sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Lançamento dos minilivros "Para quando faltarem palavras", de Luiza Mussnich, e "O caçador de ginseng", de Ana Bartolo



Dèjá vu


A Bahia da minha lembrança,
onde me banho
desde o princípio,
corre por ladeiras à boca do céu,
escapa,
mas não passa de mim.

À distância,
no encalço da imagem indefinida,
ganha a forma de um
desejo íntimo.
Alcança meu tamanho,
de mim não passa,
bate no teto dos
meus (quase) trinta anos.

Trago seu canto sem saber palavra.
O saber das ruas e das coisas,
de olhá-las
e guardá-las. Onde mais
o esquecimento, mais o amor,
não palavra,
irrompe de um gesto,
que é todo o movimento,
                          das folhas aos pássaros,
de perder e achar e
querer e não falar.

Tem essa Bahia o viço
da pele ingênua debaixo da barba,
donde brota já
o primeiro fio de cabelo branco.
Terra sempre nova
que por algum feitiço
hesito pisar.
Põe-se a meio caminho, noutro plano.
Bahia que é minha e
dos baianos.

Daniel Marones

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Refúgio e suas margens/deslocamentos e acolhida a Venezuelanos no Brasil: reflexões preliminares



Granada


Da mancha no olho casto
Do prurido na pele branca
Dos calos relevantes no pé 33
Das paisagens que sobram na cama
Leio Azevedo por 3,99
O primeiro livro vendido no bazar
Segundo a caixa
Pedido de ordem nas cruzadas
Não sei a capital do Líbano
Sugiro Lindóia do Sul
Muita letra
“Não sei”, por fim, nos une
Uníssonos
Tocamos cabelos e formigas
Nas paredes mofadas
Nos panos de pia
No pacote de lixo
Na folhagem que atrai abelhas
Nas folhagens que nos une
Que regamos com suco de limão
E adubamos com erva molhada
Assim sentamos à margem
Das tristes notícias do erro comum
Das traças viciadas em naftalina
Dos equívocos das tesouras com ponta
Do nome no lápis sem ponta
Da taça trincada por um erro comum
Dos beijos si-lá-bi-cos
Voltamos a caminhar
Torcemos nossos corpos
Na quina do sofá
Na porta do box
Achamos engraçado esse porte de arma
Quebramos, esparramamos
Os cacos da porcelana verde por dentro
Vamos embora, vamos embora
Nosso chão tem carvão em brasa
Nossos símbolos vestem chapéu
Nossa ternura usa bigode
Nossas extravagâncias estão no sótão
Deixo a toalha de banho marcada de cera
Uso dois pingos de gel
Repito a cueca
Corto as unhas dentro do cinzeiro (um pote de metal para presente)
Cheio de ilustrações geométricas
Mas saem voando, capazes de orbitar
Vamos embora, vamos embora
Ela deixa rastros de primavera pela casa
Ela queima como um verão bêbado
Ela é outono quando sonha e inverno quando chora
Suas toalhas de banho têm cheiro de pêssego
Seus cigarros ardem como incenso
Damos nomes aos insetos que respiram pela boca
Das patrulhas pelas travessas
Do mendigo que fala chinês e mendiga em espanhol
Da noite que embrulha a ópera
Dos centímetros que separam metros
Do último furo no cinto
O álibi como um simples não
À margem, à margem
De um confuso ato
Os espelhos podem marinar
A recompensa que nunca acaba
Ela já está dormindo
Minha lira de 29 anos

Ramon Carlos



Ramon Carlos (Santa Catarina, 1986). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Sua carreira literária resume-se a dois contos publicados em uma antologia, além de materiais diversos em revistas como: Inutensílio, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau, Bacanal, Ruído Manifesto, Literatura & Fechadura e Jornal Plástico Bolha.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Plástico Bolha no evento Edição comentada: estudos sobre o livro



No dia 12 de dezembro, quarta-feira, João Moura Fernandes, membro da equipe do Plástio Bolha, estará no evento do Selb falando sobre edição de poesia.

Para mais informações, clique aqui.


Figurando um planeta


Houve um tempo em que tudo era mais simples e plano. Até o planeta era plano. Um mundo do tipo match column A and column B:

(1) céu                     ( 1 ) conecta duas unidades em uma oração
(2) da                       ( 3 ) para muitos, representa onde tudo começa e onde muita coisa termina
(3) boca                   ( 2 ) frequentemente aparece em caso de posse inerente

Nesse mundo, correspondências eram óbvias. Os nomes dados às coisas eram seus nomes certos, e era possível dizer por meio da palavra o que era e o que não era. Quanto às orações, não a todas cabia um julgamento entre verdadeira ou falsa: às orações, por exemplo, não cabia. Assim, os habitantes desse mundo não eram deixados cair na tentação de misturar da linguagem suas parcelas racional e poética; amém.

É importante (?) declarar qual seria a parcela racional e qual seria a poética, porque, estando em outro mundo hoje, pode ser que não tenhamos esses aspectos tão evidentes – não sei bem se algum dia alguém os teve de fato, mas sei que acreditavam ter. À parcela poética correspondem todos os usos metafóricos da linguagem: os usos escorregadios, bêbados, incertos, deslizantes. Um óbvio exemplo desses casos seria “Aqui minha nave se deteve”. Não pelo uso hoje bastante estranho da palavra nave (não significando uma nave espacial, mas sim um navio), ou por dizer que a própria nave se deteve, quando ela certamente foi detida por alguém, mas pura e simplesmente pelo uso do verbo deter-se. Sabemos, é claro, como falantes da língua, que deter-se é um termo genérico, e que a este caso melhor caberia o uso específico. Não sabemos? “Aqui minha nave ancorou” seria a forma literal de dizer tal frase; o fato de a nave ser personificada nesse caso deve ser, tal qual a resistência do ar, desprezado.

A outra parcela de linguagem, aquela que é racional, opera de modo diferente. Ela é simples, direta, e pode sempre ser julgada em verdadeiro ou falso. “Michel Temer exerce seu poder de modo ilegítimo”. Essa é uma declaração, puramente racional, suscetível a julgamentos subjetivos, desprendida de qualquer termo figurativo. Diferente de quando se diz que “Michel Temer, tal como um vampiro, suga nosso sangue”. Apesar de me parecer que essa também pode ser julgada como verdade, analogamente à primeira. Mas vai saber. Se são padrões tão bem delimitados e indiscutíveis, melhor não ficar procurando chifre em cabeça de cavalo.

Reasseguro aos leitores a certeza que esse mundo trazia de que as metáforas da linguagem são o simples transporte de nomes de uma coisa para outra. Claro, inteiramente controlado e regrado. O fato de a palavra “transporte” aqui ser usada também personificada e fora da sua forma mais tradicional e literal deve novamente ser descartado pelos leitores, mais perspicazes e atentos do que desejamos para o momento. Por enquanto fiquemos agarrados à impressão de que falas figuradas são erros em meio a um sem-número de absurdos, insinuadoras de ideias erradas e consumadas fraudes. Fora do meio poético, só servem para enganar e persuadir. Que nem os sofistas.

Mas eis que um dia o mundo arredondou. As pessoas também. Os entendimentos também. A linguagem também. Assim, ficava difícil definir tudo em termos diametralmente opostos, porque nada parecia ter só dois lados, como são as coisas planas. Ingenuidades precisaram sair de cena para dar lugar a dúvidas. E como dúvidas não têm valor em lugar nenhum, as explicações precisaram passar a ser tantas quantas pudessem ser as ocorrências. Precisamos das caixas. De muitas caixas. Nos munimos de um arsenal de caixas para fazer tudo caber e ser devidamente categorizado. Nunca esperamos nos deixar soterrar pelo excesso de possibilidades, nunca esperamos não estar num ponto alto o suficiente para recortar a onda e observar seu único movimento. (O leitor atento pode aqui observar que a ingenuidade nunca nos deixou inteiramente.)

A língua também foi vítima das caixas. A parcela racional foi lacrada e uma etiqueta que dizia GRAMÁTICA NORMATIVA foi colada bem na sua frente. Suas possibilidades de movimento foram lançadas ao mar aberto (e Palomar nem viu). Lá dentro dessa caixa, vários compartimentos foram colocados para delimitar bem o funcionamento de cada uma das partes. Tolinhos, nem viram que os conteúdos se liquefaziam e passavam por entre os compartimentos com muita facilidade. Os que não
se deram conta disso em momento algum seguiram firmes, acreditando terem resolvido todos os problemas da linguagem racional, sóbria e orientada, e partiram para a outra parcela.

A parcela poética, figurativa, periférica da linguagem também foi encaixotada. Na caixa, um papel que dizia METÁFORAS já vinha de fábrica colado. Consideravam que elas fossem um gênero do qual todas as ocorrências seriam apenas espécies; o guarda-chuva sobre o qual todas as emissões bêbadas se abrigavam. Depois parece que repensaram, encontraram mais umas classes que mereciam se juntar ao gênero, e mudaram para um nome mais genérico: FIGURAS DE LINGUAGEM. Diz-se também que no estágio inicial da caixa, não sentiram necessidade de colocar compartimentos, mas
depois viram que podia ser melhor ter lá um ou outro. Traçaram a princípio três: metáfora, metonímia e sinédoque.

Depois disso, parece que perderam o senso. Tudo desandou. Saíram dividindo e redividindo, e então dividindo uma vez mais para tentar abrigar caso a caso com a maior distinção e o maior detalhamento possível. Explodiram não sei quantas definições, e nunca deixam de surgir mais. Lembro-me que certa vez, pelos treze anos, dediquei dias ao esforço de redigir um resumo de toda a matéria do ano. Constavam lá as famigeradas. Eram, à época, onze: comparação ou símile (quem diria que comparar duas coisas era na verdade um recurso estilístico decorativo); metáfora; prosopopeia ou personificação; hipérbole; eufemismo; disfemismo; antítese; ironia; sinestesia; metonímia; antonomásia. A maioria delas era facilmente percebida em discursos correntes do dia a dia, portanto foi curioso perceber que seriam assunto de prova e tema de aprofundado estudo nos anos escolares.

Quando concluí que até tinha certo sentido debruçar algum olhar cuidadoso sobre esses fenômenos esquisitos, descobri que tinham mais casos: paradoxo; anáfora; pleonasmo; coisificação ou reificação. E mais: aliteração; pleonasmo sintático. E mais: silepse, catacrese, elipse, zeugma, quiasma. E hipérbato apóstrofe gradação assonância paronomásia onomatopeia polissíndeto assíndeto anacoluto perífrase e por aí vai aparentemente sem poder nem parar para respirar. Pausa.

Ouvi quinhentas vezes e disse aqui quinhentas e uma (hipérbole; zeugma) que as figuras de linguagem pertencem à parcela da linguagem poética. Ornamental. Figurativa. Decorativa. Talvez os habitantes do mundo plano olhassem hoje para o que fazemos com as metáforas e as enxergassem como golpistas que se apropriam de um lugar da linguagem a que não deveriam pertencer. Diriam: Não é certo que não encontremos outro nome para dizer pé da mesa ou céu da boca ou braço da cadeira sem que pareçamos ridiculamente desconectados da nossa própria língua. Não é certo que não encontremos força nas expressões literais para comunicar o que desejamos. Não é certo que não vejamos saída e forma de estar na língua que não envolva esta parcela que antes julgavam tão descartável. Não é certo que o inútil, recusável e imperfeito canto a que relegamos as figuras se misture e de repente seja tão racional quanto o campo racional.

Há algo que parece muito engraçado, curioso ou patético da parte dos que legislam sobre a língua (e aqui digo dos que de fato legislam, não de uma possível analogia com certo tear de que certa vez ouvi falar). Eles seguem buscando o estrito caroço de um conceito. Já existe uma palavra para falar sobre casos em que designamos a um ser um outro nome próprio para que se o reconheça, por exemplo. Não digo por isto chamar Montecchio de Capuleto; digo chamar Pelé de Rei do Futebol, chamar Rio de Janeiro de Cidade Maravilhosa. Mas alguém um dia achou que era bagunça colocar pessoas e tropos sobre a mesma classificação, e bipartiu: perífrase e antonomásia. Fez assim também para elipse e zeugma; metáfora, metonímia e sinédoque; e um bocado de outras variantes. Aliás, parece que fez assim para tudo. Explodiu em pormenores aquilo que nenhuma divisão ultradetalhada será capaz de encerrar.

Vazam. Vagam. Vagueiam. Esvaziam. Escorrem por entre os dedos as línguas os ares as mentes sem que sequer nos demos conta. Não damos conta. Nada dá conta. Talvez tentemos controlar a língua quando na verdade ela nos controla. Talvez tentemos chamar de metáfora uma parcela da língua quando ela é o todo e mais um pouco. Talvez pensemos no substitutivo em lugar de aditivo. Vai saber. Não sei. Concluo nada e penso muito. Deixo aqui em suspense o suspense de lidar com a linguagem figurada que talvez melhor seria dita linguagem protagonizada. Vai saber.





Caramba! Já agora, indo embora, me dei conta de uma falta gravíssima! Desculpe, leitor. Sabe o que é? Não me curei dessa doença de ser artista. Isso faz mal, a gente acaba imitando um pouco as coisas do mundo real sem nem perceber. É por isso que acabei copiando aqui uma frase ou outra de Platão, Aristóteles, Locke, Hobbes, Calvino, Eco, Helena Martins. Seria uma pena se eu ficasse de fora da República por um deslize desses... Mas, afinal, quem no Brasil hoje não está?

Yasmin Barros


sábado, 8 de dezembro de 2018

Corpo de Carne sobre um Corpo de Água - Lari Arantes





Corpo de Carne sobre um Corpo de Água é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

Edição comentada: estudos sobre o livro




Desde a sua inauguração, em março de 2016, o Laboratório de Publicações Lima Barreto vem trabalhando ativamente na difusão das práticas editoriais no Instituto de Letras (ILE) da Uerj. Mantendo-nos sempre alinhados à missão de fomentar, produzir e editar projetos acadêmicos e literários, exercemos nossas atividades com o objetivo de oferecer capacitação teórica e prática aos estudantes de Letras e de áreas afins para a atuação no setor editorial.

Em 2016, numa tentativa de atender ao interesse dos estudantes do ILE e de trazer de volta a uma Uerj em crítica greve alunos, professores, técnicos, estudos, discussões, produções, realizamos o ciclo de debates Mercado editorial: inserção, atuação e análise, um evento-teste, experimental em muitos aspectos. Neste ano, retornamos com um evento repensado, reestruturado, renomeado, o ciclo Edição comentada: estudos sobre o livro.

10 a 14 dezembro, manhã, tarde e noite
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Campus Francisco Negrão de Lima (Maracanã)
Rua São Francisco Xavier, 524
Maracanã – Rio de Janeiro, RJ – 20550-900

Para mais informações, clique aqui.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Jardins


Quando no outono das tardes sombrias,
Entre a caligem, nos gráceis abrigos,
Eu me recordo dos tempos antigos
De auras divinas, porém, fugidias...

Pelas soturnas ruelas esguias,
Na soledade dos ternos jazigos,
Jogo-me sobre os relvedos pascigos,
Molho teu leito de lágrimas frias...

Neste semoto moimento das dores,
Onde adormecem os nossos amores,
Desta fulgente e fugaz mocidade...

Ali, me perco e me encontro, em meus sonhos,
Na realidade dos tempos medonhos,
Nestes soturnos jardins da saudade...

Sérgio Márcio

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O torneio


Foi na esquina da Marnoco e Sousa com a Dr. Júlio Henriques, no Bar do Borges. O ano, penso que 2015. Era a final do campeonato de sinuca e o pequeno estabelecimento mal suportava a quantidade de estudantes que se apinhava ali, uns em cima dos outros, ao redor da mesa. O barulho intenso de risos, gritos e choque de copos invadia a rua silenciosa, às duas da manhã, e ecoava por pelo menos dois quarteirões acima, subindo na direção do Penedo. Quem entrasse por último não acharia possível dar um passo a mais em meio aos corpos que se apertavam, mas no final, sempre cabia mais um. Uma vasta e densa fumaça de cigarros se acumulara no teto, dando ares de neblina às fracas luzes da casa. Todo ano seu Borges colocava os móveis nos cantos e trazia a mesa que jazia sob o pó da garagem. As bolas, de tão velhas, perdiam a tinta, e a branca tinha traços pretos e indeléveis que algum inconsequente havia desenhado.

Durava cada vez mais aquela confusão, porque todo ano aumentava o número de participantes. Havia estudantes, professores e funcionários da Universidade de Coimbra tentando a sorte. Neste ano cinco finais de semana foram necessários para se chegar aos dois últimos contendores. Arthur, detentor do título, graduando de História, jogava com os incentivos da namorada, a francesa Delphine, que com a cabeça cheia de imperiais consumidos ao longo de pelo menos cinco horas, soltava, vez por outra, palavrões em sua língua pátria, logo encobertos por uma saraivada de impropérios lusitanos. Jorge, quarto ano de Medicina, argentino alto como um tronco de árvore, nunca participara de uma final, mas tinha naquele ano eliminado com extrema eficiência todos os seus adversários, que não foram poucos, diga-se de passagem. Ao contrário do seu oponente, que começava a ficar um tanto vermelho por conta das taças de vinho consumindo ao longo do torneio, Jorge não ingeria álcool. Em compensação fumava um cigarro atrás do outro.

A excitação era intensa. A partida ganhara ares de final de copa do mundo. Delphine, namorada de Arthur, de postura selvagem por trás dos olhos pequenos e pretos, explodia a aproximadamente cada vinte minutos, para reclamar dos cigarros: Mais arretez cette fumée de merde, connards!, ao que se seguia um murmúrio incompreensível de expressões confusas, oooooeeeoopáááá, ôôôôconarda é tu, ó parva! – e a fumaceira continuava. A gritaria só se suspendia um pouco em duas ocasiões: quando chegava uma nova rodada de cerveja, que Maria trazia a muito custo equilibrando a bandeja acima da cabeça, sob as orientações já não tão seguras do velho Borges, bêbado, os cotovelos no balcão, a observar a partida com seus olhos turvos; ou quando um dos competidores se preparava para dar sua tacada. Era um instante de silêncio, como se estivessem todos na quadra de Roland Garros, só entrecortado pelas vozes da francesa, que nesse instante encontrava sempre o que dizer, ainda que ninguém a compreendesse. Depois tudo voltava ao normal, as mesmas vozes altas, o tilintar dos copos, os gritos e conversas intermináveis, a variação nos valores das apostas sendo lançadas aos gritos de uma ponta a outra do bar, com o Pedro, um sujeito de óculos embaçados pelo suor que se mantinha em pé em cima de uma mesa, a anotar no seu caderninho o aumento ou a redução de euros envolvidos na jogatina.

A partida estava difícil para Jorge. Nunca chegara tão longe no torneio e aquela euforia mexia um pouco com seus nervos. Começou sendo praticamente massacrado, o adversário distanciando-se com segurança na pontuação. Depois, da metade da partida em diante, Arthur perdera a concentração, permitindo que o argentino se aproximasse. De tal forma que a mesa agora se esvaziava com equilíbrio, bolas eram encaçapadas de ambos os lados. O nervosismo não permitia que qualquer dos oponentes se impusesse e terminasse o jogo de uma vez. Erravam-se tacadas fáceis, e em lances mais difíceis, algumas vezes, ocorriam pequenos milagres. A torcida seguia as emoções do jogo como o par de uma dança excitante, com rompantes de alegria e momentos de decepção, a depender das afinidades, e à medida que se reduzia quase a zero o número de bolas, a tensão atingia o ápice. 

Os derradeiros movimentos eram a partir de então acompanhados por um silêncio profundo. A bola branca batia com violência nas outras, ninguém queria deixar de graça os últimos lances ao adversário. Além dela, só mais duas restavam no tapete verde. Na vez de Jorge, o futuro médico conseguiu pôr na caçapa a penúltima esfera e ainda deixou a branca numa posição perfeita para finalizar a última – a preta. Um murmúrio percorreu o ambiente, cabeças viraram para não ver e, sobretudo, para não ter que desembolsar quantias financeiras já estratosféricas. Arthur recostou-se no banco alto, segurando o taco encostado no chão, entre os dois pés, a ponta na direção do teto. Delphine segurava seu braço. Cochichavam-se comentários técnicos. Jorge se concentrava, a boca contraindo-se em meia palavra dita para si mesmo. 

Contaria mais tarde que refletira bastante sobre aquela jogada pouco antes de executá-la. Deveria colocar suavemente a bola, como exigia, certamente, a situação, ou finalizar com violência, para causar um efeito na plateia? A proximidade da vitória, o rush de sangue que lhe correu pelas veias foi decisivo: terminaria com uma forte batida de mão esquerda (era canhoto), tomando cuidado, claro, para posicionar o taco de maneira a que a bola branca não seguisse a preta no buraco, mas retornasse de onde partira. Posicionou-se. Jorge pôs a mão direita firme sob o taco, fazendo um “v” com o polegar e o indicador, ao passo que com a esquerda movimentava, num pêndulo preciso e concentrado, o instrumento da vitória. 

Tudo ocorreu muito rápido – muito mais do que o ritmo de qualquer narração. A pancada veio violentíssima, acompanhada por um estalo característico, mas decuplicado em intensidade sonora, e pelo grito de Delphine: nom de Dieu! A bola branca não se movera um milímetro. Não é que Jorge não a tenha tocado, ao contrário: acertou-a em cheio, justo onde queria, mas ela se manteve ali, imóvel, sólida como uma rocha, e o resultado foi o estudante sofrer o imediato contragolpe daquela imponente inércia: foi jogado para trás com a mesma força que havia usado para atacá-la, o taco partindo-se em dois e o jogador caindo de costas no chão, não sem antes atropelar uma cadeira, cujos quatro pés se quebraram como frágeis palitos de fósforo.

O estrondo de um trovão fez tremer os alicerces do Bar do Borges. Era a gargalhada dos torcedores, misturada a copos estilhaçados no chão e a gritos ensurdecedores de gozo incontido. Riam a plenos pulmões, apontando para o infeliz, como teriam feito de alguém que vissem tropeçar e cair no meio da rua. O argentino, estatelado no chão com as mãos apoiadas para trás, olhava o pedaço de madeira partido com ar assustado. Fixando a bola branca percebeu, pela primeira vez e antes do seu lendário desmaio, que o desenho que nela fizeram eram dois olhinhos pretos e uma boca. Os olhos o encaravam; a boca sorria.

Bruno Mendonça

sábado, 1 de dezembro de 2018

Retrato de Família - Laura Loyola




Retrato de Família é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Cidade vigiada


A cidade vigiada
tem seus medos
e angústias.

As largas avenidas e ruas
e sua l’architecture francesa
se despem à noite
aos ratos, fantasmas e bêbados.

Os currais...
Horizontes ali, tão belos!
A princípio postos ao chão,
subordinados ao tempo;
erguidos e assim – endireitados.

Suscito de razão.

A modernidade paira no ar
dos cafés e agora
velhas esquinas.

Nos contornos – e lá fora solidão do
Ocidente – os vossos parques e regimentos
De Terezas, Afonsos e Cristinas
mancham vossa liberdade
que nos sangra
e não nos
deixa
quietação.

Maria Tereza Amaral

Lançamento do livro "Sangue nos olhos", de Eber Inácio, na Lapa



quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um poema de Gustavo Zeitel


duas tatuagens escorrendo pelos braços
e dois olhos gordos. tão gordo,
que pareciam desejar sair do rosto magro
da vendedora magra. quero sorrir com você
mais vezes.

uma espanhola olhando os livros de drummond.
não tenha medo de mim, eu também leio poesia.
você diz não me achar sexy. você não me acha sexy.
quero o divórcio, mas nem perguntei teu nome.
remorso é um arrependimento para dentro.
aquele nariz pontudo era tão bonito quanto a face
jamais vista da menina que estava na gare d’annecy.

as última vinte e quatro horas passaram igual a um tgv. tudo
é leito de rio. à noite, vou colocar meus óculos escuros
e me masturbar. não posso esquecer de tomar
o anticoncepcional. as últimas vinte e quatro horas passaram
igual a um tgv. tomo um aperol spritz. tudo é leito de rio.

gustavo zeitel



gustavo zeitel tem vinte anos, nasceu no rio de janeiro e estuda jornalismo. o submundo do meu quarto (multifoco, 2018) é o seu primeiro livro de poesias.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Greve geral


O dia amanheceu azul.
Ela deixou a chaleira apitando e desapareceu.
Ou, partindo de outra interpretação,
Tanto a evocaram que
Brevemente acreditou-se em sua existência.
O monarca desnudo se fingiu atônito em horário nobre
Convocou os seus ministros tal qual o técnico sua seleção
E vendeu o mar e penhorou o céu para arrecadar fundos
Em suposta diligência pela moça cujo nome ele tantas vezes errou
Na nação a submissão tosca deu lugar ao entusiasmo débil
Que deu lugar ao existencialismo de botequim
Que precedeu o grito rouco da máquina
E a melancólica procissão dos bêbados tristes que já não lembravam quem se fora
Mas há certos elementos atemporais
E cada filete de sangue que escorria nos becos tateava cegamente à sua procura,
Serpenteava pelo chão em uma súplica instintiva
Até pintar toda a cidade de vermelho
Até quase pintar todo o tempo em tons de esquecimento
Acontece que a imortalidade é uma manobra semântica
Um truque de baralho
E o inconteste é que ela sumiu aos poucos
Desaparecendo por entre as rachaduras da vida cotidiana
Se dissolveu em uma manchete de jornal
Navegara à deriva pelas medidas provisórias
Enfim buscou refúgio na memória do aroma de café
E hoje se esconde na euforia dos loucos

Arthur Maurício Rodrigues

As aventuras de Cecília - Jéssica Góes



As aventuras de Cecília é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

atemporal


peço perdão toda vez que fecho os olhos
e consigo me desfazer da realidade
quando o ódio adormece
e os pássaros se fundem em metal pesado
e tinta amarela
quando a cantoria habitual
torna-se um ruído cortante
impossível de ser digerido
e meu pai incomodado desce da cruz
para discutirmos sobre aquele aluguel
que atrasei quando tinha
nove anos
de absolutamente,
nada.

Eduard Traste



Eduard Traste descobriu que não tinha salvação. Desde então vem destilando os necessários pingos de vida para seguir em frente, de seus escritos e outros tragos. Escreve no projeto www.estrAbismo.net, e tem materiais publicados nas revistas: Alagunas, Escambau, LiteraLivre, Philos, Ruido Manifesto e Subversa.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

X edição do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia



Amanhã, dia 22 de novembro de 2018, ocorrerá a cerimônia de premiação da X edição do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia. O evento acontecerá no Solar Grandjean de Montigny da PUC-Rio, às 18h, e contará com atrações, leitura de textos e muito mais! Vamos juntos celebrar a literatura, as artes, e o sucesso de uma década do Prêmio.

O que é um fim?


Um fim é um momento à toa
cercado de ingênua
perplexidade
em que
se vê
se sente
se pré-sente
o
fulcro
de um mundo imaginário
construído lentamente a dois
se esfarelar em
centenas de
milhares de
fragmentos de
memória

Memória:
migalhas que se prendem à vida
fazendo do fim
uma perpétua
lembrança
da fragilidade
do instante

Instante:
átimo que se fecha
na contingência de um tempo-denso:
puro começo
pura presença
pura abstração

Um fim é um momento à toa
que se estende por
longos dias
de sol
de chuva
de sonhos
e tormentos

O fim é
o som
o cheiro
a briga
a brisa
o brinco
o ar
que
não
acaba
de
acabar

Um fim é um momento à toa
que insiste em invocar
a cada passo a
impossibilidade
de voltar
atrás

Wemerson Felipe Gomes

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Tudo tinha ruído


(baseado no relato de B. C. S.)

Eu gostava do cheiro de cigarro. Ainda criança, lá pelos oito, nove anos, imaginava a fumaça do cigarro da minha mãe subindo disforme até se transformar numa nuvem lá no céu. Eu pulava atrás das baforadas quentes que se perdiam pelo ar. Quando encontrava um maço esquecido, roubava um cigarro pra criar minha fantasia preferida: Sherlock Holmes.

Eu era um detetive sério: investigava cada ruído da noite, todos aqueles mistérios noturnos. “Os mortos levam muito tempo pra deixar o nosso plano. Eles não sabem que morreram”, minha irmã disse depois da morte do meu vizinho. Encuquei. O mínimo barulho e eu já imaginava o espírito do vizinho invadindo a casa errada. Meu pai não entendia. Deixa disso, essa história de fantasma não existe, mas foi assim que ganhei uma cama no quarto dos meus pais.

Com a mudança de quarto, novos barulhos: o motor da geladeira apitando na cozinha, os passos pesados do meu pai indo pro banheiro de madrugada, o choro contido e intermitente da minha mãe. Ela sentia muita dor nas pernas. Meu pai dizia culpava o cigarro. Isso aí é um veneno, Bruno, e fumando assim, um cigarro atrás do outro, pode acontecer coisa ainda pior.

Geralmente, a gente passava um pouco de álcool nas canelas e nas coxas dela, massageava e esfregava até evaporar todo o álcool, até a pele ficar bem quente, e ela sentia alívio. Mas naquela noite o choro estava diferente: mesmo passando álcool nas pernas, ela não acalmava. 

Vou levar a sua mãe lá no hospital, tá? Meu pai chamou uma ambulância e ó, fique com a sua irmã. Não saiam até a gente voltar e eu obedeci. Fiquei em casa com minha irmã, esperando, esperando, mas não voltavam. Eu dormi e acordei com minha irmã dizendo que precisávamos ir pra casa do meu primo. Eu até gostei. 

Nunca tinha ido pro apartamento do Marinho. Ele morava longe de casa. Minha irmã, que já tinha carteira de motorista, pegou o carro do meu pai e dirigiu até lá. Tive que ir no banco de trás. Eu não quero perder a minha habilitação, Bruno, não faz nem um mês que eu peguei. Não contestei.

No caminho, sempre que eu perguntava quando nossos pais voltariam pra casa, a Renata desconversava. Voltam rápido, fique tranquilo, mas não voltaram rápido. 

Fiquei seis dias na casa do Marinho. Sempre que um tio ou tia entrava no apartamento, olhava primeiro pra minha irmã, com cara de pânico. Quando finalmente me notavam, eles disfarçavam, sorriam e como você tá, guri? Tô bem, tio, mas eu desconfiava, queria saber o que estava acontecendo. Sabia que escondiam alguma coisa de mim. Não entendia aquilo. É da minha mãe que estão falando. Minha mãe! Comecei a sentir raiva deles, raiva de ser criança. Se fosse adulto, saberia a verdade, e poderia dividir as minhas preocupações com eles. Sempre que disfarçavam pra falar comigo, eu sentia mais raiva de ser uma criança, de ser o único que não podia saber a verdade, de ser invisível e ignorado, como se não pudesse, não tivesse o direito de sentir tristeza. 

No fim do sétimo dia, minha irmã e eu fomos ao hospital. A mamãe tá bem, Bruno. Lembra aquela dor que ela sentia na perna e pela janela do carro eu olhava pras nuvens no céu e imaginava que ela continuava soltando suas cortinas de fumaça. Os médicos fizeram de tudo pra ajudá-la, mas a mamãe fumou muito, você sabe, mas não, eu não sabia de nada. Agora, não queria saber de mais nada. Quando chegamos ao hospital, antes de entrar no quarto, me contaram que a sua mãe teve que amputar as pernas, Bruno, infelizmente. Foi melhor pra ela. Melhor pra ela? Meu pai me subiu num abraço apertado. Foi esse maldito cigarro e continuou me apertando, encharcando a minha camiseta e quase me sufocando.

Não chorei. Continuava com raiva. Tiraram o meu direito de saber a verdade, de sofrer como eles, de ajudar a minha mãe. Quando entrei no quarto, ela parecia bem, me recebeu com um sorriso. Deitei ao seu lado. Ela levantou um pouco o lençol e vi as pernas um pouco menores, enroladas por gaze e esparadrapos, terminando um pouco acima dos joelhos. Um silêncio profundo inundou o quarto. Meu pai e minha irmã olhavam pra mim, acho que esperavam uma crise de choro, de desespero. 

Não perceberam que tudo tinha ruído.

Julian Guilherme

mon frère et sa femme - Marcelle Fagundes



mon frère et sa femme é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Quando beijo tua boca


Quando beijo tua boca
Toda nua feito quando
Beijo tua boca
Toda nua feito beijo
Tua boca
Toda nua feito tua
Boca
Toda nua feito boca

Vinni Corrêa



Poeta, artista visual, pesquisador sobre erotismo, pós-graduando em psicanálise e especialista em comunicação. Possui quatro livros de poesia erótica publicados: Coma de 4 (2012), Literatura de Bordel (2015), Lunch Box (2015) e Sexo a Três (2018).

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Nuances de um fascismo destruidor


Jair Messias Bolsonaro (PSL) é candidato à presidência que atingiu um grande número de eleitores por meio dos seus discursos de ódio. Ele reproduz o “nacionalismo” exacerbado na sua campanha, mas o único bem nacional que consegue defender é o próprio bolso e o das grandes corporações que o rodeiam. Bolsonaro é tido como a salvação para os (des)credores do sistema político democrático, como a voz que salvará o Brasil. E, nessa falácia, defende de “pé junto” a privatização do maior bem natural herdado pelo país: a Floresta Amazônica.

Estima-se que a cada uma hora, o Brasil perca cerca de 128 campos de futebol de floresta que são destruídos. Só na Amazônia, entre agosto de 2017 e julho deste ano, houve crescimento exponencial do desmatamento, com pico 39% maior do que o do período anterior. O que consta em destruição de 4 mil quilômetros quadrados de florestas, equivalente à 13 vezes o tamanho da cidade de Belo Horizonte.

O motivo desse desmatamento todo se dá a partir da ambição capitalista e a sua sede por desenvolvimento. E, sob essa lógica, não é pensado as consequências causadas ao meio ambiente e às populações, que são tachadas às injustiças ambientais. De outro modo, porém, é acolhido a ideia do uso de recursos naturais para o reatamento da economia, e promoção do crescimento do PIB nacional. Mas este processo com certeza não é o único, mais eficaz e nem faz parte dos planos do governo Bolsonaro.

Os números indicadores de perda das florestas não são interpretados pelo candidato e o Partido Social Liberal (PSL). Eles ignoram a extensão territorial, bonita em riquezas naturais e fonte de matrizes energéticas para o futuro do Brasil e do mundo. Querem acabar com as áreas de proteção à florestas tropicais e transformá-las em terras para o agronegócio, materializando a alta exploração sem nem sequer gerar lucros para o país, já que as principais empresas a se aproveitarem disso serão as norte-americanas.

Ademais, os ataques não param por aí, continuam através das projeções fascistas de Bolsonaro. Ele pretende unir Ministério do Meio Ambiente e Ministério da Agricultura, que são dois pólos totalmente diferentes, em pensamento e ações. É a contramão do afeto pela natureza. É a inconstitucionalidade sendo pretendida “por baixo dos panos”. O artigo 225 da Constituição Federal estabelece como direito dos brasileiros o equilíbrio ecológico do meio ambiente, para uma qualidade de vida sadia, e institui como dever a defesa deste meio ambiente para que ele não se perca até futuras gerações.

E se quem representará o país foge da constitucionalidade, o que isso significa para o eleitorado? Significa que a falta de consciência ambiental é totalmente ligada à falta de consciência política. As pessoas estão indo às urnas expressar a sua indiferença à Floresta Amazônica através de dois dígitos. As pessoas estão indo às urnas vestidas de ódio e prontas para matar um sem-número de fauna, flora e de pessoas indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais amazonenses.

Portanto, é preciso reconhecer o próprio país, para posteriormente escolher um bom candidato para representá-lo. Não se devendo ir às urnas na esperança de uma mudança radical, sem conhecer o tipo de mudança que o candidato estará propondo. Isso é desleal à nós mesmos e aos nossos ideais. É preciso pensar um Brasil em conjunto às suas especificidades. Diante disso, vistam-se de verde na hora de votar para presidente no segundo turno, e lembrem-se do significado que essa cor carrega na bandeira do nosso país. Recusando-se sempre de colocar máscaras de ódio, pois essas sabemos que não fazem parte de vocês.

Diego Casemiro

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Um dedinho de prosa


Consta em muitas gramáticas e livros didáticos, de maneira muito discreta e sem riqueza de exemplos, que o sufixo –inho/a não serve só para formar o diminutivo das palavras em português, ou seja, indicar o tamanho dos seres ou das coisas. Percebe-se, claramente , que quando se diz “fulano está vivinho da silva”, “aquela mulherzinha fez um escândalo” ou “você é o meu benzinho” não nos referimos ao tamanho ou à proporção do adjetivo/substantivo, estamos sim acrescentando a ideia de intensificação, pejoratividade e afetividade aos vocábulos vivo, mulher e bem. Estar vivinho não é simplesmente estar vivo, é estar surpreendentemente vivo. Aquela mulherzinha é uma pessoa desqualificada por algum motivo. E o benzinho, se trocado por “meu bem”, pode até ganhar uma conotação irônica, dependendo da intencionalidade envolvida na escolha de uma ou outra palavra.

Se você já desconfiava que quando um atendente lhe pede “só um minutinho, senhor” é porque a espera será longa; que o “jeitinho brasileiro” não se trata apenas de uma pequena característica da nossa cultura, mas quase uma regra de comportamento, ou que um “rapaz bonitinho” pode ser feio, mas arrumadinho, você está rondando o âmago da questão. Com certeza, já usou no seu cotidiano o grau diminutivo para atenuar uma mentirinha, desprestigiar alguma coisa ou até ironizar alguém. Isso porque as possibilidades de emprego são inúmeras, estão muito presentes nos nossos hábitos linguísticos e variam de acordo com a intenção, o efeito desejado ou a manifestação de uma emoção do falante.

Esse poderoso recurso de linguagem está intimamente ligado ao contexto, por isso, cuidado ao inserir o –inho/a deliberadamente no final de uma palavra, pois você pode provocar surpresas desagradáveis, confusão ou ser mal interpretado. Se espera ganhar um automóvel novinho, não diga que vai ficar feliz com um carrinho novo, pois pode ser que se decepcione com o presente. Se vai se ausentar do trabalho por um bom tempo, não fale que vai dar uma saidinha rapidinha. Seu chefe pode ficar bravo. Ao sair para fazer umas comprinhas, não retorne com dez sacolas, a menos que seja você a titular do cartão de crédito.

Esse emprego corriqueiro, esse modo de falar, já provou que não tem muito compromisso com a realidade dos fatos, mas ainda assim pode produzir um efeito de sentido diverso do pretendido e deixar o seu interlocutor, no mínimo, descontente, mas só um bocadinho, ou cadinho, à moda lusitana. O ideal é saber manejar mais esse fantástico mecanismo da língua portuguesa a seu favor e de acordo com a intenção pretendida. E caso você perceba que está usando pombinhos, vaquinha e peixinho sem significar animais de tamanho pequeno, é porque há ainda outros valores atribuídos ao sufixo –inho/a, diferentes do que tratamos até aqui. Mas isso fica para um próximo textinho...

Andréa Carvalho




Andréa é formada em Letras pela UFRJ, pós-graduada em Língua Portuguesa no Liceu Literário Português e professora da rede pública. É autora do livro "50 Dias Letivos".

sábado, 10 de novembro de 2018

Avó - Morgana Mastrianni



Avó é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos.

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Pernoite


Saiu de fininho do festim
Encanada persignou-se tipo diaba
sem fragrância, só o suarento
da alma no limiar, no parapeito.
Batente onde escora-se trincada de
celular que não toca, não chama.
Frenesi do frio e o pensamento na
garoa do desencontro.

André Siqueira

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Abandono cotidiano


Segunda-feira

Deita-se de lado, a coxa desenha um S no cobertor. Um dos braços está colado ao corpo com a mão caindo atrás do pescoço. O outro braço envolve o primeiro. É um abraço inventado. A mão esquerda está quieta com os dedos separados em uma posição engraçada. O cabelo cheio ocupa quase metade do travesseiro. A boca forma um biquinho. Respira em intervalos precisos, fazendo um barulho que se mistura com o ambiente. Os olhos estão em paz. Um dos dedos treme levemente. 

Terça-feira

Abre os olhos, acordada pelo gato. Em seguida dorme de novo, enrolada na coberta até a altura do peito. A mão esquerda apoia o queixo, na posição do Pensador.  O braço direito escapa da cama. Os cabelos estão presos, domesticados no travesseiro. O rosto sereno. Os olhos estão levemente fechados, os lábios relaxados. Respira sem fazer barulho. Um de seus pés fugiu da coberta. Por lá, queria acordá-la.

Quarta-feira

Apenas o rosto e os cabelos presos aparecem. Está toda enrolada na coberta. Fica silenciosa por longos minutos, solta um suspiro/ronco e volta ao silêncio. A boca está um pouquinho contraída, como se tivesse experimentado algo amargo. A posição das pernas desenha formas abstratas no edredon. Se agarra a coberta com força. O corpo treme todo com o barulho do gato. Não acorda. 

Quinta-feira

Um dos braços está posicionado sobre a testa como se defendesse os olhos do sol. A outra mão está próxima ao rosto. Os dedos encostam-se à orelha, movendo-se com lentidão. As pernas parecem relaxadas embaixo da coberta. Um dos seios escapa do edredom lembrando aquele quadro famoso. Os lábios entreabertos formam um sorriso. Respira sem fazer barulho. Os olhos tremem devagar.

Sexta-feira

O joelho faz o desenho de um monte embaixo da coberta. A outra perna, também dobrada, forma um morro menor. Os dois joelhos se movem lentamente, um em direção ao outro como se participassem de um fenômeno geológico.  A posição os braços lembra um espreguiçar congelado, interrompido. O rosto repousa exatamente entre os dois travesseiros. Respira profundamente pelas frestas da boca fechada. O corpo em diagonal invade o meu lado da cama. Ela não conseguiria ficar 1 minuto nesta posição se estivesse acordada.

Igor Miguel Pereira


Igor Miguel Pereira tenta escrever nas horas vagas. Também trabalha como roteirista de séries e documentários sobre coisas como Noel Rosa, literatura moçambicana e métodos para ensinar bebês a dormir bem.  Gosta de roda de samba, peixe com pirão, praia de mar calmo, cerveja no meio da tarde e  cafuné.  Publicou dois romances curtos e precoces: “Txakazuê” e “Vão”. Em 2018 lança “Espuma”, seu primeiro livro de contos.

sábado, 3 de novembro de 2018

Greve Geral - Jane Herkenhoff



Greve Geral é uma das vinte obras expostas em ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva, que estará na Galeria SESC Engenho de Dentro até o dia 25 de janeiro de 2019. Essa exposição, elaborada pela iniciativa Do Feminino na Arte, traz ilustrações com temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora possa ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos. 

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita 

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

no interstício da vesícula


aguda,
a contorção do corpo
evoca medo,
a noite é prolixa
para o esperneamento de pretensões,
ainda que o caminho seja obstruído
pelo silêncio assintomático,
amiúde a dor esbarra
no grito sucumbido

socorro!
entre as costelas
o restilo da hipertensão,
os ductos incendeiam nevralgias
contra a imperatividade da razão,
não há controle sobre
quem paulatinamente esmorece

do leito à internação,
estreitam-se as ruas no afônico súbito,
um caminho calcinado de alusões
ao soturno alumiar,
a icterícia das vias
em vagantes suposições,
violar a pele para conter os grunhidos

tomam-no de assalto para a maca,
o exotismo das agulhas o afronta, instrumentos de açougue,
falatórios de sua composição molecular,
o decriptar do susto
ao apagão induzido

visita ao reino de nenhures,
em instantes era bípede a enaltecer
vaidades,
agora nu, coberto de eletrodos,
resvala a sobrevivência
em intubação, anestésicos
e pendões da caridade

se a morte viesse a lhe atulhar
na sujeição dos coitados,
a passagem estaria no ápice
de seu encerramento,
grafismo presumido
em um obituário de prantos

tão logo o itinerário
afunile-se novamente,
as pedras não estarão mais
para sufocar

a androfagia dos bisturis
se redime na desordem
da serventia,
subverter o destino
para improváveis façanhas,
beijar a ruína
e não se arrebatar.

Bruno Bossolan

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Do Feminino na Arte - Ilustradoras! Exposição Coletiva, na Glaeria SESC Engenho de Dentro



A inciativa Do Feminino na Arte busca evidenciar a produção de artistas mulheres, sem integrantes fixas, com intuito de movimentar o cenário cultural através de exposições, eventos e apresentar novas profissionais do meio ao grande público. A Galeria SESC Engenho de Dentro apresenta ILUSTRADORAS! - Exposição Coletiva no Rio de Janeiro e nela serão apresentados vinte trabalhos de dez Artistas/ Ilustradoras brasileiras como oportunidade de compartilhar com o público algumas produções contemporâneas nessa vertente. As ilustrações possuem temáticas e técnicas variadas para que a visão particular de cada ilustradora pudesse ser evidenciada sem imposições aos seus processos criativos. É perceptível a sensibilidade, força, delicadeza e qualidade nos traços nas práticas empregadas para as representações.  

Artistas
Clara Gavilan    
Helena Carneiro 
Jane Herkenhoff 
Jéssica Góes 
Karenina Marzulo
Lari Arantes 
Laura Loyola 
Marcelle Fagundes 
Márcia Monteiro 
Morgana Mastrianni   @morganaazul

Instagram
@claragavilanilustradora
@hel.artetc  
@jane.herkenhoff  
@jessicargoes
@kmarz_art e @erotikmind_art   
@lariarantes   
@loyolaura   
@marcellefagundesarts  
@wannastayugly    

Informações Adicionais
Abertura e Conversa com as Artistas: 25/10/2018
Horário: 18h as 21h
Local: SESC Engenho de Dentro
Endereço: Av. Amaro Cavalcanti, 1661 - Rio de Janeiro/ RJ

Período da Exposição
25/10/2018 - 25/01/2019

Horário de Funcionamento
Ter a Sex – 09h a 21h
Sáb e dom – 09h a 18h
Faixa Etária: Livre
Entrada: Gratuita    

Poema de Gabriela de Andrade Pereira


sob o sol quente,
o espaldar da sua cadeira
vazia
não é apenas uma metáfora –

hoje
a sua ausência
penetra o quente do meu corpo
como uma adaga.

Gabriela de Andrade Pereira

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

progresso


chegar finalmente a um ponto de partida,
encontrar-se em nenhuma parte mais cedo do que tarde,
seguir adiante caminhando para atrás,
aprender as lições do passado no futuro,
discernir os sinais do fim dos tempos,
avançar teorias modernas de ideias antigas,
descobrir o velho de novo,
reescrever a história outra vez,
recordar-se sempre dos jamais esquecidos,
prever a sina do destino,
assegurar a permanência do câmbio,
deter a fugacidade da eternidade,
prolongar uma condição temporária,
fixar uma imagem em um piscar de olhos,
esperar o de repente,
afirmar a negação da verdade,
cultivar uma natureza artificial,
recuperar uma sensação de perda,
aproveitar mais de menos,
trabalhar horas para minutos de lazer,
produzir lixo para consumir luxo,
ter bom caráter com má disposição,
apelar a uma ética sem moral,
unir-se sob diversas bandeiras,
promover a liberdade sem escolha,
suspeitar a inocência enquanto comprova a culpa,
justificar o direito de equivocar-se,
combater a ameaça de guerra,
buscar a paz através da força,
defender a luta dos vencidos,
erigir os pilares de um império caído,
assentar as bases da próxima ruína,
salvar de juízo um mundo condenado,
converter-se a uma fé em razão,
acreditar em um ceticismo fundamental,
duvidar do princípio da incerteza,
subverter a ordem do caos,
determinar a probabilidade do azar,
exercer o controle aleatoriamente,
relativizar totalmente cada absoluto,
ir com tudo e voltar de mãos vazias,
criar nada a partir de algo,
formar Deus na imagem e semelhança do homem,
empenhar-se para obter êxito até o ponto de falhar.

Gringo Carioca



Este poema foi publicado no livro Manifestos & manifestações (Patuá, 2018).

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Encarnação


Um messias aqui chegou
e não trouxe conciliação
capitão das falsas promessas
das falas que amolam facas

Quanta dor, quanta tristeza
minha pátria é pátria enganada
assediada, violentada
por gente desalmada

Um messias aqui chegou
é como a volta dos que não foram
chegou quem sempre esteve ali
praticando o que promete coibir

De mensagem em mensagem
desamparo em revolta
de culto em culto
revolta em ódio
de mentira em mentira
ódio em divisão

Jogos de poder
que minha gente sedenta e sofrida
não pode
não quer ver

Renata Rosa



Renata Rosa da Costa nasceu em 1989. Carioca, cresceu em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro. As palavras — e a falta delas — ocupam um lugar central na sua história e formação. Psicóloga, dedica-se ao estudo e à prática da psicanálise. Em 2017, algumas de suas poesias  participaram de uma coletânea do Projeto "Palavra é arte".

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

T


Os quatro encapuzados não mataram
E rasuram sorrisos num feedback.
The art of stealing isn’t hard to master

Nem é algo de todo sem mistério:
O mais bobo xereta constrangido
Meu celular, temendo ir pro inferno

Enquanto o mais cruel sorri da ínfima
Quantia em cash (e logo se encapota).
O bonitão vê o livro, “Antonio Cicero”

E se espanta pensando no blackout...
O maioral, ao largo do conluio
Consegue ouvir seu timing no relógio —

Pudesse ser a vez de qualquer um!
Os quatro encapuzados não mataram.

Daniel Gil

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Noites maléficas


Ao caminhar da noite, 
A cama conversa com o personagem do mundo inacabado, intriga-o com conversas complexas e soníferas. Conversas essas, que exteriorizavam os males de uma população culpada que se saia impune da punição natural. 

No amaciar do travesseiro, 
o bêbado de sono têm pensamentos com raízes desconhecidas, neles almeja apenas o fim de sua raça infecunda e desgracenta. 
Discorrendo sobre o descuidado do mundo consigo, o alcoólatra tem o coração disparado, uma sensação nunca antes sentida, mas profunda como os oceanos navegáveis do planeta que mal se sustenta. 

Com a chegada do sol milenar, 
o consciente de si sente o vento da janela em seus pés descobertos
Acordando, levantando, imaginando 
Não acredita em sua noite repleta de magia e conclusões cruéis sobre o que o cerca, sente a pós-modernidade escalpelar sua carne com uma faca cega e enferrujada. 
Em milésimos, o humano conclui que prefere não acreditar na realidade em ruínas, em segundos prefere sua exclusão dos acontecimentos carnais, em minutos se deixa levar pela correnteza violenta do metrô, se tornando uma mera massa inútil de um lugar vão.

HISTORY

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

[outras formas de falar teu nome]


Quando emudeço, te chamo com as digitais.
Quando sou grito, tu viras nome composto.
Quando calmaria, me enlaço em tuas vogais.
Quando sou amor, degusto cada sílaba.
Quando somos nós, uníssono.

Bárbara Seidel



Veterinária de formação, poeta de coração e imaginação.
Trago na escrita mistura de sentimentos cotidianos, e os divulgo nas redes sociais como @capitulosbarbaros.
Acredito que a poesia é capaz de nos abraçar e curar.

Lançamento do livro Nervo Verso



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O capcioso eu derrotado


Foi Churchill quem disse:
“Agora que fizeram o que queriam
Vocês têm uma tarefa mais difícil
Gostar do que fizeram”
Ao som dos ruídos gástricos da cidade
O poder nunca foi tão metafísico
Partindo de um ponto ignóbil e viril
O desvio insular coberto por um lençol com dois furos
Homens e mulheres como adesivos num campo de golfe
Foi por isso que Prometeu prometeu não prometer mais nada
Sempre ouço dela: “Não existe doença, existe doentes”
Há muito pouco para mastigar ultimamente
Tudo parece trivial e sem gosto
Comboio marginal
Animais gargalhando, pois voltaram no tempo
E abortaram suas mães
E as tartarugas vivem muito
E as corujas também
Enquanto um besouro castrado na gaiola
Queima num berço vicioso
Colando fumaça no quadro branco
Escritor tarde demais
Escritor cedo demais
Desaprendendo
A caçar na escuridão
Um feixe de luz ilusório
Que me cega
No primeiro feixe de luz
Na escuridão
Era 22:00 quando faltou luz no bairro
E o primeiro grito que ouvi foi esse:
“Filha da puta! E agora como saberei a hora de parar de limpar o rabo?”
O maldito cano sanfonado
Os intrusos, a goteira, as rachaduras da parede, o barulho da caixa d’água
Uma aranha sem pernas tecendo sua teia para afastar-se de mim

Ramon Carlos

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Um professor presidente fará toda diferença!


Na decisão desse pleito,
O nobre eleitor que pensa,
Vota contra a estupidez,
Para que o progresso vença,
Pois enxerga claramente
Que um professor presidente
Fará toda diferença!

Professor FERNANDO HADDAD,
Doutor em Filosofia,
É bacharel em Direito
E mestre em Economia,
Pelo voto popular
Está pronto pra salvar
A nossa Democracia.

Casado, pai de dois filhos,
Professor FERNANDO HADDAD,
Hoje em dia, com apenas
Cinquenta e cinco de idade,
Revela o melhor perfil
Pra governar o Brasil,
Com toda capacidade.

FERNANDO HADDAD já foi
Ministro da Educação,
Que ganhou grande incentivo
Durante a sua gestão.
Criou, em várias cidades,
Catorze universidades
Pertencentes à União.

Desenvolveu o ProUni,
Programa espetacular
Que permitiu, por exemplo,
Filho de pobre estudar
Em entidades privadas,
Com bolsas patrocinadas
Até quando se formar.

Mais de um milhão de estudantes
De baixa renda ingressou
Nessas universidades,
E o Brasil todo ganhou
Mais seriedade e fama,
Através desse programa
Que o HADDAD implementou.

Ainda como ministro
Da Educação nacional,
O Fundef, que atendia
Somente o Fundamental,
Em Fundeb transformou-se
E suporte então tornou-se
Da Educação em geral.

E por meio de emendas
Para a Constituição,
Ministro FERNANDO HADDAD
Conseguiu aprovação
De oito dispositivos,
Todos muito positivos
Para a nossa Educação.

Essas conquistas, sem dúvida,
Foram de grandes valores,
Como mostram hoje em dia
Os grandes indicadores.
Foi conquista nacional
O piso salarial
Para nossos professores.

No período de ministro,
Conseguiu FERNANDO HADDAD
Injetar na Educação
Um nível de qualidade,
Que o Brasil, nesse momento,
Teve o maior crescimento
Em sua escolaridade.

Pra duzentas mil escolas,
Nas diversas regiões,
Livros foram destinados
(Uns setecentos milhões!).
A Educação, na verdade,
Não teve, antes de HADDAD,
Ganhado tantas ações.

HADDAD já foi prefeito
De São Paulo, a Capital
De maior população
A nível nacional.
Portanto, está preparado
Pra ser por nós elevado
Ao Governo Federal!

Como professor da USP,
Foi por concurso aprovado.
Participou das Diretas
Por um Brasil libertado
Do jugo da ditadura.
HADDAD tem estrutura,
Tem respeito e tem passado.

No jornal, na internet,
No rádio e televisão,
Tem candidato mostrando
Pistola e fuzil na mão,
Com campanha violenta.
Eu voto em quem apresenta
Propostas de educação!

Tem o discurso do ódio
E o discurso em prol da paz.
Quem pensa bem, ao primeiro
Não dá ouvido ou cartaz.
Em vez de bala e fuzil,
Está carente o Brasil
De um governante eficaz.

Vamos votar em quem tem
Bom caráter e revela
Propostas fundamentais
À Pátria verde-amarela.
Meu voto de honestidade
É para FERNANDO HADDAD
E pra vice MANUELA.

Votei LULA, votei DILMA,
Votei com a liberdade
De quem sabe distinguir
A mentira da verdade!
Voto no partido rubro!
Em 28 de outubro,
Voto 13, voto HADDAD!

Pedro Paulo Paulino

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

silêncio das palavras


há um silêncio nas coisas que se ausenta das palavras, perde nomes, veste noites, arfa insônias, atiça o relento dos naufrágios, há um silêncio nos poemas, uma ausência que se arma de esquinas e esquecimentos, há uma garganta que arranha noturnas engrenagens, escafandros percorrem profundas madrugadas, há uma chuva de silêncios incontidos, os relógios marcam o estágio dos espantos: prantos de uma noite cega

Salvador Passos

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Um poema de Victor Hugo Turezo


nada pode correr embaixo de tripas mover-se
congelar no instante em que engulo
nosso resto de gota alaranjada
nascemos em fevereiro e não consegui carregá-la
sobre as linhas das tuas mão — filhote encolhido-pássaro desvalido — no ventre
cipreste porque nada foi como éramos; e era como
                                                                                pensávamos
e desmantelados, morríamos em jardins
sorríamos capazes de não, de pouco
memorizávamos a inclinação de povoados que viviam
dentro de nossas comunidades incendidas
compilávamos filosofias opostas e isso não nos tornava complexos
mas incapazes de confluir sensações inexatas
nos chamavam pinheiros sebes lítio desfax efexor e, sim,
fomos; quase a inequidade da terra desenvolvíamos
dedos enrugados e compridos e curtos
e cabelos amarelos e vermelhos
dentro de um mesmo atalho, sussurrávamos
quando desviamos de pegadas conjuntas, gritávamos
não, nunca; gritar resolveria a doença do abraço traspassado,
das coisas que não encontrávamos
                                                     em raízes
e morremos no embrião de uma cadela esbranquiçada; na contramão
de nossos movimentos esquivos enquanto eu virava o corpo
e dormia com o rosto tangendo a parede você revelava
o nímio, a languidez, desvivendo-se,
                                                         partindo-se
e não consegui mais encontrar tua parte caminhei pela vereda
de um monte cálido e na inércia não vi o teu nome dentro
do meu;
minha-simbologia-impossível-última-crise-abraço foi e é
pois pensei que era o que
                                       pensávamos.

Victor Hugo Turezo



victor h. turezo nasceu em curitiba (pr), em 1993. publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (patuá, 2017) e quando vagalumes morrem no escuro (edição do autor, 2018). truduziu, junto com natália agra bosque musical (corsário-satã, 2018), plaquete com poemas de alejandra pizarnik.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Estamos em guerra


Estamos em guerra. Guerra contra os pobres, contra os negros, contra as mulheres, contra os indígenas, contra os transexuais, contra os craqueiros, contra a esquerda, contra a cultura, contra a informação, contra o Brasil. A guerra é econômica, política, jurídica, militar, midiática. É uma guerra aberta, embora denegada, é uma guerra total, embora camuflada, é uma guerra sem trégua e sem regra, ilimitada, embora queiram nos fazer acreditar que tudo está sob a mais estrita e pacífica normalidade, institucional, social, jurídica, econômica. Ou seja, ao lado da escalada generalizada da guerra total, uma operação abafa em escala nacional. Essa suposta normalização em curso, essa denegação, essa pacificação pela violência  eis o modo pelo qual um novo regime esquizofrênico parece querer instaurar sua lógica, onde guerra e paz se tornam sinônimos, assim como exceção e normalidade, golpe e governabilidade, neoliberalismo e guerra civil. Nada disso é possível sem uma corrosão da linguagem, sem uma perversão da enunciação, sem uma sistemática inversão do valor das palavras e do sentido do próprio discurso, cujo descrédito é gritante.

 Diante desse panorama, qual a tarefa de um editor? Certamente não é o de corroborar a corrosão em curso, publicando frivolidades para um mercado bulímico que as deglute como entretenimento narcótico. Um livro pode ser muita coisa, entre outras uma arma, um instrumento em meio a um combate, uma ferramenta de análise, uma catapulta de idéias incendiárias e de afetos vários, coléricos mas também amorosos. Extraímos de um dos livros publicados por nós essa consigna: a revolução é da ordem da cólera e da alegria, não da angústia e do tédio. A cólera se dirige contra aqueles que destroem impiedosamente o que nos é caro, devastam nossa riqueza natural, social, subjetiva, afetiva, política. Brutalidade comparável, talvez, ao assassinato dos irmãos de Witte em 1672, que governavam os países baixos no século XVII e que fizeram Espinosa soltar o único grito urrado de que se tem notícia saído daquele homem que diziam ser tão suave e sereno. Cólera, pois, contra o cavalar revanchismo que vai destruindo dia a dia o pouco que se havia conquistado nos últimos 13 anos, numa sede insana de dilapidação, num desejo de extermínio vindo do conluio das várias máfias que se aliaram nessa política de terra arrasada. Laymert Garcia dos Santos escreveu a que ponto esse movimento visa a destruição de um País que tinha, por fim, conseguido erguer a cabeça na cena internacional. Ele tem mil vezes razão.

É preciso dar nome aos bois. O nome disso é guerra civil.

Ora, como entrar numa guerra sem necessariamente aceitar a belicosidade que dela emana? Como combater o adversário sem espelhá-lo? Trata-se de retomar o poder ou de expandir a potência? Não seria o caso, menos de tentar ocupar o lugar daqueles que tomaram de assalto o Estado do que ocupar ruas, praças, escolas, instituições, espaços públicos privatizados, experimentar novas formas de organização, de auto-organização, de sociabilidade, de produção, de subjetivação, mas também, e justamente isso é que parece o mais paradoxal, novas modalidades de despossessão, de deserção, de destituição, de dissidência, de esquiva, de dessubjetivação? Não é essa a combinação mais paradoxal e mais urgente? É preciso derrubar a corja de bandidos que sequestrou o Estado, quebrar o monopólio das corporações que os sustentam, mas como fazê-lo sem entrar no jogo em que saímos vencidos de antemão, já impregnados pela lógica do adversário, de seus aparelhamentos, das paixões tristes que isso suscita por toda parte? Talvez ainda não se tenham inventado máquinas de guerra à altura da eficácia da megamáquina financeira, policial, midiática, jurídica que se instalou. Mas tampouco se inventou um modo de combatê-la sem nelas nos enredarmos. Faltam-nos operadores de desativação, como diz Agamben, modos de tornar inoperante, um poder, uma função, não apenas desativando aquilo a que nos opomos, mas também desativando algo de nós mesmos que ainda permanece intacto e que se enreda nos mecanismos vigentes – o Estado-em-nós, o fascista-em-nós. Pois ficamos cativos do que nos aturde ou tortura, num automatismo de ação e reação que corre o risco de espelhar a lógica dos que comandam – somos impelidos a um tipo de revide que relança o jogo, ao invés de reinventar as distâncias, os hiatos, os descolamentos, as cesuras, as desmontagens de nós mesmos – um novo tabuleiro onde nem sequer houvesse lugar para um peão chamado eu, muito menos um bispo, um rei, uma rainha, e seus movimentos codificados. 

Peter Pál Pelbart
Texto na edição 39 do Plástico Bolha

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Onions | Cebolas — poema de Ricardo Sternberg e tradução de Lucas Viriato


Onions

The opacity of onions
is deceiving.

The onion is a crystal ball
that makes you cry
for future sorrows.

I was told this
by my grandmother
tired of the daily drama
by the sink.

Ricardo Sternberg



Cebolas

A opacidade das cebolas
é enganadora.

A cebola é uma bola de cristal
que te faz chorar
pelas tristezas futuras.

Foi o que me disse
a minha avó
farta dos dramas do dia
cozinhando em frente à pia.

Tradução de Lucas Viriato

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Res publica


Nunca foi por causa da corrupção material,
pois a corrupção moral não nos deixa.
Nunca foi para lutar contra a injustiça,
mas assegurar o que tinha.
Nunca foi pela nação,
mas sim pela colônia.

Anne Penha



Anne Penha é graduada em Letras pela UERJ e tem pós em Audiovisual pela UFRN, e atualmente reside em Natal/RN.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Orgânico


Eu tenho medo de virar um concreto. Frio, cinza e áspero. Medo de me tornar inflexível e rachar. Penso que no futuro já não poderei me moldar, permanecerei fixo e feio como um concreto. Todas as tentativas para a modelagem acontecer parecerão inúteis perante a força do que me fez assim. Todos terão um visão prática do que sou, serei previsível e útil, mas sem graça. Não sujarei a vida de ninguém, mas também não darei cores a elas, somente o cinza.

Apesar que em alguns momentos desconfio, melhor, sinto uma inquietação verde em mim. Algo que cresce e move inquieto, talvez seja apenas uma impressão minha. Mas dia desses me deparei com uma folha saindo.

Fiquei impressionado com uma vida saindo de mim, um projeto arquitetônico da vida. E de repente, por um milagre, viro mato, perco em mim e gosto. Seguro em galhos da minha mente e permaneço vivo nas memórias naturais. Eu sou vivo!

Alden Brandão

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Solidão


Eu posso ouvir o canto da alvorada,
No gorjear dos pássaros perdidos,
Roçando o vento, os plátanos despidos,
Na fria solidão da madrugada...

Meu pensamento vaga pela estrada,
Passando pelos vales ressequidos,
Desperta a bruma, os sonhos esquecidos,
Como quem chega ao fim de uma jornada...

E assim se fez meus dias, meus invernos,
Nas noites sem dormir, nos meus infernos,
Ruflando o peito em lúgubre agonia....

E no estuário em frente ao meu jazigo,
O canto do urutau chora comigo,
Na triste solidão que morre o dia...

Sérgio Márcio