sexta-feira, 19 de outubro de 2018

[outras formas de falar teu nome]


Quando emudeço, te chamo com as digitais.
Quando sou grito, tu viras nome composto.
Quando calmaria, me enlaço em tuas vogais.
Quando sou amor, degusto cada sílaba.
Quando somos nós, uníssono.

Bárbara Seidel



Veterinária de formação, poeta de coração e imaginação.
Trago na escrita mistura de sentimentos cotidianos, e os divulgo nas redes sociais como @capitulosbarbaros.
Acredito que a poesia é capaz de nos abraçar e curar.

Lançamento do livro Nervo Verso



quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O capcioso eu derrotado


Foi Churchill quem disse:
“Agora que fizeram o que queriam
Vocês têm uma tarefa mais difícil
Gostar do que fizeram”
Ao som dos ruídos gástricos da cidade
O poder nunca foi tão metafísico
Partindo de um ponto ignóbil e viril
O desvio insular coberto por um lençol com dois furos
Homens e mulheres como adesivos num campo de golfe
Foi por isso que Prometeu prometeu não prometer mais nada
Sempre ouço dela: “Não existe doença, existe doentes”
Há muito pouco para mastigar ultimamente
Tudo parece trivial e sem gosto
Comboio marginal
Animais gargalhando, pois voltaram no tempo
E abortaram suas mães
E as tartarugas vivem muito
E as corujas também
Enquanto um besouro castrado na gaiola
Queima num berço vicioso
Colando fumaça no quadro branco
Escritor tarde demais
Escritor cedo demais
Desaprendendo
A caçar na escuridão
Um feixe de luz ilusório
Que me cega
No primeiro feixe de luz
Na escuridão
Era 22:00 quando faltou luz no bairro
E o primeiro grito que ouvi foi esse:
“Filha da puta! E agora como saberei a hora de parar de limpar o rabo?”
O maldito cano sanfonado
Os intrusos, a goteira, as rachaduras da parede, o barulho da caixa d’água
Uma aranha sem pernas tecendo sua teia para afastar-se de mim

Ramon Carlos

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Um professor presidente fará toda diferença!


Na decisão desse pleito,
O nobre eleitor que pensa,
Vota contra a estupidez,
Para que o progresso vença,
Pois enxerga claramente
Que um professor presidente
Fará toda diferença!

Professor FERNANDO HADDAD,
Doutor em Filosofia,
É bacharel em Direito
E mestre em Economia,
Pelo voto popular
Está pronto pra salvar
A nossa Democracia.

Casado, pai de dois filhos,
Professor FERNANDO HADDAD,
Hoje em dia, com apenas
Cinquenta e cinco de idade,
Revela o melhor perfil
Pra governar o Brasil,
Com toda capacidade.

FERNANDO HADDAD já foi
Ministro da Educação,
Que ganhou grande incentivo
Durante a sua gestão.
Criou, em várias cidades,
Catorze universidades
Pertencentes à União.

Desenvolveu o ProUni,
Programa espetacular
Que permitiu, por exemplo,
Filho de pobre estudar
Em entidades privadas,
Com bolsas patrocinadas
Até quando se formar.

Mais de um milhão de estudantes
De baixa renda ingressou
Nessas universidades,
E o Brasil todo ganhou
Mais seriedade e fama,
Através desse programa
Que o HADDAD implementou.

Ainda como ministro
Da Educação nacional,
O Fundef, que atendia
Somente o Fundamental,
Em Fundeb transformou-se
E suporte então tornou-se
Da Educação em geral.

E por meio de emendas
Para a Constituição,
Ministro FERNANDO HADDAD
Conseguiu aprovação
De oito dispositivos,
Todos muito positivos
Para a nossa Educação.

Essas conquistas, sem dúvida,
Foram de grandes valores,
Como mostram hoje em dia
Os grandes indicadores.
Foi conquista nacional
O piso salarial
Para nossos professores.

No período de ministro,
Conseguiu FERNANDO HADDAD
Injetar na Educação
Um nível de qualidade,
Que o Brasil, nesse momento,
Teve o maior crescimento
Em sua escolaridade.

Pra duzentas mil escolas,
Nas diversas regiões,
Livros foram destinados
(Uns setecentos milhões!).
A Educação, na verdade,
Não teve, antes de HADDAD,
Ganhado tantas ações.

HADDAD já foi prefeito
De São Paulo, a Capital
De maior população
A nível nacional.
Portanto, está preparado
Pra ser por nós elevado
Ao Governo Federal!

Como professor da USP,
Foi por concurso aprovado.
Participou das Diretas
Por um Brasil libertado
Do jugo da ditadura.
HADDAD tem estrutura,
Tem respeito e tem passado.

No jornal, na internet,
No rádio e televisão,
Tem candidato mostrando
Pistola e fuzil na mão,
Com campanha violenta.
Eu voto em quem apresenta
Propostas de educação!

Tem o discurso do ódio
E o discurso em prol da paz.
Quem pensa bem, ao primeiro
Não dá ouvido ou cartaz.
Em vez de bala e fuzil,
Está carente o Brasil
De um governante eficaz.

Vamos votar em quem tem
Bom caráter e revela
Propostas fundamentais
À Pátria verde-amarela.
Meu voto de honestidade
É para FERNANDO HADDAD
E pra vice MANUELA.

Votei LULA, votei DILMA,
Votei com a liberdade
De quem sabe distinguir
A mentira da verdade!
Voto no partido rubro!
Em 28 de outubro,
Voto 13, voto HADDAD!

Pedro Paulo Paulino

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

silêncio das palavras


há um silêncio nas coisas que se ausenta das palavras, perde nomes, veste noites, arfa insônias, atiça o relento dos naufrágios, há um silêncio nos poemas, uma ausência que se arma de esquinas e esquecimentos, há uma garganta que arranha noturnas engrenagens, escafandros percorrem profundas madrugadas, há uma chuva de silêncios incontidos, os relógios marcam o estágio dos espantos: prantos de uma noite cega

Salvador Passos

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Um poema de Victor Hugo Turezo


nada pode correr embaixo de tripas mover-se
congelar no instante em que engulo
nosso resto de gota alaranjada
nascemos em fevereiro e não consegui carregá-la
sobre as linhas das tuas mão — filhote encolhido-pássaro desvalido — no ventre
cipreste porque nada foi como éramos; e era como
                                                                                pensávamos
e desmantelados, morríamos em jardins
sorríamos capazes de não, de pouco
memorizávamos a inclinação de povoados que viviam
dentro de nossas comunidades incendidas
compilávamos filosofias opostas e isso não nos tornava complexos
mas incapazes de confluir sensações inexatas
nos chamavam pinheiros sebes lítio desfax efexor e, sim,
fomos; quase a inequidade da terra desenvolvíamos
dedos enrugados e compridos e curtos
e cabelos amarelos e vermelhos
dentro de um mesmo atalho, sussurrávamos
quando desviamos de pegadas conjuntas, gritávamos
não, nunca; gritar resolveria a doença do abraço traspassado,
das coisas que não encontrávamos
                                                     em raízes
e morremos no embrião de uma cadela esbranquiçada; na contramão
de nossos movimentos esquivos enquanto eu virava o corpo
e dormia com o rosto tangendo a parede você revelava
o nímio, a languidez, desvivendo-se,
                                                         partindo-se
e não consegui mais encontrar tua parte caminhei pela vereda
de um monte cálido e na inércia não vi o teu nome dentro
do meu;
minha-simbologia-impossível-última-crise-abraço foi e é
pois pensei que era o que
                                       pensávamos.

Victor Hugo Turezo



victor h. turezo nasceu em curitiba (pr), em 1993. publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (patuá, 2017) e quando vagalumes morrem no escuro (edição do autor, 2018). truduziu, junto com natália agra bosque musical (corsário-satã, 2018), plaquete com poemas de alejandra pizarnik.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Estamos em guerra


Estamos em guerra. Guerra contra os pobres, contra os negros, contra as mulheres, contra os indígenas, contra os transexuais, contra os craqueiros, contra a esquerda, contra a cultura, contra a informação, contra o Brasil. A guerra é econômica, política, jurídica, militar, midiática. É uma guerra aberta, embora denegada, é uma guerra total, embora camuflada, é uma guerra sem trégua e sem regra, ilimitada, embora queiram nos fazer acreditar que tudo está sob a mais estrita e pacífica normalidade, institucional, social, jurídica, econômica. Ou seja, ao lado da escalada generalizada da guerra total, uma operação abafa em escala nacional. Essa suposta normalização em curso, essa denegação, essa pacificação pela violência  eis o modo pelo qual um novo regime esquizofrênico parece querer instaurar sua lógica, onde guerra e paz se tornam sinônimos, assim como exceção e normalidade, golpe e governabilidade, neoliberalismo e guerra civil. Nada disso é possível sem uma corrosão da linguagem, sem uma perversão da enunciação, sem uma sistemática inversão do valor das palavras e do sentido do próprio discurso, cujo descrédito é gritante.

 Diante desse panorama, qual a tarefa de um editor? Certamente não é o de corroborar a corrosão em curso, publicando frivolidades para um mercado bulímico que as deglute como entretenimento narcótico. Um livro pode ser muita coisa, entre outras uma arma, um instrumento em meio a um combate, uma ferramenta de análise, uma catapulta de idéias incendiárias e de afetos vários, coléricos mas também amorosos. Extraímos de um dos livros publicados por nós essa consigna: a revolução é da ordem da cólera e da alegria, não da angústia e do tédio. A cólera se dirige contra aqueles que destroem impiedosamente o que nos é caro, devastam nossa riqueza natural, social, subjetiva, afetiva, política. Brutalidade comparável, talvez, ao assassinato dos irmãos de Witte em 1672, que governavam os países baixos no século XVII e que fizeram Espinosa soltar o único grito urrado de que se tem notícia saído daquele homem que diziam ser tão suave e sereno. Cólera, pois, contra o cavalar revanchismo que vai destruindo dia a dia o pouco que se havia conquistado nos últimos 13 anos, numa sede insana de dilapidação, num desejo de extermínio vindo do conluio das várias máfias que se aliaram nessa política de terra arrasada. Laymert Garcia dos Santos escreveu a que ponto esse movimento visa a destruição de um País que tinha, por fim, conseguido erguer a cabeça na cena internacional. Ele tem mil vezes razão.

É preciso dar nome aos bois. O nome disso é guerra civil.

Ora, como entrar numa guerra sem necessariamente aceitar a belicosidade que dela emana? Como combater o adversário sem espelhá-lo? Trata-se de retomar o poder ou de expandir a potência? Não seria o caso, menos de tentar ocupar o lugar daqueles que tomaram de assalto o Estado do que ocupar ruas, praças, escolas, instituições, espaços públicos privatizados, experimentar novas formas de organização, de auto-organização, de sociabilidade, de produção, de subjetivação, mas também, e justamente isso é que parece o mais paradoxal, novas modalidades de despossessão, de deserção, de destituição, de dissidência, de esquiva, de dessubjetivação? Não é essa a combinação mais paradoxal e mais urgente? É preciso derrubar a corja de bandidos que sequestrou o Estado, quebrar o monopólio das corporações que os sustentam, mas como fazê-lo sem entrar no jogo em que saímos vencidos de antemão, já impregnados pela lógica do adversário, de seus aparelhamentos, das paixões tristes que isso suscita por toda parte? Talvez ainda não se tenham inventado máquinas de guerra à altura da eficácia da megamáquina financeira, policial, midiática, jurídica que se instalou. Mas tampouco se inventou um modo de combatê-la sem nelas nos enredarmos. Faltam-nos operadores de desativação, como diz Agamben, modos de tornar inoperante, um poder, uma função, não apenas desativando aquilo a que nos opomos, mas também desativando algo de nós mesmos que ainda permanece intacto e que se enreda nos mecanismos vigentes – o Estado-em-nós, o fascista-em-nós. Pois ficamos cativos do que nos aturde ou tortura, num automatismo de ação e reação que corre o risco de espelhar a lógica dos que comandam – somos impelidos a um tipo de revide que relança o jogo, ao invés de reinventar as distâncias, os hiatos, os descolamentos, as cesuras, as desmontagens de nós mesmos – um novo tabuleiro onde nem sequer houvesse lugar para um peão chamado eu, muito menos um bispo, um rei, uma rainha, e seus movimentos codificados. 

Peter Pál Pelbart
Texto na edição 39 do Plástico Bolha

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Onions | Cebolas — poema de Ricardo Sternberg e tradução de Lucas Viriato


Onions

The opacity of onions
is deceiving.

The onion is a crystal ball
that makes you cry
for future sorrows.

I was told this
by my grandmother
tired of the daily drama
by the sink.

Ricardo Sternberg



Cebolas

A opacidade das cebolas
é enganadora.

A cebola é uma bola de cristal
que te faz chorar
pelas tristezas futuras.

Foi o que me disse
a minha avó
farta dos dramas do dia
cozinhando em frente à pia.

Tradução de Lucas Viriato

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Res publica


Nunca foi por causa da corrupção material,
pois a corrupção moral não nos deixa.
Nunca foi para lutar contra a injustiça,
mas assegurar o que tinha.
Nunca foi pela nação,
mas sim pela colônia.

Anne Penha



Anne Penha é graduada em Letras pela UERJ e tem pós em Audiovisual pela UFRN, e atualmente reside em Natal/RN.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Orgânico


Eu tenho medo de virar um concreto. Frio, cinza e áspero. Medo de me tornar inflexível e rachar. Penso que no futuro já não poderei me moldar, permanecerei fixo e feio como um concreto. Todas as tentativas para a modelagem acontecer parecerão inúteis perante a força do que me fez assim. Todos terão um visão prática do que sou, serei previsível e útil, mas sem graça. Não sujarei a vida de ninguém, mas também não darei cores a elas, somente o cinza.

Apesar que em alguns momentos desconfio, melhor, sinto uma inquietação verde em mim. Algo que cresce e move inquieto, talvez seja apenas uma impressão minha. Mas dia desses me deparei com uma folha saindo.

Fiquei impressionado com uma vida saindo de mim, um projeto arquitetônico da vida. E de repente, por um milagre, viro mato, perco em mim e gosto. Seguro em galhos da minha mente e permaneço vivo nas memórias naturais. Eu sou vivo!

Alden Brandão

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Solidão


Eu posso ouvir o canto da alvorada,
No gorjear dos pássaros perdidos,
Roçando o vento, os plátanos despidos,
Na fria solidão da madrugada...

Meu pensamento vaga pela estrada,
Passando pelos vales ressequidos,
Desperta a bruma, os sonhos esquecidos,
Como quem chega ao fim de uma jornada...

E assim se fez meus dias, meus invernos,
Nas noites sem dormir, nos meus infernos,
Ruflando o peito em lúgubre agonia....

E no estuário em frente ao meu jazigo,
O canto do urutau chora comigo,
Na triste solidão que morre o dia...

Sérgio Márcio

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Peça "Em Família", no Teatro Martim Gonçalves, em Salvador



Poema de Gabriela de Andrade Pereira


o mundo inteiro pode caber
na carga da esferográfica
no fino cilindro do grafite
a vida brota dos calos
dos dedos
dos braços tensionados
que tecem a grafia confusa –
a profusão de cores
espoca no papel –
(a realidade
é uma palavra
e só)

Gabriela de Andrade Pereira

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Lançamento do livro Limo, de Néstor E. Rodríguez



Garden Primer | Jardinagem elementar — poema de Ricardo Sternberg e tradução de Marilena Moraes


Garden Primer

Carrots, said my grandfather,
are nails
which keep the field
from flying.

Then sunflowers,
saind my grandmother,
are daughters
to the sun:

they stare and follow
their bright star father
then shed these hard
dark tears.

Ricardo Sternberg



Jardinagem elementar

As cenouras
aprendi com meu avô,
como pregos,
prendem a vegetação à terra.

E os girassóis,
aprendi com minha avó,
são do Sol
os filhos:

olhar fixo, seguem o
brilhante pai-estrela;
em seguida,
vertem lágrimas amargas e densas.

Tradução de Marilena Moraes

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Inauguração da exposição "Mufa Caos", do artista Barrão



No habitat do ogro


Decidi engordar. Sempre que me dá na telha, como fast food. Vivo comprando sorvetes, bolos e tortas para a sobremesa. Estou orgulhoso com os resultados até agora: minha barriga cresce a olhos vistos e, mais importante, vai adquirindo consistência gelatinosa.

Para ajudar no processo, decidi beber. Costumo tomar vinhos ou cervejas especiais, que harmonizo com o prato, aperitivo ou sobremesa do momento.

Voltei a fumar cachimbo porque combina com todo o resto. Prefiro o risco de câncer de garganta do que o de pulmão – se não, fumava cigarros.

Deixei a barba crescer, e se não fosse tão magro (tirando a barriga), pareceria Karl Max. É verdade que nos trópicos faz calor e, às vezes, o suor escorre entre os pelos, mas não me incomodo. Faço um gesto de cão que se enxuga e molho a casa toda.

Por falar em cão, o meu tenta me fazer acordar cedo para sair. Recuso-me. Se quiser, cague no jornal, que está ali para isto. Estranhamente, Brutus não liga e toda vez que me vê faz a mesma festa. Aperto seu focinho com as duas mãos, jogando-lhe fumaça na cara. Ele ri, o danado, e tenta me morder. Antes eu recolhia sempre o cocô dele na rua; hoje só às vezes.

Quem chega aqui em casa, olha-me esquisito e ao perceber que todos os livros estão espalhados pelo chão, me chama de porco. Nestas ocasiões, rolo no chão, rindo e coçando a barriga, para que fiquem satisfeitos. Sempre os deixo felizes, dá para notar porque saem cochichando, entre eles, encômios sobre minha pessoa. Eu reforço seus laços sociais, e se você me perguntar, acho que devia ser condecorado.

Quase não saio. Perdi muitos ditos amigos. Quem ficou, gosta da minha presença e não exige nada de mim. São feios e a maioria pobre. Tem aleijados também. E negros, homossexuais, mulheres, trapaceiros, nerds, intelectuais, gênios. É tudo muito colorido e barulhento. Normalmente quebram tudo antes de ir embora, mas só porque os incito a fazê-lo. Tenho uma necessidade um tanto doentia, admito, de quebrar objetos. É isto ou ranger os dentes, mas penso que a primeira opção é mais elegante.

Raramente vou a festas e nunca a festividades. Natal e Réveillon são minhas preferidas para ficar em casa. Tomo cervejas que nunca tomei, harmonizo Häagen-Dazs com uma porter e incenso toda a casa com fumaça de Irlandez chocolate alpino. Brutos é como eu: fica puto com os fogos de artifício. Se eu tivesse uma metralhadora, devolvia o favor a esses filhos da puta que só sabem se repetir, ano a ano, como se fossem pequenos fantoches de uma força sobrenatural desconhecida. Vestem branco, os pequenos robôs!

Às vezes, nesses fins de ano, tem uma mulher comigo (é incrível, eu sei). Proponho transarmos no momento da queima de fogos para me livrar do desejo assassino. Elas acham estranho, mas topam. Não faço amor. É difícil descrever estes entrelaçamentos suados. Elas não reclamam e no dia seguinte me ligam perguntando o que vou fazer à noite. A coisa tende a desandar quando criticam minha barba e pedem que eu a raspe. Onde já se viu tamanho atentado à livre manifestação da vontade? Meus relacionamentos terminam, creio, por causa desses pelos que tenho na cara.

As pessoas normais, definitivamente, eu não entendo. Passei cinquenta anos tentando. Desisti. Essa mesmice me revolve o estômago. E não é que a padronização não tenha seu charme – a atração fascinada das ovelhas, a tara pelo rebanho –, ainda mais quando impregnada de juventude e beleza. Mas a vista cansa e a paciência não é eterna. O que atrai o mundo é um monstro forjado, cujo focinho reconheço a quilômetros de distância. Brutus rosna na presença destes protótipos de gente. Eu sorrio, em sintonia com a inteligência canina.

Minha barriga agora emitiu um som gutural. Arroto, e o eco percorre a casa. Meu cachorro corre para buscar um brinquedo. Ao redor, há o som de vizinhos que se preparam para ir ao trabalho. Fico de ouvidos atentos, esperando, esperando. Brutos solta a bola, pois me conhece. Quando se faz o silêncio, digo:

– Chegou a hora, rapaz.

Então, prendo-o e vou dormir. Tenho quase certeza de que gargalho no meu sono. Babo também, porque o travesseiro sempre amanhece úmido.

Bruno Mendonça


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Orfeu litúrgico


No meu inglês inexistente eu te canto.
Você de Hades e eu sem lira pra
te tocar...
Como eu queria tangê-la na minha
jugular pulsante a roçar o vermelho
dividido no palco que te reluz:
toda coral numa liturgia que
me convida para ver a assunção
dos apaixonados - quando vistos,
mesmo que com o canto do olho.

André Siqueira


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

14° Festival Internacional de Animação Estudantil - Anim!Arte 2018


De 24 a 29 de setembro de 2018, no Planetário da Gávea, Rio de Janeiro, 294 filmes serão exibidos como parte do 14° Festival Internacional de Animação Estudantil - Anim!Arte. São, ao todo, 57 países participantes. Para entrar, basta levar 1kg de alimento não-perecível.

Para mais informações, acesse aqui o catálogo e a programação.


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Inscrições abertas para o X Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia


O PET-Letras da PUC-Rio convida a todos para participar da décima edição do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia. As inscrições começaram na última segunda (10/09) e seguem até o dia 10 de outubro.

É possível concorrer em duas categorias: poesia e prosa.

Os três primeiros colocados de cada categoria serão premiados na cerimônia de divulgação dos resultados, no dia 08 de novembro (link do evento: https://www.facebook.com/events/330958064116714/).

Vale lembrar que alunos de todos os departamentos podem concorrer e, assim como na edição anterior, funcionários da PUC-Rio também podem participar.

Então se você gosta de escrever e quer ter a chance de ser premiado pelo seu trabalho, aproveite essa oportunidade!

Para mais detalhes da inscrição, confira o edital do concurso (https://drive.google.com/file/d/1DTregqbxWKcvep0txJO43-vobuSUtJDW/view?usp=sharing). Em breve estaremos confirmando toda a programação da cerimônia.



 

E


Eu te amo com espanto
E solidão.

Com as lâmpadas oblíquas
Do céu fechado

Da roupa esgarçada
Do incrédulo que reza
E não sabe.

Amo como um troglodita
E não te digo

O amor curvo
Feito criança com medo.

Mas esse meu amor
É mais bonito que a água

É simples como um tropeço
É maior que o tempo

Esse adivinho espantado
Ensimesmado.

Eu te amo como quem
Já não acreditava.
Juro.

Daniel Gil


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Azia


Hoje eu acordei com uma azia me rasgando o estômago, na realidade eu não dormi bem, não durmo bem faz uns dois dias, acho que é desespero, fome, ou peso na consciência.

Tá tocando Zuza Zapata aqui na minha Playlist acho que deve ser isso, uma sensação cálida de urgência percorrendo meu corpo. Uma urgência de saber até quando, porque por algum motivo o meu coração tá dizendo que você tá indo embora e Deus queira que eu esteja errada tanto quanto a vida que eu levo.

A minha casa tá uma zona, tem um monte de louça na pia, não faço mais almoço, diminuí o açúcar no café, às dezessete horas bate falta do sal.

Do sal que eu lambo do teu corpo no dia da semana que eu sou mais feliz.

Ontem no banho eu tava imaginando um futuro pra gente, deu medo quando parei pra me olhar no espelho e me vi pensando nas coisas que eu seria capaz de fazer com você. Eu odeio espelhos.

Na realidade eu acho que ando aprendendo a gostar dos espelhos ultimamente pelo simples motivo que eles andam me dando a oportunidade de te ter mais, vez em quando eu fico te observando dentro de mim como quem faz uma prece ao universo. Eu não sinto paz, mas me sinto viva.

Semana passada eu tava relendo os meus escritos e me assustei quando me dei conta que sempre escrevi pra você, de alguma forma eu sabia que a desgraça ia chegar. Eu tropecei em umas bocas antes, mas nada que valesse realmente meu tempo, não desmerecendo ninguém, alguns eram uma gracinha, mas eu sou muito intensa e sempre assusto quem ainda tá começando. Pra ser sincera eu acho que assusto até quem já tá na estrada tem tempo, mas quem tem experiência, bota fé nas malucas.

Eu ando sentindo falta de quando tudo começou, agora vira e mexe você nem me dá mais tchau nas nossas conversas, aparece e abandona. Eu odeio isso, eu fico ali esperando o fim da conversa, eu sempre fico esperando o fim de tudo, e não sabendo o que fazer quando me dou conta que você não vai mais voltar, eu desligo o telefone.

Em todo caso deve ser válido esse movimento, deve fazer bem pra bateria descansar, coisa que meu coração deve aprender.

De toda forma eu te agradeço, quando for sair da minha vida, sai assim também, de uma vez só. Já te pedi isso, lembra?

E só te pedi isso, porque eu não vou saber me despedir de você.

Sherazade Médici



Sherazade é atriz, escritora, poeta e compositora. Autora do perfil @NemTãoSuaveAssim
https://www.instagram.com/nemtaosuaveassim/?hl=pt-br
https://www.facebook.com/NemTaoSuaveAssim/

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Três dias


Vi anjos de plástico
Assim como vi o pau de plástico
Ela acreditava que o bicho papão
Tinha oito dedos em cada mão
Falei que tinha matado o danado
Com uma pistola d’água cheia de vinagre
É sério, ela disse
Vi o picareta tentando mostrar o dedo do meio
Mas ele tinha oito e não tinha um dedo do meio
Ora ora mulher, que siririca desperdiçou
Siririca – confessou – pra mim é como um carburador velho
Só fede e não liga
Meu negócio é língua
Língua áspera e grossa
Rachada e cheia de cores
Por todo autódromo
Deve ser mais lisa que uma capa de livro
Nada! Nunca me depilei, acho desnecessário
Sou natural como o brilho nos olhos do canário
Natural como a carne nas gengivas do tubarão
E o bicho papão
Você quer mais uma bebida?
Por favor
A vela sete dias estava no sexto
A faca no chão tinha sangue seco na ponta
O incenso fedia canela
TV ligada no último volume
Contando um fato de lástima racional
Tremendamente constrangido
Por fazer aniversário ali
E como presente
Uma torrada de querosene
Saudei os anjos e o pau de plástico
Facas e os rasgos no sofá
Privada entupida
Gatos boiando na piscina
Mãe morta após uma temporada familiar
Fumaça dentro da geladeira
Cheiro de sapo nos travesseiros
Cobertores com figuras do arco-íris
Pantufas dentro do plástico
Calcinhas em pó de neve
Boquete enquanto segurava um peido
Nossos sabores não se entrelaçaram
Não à toa
Meses depois
Quando passou de carro e grasnou em filtro branco
Circulando a rótula pra voltar
Me escondi dentro de um banheiro de posto
O único brilho natural que eu carregava
Era uma moeda da Argentina
Vapores, vapores
Caçando as amígdalas e as mariposas
Em casa após três dias do aniversário
Comi dois ovos cozidos
Sentei pra escrever
Mas não saiu nada
Imaginei o bicho papão de oito dedos
Entalhado na parede
Mostrei-lhe o dedo do meio
E uma lágrima solitária
Caiu dentro do copo

Ramon Carlos



Ramon Carlos (Santa Catarina, 1986). Escreve no site: www.estrAbismo.net. Sua carreira literária resume-se a dois contos publicados em uma antologia, além de materiais diversos em revistas como: Inutensílio, LiteraLivre, Subversa, Philos, Escambau, Bacanal, Ruído Manifesto e Literatura & Fechadura. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

escuta


escuta o ranger das horas no relento
o olhar atento
a antena aberta
o trovão nas veias
escuta o estômago digerindo o tempo
o desvão da alma
o esquecimento
escuta o sangue escorrendo aos poucos
esta fala rala
arranhando o muro
o escombro gasto da palavra impura
o ruir de cada monumento
a cidade em chamas
multidão nas ruas
escuta o corpo carregando insônias
os insultos vindos lá do prédio ao lado
o choro calado no meu peito
os passos no telhado
o banco explodindo na esquina
escuta o estrondo seco do silêncio
este sopro imenso do assombro
o rumor daquilo que não cala

Salvador Passos

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Uma cerveja em Copacabana


O Baratos da Ribeiro era um sebo incrível que ficava na famosa rua quase homônima de Copacabana. Durante algum tempo, entre os meus 11 e os 14 anos, tenho a impressão de ter passado mais tempo lá do que na minha própria casa. Depois ele acabou. Quer dizer, pessoas informadas dizem que o estabelecimento nunca fechou de fato, apenas foi transplantado pra Botafogo, mas eu me recuso a acreditar que algum lojista sem coração faria uma mudança sórdida dessas, sacrificando assim um trocadilho tão maravilhoso.

Por que eu passava tanto tempo dentro de um sebo? Certamente não era pra ler as velhas brochuras de Ian Fleming e Richard Bach que abundavam nas prateleiras frontais da loja. Não, o que me interessava estava mais pro fundo. Eu, que era vizinho do lugar, sabia que o último aposento daquele antro apertado juntava as duas coisas que eu mais amava na vida: Rock e gibi de Super-Herói. Meu primeiro cd do The Cure (Boys Don't Cry), a primeira revistinha do Batman (A Piada Mortal), tudo veio daquele cantinho cheio de ácaros. Eu seguia uma rotina bastante firme, naquela época:

De tarde, era a vez do gibi. Eu ia pro sebo arrastando uma mala cheia de livros velhos do meu pai e da minha mãe – cheguei a levar uns cinquenta ou sessenta volumes de uma vez – e trocava eles por qualquer coisa que tivesse escrito "Frank Miller" ou "Alan Moore" na capa. Os lojistas tinham simpatia por mim (eram nerds à moda antiga, felizes por iniciar um jovem neófito), mas eram também homens do comércio. Posso estar delirando, mas me lembro de ter dado uma coleção inteira de livros de direito da minha mãe, todos capa dura, em troca de uma edição velha do Batman Ano Um, de Miller (até hoje não levei o esporro merecido, então acho que saí ganhando).

Mas, de noite, tudo se transformava. Era a hora do Rock, bebê. Depois de ter devorado o gibi do dia, eu voltava no sebo e encontrava o ambiente transformado: seus corredores estreitos e empoeirados ficavam abarrotados de adolescentes apenas um pouco mais velhos que eu, todos fumando e bebendo, usando umas jaquetas jeans super anacrônicas pra época. Era uma galerinha que dizia que era "Mod".* No meio desse povo, tinha sempre uma bandinha de rock underground atacando seus sons em uns amps fuleira e guitarras idem. Era sublime. Meus heróis nessa época eram os caras do Coupé Mal-Assombrado, a banda do meu amigo Pablo Arruda que (entre outras coisas) tinha uma música que era uma ode à menstruação. Eu ficava ouvindo aquilo maravilhado e voltava pra casa só nas altas da madrugada, trocando as pernas.

Mentira. Quase tudo que eu contei no último parágrafo acima é verdade, mas a última frase é uma mentira deslavada. Eu encerrava o programa sempre em torno de oito e meia ou nove da noite, pra jantar, e não trocava as pernas: naquela época, meu único entorpecente era a coca-cola, com suas excitações açucaradas. Eu era um bom menino, e, como eu disse, era um pouco mais novo que a média dos frequentadores do lugar. Mas cabe dizer, ainda assim, que foi exatamente nessas noites de rock no sebo que eu me fiz a seguinte promessa: seria ali no Baratos que eu tomaria a minha primeira cerveja. Assim que tivesse coragem.

Certa tarde, eu fui lá como sempre pra garimpar meus quadrinhos. Entre um Sandman e um Monstro do Pântano, o balconista me perguntou:

- Moleque, você toca guitarra?

- Sim. (Não mencionei que só sabia 4 acordes)

- Tem amplificador?

Eu tinha um amplificador. Uma caixinha miserável, é verdade, mas honrosamente capaz de transformar pulsos elétricos em sinais sonoros. Será que o cara ia me chamar para tocar no Baratos? Não, claro que não. Ele queria só o amp emprestado, mesmo.

- Hoje de noite vem uma banda grande aqui. Eles vão vir com um amp profissional, mas precisam de outros dois pequenos para servir de retorno.

- Que banda?

- Cachorro Grande.

Porra, a Cachorro Grande. Uma banda tão bacana que tinha furado a barreira do underground e estava fazendo sucesso na MTV. Uma banda tão incrível que era do Rio Grande do Sul e tinha vindo fazer show na maior casa do Rio de Janeiro, o ATL Hall**. Uma banda tão cool que se recusava a ser antecedida pelo pronome "o": tinha essa firula de ser "a" Cachorro Grande. Eles iam tocar no Baratos! Claro que eu emprestava o Amp. Seria uma honra servir o Rock'n'roll.

Convoquei para me auxiliar na missão o fiel companheiro Felipe Cabral, que também tinha o seu ampzinho valente. Fomos os primeiros a chegar para a montagem do "palco" (na verdade, o cantinho menos apertado do sebo) e conhecemos os músicos, que numa atitude super rock não se mostraram nem um pouco agradecidos com a nossa contribuição, nos olhando com aquele ar blasé. Porra, eu queria ter aquele ar blasé. Tivemos o privilégio de ouvir calados enquanto eles conversavam com gente mais velha e mais interessante que nós: estavam de saco cheio dos compromissos da turnê, de só tocar coisas do disco deles. O show daquele dia ia ser só de antigas pérolas do rock.

Eles não estavam brincando. Ninguém acredita quando eu conto isso, mas a Cachorro simplesmente abriu o show com Heaven and Hell, do The Who, e emendou em Astronomy Domine, do Pink Floyd. Enquanto a calçada em frente ao sebo lotava, eles mandaram não sei quantas dos Stones, várias outras dos Beatles, coisas de Bowie, Clash... e muita música também dos seus conterrâneos de rock gaúcho: meninos, eu vi os versos do Graforréia Xilarmônica sobre pegar a xinoca e desbravar a coxilha emocionando corações cariocas a três quadras da Avenida Atlântica.

É preciso dizer, antes que eu me esqueça (isso é importante) que a banda tocava a pouquíssimos passos do público: no aperto do sebo, entre uma prateleira com as obras completas de Júlio Dinis e outra com As Melhores Piadas do Casseta e Planeta, podia-se estender o braço e encostar no cabelo seboso ou na espinha de algum daqueles roqueiros. Era demais pro meu pobre coração.

Lá pelas tantas, adentrou no Baratos um sujeito quarentão, alto, feio, narigudo, que eu nunca tinha visto na vida mas era claramente famoso: quando chegou, ele recebeu uma ovação maior do que a da própria Cachorro Grande. Usava uma camisa regata e um rabo de cavalo amarrado no cocuruto da cabeça, como a Pedrita dos Flinstones. No exato instante em que o viu, o baterista da Cachorro cedeu para ele o seu instrumento, e o cara altão se sentou e começou a tocar. Rapidamente, eu fiquei impressionado com a jam infernal que se instaurou. Ele era bom. Parecia um animal selvagem esporrando a caixa e os pratos. Qual seria o seu nome?

Bom, se eu não sabia o nome da figura, pelo menos tinha tomado uma decisão: aquele não era um ambiente para crianças. Se eu quisesse permanecer ali, tinha que virar homem. O que, naquele caso, significava beber a minha primeira lata de cerveja. Aquela tinha que ser a noite. Saí do sebo, caminhei em passos firmes até o ambulante mais próximo e pedi uma Brahma, com todo o dinheiro que eu tinha. Meu passaporte para a vida adulta, aos treze anos. Ela veio suando.

Abri a lata, mas não bebi ainda. Tinha que ser dentro do sebo. Voltei correndo pra lá, onde continuava correndo solta a jam da banda com o baterista doidão. Naquele meio tempo, o cara já tinha ficado empapado de suor (esqueci de dizer o quanto o Baratos era abafado) e, sem parar de tocar, ele começou a procurar por algo na platéia, sofregamente. Seus olhos pararam na minha mão. Ele começou a segurar um groove na bateria apenas usando o bumbo e o contra-tempo, e usou a mão desocupada pra apontar pra mim com a baqueta.

- Você! Tu mermo, moleque. Me passa essa cerveja.

Porra. Porra! Eu não tive escolha, estendi a lata pra ele, com as mãos trêmulas. A primeira da minha vida. Sem ter dado sequer um gole nela.

- Valeu!

Ele pegou a lata e virou ela inteira, em questão de alguns segundos. Rock'n'roll. Eu, que tinha passado noites e mais noites sonhando sobre como seria aquela primeira cerveja, não fiz nada. Fiquei apenas ali entre as estantes de livros, parado, olhando, enquanto meu passaporte para a vida adulta escorria diretamente pra dentro da garganta do Lobão.


*Estou simplificando a questão das tribos de então: para ser mais preciso, eu tinha amigos que diziam que eram mods, punks, emos, playssons, e inclusive uma amigona que se definia como gótica lolitaoitentista.

**Naquela época, todos achávamos horrível que a famosa casa da Barra tivesse mudado o nome de "Metropolitan" para ATL Hall. Hoje, em tempos de "Km de Vantagens Hall", reconheço que éramos felizes e não sabíamos.

Breno Góes

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Não se regula paixão


Não existe isso de regular paixão
De, existente a disparidade,
Negar a si próprio o direito de amar

Controladoria não existe no quesito
Seria um tanto inconsequente
Ter o saber de amar quem quiser

No entanto, não se escolhe
Numa tímida construção, mas radical ao se finalizar
Surge um arrepio interno na presença da amada

E a tudo que foge a arrepios
Não se pode classificar como paixão
Às vezes, quase sempre, até o cérebro fica elétrico assim

Paixão é fruto de mil incertezas
Mas logo tudo se resolve
Comigo, esclareceu-se: ela não me deseja

E assim, por mais que ela se resolva
Não se permite acabar
Ela come na falta, e respira no olhar

Quando eu digo "ela", digo paixão
A quem quero, já cansei de escrever poemas
Por mais que esse alguém me motive a mais um

A paixão come no não haver um amor
Bebe da diferença de objetivos dos corações
E assim, se embriaga, ducha fria, dor de uma lágrima só

Marcos Vinícios Botelho da Silva

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A democracia é um exercício


Respire.
Expire.
Conte até dez.

Levante o braço direito até mais ou menos a altura da cabeça.
Feche o punho.
Variações do exercício:
flexione o cotovelo encostando o punho no ombro;
estique o cotovelo voltando à posição original.

E respire,
expire.

Em caso de bombas de gás lacrimogênio,
máscaras cairão automaticamente à sua frente.
Puxe uma delas.
Coloque-a sobre o nariz e a boca, ajustando o elástico em volta da cabeça.
Respire normalmente.

Pegue uma cartolina.
Coloque-a no chão, como um colchonete de ioga.
Escreva algo como: “Não acredito que ainda estou lutando por...”
Escreva algo como: “Somos todos...”
Segure a cartolina com as duas mãos de modo que todo o seu corpo será um cone.
Caminhe: um, dois, respire, um, dois, expire.
Caminhe: um, dois, respire, um, dois, expire.

Em caso de bombas de gás lacrimogênio,
coloque a folha no chão entre quem lança as bombas e quem as recebe.
Empilhe todas as folhas que você conseguir de modo a formar textos-barricada.
Agache todo o seu corpo numa posição fetal de modo a encostar o joelho na testa.
Não se esqueça de respirar.
A coisa mais importante da vida é:
respirar.

Em caso de cassetetes,
corra
Use tênis confortáveis e roupas leves, que permitem flexibilidade ao se movimentar.
E corra
sem se esquecer de respirar.

Em caso de ouvir gritos de “Intervenção militar”.
respire...
respire...
conte até mil.
Pegue: fios elétricos. Um pau de arara. Um balde cheio até a borda de fezes. Chame o Magaiver. Sim, chame o Magaiver. O Magaiver certamente foi treinado pela C.I.A. Pegue: uma palmatória, uma quantidade razoável de ácido.
Pegue – senão eu mato a sua mulher! Pegue, seu desgraçado, pegue, sua piranha, senão eu enfio esses fios elétricos na sua boceta, senão eu ligo o gás, afundo sua cabeça nesse balde cheio de merda, seu viado.
Respire – dentro desse balde cheio de merda!
Respire – o cheiro de queimado!
Mas não – a democracia não é um exercício militar.
Sinto muito – porque você não entendeu direito.
Respire corretamente(!)

Expire.
É um exercício, a democracia:
respire / expire.
Em caso de atentado à bala,
levante o braço com o punho fechado a cada vez que alguém gritar
“Marielle, presente”.
Não se esqueça: um assassinato.
Não se esqueça: de respirar.
Afinal, a coisa mais importante da vida é:
(somente o som da respiração / somente o som da expiração).

E repita o movimento
mesmo sabendo que a repetição,
como já disse Jorge Luis Borges, Deleuze-Gattari (1972) e Carle Simon,
é já um novo movimento.
Repita o exercício democrático.
Repita.
Se você fizer direitinho,
  mas direitinho,
pode vir a se tornar
uma grande potência democráti/econômica
           como é a nort/América!

Lembre-se: não se esqueça – de respirar.
Lembre-se: a coisa mais importante da vida é:

Ana Paula El-Jaick

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Out Fear


João levantou-se, tirou os tampões do ouvido que permitiam não ser acordado a todo instante graças ao seu sono leve e foi ao banheiro para molhar a cara. Ainda meio atordoado de sono, ignorou o fato de que seu quarto parecia maior e mais pomposo. Aliás, não se lembrava de dormir em uma suíte. Movido praticamente de forma automática, com a mente ainda grogue e sem raciocinar direito, tomou um banho. Sentia-se estranho desde que acordara, quase como se fosse outra pessoa, mas creditava isso ao sono da manhã e ignorara a sensação. Ao escovar os dentes e olhar no espelho pela primeira vez no dia, porém, levou um gigantesco susto e não conseguiu conter um grito de desespero. Sem qualquer explicação aparente, João havia se transformado em Temer. Ele mesmo, o presidente.

Quando certa manhã João acordou de sonhos intranquilos encontrou-se em seu banheiro metamorfoseado em um inseto monstruoso. O horror foi tamanho que o pobre João mal conseguiu conter o grito. Imagine você, caro leitor, façamos aqui um exercício de empatia – qualidade que tanto nos falta – transformado de uma hora para a outra sem quaisquer explicações ao melhor estilo Kafka logo no homem mais odiado da nação. Pobre João. Antes fosse uma barata gigante.

Mas nem tudo era dor e danação. Passado o horror e a surpresa iniciais, João, homem padrão que era, logo pensou nas vantagens que tal condição poderia trazer. E vantagens, para ele, atendiam pelo nome de Marcela. Ora, se estava preso por alguma razão nesse corpo odiado, por que não aproveitar ao menos a regalia de uma bela esposa? Era solitário, nunca havia se casado e há anos não se relacionava com alguma mulher. Essa era a oportunidade de finalmente tirar o atraso que seu antigo corpo sem dinheiro, poder ou beleza o sentenciara. João voltou para a cama e de fato Marcela dormia no outro canto. Com um sorriso malicioso no rosto, aproximou-se, passou as mãos suavemente nas pernas da primeira-dama e se agachou para dar-lhe um beijo, ao que foi recebido com... Um empurrão?! 

– De novo isso, Michel? Se você não consegue nem colocar o seu amigo de pé, por que vem me perturbar? 

Aquilo pegou João/Michel de surpresa. O que aquela mulher queria dizer com “não conseguir botar o seu amigo de pé”? Sem responder nada João correu para o banheiro, tirou a calça e descobriu o maior de todos os horrores: era broxa. A impotência já tomara conta daquele corpo envelhecido. O horror, o horror. Não bastava ser agora o próprio Michel Temer, era também um Michel Temer broxa. Dor e danação. Dor e danação em seu maior grau possível. Ainda atordoado, voltou para o quarto, onde Marcela já sentada continuava a falar: 

– Nós já tínhamos decidido que não faríamos mais isso, por que você continua insistindo? Por mais conveniente que seja nosso casamento, se você continuar com isso teremos que nos separar. Já imaginou o escândalo? Não seria interessante para você, né, Michel, poderia inclusive expor seus podres. Então para com essa merda e volte a se masturbar com a faixa presidencial. 

João ficara surpreso, aquela mulher não tinha nada de recatada e do lar. Ela era o demônio. 

– O que foi – continuou – acha que eu não sei o que você faz no banheiro até tarde? 

– Eu... 

– O que você está esperando, Michel? O dinheiro não vai se roubar sozinho, você sabe. Tem uma longa jornada de “trabalho” pela frente hoje, “querido”. 

João conseguia sentir apenas um ódio intenso por aquela Lady Macbeth e pela forma de escárnio com a qual ela se dirigia a ele. Pela primeira vez sentira alguma pena de Temer. Talvez o homem não fosse assim tão mal. Mas esse pensamento logo foi substituído pela raiva e melancolia de estar trancado em um corpo impotente. Bom, ao menos ainda era o homem mais poderoso do país. Ainda assim, por alguma razão que a razão lhe fugia, mesmo sendo supostamente o homem mais poderoso do Brasil, não conseguia impor suas vontades a ela e uma misteriosa força o compelia a obedecer. 

O velho e bom clichê do sonho seria uma saída muito simples para essa história e João não é estúpido, logo percebeu que aquela situação, por mais bisonha que fosse, era real. Como qualquer bom brasileiro médio, acostumado a consumir desenfreadamente qualquer coisa empurrada goela abaixo pela TV, João possuía perspicácia e conhecimento em filmes B de Hollywood para saber que trocas de corpo sem explicação são extremamente comuns e acontecem quase todos os dias por aí. Então não, esta bizarra troca de corpos não possui explicação, já que esse nunca foi o objetivo desse conto. Quão pretensiosamente kafkiano da parte do narrador. 

Sem explicação, sem lógica e sem sentido, João era agora o presidente. E devia agir como tal, até entender o que acontecera e o que podia ser feito a respeito. Isso se algo pudesse ser feito a respeito. A situação era absurda, mas – peço perdão aqui pelo uso dessa frase lugar-comum mas não encontrei nenhuma que se adequasse melhor – devia dançar conforme a música. Só que não fazia a menor ideia de como se portar ou do que deveria fazer como presidente. Era um humilde porteiro que de repente, do nada, se viu como presidente do Brasil. Como reagir, como proceder? Era óbvio que ninguém acreditaria se dissesse que não era o presidente, então precisaria agir o mais próximo da forma como Michel agiria. 

Tão logo pôs os pés no Palácio do Planalto, nosso ilustríssimo João, devidamente travestido de presidente, foi recebido por duas figuras nefastas. Tratava-se, como não poderia deixar de ser, de sua querida e útil assessoria. E note que aqui me refiro usando o pronome “sua” já considerando João como o presidente em exercício nesse país conturbado, já que tecnicamente a assessoria era de Michel Temer. Só que, porém, entretanto e todavia, desafiando as leis metafísicas, João ERA agora Michel Temer. E, portanto, os assessores eram “seus”. Se é que alguém pode ser de alguém, ou, mais ainda, se algo pode ser de alguém já que não existe alguém com autoridade o suficiente para definir isso, mas aí se pensarmos muito nisso entraremos ainda mais na metafísica e problematizar não é a ideia dessa pequena crônica. Aliás, seria essa pequena anedota uma crônica ou um conto? Ainda não estudei literatura comparada o suficiente para descobrir, deixo a decisão para o leitor acadêmico que esteja lendo nesse momento, se é que há um. Para facilitar a leitura, então, usarei pronomes possessivos e afins já tratando João como o presidente, dado que seria extremamente inconveniente – e acredito que você concordará comigo – tratar o personagem como sendo o porteiro João e não o presidente João/Michel Temer, que, para os efeitos, todos acreditam que seja. 

– Senhor Temer, o senhor por acaso já se esqueceu do combinado? 

O mais difícil de se tornar quem se tornara, para João, era fingir entender o que lhe diziam. Mas era o que esperavam dele, não podia recuar, qualquer outra opção soaria absurda. Acreditava fielmente que um homem deveria se posicionar sempre de forma resoluta e demonstrar dominância, mesmo que em seu interior o medo o dominasse. Já ficou claro que João era um tanto quanto conservador e machista, como grande parte dos brasileiros médios, o que explica essa sua filosofia de vida. Dessa forma, tentou transmitir confiança embora tenha falhado e acabou por soar inevitavelmente débil ao responder seus assessores: - Eu... Não... – sendo prontamente interrompido sem que sequer conseguisse dar prosseguimento à mensagem, não que houvesse algo a ser dito já que João/Temer estava puramente confuso e desnorteado. Normalmente não é muito delicado interromper pessoas, mas caso o seu interlocutor tenha misteriosamente trocado de corpo com o presidente e encontre-se completamente desamparado, não há problema em ser mal educado. A interrupção foi bastante proveitosa - pois como o leitor bem sabe e já peço novamente perdão por me aproveitar de um lugar-comum, mas vocês sabem quão difícil é superar vícios de linguagem – há males que vem para o bem. 

– Senhor, nós havíamos dito explicitamente que não era para comentar a reforma previdenciária em público sob o risco de falar besteira e assim por em perigo o seu acordo com os demais deputados e senadores. Não percebe o que fez ao dar aquela declaração ontem? O país só fala disso. Toninho me ligou hoje dizendo que era para cancelarmos as concessões à sua empreiteira já que o governo parece caminhar para mais uma crise e precisamos de qualquer forma evitar mais um escândalo. 

– Eu... 

– Por favor, não conceda entrevistas, coletivas ou qualquer coisa do tipo pelos próximos dias. Procure evitar repórteres, mas se questionado limite-se a dizer que a reforma é imprescindível para o país retornar seu crescimento. Dito isso é nosso dever afirmar que Toninho junto de alguns outros deputados e senadores estão bastante irritados e demandam uma audiência hoje. Como sei que jogar Damas consigo mesmo não ocupa muito do seu tempo e, portanto, estará livre, a marquei para as 13 horas. Claro que estaremos com o senhor para auxilia-lo e impedi-lo de falar besteiras. 

– Eu... 

– Enquanto o horário da reunião não chega o senhor pode manter-se ocupado jogando Damas em seu gabinete, como de praxe. Nós cuidaremos das atividades presidenciais, para a sua e a nossa segurança. 

Com um sorriso sarcástico e cruel, o assessor deixou João enfim sozinho. Como os leitores podem imaginar, nosso protagonista encontrava-se sem reação, praticamente em choque. Pelo visto a impotência que circundava a figura de Temer não era apenas física. João sabia que o presidente nunca fora onipotente ou mesmo uma unanimidade, mas a fragilidade com que presenciou o cargo o surpreendeu. Temer não passava, então, de uma simples marionete, um boneco sem vontade própria que agia como protagonista apenas para manter as aparências quando, na realidade, existia algo muito mais poderoso, muito maior por trás. Ventríloquos que ditavam o destino do Brasil, que poético. 

Recolhendo-se a sua insignificância, João pôde então ter um momento de sossego. A sós, enfim, refletiu sobre sua atual condição. A vida como ‘golpista’ não era, afinal, de todo mal. Apesar de broxa, de ser odiado por toda uma nação e de ser um presidente decorativo, ainda possuía suas regalias. Sempre poderia chorar em Paris. Entre aproveitar o resto da vida no Distrito Vermelho em Amsterdam ou trabalhar incessantemente e ter que negociar com seu patrão para ter quaisquer enormes privilégios como férias, a resposta era óbvia. Ser o Temer não era tão ruim assim. Claro, não tinha amigos, amor verdadeiro e ainda era impotente. Mas de que importava essas coisas? Ao menos agora tinha dinheiro. E, com dinheiro no bolso, até o ódio alheio se torna irrelevante. Nunca mais haveria de acordar as 5h da manhã para se atrasar por 10 minutos no condomínio e ter de ouvir que era um preguiçoso. Nunca mais teria que trabalhar por doze horas sem receber hora extra. Nunca mais teria que almoçar rapidamente sob o perigo de ser descontado o tempo do seu salário. Quem disse que o dinheiro não traz felicidade nunca foi pobre. 

Considerando numa balança, não havia perdido muito, a vida como João não era assim tão boa. Claro, sentiria falta de seu pênis não impotente e de seus amigos do bar. Mas fazer o quê? O golpe do destino foi certeiro. Haveria de recomeçar a vida, o que, com alguns vários milhões em uma conta na Suíça, não é assim tão difícil. 

Enquanto isso, no outro lado desse país continental, uma história semelhantemente diferente se desenrolava. Pois quando Michel Temer acordou de sonhos intranquilos viu-se metamorfoseado em um trabalhador. Mas essa é uma história para outra ocasião.

Sergio Schargel



Sergio Schargel é carioca, fruto de uma mistura cubana com polonesa. Formado em Jornalismo e Publicidade pela PUC-Rio, atualmente aplica para um mestrado em literatura e sonha em criar carreira na área como pesquisador, professor e/ou escritor. Mantém uma página no Facebook onde posta fotografias, poemas e outras peças artísticas: https://www.facebook.com/sergio.schargel/.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

desgramatical


Tu, que embaralhais minhas regências,
ó vós, que anarquizas minha linguagem
e minha pretensa sanidade,
você, convergência de tudo quanto digo
giratoriamente, como louco,
em direções divergentes,
nem liga pra eu...

Thássio Ferreira

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

arte do desentendimento


não escrevo
sobre o que detenho.
escrevo
para apropriar-me
do que há
no mundo.
para inventar oceanos,
terra,
céu,
gente.
para preencher-me de vazio,
do que não é pleno,
do espanto inquieto
e do questionamento
sobre tudo o que eu penso que eu sei.
ser poeta é desentender.

Dênis Rubra

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Queira. Peça:


A protagonista – ou antagonista, agora tanto faz – retirou-se de cena aos prantos, como deve ser. Fica na coxia tentando se recompor e voltar. Há de voltar, é claro, pois a peça deve seguir. Rica em movimentos caricaturais, para que o espectador, único no teatro feito para dois, perceba todas as expressões. Algumas sempre escaparão, e é por isso que resolveram gravar em algo além da memória. Fitas, por favor. Prossiga.

Remonta-se e torna a desmanchar-se, sempre perdendo pedaços pelo palco. Torna-se fluida, diluída no pouco, e cada vez menos, em que se transformava. Sim, o conteúdo ainda está muito bem definido, mas escorre por frestas e pelos olhos da caríssima plateia de um.

Assim, diluída, mais fácil provar, entristece e furta a cor de todo o cenário. Sublime. Forma cristais translúcidos no teto e volta ao chão. Move-se estupidamente, corpo rijo e frágil. Gira, bailarina graciosa da caixinha de música, mas desequilibra e cai. Perdeu mais alguns cacos, que sublimam. O movimento de gás e sólido coloridos compõem a cena. As luzes baixam e tudo fica roxo. E preto.

Reaparece, sentada ao centro. Blasé, de acordo com o único que o disse sem ser pedante. Atua como se nada doesse e não estivesse cansada. Levanta, agradece e se retira. Na coxia, sozinha – era ela a roteirista, diretora e atriz desse monólogo sem palavras – cai. Permaneceu desmaiada enquanto a platéia se retirava, silenciosamente. A gravação cessa.

Amanda Bastos



Amanda Toni Bastos leciona e aspira ao doutorado. Transita entre o consumo de literatura e a escrita acadêmica, observando cada vez mais similitudes entre ambos. Entre atos de militância e as obrigações profissionais, pensa, rabisca, apaga e eventualmente submete o escrito para onde caiba.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Inauguração da C.galeria, no Jardim Botânico



Primavera árabe


E SE TEUS PÉS SE INFILTRASSEM EM SOLO SÍRIO?
Estremeceriam a terra
Fazendo tombar cemmil fileiras do ISIS
Que desfaleceriam instantaneamente                                                                       
Ante à visão arrebatadora
De suas faces laterais

E SE TEUS PÉS ESCALASSEM O SINAI?
Ressuscitariam Moisés
Que por decreto divino-imperioso
Desceria para disseminar entre os homens
O Décimo-Primeiro-Mandamento

E SE TEUS PÉS ADENTRASSEM A HÉLADE?
Uniriam o Helesponto
Submeteriam Dioniso a cortejo bacante
E seriam o arco da flecha mortal
E certeira de Apolo

E SE TEUS PÉS ATRAVESSASSEM A SAVANA?
Produziriam um clarão estrondoso
Que ressoando por toda a África
Atiçaria o cio das Mambas-Negras
Afungentaria os Gnus
E emudeceria os Leões

E SE TEUS PÉS INVADISSEM O IRÃ?
Fundariam uma Nova Teocracia
Que regida por Eros
Entronizaria as Mulheres
Faria eunucos os soldados
E converteria os aiatolás

E SE TEUS PÉS SE BANHASSEM NO CARIBE?
Tornariam a vida mais molhada
Azul-turquesa
Cristalina
E Ensolarada!

E SE TEUS PÉS RETORNASSEM AO BAHREIN?
Seriam o epicentro de um Maremoto
Que engoliria torres, shoppings
E tudo mais de desmedido
Erguido nas Arábias

E SE TEUS PÉS NAVEGASSEM O MAR VERMELHO?
Amorteceriam suavemente
As gotas púrpuras do teu Mênstruo
Cuja maresia embalaria as tuas velas
E atrairia o faro arguto dos Audazes

E SE TEUS PÉS PASSEASSEM NO ATACAMA?
Deixariam um rastro de videiras
Que exalariam no deserto
O odor penetrante
De uma Primavera Árabe
Inebriada

E SE TEUS PÉS VISITASSEM...
A minha casa?

Caio Moura

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Poems don't hurt


É só um poema
Não se exalte
– Nem se retraia! –
Na sua carapuça maravilhosa.
Melhor que um oi tudo bom,
Ou não, qualquer coisa
Grite alto
Morte aos poetas!
Provável que nem sobre si seja,
Perfeição não se descreve.
Certeza que é só a familiar angústia
Fuga do desejo que me apetece
Que nem desejo por ti é
Mas desejo do desejo
Ilusão de consumo
Da beleza.
Merda!
Quanta tinta gasto,
Quanto neurônio assassino,
Para dizer o de sempre,
Que tua juventude exuberante
É meu martírio de poeta.
Fazes o mais simples:
“Curtes”.
Tão bom receber versos
E calar.
Ser musa a se contemplar de longe
(Merci, arrivederci!)
Ou não.
Então grite...
(já sabes).

Bruno Mendonça



Bruno Macêdo Mendonça (ou Caio Lobo) nasceu em Recife/PE. É Colunista e Curador da Revista Philos, autor da coletânea de contos Trôpegos visionários (2016), bem como do romance Liberdade (2017), lançamentos da Editora Kazuá. Atualmente realiza Doutorado em Línguas Modernas: Culturas, Literaturas e Tradução, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Portugal). Página do escritor no Facebook: https://www.facebook.com/escritor.brunommendonca/?ref=settings. Instagram: @escritorbrunomendonca.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Composição


A música era para o Renato, meu antigo namorado. Sofreu um acidente de carro no Mato Grosso e quase perdeu o braço, mas infelizmente tiveram de amputar dois dedos (o mindinho e o que vem antes dele, que ninguém lembra o nome).

Me disseram que Renato era um nome muito anos 80, e que no máximo meu pai se chamaria Renato, nunca um rapaz de vinte anos. Daí trocamos para Matheus. Substituímos Matheus por "baby" no refrão. E, no refrão, ninguém quer ouvir sobre um acidente de trânsito, a não ser que seja do Smiths, então modificamos pela viagem do Matheus pela estrada. Mas uma estrada para o Mato Grosso não teria cara de hit, já uma estrada para São Paulo...

No fim, adicionamos uma parada num posto de gasolina em Atibaia e uma girl pedindo carona, para dar aquele clima wild. E um pouco de sacanagem, você sabe, em homenagem aos fingers do Renato original.

Diana Joucovski



Diana é uma jovem escritora, natural de São Paulo. Leia mais da autora através do link: https://medium.com/@dianajoucovski.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Lançamento do livro "Nenhum mistério", de Paulo Henriques Britto, em Botafogo



A nação mata a população


Não existe eu-lírico neste poema
E nem muitas definições.

A real é que
Nem eu existo direito.

E quase tudo do que sei
Aprendi por meio dos meus sentidos.

De alguma forma sei que
O que está acontecendo ao meu redor é real,
E eu não queria que fosse.

Porque ser jovem é bom
Mas melhor que isso é ter voz
É ser ouvido
E eu não ouço!

Eles comparam e criam as competições
Enquanto as pessoas morrem de fome.

Eles investem em prisão, porque é isso que o sistema cria!

A cura que está em nossas mãos,
Busca a legalização.

E o agrotóxico que nos mata está em nossas mesas!
Porque o verdadeiro intuito da nação
É ver a população dentro de um caixão!

Sara Freitas

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Quatro poemas-abismos


I.

Desliga o gás e volta pra cama
há um incêndio nos pés do menino Jesus
uma mãe anestesiada rompe no leito
sem máquinas de inalação ou suspiros largos
Desliga o gás e volta pra cama
o consulado do café te exila da festa
come duas salsichas sujas na calçada
e finge a existência de algumas palavras
Desliga o gás e volta pra cama
então pula da cama e atravessa o espelho
toma um ônibus ao largo do Arouche
pra assistir um filme pornô em película
Desliga o gás e volta pra cama
acabou o soro acabaram as veias
restaram flacidez e figos murchos
& seus olhos gastos de velho tabagista
Desliga o gás e volta pra cama
mas evita o vão da castelo branco
onde cônegos atropelam moleques
em seus caminhões vermelhos
Desliga o gás e volta pra cama
desliga o gás, Matheus
desliga o gás


II. CASI NUNCA

Enquanto breco a garganta
e dissolvo meu hálito num tonel esmeralda
a ciência e seus tiques panfletam minha loucura
Sartre com o dedo na tomada estrangulando calafrios
malditos rapazes girando os ventiladores da mente
                                                 
                                           y casi nunca follando
                                              casi nunca amando
                                              casi nunca bailando en techos con goteras

Encaçapado na sinuca de febres e sonhos
pregado nas paredes limpas pelo sol da tarde
no aguardo do acidente câncer infarto latrocínio
ou mesmo da Coragem
de espetar Luzes Vermelhas com o carbono dos dedos
e engolir solfejos pra vomitar uma modinha
no pau mais solitário da grande São Paulo
                                                 
                                           y casi nunca follando
                                              casi nunca amando
                                              casi nunca bailando en techos con goteras


III. DÓI

Peguei o ônibus pralgum lugar
e a estrela vital molhando a mesa dói
dói dói dói todo minuto dói
a espuma contendo glúten dói
e eu preciso beber com moderação
e isso dói porque não sei beber
e não tenho moderação e inferno
como dói estar de frente pro mictório
não bêbado mas quase
de frente pro mictório doendo
como dói sentir tanta dor
e ter que amarrar um cigarro na boca
odeio cigarros odeio cigarros odeio cigarros
DÓI
dói muito e eu preciso de um cigarro
e da espuma gelada
e de uma companhia qualquer
e de ir ao banheiro só pra escrever
como dói estar aqui
medindo os abismos do corpo
tentando não cair em todos eles


IV.

É preciso me agarrar ao parapeito
tão grande é a vontade de me jogar
um espasmo me derruba numa dessas mesas de plástico amarelas
com marcas de cerveja gravadas aos murros
É preciso esconder os canivetes do meu pai
tão grande é a vontade de me arreganhar o bucho
e mostrar pra esses desgraçados o que guardo na carne
Moleque boiola que bate três quatro punhetas por dia
com uma facada no cu deixa de ser besta
e sente tesão no instante de morte
É preciso tirar o cerol das pipas do meu irmão
tão grande é a vontade de as enrolar no pescoço
e voar pra longe do teu alcance
onde não sou bastardo medíocre & maldito

onde fumo três cigarros e passo o tempo
apagando bitucas na mão esquerda

Matheus Molina



Matheus Molina é rondoniense e tem 21 anos. Atualmente mora em São Paulo, cursa Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e é poeta.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Pergunta simples ao coração de Flaubert


Sabemos que Sra. Aubain era invejada pelos burgueses de Pont L'Évêque por ter à disposição uma criada mais do que dedicada a salário tão baixo - quase meio século de infelicidade remunerada a cem francos por ano. Você nos descreveu em detalhes as desventuras da infeliz empregada, que escolheu chamar Felicité...

Você mencionou os nomes de muitos outros que circularam em torno das desgraças da criada. Dos Larsonnière, por exemplo, todos sabemos que chegaram à cidade logo depois da Revolução de Julho. Deixou-nos saber que o Barão de Larsonnière veio em função de sua nomeação como novo subprefeito do local e que fora ex-cônsul na América. Em sua companhia vieram a mulher e a cunhada com três filhas crescidas. “Eram vistas sobre a relva do jardim, vestidas de blusas flutuantes; possuíam um negro e um papagaio”. Você fez questão de nos fazer conhecer o nome do papagaio: Lulu. Contou-nos que Felicité quis o bicho, que remetia, pela origem, a seu sobrinho Victor, morto pelos lados das Américas. 

Sabemos da generosidade da Sra. Larsonnière, ao enviar o negro para entregar a Felicité o papagaio Lulu como presente. Sabemos do começo, meio e fim da vida de Felicité. Interessa-nos a história do emissário de seu presente. Portanto, ousamos dizer (não se ofenda): Faltou uma história. Faltou um nome. Por quê?

Paulo Vicente Cruz



Paulo Vicente Cruz teve textos publicados na Revista Piauí, Subversa e em duas edições especiais da Revista Gueto. Alguns de seus contos também integram a edição comemorativa de 40 anos dos Cadernos Negros, tradicional publicação de literatura afro-brasileira. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Lançamento do livro Sozé, de Anelise Freitas



Imagem dos campos de caos


Os pivetes de carvalho chupam seus dedos
raízes e ejaculam nos furos da terra
Os monumentos gritam maldição de memória
O horizonte pinta bacanais no encontro
de Del Rey e Sodoma
as cadelas se arrastam
no chão e pintam
o asfalto de vermelho
Os sátiros lambem os lábios das garotas que se masturbam
A voz de Deus é o grunhido de um porco
e sua vontade nossa desobediência
Em brasa os pivetes fazem da sua palavra de ordem desespero

Lucas Romano

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Um poema de Paulo Donadelli


Eu sou o homem médio da história
arquétipo perfeito de historiadores e etnólogos
Sou o vulgo, o qualquer do povo
[de qualquer povo
aglutinado fungível na massa indistinta de miseráveis que compõem o mosaico milenar da população planetária

Sou ninguém e ao mesmo tempo espécime exemplar de todos

Meus ossos são o cimento da muralha da China
e as fundações do Empire State
meu sangue azeitou o caminho
por onde arrastaram as pedras das Pirâmides

Esse tempo secou minha  voz
mas milhares de intelectuais de pau mole
ainda dissertarão sobre mim
vendendo consciência social pros otários

No fim, nós todos cagamos uns pros outros
e nossa bosta vira uma pasta uniforme que
flana sobre o rio de nossa cidade
com a esperança de desaguar ainda inocente numa praia turca
nas margens do oceano da mazela humana

Paulo Donadelli

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Sísifo moderno


Se não estivesse lá todos os dias, como poderia ter certeza de que sempre o mesmo homem conduzia aquela imensidão engenhosamente construída, aquele gigante de ferro cujo peso e velocidade ignoravam tudo e todos?

Aos poucos, a máquina se aproximava e quase perdia a monstruosa imponência, mas continuava seu inevitável percurso. O barulho crescendo num contínuo desesperador. O chão ao redor vibrando o atrito incansável de ferros que se chocam. Um gigante deslizando pelos sulcos cravados no concreto.

Diante de todo aquele aço subjugado, o homem persiste, desesperadamente parado.

O condutor, já acostumado às adversidades que sua profissão lhe impunha, percebeu em seu observador um desejo. Tarde demais. O vento já alcançava seus cabelos.

Das inúmeras pessoas que o rodeiam na plataforma, esse anônimo já gravou algumas feições. Rostos comuns numa multidão de desconhecidos. Sentiu-se ainda mais só. Sentiu ainda mais a necessidade do fim. E permaneceu, inabalado.

Já pode distinguir as marcas exageradas no rosto do condutor. Quarenta e sete anos, sempre julgou. O mesmo bigode, o mesmo uniforme azul celeste surgia do fundo negro de um túnel sem fim.

A distância diminui ao ritmo de seu coração. O peito arfa amedrontado. Lança ao seu redor um olhar de súplica. Alguém o compreenderia e o seguraria no último instante?

A máquina não espera. As toneladas que lhe constituem aproximam-se incansavelmente. Algumas pessoas distanciam-se numa atitude de segurança, de verdadeiro pavor. Não querem ser testemunhas de algo tão trágico.

O trem, sujo como tantas vezes o vira, rasga os trilhos à sua frente. Acovardado, vacila o passo e acompanha, com os olhos, o brilho metálico que, como em tantos outros dias, lhe pareceu tão belo e eficaz.

Julian Guilherme




Julian Guilherme F. Guimarães, 32 anos, é graduado em Letras. Integrou a oficina de criação literária de João Silvério Trevisan, no primeiro semestre de 2018. Publicou textos ficcionais e críticos em revistas virtuais e realizou as seguintes adaptações: A bela e a fera no jardim do castelo – baseado na história infantil “A bela e a fera”, de Madame Leprince de Beaumont, Editora Scipione, 2010; e O gato de botas e o mistério da floresta – baseado na história infantil “O gato de botas”, de Charles Perrault, Editora Scipione, 2010.