segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Sou pobre e limpinho


Antes dizia-se "sou pobre, mas sou limpinho". Havia nessa adversativa um quê de consolação à nossa pobreza. Isso dissolve. A saber, sou pobre. E moleque, e cervejeiro, e trabalhador, e disposição, e gente fina, e guerreira, e pau-pra-toda-obra e também limpinho. Não tem essa de "mas". Não há o que justificar. O tempo da vergonha já passou.
Agora nóis conjuga por cima do edifício do erro. E do medo de errar.
Nóis só coordena na aditiva, aditivado, isto é, junto e misturado. Aos professores da rose klabin, nosso muito obrigado, os amigos de bairro, guadalupe, jardim arize, realengo, república de quintino, salve o mangue, a maré, itaguaí, caxias, praça da cruz vermelha, alvorada, 756, alô vintém, Rural, alô cohab, um beijo pra índia Luzia, as canções do zeca pagodinho, saudades das mães dos meus irmãos, aquela bola, aquela prima, aqueles pés, descalços, a benção, aquele abraço...

A toda surra, todo esporro, todo erro, grato. Bem feito tudo de humano que nos sangrou, para respeitarmos a dor, os tombos que nos ensinaram a vigiar a queda.
Pobres de todo canto apresentai-vos. Sem esquecer jamais do laço que nos une bem antes que se  inventasse a miséria  ̶  a vida.
Vós exilados, desabrigados, refugiados, violentados, doentes, famintos, explorados, excluídos, injustiçados, retirantes, vós todos, ouvi: se a glória nos faz imortais, a labuta há de nos fazer gloriosos.
Não esqueçais, Jesus de Nazaré falou, Selassie falou, Ghandi, Francisco de Assis, o profeta Gentileza, Jorge Mautner, e Criolo Doido também falou: o que nos salvou/salva foi/é a nossa humilhação. Porque não nos conformamos com essa mesquinharia cretina de cada dia. Porque não conseguimos nos adequar a tanta covardia. Fomos impassíveis a esse deboche.
Quem te disse que você era só uma neguinha chinfrin, agora paga pra te aplaudir. Muitos que te sacudiram: "acorda moleque", descansam agora a paz suada de teu cansaço. E mesmo isso, tampouco se aproxima da paz que nos tem buscado.

Vós que ergueis de concreto e corpos vossos templos; que ocupais dois lugares nos transportes públicos, com a hipocrisia e com a soberba; vós que decapitais mais que árvores, que assassinais o que há de místico nas celebrações de fé; vós que até agora tendes assistido nossa humilhação mais confortáveis que as cortes dos reis do Ocidente; mais desumanos que os homens; vós que tendes travesseiros e ao recender de nosso sangue adormecem, ouvi:
̶  nós construímos vossas casas, limpamos vossa merda mesmo antes de aprenderem a vos limpardes, cavamos vossas sapatas, engraxamos vossos sapatos, vos levamos até o edifício da empresa que nós erguemos, costuramos vossas roupas, colhemos o vosso trigo, empilhamos as vossas compras, varremos o vosso chão, soldamos as grades das cadeias em que nos enfiaram, recolhemos a lenha em que nos queimaram, e há muito carregamos a cruz que vós pretendeis nos crucificar. Mas não.
A cruz é ponte. É aliança. É laço. Se até aqui nos acompanhou, não se aparta de nós por nada. E tem mais: queremos de volta a nossa terra. Fiqueis com as hidrelétricas, com os alfaiates, com os helicópteros, com as siglas, com os royalties, com as ações, com o urânio, o telescópio, os satélites, as cédulas, com as cercas e os arames, com as placas, com as carteiras, os certificados, as patentes, os uniformes, os animais domésticos, as escolas, as farmácias, com a fama, com o combustível, com os livros podeis ficar. Enfiem tudo no cu.
Mas a terra...
A terra é nossa. E é nosso tudo o que do nosso amor por ela quiser nascer. Quanto mais tempo vos demoreis na vingança, na gloriosa celebração de tolos defuntos, mais o nosso estrume fermenta e alimenta essa terra; quanto mais firme segureis o chicote, mais mansos afagamos a terra; quanto mais atrasam a devolução do nosso solo, mais alto erguem-se os monumentos dos quais vos precipitarão, para depois serdes lançados debaixo da terra; quanto mais lixo e degradação nos socam à goela, mais o nosso corpo se fortalece e funde à terra.
Nós nunca vos revelamos o brilho íntimo de nossa face, senão apenas um feixe esguio que se aperta atrás de nossos olhos compadecidos de vossa miséria. Mas, como sabeis, toda paciência será coroada no vindouro louro da glória dos paupérrimos. Vós haveis de tocar, um dia, o clarão de nossa íntima pele, ainda que cegados por essa torrente luminosa.

Essa terra pertence a nós, pobres e limpinhos. E quando finalmente chegar o dia de nos devolverem nossa tão amada terra, quando vierdes com vossos sorrisos amarelos e dentro deles guardardes toda sorte de cinismo e sarcasmo para nos contarem que a terra que nos entregam está morta, também nós lhe devolveremos algo. Devolveremos um sorriso honesto e um perdão suado, mas limpo. Assim, nos devolvereis também as lágrimas da redenção. E o sal de vosso pranto há de reanimar a nossa terra, nossa tão amada e esperada terra.
Vocês não perdem por esperar! Nós também não! 

Allan .........

Canção a Shiva


Quero engolir suas nuvens
E vomitar uma tempestade
Quero mastigar seus palácios
E cuspir saraivadas de tijolos
Quero beber todos seus rios
E inundar o mundo em urina.

Pôr abaixo castelos e templos.
Aos sete mares, aos quatro ventos
Anunciar belos e novos tempos.

Quero cheirar suas areias
E espirrar redemoinhos
Quero escutar suas selvas
E berrar uma ária triste
Quero mudar
Tudo que existe.


Leonardo Afonso

Lançamento de "Ubaldo", de Juva Batella, sobre seu tio João Ubaldo Ribeiro




Convidamos todos os leitores para o lançamento do livro de Juva Batella sobre seu tio, o escritor João Ubaldo Ribeiro. O livro é um diálogo obsessivo entre dois sujeitos (no bar de uma livraria) sobre Ubaldo: sua infância em Sergipe, sua juventude em Salvador, sua maturidade como escritor, seu alcance internacional, sua vida particular, suas questões filosóficas, suas opiniões polêmicas - e ainda as cartas e os e-mails engraçados (e às vezes mal-humorados) que Ubaldo escreveu pra mim (de 1998 a 2014).

O livro está lindamente ilustrado pela filha do João, Chica Batella, e os desenhos estarão expostos para venda na noite do lançamento. Vale um pulo no site da Chica.

Dia: 5 de dezembro (segunda-feira)
Onde: Livraria Argumento (como sempre...)
Endereço: Rua Dias Ferreira, 417, Leblon
Hora: 19:00 (noite de festa, encontros & copos)

Lançamentos 7Letras HOJE, 05/12/2016, às 18:30




7Letras e Luna Parque Edições fazem a festa em uma das livrarias mais poéticas do Rio de Janeiro, com os lançamentos de:

[Luna Parque]
• "Revista Grampo Canoa #3"
com a presença dos autores Leonardo Villa Forte, Estela Rosa, Beatriz Berredo, Rodolfo Caesar e Alberto Pucheu
• "20 sucessos", de Bruno Brum & Fabiano Calixto
• "Caderno americano", de Fabrício Corsaletti & Alberto Martins
• "Cigarros na cama" (2a ed.), de Ricardo Domeneck
• "Risco no disco" (2a ed.), de Ledusha

+

[7Letras]
• "Patchwork", de Janice Caiafa
• "Máquina de fazer mar", de Augusto de Guimaraens Cavalcanti
• "Manual para melodrama", de Ricardo Domeneck
• "Epifanias", de A. F. Ramos
• "Além do visível" (2a ed.), de Karl Erik Schøllhammer

Contamos com a presença de todos os amigos e leitores para mais uma noite especial na livraria da 7Letras

segunda-feira, dia 5 de dezembro de 2016
a partir das 18h30

Galeria Vitrine de Ipanema
Rua Visconde de Pirajá 580, loja 320
tel. (21) 2540-0076

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Plástico Bolha em Brasília contra a PEC


O Plástico Bolha e sua equipe estão neste momento em Brasília junto aos mais de 10.000 estudantes para participar do ato nacional contra a PEC 55/2016. O Jornal Plástico Bolha sempre se posicionou contra o golpe, contra o governo Temer, e a favor da democracia. Não assistiremos parados ao retrocesso. Nem um direito a menos!


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Poema de Geovani Martins


Aquele bandido
que com a língua
você matou e achou bom
era eu
possível poeta do Brasil
futuro não há
não adianta chorar a mãe
não há
futuro não há
se tivesse chegado  a poeta ser
diria
com corpo voz e olhar de poeta:
é foda ser o adubo
que se joga pra poder nascer a paz!

Geovani Martins

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Barra grande


Levei um ano para ver estrelas de novo.
Olhei muito para cima nesse intervalo,
mas elas se escondiam entre prédios com sobrenomes.

Tinha que voltar...
colecionar  as conchas que o mar
não nos trouxe,
como uma antologia
de tudo
que não se pode repetir.

Carla Andrade

Fragmentos


Sou um caracol lunático
A espera desse sol que queima
Sou a vítima
Ou a bala que mata deixando no ar a pólvora

Meu quarto meu refúgio
Lugar em que me distancio de um cotidiano enjoado
E há gente enjoada me procurando
              
Sou um caracol que se esconde
Desse caminhar desenfreado de homens que procuram queimar
A energia
Sou eu a energia a povoar as quatro paredes que me prendem

Sozinho estou feito um caracol que anda sonâmbulo
Numa folha de verdura molhada de água de chuva
Sozinho
A sós
Sem compreensão e sem sorriso
Sempre na espreita do que pode acontecer...

Faço das coisas brinquedos
Meu membro ereto é um brinquedo que dilata
Dilata porque o sangue corre nas veias
Esse sangue de excitação e orgia

Desfaço em lágrimas
Meu corpo magro vai minando água urina e secreções
Daí a pouco serei uma poça indesejada

Como é difícil olhar para cima e não sentir vertigens
Como é difícil matar alguém e não deixar vestígios

Não carrego velas nem mastros
Afogarei num mar de descrenças e aceitações obrigadas

Quem me dera engolir-me
Evacuar-me
Evacuado não mais seria eu um caracol sonâmbulo a andar
Em meio a um jardim que desconheço

Evacuar-me perante os outros
Evacuar-me perante o que é sombrio
Evacuar-me diante de quem me deseja

Não ser desejado
Mas ser dissimulado
Feito um caracol lunático que caminha ás tontas numa folha
De alguma verdura

Lívia que me deixou no início da primavera
E sem falar em outras tantas que me largaram em cada estação
Sou o caracol lunático dessas mulheres que me apertaram
Com tanta fome e destruição

Sou e pronto
Um caracol que arrasta calmamente sua carcaça
Numa folha de vegetação molhada pelas gotas de chuva

Fernando Barros

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sarau Rio Literário - Botafogo - Sábado, dia 26/11, de 13:00 a 16:00



Seguindo a tradição de apresentações e performances poéticas dentro da Campanha Paixão de Ler, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura, o Sarau Rio: Cidade Literária reunirá um eclético grupo de poetas e vozes da geração contemporânea, dentre os quais representantes de diversos saraus cariocas, para apresentações de obras autorais e de terceiros, compartilhando o desejo e o prazer da poesia com o público e revisitando o Rio de Janeiro através da literatura.

Literatura, rimas, música, performance, distribuição de poesia, microfone aberto: variados artistas exibindo o que fazem de melhor para o público e entre si, promovendo o encontro em um ambiente lúdico e artístico. Poesia, Liberdade e Diversidade.

Evento Gratuito.
Sarau Rio Literário - Botafogo.
Biblioteca Popular de Botafogo Machado de Assis - Rua Farani, 53 - Botafogo, Rio de Janeiro.
Data e horário: dia 19 de novembro de 2016, de 13:00 a 16:00.

Evento no Facebook: 
https://www.facebook.com/events/221288104961082/222320854857807/?notif_t=like&notif_id=1479146844628329

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sábado, 12 de novembro de 2016

Úmido tríptico, de Natalie Lima — Primeiro Lugar de Prosa do VIII PPBPP


Rosario
Vai e fica. A parte dela que andou pela Paraguay, pela San Luis e pela Mitre, que comeu papas españolas encharcadas de manteiga – isso desaparecerá aqui. Quanto às ilhas, permanecerá nelas, o rio cor de doce de leite, e ainda assim bonito, islas flotantes. Não são grandes coisas, mas coisas interessantíssimas.

No barco, sente o tapete de água sob o corpo – nunca sem sapatos, pois sua pele é a superfície que aos mosquitos encanta chupar. Quer salvar ao menos os pés do alcance desses vampiros pequeninos e bárbaros. Capazes de picar, diversas vezes, sua panturrilha esquerda por cima da calça de linho, deixam finos rastros de sangue entre o tecido e a pele.

Indiferente a tudo isso, o barco bate contra a água, teimando, dizendo que sim, que segue em frente apesar de. Ao passar por algumas das ilhas, diminui a velocidade para que os outros passageiros possam mergulhar. Ela não. Seu corpo não quer imersões, vai ver que é medo de afundar e não ter o que levar de si para o Brasil. Só deixou que a tocassem o vento, o sol, a superfície da água e a barqueira, que a ajudou a entrar e sair da lancha para turistas. Os mosquitos não contam porque o que fizeram não foi tocar, mas furar e beber. Porém, graças a eles a mulher fica um pouco mais na Argentina, seu sangue na barriga de insetos rosarinos, bichos que moram e dormem e procriam em ilhas flutuantes. O tapete de água, eles não o temem. Ela também não. Sentiu-o sob os tênis que usava, que sentiram a madeira do barquinho, que sentiu a água amuralhada e mole na horizontal, que sentiu, sob a superfície, as correntes e os peixes, que sentiram a profundidade e o fundo arenoso, que sentiram, junto com os peixes que só nadam no fundo, algo ainda mais fundo. Não se sabe o que é, mas isso, o fundo do fundo, respondeu aos peixes, à areia e à profundidade, que responderam aos outros peixes, que responderam às correntes, que responderam à superfície, que respondeu ao casco da lancha, ou do barquinho, chame-o como quiser, o barquinho tão pequeno e frágil de tanto transportar turistas, ele respondeu às solas de borracha, que fizeram de escuta um par de pés.

  
44, rue de l’Amiral Hamelin
O maior clichê sobre Proust é seu leito de morte, sua foto de morto no leito de morte, naquele quarto em que ele deveria sufocar e, ao que parece, escrever durante a noite. Mas e se ela: uma mulher encharcada com água gelada do Sena e que de cabelos molhados quase se pareça com um rapaz; e se ela entrar no quarto, sem explicação alguma, e depois estender uma mão a Proust, e ele aceitar essa oferta, e a janela do quarto se abrir e começar a aumentar de tamanho, e o dia estiver agradável, e houver um jardim lá fora, e a janela se abrir mais e mais e mais, a ponto de se tornar um buraco na parede do quarto que dá para o jardim do edifício de Proust, e ele e a mulher encharcada que se parece com um rapaz caminharem por esse jardim, e apanharem sol, e toparem com aquelas bandeiras tibetanas coloridas que, quando tocadas pelo vento úmido, espalham seus mantras e seus fluidos, e Proust respirar fundo, com pulmões infiltrados, tentando ler o que está escrito nas bandeiras, e ver ali borrado com água do rio o seu próprio texto?

  
Caetité
Ela nunca foi a Caetité, não sabe quais horizontes se consegue avistar por lá. Ainda assim é preciso, o sertão. Ir até. Não por sua lonjura – mesmo da própria Bahia Caetité se afasta –, quando sim por sua aridez inexata. É dessa maneira que a terra quase vira areia, navalha invisível de vento seco. Quem sabe ali a sensação – aguda e, como sempre, ainda sem nome, quase sem forma – estanque; no melhor dos casos, se transmute, abrindo sobre si mesma um sulco, uma fenda quente.

É possível, no entanto, que haja de fato pouco a ver em Caetité – o que, no fim das contas, nem importa. Muito mais interessante e capital é saber o que fazer quando uma vez lá: em que partes farejar os rastros de uma bisavó índia cujo rosto nunca encarou e cujo nome desconhece, em qual chão verter as águas de rio armazenadas em garrafas PET de quinhentos mililitros.

Ela mesma as colheu, essas águas, sem a intenção prévia de derramá-las sobre alguma terra brasileira. São duas: a mais antiga e quase acidental vem da superfície de um rio argentino cor de doce de leite chamado Paraná; a outra, verde-cinza-negra-clara, vem do fundo gelado e mítico a que chamam La Seine. Sumirão rapidamente, uma vez fora de suas respectivas garrafas. Vão se misturar ao chão, vão penetrá-lo com tal gentileza, fazer nele caminhos, para depois pouca coisa ou quase nada delas restar no visível. Imperceptíveis, mas ainda assim lá. É isso um destino. Quantos.

A importância desse gesto em Caetité, onde ninguém a conhece – exceto, justamente e com esforço, a terra. Imperiosa, semiárida, cheia de ossos que já não existem, hoje transformados em pó e revirados intensamente por formigas, ventanias, chuvas e leitos baixos, amassados com parcimônia por gado de corte ou, no pior dos casos, pelas retroescavadeiras das Indústrias Nucleares do Brasil. Então aí, mesmo aí, algo da bisavó jê, um pouco dela para molhar com água de rio estrangeiro e cheirar depois.

Não sozinha, para que sozinha, Caetité tem mais de cinquenta e três mil habitantes, diz o senso do IBGE. Então serão mais de cinquenta e três mil somados a uma, essa-ela, e vai ver aparecem as que desejem águas estrangeiras derramar também, águas de viagem e de sonho, fluxo que não é outro, mas coisa de fora que logo se junta e se espalha e repousa.

Natalie Lima

Murmurinhos, Diogo Paiva


Os ventos da federal

Passam por aqui

Finalmente!!!
Com a sabedoria que ele vê pela frente

Para, paira,

Repousa sobre esta.

Há de ouvir murmurinhos quando se passa por certos lugares.

Há ainda lugares que se ouve gritos

Você há de passar

Há lugares que se vê gritos

Alguns já desgarrados

Escrevem em certas paredes
há os que escrevem e registram

há os que registram!

Não sei,

Pelos corredores se ouvem murmurinhos.


Eu sou a poesia
Eles não sabem quem sou
Me vêem, mas não me enxergam

Sou tudo e sou nada
Não tenho massa, sou a massa
Sou mais, sou arte!
Eles são segredos,
Segredos que regem

Segredos sempre,

Segredos de Estado
Segredos mentem

Me afastam quando sentem

Segrega, mas não quebra
Me olha mas me erra
Agora os olhos são outros
Pois chegaram os ventos!

Diogo Paiva

terça-feira, 8 de novembro de 2016

The lovers, de A. B. Tinelli — Primeiro Lugar de Poesia do VIII PPBPP


aprender uma língua ela
dizia lendo W Blake
na varanda é
um ato solitário

in the forests of the night
cheguei a vestir
um terno cinza e no altar
declamei W Blake

e bem imaginei um Mundo
em um pequeno grão um Céu
em uma flor selvagem pegar
o Infinito com as mãos prender
no Agora a Eternidade

mas invisível um véu
sobre seu rosto impedia
o enlaço amoroso como

numa tela de magritte

meu amor todo caminho
é ela dizia
também um exílio

dor e alegria em um mesmo tecido
(eis o caminho de um verso batido)

uma coisa ela não disse

in the forests of the night
sob toda dor
e todo pinheiro

brilham os olhos de um tigre

A. B. Tinelli

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Fusão, de Leoni — Segundo Lugar de Poesia do VIII PPBPP


o início da história
já não importa
a essa altura
a mistura

de você em
mim do meu
rosto nos seus
olhos dos seus

sonhos nos meus
braços dos meus
risos nos seus
ossos do que é nosso

no que é seu
por osmose meu
é nossa solução
inseparável já

não há substância
pura os átomos
embaralharam as
órbitas para além

do ponto de qualquer
fissura nossas
línguas mis-
(tri)turaram línguas

que já não falamos
apagamos portas pistas
fronteiras resíduos
de Tordesilhas

importa agora
o holofote da nossa
estrela de estilhaços
atiçando o incêndio

desse estardalhaço
de alegrias – de
que importaria agora
o início da história?

Leoni

domingo, 6 de novembro de 2016

Nósocorro, de Mateus Baldi — Segundo Lugar de Prosa do VIII PPBPP


O Nazista não era nazista coisa nenhuma, mas era assim que a gente chamava – porque era loiro; porque era alto; porque era forte e numa tarde de sol disse que ia descer a porrada no Arnaldo, que era judeu. Semana passada nos reencontramos num jantar e ele estava bem diferente – acima do peso e com um maço de cigarros no bolso. O Nazista e eu saímos para fumar quase que ao mesmo tempo e, justamente por não saber que o Nazista era o Nazista, pedi um isqueiro e ele deu e sorriu e disse que me conhecia de algum lugar, que tinha certeza de já ter visto meus olhos em algum lugar, aí foi a minha vez de rir e dizer Você diz isso pra todas?, e ele desviou o olhar para os carros rasgando a rua lá embaixo, Eu não digo isso pra ninguém, respondeu, a vida é muito curta pra gente ficar bancando o disco arranhado – e foi então que eu ri. Ele não entendeu, com razão, e eu pedi

- Desculpa.

e continuei, falei que era engraçado porque em dois mil e dezesseis ninguém mais fala disco arranhado, que certa vez minha filha soltou um escangalhar e eu me acabei de rir no sofá.  Ele sorriu. Disse que eu era uma mulher *****. Assenti. Eu definitivamente era uma mulher *****.  “Me conta de você”, pedi. “Eu não tenho nada de interessante, só tô aqui pra não perder o emprego.” “Ah, é?” “É.” “Eu também.” “Você trabalha pra ()?” “Não, trabalho na ##, mas minha filha quer se formar em |||||| e o único jeito disso acontecer é eu ganhar um aumento...” “...que você pretende conseguir vindo nesse jantar e bajulando seu chefe.” “Como você sabe?” “É o que todos nós, animais de escritório, fazemos”, ele respondeu dando de ombros.

Acabamos trocando telefones e marcando um jantar para a sexta-feira seguinte. Sushi. Em dois mil e dezesseis as pessoas amam sushi no primeiro encontro. Pedimos uma canoa gigante e quase morremos de rir quando engasguei com o wasabi. Depois de a $$$$ chegar, como a chuva ainda não havia parado de cair, o Nazista sugeriu que fôssemos para a casa dele: (hoje não) (por quê?) (porque é o primeiro encontro, não sou uma mulher >>) (tudo bem, quer que eu te deixe em casa?) (eu disse que não queria dar pra você, não que não queria um bom fim de noite): nos beijamos e ficamos dez minutos pensando no que fazer e eu disse: (uma vez quase fui pro Horto de noite, só que o fusquinha do meu namorado quebrou na ladeira e tivemos que voltar de reboque): o Nazista riu e disse: (ok, entendi, vamos pro Horto) (não, tá doido?, tá chovendo, foi só um comentário besta) (não, sério, agora eu quero ir pro Horto). Fomos.

Havia uma árvore no meio do asfalto. O Nazista desviou lento, quase parando, e pude ver dois gatinhos se abrigando sob os galhos retorcidos. Confesso que fiquei com pena. Ele estacionou atrás de um Ford velho e perguntou se eu estava bem – fiquei com dó dos gatos – respondi, mas ele não entendeu muito bem – os gatinhos sob a árvore – continuei –, você não viu? – Não vi gato nenhum, mas se você quiser a gente volta – Não precisa. – Tem certeza? – Absoluta, ele disse dando um tapinha no volante. Nos beijamos por um tempo e então perguntei

- Sua mulher morreu de quê?

e ele teve um sobressalto.

- Desculpa.

- Não, que isso, não tem problema falar dessas coisas. É só que... você é uma mulher muito ~~~~.

- Já me disseram isso. É um defeito grave. Prometo consertar.
  

Rimos. O Nazista disse que a esposa tinha morrido de câncer e perguntou se eu era sempre assim, severa comigo mesma: Só quando acho que estou fazendo algo de errado. E quando você acha que está fazendo algo de errado? Sempre, respondi enquanto baixava a cabeça e sorria com o canto da boca, o batom borrado.

[eu sei que você disse que não é uma mulher >>, mas não tem muita utilidade a gente ficar aqui, nessa chuva. Lá em casa podia ser melhor. Juro que não te encosto a mão. É só uma questão de conforto mesmo.]

Abri a porta do carro e desci.

A chuva me pegou de jeito e ensopou minha @@. O Nazista olhou pela janela, estupefato, e por um segundo desviou o olhar para os meus peitos grudados no tecido.

- Vem! – gritei. – Tá uma delícia.

Um trovão rugiu lá fora.

O Nazista abriu a porta e pisou numa poça.

Nos falamos quase todos os dias. Ao contrário de mim, ele é uma pessoa <, quiçá um pouco <<<. Anteontem conversei com minha filha pelo Skype e ela disse que eu deveria dar uma chance; que o namoro com o escocês estava uma merda; que todo mundo deveria aproveitar ao máximo o início de qualquer relacionamento que se promete duradouro. Perguntei onde ela tinha aprendido a falar bonito desse jeito – aproveitar ao máximo o início de qualquer relacionamento que se promete duradouro – e ela riu, as bochechinhas coradas, e me mandou deixar de palhaçada, Tu parece meu pai falando. Comentei que tinha chances de conseguir um aumento, que meu chefe adorou minha presença no jantar e que a Celeste ia se aposentar no fim do ano – a vaga tinha noventa e nove por cento de chances de ser minha.
  
Ficamos conversando até o dia raiar.


Hoje acordei com o interfone TOCANDO. O porteiro disse que era da floricultura, quis saber se era para deixar subir. Agora eu sou a Dona Silvia da Cobertura 01, os porteiros se importam com a minha segurança. E o Nazista ainda existe. E manda flores lindas. Agradeci com uma mensagem fofinha. 

Boa viagem, ele respondeu.


Sim eu quero largar tudo e ficar o dia de hoje & amanhã & depois com ele meu nazista mas não dá para adiar essa viagem de trabalho porque a celeste vai se aposentar no fim do ano e apesar de ser dona silvia da cobertura 01 eu não posso desperdiçar esse tipo de coisa porque a cobertura 01 não quer dizer nada ela foi herdada eu não tenho grana além da que mando pra sofia sobreviver no exterior então vou ter que ir pra São Paulo aquela cidade horrorosa onde só chove e não tem nem um horto pra gente se esconder e namorar e tomar chuva em paz só o horizonte que mais parece uma carreira de cocaína estendida debaixo das nuvens e fazendo um desabafo a cocaína está cara eu não contei pro nazista né mas tenho outro vício além do cigarro mas é muito pouco quase nunca e se ainda não contei é porque não quero estragar tudo pelo menos não agora em que estamos nos conhecendo tão bem e ele parece estar tanto na minha quanto eu estou na dele porque a gente minha filha quem disse precisa valorizar as coisas boas da vida antes que elas vão embora não não foi nada disso que ela disse e eu nem sei se o verbo ir está conjugado corretamente mas o que importa né afinal de contas sou uma mulher apaixonada e as pessoas apaixonadas podem tudo inclusive dar uns tequinhos quando se sentem solitárias porque não adianta nada nazista jantar  cigarro sushi leblon horto ipanema gávea jardim botânico rio de janeiro são paulo sofia silvia se a gente não puder ter uns prazeres escusos once in a while que é pra poder sofrer em paz sem ninguém perturbar a paciência mas o que eu queria mesmo lá no fundo da minha alma com todo o meu amor não era paulo são janeiro de rio botânico jardim gávea ipanema horto leblon sushi cigarro jantar coisa nenhuma e sim meu nazista que só chamo assim com esse apelido horrível porque o nome de batismo é pior ainda mas obviamente ele não sabe que chamo de nazista já que pessoalmente só chamo de IIIIIII enfim eu queria agora mesmo pular desse avião maldito e dizer que vim para ficar com ele e que mesmo não sendo uma mulher >> hoje eu vou ser >>>>>> e vamos fazer muito    :-)    e também                  que é pra ninguém botar defeito e vamos ser felizes para sempre só por hoje até o sol cair bem laranja quase tangerina por cima dos copans e masps afinal do dia de amanhã ninguém sabe e se esse avião cair ai meu deus eu só queria pai nosso que está no céu falar pro nazista santificado seja vosso nome que eu desci desse avião venha a nósocorro para ficar com ele e antes que pudessem me impedir cair em tentação eu já estava no táxi sorrindo feliz da vida e não há nada que ele possa fazer quanto a isso porque a besteira já tá feita agora estou aqui meu amor livrai-nos do mal e tudo está de volta ao normal, amém Sim.

“Mas e a viagem, Silvia, meu deus do céu, você tá doida? O que você vai fazer?”

“Perder o voo.”


Mateus Baldi

sábado, 5 de novembro de 2016

Texto sem título, de Gyzelle Góes — Terceiro Lugar de Poesia do VIII PPBPP


ainda criança o vento se aliava
às corridas pelo bairro
crescido
tão agilmente
as pedrinhas por volta do parque
no centro da rua
criavam folia junto aos pés
que pouco firmavam estadia ao chão
tamanha era vontade do ser
tímida buscava um buraco
onde se esconder
fazia disso brincadeira
e me sentia muito inadequada
quando surgia à luz de olhos arregalados
que moravam dentro do que
se fazia em mim
tinha estórias pra contar enfim
alugava diário cor lilás sabia
só página vazia suportaria
tanta infância
me descobri sozinha
levava as mãos em suspense
até locais onde a pele frisava em eriço
tamanha ousadia
o corpo como trilha desfrutava
da curiosidade dos gestos
e se revelava
um país das maravilhas
como lia nos contos apanhados
na estante do meu pai
toda vez quis buscar estrela subindo
no banco da cozinha corria
subia
e não tem luz
antes ou no instante que narro estória
nem agora
mas a infância
permanece ainda aqui
no verso na astúcia dos dedos
pendurada no quadro na mesa da sala
em tudo que escrevo

Gyzelle Góes

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Breve narrativa da miséria humana, de Rodrigo Elmas — Terceiro Lugar de Prosa do VIII PPBPP


Era noite de um domingo, e não por algum tipo de intenção estilística acrescento que estava a ler o Inferno de Dante quando subitamente bateram à porta de meu quarto. Uma ambulância à porta de minha casa às 21 horas de um domingo? Não desci. Aguardei no andar em que estava, e permaneci tentando – sem sucesso – ouvir o que uns homens a meu pai diziam. Era o tio Hédio que havia passado mal, e se encontrava hospitalizado.

A família não se abalou... era um bêbedo, valdevinos que vagava por aí a prestar pequenos serviços, reparos de casa; não constituíra família nem estudara. Vinham bater à nossa porta a fim de trazer-nos enfado. Quem acompanharia tal criatura em um hospital? Acompanharia? Sim. Malgrado fosse um ébrio, e ainda que a nossa ambição emergente nos levasse a ignorar familiares menores e distantes, havia uma ambulância em nossa casa! O que faríamos?

Pois bem, por Deus! Que espécie de ambulância vai a uma casa avisar que alguém está hospitalizado? 

Decerto teria morrido. E quem arcaria com o custo de enterrar o de cujus?

Não importa. Alguém deveria fazê-lo. E é nesse instante que os homens da casa se unem numa macabra empresa que se forma a cada morte de um familiar, e se dissolve assim que a última espátula de massa põe fim ao processo que demarca em uma parede recheada por mortos o mundo deles e o dos que ainda sob o sol respiram. Para tal empresa foram três os designados: eu, papai e meu cunhado.

Chegando ao local azado e prestadas as devidas apresentações fomos conduzidos por uma senhora gentil à sala onde descobri o que faz uma assistente social. Aquela devia pertencer a uma classe especial de assistentes sociais; tinha olhos fundos e baços, sombreados por olheiras que a distavam de nós, e que quase nos faziam crer ser ela o ente que controla o fluxo de almas naquele recinto.

Tal efeito se desvanecera à medida que o diálogo avançava e as explicações eram dadas. Sim, havia morrido, morrera enfartado às 17:15 horas precisamente (com o concurso da cirrose), e seu corpinho – nunca esquecerei esse eufemismo – estava nas dependências locais aguardando sua eterna morada.
Havia certa pressa, pois não havia câmara frigorífica no local, mas, ao mesmo tempo, pouco se poderia fazer, uma vez que o cartório estava fechado, mas no submundo que orbita a morte sempre se pode preparar algo – e foi então que decidimos conhecer a via do enterro grátis. Malditos! Somos malditos sovinas, sim. Fingimo-nos de pobres, obtivemos o carimbo de pobres em um papel encardido da secretaria de saúde e rumamos para a velha funerária onde um dia os cliente passivo seremos nós.

Deixamos o cunhado em casa; e eu e meu pai, que não nos falávamos havia algumas semanas, tivemos de dialogar. Era noite profunda, e me recordo de ter repreendido meu pai por cogitar passar por uma suposta cirurgia milagrosa e ainda experimental que o poderia curar do diabetes. Ora qual! Falar em cirurgia num momento de morte! Ao menos estávamos conversando. Era um avanço.

A funerária ficava no segundo piso, sobre as capelas onde algumas vezes eu velara alguns parentes, e subir as escadas me transportou a dez anos antes, à ocasião da morte de minha avó, quando meu primo me desafiara a entrar na sala de exposição das urnas. Ainda me recordo dele acenando ao fundo da sala, terrível, me chamando; o cheiro macabro, definitivo, inefável e inconfundível da madeira feral. Medo.

Quando a gente cresce o tamanho do mundo muda. A mesma sala das urnas agora era uma pequena sala onde os caixões se espremiam. De fora se os via por uma porta de vidro; e a primeira urna era a do meu tio-avô. Sobre cada tampa havia um papel com o preço em letras garrafais, terríveis, como se gritassem seus preços, causando pavor.

Sobre a urna de meu tio não havia preço: era urna doação: a dos desvalidos, dos pobres, e a que os servidores da prefeitura odeiam fornecer não sei porquê. Talvez nesses casos não recebessem propina per capta.

Fomos atendidos por um homem sonolento que trabalhava num recinto e que ao fundo se podia ver os trapos do que um dia fora um colchonete, e que fazia as vezes de cama. Tomamos ciência de algumas cobranças inesperadas; violava-se a premissa principal: gastar nada com aquele vagabundo – pois que já gastávamos com a gasolina, e era muito!

Por acaso ou destino, não importa, meu pai encontrara tio Hédio na rua havia cerca de um mês. Como o mesmo vivia de pensão em pensão, forneceu um novo endereço, na rua São João, centro de Niterói. Meu pai, sempre esquecido, anotou tal em um papel assim que chegou em casa, guardando tal lembrete numa gaveta qualquer.

Foi um golpe de sorte. Precisávamos de um documento do morto e, quiçá, oxalá Deus permitisse, algum dinheiro para algum eventual gasto ou para nosso entretenimento mesmo. Miseráveis!

Estacionamos em frente à pensão. Era quase madrugada quando adentrávamos aquela vila ladeada por um velho sobrado português. Desatamos a corrente que fingia trancar o portão e avançamos lentamente por sobre aquele chão antigo de pedras coloniais. Perguntamos a um senhor pelo quarto do Sr. Hédio. Tínhamos um combinado: jamais dizer que morrera. Se indagados, deveríamos dizer apenas ser parentes e que buscávamos roupas, que o mesmo estava internado, e só. Ora, se revelássemos a morte poderiam cobrar de nós qualquer débito com a pensão!

Sim, senti pena ao ver o lugar onde meu tio passara seus últimos dias. Era um quarto sufocante, com uma cama que se apoiava sobre caixas de cerveja, e o chão estava molhado, rescendia urina. O odor era nauseante. Atrás da porta havia um par de calças e, em seus bolsos – nova sorte -, duzentos reais. Foi como se tivéssemos ganho a noite. Logo achamos seus documentos, encostamos a porta e saímos como que fugindo. Não achávamos que pilhávamos um morto. Apenas fazíamos justiça e obtínhamos a paga pelo aborrecimento do enterro. Canalhas!

Já em casa, combinávamos o que deveria ser feito no dia seguinte. Papai considerou o dia da morte de seu tio: péssimo dia para se morrer! Um domingo! Como se se pudesse escolher o dia em que se morre. O enterro deveria ser providenciado impreterivelmente no dia seguinte, pois que, importa lembrar, não havia geladeira ou câmara frigorífica no local. Teria de ser numa segunda-feira – dia em que todos (menos eu) trabalhavam. Era o meu momento de ser o “homem da casa” e vestir, transportar e levar à sepultura um parente com quem muito pouco convivi – e sobre o qual muito (mal) ouvi.

Dormi mal, é claro. Todas noites que antecedem um funeral são noites ruins. Tenta-se imaginar a aparência do morto, seu semblante; ou até, de modo quase doentio, como Edgar Allan Poe, adivinhar se o rosto penderá mais para a direita ou para a esquerda; se o rosto estará encovado, como de costume, e se os olhos estarão abertos ou cerrados.

Recebi cem reais para pagar alguém que transportaria o corpo, e mais cinquenta reais de “brinde” pela tarefa. O Sr. Paulo me cobrou cinquenta reais, e assim lucrei cem reais com a morte de meu tio. Maldito!

Dirigimo-nos ao local onde estava o corpo. Fomos recebidos com a alegria de quem precisa abrir espaço para novos ocupantes. Lembro-me de naquele dia expandir meu léxico, aprendendo que frigorífico e câmara mortuária (ou frigorífica) eram o mesmo que morgue. Est’última indicava onde meu tio estava, podendo posteriormente entender a origem da palavra morgue e talvez até seu uso naquele local, sendo, quiçá, uma forma de fazer com que pessoas passassem pelo local sem saber o que havia ali dentro.

Lembro de ali tomar ciência de que morgue era uma sala de entulhos; onde cadeiras e televisores velhos e armários e macas enferrujadas aguardavam descarte com eventuais corpinhos embalados para a viagem.

Ao adentrar o recinto, nada estranhei. Somente ao olhar para a esquerda foi que me dei conta de um corpo amortalhado, mas não tive tempo para pensar muito. Homens – exatamente o que eu tentava ser ali – já colocavam suas luvas e começavam a desfazer o pacote em que meu tio estava. Veio a roupa, veio a urna. Junto com a urna veio uma barata, e após mais esse susto veio a percepção de que aquela urna era de madeira e papelão. Que miséria! Que tristeza! Também eu terminaria meus dias assim? Mas, se assim fosse, que diferença faria à minhalma jazer ali?

Não havia tempo para reflexões ou tristeza. Levamos tio Hédio ao cemitério. Os coveiros almoçavam. Teríamos de esperar. Optamos por voltar e almoçar em casa. Tio Hédio ficou lá, na entrada do cemitério, sob o sol inclemente. Quem roubaria um defunto velho?

Voltamos e o enterramos no alto da colina em que os pobres sem identidade jazem. Terra fofa e granulada, vegetação imperial e vasta. Solo adubado por corpos sofridos como o de meu tio. Nunca esquecerei que após algumas pás de terra a tampa de papelão do feretrum se rompeu, expondo parte da fronte de meu tio. Miséria das misérias!


Bem aventurados os mortos, pois que alcançam a graça de do convívio com os vivos se apartar!

Rodrigo Elmas

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ópera para saltos cegos no escuro, de Mateus Baldi — Menção Honrosa VIII PPBPP


Início

Qualquer versão
moderninha daquele
tema de faroeste, que é
pro pessoal ver se entende:
apesar disso aqui ser um
barzinho: eu vou tocar o
concerto que fiz pra ti
duzentos e cinquenta e sete
dias antes do divórcio.

Ária

Talvez haja realidade
aqui – mas só talvez.

Ato I

Não há música, só o ruído
abafado dos teus uivos
no teatro lotado
que é este quarto.

Trio de jazz no bar ao lado

Dedos para rasgar cordas
e um batuque que faça teu
coração chicotear.

Cantiga de ninar no quarto de cima

Deita aqui no meu ombro
e fecha os olhos – shh –, acabou.

Ato II

As gotas no ladrilho do box
fazem um estampido que parece
o clec-clec dos teus saltos (cegos)
quando você sai pra trabalhar
todo dia depois da nossa primeira
vez – que também é sempre um
salto (no escuro).

Interlúdio

No banheiro:
um pequeno jato para o homem,
um futuro cientista ou filósofo ou
bandido ou natimorto para a
humanidade.

Ato III

Há tempos você
precisava estar
assim –
vestido preto,
colar de cristais
brilhando ao redor
do pescoço, os olhos
esverdeados saltando
do rímel –, para só então eu
te jogar do penhasco e dizer
foi um prazer,
meu amor, mas acabou.

Cachê

O dono do bar me
ofereceu um mês
de batatas fritas
pelas cordas tocadas –
e eu aceitei.

Divórcio

Testemunhas afirmam
ter visto os dois sorrindo
ao riscar os papeis com
garranchos sobre a linha
pontilhada.


Finale

(ponto) onde adormecem
os trens após passarem o
dia vomitando proletariado
com seu gosto amargo de derrota.

Casa

Era abrir a porta e te
ver lendo o último
da Patti Smith – em
qualquer lugar do mundo.

Mateus Baldi

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Encorpado, de João Pedro Maciel Schlaepfer — Menção Honrosa VIII PPBPP


todo corpo é orgânico mecânico
todo corpo é uma cidade esférica e esburacada
todo corpo é a lua de uma estrela
que de buraco em buraco se constrói
que de porta em porta fica sem saída

a cidade é um corpo em obra constante
as empresas, corpos edificados
na fumaça do centro e dos carros
e do ônibus que você pegou
você cheira tua blusa, teu corpo
você vê que você se fuma
você fuma teu cartão
você fuma teu estagiário
você fuma teu chefe, teu número, teu endereço
você fuma teu e-mail, teu número de telefone
você fuma teu cargo e tua logo
você enche o peito
e não acende um cigarro
pra matar a fome na hora do almoço
você volta na condução
com a condição de sentir toda a fome de um cidadão
escutando por alto o que sai dos templos que você construiu
encontrando corpos e ideias
subindo ladeira na contramão da fé
que é vendida nas esquinas, nos bares, cafés
nos ônibus, corpos, celestes
é tudo vendido sem nota e sem garantia
porque a fé prescinde propaganda
e o mau uso do dízimo dizima a diferença
aí, você almoça teu orgulho
com fome, com doce
com lama, perdão
almoça pra alimentar o corpo orgânico mecânico
cidade esférica e esburacada
lua de uma estrela
que de buraco em buraco se constrói
que de porta em porta fica sem saída

o homem todo funciona corpo
o corpo funciona todo homem
todo corpo homem funciona
homem funciona o corpo todo
todo corpo funciona, homem

João Pedro Maciel Schlaepfer

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Texto sem título de Helena Mussoi — Menção Honrosa VIII PPBPP


Você, você aí, o que quer? Quer uma narrativa estranha? Ah, pois sim. Dar-lhe-ei a mais bisonha narrativa de todas as galáxias, tenho-no dito e feito.

Veio-me o primeiro caldo de consciência bem como que em vala no mar de ressaca, o calabouço escuro enorme e eu pequeno, pequeno, microbiótico (ou a-biótico?) e cego. Mas não conseguia me mexer, estava amarrado a uma corda intransponível, e eu, eu despido de identidade, sem sexo, sem nexo, insígnio.

Eu era e não era. Não, não era. E o que se faz no status quo do não-ser, penso, "cogito, ergo sum"? Errado, está errado! Ser E não ser, eis a questão!

Ninguém me disse por quê, ou como, ou quando. Só me lançaram à cela num relâmpago, eu, que não tinha olhos, que não tinha nexo, que não tinha voz. "Por quê?", indagava a mim mesmo. As paredes, se é que havia paredes, calavam. Se não o houvessem feito, eu não as teria ouvido - como, ora? Não tinha ouvidos! Não tinha olhos, nexo, voz nem sentidos, o ser que não era.

Sabe o que não lhe contei ainda? A prisão, ela diminuía de tamanho, as paredes - se é que havia paredes - foram cerrando no passar dos dias, quiçá dos séculos! Tempo? Nenhuma unidade de tempo por lá. Imagine-se imóbil numa corda, sem sentidos e à deriva, sem o porquê. Morrer? Não me foi apresentada essa opção. Era (mas não era) eu sozinho, claustrofóbico no mais vasto dos espaços (era vasto?), um átomo reles, um paradoxo mergulhado na vala.

As unidades de tempo onde o tempo não havia se enfiavam por sobre as antes vigidas, peças de eternidade transcendental sobrepunham-se às demais (já obsoletas), e eu flutuava tanto quanto me permitia o segmento de corda. Não sei se esse segmento é que foi cedendo conforme a passagem tempestuosa do não-tempo - mas tempo, não obstante -, ou se a mim fora concedido o dom de sentir, pois sentia a corda ruindo, agora eu a comandava o bastante para nadar pelo oceano turbulento.

Pois resolvi me livrar da corda que me fazia prisioneiro. Chutei, esperneei, sacudi todos os músculos que antes não se manifestavam, tanto quanto meu corpinho de micro-a-bio me permitia. Eu chutei as paredes, encontrei as malditas paredes, elas eram grossas e elásticas e a corrente a qual me atrelava se provou corrente, não, não ruía, não cedia, solta, me solta! - não soltou. Ela não me soltou. Ela se enrolou no meu pescoço que nem jiboia, ela me abraçou para mostrar quem era o Mestre. Quis morrer de novo. Não me foi apresentada essa opção.

Tente, tente com força, imaginar-se preso numa cúpula - eu sei que era uma cúpula - escura, dentro da vala, inundada de caldo escasso, e tente com força se livrar da corda que era uma corrente, movendo-se, mas sem se mover, tal como apontou Zenão. Eu quis morrer, sem sequer estar ciente de minha vida - era vida, não era vida? Era e não era vida? -, sem saber por que lutar pela vida-não-vida em liberdade, sequer com a certeza de haver uma liberdade.

Houve o tempo-não-tempo em que a cela não mais me queria, a redoma não comportava mais meu ser-não-ser, e foi-me expulsando o corpo sem nexo, empurrando-me para fora das paredes elásticas. Naquele instante já estava eu acostumado à minha caverna caricaturalmente platônica, não almejava a liberdade, se existisse a liberdade. Eu amava meu cativeiro. Era a minha vala, era o meu caldo. Lutei mais, e quanto mais lutava, mais a corrente cedia, avessa a meu desejo de permanecer encarcerado. Sim, e gritos. Jorravam berros do lado de fora da cúpula, já me havia sido concedido o dom de ouvir. E o de ver - mas o que havia a ser visto? Nada, eu lhe digo. Eu sentia. Imerso na inundação caótica da Caverna, eu sentia. Talvez fosse esse o porquê de ela, minha Caverna, não me querer mais. Mais lhe valia um não-ser despido de identidade, sem sexo e sem nexo. Ela me traiu. Ela me empurrou.

Ela me empurrou, e fui escavando por um túnel tortuoso e estreito, o atrito me esmagava numa sangria inestancável e inescrutável. Mesmo assim ela me empurrou. Com força, a força de mil Aquiles e mil ondas dos mais revoltos dos mares. "Para fora!", ela berrava, a Caverna, "Para fora!". Força, mais força, eu conseguia escutar a Caverna me in-desejando, "Empurra com força!".

Doeu. Rasgou. Esmagou-me o crânio. Esmigalhou-me os miolos. Esgarçou-me como ao bicho morto produto da caça, pronto para ir ao forno. Eu não queria ir ao forno, tampouco sabia o que era forno. Quis morrer - podia até ser enforcado, não era má ideia -. Não me foi apresentada essa opção.

Mas agora, agora eu era. O não-ser era, e o não-tempo se media enquanto tempo nos ponteiros do relógio. Eu via. Não estava mais escuro. Estava claro demais. A luz fora da Caverna me cegou.

E meus sentidos recém-concedidos foram-se desvanecendo num frenesi de cores que eu não sabia que existiam, a corda-corrente apertava, apertava, a jiboia me abraçou, e com ela a tão cobiçada morte. Vi o Ceifador. Ele andava a largos e lerdos passos na minha direção. Parecia um não-sei-o-quê, porque não sabia de nada, não é mesmo? Doeu. Doeu, mas era uma dor deliciosa. Explodir-me eu ia em tantas cores e coisas bonitas, vai ver o caldo era para isso mesmo, para o gozo do a-biótico.

Enfim, ah!, enfim me foi concedido o dom de vociferar. A cobra largara meu pescoço (o que era um pescoço?). Vociferei. Eu quis morrer - mas me fora arrancada dos bracinhos-micróbio essa opção. E, afinal, lá sabia eu o que era um braço! Não sabia de nada! A liberdade existia, e eu a odiava. Tranquei os olhos, porque não queria mais ver. Cortaram a corrente com a facilidade com que se dá uma machadada na jiboia, tão corpulenta e opressora, e tão mole.

O ar rarefeito não era mais o caldo da vala. Era outra coisa. Cortaram a corrente. Eu era livre. Não mais parasita. Não mais a-biótico. Não mais insígnio. Livre. Livre. Livre. Livre. Livre. Livre. Livrelivrelivrelivrelivrelivrelivr-

-

A luz piscava, ao que voz da parapsicológa cortou o ar, a jiboia mole pairante na atmosfera, e indagou o paciente em transe.

- E depois?

- E depois do suplício eu aprendi.

- Aprendeu o quê?

- A tomar meu caldo de consciência ex utero.


Helena Mussoi

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Vencedores do VIII Prêmio Paulo Britto de Prosa & Poesia


Foi realizada, no dia 13 de outubro de 2016, no Anfiteatro Junito Brandão, PUC-Rio, a cerimônia de premiação do concurso de prosa e poesia aberto a todos os alunos da universidade. Organizado pelo PET-Letras, recebeu este nome em homenagem ao grande professor, poeta e tradutor Paulo Henriques Britto — um dos padrinhos do jornal Plástico Bolha. Os textos vencedores de cada categoria vocês conhecerão ao longo dessa semana, aqui, no Blog do Bolha!

Segue a lista com os nomes dos vencedores do Prêmio Paulo Britto:
 
PROSA

1º lugar: Úmido tríptico, de Natalie Lima
2º lugar: Nósocorro, de Mateus Baldi
3° lugar: Breve narrativa da miséria humana, Rodrigo Elmas

Menção honrosa:
Sem título, de Helena Mussoi

POESIA

1º lugar: The lovers, de A. B. Tinelli
2° lugar: Fusão, de Leoni
3° lugar: Sem título, de Gyzelle Góes

Menções honrosas:
O véu, João Moura Fernandes
Ópera para saltos cegos no escuro, de Mateus Baldi
Encorpado, João Pedro Maciel Schlaepfer


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Lançamento de livro de Eduardo Jardim


Eduardo Jardim lança edição revista e atualizada de seu livro A Brasilidade Modernista - Sua dimensão filosófica. O evento conta com o apoio da Livraria Leonardo Da Vinci, da Editora PUC-Rio e da Edições Ponteio, e será realizado no dia 8 de novembro, terça-feira, às 18h30 na Livraria Leonardo Da Vinci.


Show do Rudah este sábado


O talentoso Rudah apresentará, neste sábado, dia 29/10, seu primeiro CD solo, As Escadas do Último Andar. O show será às 20h, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, em Botafogo. Todos lá!



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Seis e meia


Greve de lírios
vi no seu olhar

saíram todos

no céu
nuvens pasmas
foram incendiar.

Carla Andrade

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O espelho


Essa mulher no espelho
tem o mesmo olhar
abotoado da menina que roubava
as sombrinhas de cogumelos
das árvores e dos pastos.


Esse olhar no espelho parece
bolinhas de gude
na escada rolante,
olhos inconsequentes.

Essa mulher no espelho
tem gosto de hóstia
ao lembrar
dos dedos de menina
a lambuzar o próprio sexo.

Essa mulher é a mesma
que se atira nas raízes do seu colo
e se retira com nacos de barro
de obra inacabada.

Esse reflexo no espelho é o
reflexo de tantos outros reflexos.
Máscaras de pétalas
secas pelo tempo.

Coragem.
Pediu para o homem.
Essa mulher ainda sou eu?

Carla Andrade

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

VIII Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia



Convidamos a todos para a cerimônia de entrega dos prêmios da VIII edição do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia na quinta-feira, dia 13 de outubro, às 18h, no Anfiteatro Junito Brandão.



Como habitualmente, haverá leitura dos os três textos vencedores de cada categoria — prosa e poesia —, além de possíveis menções honrosas, que têm se tornado mais frequentes a cada edição.

Haverá um coquetel livre.


Este ano, contaremos com poetas e convidados especiais, bem como o microfone aberto para que os poetas de plantão espalhem poesia.



Sua presença é muito importante para mantermos esse espaço de criação literária em nossa PUC-Rio. 



Nos vemos lá!

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Lançamento do Livro Arte Brasileira para Crianças


Nesta quarta-feira, Dia das Crianças, teremos um evento todo especial no Parque Lage: o lançamento do livro Arte Brasileira para Crianças, da Editora Cobogó. 
Para crianças de todas as idades!


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Poesia Pichada - uma flor nasce na rua


Lá fora, a arte passa em alta velocidade. Os muros, alto falantes de quem não tem voz. Gritam, clamam, imploram atenção.
- Olha para mim, tenho tanto a dizer! Estão tentando me calar, mas você precisa me ouvir!
Lutando contra o cinza, em letras garrafais questionam. Mobilizam-se pela vida, pela liberdade, pela beleza. Cores jogadas na cara de uma sociedade que sufoca, formas livres e desimpedidas dançam diante dos olhos, e a poesia vocifera, agride, incomoda, exige.
"Não pense, não exista, só assista."
"Pixo, logo existo."
"Faça mais do que existir."
"Só peixe morto vai a favor da correnteza"
"Aonde você encontra sua liberdade?"
"Qual o significado da máscara que cê desenha?"
"Quantos mal me quer existem em uma única flor?"
"Mais amor, por favor."
E por fim, uma arte etérea, mutável e recém criada, clama para que o cinza não a devore. Clama para que não devore suas crianças, suas famílias, sua existência. Um ciclone de medos em uma única frase.
"Apaguem a miséria e não o grafite."

Heloísa Ramalho

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Ocupa Mario 2017 - Oportunidade imperdível!


Abrir os espaços da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ) para toda a classe artística do Estado é a proposta do Ocupa Mario 2017. Grupos, coletivos e artistas independentes devem inscrever seus projetos, sejam eles ensaios ou apresentações, para contar com os teatros, auditório, salas e demais espaços da Casa. As inscrições acontecem de 01 a 31 de outubro de 2016, através do e-mail ocupamario2017@gmail.com, para onde devem ser enviadas a ficha de inscrição e demais anexos que expliquem as propostas.

O Regulamento e informações sobre a documentação pode ser solicitado pelo e-mail projetosespeciaisccmq@gmail.com, além de mais esclarecimentos no telefone (51) 3211.5608. Após o envio, esses documentos são avaliados por um conselho artístico que divulgará os selecionados a partir do dia 1 de dezembro.


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Úmido tríptico, de Natalie Lima — Primeiro Lugar de Prosa do VIII PPBPP


Rosario
Vai e fica. A parte dela que andou pela Paraguay, pela San Luis e pela Mitre, que comeu papas españolas encharcadas de manteiga – isso desaparecerá aqui. Quanto às ilhas, permanecerá nelas, o rio cor de doce de leite, e ainda assim bonito, islas flotantes. Não são grandes coisas, mas coisas interessantíssimas.

No barco, sente o tapete de água sob o corpo – nunca sem sapatos, pois sua pele é a superfície que aos mosquitos encanta chupar. Quer salvar ao menos os pés do alcance desses vampiros pequeninos e bárbaros. Capazes de picar, diversas vezes, sua panturrilha esquerda por cima da calça de linho, deixam finos rastros de sangue entre o tecido e a pele.

Indiferente a tudo isso, o barco bate contra a água, teimando, dizendo que sim, que segue em frente apesar de. Ao passar por algumas das ilhas, diminui a velocidade para que os outros passageiros possam mergulhar. Ela não. Seu corpo não quer imersões, vai ver que é medo de afundar e não ter o que levar de si para o Brasil. Só deixou que a tocassem o vento, o sol, a superfície da água e a barqueira, que a ajudou a entrar e sair da lancha para turistas. Os mosquitos não contam porque o que fizeram não foi tocar, mas furar e beber. Porém, graças a eles a mulher fica um pouco mais na Argentina, seu sangue na barriga de insetos rosarinos, bichos que moram e dormem e procriam em ilhas flutuantes. O tapete de água, eles não o temem. Ela também não. Sentiu-o sob os tênis que usava, que sentiram a madeira do barquinho, que sentiu a água amuralhada e mole na horizontal, que sentiu, sob a superfície, as correntes e os peixes, que sentiram a profundidade e o fundo arenoso, que sentiram, junto com os peixes que só nadam no fundo, algo ainda mais fundo. Não se sabe o que é, mas isso, o fundo do fundo, respondeu aos peixes, à areia e à profundidade, que responderam aos outros peixes, que responderam às correntes, que responderam à superfície, que respondeu ao casco da lancha, ou do barquinho, chame-o como quiser, o barquinho tão pequeno e frágil de tanto transportar turistas, ele respondeu às solas de borracha, que fizeram de escuta um par de pés.

44, rue de l’Amiral Hamelin
O maior clichê sobre Proust é seu leito de morte, sua foto de morto no leito de morte, naquele quarto em que ele deveria sufocar e, ao que parece, escrever durante a noite. Mas e se ela: uma mulher encharcada com água gelada do Sena e que de cabelos molhados quase se pareça com um rapaz; e se ela entrar no quarto, sem explicação alguma, e depois estender uma mão a Proust, e ele aceitar essa oferta, e a janela do quarto se abrir e começar a aumentar de tamanho, e o dia estiver agradável, e houver um jardim lá fora, e a janela se abrir mais e mais e mais, a ponto de se tornar um buraco na parede do quarto que dá para o jardim do edifício de Proust, e ele e a mulher encharcada que se parece com um rapaz caminharem por esse jardim, e apanharem sol, e toparem com aquelas bandeiras tibetanas coloridas que, quando tocadas pelo vento úmido, espalham seus mantras e seus fluidos, e Proust respirar fundo, com pulmões infiltrados, tentando ler o que está escrito nas bandeiras, e ver ali borrado com água do rio o seu próprio texto?

Caetité
Ela nunca foi a Caetité, não sabe quais horizontes se consegue avistar por lá. Ainda assim é preciso, o sertão. Ir até. Não por sua lonjura – mesmo da própria Bahia Caetité se afasta –, quando sim por sua aridez inexata. É dessa maneira que a terra quase vira areia, navalha invisível de vento seco. Quem sabe ali a sensação – aguda e, como sempre, ainda sem nome, quase sem forma – estanque; no melhor dos casos, se transmute, abrindo sobre si mesma um sulco, uma fenda quente.

É possível, no entanto, que haja de fato pouco a ver em Caetité – o que, no fim das contas, nem importa. Muito mais interessante e capital é saber o que fazer quando uma vez lá: em que partes farejar os rastros de uma bisavó índia cujo rosto nunca encarou e cujo nome desconhece, em qual chão verter as águas de rio armazenadas em garrafas PET de quinhentos mililitros.

Ela mesma as colheu, essas águas, sem a intenção prévia de derramá-las sobre alguma terra brasileira. São duas: a mais antiga e quase acidental vem da superfície de um rio argentino cor de doce de leite chamado Paraná; a outra, verde-cinza-negra-clara, vem do fundo gelado e mítico a que chamam La Seine. Sumirão rapidamente, uma vez fora de suas respectivas garrafas. Vão se misturar ao chão, vão penetrá-lo com tal gentileza, fazer nele caminhos, para depois pouca coisa ou quase nada delas restar no visível. Imperceptíveis, mas ainda assim lá. É isso um destino. Quantos.

A importância desse gesto em Caetité, onde ninguém a conhece – exceto, justamente e com esforço, a terra. Imperiosa, semiárida, cheia de ossos que já não existem, hoje transformados em pó e revirados intensamente por formigas, ventanias, chuvas e leitos baixos, amassados com parcimônia por gado de corte ou, no pior dos casos, pelas retroescavadeiras das Indústrias Nucleares do Brasil. Então aí, mesmo aí, algo da bisavó jê, um pouco dela para molhar com água de rio estrangeiro e cheirar depois.

Não sozinha, para que sozinha, Caetité tem mais de cinquenta e três mil habitantes, diz o senso do IBGE. Então serão mais de cinquenta e três mil somados a uma, essa-ela, e vai ver aparecem as que desejem águas estrangeiras derramar também, águas de viagem e de sonho, fluxo que não é outro, mas coisa de fora que logo se junta e se espalha e repousa.

Natalie Lima