sexta-feira, 22 de junho de 2018

A mulher na praia



Todos os dias caminho no calçadão. Sempre muito cedo. Só consigo manter a decisão (minha) e a promessa (ao médico), se bato a porta logo que o sol aparece.

Somos uma turma pequena, quase sempre as mesmas pessoas que surgem das ruas perpendiculares à praia e andam de lá para cá, indo emboraquando chegam as babás e os bebês, as enfermeiras e os velhinhos sedentos de sol.

Foi na semana passada. Parei para tomar uma água de coco, e vi a mulher que ia na direção do Arpoador. A posseira de um território ainda desabitado.

A claridade me cegava, mas me pareceu uma mulher de meia-idade, com um duas-peças discreto, um chapelão exagerado para o horário.

Num exercício de imaginação, criei uma personagem. Uma mãe de família louca por um mergulho antes de enfrentar o tanque e o fogão? Uma executiva que aproveitava para se revigorar para inúmeras e inúteis reuniões? Uma professora que ia encarar alunos malcriados e rebeldes?

Não sei. Mas conto que, na manhã de sol acanhado, a mulher na praia deixou o chapéu na areia, tirou o soutien e mergulhou no mar azul. Um topless sem plateia.

O mergulho foi rápido. Eu ainda estava no quiosque quando ela saiu da água. Sacudiu o cabelo, vestiu de novo o soutien e voltou para o final do Leblon.

Naquela manhã, a mulher na praia se fez sereia. Uma sereia carioca.

Marilena Moraes


quarta-feira, 20 de junho de 2018

Lançamento do PB #39 no Midrash



Convidamos todos para o lançamento da trigésima nona edição do jornal literário independente Plástico Bolha com leitura de textos da edição e bate-papo com autores e produtores. A noite ainda contará com o show de Marco Forte e Itamar Assiere em tributo a Tom Jobim.


Estranho singular


Tua mão passeia pela minha
Como a tinta saboreia o pincel
Para provar tua pele morena
Eu sou abelha em teu corpo mel

Tu despiste meus segredos
Num toque de olhar
Então navega em meu corpo
És meu pirata e eu sou teu mar

Me bate uma saudade
Do castanho dos teus olhos
E do arrepio em meus ouvidos
Com a rouquidão da tua voz

Nessa vida de chuva ácida
Teu riso doce invade meu ar
Pois mistério é sorte detida
Em teu estranho singular

Emanuelle Valentim

terça-feira, 19 de junho de 2018

Sarau do Plástico Bolha na Cidade das Artes


Tem mais um lançamento do Plástico Bolha #39 no início de julho! No dia 07/07, a edição #39 do jornal chega na sua nova casa, a Cidade das Artes, onde terá pouso certo. Às 18h, celebraremos essa chegada com um sarau na Sala de Leituras. 


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Desabafo


Socorro!
Sou de Santa Cruz e ando correndo perigo.
Onde faço minha carteirinha de “não bandido”?
Onde eu falo pro meu grito ser ouvido?
Sou trabalhador
Ou será que sou foragido?

Quem deveria me responder
Parece se esconder
Calaram-se com a propina
E fingem não perceber
Que a cada dia
Mais um jovem é confundido nessa chacina

Infelizmente essa é a realidade da nossa rotina.
 Jovens são desovados em container de lixo nas nossas esquinas.
Eu preciso de alguém que me explique o que é a vida
E não me deixe ser mais um na estatística

Peço socorro, porque já não sei oque faço
Afinal, meu dinheiro não dá nem pra pagar o busão lotado
Quanto mais fugir pra região dos lagos
Quando o bicho pegar.

E pegou! Mais de 150 jovens nenhum era filho doutor.
Estudantes,
Trabalhadores
 Mas não tinha nenhum parente de desembargador
A solução foi culpar geral e dizer que era complô.

Uma semana se passou e nenhuma resposta para aquela injustiça que nos foi imposta.
No curral eleitoral hoje você não se mostra

Mas nós estamos observando candidato
Todo seu mandato de fracasso!
Não nos contentaremos mais só com as ruas asfaltadas
Queremos voz. E a sua permanece calada.

Jhon Vital

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Lançamento do livro "Tertúlia dos Vales", em Belo Horizonte



"Tertúlia dos Vales" é um livro organizado por Rafael Avelino com a obra de diversos autores do interior de Minas Gerais e feito com o objetivo de impulsionar a cultura e a arte nas regiões dos Vales do Muriqui e do Jequitinhonha. 

No dia 15/06 será a vez do lançamento ocorrer na cidade de Belo Horizonte. 

Poema de Diogo Silveira



Diogo Silveira

terça-feira, 12 de junho de 2018

Edição #39 do Plástico Bolha já está no site




Temos motivos para comemorar: o Plástico Bolha chegou em sua 39ª edição! São treze anos de história, muita energia e pessoas colaborando para tornar um jornal literário independente uma realidade no Brasil.

Você já pode conferir a nova edição no nosso site (em html e pdf): jornalplasticobolha.com.br

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Maracatu



minhas lágrimas encharcam 
o solo árido do sertão
aqui minha dor tem som de zabumba
o resto é silêncio

Thaise Diaz

Lançamento do PB #39 em Juiz de Fora



Poesia numa hora dessas é um encontro informal de poetas, editores e leitores para lançar e apresentar livros, ler poemas e tomar cerveja no final da tarde de sábado.

• Lançamento da edição 39 do jornal Plástico Bolha.

 • Lançamentos das plaquetes "Duas vezes o sol", de Laura Assis (Aquela Editora), e "poemas da cor do sangue", de Lucas Viriato (edição do autor), e do romance "Há um colete salva-vidas embaixo do seu assento", de Ana Paula El-Jaick (Texto Território).

• Edições Macondo apresenta os livros "Amanhã alguém morre no samba", de Carla Diacov, "O dia do búfalo", de Matheus Hotz, e "Ao jeito dos animais caçados", de Otávio Campos.

• Leituras com as poetas Anelise Freitas, Fernanda Vivacqua e Marcela Batista.

09 de junho, sábado, a partir das 17 horas.
 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Carta de apresentação


Deixo de me existir
para me tornar
uma vaga
– ou nula – lembrança
na cabeça daqueles
que eu conheci;

daqueles que eu não soube amar;
dos amigos que eu não fiz;
dos que souberam de mim
e dos que eu não soube.

Adeus ao mendigo
que eu encontrei
pelado de graça
na avenida Lúcio Costa.

Verso bonito a deus,
um qualquer verso errante
como qualquer verso:
Cheguei, senhor.

Cheguei pleno de infelicidade
e de vontade de não ser homem;
não ser ninguém além
de um maquinário do tempo.

Dênis Rubra

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Devir


não há outro sentido
  além deste
caminho
  no sentido exato
do que serei

Roberta Lahmeyer

terça-feira, 29 de maio de 2018

Rude destino



Por que você se cansa e se pergunta tanto
se tanto percebeu que já não vale a pena
você tentar viver, tentar achar encanto
num céu tão sem azul, em almas tão pequenas?

Por que você lamenta o fracasso de tudo
como se assim fizesse alguma diferença
e aos seus próprios problemas você fica mudo
e por não resolvê-los perde a própria crença?

Por quê? Qual a razão? Que inspiração te move?
Que lágrima sem termo tanto te comove?
Que vento há em você que nunca se aquieta?

Você não se responde, nem sequer entende
o porquê dos porquês, simplesmente se prende
a este rude destino de talvez ser poeta.
  
Kleiton Muniz

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Lançamento de "Lendário Livro", da Rubra Editora



[De]composição do silêncio



I

Há lembranças que chegam com o silêncio – trazidas
pelos meus mortos que – volta & meia – se atrevem
em meu jantar

(sabemos – querida irmã – pois as deixamos esquecidas
dentro de nossos olhos & de nossos armários de incoerências).

II

A solidão chega pelos espelhos cavos & em nuances
doentias que se decompõem na bruma
& nos brincos-de-princesa.

III

É madrugada agora!
Sentado no alpendre do apartamento fico a ver navios

(lembrando deusas – travestidas de brisa
dimanando [esplêndidas] pelo rio).

IV

Meu pai dizia
que a morte desce dos quadros distendidos em
paredões  de envelhecidos casarios portugueses
doBoulevard Castilho França
& evaporam [solenes] defronte ao Solar da Beira.

(assim – cara irmãzinha – adormeço
para ver se os querubins sobrevoam minha cabeça
de pedra).

Marven Junius Franklin

domingo, 27 de maio de 2018

Dentro da noite veloz



Dentro da noite veloz
Ergo rima sobre rima.
Ninguém ouve a minha voz
Com o silêncio por cima.

De noite, tudo se cala.
Mas a voz do coração ,
Como um incenso, trescala
Fragrâncias de solidão.

E esta lâmpada sombria,
De olhá-la a pontos de cruz,
O Alfaiate da Agonia
Cose o vestido da luz.

Por tantas horas cismando
( A noite esmaece, sutil...)
E o sol vem desabrochando
Como uma rosa em Abril...

Decerto as rimas deixei
No seio da madrugada.
Tanto co´os olhos sonhei:
- Na folha não restou nada!

Quintiniano

sábado, 26 de maio de 2018

Simplesmente ideias


É à noite que elas surgem. Naquela hora em que deito a cabeça no travesseiro e espero o sono chegar. Quando fecho os olhos, elas se formam como nuvens no meu pensamento. Nuvens cheias, pesadas, verdadeiras Cumulus Nimbus anunciando a tempestade. Aí, me dou conta que enquanto minha cabeça está no céu, meu corpo está quente debaixo do edredom.

Dizem que as ideias devem ser capturadas antes que fujam. Mas quando se está deitado no fim do dia, essa tarefa fica um pouco difícil. Então lá vem elas!! E a imagem das nuvens cinzentas, de repente, se modifica para milhos que estouram e viram pipocas: uma, duas, três... ploc, ploc, ploc... E uma pequena luta se inicia: “Levante! Levante! Corra! Pegue um papel e uma caneta para anotar antes que elas desapareçam.” E repito: “Corra, Maria! Corra! Levante! Levante! Amanhã elas não estarão mais aí!! Rápido, rápido!! Elas são ligeiras e escapam da mão feito areia fina.”

Não adianta. O corpo cansado vence. Afinal, já estou deitada e acomodada entre as almofadas. A cama já está aquecida. Tá tudo tão escuro, silencioso, calmo e meus olhos estão ficando pesados. Já sinto os sinais do sono e meu raciocínio está mais lento. E assim, com que para me confortar, tenho um último pensamento antes de finalmente adormecer: “Ah, são só ideias. Amanhã eu as anoto!” 

 Priska Fernandes

quinta-feira, 24 de maio de 2018

A esquecida



Sempre impliquei. Isso lá é hora de conversar? E aos gritos? Por que me acordam tão cedo, como um reloginho, dia após dia?

Quanta falta de educação! Não conseguem gritar mais baixo? Não, acho que não, não é de sua natureza.

Reclamei por muito tempo do alarido porque, afinal, não preciso – e não quero −levantar junto com o sol. Não me importa se esquentou no norte, se vai chover no sul ou se a água da lagoa, antes gelada, agora sofre com a poluição e parece que saiu do aquecedor. É esse o assunto permanente.

No entanto, desde que passei a fotografar e a filmar os biguás, comecei a admirar a organização do grupo, os voos em “V”, poupando energia, a liderança revezada. Além do balé que enfeita o céu.

Pois apresento a vocês “A esquecida”.  Aposto que é fêmea a ave que abandona a turma. Uma desertora? Ou será que esqueceu alguma coisa? De fechar a janela?  De apagar o fogo? Dê o seu palpite e entenda, depois do inevitável sorriso, por que fiz as pazes com os biguás... que continuam me acordando, mas agora não me queixo mais. 

Marilena Moraes