes elas do que o agora, esse simulacro de existência, embrutecida e acinzentada, que você há pouco chamava de vida. Você não é mais o mesmo. Mas não foi só você que se transformou. As outras pessoas também. Não são mais as mesmas. Elas te olham diferente, agem de maneira estranha. Por quê? O que pode ter acontecido a elas? E a você? E a mulher que um dia você amou e que, de repente, cedeu lugar a uma estranha, disforme e insuportável? E os seus filhos, que, a cada dia, vão se tornando mais estranhos, agressivos e, sobretudo, mais feios?

Nesse exato momento, sentado num bar no meio da rua, você já não consegue reconhecer ninguém, nem mesmo a si próprio. Quando você pára em frente ao espelho não enxerga mais do que um espectro. Perfeita cópia da realidade. Há tempos você era. O quê? Será que você, de fato, já foi algo em algum momento?

Você procura motivos e só encontra malogros. Mas foi tão repentino. Era tudo de um jeito e, de repente, tornou-se diferente. Onde está a beleza? Sumiu dos seus olhos, como num passe de mágica. Negra. O horizonte já não existe. Tiraram tudo de você. Até mesmo a dignidade. A sua existência, o simples fato de respirar, converteu-se em bruto, monolítico, desespero. Mas nem sempre foi assim. Ou será que foi e você não percebeu?
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O que te incomoda? Será a falta de sentido? Mas já houve um dia algum sentido? Será que só você não o compreendeu? Ou o sentido, como tudo o mais, não passa de criação? Será você apenas mais uma criação? É quase certo. Mas quem será o criador? Alguém que cria para se divertir? Alguém que se diverte à custa dos teus infortúnios? Olha para cima e busca esse manipulador de marionetes, esse histrião perverso. Corta esse fio que te prende. Mas onde está o fio? Você já o busca há muito tempo. Em vão.

Você sente falta da verdade. Onde foi parar a maldita verdade? É provável que não esteja ao seu alcance, pois você não seria capaz de suportá-la. Aquela outra era mentira. Mas se tudo é mentira, deve haver algum grande mentiroso por trás. Você ainda não o conhece de verdade, o que não impede que ele conheça você.

Mesmo sabendo que seus apelos jamais voltarão a ser atendidos, você ainda insiste em clamar por justiça. Que justiça? O que significa isso? Apenas um conceito vago, assim como você e sua vida. Absurdo. Você vive para ele. É o motor que te anima e te condena. Nada parece real, apenas a dor. A dor que, nesse exato momento, trespassa todos os seus músculos e ossos. Você clama ao vácuo para que ela cesse. Não deseja mais do que isso. Quando a maldita dor acaba? Se acabar, decerto, acaba junto com a brincadeira. Mas que brincadeira? Para você a brincadeira já terminou. Há muito tempo. Porém, alguém, em algum lugar, ainda continua brincando. Alguém que faz você de palhaço. Alguém que faz de tudo para se divertir. Será que é apenas você o alvo dessa brincadeira?

Você continua sentado no mesmo lugar, imóvel, numa cadeira encardida de um botequim infecto. Você enxerga demais. Mesmo com os olhos fechados. O mesmo de sempre. Chega! Você não suporta mais. Você deseja a escuridão.

Você observa, indignado, a vida que brota de todos os cantos e não cessa de proliferar. Para quê tanta vida? E que vida é essa? Apenas transição e sofrimento. E a dor segue aumentando. Um garoto. Você vê um garoto. Ou garota? Um sorriso. Para você. Um anjo? Não há sorriso. Apenas escárnio. Você virou motivo de galhofa. Inimigos. São todos seus inimigos. Você nunca quis fazê-los. Eles que declararam guerra a você. Manipulados. Como você. Tudo por diversão. Você precisa reagir.

Você levanta da cadeira e se dirige à criança. A dor é insurpotável. Um estalo. Em instantes você se vê rodeado por uma pequena poça de líquido escarlate que escorre em direção à beira da calçada. O riso parou. Acabou a brincadeira? Ou é só por enquanto?

Silêncio. Mas não por muito tempo. Logo, você começa a distinguir alguns ruídos, que não são exatamente os habituais. Um risinho, a princípio discreto, vai, aos poucos, aumentando de volume, até se tornar ensurdecedor. A ele, junta-se outro, ainda mais potente e terrível. Agora já são muitos. Uma sinfonia de risos. Tão desafinada quanto diabólica. Sua cabeça está prestes a explodir, mas ninguém parece interessado em atenuar o seu sofrimento, pelo contrário. Continuam rindo de você. Por que fazem isso? Você só queria paz. Mas quem é você para querer alguma coisa?

Você está cercado por uma multidão. Estranhos. Todos estranhos. Seus inimigos. Uma matilha de bestas sanguinárias aguardando apenas o momento ideal para o bote. Você não tem outra saída senão se antecipar. Mas há a dor que te impede. Essa maldita dor. Não importa. Você deve superar a dor! Você deve superar tudo! Ataque! É necessário se defender!

Consciente do perigo, você ataca com ferocidade, como um animal acuado. Apesar de tudo, você ainda é um guerreiro bravo e não vai se entregar tão facilmente. Mas eles são muitos. Parecem milhares. E possuem uma ferocidade ainda maior do que a sua. Legião. Emissários do teu único e real inimigo. Uma massa disforme de braços, pernas, troncos e cabeças se amontoa sobre você sem lhe conceder qualquer possibilidade de reação. E o coro de gargalhadas continua, cada vez mais ensurdecedor. É impossível resistir. Você sabe que nunca será páreo para eles. A dor aumenta ainda mais. Será possível? Dor! Dor! Dor! Lanças afiadas perfurando cada milímetro do seu velho e cansado corpo.

Aos poucos, tudo vai ficando escuro. Você não enxerga, não sente mais nada. A dor cessou. O fio de consciência que ainda se manifesta não tardará a te abandonar. Dentro de poucos instantes, graças, tudo estará acabado.

Todas as luzes já se apagaram, todos os risos já silenciaram e você está, enfim, contente, aguardando a redentora comunhão com o nada. Você não faz idéia da grande surpresa que te foi reservada e reage com assombro no momento em que o maior dos risos se revela. Um riso que você nunca tinha ouvido antes. Mais terrível do que a soma de todos os risos anteriores. Um riso que permanece. Como num sonho mau. Certamente é um aviso. Um aviso dele. Daquele que te criou. Que te manipula e te faz sofrer. Apenas para se divertir. Ainda não é o fim da linha para você. O fio não foi cortado. E nunca será. A brincadeira está apenas começando. A dor é...

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Carlos Eduardo Varella Pinheiro Motta
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Carlos Eduardo Varella Pinheiro Motta conseguiu o 3º lugar na categoria prosa e é o primeiro dos vencedores do Prêmio Paulo Britto publicado no Blog do Bolha.
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VENCEDORES DO 1º PRÊMIO PAULO BRITTO!

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Foi realizado recentemente na PUC-Rio um concurso de prosa e poesia aberto a todos os alunos da universidade. Organizada pelo PET-Letras, a premiação recebeu este nome em homenagem ao grande professor, poeta e tradutor Paulo Henriques Britto — um dos padrinhos do jornal Plástico Bolha. Os vencedores de cada categoria vocês conhecerão ao longo dessa semana, aqui, no Blog do Bolha!
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domingo, 22 de novembro de 2009

Quero casar — um texto por Joyce Cortez

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Que estudar nada. Trabalho nem pensar. Eu quero casar. CA-SAR. Quero passar os dias organizando a movimentação da cozinha, definindo o cardápio da semana, hoje frango xadrez, amanhã carne assada. Meus dilemas serão que cor de cortina combina mais com o sofá da sala, jogar adubo no vaso, escolher entre bromélias, orquídeas e camélias. Serão momentos de raro prazer e contemplação, sendo deusa do meu próprio lar, orquestrando uma sinfonia sem complexidades. A vida é gozo.

Arrumar gavetas, passar o dedo na mobília para sentir ou não a poeira. Passear em devaneios pensando em que roupa de baixo escolher, eu amo meu marido e quero satisfazê-lo. Quero filhos, aos punhados, colocar a roupa suja para lavar, passar o pente no cabelo antes de levá-los para escola, mandar escovar os dentes, contar história antes de dormir. Ver crescendo fora de mim um pedaço de mim. Ensinar o pai nosso, dar um beijo na testa antes de dormir. Quero o silêncio da noite percorrendo a casa, a casa que cuido, que coordeno como orquestra, eu como maestro do lar, sentindo a brisa que percorre o sono daquele que dormem sobre o cobertor lavado com tanto zelo. Suave. Contemplar a organização das coisas no seu devido lugar, alguns objetos decifram segredos como aquele presente que ganhei da tia Dora ou, aquela miniatura, herança da minha avó. Os espaços da casa guardando outras casas, outras pessoas, outros espaços e história, e é meu dever organizar os tempos, saber das evidências sutis, escondidas. Esse é o segredo da verdadeira dona da casa, do lar, dona de si própria.

Eu quero casar, levar café da manhã na cama, escolher gravata, fazer massagem, esperar acordada. Levar sustos e ter momentos de agonia, me irritar e enlouquecer por causa da roupa suja espalhada no quarto. Casar e ser completa na felicidade e nos derivados da rotina. Amargura, não se deixe intimidar, eu suspeito sim de todas as mazelas que podem surgir de uma alma casada, mas já disse, quero casar e ser completa também inclusive na infelicidade.

Quero casar e com benção de padre.
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Joyce Cortez
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Joyce Cortez é de Mar de Espanha, Minas Gerais. Acompanha sempre o Blog do Bolha e tem uma amiga, que mora em Juíz de Fora, que manda, quando pode, o jornal impresso. Não é escritora, mas gostaria muito de se arriscar publicando este pequeno texto.
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Fui para o Tahiti em busca de Gauguin: no RJ

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sábado, 21 de novembro de 2009

Poesia (Latino e Ibero) Americana — no RS

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A Poesia do Mercosul: sessão de leitura poética
Convidados: César Pereira, Floreny Ribeiro e Marines Bonacina
Espaço Cultural Letras & Cia., 3ª feira, 24 de novembro de 2009, 14h
Letras & Cia. Livraria-Café – Av. Osvaldo Aranha, 444
Porto Alegre – Rio Grande do Sul
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Vozes Poéticas Ibero-Americanas:
espetáculo literário
Acervo Mario Quintana, 5ª feira, 17 de dezembro de 2009, 19h
Casa de Cultura Mario Quintana – Rua dos Andradas, 736
Porto Alegre – Rio Grande do Sul
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Os dois eventos têm Entrada Franca
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Apoios Culturais: Casa de Cultura Mario Quintana, Instituto Cultural Português, Sociedade Partenon Literário, Casa do Poeta Latino-Americano e Revista Literária Paralelo 30
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Lançamento do livro "lã de vidro", no Rio

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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Para lhe comer, texto de Gabriela Bouzada

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Mirna estava sentada com seus olhos contornados de grossas linhas pretas e seu perfume sufocante. Mirna estava sentada com seu vestido longo que balançava com o vento que espalhava seu perfume. Mirna estava sentada com seus cabelos em trança que não se mexiam. Mirna estava sentada com seus lábios secos e murchos imóveis. Mirna piscava olhos suficientes para olhar e compreender o mundo, mas não olhava. Mirna apenas mirava um ponto qualquer e piscava devagar. E o vento balançava seu vestido azul e espalhava seu perfume sufocante. Mirna piscava grande e não percebeu a criatura que pequena e pasma que seus cachinhos até tremiam, não sabia como absorver Mirna.

Pequena e pasma nas suas pernas frágeis, a criaturinha não sabia como olhos assim tão grandes de contornos assim tão fortes podiam ser. E seu pobre nariz, confundido, acostumado a talcos e perfumes sóbrios, não podia compreender aquele odor nauseante que cada vez mais lhe penetrava as narinas e cada vez mais desejava que penetrasse. E os lábios murchos, secos, mortos; por que tão murchos, secos, mortos? O vestido tão azul, recorte do céu que não podia mais ser olhado: hipnose.

Com pupilas em susto de tanto sentir, ela intuiu que tanto assim era proibido. Pequena, frágil, pasma, estática, nascia a pergunta sem palavras. Do outro lado, a resposta de boca morta piscava a verdade ausente.
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Gabriela Bouzada
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A última vez ninguém esquece

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Ah! corpo de lâminas
Que cortou minhas purezas
Que no balançar da cama de espada
Torturou-me, encheu me de sangue
Gotas de um céu feito de ilusões
Caiam do meu dorso
De tanto prazer
Tua loucura me envaidecia
Molhava-me de gemidos
Eram gritos que ecoavam
Da tua espúria boca
que de perversão me transbordou
Nix de tom escureceu o Hades
O inferno que selou nosso ato
Beijos afagadores
Abraços asfixiantes
A gota de lágrima
Em forma de vidro
Se quebrou, refletiu seu pensar
Vi que bastava,
Seria nossa última
Aproveitei ao máximo
Oh! corpo de lâminas
Sangrou minh'alma
Cicatrizes ficarão
Soando pelos trovadores
Dando atmosfera
À consumada orgia
Muito melhor que a primeira
A pérfida primeira vez
O ato me consumiu
Sangrei, satisfiz-me
Essa última
Jamais esquecerei.
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Ronald Fontinelle
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

mistério por debaixo do cabelo

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da última vez
que cortei o cabelo
a cabelereira lavou-o
com tanta força
e por tanto tempo
que eu penso
que ela queria ler
meu pensamento
pra que isso, moça
pra que essa força
se nem eu sei
o que se passa
aqui dentro
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Álvaro Andrade
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Encontro com Fernando Pessoa, no Leblon

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

This is it, por Augusto de Guimaraens

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Como me disse ontem Chacal: “O Michael não pode morrer, pois ele é um desenho animado. Imagina se o Pernalonga morresse?” Pois é, agora os desenhos animados explodem a tela e adentram nossa própria pele através dos estragos de lua desse menino vítima do POP, de que lua falava Michael? Lua intensa como um véu vazante, anjo exterminador vazando milagres. Como um continente perdido na beira da casca de um ovo, M.J. se auto-implode como um encenador de si próprio, this is it. Michael, você se perdeu no deserto de fotos envelhecidas antes do tempo, só te resta agora esta saudade do futuro, passos de escuro e pistas lunares, this is it. Nada te salva te salvará dos estilhaços deste instantâneo instante, desta saudade de tudo que ainda se resta para viver. Heróis ainda apodrecem no vento de carne. Pessoas abrem seus guarda-chuvas, mas a chuva não as guarda, o veneno que assalta é um mel vazando massacre , this is it. Saudemos agora esse nosso Macunaíma ao avesso, this is it. Michael Jackson foi o último dândi da história, andrógino anjo exterminado pela multidão anônima, sangue pisado nos estilhaços da calçada da lama. Nunca mais luvas de lantejoulas prateadas e casacos de remotas purpurinas douradas, nunca mais girassóis na lapela, nunca mais. Ambulâncias ainda correm pelo pôr-do-sol tragado pelos anjos da cidade. Cidades são traçadas, mas os arquitetos regurgitam gotas de nuvem. Se Oscar Wilde declarava que uma reforma na maneira de se vestir era muito mais importante do que a reforma da religião, o exibicionismo delicado de Michael tinha um alvo certo: a dança. Michael esclarece: “Eu me torno as estrelas e a lua. Eu me torno o amante e o amado. Eu me torno o vencedor e o vencido. Eu me torno o senhor e o escravo. Eu me torno o cantor e a canção. Eu me torno o conhecedor e o conhecido. Eu continuo dançando e dançando e dançando, até que haja apenas.....a dança”. Os pés andam sozinhos. Agora já é tarde demais para se morrer.
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Augusto de Guimaraens Cavalcanti
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sábado, 14 de novembro de 2009

Lançamento da revista Bliss no Rio!

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Lançamento da revista Bliss, com nossos amigos de Bolha: Alice Sant'Anna, Ismar Tirelli Neto, Ricardo Domeneck, Lucas Matos, entre outros! Clique no convite eletrônico para ampliar.
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O blecaute

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O blecaute transborda seus sonhos de cidade,
Transpira pelas dobras,
Transforma as dobras,
O blecaute não cabe em si.
O blecaute transporta seus desassombros,
Transuda a porta,
Transvia seu abismo,
Transuda seu abrigo,
O blecaute não cabe em si.
O dilúvio do blecaute é calmo, cal de móbiles sobre o tempo.
O tempo do blecaute é sempre agora, o blecaute é a nostalgia dos anjos.
O blecaute é tudo que explode, ode de trapo sobre o pano das estrelas.
No blecaute pode se enxergar bem melhor.
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Augusto de Guimaraens Cavalcanti
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Piada no escuro

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Não há luz no fim do túnel
Não há luz no fim do
Não há luz no fim
Não há luz
Não há
Não

Mas o Brasil continua rindo apesar de tudo
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Felipe Ribeiro
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Blackout(s)

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Dez de novembro de dois mil e nove:
lá pras dez horas, lá pr’ além das dez
houve um Apagão desses cavernosos
que se passa nos filmes de Coppola.

Era sabido que Lévi- Strauss tinha
morrido; era sabido da baixíssima
estima de Obama; e até mesmo que uma
loura virgem pisava nas areias

de Ipanema fingindo ser moçoila
de cinema. O que mal se sabia era a
causa do drama — por que parou o trem
na Baixada, por que em Sampa madrugou

a madrugada, por que sentiu horror
o capixaba, por que o tal gaúcho
virou cabra? Nos condomínios bem
correram
............nas
..................longas,
............................largas
.....................................escadas,

pelas ruas assaltaram mulherada,
teve pois velhinha hospitalizada,
teve gente morta, teve matada.
Ficou tudo preto oco obnublado

e quem sem vela, desvelado, rezou
pro sol brotar mais cedo, entre a Calada.
À treva transcorreu de leque e abano
e de manhã disseram que esses danos

seriam facilmente reparados.
Falou-se que a culpa fora do estado
de uns burros cabos, circuitos danados
responsáveis por acender os olhos

das cidades, de milhões de janelas.
E ainda hoje, não importa o tempo corrido,
o brasileiro, homem desprevenido,
quando chega a noite, volta a ficar

aflito. Remexe na cama, sempre a
perguntar intrigado, ao céu de estrelas
iluminado: “será que poderei
dormir gostoso, de TV ligada,
com ventilador, co’ ar refrigerado,
ou vai rolar daquelas do Cardoso,
ou nem Deus saberá dizer de fato?”
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Flávio Cavaca Lopes
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Terça-feira

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Caiu a noite. Eu,com medo do escuro.
Caminhei nas pontas dos pés até a varanda
Toquei com as mãos o parapeito.
Meu peito tremia, eu tenho medo.
Abri os olhos num só golpe
para ver melhor.
Mas o mundo havia se apagado.
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Raissa Degoes
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blackout

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o breu que soprou da cidade
até São Paulo não só silenciou
o moinho da casa de boneca,
mas desligou nele o ventilador
e comeu o stand-by, o farol
das embarcações no carpete.
de um estalo os rostos perderam
seu miolo e a única lembrança
que tenho é de minha mãe
na busca sequiosa da luz
de uma vela, mamãe medieval
empunhando uma tocha,
mas com cacoete de maria bonita
desejosa de lampião.
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Luiz Coelho
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Poesia no escuro? Por que não?

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Estava tudo preparado
Para a minha poesia
O meu mote estava claro
Como claro é o próprio dia.
Mas eis que tudo escurece
Foi-se embora a inspiração
O Brasil foi quase todo
Envolvido em Apagão.
Foi então que parou tudo
Transportes, escolas, sinais
Com a sobrecarga, Incêndios
Falta d’água até em hospitais.
Havia certo controle
Em todo abastecimento
AMPLA, CEDAE e LIGHT
Surpreenderam-se com o evento.
Sustos, medos de arrastões
Dos transeuntes na estrada
A vantagem é que os ladrões
Também não sabiam de nada.
Pra clarear vale tudo
Velas, faróis, celulares
Ajudando os geradores
Nesta falta de energia
E em meio à escuridão
O apagão me deu um “Branco”
Mas fiz esta poesia!
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Solange Valeriano Pinto
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O apagão em sete faces

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I

As velas ficam guardadas
No passado
Com os radinhos de pilha.

II

Itaipu
Não chega ao sul.

III

Pense nas grávidas
Como dar a luz
no escuro?

IV

Pior do que sem luz
É ficar sem ar
Condicionado.

V

Se o universo fosse eterno
A noite seria clara
Como o dia.

VI

Num mundo sem cor
Como acordar
Sem despertador?

VII

Com essa história de tufão
Apagaram o apagão.
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Paulo Gravina
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Estrela

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você é a luz
da minha terça-feira
sem luz
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Lucas Viriato
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Antes que o escuro se acabe

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não sabe nada quem
acha, que sob o silêncio
do apagão,
o prazer está em ver pisca-piscas
de bundinhas de vaga-lumes,
a lua cheia ou
brilho das estrelas

o prazer de verdade
está naquela mão-boba
de surpresa
no escurinho
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Paulo Henrique Motta
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Menina vaga-lume

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Já era noite
Por entre as tardes
A menina distraída
Esqueceu-se da luz
O breu afortunado
Se estendeu para todo lado
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Vanessa Campos Rocha
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Itaipu

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A pedra que canta
Calou-se
Em um silêncio escuro.

Regressamos em conjunto
À antepassadas angústias.
Penumbras...

No breu dos fatos,
Todos os gatos
São pardos.
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Caio Monteiro
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Reunião de condomínio

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atônitos
atordoados
entediados
os vizinhos
em revoada
envarandaram-se
velas em punho
como se estivessem
enxergando-se
pela primeira vez
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Mário Pedrosa Filho
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Este é um dos primeiro poemas que recebemos para o "desafio poético do apagão". Ao longo do dia pulicaremos outros. Ainda é tempo de mandar o seu!
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Poética do Apagão

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Enfrentou ou está enfrentando o blackout? Vai passar a noite no escuro, sem ar condicionado nem ventilador, aos mosquitos dará? Já imaginaram a vida sem energia elétrica? O Blog do Bolha convida seus leitores a escrever um poema contando como foi sua experiência no apagão desta noite. Depois, é só enviar o seu texto para desafio@jornalplasticobolha.com.br. Um desafio poético à luz de velas!
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terça-feira, 10 de novembro de 2009

fast breakfast (super cereal bowl!)

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a lua caiu no tapete
enquanto meu coração
ficou no prato
com outros pedaços
que lembravam dentes
é impressionante
o tanto que um cereal
pode saber
sobre a vida da gente
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Álvaro Andrade
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Álvaro Andrade é nosso leitor de Salvador, Bahia.
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Adriano Espínola lança Malindrânia no Rio!

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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

VEM AÍ O JORNAL PLÁSTICO BOLHA #27 COM:

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Chacal / Luciano Prado da Silva / Angelo Abu
Heinz Languer / Adélia Prado / Stella Caymmi / Leonardo Marona
João Gabriel D’Alincourt da Fonseca / Leandro Jardim / Lívia Tucci
Zulmira da Silva Pinto / Tânia Diniz / Denise Costa Almeida
Ana Carol Diniz / Alzira Umbelino / Lúcia Serra / Rita Brás
Fabio Bastos / Paulo Gravina / Santuza Cambraia Naves
Fred Coelho / Mauro Ferreira / Ismar Tirelli Neto / Carlos AA. de Sá
Felipe Aguiar Chimicatti / Taiyo Omura / Georges Lamazière
Daisy Miller / Nicole O’Hara / Bruno Papito Nascimento
Marcos Queiroz / Luciana Mutti / Franklin Pacífico / Felipe Ribeiro
Octávio Roggiero Neto / Luisa Noronha / Lucas Viriato
Antonio Mattoso / Paulo Vitor Grossi / Chiara di Axox
Adriana Ferreira Melo / Renan Mendonça Ferreira / Isabel Diegues
Wilmar Silva / Alice Sant’anna / Mariano Marovatto / Raïssa Degoes
Yeda Prates Bernis / Leonardo J. Melo / Isabel Wilker
Yara Shimada / Miguel Del Castillo / Jovino Machado
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em breve!
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Frisson

para Camila Szabo
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vamos encostar
nossos corpos agora
neste calor de novembro?

quem sabe o suor nos cause arrepio
e tua perna encoste na minha
e ao tocar tua pele
meus lábios encontrem o sabor
que sugerem teus poros
da saliência de teus pêlos
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Paulo Henrique Motta
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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aquarela Subjulgada, de Diogo Herculano

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Carro branco
Televisão branca
Revistas caucasianas
Onde está o verde?
Ruas claras
Em prédios caros
Shopping lotado
Com luzes acesas
Onde está o vermelho?
O sul se diz azul
E o norte forte como tem de ser
Sobrou leste e oeste
E que se desatine o resto
Meus olhos são claros
Meu nariz é fino
Sou burguês de estilo
Logo, também me chamam de “bonito”
Rostos brilhantes
Sorrisos amantes
Cabelos flamejantes
Quem roubou o azul-escuro?
Pessoas falantes!
Celulares tocantes!
Tecnologia avante (avante!)
— A custo de quê?
— Na vida de quem?
Onde se encontrará o escuro?
Dentro do absurdo, dentro do absurdo...
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Diogo Herculano
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sábado, 31 de outubro de 2009

amar é abanar o rabo — de Jovino Machado

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

sorriso russo — um poema de Lucas Viriato

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não olhe para mim
com essa cara de moscou
esses olhos orloff
seu sorriso russo
sem mais montes urais
partindo-me em dois
causando o cáucaso
não invoque vladivostok
nem me toque
ingrato, ingrato
leningrado
isso não vai ficar assim
ainda saio da miséria
te largo na sibéria
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Lucas Viriato
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A voz de Sofia, ilustrado por Angelo Abu

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É hoje, no Shopping da Gávea, o lançamento do livro A voz de Sofia, de Andréa Belo. As ilustrações são por conta de Angelo Abu, que assina as capas do Jornal Plástico Bolha. Vale a pena conferir aqui a diversidade do seu estilo para além das páginas de nosso jornal.
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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Masculino raríssimo, de Carla Cavalcoliver

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Eu teria interrompido aí minha pesquisa, por um tempo, depois do recente desengano com a espécie, se a providencia não tivesse posto ao meu alcance um masculino raríssimo, cópia única um homem magistral obra do sábio da atualidade, Daniel, mestre doador, o mesmo que fez a predição de uma vida feliz. Ora, Daniel estava persuadindo de que a vida dispusera a felicidade para o desfruto imediato do homem, não apenas de seu destino pessoal, mas também do destino da humanidade.
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Segundo ele, existem dois grandes padrões, um possibilita conhecer a felicidade, a participação no aqui agora, e o espectador em declínio a morte adiando o fenômeno presente, preocupando a cada instante com o feliz, duvidoso futuro.
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Presente e futuro.
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Aos vinte e poucos anos aproximadamente, esses dois padrões do tempo causam esquizofrenia. Mas na confusão mental se produz um novo animo: a consciência renovando a possibilidade. Dani, sábio deste século avança no tempo, mantendo-se jovem, todos os momentos produzem felicidade, não tem que pensar apenas ver!
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Mergulhando em sua obra, doada generosamente, pude constatar, com o coração pulsando, que ele identificou a essência da vida de qualquer era.
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Refinando sua certeza no modo que dirige a vida. Esse ato está apontado no comportamento de sua obra. Devo confessar-lhe, que um grande arrepio de confiança sacudiu minha alma e mente.
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Veio-me a idéia há um tempo, quando questionei e agora ao encontrar o sábio deste século, pela primeira vez Daniel Sinay.
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Age como se soubesse onde está indo, embora na realidade não tenha certeza do que virá; o que importa é que ele percorre o caminho que escolheu.
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Fez-me entender como age o sábio; não se pode reclamar ou arrepender-se: a vida é um desafio constante, e os desafios não são bons ou ruins – São apenas desafios.
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Generoso me indicou como é para um sábio, a arte do desafio (arte de viver), deve ser combinada com leveza, ausência de tensão e de ambição, sendo gentil com os outros, sobretudo gentil consigo mesmo.
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Guerreiro segue com vida própria, percorrendo se alegra a intenção que o faz continuar depende apenas da alegria, não do pensamento de ambição, ou do objetivo, do desejo, ou até do medo – mas aquilo que o faz seguir adiante mesmo quando todo o mundo diz que será vencido, ou que escolheu não está certo.
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Ninguém o consegue obrigar a fazer coisas que não deseja, e assume a responsabilidade de seus atos.
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Pensa que não tem nada a perder, o medo já não consegue tirar sua energia, e ele consegue aplicá-la para viver, com a certeza que todas as ferramentas para enfrentar os desafios estão em suas mãos, também chamadas experiências trazidas pela maturidade que o permite superar educadamente.
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Além da masculinidade que me assalta, o juízo, como conseguir realizar qualquer idéia sem me envolver com tal beleza, já que a espécie falha com exatidão dia a dia, eu não resistiria tal masculinidade incontestável.
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Todos sabem tão bem quanto eu da minha afinidade pelo masculino, jaz perfeito, na figura de garoto, cuja grande impressão baseasse no interior.
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Refleti longamente sobre está questão, e a resposta me veio hoje, tão singular quanto surpreendente.
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Um meio de conhecer o sexo masculino é confrontar. Colocando-se tão próximo, tão chegado quanto o parceiro de futevôlei.
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— Quando atingi essa etapa da minha pesquisa, não pude seguir senão com apreço a classe, a tal ponto o que acabo de descobri entre tantos outros, graças à masculinidade raríssima saltando e minha admiração atenta: o sábio contemporâneo, e através dele argumentos para amar a vida e a natureza masculina.
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Carla Cavalcoliver
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domingo, 25 de outubro de 2009

Lançamento da nova edição de "a parada"

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Olhares

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É notável a presença do rato em cima dos livros. Ele é grande, robusto, cinza e fedorento. O gato, oculto em sombras, observa sua presa com seus olhos vis e brilhantes. Um homem chega, puxa a cadeira e se senta diante do animal cinzento e dos livros. O roedor, assustado, foge; o predador, decepcionado, vai embora; o recém-chegado, entediado, apanha um livro e lê. Logo mais, dorme. O dia amanhece e o cão observa o galo cantar
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Bruno Papito Nascimento
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

MODULAÇÕES DO CORPO INDISTINTO

Entrevista com a performer e coreógrafa Marcela Levi
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(foto de Claudia Garcia)
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E não somente não podemos nos pensar a nós
mesmos em termos de adjetivos, mas também os adjetivos
que nos aplicam, não podemos jamais autenticá-los:
eles nos deixam mudos; são para nós ficções críticas.
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ROLAND BARTHES
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A afirmação de Barthes, deslocada para o campo da performance, pode nos convidar a imaginar um corpo furtivo, espécie de massa em movimento que se redesenha continuamente, deslizando de sentido em sentido sem se deixar deter pela tentação classificatória. Avançando ainda com a sutileza do pensamento de Barthes, é preciso lembrar que não se trata de recusar o “mau” adjetivo para aderir às promessas de um corpo belamente engajado, que se apóia nos “bons” adjetivos e nas nobres intenções para tornar-se herege, marginal ou transgressor. A operação desviante que o corpo furtivo põe em marcha deverá ser mais árdua e mais discreta, trata-se de produzir um corpo que, ao se interrogar em cena, consegue armar-se em paradoxos, ativar suas ambiguidades sem desfazê-las por completo diante dos olhos do espectador.
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É de uma operação semelhante que se constitui o trabalho da performer e coreógrafa carioca Marcela Levi (Rio de Janeiro, 1973). Uma das linhas de força de suas performances reside precisamente no modo como consegue dar a ver os interstícios do corpo, suas fissuras e fugas de sentido, um corpo que é atravessado pela presença de objetos que o alteram, modulam, redefinem. Desde que deu início a seus projetos individuais com o trabalho Imagem (2002) Levi vem se destacando no contexto da dança e das artes por lançar mão de uma linguagem performática que tumultua a hierarquia entre corpo e objeto, incidindo sensivelmente sobre as dicotomias (dentro-fora, corpo-mente, ativo-passivo, afirmação-negação) nas quais nos apoiamos habitualmente para pensar e lidar com o corpo. O corpo, para Levi, não existe a priori, é algo a ser produzido em cena, é um lugar de passagem, de transmutação, é embrionário mas, ao mesmo tempo, tenso, crispado, rigorosamente elaborado. Permeável – mas não sem resistência - aos objetos que são utilizados em cena, o corpo é retirado de uma situação de fechamento, de totalidade e de identidade fixa. Entre um e outro circulam constelações de cansaço, demência, tensões, violência como engrenagens de intensidade emotiva em mutação. Vale a pena ainda apontar o humor singular que emerge em suas performances e que colabora para esse “desfazimento” dos limites de um corpo autárquico e autônomo, e, através do humor, surgem também possibilidades de um outro pensamento sobre o corpo contemporâneo, tensionado nesse jogo de forças entre a passividade e o excesso de estímulo (e controle), ao qual, por bem ou por mal, estamos todos submetidos.
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Antes de te colocar algumas perguntas, gostaria que você falasse um pouco sobre a sua trajetória. Você começa trabalhando como intérprete em companhias de dança antes de iniciar seu trabalho solo como performer e coreógrafa independente. Como se deu essa passagem?
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Colaborei durante oito anos (1994 – 2002) com a coreógrafa Lia Rodrigues. Trabalhei na companhia como intérprete/criadora e assistente de direção. Quando realizei meu primeiro projeto, a performance Imagem, eu ainda estava na companhia. Ensaiava inúmeras vezes durante as turnês, em quartos de hotel. Algum tempo depois, deixei a companhia e comecei a investir em projetos próprios e em colaborações temporárias com artistas visuais e outros coreógrafos. Atualmente, colaboro com a coreógrafa portuguesa Vera Mantero e estou desenvolvendo um novo trabalho, um duo, que se chama Em redor do buraco tudo é beira. Portanto, não foi bem uma passagem, pois mesmo dentro da companhia eu já fazia várias coisas. Acho que desde o inicio percebi que não queria me fixar numa posição. Até pouco tempo atrás, me sentia engasgada quando alguém me perguntava sobre a minha profissão. De uns tempos pra cá prefiro alternar as respostas, algumas vezes digo que sou bailarina, outras vezes me apresento como coreógrafa ou performer ou as três coisas, dependendo da situação.
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O escritor Francis Ponge (1899 – 1988) propunha uma poesia tocada pela força de empuxo dos objetos (Le parti pris des choses). Ponge acreditava que para retirar-se da ciranda estéril do humanismo era preciso “se deixar puxar pelos objetos”. Para ele, não se tratava mais de organizar as coisas ao nosso redor para atingir uma harmonia, mas de se deixar desarranjar por elas. Há algo no seu trabalho que parece seguir um impulso semelhante, os objetos funcionando como um furo na redoma de sentidos e de práticas que tendem a delimitar os limites entre sujeito e objeto. Você chegou a criar a expressão “subjetos” para designar esse corpo transitivo, poderia falar um pouco sobre isso?
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Sim, é exatamente isso: “... se deixar puxar pelos objetos”. Quando estou trabalhando, penso em me “submeter” aos objetos e não apenas em manipulá-los, como se fossem algo sobre o qual tenho controle. Busco experimentá-los, um pouco como fazem as crianças. Gosto muito de observar as crianças se movendo, elas têm um estado de momento, ou seja, elas acessam um estado de atenção que se assemelha a certa intensidade dos animais. Diferentemente dos adultos, não estão atravessadas pelas noções de futuro ou passado, simplesmente estão lá, inteiramente instaladas no aqui e agora, assim como os animais e disso surge uma presença completamente fascinante. Acho que as crianças não “fazem coisas”, elas se misturam ao que fazem, elas são o próprio ato. Cada passo é um passo e nada além disso, cada gesto fala do gesto em si. Nunca sei se elas estão jogando com os brinquedos ou se são os brinquedos que estão jogando com elas. É esse tipo de experiência que procuro ativar no meu trabalho com os objetos, uma terceira coisa que não é mais nem o meu corpo nem o objeto em sua autonomia, mas sim um corpo/objeto/sujeito imbricado. Foi dessa prática de trabalho que surgiu a palavra “subjetos”: objetos/sujeitos deslocados e desfuncionalizados.
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Mais do que questões de gênero e de alteridade, o seu trabalho interroga posições de poder atravessadas por paradoxos. Sem deslindar para um relativismo cínico, você parece estar mais interessada em mostrar que cada nó de poder é uma massa de nuances, um núcleo que transporta divergências internas e ambiguidades. Assim também o corpo passa a ser percebido como um solo fissurado, que se dobra por suas próprias contradições, tensões, buracos. Como você situaria o seu trabalho no contexto da performance produzida atualmente? Que performers ou artistas lidam com questões que motivam ou inspiram a sua prática?
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Me interesso por obras que deixam espaço, que abrem buraco, que funcionam como um gatilho liberador de reflexões, afetos e associações. Me interesso por artistas que me põem pra trabalhar. Nessa direção, penso num trabalho-solo da coreógrafa portuguesa Vera Mantero Uma misteriosa coisa disse o e. e. cummings, nas Piezas distinguidas da performer espanhola La Ribot, no espetáculo Nom donné par l'auteur do coreógrafo francês Jérôme Bel, entre tantos outros…
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Entendendo que o seu trabalho se dá na relação entre performance e artes plásticas, e sabendo que o seu primeiro trabalho solo intitulava-se Imagem, você poderia falar um pouco sobre a ideia de imagem que surge nesse processo? Ainda uma pergunta encadeada nessa: há alguns anos atrás o artista brasileiro Tunga criou a noção de “instauração”, que foi depois retomada e utilizada por alguns críticos brasileiros. Com essa expressão, Tunga sugeria um outro tipo de relação sujeito-objeto (uma relação fugaz e transitória e, no caso da obra do próprio Tunga, também erótica) situado entre as noções de instalação e performance. Você, que inclusive já participou em performances do próprio Tunga acredita que esse conceito pode servir para uma aproximação ao seu trabalho?
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Sim, acho que sim. Construí a performance Imagem em colaboração com a fotógrafa brasileira Claudia Garcia. Pensar um corpo não capturável, que se expõe em constante reorganização, foi o nosso ponto de partida. Estávamos interessadas em pensar a imagem como algo que não afirma, que não estabiliza. Queríamos falar de uma imagem/corpo vazada e borrada de sensações. Uma imagem precisa, mas de uma precisão cheia de ambiguidades.
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Há um tipo de humor nas suas performances que transporta uma sensação de desamparo e, por isso, se distancia da lógica da ironia, pois não se trata de denunciar algo externo ao corpo que se constitui em cena. Em In-organic, quando surgem as falas, sentimos que você e sua voz também se deixam corroer e afetar pelo humor que elas desprendem. E mesmo quando seu trabalho chega a sinalizar/comentar questões de um real exterior (a banalização da morte, por exemplo), é por dentro que opera, quero dizer, você restitui a interrogação a uma situação transitiva, de algo que está acontecendo ali na cena, e não como um ato retórico que induz a uma resposta imediata. Acho que é nesse ponto que o humor se conecta com uma situação de inacabamento e deixa também o espectador num certo desamparo. Mais do que um modo de criticar o humor cria situações de crise. Você poderia falar sobre essa relação entre humor e crise no seu trabalho?
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Engraçado, sempre achei que faltava humor no meu trabalho... mas desamparo sim, percebo bem. Acho que tem relação com o fato de eu acreditar que somos seres solitários que se falam por uma aproximação que é feita de desvio. Mas vejo essa solidão com muito bons olhos, acho que é justamente essa impossibilidade de união que nos possibilita desejar e falar. Quando construí In-organic, estava interessada em falar, como você citou na sua pergunta, da banalização da morte. Mas não queria discursar sobre isso e nem apontar dedos pra ninguém. Queria uma fala-esboço, inacabada. Pensei, então, em me afundar no que eu estava falando, quero dizer, fazer daquela fala exterior algo íntimo.
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Em In-organic, há algo que parece se acentuar no seu projeto ainda em andamento: uma série de associações disjuntivas que interligam os fragmentos/momentos, sem preencher inteiramente as lacunas entre eles. Nessas lacunas, o espectador pode encontrar um certo incômodo mas também uma possibilidade de desfazer a lógica linear da sucessividade do tempo que se impõe sobre a cena. Tem-se a sensação de que há uma “edição” que, embora seja muito fina, permitiria uma permutação. Essa disjunção não é sinônimo de “falta de unidade”. Existe pra você uma necessidade de “liberação” da sintaxe temporal da cena, ou essa abertura é simplesmente um resultado do seu modo de articulação do corpo em cena?
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A minha matéria de trabalho é o corpo. Penso o corpo como uma zona estranha, ambígua e rugosa. Esse corpo faz (engendra) parte (de) uma situação específica que se desdobra num período (pré) determinado de tempo. Tento, ao articular essas situações, fazer algo que Francis Bacon disse: proporcionar emoções sem o tédio da comunicação.
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Poderia falar um pouco sobre o seu projeto atual e como ele se relaciona com seus projetos anteriores?
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Estou trabalhando em um duo que se chama Em redor do buraco tudo é beira. Nesse projeto, como nos anteriores, estou interessada no sentido não pacificado, incompleto e transitório das coisas (nas coisas que emergem por entre as coisas). Acho que Em redor... fala de falar sem dizer, de quase falar, de quase entender, de quase. Diferentemente de meus trabalhos anteriores, que se construíam num contínuo desdobrado por associações, quero dizer, uma coisa que dá na outra e por associação em outra e assim por diante, Em redor... se estrutura em pequenos fragmentos autônomos que chamamos de manifestações curtas. Estou interessada nos saltos, nos vazios, nos solavancos que essa estrutura pode engendrar. Acho que tudo isso está ligado ao tal desamparo que você apontou numa de suas perguntas anteriores. É um desamparo desejante de se deixar ir sem saber muito bem pra onde, de ser ver “ido” prazerosamente por alguma coisa. Acho que é isso, procuro também (me) provocar com os meus projetos.
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BIOGRAFIA
Marcela Levi (1973, Rio de Janeiro) é performer e coreógrafa. Formou-se pela escola de Dança Angel Vianna; foi membro da Lia Rodrigues companhia de Danças durante oito anos. Em 2002 começou a desenvolver projetos solos que se situam entre a dança contemporânea e as artes visuais. Seus trabalhos vêm sendo apresentados em festivais e centros de arte de vários países da América Latina e da Europa. Paralelamente, colabora com os coreógrafos Vera Mantero, Dani Lima, Cristina Moura, Gustavo Ciríaco e com os fotógrafos Claudia Garcia e Manuel Vason. Em 2006 recebeu a bolsa do centro de intercâmbio Le Recollets (França) e o Prêmio Klauss Vianna de Dança. Em 2007 foi contemplada com o Programa Rumos Itaú Cultural Dança. Em 2008 junto com Flavia Meireles, participou do programa Artistas en Residencia – La Casa Encendida e Universidad de Alcalá de Henares (Alcalá de Henares – Madrid). Atualmente Marcela desenvolve o projeto em redor do buraco tudo é beira, contemplado pela Fundação Nacional de Artes - Funarte - no Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Artística, em colaboração com a bailarina Flavia Meireles e a artista visual Laura Erber.
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Veja mais Marcela Levi no YouTube:
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Edgar Allan Poe — em apresentação única!

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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Mais um haicai, por Andra Valladares

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Finda-se a noite
e a flor mostra suas joias:
gotas de orvalho.
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Andra Valladares
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Andra Valladares é advogada, poeta, cantora e compositora, residente na cidade de Vila Velha/ES. Além disso, ainda integra dois grupos de poemas minimalistas: grupo Haicai-L e MIP (Movimento Internacional Poetrix). Para conhecer mais clique aqui.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Triplo lançamento da 7Letras em Botafogo

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domingo, 18 de outubro de 2009

Um poema de Carlos Eduardo Marcos Bonfá

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Por vezes
Contra o dedo,
Palavra.

Por vezes
Contra o dedo,
O medo.

O fino brilho negro,
Vestígio do fogo das estrelas
Que se consome
Na sujeira do grafite.

Carvão sem tento,
Que tenta em vão
Marcar o mundo,
Mesmo aberto em não.

Se a palavra chama,
Atendo em paz.
Paz de quem dorme
Com arma em punho.
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Carlos Eduardo Marcos Bonfá
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sábado, 17 de outubro de 2009

Ramon Mello lança "Vinis mofados" em Copa

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Brisa — desafio poético por Franklin Pacífico

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Assopro de inverno
na flor de maracujá.
Desgostos eternos.
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Franklin Pacífico
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Nightwork, um poema de Sebastião Ribeiro

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Deve-se a um erro ou a um equívoco
a distância entre tantos corpos à noite,
que hoje parece voltada em prece a algo;
porém os próprios astros já são coisas
que extasiam o que permite concentrar o
tempo na violência de algumas guitarras,
em seus sons expurgadores.
Considerável esta minha atitude descritivista
em calcular quimeras nas bocas e nos braços que
se descobrem sob a luz das boates;
a poética da sensação é um alívio sem
aqueles ritmos, que mal
pertencem aos corpos.
De que maneira experimentarei
verdade fora dos focos?
Algo em nós se apressa a discorrer
sobre o engano milenar que nos separou;
e de tudo que se escondeu nos banheiros
e becos, te sobra o instinto
carregado de cerveja e tropeço.
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Sebastião Ribeiro
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sábado, 10 de outubro de 2009

Apresentamos um novo poema de Naaman:

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da eternidade que se espera,
dos anos que correm aflitos,
a memória escondida
rejeita as cores;
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do momento que se esvai,
do instante que se perde,
a memória fatalista
exagera amores;
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e as flores que renascem
a cada primavera
instigam aquele severo
e obscuro desejo de espera
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e as dores que caem
dos olhos da fera
alteram em nada
a rota da terra.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Um poema visual por Jorge dos Santos

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Jorge dos Santos
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Décima confessional, de Leonardo Davino

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Se beija-flor te chamais
Eu, pica-flor queria ser,
Tu, minha flor, meu bebê,
Se, e assim, tu me aceitais,
Bicos engendrariam ais.
Grávido de um beija-flor,
Agravaria eu tua dor.
Mas, velô do meu desejar,
Não posso querer picar,
E só circulo tua fulô.
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Leonardo Davino
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Leonardo Davino é mestrando em Literatura Brasileira pela UERJ, com pesquisa sobre Canção e Teoria da Literatura.
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Doidivinas lança video-clipe em Botafogo

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Participe também do prêmio Paulo Britto!


Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia

O Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia foi criado em 2009 como parte da programação da VIII Semana de Letras da PUC, intitulada “A Língua Portuguesa”, e contempla três gêneros literários: CONTO, CRÔNICA e POESIA. Poderão participar estudantes de graduação e pós-graduação de toda a comunidade PUC-Rio.

INSCRIÇÕES

As inscrições serão realizadas até o dia 16 de outubro de 2009. Para os três gêneros (CONTO, CRÔNICA E POESIA) há duas categorias: CATEGORIA PROSA (CONTO E CRÔNICA) e CATEGORIA POESIA. Os textos devem ser inéditos em qualquer meio (impresso ou eletrônico) e escritos em língua portuguesa. O tema é livre e cada autor poderá submeter somente um texto por categoria, digitado em papel tamanho A4 e em apenas uma das faces do papel e com as seguintes características:

PROSA: Os autores deverão utilizar fonte Times New Roman tamanho 12, com espaçamento 1,5 entre as linhas e todas as margens medindo 3 cm. Os contos não poderão ultrapassar o limite de 4 (quatro) páginas.

POESIA: Os autores poderão utilizar qualquer tipo de fonte, diagramação e espaçamento, desde que o texto não ultrapasse o limite de 2000 caracteres (sem considerar os espaços em branco).
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É obrigatório o uso de pseudônimo, que deverá constar ao final do texto. Os textos inscritos nas CATEGORIAS PROSA E POESIA devem ser apresentados em 4 (quatro) vias cada. Os autores que optarem por concorrer nas duas categorias deverão fazer a sua inscrição de forma independente, em envelopes diferentes. Os textos deverão ser entregues em um envelope grande e lacrado, identificado na frente com o nome do Prêmio e a categoria (PROSA ou POESIA). Dentro deste envelope os concorrentes deverão enviar um envelope menor, também lacrado, identificado na parte externa com o título do trabalho e o pseudônimo utilizado. O envelope menor deverá conter uma folha com os seguintes dados: nome completo do autor e pseudônimo utilizado, título do trabalho, gênero literário, data de nascimento, endereço completo, e-mail e telefone para contato e uma breve nota biográfica. Não serão aceitos textos enviados por e-mail. As inscrições serão feitas somente no Departamento de Letras, no seguinte endereço:

PRÊMIO PAULO BRITTO DE LITERATURA
Rua Marquês de São Vicente, 225
Edifício Padre Leonel Franca. 3º andar.
Gávea – Rio de Janeiro

PREMIAÇÃO
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A ser divulgada
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PUBLICAÇÃO DOS TEXTOS FINALISTAS

Os textos finalistas serão publicados imediatamente no blog do Jornal Plástico Bolha e, assim que possível, no formato impresso em uma edição do Jornal Plástico Bolha. Os autores premiados com a publicação de seus textos deverão assinar um termo autorizando a publicação nos referidos blog e jornal e cedendo os direitos autorais para esta edição. Os direitos não são exclusivos e os autores ficam livres para publicar esses textos onde desejarem após a divulgação do resultado. Outros itens poderão ser acrescidos à premiação, a critério dos organizadores do Prêmio e de eventuais parceiros ou patrocinadores.

COMISSÃO JULGADORA

Os textos inscritos na categoria PROSA E POESIA serão avaliados por uma comissão formada por três professores do bacharelado em Formação de Escritor do Departamento de Letras para as duas categorias (PROSA e POESIA), e por dois alunos PET. A comissão é soberana e suas decisões são irrecorríveis, podendo inclusive decidir por não premiar os trabalhos inscritos.
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RESULTADO

Os autores finalistas nas duas categorias serão comunicados até o dia 26 de outubro para que possam confirmar sua presença no local da premiação. O resultado será divulgado no encerramento da VIII Semana de Letras, dia 29 de outubro de 2009. Na mesma ocasião, ocorrerá a entrega do prêmio.

DISPOSIÇÕES GERAIS

As inscrições implicam em plena concordância com os termos deste regulamento. Estão impedidas de concorrer pessoas diretamente envolvidas com a organização da VIII Semana de Letras e com a organização do Prêmio este ano. Os inscritos que não atenderem às especificações deste regulamento serão desclassificados. Os textos enviados não serão devolvidos.
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domingo, 4 de outubro de 2009

Um novo poema de Ana Cristina Chiara

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a gata mia em disparada
pegadas na neve
traçado (cedilha)

mia sexo
desespero fundo
minuto a minuto

conversa ouvida
sonoridade comunicativa
a esmo...

fura o papel
a quietude do quarto
a xícara onde bóia o café
o presente irritante
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Ana Chiara
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Ana Chiara é professora de literatura da UERJ e amiga do Bolha.
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sábado, 3 de outubro de 2009

Hilda Hilst homenageada nas terças poéticas

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Novidade ou na falta de um poema mais intenso — por Sebastião Ribeiro

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Um homem enraizou-se aqui, todo ou as
partes plenas. Seus olhos verdes são inegáveis, a
tarde também; mas há a pressa que
esconde o medo, mal interpretando-o.
O silêncio é uma constante, parece que
esperando minha morte, desidratando meus
fatores e meu homem
de fantasia.
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Sebastião Ribeiro
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

feministas — poema de Caio Carmacho

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seus olhos verdes pintados de preto
quase uma camuflagem de guerra
nada se enquadra ao estereótipo
se você não é a revolução dos tempos
é mais ou menos isso mesmo
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Caio Carmacho
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Lançamento da Coleção Língua Cantada

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Por dentro — um poema de Lucas Gibson

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Sabem pouco
Esses românticos fanfarrões!
Que o amor
Mais do que em flores
Mais do que em poemas
Está,
Nas louças lavadas
De surpresinha
Pela manhã...
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Lucas Gibson
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

A paixão clubística, texto de Gilbert Daniel

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O meu time foi campeão naquele ano, melhor, foi bicampeão, melhor, foi tricampeão, melhor ainda, foi tetra, mais que isso, penta penta! O meu time.
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Naquele ano, fomos rebaixados. Voltamos depois, naquele outro ano, e não fomos campeões. Fomos muitos mal naqueles anos seguintes mas, depois, de novo fomos vice-campeões e, melhor, finalmente de verdade fomos campeões, melhor, fomos bicampeões, melhor, fomos tricampeões, melhor ainda, tetra, mais que isso, penta penta! O meu time.
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Gilbert Daniel
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Clássico do Plástico Bolha, por Mia Vieira

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Acalente-me a alma
Perdida de seus braços.
Use-me com flor;
Vida descartável.
Despetale-me a roupa
Bem me queira.
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Mia Vieira
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Seminário musical com celebridades na PUC!

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domingo, 27 de setembro de 2009

Viriato, um poema inédito de Raquel Naveira

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Viriato,
Rei e pastor da tribo lusitana
No confronto com Roma,
Poderosa e insana.

Viriato,
Rei que empunha a lança,
Celeste mandato
De quem busca paz,
Justiça
E conhecimento;
Herói,
Santo,
Pai da nação lusa,
Mobiliza energias
Nas batalhas do espírito.

Viriato,
Pastor que segura o cajado,
Apascenta o rebanho das estrelas,
Pronto a morrer por suas ovelhas;
Sábio,
Nômade,
Observa os astros,
Distingue os ruídos,
Escuta a chegada dos lobos,
Emissários de seu assassinato.

Viriato,
Rei e pastor,
Comandante amado,
Cantado por Camões,
Habitante do oceano,
Senhor do exército,
O teu retrato
De homem viril e nobre
Está impresso
No meu sangue português,
Na minha rebeldia ancestral,
No meu canto exato.
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Raquel Naveira
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ciranda entre tangos

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Me desculpe o entusiasmo, mas não é todo dia que encontro alguém assim tão medido, cabido, perfeito; e agora já bem sei que não adianta fugir, fingir nesse verão tão repleto de fumaça e terças-feiras que você não existe nem olha pra mim.

À flor da pele, o tal fulano flautista ilustre experimenta cirandas e agudos para as tantas outras pernas que floreiam em roda, imundo o piso que gruda nos pés. Mesmo no salão cheio, estou um pouco sozinha; ensaio a cara de indiferença e já de prontidão aviso que não sei dançar: dois pra lá, dois pra cá; tem que soltar mais os ombros; segue meus passos; deixa que eu te levo. Prefiro sambar assim de longe; finge que não me toca. Desvio o olhar. Pode provocar que eu sou forte e madura e segura de si. Temos muito em comum; ele diz: “parece estranho mas, com licença, posso te beijar?”

É claro que prudente seria pedir logo um táxi, sacar a chave de casa, bater a porta do quarto de persianas, lençóis, abajur. Ligar o ar-condicionado, dormir de maquiagem, exausta, vazia e um pouco bêbada, como se nada nem ninguém pudesse ter tido a mínima ínfima chance de se aproximar um dia da minha heroica distância particular.

Em vez disso, pega meu telefone, recito afobada os oito números, repito para ter certeza, pode ser que ele ligue, quem sabe marcamos uma praia, vamos ao teatro, ao cinema, à ópera, ao raio que o parta; ou então não liga nunca mais, pediu por capricho, foi apenas solícito, estava sendo bem-educado.

Esquece, eu sou só uma trepada em potencial, sou qualquer uma, sou fácil demais. Quando precisar, me dá um toque que eu caio direitinho. Pensa que me engana? Cantarola um tango antigo; tem tristezas, nostalgias da Argentina. Ele parece tão sensível... Olha pra mim; eu pareço entusiasmada? Não, não fala. Me abraça outra vez daquele jeito. Espera, eu mal te conheço. Pensando bem, tenho sono; já são cinco da manhã: você pode me deixar na Gávea?
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Constanza De Córdova
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Fragmentos de Maria, no Planetário do Rio

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A Editora da Palavra convida para o lançamento do livro de poesia
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FRAGMENTOS DE MARIA
de Maria Dolores Wanderley
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dia 1º de outubro de 2009
no Planetário da Gávea
a partir das 19h.
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Discutindo o Relacionamento

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alma gêmea
ou
há uma algema?
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Octávio Roggiero Neto
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Carta ao vento — de Patrícia Schwingel Dias

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Meu tempo acabou. Sinto muito lhe deixar. Mas realmente preciso partir. E, cá entre nós, você já deve estar cansada de só ter uma pessoa. Ficamos aqui a noite toda somente eu e você, e uma intrusa. Ah, como poderia eu esquecer essa noite estrelada que não dorme? Que não nos abandona, pra finalmente termos a quietude de que tanto queremos.
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Vim lhe ver pelo silêncio, mas encontrei um barulho que não me acalma a alma. Você sussurra constantemente em meus ouvidos. Sopra um vento molhado que me tira a razão. Tenta me convencer a qualquer custo de ficar.
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Você joga comigo. Você joga aos meus pés o ir e vir de suas curvas. Me seduz. Tenta me hipnotizar com sua dança, seu cheiro, com seus beijos salgados. Tenta me dar provas de que há vida nesta vastidão do nosso eu.
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Preciso confessar. Você quase me convenceu de ficar. Ficar, até ficaria, mas só se fosse aqui a vida inteira, a te olhar. Adoraria te ter pra sempre. Mas você não pertence a mim. Pertence a vida, ao mundo, aos outros homens. De resto, nada mais quero, nada mais me restou.
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E, vai, admite! Você não iria me aguentar. Afinal, não é esse o seu costume: ficar com um só. Sempre que lhe encontro, você está rodeada por belas pessoas, sorridentes, felizes. E elas fazem o que querem de você. Se aproveitam de tudo o que você tem para oferecer. E, pior é que você deixa. Gosta, até. Pede pela badalação, pelo agito, clama pra ser o centro das atenções.
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Mas, pensa que me engana? Eu conheço o que está por trás desse seu jeito manso, calmo, conciliador. Você tem seus altos e baixos, como todos nós. Fica mal humorada e joga tudo pra cima. Quebra o que vê pela frente, toma espaços que não lhe pertencem. Destrói o que tiver que destruir para impor o seu lugar no mundo.
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Eu sei que você também sabe o que é sofrer. Mesmo assim, tenta me convencer de que há ainda beleza na vida. Me mostra coisas bonitas, narra as suas conquistas, fala de suas jóias, umas tais pedras portuguesas. Conta sobre os seus inúmeros namorados, sobre as suas amigas, visitantes de quase todo o dia, companheiras na diversão e confidentes de problemas.
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Oh, problemas são tantos, que como confidente nem saberia por onde começar. E sinceramente, não vim aqui para falar. Desisto. Vim aqui para terminar o que não começou bem. Terminar talvez seja uma boa forma de recomeçar, não acha? Vou embora agora, vou para os braços da sua mãe Yemanjá. E pedir a ela que me leve ao encontro do Tânatos.
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Patrícia Schwingel Dias
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Venha abraçar a Mãe Africa amanhã, na Lapa

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Mais um, poema de Vanessa Campos Rocha

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eu mereço
tu mereces
ele merece
nós merecemos
vós mereceis
eles merecem

(o meu com calda de chocolate, por favor)
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Vanessa Campos Rocha
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Participe da oficina de Diário — na UERJ

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Meus paralíticos sonhos desgosto de viver

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Ele estava ali na minha frente. Espumava como um cão raivoso. Corri em sua direção na esperança de me resignar. As lágrimas escorriam pelo meu rosto já molhado da sua água. Foi ali, sob o olhar do Pão de Açúcar, que eu me entreguei. Desci até o fundo e deitei-me no chão. Sem palavras, sem pensamento, apenas sentindo uma forte pressão sobre o peito. Ele me roçava inteira, me descabelava toda e me lambia as pernas. Já não havia mais roupas para cobrir meu corpo quente. Permaneci ali embaixo até meus pulmões não aguentarem mais, então, subi covardemente em busca de ar. Levei um tapa, depois outro. Chorei. Bate, bate mais seu merda! Ele me ouviu e mais um tapa levei, sendo que dessa vez bati forte com a cabeça no chão. Meus olhos enxergaram o escuro. Sem forças fui me abandonando enquanto sua água beijava o meu corpo por dentro. Sufocou-me. Eu já era sua. Senti-o me puxar pelos pés. Aos poucos foi me levando para cima e em seu colo me acolheu. Delicadamente acariciou o meu corpo nu e frio enquanto me levava para longe. Ninguém nos viu, nem o poeta de bronze se virou para se despedir. Os canhões do forte permaneceram em silêncio. Ele foi me levando. Só restou-me dizer adeus!
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Cacau Vilardo
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Conferência Municipal de Cultura no Rio

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Pão e Poesia em qualquer padaria. Participe!

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Vulcão

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andar cambaio
chama vulcanica
monstro trepidante
esbaforido e manco
cujas pernas débeis
sofrem sob o peso da dor
celeste e terrestre
demiurgo amoral
apóstolo inspirado
sopra o fogo fabricando
flechas cintilantes
as armas dos deuses
os escudos resplandecentes
o tesouro dos heróis
joias,broches e brincos
anéis,braceletes e colares
para as afrodites insanas
e as belas tábatas mortais
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Jovino Machado
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Poesia e música no corredor de Maricá

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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Camila Justino lança novo livro em outubro!

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Camila Justino, nossa colaboradora do jornal Plástico Bolha está lançando seu terceiro (!!!) livro em outubro, na Livraria da Travessa de Ipanema. Vamos todos colocando na agenda...
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Feliz Natal, conto de Solange Valeriano Pinto

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Na verdade, esse era um fato real que quase se tornou ficção. Uma colega de turma dizia que sua avó não gostava de preto e nem de pobre e a havia proibido de aproximar-se dos bolsistas da PUC. Não obstante aos conselhos da avó, ela sempre me tratou com gentileza. Mantínhamos uma distância polida. Ela sempre comentava (quando o assunto era sobre cotas ou coisa parecida) que sua avó achava inadmissível que um pobre estivesse estudando na mesma universidade que sua neta.
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Sinceramente, nunca me senti ofendida com as palavras dela, apesar de serem bem desagradáveis. Ela fazia o tipo desagradável — e isso não era uma opinião só minha —, mas não sei por que, não sentia que ela falava aquilo por mal, para ferir a mim ou a quem quer que fosse. Ela, simplesmente, falava, e pronto... Embora com ar indiferente e displicente, estava transmitindo a opinião de sua avó.
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Eis que um dia, era fim de novembro, eu estava no ponto do Pirata, voltando para casa, quando uma das domésticas, que trabalhava na Gávea, aproximou-se de mim:
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— Oi, boa tarde.
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— Boa tarde. Tudo bem?
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— Tudo...E aí ? Vai trabalhar no Natal?
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— Não.
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— Não! Por quê? Tá sem casa?
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Sem esperar a minha resposta ela perguntou:
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— Tá a fim de fazer um bico? É aqui pertinho do seu serviço ( essa era uma das que pensavam que eu era doméstica). Mas tem que ser no Natal e no ano novo 25 e 31 . Topa?
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Fiquei pensando na minha situação financeira que estava muito ruim naquele primeiro ano na PUC.
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— Qual é o bico? Perguntei.
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— Você vai ser minha ajudante. Te pago 150 reais. Você vai lavar toda a louça, arrumar a cozinha, descascar os legumes, arrumar e servir a mesa e, de vez em quando, levar uns petiscos na piscina para os patrões e seus convidados. E aí ? Topa?
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— Tudo bem. Vou pensar...
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— Pensa, pensa, porque a parada é boa. Olha só, todo ano eu trabalho no Natal e no ano novo. É com esse dinheiro que eu compro os presentes pros meus filhos, meus netos, meus afilhados, entendeu? Se não for assim, não compro. O dinheiro do pagamento é só pra pagar contas... O triste é que a gente fica longe da família, né? Mas fazer o quê? A gente não pode ter tudo. Depois que passa as festas, eu saio distribuindo os presentes (porque ela só paga no final). Mas quando eu chego, é aquela festa. Meus filhos já até se acostumaram longe da mãe no Natal. Cresceram assim, coitados!
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— Tudo bem . Vou pensar e amanhã te dou a resposta.
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— Valeu... Olha o nosso Pirata ali. Vamos correr pra pegar lugar sentadas.
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Fui para casa pensando na proposta. Cento e cinqüenta reais! Era tudo o que eu precisava para fazer a minha ceia. Mas o preço seria alto demais. Pela primeira vez na minha vida passaria o Natal longe da minha família. As últimas palavras daquela mulher ainda faziam um eco na minha cabeça: meus filhos já até se acostumaram longe da mãe no Natal. Cresceram assim. Coitados!...
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Em casa, comentei com a família. Assim como eu, meus filhos ficaram indecisos. Ganharíamos um dinheiro,mas eu não cearia com eles. Meu marido até que não achou a idéia ruim,pois disse que seriam só dois dias. Mas o Natal, para mim, tem um significado todo especial. A família reunida sempre foi muito mais importante do que a mesa cheia de guloseimas. O Natal me recorda a minha infância. O cheiro de tinta fresca, de tecido novo, de rabanada fritando (que nós comíamos ainda quente). A árvore de Natal era um galho seco, preso a uma lata de leite em pó, que nossa mãe cobria com algodão e enfeitava com caixas de fósforos embrulhadas em papéis coloridos. Não tinha pisca — pisca, tampouco presentes ao redor. Se bem que sempre colocávamos os sapatos na janela, que dormiam e acordavam vazios, pois Papai Noel nunca encontrava o nosso endereço.
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Meu pai era bombeiro hidráulico. Quando desempregado, quase sempre vivia de bicos e trazia o pagamento já no fim da tarde. Trazia tinta (ou melhor, cal e corante — geralmente, verde) para pintar as paredes da nossa casa. Quando caía a noite, ele ainda estava dando os acabamentos externos. Minha mãe corria às lojas e comprava tecidos para fazer nossas roupas. À noite, estávamos todos de roupas novas e tomando bronca de meu pai, pois, não raro estávamos com as roupas e os braços manchados de tinta fresca e a parede marcada por um vazio de tinta, que vinha agarrado a um braço, uma perna, um cabelo, um vestido.
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Já era bem tarde quando minha mãe saía da máquina de costura direto para o fogão para preparar a ceia. Por isso, comíamos as rabanadas ainda quentes. Uma das maiores diversões era ver os distraídos, com os braços e as roupas manchadas de verde fugindo da cara feia do meu pai na hora da ceia.
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Os filhos dos vizinhos ganhavam presentes lindos e eu não conseguia entender por que o “bom velhinho” nunca deixava nada pra nós. Aos pouquinhos fomos entendendo a dinâmica da coisa. Os mais velhos já não colocavam mais o sapato na janela e, à medida que os menores iam crescendo e entendendo, faziam a mesma coisa. Creio que não crescemos magoados pela falta dos presentes, porque tínhamos uns aos outros. Tudo era motivo de risos, piadas e brincadeiras, inclusive a nossa dureza. Não tínhamos dinheiro, mas sempre passávamos os Natais juntos.
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Todas essas memórias pesaram na minha decisão. Se aceitasse o bico oferecido pela colega, teria que deixar a nossa mesa posta antes de ir trabalhar. Como se eu fosse empregada nas duas casas. Na minha e na casa da patroa da colega de ônibus. A diferença é que na casa da patroa eu ganharia para fazer a ceia e na minha eu a faria de graça. Mas, e a graça maior? A de estar com a família? Como recuperar?
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Fui cheia de dúvidas para o ponto de ônibus, mas a moça não estava lá. Não a vi mais nos próximos dias que antecederam o Natal. Deve ter perdido o meu telefone e o meu endereço. Pensei. Paciência, não tinha que ser. Chegou o Natal! Achei tudo tão maravilhoso. A ceia estava tão simples, mas passei com a família. Senti uma alegria diferente da dos outros anos, uma espécie de alívio, como se eu tivesse recuperado algo antes de perder, não sei explicar. Só sei que foi muito bom...
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Volto das férias. Estou na Rua Padre Leonel Franca, como de costume, esperando o ônibus pirata.
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— Oi colega, lembra de mim?
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— Oi. Tudo bem? Claro que lembro. Você ficou de me arrumar um bico no Natal, não é mesmo? Fiquei esperando...
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— Pois é... me desculpa... Fui à sua casa, mas no pé do morro, encontrei uma vizinha sua e perguntei onde você morava. Ela perguntou o que eu queria contigo. Falei sobre o bico e ela perguntou:
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— Quanto é?
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Falei:
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— 150 reais.
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E ela respondeu:
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— Hi , essa vizinha não vai querer isso, não. Ela não precisa. Dá pra mim aí, pô. Eu preciso mais do que ela.
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— Então fiquei sem graça e levei ela no seu lugar. Até que ela trabalhou direitinho... Da próxima vez eu te levo, falou?
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— Falou. Tá tudo bem. Só gostaria de saber como se chamava essa vizinha?
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— Peraí, deixa eu ver... Ah nem lembro mais... Foi em dezembro, já estamos em março... Hi, olha ali quem vai passando do outro lado da rua! É a neta da minha patroa... Ela estuda naquela Faculdade ali na frente — disse a mulher apontando para a PUC.
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— Na PUC?
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— É. Você não trabalha ali por perto? Balancei a cabeça, concordando. Olhei na direção em que ela apontou e deparei-me com a colega, cuja avó não gosta de pobres, pretos e bolsista. Superada a surpresa inicial, vendo a menina afastar-se sem nos ver, dei asas à minha imaginação. Então pensei:
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Se a minha vizinha indiscreta não tivesse ficado com a minha vaga (meu bico), talvez eu tivesse ido à casa da colega de turma como ajudante de cozinha. E, talvez fosse servir petiscos à beira da piscina para ela, sua família e convidados. Talvez, distraída, eu lhe dissesse, na minha displicência:
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— Olá Bia! Feliz Natal. Está curtindo as férias? — Desconcertada e muda ele enfiaria o rosto em uma revista, fingindo ignorar a minha presença e muito menos a minha pergunta. A avó, que não gosta de pobres, de pretos e de bolsistas, nos observaria com olhar atento e reprovador. e perguntaria:
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— De onde você conhece essa serviçal, Bia?
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Bia ficaria muda, sem saber o que responder à avó conservadora... E eu lhe responderia, já me afastando com a bandeja:
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— Nós nos conhecemos da faculdade. Estudamos juntas na PUC...
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

MAELSTRÖM — pelo grupo "um só olhar"

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A Casa de Cultura Mario Quintana
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convida para a estreia
do espetáculo multimídia (cinema, literatura e música)
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MAELSTRÖM
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em homenagem ao bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe
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apresentado pelo grupo
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UM OLHAR SÓ
Tomaz V. Borges (cineasta)
Paulo Bacedônio (poeta)
Carlos Bica (músico)
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Sábado, 26 de Setembro de 2009, à 1:00 h (da madrugada)
Entrada Franca
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Acervo Mario Quintana – Mezzanino Casa de Cultura Mario Quintana
Rua dos Andradas, 736 – Centro
Porto Alegre – Rio Grande do Sul
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Dona Cleonice na ABL!

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O jornal Plástico Bolha entra na campanha para apoiar a candidatura de Cleonice Berardinelli, a nossa Dona Cléo, para a vaga deixada por Antonio Olinto na ABL.

Ela é super merecedora e seria um justo reconhecimento por toda uma vida de trabalho de altíssimo nível! Contamos com a colaboração dos leitores. Disparem e-mails, façam campanha...
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domingo, 20 de setembro de 2009

Evento "arte em andamento": amanhã, no Rio

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Desengano

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—Alô, amor ?
—Não,
foi engano.
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Saulo Pereira Guimarães
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sábado, 19 de setembro de 2009

Amanhecendo, poema de Franklin Pacifico

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Adormece o escuro e renovadas
ressoam tristes notas graves, justas,
do noturno, através da madrugada.
Abre caminho pelos ares, turva.

Liberta o corpo, galhos e também
as folhas, até a copa dos pinheiros,
até sumir, fugir, para o além.
Risca célere o céu, faz um espelho.

Transfigura o olimpo de cinzento
num laranja longínquo que não esqueça
o reverter sem fim de uma ampulheta.

Canta do leste, aurora, sua vinda.
Nada embaraça teus caminhos, luz.
Canta, aurora brilhosa, vem, belíssima.
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Franklin Pacifico
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

canseira, um texto de Vanessa Campos Rocha

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acerta aqui, ajeita lá, assopra, acende, risca, devolve moço, pede, suplica, machuca os joelhos, vivo! morto! brinda (quantas vezes?), corre, respira, para de respirar, parou? não? chora, reza, planta, pede e pede de novo mas duvida que alguém escute, limpa, joga, atravessa, arranca, é no peito que dói? hum-hum, fala de novo, chove douradinho e ah esquece, é na alma.
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Vanessa Campos Rocha
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bruna Beber convida para seu lançamento

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Superlançamento do jornal Dezfaces em Belô

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Inocentes do Leblon II

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"...tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas e esquecem."
(Carlos Drummond de Andrade)

Não vimos o DOPS e, quando nascemos, a cozinha já era de inox.
Desconhecemos Byron, Sartre, Dylan e Baudelaire,
Nem em placa de salão entendemos Hair.

Foi proibido proibir, mas, logo liberaram de novo.
Fizeram Revoluções contra e em favor do povo,
Ah, e descobriram: quem veio antes, pobre galinha, foi o ovo.

Nós, que viemos depois até do pós,
Não esperamos pela anistia nem por Quércia.
A rebeldia da nossa juventude é a inércia.
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Rodrigo Siqueira Ribeiro
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terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Pai dos Burros — na Scriptum de BH

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Bienal: Flávia Savary lança Sangue de Dragão

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O ataque do homem-ético, de Fabiano Baião

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Ao descortinar a janela do quarto, reparo as luzes acesas da cidade, pessoas indo e vindo de todas as direções. Desnorteados que vagam por labirintos sem encontrar a saída. Eu penso, mas não queria pensar! Encontro-me em estado de vacuidade, uma descrença que me sufoca, quando penso nas vezes que me ponho a filosofar em mesas de discussões com mentes não libertas, mas infelizmente não aprendo. O assunto não poderia ser outro: ética, tema impróprio para esse país de pilastras ocas - é a mesma coisa que remar contra um tsunami.
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Em minhas reflexões, apoiado nesta janela, vendo tudo passar, mas que em mim não passam, me encontro, me defino finalmente, e concluo que sou um extremista, um radical doido, desvairado que acredita piamente que se matar muitos outros, entrarei no paraíso-ético. Mas diferentemente de outros desatinados pelo mundo, não tenho líderes, não pertenço a grupo algum, não tenho um código de direção a me transmutar a realidade e não espero um paraíso sobrenatural.
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Divido minha tarefa em três: o trabalho mental, a organização de todos os instrumentos, com a escolha do local do ato, e a realização do fato. Meu trabalho metal é minha conclusão psicológica, se o que irei fazer é o que realmente quero, mas doido que sou, não concluo nada e me lembro num lampejo que estou alucinado, alienado e então não penso mais em nada, e pulo esta parte estúpida.
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Vou para minha organização instrumental, que seria a aquisição de todos os equipamentos para meu objetivo extremista. Radical e desequilibrado, anoto tudo num papel: uma dinamite de seriedade e outra de amor, uma dinamite de tolerância e mais uma de honestidade, uma granada de sinceridade e mais uma de ética, um detonador, uma semente de educação. Definida toda parafernália para o ato terrorista, faltavam as compras e a escolha do local de minha glória. O lugar deveria ser onde houvesse seres que não são radicais, mas seria impossível, então, resolvi escolher a capital do país, Brasília para que de lá essa explosão propaga-se até atingir todas as regiões do Brasil.
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Depois de tudo definido, finalmente realizaria o ato. Mas não poderia partir sem antes despedir dos meus pais, pessoas que mais amo e que ficarão orgulhosos desse ato.“Olha, amo vocês, mas meu discernimento mental está por completo desequilibrado, dizem tanto, que comecei a achar realmente que sou radical, extremista e tal, então, já que sou tão anormal, faço esse ato brutal”. Saio então, de Belo Horizonte em um ônibus numa manhã de sexta-feira rumo à capital brasileira. Na praça dos três poderes, abro meus braços para o horizonte, fecho os olhos para ao abri-los novamente, me encontrar no paraíso-ético, mas antes, com todos aqueles equipamentos impregnados em meu corpo, que ao apertar de um botão, o explodir de um milhão.
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A honestidade varre o palácio do planalto, o congresso nacional, o palácio da justiça, o jeitinho brasileiro do povo, vindo por trás à ética, efetivando em todos, sua monstruosa praga, que é hereditária. O que não estava a olho nu nesta explosão é que uma semente de educação voou do meu bolso com toda aquela pressão, penetrando pelo chão, o que seria de fato as bases para nossa evolução.
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Fabiano Mafia Baião
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sábado, 12 de setembro de 2009

Corujão da Poesia na livraria DiVersos

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Em Flor — um poema de Pedro Braga Soares

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Perpetro da tua pele uma simbologia de pétala
— nada me impede
de tatuar-te de palavras.
Sopro feito arrepio aspergido sobre teu vasto,
desabrochada de intenção, arrependida, de repente.
Visto o disfarce do impossível, porque tudo pode ser,
e podemos: seja.
Rascunho das tuas veias uma linguagem intuída de decifrar-te nua
e aguço-te o tato com o toque intermitente de sussurros.
Insinuo pecados como formas de redenção,
consinto render, deploro o perdão.
Insista no erro porque a justiça é uma forma arbitrária
de compensação do desejo; nunca me sinta reparado.
Note que os absurdos vêm à tona conforme os olhos vêem
Cale a veêmencia dos contrários como quem silencia uma criança
E deixe-se devoluta, mas se faça perder por um propósito.
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Pedro Braga Soares
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Negra Loura

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Desceu em Belford Roxo
de um ônibus que vinha de Vilar dos Telles.
Sua pele era de feijoada
mas seu cabelo era puro trigo.
Sua pele era de noite
mas o seu cabelo era o horizonte de tardinha.
Falsa britânica.
Nórdica preta.
Africana de cabelo pintado entre o castanho e o dourado.
Zulu disfarçada de branca.
Entrou na padaria
pediu um refrigerante
e cruzou suas grossas coxas
debaixo de um curtíssimo jeans rasgado.
A rapaziada toda olhou e babou
ela toda no pensamento
imaginando estar no século retrasado
e possuir aquele território à revelia
que parecia ter saído de uma letra
de Benjor ou Melodia.
Bebeu tudo numa só golada
pagando a conta.
Saiu não só levando
o louro e duro cabelo entrançado
acima do sorriso amarelo
mas também o olhar de todos nós
entre aquele busto
que eram dois maduros jamelões gigantes
embaixo daquele vermelho sutiã.
Sumiu entre pagodeiros e funkeiros
entre credores e devedores
entre viajantes e farofeiros
entre pequenos empresários e vendedores.
Ela saiu do nada
e foi com tudo para qualquer lugar
tomando seu sorvete demais
deixando em sua língua
que nos banhava em sonho
o sabor daquele morno verão.
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Marcio Rufino
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Na batucada da vida: Carmen Miranda na ABL

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LINA POR ESCRITO — Lançamento no Rio

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sábado, 5 de setembro de 2009

Praia de Fora, um poema de Carlos Morgado

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Dentro de meu quarto arredio
escuto o mar vindo de uma Avenida Suburbana.
Real, de uma realidade extrema, posso ouvir
as ondas quebrarem entrecortadas pelos comboios-
e sentir quase que a branca espuma beija-me os pés
por entre cortinas de fumaça.

Não sejamos mais que o rio das coisas,
nem nos preocupemos com quem somos ou sonhamos em ser.
apenas sejamos, como o verde das árvores
ou o cinza concreto desta praia,
somente assim,
simples e absurdo.
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Carlos Morgado
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Arte em Andamento — Evento aberto no Rio

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Lançamento: Pastores de Virgílio, em SP

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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

RJ CONTINUA LINDO — de Gabriel Pardal

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O cristo redentor está cansado.
De braços abertos.
Numa mão o revólver apontando pra Zona Norte
e na outra apontando pra Zona Oeste.
Sorte daqueles
que sentem-se cariocas
quando tem no horizonte o Corcovado.

Já no interior da cidade do Rio de Janeiro,
onde não dá vista pra onda,
nem chega brisa nem maresia,
nem a luminosa decoração de natal da lagoa,
o cartão postal é a foto de uma corda
amarrada numa árvore,
que à título de turismo
deram o nome de Forca.
É ali que esses cariocas sabem-se no Rio.

Em outros mais profundos interiores,
onde nem se acha mais árvore para uma corda amarrar.
Apenas barro e poeira e homem,
ainda Rio de Janeiro,
sabem-se cariocas quando olham para um prego.
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Gabriel Pardal
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

TEATRO: Câmera, nova peça da Cia. Pangéia

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domingo, 30 de agosto de 2009

Aneurisma Matou Berimbau na Bienal do Rio

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Nosso amigo Luciano Prado da Silva, que já publicou contos no Blog do bolha e será destaque da próxima edição do PB impresso, convida a todos para o lançamento do seu livro Aneurisma Matou Berimbau que acontecerá na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Quem já leu algum de seus contos sabe que é imperdível. Todos lá!
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Estudos Lacanianos, lançamento em BH

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sapatos, um texto de Maria Cecilia Brandi

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Passar o dia com sapatos apertados, como se os pés fossem gêmeos no ventre por dez meses. Como se apertassem nervos, movimentos, e a boca de um mudo gritasse pelos pés desbocados.

Andar em desequilíbrio quando estão frouxos: poder ficar na mão, pisar em ovos - talvez contra o risco de cambalear.

Arrancar a sola, não pisar em falso. Da sola sem sola, escavar com estilete os restos de cola que grudam no chão e tiram o impulso. Buscar outra base. Cobertura. Fecho.
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Maria Cecilia Brandi
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pocket show com Jonas Sá, no Leblon

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sábado, 22 de agosto de 2009

Fustigado pelas sombras do dia

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Não sei onde tudo me acaba
Se parto, se fico
Agora não faz mais sentido
Eu não sei onde me acho
O que cabe a mim do céu
É o teu pedaço
O pedaço de ti, não dele
O que cabe da terra, é vagar insossa
Olhando tudo
Com olhar de bêbada
Tomando cuidado de não esbarrar em nada
Teu segredo
Não mais oculto
Mas continua guardado no meu peito
O teu gosto,
Nunca tive o suficiente (ainda bem, não deixaria nada de ti)
Ainda alimenta o meu desejo
Deixa a boca cheia d’água
Os olhos também
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Carolina Neves da Cruz
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sábado, 15 de agosto de 2009

Lançamento em BH: Antologia Meninos ME

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Lançamento do livro Clube da Leitura

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Convite para o lançamento do livro Clube da Leitura: Modo de Usar vol I, que ocorrerá em 28 de julho no sebo Baratos da Ribeiro. O livro é o resultado do clube da leitura que ocorre lá, onde a galera lê textos e, a partir de textos escolhidos que viram mote, escreve contos. Os contos do livro estão ilustrados por três quadrinistas: Johandson, Fábio Lyra e Eduardo Felipe. O livro teve pré-lançamento na programação da OFF-FLIP e agora tem seu lançamento no Rio! São 19 novos autores cariocas e 24 contos, entre eles a nossa amiga do bolha, Vivian Pizzinga.
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segunda-feira, 20 de julho de 2009

NINGUÉM FAZIA IDEIA, por Zé McGill

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Você já parou pra pensar sobre a renovação que certas palavras sofreram por causa do novo acordo ortográfico da língua portuguesa? Nos textos que você lê nos jornais, na internet, nas publicações mais recentes, você percebe que existe uma palavrinha que antes quase não era notada, mas que agora, depois do tal acordo, botou o pescoço pra fora da janela?
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A tal palavra é IDEIA. Segundo meu dicionário de bolso, surrado e manchado de suco de goiaba, significa: “Representação mental, imaginação; elaboração intelectual; concepção; plano, projeto”. Não sei se aconteceu somente comigo, mas após o tal acordo, parece que IDEIA começou a pipocar loucamente em 90% dos textos que leio. Eu não fazia IDEIA da assiduidade do nobre vocábulo. Acho que ninguém fazia IDEIA.
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E de quem terá sido a magnânima IDEIA de colher o maduro acento agudo lá do alto dos cachos da IDÉIA? Fico imaginando um acadêmico lusitano, cabeçudo e atormentado, desprovido de boas IDEIAS, que se depara com a palavra IDÉIA num canto escuro de seu escritório. Ele decide escalar o E para afanar-lhe o acento na mão grande. Trepa sobre o segundo braço da letra, olha à sua volta para certificar-se de que não há ninguém olhando e disfarça um pigarro antes de passar a mão no agudo e enfiá-lo no bolso do paletó. Em seguida, pega o telefone e começa a ligar para os colegas de academia, conta-lhes sobre o sequestro e propõe um... acordo.
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Ainda bem que o tal acordo ortográfico exclui os nomes próprios. Eu conheço uma moça bonita, de nome igualmente bonito, que tem o assassinado trema posto sobre a letra i, no meio do nome. Essa moça bonita não quer se livrar do trema e pode ignorar o tal acordo se assim desejar. Mas e a palavra linguiça, por exemplo, como é que fica?
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Violentou-se a lingüiça, justamente ela, que sempre sofreu as mais perversas violações: além de ser tostada nos churrascos da vida, tornou-se sinônimo de órgão genital e de embromação, antes mesmo que a coroa do U levantasse voo. Por sinal, esta última palavra (ex-vôo) é mais uma que foi descortinada. Eu diria que voo vem logo na cola de IDEIA na fila indiana das palavras defloradas que andam salientes. Não sei se foi o acidente da Air France ou a queda do acento circunflexo, que deixou careca seu segundo O, mas passei a ler voo com frequência muito maior nos últimos meses. Assim como passei a enxergar IDEIA em tudo que é folha de papel. E nisso reside aquele que talvez seja o único atributo positivo do novo acordo ortográfico.
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Dizem que Deus está nas coincidências. E talvez não seja por acaso que IDEIA esteja pululando sob nossas pupilas ultimamente. Em nossas vidinhas modernosas, onde somos quase todos consumidos pela urgência de ganhar dinheiro, consolidar carreiras profissionais e conquistar patrimônios materiais, sobra cada vez menos tempo para parir boas IDEIAS. Parece que vivemos um processo dormente de emburrecimento no mundo globalizado, onde a boa IDEIA está minguando e nem a Caninha 51 salva.
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Enfim, não sei se este texto em homenagem à IDÉIA foi uma IDEIA genial ou um sinal de que preciso beber menos, mas vou trocar uma IDEIA com aquela moça bonita (aquela, que manteve o trema no nome) pra ver se ela consegue dar um jeito de tirar esta IDEIA fixa da minha cabeça. Mas, que IDEIA...
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domingo, 19 de julho de 2009

Em Marselha — um texto de Luisa Noronha

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Olá!
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Estou em Marselha, uma cidade com um astral ótimo, autêntica e tão movimentada quanto denuncia a ventania constante — c´est le bon air de la Méditerranée — me disseram. E é mesmo o Mediterrâneo que sempre garantiu a autenticidade local. Seu vieux port é o mais movimentado da França e some no horizonte de tão longo; e foi nesse mesmo cais que aportaram os gregos no século VII a.C., passando pelos domínios romano e celta.
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Essa fusão de culturas que remonta à antiguidade é presenciada hoje na arquitetura de estilo, ora bizantino, ora neoclássico, nas feições miscigenadas e nas animadas feiras de rua, onde servem-se desde peixes frescos a kebabs turcos e um caldo marroquino estranhíssimo. Marselha é uma cidade de verdade: meio suja, alguns mendigos, fachadas encardidas e varais de roupas cortando o céu.
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Suas ruelas estreitas são tão instigantes quanto intrigantes, te levando longe ou de volta ao mesmo lugar, o que torna impraticável qualquer passeio sem um mapa na mão. O que mais se vê são turistas lutando contra a ventania para manter o mapa aberto.
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Caminhei pela cidade inteira hoje. Vi palácios, fortalezas, parques, o museu da história da cidade, uma catedral de peso à beira-mar e terminei o dia na principal atração da cidade: a Basilique Notre Dame de la Garde. No alto de uma colina, só a vista panorâmica da cidade já bastava, mas a basílica em esplêndido estilo romano-bizantino é uma pérola, revestida de mosaicos e folheada a ouro, é de ofuscar a vista de tanta beleza. Realmente de tirar o chapéu. assisti à missa e deu para acompanhar direitinho, até aprendi a ave-maria em francês.
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Acabo de voltar ao hotel, são quase 9h da noite, e o sol ainda teima em cair no horizonte. Vou dar um pulo no porto, a cidade deve ficar linda inundada pelo pôr de sol.
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bjs,
Luisa
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Luisa Noronha
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sábado, 18 de julho de 2009

ATENDIMENTO AO PÚBLICO

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escarro, catarrada, pus, soluço, espirro, tosse, mal hálito, remela, meleca, ressacas múltiplas... urubu traçando carniça de urubu torrado de sol e agora vai reclamar direitos; insônia às 04:32 no puxadinho alugado com o dindin da vovó misericordiosa e na manhã o infeliz vai reclamar direitos no escritório adjunto; dondoquinha que levou do namorado um soco no olho e se sentiu “lesada”; mosquito elétrico zanzando pra irritar geral... “É por serem verdadeiras que todas essas histórias são trágicas. A vida animal selvagem sempre termina tragicamente
(“Animais da selva que conheci”,
Ernest Thompson Seton)
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Paulo Vitor Grossi já publicou 3 textos no jornal Plástico Bolha. Esse aqui faz parte do seu livro Carne Viva (edição privada) que é poesia pura.
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vai de Bala? — um poema de Bianca Rezende

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A bola que rola na rua
O carro que sobe a ladeira
O grito do moleque do alto do muro
E lá se vai...
...se vai mais uma estrela
...se vai mais um na pista
O tapa no canto da orelha
A barriga que nunca está cheia
E o moleque de calção de banho
E lá se vai...
...se vai descendo a onda
...se vai mais um dos bambas
As noites e as farras mil
Cachaça e conhaque, um barril
Um beijo em quem nunca se viu
E lá se vai...
...se vai amando torpe
...se vai trocando os pés
O corpo deitado e nu
Suor ainda nas têmporas
Foi tiro, foi pássaro, foi vento
Ninguém viu, nada se ouviu, nenhum relato
E lá se vai...
...se vai vivendo a beça
...se vai vivendo a beça
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Bianca Rezende
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sábado, 11 de julho de 2009

Carnívora, um poema de Priscila Lopes

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Não me verão torrar
em solo infértil.
— Não me verão! Não me verão!
Chove torrencialmente
e minha raiz é seca como é
meu ventre.
Suponho que estender a mão
implica em oferecer o braço
— depois de morta,
doarei meus órgãos, no máximo!
O sol de dezembro dilata-me
os poros;
o sol que cega exala
a falsa bondade nos intolerantes.
— Sol, que gente mais grávida!
Não que eu não ame
o Amor, é lindo
como a frase: clichê.
Mas em vez de gerar, basta-me
renascer.

Como as plantas após a poda,
da dor insurgem ramificadas

Mas não serei a mulher leprosa,
a planta suculenta
que dá de si doidamente.
Eu quero a palma da minha palma,
a embriaguez tão humana
do suco do meu ventre.
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Priscila Lopes é nossa leitora de Florianópolis, SC e acaba de nos enviar os seus poemas. Publicamos aqui este delicioso "Carnívora", quem quiser mais pode conferir o blog da autora aqui.
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Lobo Antunes no Real Gabinete Português

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REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA
convida para encontro
com o escritor português

António Lobo Antunes

Mediação

Ângela de Carvalho Faria
e
Madalena Vaz Pinto


quinta-feira, dia 09 de julho, às 14 h.

R. Luís de Camões,30
Centro – Rio de Janeiro
Tel: (21) 2221-3138

Entrada livre

Organização
Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras
do Real Gabinete
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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Lançamento de "Satolep", de Vitor Ramil

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terça-feira, 23 de junho de 2009

O nascimento de Vênus, de Tânia Tiburzio

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Manhã de domingo, calor. Um leve incomodo no ventre. A noite havia sido agitada: sonhos e pesadelos, medo e excitação.
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Ela se levanta, uma estranha sensação percorre seu corpo, se olha no espelho demoradamente e meticulosamente. Apalpa seu corpo. Os pequenos seios se insinuam pela camisola fina. Os cabelos curtos mostram a curva do pescoço.
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Olha-se no espelho mais uma vez e se descobre bonita. Sorri.
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Os olhos faíscam, o ventre dói e ali no espelho, não mais se vê, é outra. Outras mãos, outros pés, outro ser.
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Vê-se mulher e o corpo se contrai bruscamente. Se contorce com a dor mas sorri e compreende que naquele instante morre uma e nasce outra.
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Morre a menina e nasce a mulher no sangue quente que escorre por suas pernas.
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Tânia Tiburzio
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domingo, 21 de junho de 2009

Retrato de uma Infanta, de Raquel Naveira

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Este é o retrato de uma princesa,
Uma infanta,
Que jamais foi rainha
Mas que guarda
Na palidez da face
Uma tristeza oculta,
Um sofrimento
Que a torna imortal
E santa.
O retrato da princesa,
Pequena infanta
Vestida de negro,
Diz que ela nunca se casou,
Que sucumbiu
No auge da vida
A uma febre,
A uma chama
Que a consumiu
E fechou-lhe a garganta.
O retrato da princesa,
Pobre infanta,
Mostra um corpo frágil,
Uma cabeça erguida,
Uma testa ampla,
Gerada por príncipes,
Talvez das Astúrias,
Há no seu olhar
Um fascínio que encanta.
No retrato da princesa,
Um espelho ao fundo
Devora a sua imagem,
O seu sonho de infanta.
Seria ela Margarida?
Amélia?
Maria?
Teria sido solitária,
Exilada,
Sem reino,
Sem destino,
Decapitada?
O que há nesse retrato
Que tanto me espanta?
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Raquel Naveira
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sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Jardim da Oposição: hoje, no Parque Lage

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Uma escrivaninha “abandonada” no museu de Guimarães Rosa, por Fabiano Mafia Baião

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Num domingo do mês de abril, quando estava em Codisburgo, na casa de um grande amigo, fui ao museu de Guimarães Rosa. Acompanhava o Rodolfo e a Ruth, sendo que o primeiro fora até este para pegar sua bolsa, e assim, retornarmos à Belo Horizonte.

Na porta do museu, que é assentado na casa onde o escritor quando menino morou, postei-me a observar sua estrutura física de uma época já antiga, e que remetia aos olhos os tempos de meus avôs e das “molecagens” de Guimarães.

As portas e janelas de madeira, as hastes na parede que traziam luz, o conjunto em si embelezavam a mente na percepção da beldade vetusta, isso, me deixou com um ar de inveja, por só agora ter estado ali.

Já no interior, aproveitei para vasculhar um pouco sobre a vida do autor. Contemplei fotografias antigas na parede, em seu quarto, a cadeira de balanço que embalava sua imaginação, a cama onde muitos sonhos repousaram e na mesinha que avistei ao lado, as gravatas que o engomavam, no outro canto, o armário onde seus ternos descansavam.

Mas coleando pelos cômodos, cheguei até uma salinha onde havia uma mesa, toda de madeira, grande e de extrema lindeza, na parede só pude observar um quadro que expunha o certificado da Academia de Letras do escritor, e a data a qual este virou “imortal”, 16 de novembro (lembro-me bem desta pelo fato de se tratar do meu dia de anos). No mais, nada prendia meus olhos, pois o ar de mistério daquela escrivaninha planava por quatro paredes, e vestígios de ocultação me chamavam à atenção.

Pus-me a rodear aquela mesa, objeto que pertencia a sua biblioteca de seu apartamento no Rio de Janeiro, quando de repente bafejam em meus ouvidos: Foi em cima desta mesa que o encontraram morto! E mais tarde, já em Belo Horizonte, vim a descobrir que ele foi encontrado debruçado e já falecido pela neta, no dia 19 de novembro de 1967 na “cidade maravilhosa”, morte que adveio de um malfeitor anti-literário, o infarto.

Quando fiquei a sós no recinto, e de olhos presos em indagações de tudo que se passara naquela mesa e cadeira, notei que lágrimas escorriam da madeira, mas não eram lágrimas de tristeza pela morte do poeta, mas de saudade dos velhos tempos em que ela e o escritor eram grandes amigos, dos tempos em que os estros de Rosa eram em sua companhia transcritos, dos tempos que servia de aconchego para embalar devaneios. O poeta havia lhe abandonado, estava ali deixada às traças, e nem um outro, ousou até então, lhe dizer um poema, lhe contar uma estória, para acalentar seu pobre coração que aparava-se em desespero e agonia.

De olhos tomados pela emoção, sentia que era meu dever, não podia deixar uma agonia perdurar por mais de 42 anos, então, fui à busca nos bolsos de minha calça de um poema, era impreterível, e na minha mão, meu poema - Guimarães Rosa vive em odoríferas rosas - surgiu, e foi quando comecei a recitar que a grande Rosa, de minha boca, baforejava aquele aroma pelo cômodo e partículas de sua essência poética apascentava-se na superfície da vetusta madeira, e no reencontro com o poeta, enfim poderia viver em delírio.

Retornei para Belo Horizonte com um ar de tranqüilidade, pois o abandono, feito pela maldade do humano, havia sido suprido, não por mim, mas pela poesia que tinha a grande Rosa, pois nela, tinha um pouco de Guimarães Rosa.
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Fabiano Mafia Ferreira Baião
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segunda-feira, 15 de junho de 2009

cadente, por Danilo Maia de Oliveira

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Eu fui às asas e o voou
cadente
Fui caminho entre rios
perdidos
Fui a jornada e o abrigo
Da escuridão
Ferida e consolo
Das velhas chagas
Fui mistério e desvendado
Em sua mente
Fui veneno e poção
Para teus filhos
Fui à guerra e a rendição
Da massa
Sangue lagrima e lamentação.
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Danilo Maia de Oliveira
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brincando de nada

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saltita no lago
a pedra depois submerge
dois olhos no vago
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Octávio Roggiero Neto

quarta-feira, 10 de junho de 2009

DESAFIO POÉTICO: haicai por Marcos Queiroz

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Além da fronteira
Continua sempre o mesmo
O Verde sumindo
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Marcos Queiroz
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domingo, 7 de junho de 2009

Evento: "Sempre Um Papo", amanhã em BH

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sexta-feira, 5 de junho de 2009

Henry Miller, novo poema de Luiz Coelho

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entre as pernas, dínamo,
e diante de si, em suor, a 66,
além do desejo de atravessar,
aos arranques, a fronteira
que me traz de volta ao Pacífico,
mesmo que o meu mar esteja
vermelho (ou seja isósceles o triângulo
da bermuda de velcro e os quebra-molas
provoquem cancros) lubrifico teus trópicos
pronto pra romper primeiro
o áspero asfalto dos anos
a seco.
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Luiz Coelho
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terça-feira, 2 de junho de 2009

FOTO BOLHA: Flagra na Casa das Rosas em SP

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

pro seu baile à fantasia, de Valquíria Rabelo

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subo escadas pra cuspir do alto
do mais alto que puder
e não sou homem,
e não masco tabaco

escavo a descida escarrando alturas
até doer
até ser delícia

amarro meu pé em minhas meias
passo boca no meu batom
pra cair na sua piscina
de terra seca e azul
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Valquíria Rabelo
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domingo, 31 de maio de 2009

Aspira(dor), um novo texto de Luiza Vilela

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O Tamanduá-bandeira tem apetite para formigas e nasceu com um aspirador; uma dessas maravilhas da natureza, milagre da especialização. Gosta de formigas, caça formigas, aspira formigas — está satisfeito. Sem essa baboseira de ter apetite pra tudo, de querer sugar para sí todos os sonhos do mundo. Somos anatomicamente incompatíveis com esse desejo. Quisera eu, uma pelagem cinza com imponente listra preta, um formato assustador e vontade de formigas apenas; formigas e só. Eu aspiro, aspiro, aspiro e só expiro pó.
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sábado, 30 de maio de 2009

Caleidoscópio, poema de Manoela Ferrari

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No tubo
cilíndrico,
fragmentos móveis,
e vidros coloridos
no fundo.
Milhares de imagens
combinadas,
sucessivas,
refletidas
sobre um jogo
de espelhos longitudinais.
Chuviscos amarelos,
bolas azuis,
faíscas vermelhas:
formas amorfas,
disformes,
multiformas.
Formam imagens
múltiplas, desconexas, sucesssivas...
Mas não se deixe cegar pelo que vês,
não se deixe enganar pelo que lhe a
parece.
Seu olho não vê magia:
tudo não passa de simples imagens.
Não há sonho, não há fantasia:
só ilusão.
Tudo heresia!
Relaxe e aproveite o brinquedo!
É apenas uma coisa,
um objeto
sem enredo.
Simples caleidoscópio,
sem segredo,
sem apelo.
Larguem essa postura
Simbolista do exagero!
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Manoela Ferrari
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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Banda Contra-capa, hoje no Circo Voador!

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A banda Contra-capa, que estrela a coluna Futuros Estouros da edição #26 do jornal Plástico Bolha, se apresenta hoje pela primeira vez no Circo Voador. Todos lá!
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

A tal metade da laranja — por Flávia Jordão

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Sempre achei bastante curiosa essa questão da chamada alma gêmea, cara-metade ou qualquer que seja o nome que dão por aí. Até o Houaiss já deu sua opinião sobre o assunto: “o parceiro amoroso com quem se pode encontrar mais afinidades”. Aparentemente, todos estão em busca dessa parte faltosa de si mesmos. Porém, eu gostaria de levantar o dedinho e apresentar algumas dúvidas.
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Suponhamos que eu passe a vida toda procurando minha soulmate e, quando estiver velho e exaurido da missão, perceba que isto não está perto de acontecer e talvez nem venha a acontecer de fato. E agora? Eu sou, então, uma pessoa incompleta, sem grand finale, só um esboço, só uma ânsia, um projeto, metade de um ser? Queira me desculpar, amigo, mas eu não tenho paciência para “feitos um para o outro”, para “estava escrito nas estrelas” e, muito menos, para “o destino nos uniu”. Não me importo! Pode estar escrito na terceira constelação zodiacal que eu não assino, não compro a ideia, não!
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Sou todo, preenchido, o máximo da perfeição, não carente de nenhum elemento ausente, parte, pedaço ou metade (leia com desdém, por favor). Afinal, que tipo de Deus ocuparia seu Gênesis com criaturas não terminadas? A minha certeza de que ninguém precisa de nenhum outro alguém para transcender é mais do que absoluta. Aqui, sim, eu assino.
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Não que eu não aprecie uma boa companhia, carinho, beijos, sexo ardente, cineminha e pipoca, jantar à luz de velas, pieguices e intimidade. Assim como qualquer pessoa sã, eu também adoro isso tudo, mas, por obséquio, me providencie uma pessoa que não traga os pontos para eu ligar e, depois, ainda tenha que colorir. Já é trabalho o suficiente manter a minha própria completude.
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Eu quero um amor, uma história para contar sobre o dia em que duas completezas se uniram e descobriram como é delicioso compartilhar seus respectivos absolutos. Um paradigma de totalidade na vida de dois inteiros. Até porque, caro amigo, ser completo não é ser autossuficiente, não é ser egoísta e, principalmente, não é ser solitário.
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Flávia Jordão de Almeida
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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Evento: poetas do PB em recital no Leblon

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Evento de poesia na loja Isabela Capeto, no Leblon, com a presença dos bolhas Alice Sant'anna, Mariano Marovatto e Lucas Viriato. É amanhã e estão todos convidados!
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Esperança, novo poema de Raquel Naveira

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Estou grávida de futuro,
Como alguém que vai à cartomante
E ouve tudo que deseja.
A esperança tomou conta de mim
Em ondas verdes,
Diante de mar tão amplo,
Desmaio de sede.
Esperança violenta,
Se eu fosse virgem,
De repente teria me tornado mulher,
Noiva que cai nos braços da morte.
Esperança de transpor a porta do céu,
Tão estreita,
Tão fechada
Por gonzos de prata.
Esperança de ser quem sou:
Semente de mostarda
Que virou árvore,
Embora tarde.
Sobre o abismo,
Essa ponte,
Esse pilar,
Esse poder,
Caminho
E espero.
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Raquel Naveira
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terça-feira, 26 de maio de 2009

FUTUROS ESTOUROS: show de Adriana Maciel

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Assinada por Mauro Rebello, a coluna Futuros Estouros do jornal Plástico Bolha já tratou de diversas bandas e músicos como DoAmor, Os Azuis, Alexia Bomtempo e Contra-Capa.

Para o próximo número, teremos a cantora Adriana Maciel estrelando a coluna. Adriana, que atualmente está fazendo mestrado em Literatura na PUC-Rio, já lançou diversos CD’s e é mais que um estouro.

Quem quiser conhecer um pouco mais do seu trabalho pode ir ao show do seu novo CD, Dez Canções, amanhã, quarta-feira, 27 de Maio, no Hideaway, em Laranjeiras. O disco é belíssimo e o show imperdível!
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

CLIQUE AQUI: Associação de Intérpretes

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Quer saber mais da profissão de intérprete de conferência? No site da Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (AIIC), você vai conhecer o código de ética, que determina normas de confidencialidade, de ontologia e prática da profissão e ter acesso a links de interesse. Vale o clique!
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domingo, 24 de maio de 2009

Filosofias de um fumante, por Rafael Castro

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I
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Cigarro mal-apagado
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Assim do Homem é a vida —
Miúda brasa a queimar
Enquanto o vento da alegria
Ou do infortúnio a atinja
Até a chama se apagar
E reste apenas pó,
E cinzas
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II
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Forma e sentido
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E cinza a vida é fumaça
Que esvai, voando: no ar
Não há forma nem quente nem marca —
E de repente
Nada há mais que fumar
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Rafael Castro
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Em cinza, um poema de Laura Assis

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Espaços contigo.
Doces como caminhos
que nunca serão construídos.

— Dias viraram noites,
clarearam dias e
se tornaram noites
que amanheceram.

Verbos medidos.
Ânsia se afoga
no timbre do que eu não digo.

— Palavras queriam ações
mas não eram ações
foram palavras
e aconteceram.

Amoldam-se os cantos.
Deságuam no branco
do meu traçado sem plano.

— Versos que criaram olhos,
escreveram pele
e te sentiram
não se perderam.

Ouvir de você
as três palavras.
Clichês.

Desfaço em medula
o corpo do seu desejo
sem ver.

Amanhã saberemos:
o mundo é tão maior.
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Laura Assis
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

LEITURAS ESPARSAS: Projeto Livro Falado

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Você sabia que um livro possui olho? E, antes de começar sua leitura, já reparou atentamente a primeira capa, a segunda, a terceira e a contracapa do livro que tem em mãos? Não se pode deixar de reparar no expediente também; sim, os livros possuem expediente. Enfim, essas são só algumas partes que quase todo livro possui e que, muitas vezes, com nossos olhos famintos e desajeitados, nem percebemos.

Analu Palma é a idealizadora do Projeto Livro Falado, que tem como objetivo levar aos cegos obras literárias na voz das pessoas que queiram aprender como ler de forma correta e fazer as gravações através das oficinas que, atualmente, acontecem às segundas-feiras, no Centro Cultural Justiça Federal.

Foi uma surpresa; primeiro, por descobrir esse grupo de ledores, apaixonados por literatura e dispostos a compartilhar e levar grandes obras de escritores brasileiros para os cegos e, segundo, por perceber como podemos ser poucos sensíveis e atentos ao pegar um livro. Fazer a oficina do Livro Falado é como encontrar um livro pela primeira vez.


Camila: De onde partiu essa vontade de criar o Projeto Livro Falado?

Analu: O projeto surgiu há dez anos atrás. Eu sou zen budista e, em uma meditação, me veio a intuição de que deveria fazer esse trabalho. Não tenho ninguém cego na família, nunca tive que lidar com cegueira, nem conhecia absolutamente nada desse universo. Daí aproveitei na verdade dois privilégios que tenho na vida: o primeiro é o de amar o livro imensamente; pensei, “Nossa, existem pessoas que não têm acesso ao livro, eu posso doar isso”; e o segundo é a minha voz trabalhada de atriz pra fazer com que essas pessoas conheçam o conteúdo de livros. Então, uni duas habilidades numa missão que eu acho que tinha pra fazer na vida.

Camila: Você fala de inclusão...

Analu: Talvez a parte mais interessante da sociedade em que vivemos seja esse olhar inclusivo, a gente tentar apreender todas as diferenças do ser humano, aquele que não enxerga, aquele que não ouve, aquele que tem dificuldade de andar, a pessoa muito obesa, o idoso... Acho que isso é um diferencial da nossa sociedade contemporânea, buscar integrar. Na verdade, incluir nem é mais a melhor palavra; integrar, sim, é melhor. Todas as diferenças humanas como possibilidades diversas. Então, trabalhar para essa integração e especialmente pra difusão do livro! O livro é uma coisa genial, você abre e mergulha em conteúdos que você nem imaginava. Trabalhar nisso tem me feito muito feliz.

Camila: Como é feita a seleção dos livros? Existe um critério ou posso ser ledor de um livro de que simplesmente gosto?

Analu: Pode. Dentro do Projeto Livro Falado o critério que tenho usado é o de escolher autores brasileiros vivos. Por quê? Porque a minha tentativa é de diminuir a distância entre a produção contemporânea de livro e a pessoa cega. Porque essa pessoa cega está ouvindo um autor que vai à Bienal, que vai dar uma entrevista aqui e ali; então, se ela puder conhecer o conteúdo desse contemporâneo vai ser algo um pouco melhor, não é?

Camila: Geralmente quem são os ledores?

Analu: Primeiro de tudo, pessoas que gostam de ler. Segundo, pessoas que ouviram falar do Projeto e se sensibilizam com a proposta. Terceiro: são pessoas que já pensaram em diversos momentos de sua vida em fazer esse trabalho. Na maioria absoluta são mulheres. Como você pode ver nesse grupo, temos apenas dois homens.

Camila: Agora, uma curiosidade que tenho. Por exemplo, Borges ficou cego e Beethoven compôs suas maiores obras depois de surdo. Eles “perderam” seus sentidos, mas Beethoven tinha memória auditiva suficiente para compor, e Borges desenhava seus escritos mentalmente, antes de ditar à Kodama. Você acha que com o Livro Falado, os cegos podem ter contato com os livros de uma forma que posteriormente os faça ter vontade de escrever?

Analu: Existem vários autores cegos; por exemplo, o Glauco Mattoso que é um poeta paulista maravilhoso com vários livros editados, é um trabalho brilhante pra gente conhecer. Ainda no Brasil temos a Virgína Vendramini que, além de ser poeta, é também uma tapeceira. A gente tem um esloveno, Evgen Bavcar que escreve, é professor de filosofia da Sorbonne e é fotógrafo. Então, temos expoentes maravilhosos que produzem literatura, artes plásticas, fotografia aí no mercado, claro que com mais dificuldade que uma pessoa sem deficiência. Dificilmente consumimos a gente consome a arte de pessoas com deficiência porque nem sabemos de sua existência. Esse processo da inclusão começa também com a gente levando ao consumir o produto feito por essas pessoas.

Camila: Também tem uma coisa delicada, que é, por exemplo, comprar o livro porque o autor é cego; daí temos uma curiosidade diferente que não é a mesma que nos leva a escolher o livro de um autor não cego.

Analu: O importante é tirar esse adjetivo. Na verdade essa pessoa é um artista. Ter deficiência visual é só um termo secundário, mas para isso é importante que ele também já saiba se colocar como um artista, e não como um artista com deficiência. Acho que é um caminho de mão dupla que precisamos aprender.
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Para quem quiser conhecer mais o Projeto Livro Falado é só clicar aqui!
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Lançamento: traduções inéditas de Machado

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Nossos amigos da Livraria e Editora Crisálida, de Belo Horizonte, convidam para o lançamento do livro Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis (ainda inéditas), organizado por Jean-Michel Massa. Serão dois eventos, um na Livraria Cultura (São Paulo) e outro na Livraria da Travessa (Rio de Janeiro), ambos com a presença de Jean-Michel Massa.
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terça-feira, 19 de maio de 2009

Capivara da Lagoa, poema de Luisa Noronha

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A capivara da lagoa
Vivia numa boa
Sem pensar em labuta
Ela reinava absoluta

Pegava sol o dia inteiro
Pastava no gramado
E ganhou um companheiro
Que muito foi de seu agrado

Agora sim estava completa
Tinha a companhia ideal
Para uma volta de bicicleta
E sua caminhada matinal

Mas um dia sem aviso
Ele tomou chá de sumiço
Tão depressa como veio
Logo se foi seu parceiro

A capivara ficou desolada
E fez da dor sua morada
Varava noites em claro
Sonhando com o seu amado

Então decidiu sair da fossa
Pois tinha muito que fazer
Era sócia do Caiçaras
E do clube Piraquê

Num dia tal
Sei lá por que
Atravessou o canal
E virou estrela de T.V.

Antes disso
Criou grande reboliço
Procurando seu amor
Nas pedras do Arpoador

Mas ninguém aceitaria
Esse ato de rebeldia
Vai ser mantida em cativeiro
Assim falou o bombeiro

Pobre capivara
Por essa ela não esperava
Maldisse a sociedade
Por punir quem tem saudade
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Luisa Noronha
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

SARAMAGO: anticristão ou humanista?

(por Ana Couto Paiva)
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A despeito de todas as críticas feitas ao livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do autor supracitado, resolvi eu mesma fazer um registro das minhas impressões sobre alguns pontos da obra, sem o objetivo de discutir a veracidade de seu conteúdo (até mesmo pelo seu caráter de ficção).
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Não obstante Saramago, o famigerado autor português, seja um cético, este conseguiu relatar, de maneira peculiar, a vida de Jesus Cristo, mártir das igrejas cristãs, reduzindo, por assim dizer, sua vida em todos os seus aspectos a uma passagem humana e improvável pelos seus seguidores.
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As passagens bíblicas, tangentes à vida de Jesus, não pormenorizam sua porção “humana”, mas traçam o perfil do “filho de Deus”, envolto de uma santidade irrefutável.
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Os pontos mais polêmicos do livro, a meu ver, são a relação de Jesus e Maria de Magdala (hodiernamente tão discutida por agnósticos e mesmo por historiadores), e o malfadado fim de Judas de Iscariote.
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O “Jesus” de José Saramago é renitente, lacônico (já o era antes, biblicamente), taciturno; amarga uma culpa herdada pelo pai terreno, José, e cede às tentações da carne, quando opta por viver em concubinato com Maria de Magdala.
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Não se fala, como outros autores o fazem, na descendência dos concubinos, mas na forma mais humana possível de uma relação entre um homem e uma mulher, sem geração de frutos.
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Jesus, após alguns anos passados distante da família, retorna ao lar com o intuito de revelar aos seus a sua condição suprema de filho de Deus. Contudo, no caminho de volta, passando por Magdala, bate à porta de Maria, sem saber quem lá morava ou de que ofício tirava seu sustento. Tendo os pés feridos pela caminhada, procurava tão-somente quem pudesse aliviar sua dor.
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Impressionado com as formas da mulher, de idade superior à sua, com seu perfume, com o tratamento que dela recebe, acaba cedendo aos seus encantos de meretriz; impressiona-se ainda com sua cama luxuosa e com a estranha intimidade que cria com ela.
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Retornado ao lar, e diante da descrença de sua família em relação à sua origem divina, termina por voltar ao seio de Maria de Magdala, donde fica por algumas semanas, vivendo com ela até o fim de seus dias.
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Nada surpreendente para os tempos modernos. Todavia, pensar numa relação primordialmente carnal, sobretudo há dois mil e nove anos (um pouco mais), é quase impossível! Jesus teria tirado Maria Magdalena da vida até então prostituída para viver com ela em prostituição.
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Inimaginável tal situação, não pelo fato em si, mas pela época em que teria ocorrido. Amavam-se, entendiam-se como amigos; mas viviam em concubinato. À exceção de qualquer influência religiosa, nem nos meus pensamentos mais liberais conseguiria admitir a hipótese de Jesus viver essa relação com Maria Magdalena.
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Não seria menos louvável o Nazareno se com ela se tivesse casado. Mas repito: inadmissível seria naquele contexto histórico, e, portanto, improvável, que vivessem ambos tão liberada relação e, cumpre-se dizer, tão humana (mais, impossível).
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No tocante a Judas de Iscariote, este teria se resignado a ser eternamente condenado pela humanidade.
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Prestou-se o discípulo à árdua tarefa de denunciar Jesus às autoridades romanas, para que fosse preso, julgado e condenado. Observe-se: a pedido do próprio mestre, quando os demais se recusaram a fazê-lo. E ao praticar tal ato, mesmo provando sua lealdade, tão arrependido ficou, que pôs fim à própria vida, suicidando por enforcamento.
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Aqui, concordo com o autor, pois me parece impossível pensar que, já sabendo Jesus de seu destino, fosse surpreendido pela traição de um dos seus seguidores.
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Foi Judas o grande traidor ou o fiel incondicional? Mais pertinência tem a segunda hipótese, e mister ressaltar a valorosa coragem do apóstolo, não só a de cumprir a difícil tarefa, como a de suportar para sempre a condenação póstuma.
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Por fim, a leitura dessa obra tão polemizada e alvo de censura até, é das que eu recomendo para quem ainda não a fez.
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O aspecto totalmente humanizado — e concomitantemente anticristão — que Saramago confere ao personagem principal, a completa diferenciação desta história à já conhecida versão bíblica, nos remete a um outro universo, desconhecido, e nem por isso, menos intrigante.
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domingo, 17 de maio de 2009

Lançamento do livro de Guilherme Zarvos

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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sala de Espera, um poema de Sérgio Medeiros

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Numa dessas salas
em que todos esperam algo,
sempre há um cheiro de tédio
e revista de fofoca.
E há pessoas com seus rostos
enigmáticos, que parecem
querer não demonstrar nada,
e dizer apenas que estão aguardando,
sem vontade, sem pressa,
sem receio e nem anseio.
Mas, um dos rostos descuida-se
e, num movimento rápido,
deveras revelador,
deixa ver uma meia infantil,
dessas que eu compraria,
se tivesse uma filha de seis anos.
Fico então a imaginar
os filmes que esse rosto vê,
e os livros que gosta de ler.
Agora, somos quase íntimos.
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Sérgio Medeiros
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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Marona: pequenas biografias não-autorizadas

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pequenas biografias
pequenas poesias
com os bagos sujos
de versinhos brancos

quem te autorizou?
quem é o autor?
quem abriu a boca?
eu é que não fui

um grande erudito
certa vez me disse
viva a poesia
dentro de um puteiro

e essas discussões
sobre a poesia
sobre artilharia
meu deus, quanta frescura

(aposto que você deve
morrer de irritação
quando vem alguém e diz:
escreve sobre o fulano?)
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Paulo Gravina
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Após terminar a leitura do livro de estreia de Leonardo Marona, Paulo Gravina não se sentiu autorizado a falar nada sobre ele. Então, seguindo o exemplo do autor, resolveu poetizá-lo. Leonardo Marona já participou de cinco edições do jornal Plástico Bolha e foi capa da edição #25. Três desses poemas estão em seu mais recente livro, inclusive o seu poema narrativo publicado no atual Desafio Poético.
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Lançamento de Estelar, de Alice Monteiro

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terça-feira, 12 de maio de 2009

Vermelho Bordeaux, poema de Henry Pablo

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Enrolaste na cortina do bordel dizendo
que era seu vestido. Nada contra os bordéis,
é que a Cortina era velha. Da próxima vez,
me avise, eu compro um vestido para você.

Enrolaste na cortina do bordel para combinar
Com a cor do seu cabelo. Vermelho bordeaux.
Deixaste a sala menos aconchegante
por um simples capricho. Da próxima vez,
eu compro um bordel para você.

Enrolaste na cortina do bordel
Dizendo que era seu vestido.
Fizeste da cortina vestido para que eu
Pudesse retirá-lo pessoalmente e
Transformá-lo em retalhos.
Da próxima vez, permaneça nua.
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Henry Pablo
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Poema como mote para a solidão sem fim

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Os tubarões andam se alimentando de surfistas.
Aquele navio asiático permanece ancorado
com porões cheios de carne estragada.
Tenho medo, mamãe, do Canibal de Milwaulkee.
Tenho medo do assassino que mata casais na praia.
Tenho medo de ser torturado por policiais por causa do beijo que dou em meu namorado – cobram caro pelo flagrante de um abraço.
Não temos glória, mamãe.
Só uma luta infinda.
Pedradas, imprecações!
Eles não nos aceitam, mamãe!
Só suportam nossas cores,
nossas gargalhadas,
nossos falsos decotes,
nossos quadris,
peitos e bundas
de silicone e anabolizantes.
Mas somos mais desaforados que eles, mamãe.
Porque não podem nos eliminar a todos.
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Tom Zine
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Evento Internacional de Poesia em Maricá

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MARICÁ SE FAZ PRESENTE
em mais uma edição do Evento Internacional de Poesia:
“PALAVRA NO MUNDO III”
Período: 14 a 17 de maio de 2009

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Sob a Coordenação Geral (Maricá) das escritoras e produtoras culturais Maria Regina Moura e Patrícia Custódio. Mais de 40 países, mais de 100 cidades, mais de 300 pontos de encontro para leituras simultâneas de poesia, com 2 coordenações no exterior — uma, na Argentina; outra, na Itália — em mais uma edição do Evento Internacional de Poesia.
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Informações: Canteiros de Obras : (21) 2636 0012
http://www.canteirosdeobras.com/
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DESAFIO POÉTICO: primeiros versinhos

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whisky com guaraná
tequila com limão
seu copo eu aceito
você num quero não
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Luciana Mutti

ULISSES (REMOENDO-SE TODO)

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........por sua vez, ela terá escrito um best-seller oportunamente batizado de “Ausência” (“A Tua Ausência”, “Dilacerar-se de Ausência”, “Ulisses Ausente”), ter-se-á feito fanal das mal'amadas, as postas de parte, as deixadas pra tear — vertida em línguas que nem sonham existir, terá feito a burra do dinheiro, terá mandado Telêmaco aprender os clássicos em Harvard, Princeton ou Yale
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domingo, 10 de maio de 2009

náusea, um poema de Danilo A. Briskievicz

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saio cedo
não acordo
ninguém

saio cedo
não provoco
alguém

eu me vou
como outros
vão

eu me parto
como outros
dão

o dia se faz
e me desfaz