sexta-feira, 6 de novembro de 2009

VEM AÍ O JORNAL PLÁSTICO BOLHA #27 COM:

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Chacal / Luciano Prado da Silva / Angelo Abu
Heinz Languer / Adélia Prado / Stella Caymmi / Leonardo Marona
João Gabriel D’Alincourt da Fonseca / Leandro Jardim / Lívia Tucci
Zulmira da Silva Pinto / Tânia Diniz / Denise Costa Almeida
Ana Carol Diniz / Alzira Umbelino / Lúcia Serra / Rita Brás
Fabio Bastos / Paulo Gravina / Santuza Cambraia Naves
Fred Coelho / Mauro Ferreira / Ismar Tirelli Neto / Carlos AA. de Sá
Felipe Aguiar Chimicatti / Taiyo Omura / Georges Lamazière
Daisy Miller / Nicole O’Hara / Bruno Papito Nascimento
Marcos Queiroz / Luciana Mutti / Franklin Pacífico / Felipe Ribeiro
Octávio Roggiero Neto / Luisa Noronha / Lucas Viriato
Antonio Mattoso / Paulo Vitor Grossi / Chiara di Axox
Adriana Ferreira Melo / Renan Mendonça Ferreira / Isabel Diegues
Wilmar Silva / Alice Sant’anna / Mariano Marovatto / Raïssa Degoes
Yeda Prates Bernis / Leonardo J. Melo / Isabel Wilker
Yara Shimada / Miguel Del Castillo / Jovino Machado
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em breve!
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Frisson

para Camila Szabo
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vamos encostar
nossos corpos agora
neste calor de novembro?

quem sabe o suor nos cause arrepio
e tua perna encoste na minha
e ao tocar tua pele
meus lábios encontrem o sabor
que sugerem teus poros
da saliência de teus pêlos
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Paulo Henrique Motta
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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aquarela Subjulgada, de Diogo Herculano

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Carro branco
Televisão branca
Revistas caucasianas
Onde está o verde?
Ruas claras
Em prédios caros
Shopping lotado
Com luzes acesas
Onde está o vermelho?
O sul se diz azul
E o norte forte como tem de ser
Sobrou leste e oeste
E que se desatine o resto
Meus olhos são claros
Meu nariz é fino
Sou burguês de estilo
Logo, também me chamam de “bonito”
Rostos brilhantes
Sorrisos amantes
Cabelos flamejantes
Quem roubou o azul-escuro?
Pessoas falantes!
Celulares tocantes!
Tecnologia avante (avante!)
— A custo de quê?
— Na vida de quem?
Onde se encontrará o escuro?
Dentro do absurdo, dentro do absurdo...
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Diogo Herculano
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sábado, 31 de outubro de 2009

amar é abanar o rabo — de Jovino Machado

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

sorriso russo — de Lucas Viriato de Medeiros

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não olhe para mim
com essa cara de moscou
esses olhos orloff
seu sorriso russo
sem mais montes urais
partindo-me em dois
causando o cáucaso
não invoque vladivostok
nem me toque
ingrato, ingrato
leningrado
isso não vai ficar assim
ainda saio da miséria
te largo na sibéria
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Lucas Viriato de Medeiros
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A voz de Sofia, ilustrado por Angelo Abu

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É hoje, no Shopping da Gávea, o lançamento do livro A voz de Sofia, de Andréa Belo. As ilustrações são por conta de Angelo Abu, que assina as capas do Jornal Plástico Bolha. Vale a pena conferir aqui a diversidade do seu estilo para além das páginas de nosso jornal.
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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Masculino raríssimo, de Carla Cavalcoliver

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Eu teria interrompido aí minha pesquisa, por um tempo, depois do recente desengano com a espécie, se a providencia não tivesse posto ao meu alcance um masculino raríssimo, cópia única um homem magistral obra do sábio da atualidade, Daniel, mestre doador, o mesmo que fez a predição de uma vida feliz. Ora, Daniel estava persuadindo de que a vida dispusera a felicidade para o desfruto imediato do homem, não apenas de seu destino pessoal, mas também do destino da humanidade.
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Segundo ele, existem dois grandes padrões, um possibilita conhecer a felicidade, a participação no aqui agora, e o espectador em declínio a morte adiando o fenômeno presente, preocupando a cada instante com o feliz, duvidoso futuro.
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Presente e futuro.
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Aos vinte e poucos anos aproximadamente, esses dois padrões do tempo causam esquizofrenia. Mas na confusão mental se produz um novo animo: a consciência renovando a possibilidade. Dani, sábio deste século avança no tempo, mantendo-se jovem, todos os momentos produzem felicidade, não tem que pensar apenas ver!
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Mergulhando em sua obra, doada generosamente, pude constatar, com o coração pulsando, que ele identificou a essência da vida de qualquer era.
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Refinando sua certeza no modo que dirige a vida. Esse ato está apontado no comportamento de sua obra. Devo confessar-lhe, que um grande arrepio de confiança sacudiu minha alma e mente.
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Veio-me a idéia há um tempo, quando questionei e agora ao encontrar o sábio deste século, pela primeira vez Daniel Sinay.
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Age como se soubesse onde está indo, embora na realidade não tenha certeza do que virá; o que importa é que ele percorre o caminho que escolheu.
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Fez-me entender como age o sábio; não se pode reclamar ou arrepender-se: a vida é um desafio constante, e os desafios não são bons ou ruins – São apenas desafios.
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Generoso me indicou como é para um sábio, a arte do desafio (arte de viver), deve ser combinada com leveza, ausência de tensão e de ambição, sendo gentil com os outros, sobretudo gentil consigo mesmo.
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Guerreiro segue com vida própria, percorrendo se alegra a intenção que o faz continuar depende apenas da alegria, não do pensamento de ambição, ou do objetivo, do desejo, ou até do medo – mas aquilo que o faz seguir adiante mesmo quando todo o mundo diz que será vencido, ou que escolheu não está certo.
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Ninguém o consegue obrigar a fazer coisas que não deseja, e assume a responsabilidade de seus atos.
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Pensa que não tem nada a perder, o medo já não consegue tirar sua energia, e ele consegue aplicá-la para viver, com a certeza que todas as ferramentas para enfrentar os desafios estão em suas mãos, também chamadas experiências trazidas pela maturidade que o permite superar educadamente.
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Além da masculinidade que me assalta, o juízo, como conseguir realizar qualquer idéia sem me envolver com tal beleza, já que a espécie falha com exatidão dia a dia, eu não resistiria tal masculinidade incontestável.
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Todos sabem tão bem quanto eu da minha afinidade pelo masculino, jaz perfeito, na figura de garoto, cuja grande impressão baseasse no interior.
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Refleti longamente sobre está questão, e a resposta me veio hoje, tão singular quanto surpreendente.
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Um meio de conhecer o sexo masculino é confrontar. Colocando-se tão próximo, tão chegado quanto o parceiro de futevôlei.
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— Quando atingi essa etapa da minha pesquisa, não pude seguir senão com apreço a classe, a tal ponto o que acabo de descobri entre tantos outros, graças à masculinidade raríssima saltando e minha admiração atenta: o sábio contemporâneo, e através dele argumentos para amar a vida e a natureza masculina.
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Carla Cavalcoliver
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domingo, 25 de outubro de 2009

Lançamento da nova edição de "a parada"

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Olhares

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É notável a presença do rato em cima dos livros. Ele é grande, robusto, cinza e fedorento. O gato, oculto em sombras, observa sua presa com seus olhos vis e brilhantes. Um homem chega, puxa a cadeira e se senta diante do animal cinzento e dos livros. O roedor, assustado, foge; o predador, decepcionado, vai embora; o recém-chegado, entediado, apanha um livro e lê. Logo mais, dorme. O dia amanhece e o cão observa o galo cantar
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Bruno Papito Nascimento
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

MODULAÇÕES DO CORPO INDISTINTO

Entrevista com a performer e coreógrafa Marcela Levi
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(foto de Claudia Garcia)
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E não somente não podemos nos pensar a nós
mesmos em termos de adjetivos, mas também os adjetivos
que nos aplicam, não podemos jamais autenticá-los:
eles nos deixam mudos; são para nós ficções críticas.
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ROLAND BARTHES
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A afirmação de Barthes, deslocada para o campo da performance, pode nos convidar a imaginar um corpo furtivo, espécie de massa em movimento que se redesenha continuamente, deslizando de sentido em sentido sem se deixar deter pela tentação classificatória. Avançando ainda com a sutileza do pensamento de Barthes, é preciso lembrar que não se trata de recusar o “mau” adjetivo para aderir às promessas de um corpo belamente engajado, que se apóia nos “bons” adjetivos e nas nobres intenções para tornar-se herege, marginal ou transgressor. A operação desviante que o corpo furtivo põe em marcha deverá ser mais árdua e mais discreta, trata-se de produzir um corpo que, ao se interrogar em cena, consegue armar-se em paradoxos, ativar suas ambiguidades sem desfazê-las por completo diante dos olhos do espectador.
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É de uma operação semelhante que se constitui o trabalho da performer e coreógrafa carioca Marcela Levi (Rio de Janeiro, 1973). Uma das linhas de força de suas performances reside precisamente no modo como consegue dar a ver os interstícios do corpo, suas fissuras e fugas de sentido, um corpo que é atravessado pela presença de objetos que o alteram, modulam, redefinem. Desde que deu início a seus projetos individuais com o trabalho Imagem (2002) Levi vem se destacando no contexto da dança e das artes por lançar mão de uma linguagem performática que tumultua a hierarquia entre corpo e objeto, incidindo sensivelmente sobre as dicotomias (dentro-fora, corpo-mente, ativo-passivo, afirmação-negação) nas quais nos apoiamos habitualmente para pensar e lidar com o corpo. O corpo, para Levi, não existe a priori, é algo a ser produzido em cena, é um lugar de passagem, de transmutação, é embrionário mas, ao mesmo tempo, tenso, crispado, rigorosamente elaborado. Permeável – mas não sem resistência - aos objetos que são utilizados em cena, o corpo é retirado de uma situação de fechamento, de totalidade e de identidade fixa. Entre um e outro circulam constelações de cansaço, demência, tensões, violência como engrenagens de intensidade emotiva em mutação. Vale a pena ainda apontar o humor singular que emerge em suas performances e que colabora para esse “desfazimento” dos limites de um corpo autárquico e autônomo, e, através do humor, surgem também possibilidades de um outro pensamento sobre o corpo contemporâneo, tensionado nesse jogo de forças entre a passividade e o excesso de estímulo (e controle), ao qual, por bem ou por mal, estamos todos submetidos.
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Antes de te colocar algumas perguntas, gostaria que você falasse um pouco sobre a sua trajetória. Você começa trabalhando como intérprete em companhias de dança antes de iniciar seu trabalho solo como performer e coreógrafa independente. Como se deu essa passagem?
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Colaborei durante oito anos (1994 – 2002) com a coreógrafa Lia Rodrigues. Trabalhei na companhia como intérprete/criadora e assistente de direção. Quando realizei meu primeiro projeto, a performance Imagem, eu ainda estava na companhia. Ensaiava inúmeras vezes durante as turnês, em quartos de hotel. Algum tempo depois, deixei a companhia e comecei a investir em projetos próprios e em colaborações temporárias com artistas visuais e outros coreógrafos. Atualmente, colaboro com a coreógrafa portuguesa Vera Mantero e estou desenvolvendo um novo trabalho, um duo, que se chama Em redor do buraco tudo é beira. Portanto, não foi bem uma passagem, pois mesmo dentro da companhia eu já fazia várias coisas. Acho que desde o inicio percebi que não queria me fixar numa posição. Até pouco tempo atrás, me sentia engasgada quando alguém me perguntava sobre a minha profissão. De uns tempos pra cá prefiro alternar as respostas, algumas vezes digo que sou bailarina, outras vezes me apresento como coreógrafa ou performer ou as três coisas, dependendo da situação.
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O escritor Francis Ponge (1899 – 1988) propunha uma poesia tocada pela força de empuxo dos objetos (Le parti pris des choses). Ponge acreditava que para retirar-se da ciranda estéril do humanismo era preciso “se deixar puxar pelos objetos”. Para ele, não se tratava mais de organizar as coisas ao nosso redor para atingir uma harmonia, mas de se deixar desarranjar por elas. Há algo no seu trabalho que parece seguir um impulso semelhante, os objetos funcionando como um furo na redoma de sentidos e de práticas que tendem a delimitar os limites entre sujeito e objeto. Você chegou a criar a expressão “subjetos” para designar esse corpo transitivo, poderia falar um pouco sobre isso?
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Sim, é exatamente isso: “... se deixar puxar pelos objetos”. Quando estou trabalhando, penso em me “submeter” aos objetos e não apenas em manipulá-los, como se fossem algo sobre o qual tenho controle. Busco experimentá-los, um pouco como fazem as crianças. Gosto muito de observar as crianças se movendo, elas têm um estado de momento, ou seja, elas acessam um estado de atenção que se assemelha a certa intensidade dos animais. Diferentemente dos adultos, não estão atravessadas pelas noções de futuro ou passado, simplesmente estão lá, inteiramente instaladas no aqui e agora, assim como os animais e disso surge uma presença completamente fascinante. Acho que as crianças não “fazem coisas”, elas se misturam ao que fazem, elas são o próprio ato. Cada passo é um passo e nada além disso, cada gesto fala do gesto em si. Nunca sei se elas estão jogando com os brinquedos ou se são os brinquedos que estão jogando com elas. É esse tipo de experiência que procuro ativar no meu trabalho com os objetos, uma terceira coisa que não é mais nem o meu corpo nem o objeto em sua autonomia, mas sim um corpo/objeto/sujeito imbricado. Foi dessa prática de trabalho que surgiu a palavra “subjetos”: objetos/sujeitos deslocados e desfuncionalizados.
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Mais do que questões de gênero e de alteridade, o seu trabalho interroga posições de poder atravessadas por paradoxos. Sem deslindar para um relativismo cínico, você parece estar mais interessada em mostrar que cada nó de poder é uma massa de nuances, um núcleo que transporta divergências internas e ambiguidades. Assim também o corpo passa a ser percebido como um solo fissurado, que se dobra por suas próprias contradições, tensões, buracos. Como você situaria o seu trabalho no contexto da performance produzida atualmente? Que performers ou artistas lidam com questões que motivam ou inspiram a sua prática?
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Me interesso por obras que deixam espaço, que abrem buraco, que funcionam como um gatilho liberador de reflexões, afetos e associações. Me interesso por artistas que me põem pra trabalhar. Nessa direção, penso num trabalho-solo da coreógrafa portuguesa Vera Mantero Uma misteriosa coisa disse o e. e. cummings, nas Piezas distinguidas da performer espanhola La Ribot, no espetáculo Nom donné par l'auteur do coreógrafo francês Jérôme Bel, entre tantos outros…
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Entendendo que o seu trabalho se dá na relação entre performance e artes plásticas, e sabendo que o seu primeiro trabalho solo intitulava-se Imagem, você poderia falar um pouco sobre a ideia de imagem que surge nesse processo? Ainda uma pergunta encadeada nessa: há alguns anos atrás o artista brasileiro Tunga criou a noção de “instauração”, que foi depois retomada e utilizada por alguns críticos brasileiros. Com essa expressão, Tunga sugeria um outro tipo de relação sujeito-objeto (uma relação fugaz e transitória e, no caso da obra do próprio Tunga, também erótica) situado entre as noções de instalação e performance. Você, que inclusive já participou em performances do próprio Tunga acredita que esse conceito pode servir para uma aproximação ao seu trabalho?
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Sim, acho que sim. Construí a performance Imagem em colaboração com a fotógrafa brasileira Claudia Garcia. Pensar um corpo não capturável, que se expõe em constante reorganização, foi o nosso ponto de partida. Estávamos interessadas em pensar a imagem como algo que não afirma, que não estabiliza. Queríamos falar de uma imagem/corpo vazada e borrada de sensações. Uma imagem precisa, mas de uma precisão cheia de ambiguidades.
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Há um tipo de humor nas suas performances que transporta uma sensação de desamparo e, por isso, se distancia da lógica da ironia, pois não se trata de denunciar algo externo ao corpo que se constitui em cena. Em In-organic, quando surgem as falas, sentimos que você e sua voz também se deixam corroer e afetar pelo humor que elas desprendem. E mesmo quando seu trabalho chega a sinalizar/comentar questões de um real exterior (a banalização da morte, por exemplo), é por dentro que opera, quero dizer, você restitui a interrogação a uma situação transitiva, de algo que está acontecendo ali na cena, e não como um ato retórico que induz a uma resposta imediata. Acho que é nesse ponto que o humor se conecta com uma situação de inacabamento e deixa também o espectador num certo desamparo. Mais do que um modo de criticar o humor cria situações de crise. Você poderia falar sobre essa relação entre humor e crise no seu trabalho?
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Engraçado, sempre achei que faltava humor no meu trabalho... mas desamparo sim, percebo bem. Acho que tem relação com o fato de eu acreditar que somos seres solitários que se falam por uma aproximação que é feita de desvio. Mas vejo essa solidão com muito bons olhos, acho que é justamente essa impossibilidade de união que nos possibilita desejar e falar. Quando construí In-organic, estava interessada em falar, como você citou na sua pergunta, da banalização da morte. Mas não queria discursar sobre isso e nem apontar dedos pra ninguém. Queria uma fala-esboço, inacabada. Pensei, então, em me afundar no que eu estava falando, quero dizer, fazer daquela fala exterior algo íntimo.
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Em In-organic, há algo que parece se acentuar no seu projeto ainda em andamento: uma série de associações disjuntivas que interligam os fragmentos/momentos, sem preencher inteiramente as lacunas entre eles. Nessas lacunas, o espectador pode encontrar um certo incômodo mas também uma possibilidade de desfazer a lógica linear da sucessividade do tempo que se impõe sobre a cena. Tem-se a sensação de que há uma “edição” que, embora seja muito fina, permitiria uma permutação. Essa disjunção não é sinônimo de “falta de unidade”. Existe pra você uma necessidade de “liberação” da sintaxe temporal da cena, ou essa abertura é simplesmente um resultado do seu modo de articulação do corpo em cena?
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A minha matéria de trabalho é o corpo. Penso o corpo como uma zona estranha, ambígua e rugosa. Esse corpo faz (engendra) parte (de) uma situação específica que se desdobra num período (pré) determinado de tempo. Tento, ao articular essas situações, fazer algo que Francis Bacon disse: proporcionar emoções sem o tédio da comunicação.
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Poderia falar um pouco sobre o seu projeto atual e como ele se relaciona com seus projetos anteriores?
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Estou trabalhando em um duo que se chama Em redor do buraco tudo é beira. Nesse projeto, como nos anteriores, estou interessada no sentido não pacificado, incompleto e transitório das coisas (nas coisas que emergem por entre as coisas). Acho que Em redor... fala de falar sem dizer, de quase falar, de quase entender, de quase. Diferentemente de meus trabalhos anteriores, que se construíam num contínuo desdobrado por associações, quero dizer, uma coisa que dá na outra e por associação em outra e assim por diante, Em redor... se estrutura em pequenos fragmentos autônomos que chamamos de manifestações curtas. Estou interessada nos saltos, nos vazios, nos solavancos que essa estrutura pode engendrar. Acho que tudo isso está ligado ao tal desamparo que você apontou numa de suas perguntas anteriores. É um desamparo desejante de se deixar ir sem saber muito bem pra onde, de ser ver “ido” prazerosamente por alguma coisa. Acho que é isso, procuro também (me) provocar com os meus projetos.
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BIOGRAFIA
Marcela Levi (1973, Rio de Janeiro) é performer e coreógrafa. Formou-se pela escola de Dança Angel Vianna; foi membro da Lia Rodrigues companhia de Danças durante oito anos. Em 2002 começou a desenvolver projetos solos que se situam entre a dança contemporânea e as artes visuais. Seus trabalhos vêm sendo apresentados em festivais e centros de arte de vários países da América Latina e da Europa. Paralelamente, colabora com os coreógrafos Vera Mantero, Dani Lima, Cristina Moura, Gustavo Ciríaco e com os fotógrafos Claudia Garcia e Manuel Vason. Em 2006 recebeu a bolsa do centro de intercâmbio Le Recollets (França) e o Prêmio Klauss Vianna de Dança. Em 2007 foi contemplada com o Programa Rumos Itaú Cultural Dança. Em 2008 junto com Flavia Meireles, participou do programa Artistas en Residencia – La Casa Encendida e Universidad de Alcalá de Henares (Alcalá de Henares – Madrid). Atualmente Marcela desenvolve o projeto em redor do buraco tudo é beira, contemplado pela Fundação Nacional de Artes - Funarte - no Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Artística, em colaboração com a bailarina Flavia Meireles e a artista visual Laura Erber.
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Veja mais Marcela Levi no YouTube:
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Edgar Allan Poe — em apresentação única!

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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Mais um haicai, por Andra Valladares

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Finda-se a noite
e a flor mostra suas joias:
gotas de orvalho.
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Andra Valladares
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Andra Valladares é advogada, poeta, cantora e compositora, residente na cidade de Vila Velha/ES. Além disso, ainda integra dois grupos de poemas minimalistas: grupo Haicai-L e MIP (Movimento Internacional Poetrix). Para conhecer mais clique aqui.
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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Triplo lançamento da 7Letras em Botafogo

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domingo, 18 de outubro de 2009

Um poema de Carlos Eduardo Marcos Bonfá

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Por vezes
Contra o dedo,
Palavra.

Por vezes
Contra o dedo,
O medo.

O fino brilho negro,
Vestígio do fogo das estrelas
Que se consome
Na sujeira do grafite.

Carvão sem tento,
Que tenta em vão
Marcar o mundo,
Mesmo aberto em não.

Se a palavra chama,
Atendo em paz.
Paz de quem dorme
Com arma em punho.
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Carlos Eduardo Marcos Bonfá
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sábado, 17 de outubro de 2009

Ramon Mello lança "Vinis mofados" em Copa

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Brisa — desafio poético por Franklin Pacífico

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Assopro de inverno
na flor de maracujá.
Desgostos eternos.
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Franklin Pacífico
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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Nightwork, um poema de Sebastião Ribeiro

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Deve-se a um erro ou a um equívoco
a distância entre tantos corpos à noite,
que hoje parece voltada em prece a algo;
porém os próprios astros já são coisas
que extasiam o que permite concentrar o
tempo na violência de algumas guitarras,
em seus sons expurgadores.
Considerável esta minha atitude descritivista
em calcular quimeras nas bocas e nos braços que
se descobrem sob a luz das boates;
a poética da sensação é um alívio sem
aqueles ritmos, que mal
pertencem aos corpos.
De que maneira experimentarei
verdade fora dos focos?
Algo em nós se apressa a discorrer
sobre o engano milenar que nos separou;
e de tudo que se escondeu nos banheiros
e becos, te sobra o instinto
carregado de cerveja e tropeço.
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Sebastião Ribeiro
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sábado, 10 de outubro de 2009

Apresentamos um novo poema de Naaman:

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da eternidade que se espera,
dos anos que correm aflitos,
a memória escondida
rejeita as cores;
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do momento que se esvai,
do instante que se perde,
a memória fatalista
exagera amores;
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e as flores que renascem
a cada primavera
instigam aquele severo
e obscuro desejo de espera
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e as dores que caem
dos olhos da fera
alteram em nada
a rota da terra.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Um poema visual por Jorge dos Santos

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Jorge dos Santos
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Décima confessional, de Leonardo Davino

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Se beija-flor te chamais
Eu, pica-flor queria ser,
Tu, minha flor, meu bebê,
Se, e assim, tu me aceitais,
Bicos engendrariam ais.
Grávido de um beija-flor,
Agravaria eu tua dor.
Mas, velô do meu desejar,
Não posso querer picar,
E só circulo tua fulô.
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Leonardo Davino
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Leonardo Davino é mestrando em Literatura Brasileira pela UERJ, com pesquisa sobre Canção e Teoria da Literatura.
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Doidivinas lança video-clipe em Botafogo

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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Participe também do prêmio Paulo Britto!


Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia

O Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia foi criado em 2009 como parte da programação da VIII Semana de Letras da PUC, intitulada “A Língua Portuguesa”, e contempla três gêneros literários: CONTO, CRÔNICA e POESIA. Poderão participar estudantes de graduação e pós-graduação de toda a comunidade PUC-Rio.

INSCRIÇÕES

As inscrições serão realizadas até o dia 16 de outubro de 2009. Para os três gêneros (CONTO, CRÔNICA E POESIA) há duas categorias: CATEGORIA PROSA (CONTO E CRÔNICA) e CATEGORIA POESIA. Os textos devem ser inéditos em qualquer meio (impresso ou eletrônico) e escritos em língua portuguesa. O tema é livre e cada autor poderá submeter somente um texto por categoria, digitado em papel tamanho A4 e em apenas uma das faces do papel e com as seguintes características:

PROSA: Os autores deverão utilizar fonte Times New Roman tamanho 12, com espaçamento 1,5 entre as linhas e todas as margens medindo 3 cm. Os contos não poderão ultrapassar o limite de 4 (quatro) páginas.

POESIA: Os autores poderão utilizar qualquer tipo de fonte, diagramação e espaçamento, desde que o texto não ultrapasse o limite de 2000 caracteres (sem considerar os espaços em branco).
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É obrigatório o uso de pseudônimo, que deverá constar ao final do texto. Os textos inscritos nas CATEGORIAS PROSA E POESIA devem ser apresentados em 4 (quatro) vias cada. Os autores que optarem por concorrer nas duas categorias deverão fazer a sua inscrição de forma independente, em envelopes diferentes. Os textos deverão ser entregues em um envelope grande e lacrado, identificado na frente com o nome do Prêmio e a categoria (PROSA ou POESIA). Dentro deste envelope os concorrentes deverão enviar um envelope menor, também lacrado, identificado na parte externa com o título do trabalho e o pseudônimo utilizado. O envelope menor deverá conter uma folha com os seguintes dados: nome completo do autor e pseudônimo utilizado, título do trabalho, gênero literário, data de nascimento, endereço completo, e-mail e telefone para contato e uma breve nota biográfica. Não serão aceitos textos enviados por e-mail. As inscrições serão feitas somente no Departamento de Letras, no seguinte endereço:

PRÊMIO PAULO BRITTO DE LITERATURA
Rua Marquês de São Vicente, 225
Edifício Padre Leonel Franca. 3º andar.
Gávea – Rio de Janeiro

PREMIAÇÃO
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A ser divulgada
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PUBLICAÇÃO DOS TEXTOS FINALISTAS

Os textos finalistas serão publicados imediatamente no blog do Jornal Plástico Bolha e, assim que possível, no formato impresso em uma edição do Jornal Plástico Bolha. Os autores premiados com a publicação de seus textos deverão assinar um termo autorizando a publicação nos referidos blog e jornal e cedendo os direitos autorais para esta edição. Os direitos não são exclusivos e os autores ficam livres para publicar esses textos onde desejarem após a divulgação do resultado. Outros itens poderão ser acrescidos à premiação, a critério dos organizadores do Prêmio e de eventuais parceiros ou patrocinadores.

COMISSÃO JULGADORA

Os textos inscritos na categoria PROSA E POESIA serão avaliados por uma comissão formada por três professores do bacharelado em Formação de Escritor do Departamento de Letras para as duas categorias (PROSA e POESIA), e por dois alunos PET. A comissão é soberana e suas decisões são irrecorríveis, podendo inclusive decidir por não premiar os trabalhos inscritos.
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RESULTADO

Os autores finalistas nas duas categorias serão comunicados até o dia 26 de outubro para que possam confirmar sua presença no local da premiação. O resultado será divulgado no encerramento da VIII Semana de Letras, dia 29 de outubro de 2009. Na mesma ocasião, ocorrerá a entrega do prêmio.

DISPOSIÇÕES GERAIS

As inscrições implicam em plena concordância com os termos deste regulamento. Estão impedidas de concorrer pessoas diretamente envolvidas com a organização da VIII Semana de Letras e com a organização do Prêmio este ano. Os inscritos que não atenderem às especificações deste regulamento serão desclassificados. Os textos enviados não serão devolvidos.
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domingo, 4 de outubro de 2009

Um novo poema de Ana Cristina Chiara

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a gata mia em disparada
pegadas na neve
traçado (cedilha)

mia sexo
desespero fundo
minuto a minuto

conversa ouvida
sonoridade comunicativa
a esmo...

fura o papel
a quietude do quarto
a xícara onde bóia o café
o presente irritante
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Ana Chiara
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Ana Chiara é professora de literatura da UERJ e amiga do Bolha.
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sábado, 3 de outubro de 2009

Hilda Hilst homenageada nas terças poéticas

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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Novidade ou na falta de um poema mais intenso — por Sebastião Ribeiro

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Um homem enraizou-se aqui, todo ou as
partes plenas. Seus olhos verdes são inegáveis, a
tarde também; mas há a pressa que
esconde o medo, mal interpretando-o.
O silêncio é uma constante, parece que
esperando minha morte, desidratando meus
fatores e meu homem
de fantasia.
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Sebastião Ribeiro
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

feministas — poema de Caio Carmacho

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seus olhos verdes pintados de preto
quase uma camuflagem de guerra
nada se enquadra ao estereótipo
se você não é a revolução dos tempos
é mais ou menos isso mesmo
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Caio Carmacho
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Lançamento da Coleção Língua Cantada

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Por dentro — um poema de Lucas Gibson

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Sabem pouco
Esses românticos fanfarrões!
Que o amor
Mais do que em flores
Mais do que em poemas
Está,
Nas louças lavadas
De surpresinha
Pela manhã...
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Lucas Gibson
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

A paixão clubística, texto de Gilbert Daniel

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O meu time foi campeão naquele ano, melhor, foi bicampeão, melhor, foi tricampeão, melhor ainda, foi tetra, mais que isso, penta penta! O meu time.
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Naquele ano, fomos rebaixados. Voltamos depois, naquele outro ano, e não fomos campeões. Fomos muitos mal naqueles anos seguintes mas, depois, de novo fomos vice-campeões e, melhor, finalmente de verdade fomos campeões, melhor, fomos bicampeões, melhor, fomos tricampeões, melhor ainda, tetra, mais que isso, penta penta! O meu time.
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Gilbert Daniel
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Clássico do Plástico Bolha, por Mia Vieira

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Acalente-me a alma
Perdida de seus braços.
Use-me com flor;
Vida descartável.
Despetale-me a roupa
Bem me queira.
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Mia Vieira
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Seminário musical com celebridades na PUC!

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domingo, 27 de setembro de 2009

Viriato, um poema inédito de Raquel Naveira

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Viriato,
Rei e pastor da tribo lusitana
No confronto com Roma,
Poderosa e insana.

Viriato,
Rei que empunha a lança,
Celeste mandato
De quem busca paz,
Justiça
E conhecimento;
Herói,
Santo,
Pai da nação lusa,
Mobiliza energias
Nas batalhas do espírito.

Viriato,
Pastor que segura o cajado,
Apascenta o rebanho das estrelas,
Pronto a morrer por suas ovelhas;
Sábio,
Nômade,
Observa os astros,
Distingue os ruídos,
Escuta a chegada dos lobos,
Emissários de seu assassinato.

Viriato,
Rei e pastor,
Comandante amado,
Cantado por Camões,
Habitante do oceano,
Senhor do exército,
O teu retrato
De homem viril e nobre
Está impresso
No meu sangue português,
Na minha rebeldia ancestral,
No meu canto exato.
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Raquel Naveira
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Ciranda entre tangos

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Me desculpe o entusiasmo, mas não é todo dia que encontro alguém assim tão medido, cabido, perfeito; e agora já bem sei que não adianta fugir, fingir nesse verão tão repleto de fumaça e terças-feiras que você não existe nem olha pra mim.

À flor da pele, o tal fulano flautista ilustre experimenta cirandas e agudos para as tantas outras pernas que floreiam em roda, imundo o piso que gruda nos pés. Mesmo no salão cheio, estou um pouco sozinha; ensaio a cara de indiferença e já de prontidão aviso que não sei dançar: dois pra lá, dois pra cá; tem que soltar mais os ombros; segue meus passos; deixa que eu te levo. Prefiro sambar assim de longe; finge que não me toca. Desvio o olhar. Pode provocar que eu sou forte e madura e segura de si. Temos muito em comum; ele diz: “parece estranho mas, com licença, posso te beijar?”

É claro que prudente seria pedir logo um táxi, sacar a chave de casa, bater a porta do quarto de persianas, lençóis, abajur. Ligar o ar-condicionado, dormir de maquiagem, exausta, vazia e um pouco bêbada, como se nada nem ninguém pudesse ter tido a mínima ínfima chance de se aproximar um dia da minha heroica distância particular.

Em vez disso, pega meu telefone, recito afobada os oito números, repito para ter certeza, pode ser que ele ligue, quem sabe marcamos uma praia, vamos ao teatro, ao cinema, à ópera, ao raio que o parta; ou então não liga nunca mais, pediu por capricho, foi apenas solícito, estava sendo bem-educado.

Esquece, eu sou só uma trepada em potencial, sou qualquer uma, sou fácil demais. Quando precisar, me dá um toque que eu caio direitinho. Pensa que me engana? Cantarola um tango antigo; tem tristezas, nostalgias da Argentina. Ele parece tão sensível... Olha pra mim; eu pareço entusiasmada? Não, não fala. Me abraça outra vez daquele jeito. Espera, eu mal te conheço. Pensando bem, tenho sono; já são cinco da manhã: você pode me deixar na Gávea?
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Constanza De Córdova
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Fragmentos de Maria, no Planetário do Rio

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A Editora da Palavra convida para o lançamento do livro de poesia
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FRAGMENTOS DE MARIA
de Maria Dolores Wanderley
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dia 1º de outubro de 2009
no Planetário da Gávea
a partir das 19h.
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Discutindo o Relacionamento

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alma gêmea
ou
há uma algema?
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Octávio Roggiero Neto
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Carta ao vento — de Patrícia Schwingel Dias

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Meu tempo acabou. Sinto muito lhe deixar. Mas realmente preciso partir. E, cá entre nós, você já deve estar cansada de só ter uma pessoa. Ficamos aqui a noite toda somente eu e você, e uma intrusa. Ah, como poderia eu esquecer essa noite estrelada que não dorme? Que não nos abandona, pra finalmente termos a quietude de que tanto queremos.
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Vim lhe ver pelo silêncio, mas encontrei um barulho que não me acalma a alma. Você sussurra constantemente em meus ouvidos. Sopra um vento molhado que me tira a razão. Tenta me convencer a qualquer custo de ficar.
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Você joga comigo. Você joga aos meus pés o ir e vir de suas curvas. Me seduz. Tenta me hipnotizar com sua dança, seu cheiro, com seus beijos salgados. Tenta me dar provas de que há vida nesta vastidão do nosso eu.
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Preciso confessar. Você quase me convenceu de ficar. Ficar, até ficaria, mas só se fosse aqui a vida inteira, a te olhar. Adoraria te ter pra sempre. Mas você não pertence a mim. Pertence a vida, ao mundo, aos outros homens. De resto, nada mais quero, nada mais me restou.
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E, vai, admite! Você não iria me aguentar. Afinal, não é esse o seu costume: ficar com um só. Sempre que lhe encontro, você está rodeada por belas pessoas, sorridentes, felizes. E elas fazem o que querem de você. Se aproveitam de tudo o que você tem para oferecer. E, pior é que você deixa. Gosta, até. Pede pela badalação, pelo agito, clama pra ser o centro das atenções.
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Mas, pensa que me engana? Eu conheço o que está por trás desse seu jeito manso, calmo, conciliador. Você tem seus altos e baixos, como todos nós. Fica mal humorada e joga tudo pra cima. Quebra o que vê pela frente, toma espaços que não lhe pertencem. Destrói o que tiver que destruir para impor o seu lugar no mundo.
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Eu sei que você também sabe o que é sofrer. Mesmo assim, tenta me convencer de que há ainda beleza na vida. Me mostra coisas bonitas, narra as suas conquistas, fala de suas jóias, umas tais pedras portuguesas. Conta sobre os seus inúmeros namorados, sobre as suas amigas, visitantes de quase todo o dia, companheiras na diversão e confidentes de problemas.
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Oh, problemas são tantos, que como confidente nem saberia por onde começar. E sinceramente, não vim aqui para falar. Desisto. Vim aqui para terminar o que não começou bem. Terminar talvez seja uma boa forma de recomeçar, não acha? Vou embora agora, vou para os braços da sua mãe Yemanjá. E pedir a ela que me leve ao encontro do Tânatos.
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Patrícia Schwingel Dias
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Venha abraçar a Mãe Africa amanhã, na Lapa

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Mais um, poema de Vanessa Campos Rocha

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eu mereço
tu mereces
ele merece
nós merecemos
vós mereceis
eles merecem

(o meu com calda de chocolate, por favor)
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Vanessa Campos Rocha
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Participe da oficina de Diário — na UERJ

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Meus paralíticos sonhos desgosto de viver

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Ele estava ali na minha frente. Espumava como um cão raivoso. Corri em sua direção na esperança de me resignar. As lágrimas escorriam pelo meu rosto já molhado da sua água. Foi ali, sob o olhar do Pão de Açúcar, que eu me entreguei. Desci até o fundo e deitei-me no chão. Sem palavras, sem pensamento, apenas sentindo uma forte pressão sobre o peito. Ele me roçava inteira, me descabelava toda e me lambia as pernas. Já não havia mais roupas para cobrir meu corpo quente. Permaneci ali embaixo até meus pulmões não aguentarem mais, então, subi covardemente em busca de ar. Levei um tapa, depois outro. Chorei. Bate, bate mais seu merda! Ele me ouviu e mais um tapa levei, sendo que dessa vez bati forte com a cabeça no chão. Meus olhos enxergaram o escuro. Sem forças fui me abandonando enquanto sua água beijava o meu corpo por dentro. Sufocou-me. Eu já era sua. Senti-o me puxar pelos pés. Aos poucos foi me levando para cima e em seu colo me acolheu. Delicadamente acariciou o meu corpo nu e frio enquanto me levava para longe. Ninguém nos viu, nem o poeta de bronze se virou para se despedir. Os canhões do forte permaneceram em silêncio. Ele foi me levando. Só restou-me dizer adeus!
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Cacau Vilardo
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Conferência Municipal de Cultura no Rio

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Pão e Poesia em qualquer padaria. Participe!

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Vulcão

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andar cambaio
chama vulcanica
monstro trepidante
esbaforido e manco
cujas pernas débeis
sofrem sob o peso da dor
celeste e terrestre
demiurgo amoral
apóstolo inspirado
sopra o fogo fabricando
flechas cintilantes
as armas dos deuses
os escudos resplandecentes
o tesouro dos heróis
joias,broches e brincos
anéis,braceletes e colares
para as afrodites insanas
e as belas tábatas mortais
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Jovino Machado
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Poesia e música no corredor de Maricá

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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Camila Justino lança novo livro em outubro!

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Camila Justino, nossa colaboradora do jornal Plástico Bolha está lançando seu terceiro (!!!) livro em outubro, na Livraria da Travessa de Ipanema. Vamos todos colocando na agenda...
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Feliz Natal, conto de Solange Valeriano Pinto

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Na verdade, esse era um fato real que quase se tornou ficção. Uma colega de turma dizia que sua avó não gostava de preto e nem de pobre e a havia proibido de aproximar-se dos bolsistas da PUC. Não obstante aos conselhos da avó, ela sempre me tratou com gentileza. Mantínhamos uma distância polida. Ela sempre comentava (quando o assunto era sobre cotas ou coisa parecida) que sua avó achava inadmissível que um pobre estivesse estudando na mesma universidade que sua neta.
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Sinceramente, nunca me senti ofendida com as palavras dela, apesar de serem bem desagradáveis. Ela fazia o tipo desagradável — e isso não era uma opinião só minha —, mas não sei por que, não sentia que ela falava aquilo por mal, para ferir a mim ou a quem quer que fosse. Ela, simplesmente, falava, e pronto... Embora com ar indiferente e displicente, estava transmitindo a opinião de sua avó.
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Eis que um dia, era fim de novembro, eu estava no ponto do Pirata, voltando para casa, quando uma das domésticas, que trabalhava na Gávea, aproximou-se de mim:
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— Oi, boa tarde.
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— Boa tarde. Tudo bem?
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— Tudo...E aí ? Vai trabalhar no Natal?
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— Não.
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— Não! Por quê? Tá sem casa?
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Sem esperar a minha resposta ela perguntou:
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— Tá a fim de fazer um bico? É aqui pertinho do seu serviço ( essa era uma das que pensavam que eu era doméstica). Mas tem que ser no Natal e no ano novo 25 e 31 . Topa?
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Fiquei pensando na minha situação financeira que estava muito ruim naquele primeiro ano na PUC.
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— Qual é o bico? Perguntei.
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— Você vai ser minha ajudante. Te pago 150 reais. Você vai lavar toda a louça, arrumar a cozinha, descascar os legumes, arrumar e servir a mesa e, de vez em quando, levar uns petiscos na piscina para os patrões e seus convidados. E aí ? Topa?
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— Tudo bem. Vou pensar...
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— Pensa, pensa, porque a parada é boa. Olha só, todo ano eu trabalho no Natal e no ano novo. É com esse dinheiro que eu compro os presentes pros meus filhos, meus netos, meus afilhados, entendeu? Se não for assim, não compro. O dinheiro do pagamento é só pra pagar contas... O triste é que a gente fica longe da família, né? Mas fazer o quê? A gente não pode ter tudo. Depois que passa as festas, eu saio distribuindo os presentes (porque ela só paga no final). Mas quando eu chego, é aquela festa. Meus filhos já até se acostumaram longe da mãe no Natal. Cresceram assim, coitados!
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— Tudo bem . Vou pensar e amanhã te dou a resposta.
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— Valeu... Olha o nosso Pirata ali. Vamos correr pra pegar lugar sentadas.
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Fui para casa pensando na proposta. Cento e cinqüenta reais! Era tudo o que eu precisava para fazer a minha ceia. Mas o preço seria alto demais. Pela primeira vez na minha vida passaria o Natal longe da minha família. As últimas palavras daquela mulher ainda faziam um eco na minha cabeça: meus filhos já até se acostumaram longe da mãe no Natal. Cresceram assim. Coitados!...
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Em casa, comentei com a família. Assim como eu, meus filhos ficaram indecisos. Ganharíamos um dinheiro,mas eu não cearia com eles. Meu marido até que não achou a idéia ruim,pois disse que seriam só dois dias. Mas o Natal, para mim, tem um significado todo especial. A família reunida sempre foi muito mais importante do que a mesa cheia de guloseimas. O Natal me recorda a minha infância. O cheiro de tinta fresca, de tecido novo, de rabanada fritando (que nós comíamos ainda quente). A árvore de Natal era um galho seco, preso a uma lata de leite em pó, que nossa mãe cobria com algodão e enfeitava com caixas de fósforos embrulhadas em papéis coloridos. Não tinha pisca — pisca, tampouco presentes ao redor. Se bem que sempre colocávamos os sapatos na janela, que dormiam e acordavam vazios, pois Papai Noel nunca encontrava o nosso endereço.
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Meu pai era bombeiro hidráulico. Quando desempregado, quase sempre vivia de bicos e trazia o pagamento já no fim da tarde. Trazia tinta (ou melhor, cal e corante — geralmente, verde) para pintar as paredes da nossa casa. Quando caía a noite, ele ainda estava dando os acabamentos externos. Minha mãe corria às lojas e comprava tecidos para fazer nossas roupas. À noite, estávamos todos de roupas novas e tomando bronca de meu pai, pois, não raro estávamos com as roupas e os braços manchados de tinta fresca e a parede marcada por um vazio de tinta, que vinha agarrado a um braço, uma perna, um cabelo, um vestido.
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Já era bem tarde quando minha mãe saía da máquina de costura direto para o fogão para preparar a ceia. Por isso, comíamos as rabanadas ainda quentes. Uma das maiores diversões era ver os distraídos, com os braços e as roupas manchadas de verde fugindo da cara feia do meu pai na hora da ceia.
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Os filhos dos vizinhos ganhavam presentes lindos e eu não conseguia entender por que o “bom velhinho” nunca deixava nada pra nós. Aos pouquinhos fomos entendendo a dinâmica da coisa. Os mais velhos já não colocavam mais o sapato na janela e, à medida que os menores iam crescendo e entendendo, faziam a mesma coisa. Creio que não crescemos magoados pela falta dos presentes, porque tínhamos uns aos outros. Tudo era motivo de risos, piadas e brincadeiras, inclusive a nossa dureza. Não tínhamos dinheiro, mas sempre passávamos os Natais juntos.
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Todas essas memórias pesaram na minha decisão. Se aceitasse o bico oferecido pela colega, teria que deixar a nossa mesa posta antes de ir trabalhar. Como se eu fosse empregada nas duas casas. Na minha e na casa da patroa da colega de ônibus. A diferença é que na casa da patroa eu ganharia para fazer a ceia e na minha eu a faria de graça. Mas, e a graça maior? A de estar com a família? Como recuperar?
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Fui cheia de dúvidas para o ponto de ônibus, mas a moça não estava lá. Não a vi mais nos próximos dias que antecederam o Natal. Deve ter perdido o meu telefone e o meu endereço. Pensei. Paciência, não tinha que ser. Chegou o Natal! Achei tudo tão maravilhoso. A ceia estava tão simples, mas passei com a família. Senti uma alegria diferente da dos outros anos, uma espécie de alívio, como se eu tivesse recuperado algo antes de perder, não sei explicar. Só sei que foi muito bom...
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Volto das férias. Estou na Rua Padre Leonel Franca, como de costume, esperando o ônibus pirata.
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— Oi colega, lembra de mim?
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— Oi. Tudo bem? Claro que lembro. Você ficou de me arrumar um bico no Natal, não é mesmo? Fiquei esperando...
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— Pois é... me desculpa... Fui à sua casa, mas no pé do morro, encontrei uma vizinha sua e perguntei onde você morava. Ela perguntou o que eu queria contigo. Falei sobre o bico e ela perguntou:
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— Quanto é?
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Falei:
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— 150 reais.
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E ela respondeu:
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— Hi , essa vizinha não vai querer isso, não. Ela não precisa. Dá pra mim aí, pô. Eu preciso mais do que ela.
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— Então fiquei sem graça e levei ela no seu lugar. Até que ela trabalhou direitinho... Da próxima vez eu te levo, falou?
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— Falou. Tá tudo bem. Só gostaria de saber como se chamava essa vizinha?
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— Peraí, deixa eu ver... Ah nem lembro mais... Foi em dezembro, já estamos em março... Hi, olha ali quem vai passando do outro lado da rua! É a neta da minha patroa... Ela estuda naquela Faculdade ali na frente — disse a mulher apontando para a PUC.
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— Na PUC?
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— É. Você não trabalha ali por perto? Balancei a cabeça, concordando. Olhei na direção em que ela apontou e deparei-me com a colega, cuja avó não gosta de pobres, pretos e bolsista. Superada a surpresa inicial, vendo a menina afastar-se sem nos ver, dei asas à minha imaginação. Então pensei:
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Se a minha vizinha indiscreta não tivesse ficado com a minha vaga (meu bico), talvez eu tivesse ido à casa da colega de turma como ajudante de cozinha. E, talvez fosse servir petiscos à beira da piscina para ela, sua família e convidados. Talvez, distraída, eu lhe dissesse, na minha displicência:
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— Olá Bia! Feliz Natal. Está curtindo as férias? — Desconcertada e muda ele enfiaria o rosto em uma revista, fingindo ignorar a minha presença e muito menos a minha pergunta. A avó, que não gosta de pobres, de pretos e de bolsistas, nos observaria com olhar atento e reprovador. e perguntaria:
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— De onde você conhece essa serviçal, Bia?
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Bia ficaria muda, sem saber o que responder à avó conservadora... E eu lhe responderia, já me afastando com a bandeja:
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— Nós nos conhecemos da faculdade. Estudamos juntas na PUC...
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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

MAELSTRÖM — pelo grupo "um só olhar"

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A Casa de Cultura Mario Quintana
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convida para a estreia
do espetáculo multimídia (cinema, literatura e música)
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MAELSTRÖM
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em homenagem ao bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe
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apresentado pelo grupo
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UM OLHAR SÓ
Tomaz V. Borges (cineasta)
Paulo Bacedônio (poeta)
Carlos Bica (músico)
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Sábado, 26 de Setembro de 2009, à 1:00 h (da madrugada)
Entrada Franca
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Acervo Mario Quintana – Mezzanino Casa de Cultura Mario Quintana
Rua dos Andradas, 736 – Centro
Porto Alegre – Rio Grande do Sul
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Dona Cleonice na ABL!

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O jornal Plástico Bolha entra na campanha para apoiar a candidatura de Cleonice Berardinelli, a nossa Dona Cléo, para a vaga deixada por Antonio Olinto na ABL.

Ela é super merecedora e seria um justo reconhecimento por toda uma vida de trabalho de altíssimo nível! Contamos com a colaboração dos leitores. Disparem e-mails, façam campanha...
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domingo, 20 de setembro de 2009

Evento "arte em andamento": amanhã, no Rio

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Desengano

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—Alô, amor ?
—Não,
foi engano.
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Saulo Pereira Guimarães
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sábado, 19 de setembro de 2009

Amanhecendo, poema de Franklin Pacifico

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Adormece o escuro e renovadas
ressoam tristes notas graves, justas,
do noturno, através da madrugada.
Abre caminho pelos ares, turva.

Liberta o corpo, galhos e também
as folhas, até a copa dos pinheiros,
até sumir, fugir, para o além.
Risca célere o céu, faz um espelho.

Transfigura o olimpo de cinzento
num laranja longínquo que não esqueça
o reverter sem fim de uma ampulheta.

Canta do leste, aurora, sua vinda.
Nada embaraça teus caminhos, luz.
Canta, aurora brilhosa, vem, belíssima.
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Franklin Pacifico
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

canseira, um texto de Vanessa Campos Rocha

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acerta aqui, ajeita lá, assopra, acende, risca, devolve moço, pede, suplica, machuca os joelhos, vivo! morto! brinda (quantas vezes?), corre, respira, para de respirar, parou? não? chora, reza, planta, pede e pede de novo mas duvida que alguém escute, limpa, joga, atravessa, arranca, é no peito que dói? hum-hum, fala de novo, chove douradinho e ah esquece, é na alma.
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Vanessa Campos Rocha
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bruna Beber convida para seu lançamento

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Superlançamento do jornal Dezfaces em Belô

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Inocentes do Leblon II

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"...tudo ignoram, mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas e esquecem."
(Carlos Drummond de Andrade)

Não vimos o DOPS e, quando nascemos, a cozinha já era de inox.
Desconhecemos Byron, Sartre, Dylan e Baudelaire,
Nem em placa de salão entendemos Hair.

Foi proibido proibir, mas, logo liberaram de novo.
Fizeram Revoluções contra e em favor do povo,
Ah, e descobriram: quem veio antes, pobre galinha, foi o ovo.

Nós, que viemos depois até do pós,
Não esperamos pela anistia nem por Quércia.
A rebeldia da nossa juventude é a inércia.
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Rodrigo Siqueira Ribeiro
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terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Pai dos Burros — na Scriptum de BH

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Bienal: Flávia Savary lança Sangue de Dragão

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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O ataque do homem-ético, de Fabiano Baião

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Ao descortinar a janela do quarto, reparo as luzes acesas da cidade, pessoas indo e vindo de todas as direções. Desnorteados que vagam por labirintos sem encontrar a saída. Eu penso, mas não queria pensar! Encontro-me em estado de vacuidade, uma descrença que me sufoca, quando penso nas vezes que me ponho a filosofar em mesas de discussões com mentes não libertas, mas infelizmente não aprendo. O assunto não poderia ser outro: ética, tema impróprio para esse país de pilastras ocas - é a mesma coisa que remar contra um tsunami.
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Em minhas reflexões, apoiado nesta janela, vendo tudo passar, mas que em mim não passam, me encontro, me defino finalmente, e concluo que sou um extremista, um radical doido, desvairado que acredita piamente que se matar muitos outros, entrarei no paraíso-ético. Mas diferentemente de outros desatinados pelo mundo, não tenho líderes, não pertenço a grupo algum, não tenho um código de direção a me transmutar a realidade e não espero um paraíso sobrenatural.
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Divido minha tarefa em três: o trabalho mental, a organização de todos os instrumentos, com a escolha do local do ato, e a realização do fato. Meu trabalho metal é minha conclusão psicológica, se o que irei fazer é o que realmente quero, mas doido que sou, não concluo nada e me lembro num lampejo que estou alucinado, alienado e então não penso mais em nada, e pulo esta parte estúpida.
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Vou para minha organização instrumental, que seria a aquisição de todos os equipamentos para meu objetivo extremista. Radical e desequilibrado, anoto tudo num papel: uma dinamite de seriedade e outra de amor, uma dinamite de tolerância e mais uma de honestidade, uma granada de sinceridade e mais uma de ética, um detonador, uma semente de educação. Definida toda parafernália para o ato terrorista, faltavam as compras e a escolha do local de minha glória. O lugar deveria ser onde houvesse seres que não são radicais, mas seria impossível, então, resolvi escolher a capital do país, Brasília para que de lá essa explosão propaga-se até atingir todas as regiões do Brasil.
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Depois de tudo definido, finalmente realizaria o ato. Mas não poderia partir sem antes despedir dos meus pais, pessoas que mais amo e que ficarão orgulhosos desse ato.“Olha, amo vocês, mas meu discernimento mental está por completo desequilibrado, dizem tanto, que comecei a achar realmente que sou radical, extremista e tal, então, já que sou tão anormal, faço esse ato brutal”. Saio então, de Belo Horizonte em um ônibus numa manhã de sexta-feira rumo à capital brasileira. Na praça dos três poderes, abro meus braços para o horizonte, fecho os olhos para ao abri-los novamente, me encontrar no paraíso-ético, mas antes, com todos aqueles equipamentos impregnados em meu corpo, que ao apertar de um botão, o explodir de um milhão.
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A honestidade varre o palácio do planalto, o congresso nacional, o palácio da justiça, o jeitinho brasileiro do povo, vindo por trás à ética, efetivando em todos, sua monstruosa praga, que é hereditária. O que não estava a olho nu nesta explosão é que uma semente de educação voou do meu bolso com toda aquela pressão, penetrando pelo chão, o que seria de fato as bases para nossa evolução.
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Fabiano Mafia Baião
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sábado, 12 de setembro de 2009

Corujão da Poesia na livraria DiVersos

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Em Flor — um poema de Pedro Braga Soares

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Perpetro da tua pele uma simbologia de pétala
— nada me impede
de tatuar-te de palavras.
Sopro feito arrepio aspergido sobre teu vasto,
desabrochada de intenção, arrependida, de repente.
Visto o disfarce do impossível, porque tudo pode ser,
e podemos: seja.
Rascunho das tuas veias uma linguagem intuída de decifrar-te nua
e aguço-te o tato com o toque intermitente de sussurros.
Insinuo pecados como formas de redenção,
consinto render, deploro o perdão.
Insista no erro porque a justiça é uma forma arbitrária
de compensação do desejo; nunca me sinta reparado.
Note que os absurdos vêm à tona conforme os olhos vêem
Cale a veêmencia dos contrários como quem silencia uma criança
E deixe-se devoluta, mas se faça perder por um propósito.
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Pedro Braga Soares
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Negra Loura

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Desceu em Belford Roxo
de um ônibus que vinha de Vilar dos Telles.
Sua pele era de feijoada
mas seu cabelo era puro trigo.
Sua pele era de noite
mas o seu cabelo era o horizonte de tardinha.
Falsa britânica.
Nórdica preta.
Africana de cabelo pintado entre o castanho e o dourado.
Zulu disfarçada de branca.
Entrou na padaria
pediu um refrigerante
e cruzou suas grossas coxas
debaixo de um curtíssimo jeans rasgado.
A rapaziada toda olhou e babou
ela toda no pensamento
imaginando estar no século retrasado
e possuir aquele território à revelia
que parecia ter saído de uma letra
de Benjor ou Melodia.
Bebeu tudo numa só golada
pagando a conta.
Saiu não só levando
o louro e duro cabelo entrançado
acima do sorriso amarelo
mas também o olhar de todos nós
entre aquele busto
que eram dois maduros jamelões gigantes
embaixo daquele vermelho sutiã.
Sumiu entre pagodeiros e funkeiros
entre credores e devedores
entre viajantes e farofeiros
entre pequenos empresários e vendedores.
Ela saiu do nada
e foi com tudo para qualquer lugar
tomando seu sorvete demais
deixando em sua língua
que nos banhava em sonho
o sabor daquele morno verão.
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Marcio Rufino
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Na batucada da vida: Carmen Miranda na ABL

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LINA POR ESCRITO — Lançamento no Rio

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sábado, 5 de setembro de 2009

Praia de Fora, um poema de Carlos Morgado

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Dentro de meu quarto arredio
escuto o mar vindo de uma Avenida Suburbana.
Real, de uma realidade extrema, posso ouvir
as ondas quebrarem entrecortadas pelos comboios-
e sentir quase que a branca espuma beija-me os pés
por entre cortinas de fumaça.

Não sejamos mais que o rio das coisas,
nem nos preocupemos com quem somos ou sonhamos em ser.
apenas sejamos, como o verde das árvores
ou o cinza concreto desta praia,
somente assim,
simples e absurdo.
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Carlos Morgado
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Arte em Andamento — Evento aberto no Rio

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Lançamento: Pastores de Virgílio, em SP

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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

RJ CONTINUA LINDO — de Gabriel Pardal

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O cristo redentor está cansado.
De braços abertos.
Numa mão o revólver apontando pra Zona Norte
e na outra apontando pra Zona Oeste.
Sorte daqueles
que sentem-se cariocas
quando tem no horizonte o Corcovado.

Já no interior da cidade do Rio de Janeiro,
onde não dá vista pra onda,
nem chega brisa nem maresia,
nem a luminosa decoração de natal da lagoa,
o cartão postal é a foto de uma corda
amarrada numa árvore,
que à título de turismo
deram o nome de Forca.
É ali que esses cariocas sabem-se no Rio.

Em outros mais profundos interiores,
onde nem se acha mais árvore para uma corda amarrar.
Apenas barro e poeira e homem,
ainda Rio de Janeiro,
sabem-se cariocas quando olham para um prego.
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Gabriel Pardal
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

TEATRO: Câmera, nova peça da Cia. Pangéia

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domingo, 30 de agosto de 2009

Aneurisma Matou Berimbau na Bienal do Rio

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Nosso amigo Luciano Prado da Silva, que já publicou contos no Blog do bolha e será destaque da próxima edição do PB impresso, convida a todos para o lançamento do seu livro Aneurisma Matou Berimbau que acontecerá na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Quem já leu algum de seus contos sabe que é imperdível. Todos lá!
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Estudos Lacanianos, lançamento em BH

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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Sapatos, um texto de Maria Cecilia Brandi

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Passar o dia com sapatos apertados, como se os pés fossem gêmeos no ventre por dez meses. Como se apertassem nervos, movimentos, e a boca de um mudo gritasse pelos pés desbocados.

Andar em desequilíbrio quando estão frouxos: poder ficar na mão, pisar em ovos - talvez contra o risco de cambalear.

Arrancar a sola, não pisar em falso. Da sola sem sola, escavar com estilete os restos de cola que grudam no chão e tiram o impulso. Buscar outra base. Cobertura. Fecho.
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Maria Cecilia Brandi
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pocket show com Jonas Sá, no Leblon

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sábado, 22 de agosto de 2009

Fustigado pelas sombras do dia

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Não sei onde tudo me acaba
Se parto, se fico
Agora não faz mais sentido
Eu não sei onde me acho
O que cabe a mim do céu
É o teu pedaço
O pedaço de ti, não dele
O que cabe da terra, é vagar insossa
Olhando tudo
Com olhar de bêbada
Tomando cuidado de não esbarrar em nada
Teu segredo
Não mais oculto
Mas continua guardado no meu peito
O teu gosto,
Nunca tive o suficiente (ainda bem, não deixaria nada de ti)
Ainda alimenta o meu desejo
Deixa a boca cheia d’água
Os olhos também
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Carolina Neves da Cruz
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sábado, 15 de agosto de 2009

Lançamento em BH: Antologia Meninos ME

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Lançamento do livro Clube da Leitura

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Convite para o lançamento do livro Clube da Leitura: Modo de Usar vol I, que ocorrerá em 28 de julho no sebo Baratos da Ribeiro. O livro é o resultado do clube da leitura que ocorre lá, onde a galera lê textos e, a partir de textos escolhidos que viram mote, escreve contos. Os contos do livro estão ilustrados por três quadrinistas: Johandson, Fábio Lyra e Eduardo Felipe. O livro teve pré-lançamento na programação da OFF-FLIP e agora tem seu lançamento no Rio! São 19 novos autores cariocas e 24 contos, entre eles a nossa amiga do bolha, Vivian Pizzinga.
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segunda-feira, 20 de julho de 2009

NINGUÉM FAZIA IDEIA, por Zé McGill

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Você já parou pra pensar sobre a renovação que certas palavras sofreram por causa do novo acordo ortográfico da língua portuguesa? Nos textos que você lê nos jornais, na internet, nas publicações mais recentes, você percebe que existe uma palavrinha que antes quase não era notada, mas que agora, depois do tal acordo, botou o pescoço pra fora da janela?
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A tal palavra é IDEIA. Segundo meu dicionário de bolso, surrado e manchado de suco de goiaba, significa: “Representação mental, imaginação; elaboração intelectual; concepção; plano, projeto”. Não sei se aconteceu somente comigo, mas após o tal acordo, parece que IDEIA começou a pipocar loucamente em 90% dos textos que leio. Eu não fazia IDEIA da assiduidade do nobre vocábulo. Acho que ninguém fazia IDEIA.
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E de quem terá sido a magnânima IDEIA de colher o maduro acento agudo lá do alto dos cachos da IDÉIA? Fico imaginando um acadêmico lusitano, cabeçudo e atormentado, desprovido de boas IDEIAS, que se depara com a palavra IDÉIA num canto escuro de seu escritório. Ele decide escalar o E para afanar-lhe o acento na mão grande. Trepa sobre o segundo braço da letra, olha à sua volta para certificar-se de que não há ninguém olhando e disfarça um pigarro antes de passar a mão no agudo e enfiá-lo no bolso do paletó. Em seguida, pega o telefone e começa a ligar para os colegas de academia, conta-lhes sobre o sequestro e propõe um... acordo.
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Ainda bem que o tal acordo ortográfico exclui os nomes próprios. Eu conheço uma moça bonita, de nome igualmente bonito, que tem o assassinado trema posto sobre a letra i, no meio do nome. Essa moça bonita não quer se livrar do trema e pode ignorar o tal acordo se assim desejar. Mas e a palavra linguiça, por exemplo, como é que fica?
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Violentou-se a lingüiça, justamente ela, que sempre sofreu as mais perversas violações: além de ser tostada nos churrascos da vida, tornou-se sinônimo de órgão genital e de embromação, antes mesmo que a coroa do U levantasse voo. Por sinal, esta última palavra (ex-vôo) é mais uma que foi descortinada. Eu diria que voo vem logo na cola de IDEIA na fila indiana das palavras defloradas que andam salientes. Não sei se foi o acidente da Air France ou a queda do acento circunflexo, que deixou careca seu segundo O, mas passei a ler voo com frequência muito maior nos últimos meses. Assim como passei a enxergar IDEIA em tudo que é folha de papel. E nisso reside aquele que talvez seja o único atributo positivo do novo acordo ortográfico.
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Dizem que Deus está nas coincidências. E talvez não seja por acaso que IDEIA esteja pululando sob nossas pupilas ultimamente. Em nossas vidinhas modernosas, onde somos quase todos consumidos pela urgência de ganhar dinheiro, consolidar carreiras profissionais e conquistar patrimônios materiais, sobra cada vez menos tempo para parir boas IDEIAS. Parece que vivemos um processo dormente de emburrecimento no mundo globalizado, onde a boa IDEIA está minguando e nem a Caninha 51 salva.
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Enfim, não sei se este texto em homenagem à IDÉIA foi uma IDEIA genial ou um sinal de que preciso beber menos, mas vou trocar uma IDEIA com aquela moça bonita (aquela, que manteve o trema no nome) pra ver se ela consegue dar um jeito de tirar esta IDEIA fixa da minha cabeça. Mas, que IDEIA...
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domingo, 19 de julho de 2009

Em Marselha — um texto de Luisa Noronha

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Olá!
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Estou em Marselha, uma cidade com um astral ótimo, autêntica e tão movimentada quanto denuncia a ventania constante — c´est le bon air de la Méditerranée — me disseram. E é mesmo o Mediterrâneo que sempre garantiu a autenticidade local. Seu vieux port é o mais movimentado da França e some no horizonte de tão longo; e foi nesse mesmo cais que aportaram os gregos no século VII a.C., passando pelos domínios romano e celta.
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Essa fusão de culturas que remonta à antiguidade é presenciada hoje na arquitetura de estilo, ora bizantino, ora neoclássico, nas feições miscigenadas e nas animadas feiras de rua, onde servem-se desde peixes frescos a kebabs turcos e um caldo marroquino estranhíssimo. Marselha é uma cidade de verdade: meio suja, alguns mendigos, fachadas encardidas e varais de roupas cortando o céu.
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Suas ruelas estreitas são tão instigantes quanto intrigantes, te levando longe ou de volta ao mesmo lugar, o que torna impraticável qualquer passeio sem um mapa na mão. O que mais se vê são turistas lutando contra a ventania para manter o mapa aberto.
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Caminhei pela cidade inteira hoje. Vi palácios, fortalezas, parques, o museu da história da cidade, uma catedral de peso à beira-mar e terminei o dia na principal atração da cidade: a Basilique Notre Dame de la Garde. No alto de uma colina, só a vista panorâmica da cidade já bastava, mas a basílica em esplêndido estilo romano-bizantino é uma pérola, revestida de mosaicos e folheada a ouro, é de ofuscar a vista de tanta beleza. Realmente de tirar o chapéu. assisti à missa e deu para acompanhar direitinho, até aprendi a ave-maria em francês.
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Acabo de voltar ao hotel, são quase 9h da noite, e o sol ainda teima em cair no horizonte. Vou dar um pulo no porto, a cidade deve ficar linda inundada pelo pôr de sol.
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bjs,
Luisa
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Luisa Noronha
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sábado, 18 de julho de 2009

ATENDIMENTO AO PÚBLICO

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escarro, catarrada, pus, soluço, espirro, tosse, mal hálito, remela, meleca, ressacas múltiplas... urubu traçando carniça de urubu torrado de sol e agora vai reclamar direitos; insônia às 04:32 no puxadinho alugado com o dindin da vovó misericordiosa e na manhã o infeliz vai reclamar direitos no escritório adjunto; dondoquinha que levou do namorado um soco no olho e se sentiu “lesada”; mosquito elétrico zanzando pra irritar geral... “É por serem verdadeiras que todas essas histórias são trágicas. A vida animal selvagem sempre termina tragicamente
(“Animais da selva que conheci”,
Ernest Thompson Seton)
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Paulo Vitor Grossi já publicou 3 textos no jornal Plástico Bolha. Esse aqui faz parte do seu livro Carne Viva (edição privada) que é poesia pura.
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Vai de Bala? — um poema de Bianca Rezende

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A bola que rola na rua
O carro que sobe a ladeira
O grito do moleque do alto do muro
E lá se vai...
...se vai mais uma estrela
...se vai mais um na pista
O tapa no canto da orelha
A barriga que nunca está cheia
E o moleque de calção de banho
E lá se vai...
...se vai descendo a onda
...se vai mais um dos bambas
As noites e as farras mil
Cachaça e conhaque, um barril
Um beijo em quem nunca se viu
E lá se vai...
...se vai amando torpe
...se vai trocando os pés
O corpo deitado e nu
Suor ainda nas têmporas
Foi tiro, foi pássaro, foi vento
Ninguém viu, nada se ouviu, nenhum relato
E lá se vai...
...se vai vivendo a beça
...se vai vivendo a beça
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Bianca Rezende
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sábado, 11 de julho de 2009

Carnívora, um poema de Priscila Lopes

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Não me verão torrar
em solo infértil.
— Não me verão! Não me verão!
Chove torrencialmente
e minha raiz é seca como é
meu ventre.
Suponho que estender a mão
implica em oferecer o braço
— depois de morta,
doarei meus órgãos, no máximo!
O sol de dezembro dilata-me
os poros;
o sol que cega exala
a falsa bondade nos intolerantes.
— Sol, que gente mais grávida!
Não que eu não ame
o Amor, é lindo
como a frase: clichê.
Mas em vez de gerar, basta-me
renascer.

Como as plantas após a poda,
da dor insurgem ramificadas

Mas não serei a mulher leprosa,
a planta suculenta
que dá de si doidamente.
Eu quero a palma da minha palma,
a embriaguez tão humana
do suco do meu ventre.
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Priscila Lopes é nossa leitora de Florianópolis, SC e acaba de nos enviar os seus poemas. Publicamos aqui este delicioso "Carnívora", quem quiser mais pode conferir o blog da autora aqui.
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Lobo Antunes no Real Gabinete Português

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REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA
convida para encontro
com o escritor português

António Lobo Antunes

Mediação

Ângela de Carvalho Faria
e
Madalena Vaz Pinto


quinta-feira, dia 09 de julho, às 14 h.

R. Luís de Camões,30
Centro – Rio de Janeiro
Tel: (21) 2221-3138

Entrada livre

Organização
Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras
do Real Gabinete
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quarta-feira, 1 de julho de 2009

Lançamento de "Satolep", de Vitor Ramil

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terça-feira, 23 de junho de 2009

O nascimento de Vênus, de Tânia Tiburzio

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Manhã de domingo, calor.Um leve incomodo no ventre. A noite havia sido agitada: sonhos e pesadelos, medo e excitação.
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Ela se levanta, uma estranha sensação percorre seu corpo, se olha no espelho demoradamente e meticulosamente. Apalpa seu corpo. Os pequenos seios se insinuam pela camisola fina. Os cabelos curtos mostram a curva do pescoço.
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Olha-se no espelho mais uma vez e se descobre bonita. Sorri.
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Os olhos faíscam, o ventre dói e ali no espelho, não mais se vê, é outra. Outras mãos, outros pés, outro ser.
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Vê-se mulher e o corpo se contrai bruscamente. Se contorce com a dor mas sorri e compreende que naquele instante morre uma e nasce outra.
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Morre a menina e nasce a mulher no sangue quente que escorre por suas pernas.
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Tânia Tiburzio
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domingo, 21 de junho de 2009

Retrato de uma Infanta, de Raquel Naveira

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Este é o retrato de uma princesa,
Uma infanta,
Que jamais foi rainha
Mas que guarda
Na palidez da face
Uma tristeza oculta,
Um sofrimento
Que a torna imortal
E santa.
O retrato da princesa,
Pequena infanta
Vestida de negro,
Diz que ela nunca se casou,
Que sucumbiu
No auge da vida
A uma febre,
A uma chama
Que a consumiu
E fechou-lhe a garganta.
O retrato da princesa,
Pobre infanta,
Mostra um corpo frágil,
Uma cabeça erguida,
Uma testa ampla,
Gerada por príncipes,
Talvez das Astúrias,
Há no seu olhar
Um fascínio que encanta.
No retrato da princesa,
Um espelho ao fundo
Devora a sua imagem,
O seu sonho de infanta.
Seria ela Margarida?
Amélia?
Maria?
Teria sido solitária,
Exilada,
Sem reino,
Sem destino,
Decapitada?
O que há nesse retrato
Que tanto me espanta?
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Raquel Naveira
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sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Jardim da Oposição: hoje, no Parque Lage

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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Uma escrivaninha “abandonada” no museu de Guimarães Rosa, por Fabiano Mafia Baião

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Num domingo do mês de abril, quando estava em Codisburgo, na casa de um grande amigo, fui ao museu de Guimarães Rosa. Acompanhava o Rodolfo e a Ruth, sendo que o primeiro fora até este para pegar sua bolsa, e assim, retornarmos à Belo Horizonte.

Na porta do museu, que é assentado na casa onde o escritor quando menino morou, postei-me a observar sua estrutura física de uma época já antiga, e que remetia aos olhos os tempos de meus avôs e das “molecagens” de Guimarães.

As portas e janelas de madeira, as hastes na parede que traziam luz, o conjunto em si embelezavam a mente na percepção da beldade vetusta, isso, me deixou com um ar de inveja, por só agora ter estado ali.

Já no interior, aproveitei para vasculhar um pouco sobre a vida do autor. Contemplei fotografias antigas na parede, em seu quarto, a cadeira de balanço que embalava sua imaginação, a cama onde muitos sonhos repousaram e na mesinha que avistei ao lado, as gravatas que o engomavam, no outro canto, o armário onde seus ternos descansavam.

Mas coleando pelos cômodos, cheguei até uma salinha onde havia uma mesa, toda de madeira, grande e de extrema lindeza, na parede só pude observar um quadro que expunha o certificado da Academia de Letras do escritor, e a data a qual este virou “imortal”, 16 de novembro (lembro-me bem desta pelo fato de se tratar do meu dia de anos). No mais, nada prendia meus olhos, pois o ar de mistério daquela escrivaninha planava por quatro paredes, e vestígios de ocultação me chamavam à atenção.

Pus-me a rodear aquela mesa, objeto que pertencia a sua biblioteca de seu apartamento no Rio de Janeiro, quando de repente bafejam em meus ouvidos: Foi em cima desta mesa que o encontraram morto! E mais tarde, já em Belo Horizonte, vim a descobrir que ele foi encontrado debruçado e já falecido pela neta, no dia 19 de novembro de 1967 na “cidade maravilhosa”, morte que adveio de um malfeitor anti-literário, o infarto.

Quando fiquei a sós no recinto, e de olhos presos em indagações de tudo que se passara naquela mesa e cadeira, notei que lágrimas escorriam da madeira, mas não eram lágrimas de tristeza pela morte do poeta, mas de saudade dos velhos tempos em que ela e o escritor eram grandes amigos, dos tempos em que os estros de Rosa eram em sua companhia transcritos, dos tempos que servia de aconchego para embalar devaneios. O poeta havia lhe abandonado, estava ali deixada às traças, e nem um outro, ousou até então, lhe dizer um poema, lhe contar uma estória, para acalentar seu pobre coração que aparava-se em desespero e agonia.

De olhos tomados pela emoção, sentia que era meu dever, não podia deixar uma agonia perdurar por mais de 42 anos, então, fui à busca nos bolsos de minha calça de um poema, era impreterível, e na minha mão, meu poema - Guimarães Rosa vive em odoríferas rosas - surgiu, e foi quando comecei a recitar que a grande Rosa, de minha boca, baforejava aquele aroma pelo cômodo e partículas de sua essência poética apascentava-se na superfície da vetusta madeira, e no reencontro com o poeta, enfim poderia viver em delírio.

Retornei para Belo Horizonte com um ar de tranqüilidade, pois o abandono, feito pela maldade do humano, havia sido suprido, não por mim, mas pela poesia que tinha a grande Rosa, pois nela, tinha um pouco de Guimarães Rosa.
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Fabiano Mafia Ferreira Baião
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segunda-feira, 15 de junho de 2009

cadente, por Danilo Maia de Oliveira

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Eu fui às asas e o voou
cadente
Fui caminho entre rios
perdidos
Fui a jornada e o abrigo
Da escuridão
Ferida e consolo
Das velhas chagas
Fui mistério e desvendado
Em sua mente
Fui veneno e poção
Para teus filhos
Fui à guerra e a rendição
Da massa
Sangue lagrima e lamentação.
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Danilo Maia de Oliveira
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brincando de nada

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saltita no lago
a pedra depois submerge
dois olhos no vago
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Octávio Roggiero Neto

quarta-feira, 10 de junho de 2009

DESAFIO POÉTICO: haicai por Marcos Queiroz

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Além da fronteira
Continua sempre o mesmo
O Verde sumindo
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Marcos Queiroz
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domingo, 7 de junho de 2009

Evento: "Sempre Um Papo", amanhã em BH

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sexta-feira, 5 de junho de 2009

Henry Miller, novo poema de Luiz Coelho

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entre as pernas, dínamo,
e diante de si, em suor, a 66,
além do desejo de atravessar,
aos arranques, a fronteira
que me traz de volta ao Pacífico,
mesmo que o meu mar esteja
vermelho (ou seja isósceles o triângulo
da bermuda de velcro e os quebra-molas
provoquem cancros) lubrifico teus trópicos
pronto pra romper primeiro
o áspero asfalto dos anos
a seco.
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Luiz Coelho
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terça-feira, 2 de junho de 2009

FOTO BOLHA: Flagra na Casa das Rosas em SP

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

pro seu baile à fantasia, de Valquíria Rabelo

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subo escadas pra cuspir do alto
do mais alto que puder
e não sou homem,
e não masco tabaco

escavo a descida escarrando alturas
até doer
até ser delícia

amarro meu pé em minhas meias
passo boca no meu batom
pra cair na sua piscina
de terra seca e azul
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Valquíria Rabelo
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domingo, 31 de maio de 2009

Aspira(dor), um novo texto de Luiza Vilela

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O Tamanduá-bandeira tem apetite para formigas e nasceu com um aspirador; uma dessas maravilhas da natureza, milagre da especialização. Gosta de formigas, caça formigas, aspira formigas — está satisfeito. Sem essa baboseira de ter apetite pra tudo, de querer sugar para sí todos os sonhos do mundo. Somos anatomicamente incompatíveis com esse desejo. Quisera eu, uma pelagem cinza com imponente listra preta, um formato assustador e vontade de formigas apenas; formigas e só. Eu aspiro, aspiro, aspiro e só expiro pó.
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sábado, 30 de maio de 2009

Caleidoscópio, poema de Manoela Ferrari

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No tubo
cilíndrico,
fragmentos móveis,
e vidros coloridos
no fundo.
Milhares de imagens
combinadas,
sucessivas,
refletidas
sobre um jogo
de espelhos longitudinais.
Chuviscos amarelos,
bolas azuis,
faíscas vermelhas:
formas amorfas,
disformes,
multiformas.
Formam imagens
múltiplas, desconexas, sucesssivas...
Mas não se deixe cegar pelo que vês,
não se deixe enganar pelo que lhe a
parece.
Seu olho não vê magia:
tudo não passa de simples imagens.
Não há sonho, não há fantasia:
só ilusão.
Tudo heresia!
Relaxe e aproveite o brinquedo!
É apenas uma coisa,
um objeto
sem enredo.
Simples caleidoscópio,
sem segredo,
sem apelo.
Larguem essa postura
Simbolista do exagero!
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Manoela Ferrari
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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Banda Contra-capa, hoje no Circo Voador!

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A banda Contra-capa, que estrela a coluna Futuros Estouros da edição #26 do jornal Plástico Bolha, se apresenta hoje pela primeira vez no Circo Voador. Todos lá!
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

A tal metade da laranja — por Flávia Jordão

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Sempre achei bastante curiosa essa questão da chamada alma gêmea, cara-metade ou qualquer que seja o nome que dão por aí. Até o Houaiss já deu sua opinião sobre o assunto: “o parceiro amoroso com quem se pode encontrar mais afinidades”. Aparentemente, todos estão em busca dessa parte faltosa de si mesmos. Porém, eu gostaria de levantar o dedinho e apresentar algumas dúvidas.
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Suponhamos que eu passe a vida toda procurando minha soulmate e, quando estiver velho e exaurido da missão, perceba que isto não está perto de acontecer e talvez nem venha a acontecer de fato. E agora? Eu sou, então, uma pessoa incompleta, sem grand finale, só um esboço, só uma ânsia, um projeto, metade de um ser? Queira me desculpar, amigo, mas eu não tenho paciência para “feitos um para o outro”, para “estava escrito nas estrelas” e, muito menos, para “o destino nos uniu”. Não me importo! Pode estar escrito na terceira constelação zodiacal que eu não assino, não compro a ideia, não!
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Sou todo, preenchido, o máximo da perfeição, não carente de nenhum elemento ausente, parte, pedaço ou metade (leia com desdém, por favor). Afinal, que tipo de Deus ocuparia seu Gênesis com criaturas não terminadas? A minha certeza de que ninguém precisa de nenhum outro alguém para transcender é mais do que absoluta. Aqui, sim, eu assino.
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Não que eu não aprecie uma boa companhia, carinho, beijos, sexo ardente, cineminha e pipoca, jantar à luz de velas, pieguices e intimidade. Assim como qualquer pessoa sã, eu também adoro isso tudo, mas, por obséquio, me providencie uma pessoa que não traga os pontos para eu ligar e, depois, ainda tenha que colorir. Já é trabalho o suficiente manter a minha própria completude.
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Eu quero um amor, uma história para contar sobre o dia em que duas completezas se uniram e descobriram como é delicioso compartilhar seus respectivos absolutos. Um paradigma de totalidade na vida de dois inteiros. Até porque, caro amigo, ser completo não é ser autossuficiente, não é ser egoísta e, principalmente, não é ser solitário.
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Flávia Jordão de Almeida
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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Evento: poetas do PB em recital no Leblon

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Evento de poesia na loja Isabela Capeto, no Leblon, com a presença dos bolhas Alice Sant'anna, Mariano Marovatto e Lucas Viriato. É amanhã e estão todos convidados!
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Esperança, novo poema de Raquel Naveira

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Estou grávida de futuro,
Como alguém que vai à cartomante
E ouve tudo que deseja.
A esperança tomou conta de mim
Em ondas verdes,
Diante de mar tão amplo,
Desmaio de sede.
Esperança violenta,
Se eu fosse virgem,
De repente teria me tornado mulher,
Noiva que cai nos braços da morte.
Esperança de transpor a porta do céu,
Tão estreita,
Tão fechada
Por gonzos de prata.
Esperança de ser quem sou:
Semente de mostarda
Que virou árvore,
Embora tarde.
Sobre o abismo,
Essa ponte,
Esse pilar,
Esse poder,
Caminho
E espero.
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Raquel Naveira
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terça-feira, 26 de maio de 2009

FUTUROS ESTOUROS: show de Adriana Maciel

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Assinada por Mauro Rebello, a coluna Futuros Estouros do jornal Plástico Bolha já tratou de diversas bandas e músicos como DoAmor, Os Azuis, Alexia Bomtempo e Contra-Capa.

Para o próximo número, teremos a cantora Adriana Maciel estrelando a coluna. Adriana, que atualmente está fazendo mestrado em Literatura na PUC-Rio, já lançou diversos CD’s e é mais que um estouro.

Quem quiser conhecer um pouco mais do seu trabalho pode ir ao show do seu novo CD, Dez Canções, amanhã, quarta-feira, 27 de Maio, no Hideaway, em Laranjeiras. O disco é belíssimo e o show imperdível!
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segunda-feira, 25 de maio de 2009

CLIQUE AQUI: Associação de Intérpretes

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Quer saber mais da profissão de intérprete de conferência? No site da Associação Internacional de Intérpretes de Conferência (AIIC), você vai conhecer o código de ética, que determina normas de confidencialidade, de ontologia e prática da profissão e ter acesso a links de interesse. Vale o clique!
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domingo, 24 de maio de 2009

Filosofias de um fumante, por Rafael Castro

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I
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Cigarro mal-apagado
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Assim do Homem é a vida —
Miúda brasa a queimar
Enquanto o vento da alegria
Ou do infortúnio a atinja
Até a chama se apagar
E reste apenas pó,
E cinzas
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II
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Forma e sentido
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E cinza a vida é fumaça
Que esvai, voando: no ar
Não há forma nem quente nem marca —
E de repente
Nada há mais que fumar
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Rafael Castro
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Em cinza, um poema de Laura Assis

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Espaços contigo.
Doces como caminhos
que nunca serão construídos.

— Dias viraram noites,
clarearam dias e
se tornaram noites
que amanheceram.

Verbos medidos.
Ânsia se afoga
no timbre do que eu não digo.

— Palavras queriam ações
mas não eram ações
foram palavras
e aconteceram.

Amoldam-se os cantos.
Deságuam no branco
do meu traçado sem plano.

— Versos que criaram olhos,
escreveram pele
e te sentiram
não se perderam.

Ouvir de você
as três palavras.
Clichês.

Desfaço em medula
o corpo do seu desejo
sem ver.

Amanhã saberemos:
o mundo é tão maior.
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Laura Assis
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

LEITURAS ESPARSAS: Projeto Livro Falado

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Você sabia que um livro possui olho? E, antes de começar sua leitura, já reparou atentamente a primeira capa, a segunda, a terceira e a contracapa do livro que tem em mãos? Não se pode deixar de reparar no expediente também; sim, os livros possuem expediente. Enfim, essas são só algumas partes que quase todo livro possui e que, muitas vezes, com nossos olhos famintos e desajeitados, nem percebemos.

Analu Palma é a idealizadora do Projeto Livro Falado, que tem como objetivo levar aos cegos obras literárias na voz das pessoas que queiram aprender como ler de forma correta e fazer as gravações através das oficinas que, atualmente, acontecem às segundas-feiras, no Centro Cultural Justiça Federal.

Foi uma surpresa; primeiro, por descobrir esse grupo de ledores, apaixonados por literatura e dispostos a compartilhar e levar grandes obras de escritores brasileiros para os cegos e, segundo, por perceber como podemos ser poucos sensíveis e atentos ao pegar um livro. Fazer a oficina do Livro Falado é como encontrar um livro pela primeira vez.


Camila: De onde partiu essa vontade de criar o Projeto Livro Falado?

Analu: O projeto surgiu há dez anos atrás. Eu sou zen budista e, em uma meditação, me veio a intuição de que deveria fazer esse trabalho. Não tenho ninguém cego na família, nunca tive que lidar com cegueira, nem conhecia absolutamente nada desse universo. Daí aproveitei na verdade dois privilégios que tenho na vida: o primeiro é o de amar o livro imensamente; pensei, “Nossa, existem pessoas que não têm acesso ao livro, eu posso doar isso”; e o segundo é a minha voz trabalhada de atriz pra fazer com que essas pessoas conheçam o conteúdo de livros. Então, uni duas habilidades numa missão que eu acho que tinha pra fazer na vida.

Camila: Você fala de inclusão...

Analu: Talvez a parte mais interessante da sociedade em que vivemos seja esse olhar inclusivo, a gente tentar apreender todas as diferenças do ser humano, aquele que não enxerga, aquele que não ouve, aquele que tem dificuldade de andar, a pessoa muito obesa, o idoso... Acho que isso é um diferencial da nossa sociedade contemporânea, buscar integrar. Na verdade, incluir nem é mais a melhor palavra; integrar, sim, é melhor. Todas as diferenças humanas como possibilidades diversas. Então, trabalhar para essa integração e especialmente pra difusão do livro! O livro é uma coisa genial, você abre e mergulha em conteúdos que você nem imaginava. Trabalhar nisso tem me feito muito feliz.

Camila: Como é feita a seleção dos livros? Existe um critério ou posso ser ledor de um livro de que simplesmente gosto?

Analu: Pode. Dentro do Projeto Livro Falado o critério que tenho usado é o de escolher autores brasileiros vivos. Por quê? Porque a minha tentativa é de diminuir a distância entre a produção contemporânea de livro e a pessoa cega. Porque essa pessoa cega está ouvindo um autor que vai à Bienal, que vai dar uma entrevista aqui e ali; então, se ela puder conhecer o conteúdo desse contemporâneo vai ser algo um pouco melhor, não é?

Camila: Geralmente quem são os ledores?

Analu: Primeiro de tudo, pessoas que gostam de ler. Segundo, pessoas que ouviram falar do Projeto e se sensibilizam com a proposta. Terceiro: são pessoas que já pensaram em diversos momentos de sua vida em fazer esse trabalho. Na maioria absoluta são mulheres. Como você pode ver nesse grupo, temos apenas dois homens.

Camila: Agora, uma curiosidade que tenho. Por exemplo, Borges ficou cego e Beethoven compôs suas maiores obras depois de surdo. Eles “perderam” seus sentidos, mas Beethoven tinha memória auditiva suficiente para compor, e Borges desenhava seus escritos mentalmente, antes de ditar à Kodama. Você acha que com o Livro Falado, os cegos podem ter contato com os livros de uma forma que posteriormente os faça ter vontade de escrever?

Analu: Existem vários autores cegos; por exemplo, o Glauco Mattoso que é um poeta paulista maravilhoso com vários livros editados, é um trabalho brilhante pra gente conhecer. Ainda no Brasil temos a Virgína Vendramini que, além de ser poeta, é também uma tapeceira. A gente tem um esloveno, Evgen Bavcar que escreve, é professor de filosofia da Sorbonne e é fotógrafo. Então, temos expoentes maravilhosos que produzem literatura, artes plásticas, fotografia aí no mercado, claro que com mais dificuldade que uma pessoa sem deficiência. Dificilmente consumimos a gente consome a arte de pessoas com deficiência porque nem sabemos de sua existência. Esse processo da inclusão começa também com a gente levando ao consumir o produto feito por essas pessoas.

Camila: Também tem uma coisa delicada, que é, por exemplo, comprar o livro porque o autor é cego; daí temos uma curiosidade diferente que não é a mesma que nos leva a escolher o livro de um autor não cego.

Analu: O importante é tirar esse adjetivo. Na verdade essa pessoa é um artista. Ter deficiência visual é só um termo secundário, mas para isso é importante que ele também já saiba se colocar como um artista, e não como um artista com deficiência. Acho que é um caminho de mão dupla que precisamos aprender.
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Para quem quiser conhecer mais o Projeto Livro Falado é só clicar aqui!
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quarta-feira, 20 de maio de 2009

Lançamento: traduções inéditas de Machado

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Nossos amigos da Livraria e Editora Crisálida, de Belo Horizonte, convidam para o lançamento do livro Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis (ainda inéditas), organizado por Jean-Michel Massa. Serão dois eventos, um na Livraria Cultura (São Paulo) e outro na Livraria da Travessa (Rio de Janeiro), ambos com a presença de Jean-Michel Massa.
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terça-feira, 19 de maio de 2009

Capivara da Lagoa, poema de Luisa Noronha

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A capivara da lagoa
Vivia numa boa
Sem pensar em labuta
Ela reinava absoluta

Pegava sol o dia inteiro
Pastava no gramado
E ganhou um companheiro
Que muito foi de seu agrado

Agora sim estava completa
Tinha a companhia ideal
Para uma volta de bicicleta
E sua caminhada matinal

Mas um dia sem aviso
Ele tomou chá de sumiço
Tão depressa como veio
Logo se foi seu parceiro

A capivara ficou desolada
E fez da dor sua morada
Varava noites em claro
Sonhando com o seu amado

Então decidiu sair da fossa
Pois tinha muito que fazer
Era sócia do Caiçaras
E do clube Piraquê

Num dia tal
Sei lá por que
Atravessou o canal
E virou estrela de T.V.

Antes disso
Criou grande reboliço
Procurando seu amor
Nas pedras do Arpoador

Mas ninguém aceitaria
Esse ato de rebeldia
Vai ser mantida em cativeiro
Assim falou o bombeiro

Pobre capivara
Por essa ela não esperava
Maldisse a sociedade
Por punir quem tem saudade
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Luisa Noronha
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segunda-feira, 18 de maio de 2009

SARAMAGO: anticristão ou humanista?

(por Ana Couto Paiva)
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A despeito de todas as críticas feitas ao livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do autor supracitado, resolvi eu mesma fazer um registro das minhas impressões sobre alguns pontos da obra, sem o objetivo de discutir a veracidade de seu conteúdo (até mesmo pelo seu caráter de ficção).
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Não obstante Saramago, o famigerado autor português, seja um cético, este conseguiu relatar, de maneira peculiar, a vida de Jesus Cristo, mártir das igrejas cristãs, reduzindo, por assim dizer, sua vida em todos os seus aspectos a uma passagem humana e improvável pelos seus seguidores.
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As passagens bíblicas, tangentes à vida de Jesus, não pormenorizam sua porção “humana”, mas traçam o perfil do “filho de Deus”, envolto de uma santidade irrefutável.
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Os pontos mais polêmicos do livro, a meu ver, são a relação de Jesus e Maria de Magdala (hodiernamente tão discutida por agnósticos e mesmo por historiadores), e o malfadado fim de Judas de Iscariote.
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O “Jesus” de José Saramago é renitente, lacônico (já o era antes, biblicamente), taciturno; amarga uma culpa herdada pelo pai terreno, José, e cede às tentações da carne, quando opta por viver em concubinato com Maria de Magdala.
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Não se fala, como outros autores o fazem, na descendência dos concubinos, mas na forma mais humana possível de uma relação entre um homem e uma mulher, sem geração de frutos.
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Jesus, após alguns anos passados distante da família, retorna ao lar com o intuito de revelar aos seus a sua condição suprema de filho de Deus. Contudo, no caminho de volta, passando por Magdala, bate à porta de Maria, sem saber quem lá morava ou de que ofício tirava seu sustento. Tendo os pés feridos pela caminhada, procurava tão-somente quem pudesse aliviar sua dor.
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Impressionado com as formas da mulher, de idade superior à sua, com seu perfume, com o tratamento que dela recebe, acaba cedendo aos seus encantos de meretriz; impressiona-se ainda com sua cama luxuosa e com a estranha intimidade que cria com ela.
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Retornado ao lar, e diante da descrença de sua família em relação à sua origem divina, termina por voltar ao seio de Maria de Magdala, donde fica por algumas semanas, vivendo com ela até o fim de seus dias.
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Nada surpreendente para os tempos modernos. Todavia, pensar numa relação primordialmente carnal, sobretudo há dois mil e nove anos (um pouco mais), é quase impossível! Jesus teria tirado Maria Magdalena da vida até então prostituída para viver com ela em prostituição.
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Inimaginável tal situação, não pelo fato em si, mas pela época em que teria ocorrido. Amavam-se, entendiam-se como amigos; mas viviam em concubinato. À exceção de qualquer influência religiosa, nem nos meus pensamentos mais liberais conseguiria admitir a hipótese de Jesus viver essa relação com Maria Magdalena.
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Não seria menos louvável o Nazareno se com ela se tivesse casado. Mas repito: inadmissível seria naquele contexto histórico, e, portanto, improvável, que vivessem ambos tão liberada relação e, cumpre-se dizer, tão humana (mais, impossível).
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No tocante a Judas de Iscariote, este teria se resignado a ser eternamente condenado pela humanidade.
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Prestou-se o discípulo à árdua tarefa de denunciar Jesus às autoridades romanas, para que fosse preso, julgado e condenado. Observe-se: a pedido do próprio mestre, quando os demais se recusaram a fazê-lo. E ao praticar tal ato, mesmo provando sua lealdade, tão arrependido ficou, que pôs fim à própria vida, suicidando por enforcamento.
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Aqui, concordo com o autor, pois me parece impossível pensar que, já sabendo Jesus de seu destino, fosse surpreendido pela traição de um dos seus seguidores.
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Foi Judas o grande traidor ou o fiel incondicional? Mais pertinência tem a segunda hipótese, e mister ressaltar a valorosa coragem do apóstolo, não só a de cumprir a difícil tarefa, como a de suportar para sempre a condenação póstuma.
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Por fim, a leitura dessa obra tão polemizada e alvo de censura até, é das que eu recomendo para quem ainda não a fez.
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O aspecto totalmente humanizado — e concomitantemente anticristão — que Saramago confere ao personagem principal, a completa diferenciação desta história à já conhecida versão bíblica, nos remete a um outro universo, desconhecido, e nem por isso, menos intrigante.
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domingo, 17 de maio de 2009

Lançamento do livro de Guilherme Zarvos

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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sala de Espera, um poema de Sérgio Medeiros

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Numa dessas salas
em que todos esperam algo,
sempre há um cheiro de tédio
e revista de fofoca.
E há pessoas com seus rostos
enigmáticos, que parecem
querer não demonstrar nada,
e dizer apenas que estão aguardando,
sem vontade, sem pressa,
sem receio e nem anseio.
Mas, um dos rostos descuida-se
e, num movimento rápido,
deveras revelador,
deixa ver uma meia infantil,
dessas que eu compraria,
se tivesse uma filha de seis anos.
Fico então a imaginar
os filmes que esse rosto vê,
e os livros que gosta de ler.
Agora, somos quase íntimos.
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Sérgio Medeiros
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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Marona: pequenas biografias não-autorizadas

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pequenas biografias
pequenas poesias
com os bagos sujos
de versinhos brancos

quem te autorizou?
quem é o autor?
quem abriu a boca?
eu é que não fui

um grande erudito
certa vez me disse
viva a poesia
dentro de um puteiro

e essas discussões
sobre a poesia
sobre artilharia
meu deus, quanta frescura

(aposto que você deve
morrer de irritação
quando vem alguém e diz:
escreve sobre o fulano?)
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Paulo Gravina
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Após terminar a leitura do livro de estreia de Leonardo Marona, Paulo Gravina não se sentiu autorizado a falar nada sobre ele. Então, seguindo o exemplo do autor, resolveu poetizá-lo. Leonardo Marona já participou de cinco edições do jornal Plástico Bolha e foi capa da edição #25. Três desses poemas estão em seu mais recente livro, inclusive o seu poema narrativo publicado no atual Desafio Poético.
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Lançamento de Estelar, de Alice Monteiro

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terça-feira, 12 de maio de 2009

Vermelho Bordeaux, poema de Henry Pablo

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Enrolaste na cortina do bordel dizendo
que era seu vestido. Nada contra os bordéis,
é que a Cortina era velha. Da próxima vez,
me avise, eu compro um vestido para você.

Enrolaste na cortina do bordel para combinar
Com a cor do seu cabelo. Vermelho bordeaux.
Deixaste a sala menos aconchegante
por um simples capricho. Da próxima vez,
eu compro um bordel para você.

Enrolaste na cortina do bordel
Dizendo que era seu vestido.
Fizeste da cortina vestido para que eu
Pudesse retirá-lo pessoalmente e
Transformá-lo em retalhos.
Da próxima vez, permaneça nua.
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Henry Pablo
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Poema como mote para a solidão sem fim

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Os tubarões andam se alimentando de surfistas.
Aquele navio asiático permanece ancorado
com porões cheios de carne estragada.
Tenho medo, mamãe, do Canibal de Milwaulkee.
Tenho medo do assassino que mata casais na praia.
Tenho medo de ser torturado por policiais por causa do beijo que dou em meu namorado – cobram caro pelo flagrante de um abraço.
Não temos glória, mamãe.
Só uma luta infinda.
Pedradas, imprecações!
Eles não nos aceitam, mamãe!
Só suportam nossas cores,
nossas gargalhadas,
nossos falsos decotes,
nossos quadris,
peitos e bundas
de silicone e anabolizantes.
Mas somos mais desaforados que eles, mamãe.
Porque não podem nos eliminar a todos.
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Tom Zine
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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Evento Internacional de Poesia em Maricá

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MARICÁ SE FAZ PRESENTE
em mais uma edição do Evento Internacional de Poesia:
“PALAVRA NO MUNDO III”
Período: 14 a 17 de maio de 2009

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Sob a Coordenação Geral (Maricá) das escritoras e produtoras culturais Maria Regina Moura e Patrícia Custódio. Mais de 40 países, mais de 100 cidades, mais de 300 pontos de encontro para leituras simultâneas de poesia, com 2 coordenações no exterior — uma, na Argentina; outra, na Itália — em mais uma edição do Evento Internacional de Poesia.
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Informações: Canteiros de Obras : (21) 2636 0012
http://www.canteirosdeobras.com/
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DESAFIO POÉTICO: primeiros versinhos

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whisky com guaraná
tequila com limão
seu copo eu aceito
você num quero não
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Luciana Mutti

ULISSES (REMOENDO-SE TODO)

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........por sua vez, ela terá escrito um best-seller oportunamente batizado de “Ausência” (“A Tua Ausência”, “Dilacerar-se de Ausência”, “Ulisses Ausente”), ter-se-á feito fanal das mal'amadas, as postas de parte, as deixadas pra tear — vertida em línguas que nem sonham existir, terá feito a burra do dinheiro, terá mandado Telêmaco aprender os clássicos em Harvard, Princeton ou Yale
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domingo, 10 de maio de 2009

náusea, um poema de Danilo A. Briskievicz

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saio cedo
não acordo
ninguém

saio cedo
não provoco
alguém

eu me vou
como outros
vão

eu me parto
como outros
dão

o dia se faz
e me desfaz

o dia é capaz
de dar a paz

amanhecer é suportar-se
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Danilo Arnaldo Briskievicz
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sábado, 9 de maio de 2009

Exposição do artista Mário Alex Rosa em BH!

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Um terror chamado continuidade

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E a vida la fora prossegue
Flores, amores, sorrisos, sabores...
Tudo o que é de direito sonhar
Mas todo sonho que não se realiza
Pesadelo está fadado a se tornar
Ontem, tudo pareceu mais triste.
É... a vida segue.
E sem mim.
Eu estou fora de mim.
Eu estou fora dos outros.
Esta noite, há um breu lá fora e um breu aqui dentro.
O dia amanhecerá. Eu sei disso.
Mas eu permanecerei trancafiada
na escuridão dos meus pensamentos.
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Joana Paranhos
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sexta-feira, 8 de maio de 2009

Lançamento do livro de Leonardo Marona!

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É amanhã o lançamento do livro Pequenas Biografias Não-autorizadas do nosso amigo do Bolha Leonardo Marona. Será no Bar Bukowski a partir das 19 horas. Esperamos todos lá!!!
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quinta-feira, 7 de maio de 2009

VITRINE: artes plásticas no Cine Glória

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LEITURAS ESPARSAS: Tancredo Neves (Filho)

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“Você quer fazer uma entrevista para o Plástico Bolha com o filho de Tancredo?”. O filho de Tancredo Neves. Tentei fugir algumas vezes, inventei desculpas, novos assuntos, mas não havia jeito, Décio continuava com a mesma pergunta: “Você não quer fazer uma entrevista com o filho de Tancredo? Ele está ali, olha!”. Estava mesmo, sentado num sofá, numa conversa animada e cercado por amigos que bebiam whisky. É claro que eu queria; sabia que seu pai, Tancredo Neves, tinha sido eleito presidente do Brasil em 1985, porém, antes de tomar posse faleceu por motivos de saúde, causando um grande impacto na sociedade da época; afinal, um civil assumiria o poder depois de tanto tempo de ditadura. Eu só adiei o momento porque sabia que poderia fazer várias perguntas relacionadas à memória e à história, mas não era capaz de fazer uma contextualização imediata entre literatura e a família Neves. Mesmo assim, Augusto Tancredo Neves Filho quebrou toda minha insegurança, demonstrando a simpatia de um legítimo mineiro.

Augusto: Não me chama de senhor, não!

Camila: Ah, não? Desculpa! Desculpa então... É porque, porque admiro muito a trajetória da sua família e imagina... chamar você de você, eu fico meio... bem, mas o Décio estava me dizendo que além de economista, você escreve crônicas.

Augusto: Olha, você não deve chamar ninguém de economista, viu? Hoje em dia economista soa pejorativo.

Camila: Ah, ta. Mas, você também escreve alguma coisa?

Augusto: Eu escrevia cartas...

Camila: Pra quem?

Augusto: Ah, pra pessoas interessantes... Hoje ninguém escreve mais carta!

Camila: Não mesmo! Aliás, eu escrevo, quando estou apaixonada, sabe? Escrevo mesmo. Mas nunca mando essas cartas...

Augusto: Pois é, mas eu mando!

Camila: Não manda e-mail?

Augusto: Eu mando e-mail, mas e-mails restritamente profissionais, mas conversar por e-mail de jeito nenhum!

Camila: Existem vários livros que publicam cartas trocadas entre escritores, políticos, amantes... agora, a gente vai fazer o que para resgatar a memória dessa gente? Rastrear e-mail?

Augusto: Pois é, isso é problema de geração! Vocês agora entram nesses sites para ficarem conversando! Eu sou da geração que escrevia cartas e falava por telefone! Eu não sei conversar teclando! Aliás, acho isso uma coisa horrorosa, uma chatice!

Camila: As pessoas namoram pela internet, marcam encontros sem troca de olhar, sem...

Augusto: Isso, isso aí! O meu limite no sistema é só mandar e-mail profissional, eu já paro por aí!

Camila: Ao mesmo tempo não dá para ser muito saudosista, né? A gente sempre fica achando que o tempo anterior era melhor do que o que vivemos no presente...

Augusto: É, mas antes você tinha mais tempo. Tinha tempo até para raciocinar, o computador te tirou esse tempo. Até para falar uma mentira, o celular acabou com isso, você não pode mais mentir, não pode nem trair!

Camila: E quando se marcava um encontro num determinado lugar, as pessoas iam; hoje em dia, pode-se desmarcar tudo em cima da hora, é só ligar ou mandar uma mensagem. Hoje, “o encontro” tomou perspectivas diferentes.

Augusto: Hoje em dia é o seguinte: é a evolução imbecilizada...

Nesse momento o garçom chegou com os pratos.

Augusto: O que é isso?

Camila: É macarrão... coberto com um creme de leite que esconde a massa.

Augusto: Então deixa aí. Depois eu como... Que é a versão imbecilizada de um livro que se chama 1984 do George Orwell, que é o Big Brother. Então, o que acontece? Acontece que nós chegamos, já estamos além, porque a privacidade foi embora, em todos os sentidos. Então, quando a gente fala que o tempo anterior era melhor, é porque você tinha uma privacidade, hoje você não tem. É o que falo... Você não pode mais falar, dizer a mentira verdadeira , falar aquela mentira que todo mundo usava, sabe? Eles gravam tudo do olho! Você é escravo de tudo, escravo do mundo, do olho de que George falava no livro. Outro dia eu estava lendo que, em São Paulo, querem colocar o GPS, obrigatório, em tudo que é carro. Você já tem um celular, GPS (com indignação), e aí? Você vai esconder embaixo da terra? O meu jogo era outro! Agora eu tenho que entrar no jogo de vocês! A evolução no meu tempo era aritmética! Agora é geométrica! Eu não consigo acompanhar isso. O bom é que a gente morre, a morte é uma solução fantástica!

Camila: Antes de terminar, qual livro que está na sua cabeceira?

Augusto: Código da vida, do Saulo Ramos.

Trocamos e-mails e fomos ao macarrão.
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terça-feira, 5 de maio de 2009

Mezanino, um novo texto de Lucas Ferraço

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Because everyone else is boring. And because you are different.
(A Ciência dos Sonhos)
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A concepção das relações intersubjetivas é complexa, mítica, perturbadora, interessante. A escolha e o encontro de amizades se fazem através de processos corriqueiros e premeditados, exigentes; os resultados, as buscas, são — por sorte — imprevisíveis. Assim como as palavras que almejo para este texto, as aproximações sociais, espirituais, brotam de um local obscuro da mente, do elevador, da escada, da porta ao lado, do caos ordenado e labiríntico do ouvido humano: pega-se o melhor, o mais agradável, o mais desagradável, o mais inspirador, o mais comovente, o mais frio, o de fora, a maçaneta.

A análise permitiu o desenvolvimento de onomatopéias estridentes, lindas. Decompõe-se o seu ser; criam-se seres diferentes a partir do mesmo, busca-se o preenchimento do vazio e da solução para o paradoxo que aqui se faz: nada é vazio. Instrumentalização humana. Pronomes reflexivos são utilizados, a língua mexe, a adjetivação é excessiva. Quando é encontrado, o fim para o tédio sorri-de-canto-de-boca. Inebriante, ele descaracteriza mais um objeto, dinamiza todo um sistema. A angústia suave ainda persiste — pleonasticamente poético, sorte.

O mezanino dialoga. Fala-se, verbaliza-se, escreve-se, convida-se. Objetos sem sustentação física são criados; nega-se uma identidade, identificam-se outras. Rir, beber; verbos e ações. É a derrocada do marasmo, da prostração — sim, “prostrar” também é um verbo, mas pouco importa. Escuto o piano, vejo um quadro, leio Whitman, grito o filme, sinto dor de garganta, danço com cabelos castanhos, subo o morro, vivo.
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EVENTO: Versos da Meia-Noite, no Rio

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Versos da Meia-Noite
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Edição Rock - Homenagem a Jim Morrisson – The Doors

Quando as portas da percepção forem limpas,
tudo poderá ser visto como realmente é: infinito.

William Blake

7 de maio - quinta - 23h

Fosfobox

Shows + Djs + Performances + Projeções + Muita Poesia

Com:

Betina Kopp + Pedro Rocha + Madame Kaos
Paulo Betto + Ricardo Maia + A Dupla do Prazer
Movimento inVerso (Clauky Saba e Gustavo Saba)
Brita Brazil + Sandra Grego + Beep-Polares
Artur Gomes (Poesia/Blues) + Lettuce (Intervenções Eletrônicas)
Blake Rimbaud(Rock/Poesia) + Jamband Express(Rock 60/70)
Maysa Britto + Petite Poupée (Artes Plásticas)
Action Painting (Saba e Betina Kopp)
Maurição (Projeções) + Dj Junkie(Rock/Pop)

Desorganização: Gean Queiroz

Fosfobox Bar Club
Rua Siqueira Campos, 143 , Lj 22a , Copacabana,25487498

Entrada R$10 - Com Flyer ou Lista Amiga Gean R$5


http://www.versosdameianoite.blogspot.com/
versosdameianoite@hotmail.com
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Colega, um poema de Sebastião Ribeiro

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de teus pêlos surge um conforto morno
uma palavra ou
uma descoberta adormecida
num campo de hálito
num verde compreender da noite.

este não entender corrente pelo
róseo escondido
mundo inaudito que expulsa os
olhos mortos
os dois perdidos
mudos e retraídos
sobre o macio cabelo parado.

pelo mundo (todo surdo)
nossos dedos viram a esquina
chamam a rua no perdido
pelo escuro nenhum som bendito que
corte a luz e te chame abrigo.
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Sebastião Ribeiro
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Sebastião Ribeiro é nosso leitor de São Luiz, MA, (onde nem distribuimos o jornal ainda, mas ele já chegou!) e mandou esta poesia pelo site do jornal Plástico Bolha. Envie você também o seu trabalho!
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domingo, 3 de maio de 2009

EXTRA! Edição 26 já está no ar em nosso site!

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Já esbarrou com a nova edição do Plástico Bolha por aí? Não? Então entre agora em nosso site e confira em primeira mão o PB#26!!!
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sábado, 2 de maio de 2009

poeminha sujo, uns versos de Daisy Miller

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Me lamba, se lambuze
Me abra com cuidado
Que eu sou só uma lata
De leite condensado.
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Daisy Miller
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Lançamento e exposição: Gianguido Bonfanti

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chamada a cobrar, de Edson Pielechovski

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ligação mal feita
vai tudo mal

— Essa é a novidade visceral monocórdica de olhos grandes telepatas do outro lado da linha
não é história

Não dá tempo de se explicar

nunca deseje mal a ninguém

Os homens exploram uns aos outros
tão por baixo
— É melhor aceitar essa nova leitura metafórica online como vantagem espiritual

beijo...
me liga...
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Edson Pielechovski
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Edson Pielechovki pegou o jornal hoje à tarde na Casa das Rosas e respondeu imediatamente nos enviando alguns poemas. Temos agora um novo fã, fazendo a primeira ligação de São Paulo com o jornal Plástico Bolha.
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

Jornal Plástico Bolha chega a São Paulo!!!

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Depois de rodar pelas cinco regiões do país, finalmente o jornal Plástico Bolha desembarca em nossa maior cidade. Os leitores paulistas agora podem aproveitar para ler o jornal de literatura mais badalado da língua portuguesa. Leve literatura agora na Casa das Rosas, primeiro ponto de distribuição da big apple tupiniquim.
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Casa das Rosas - Av. Paulista, 37 - Bela Vista, São Paulo
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Nostalgia, texto de Bruno Papito Nascimento

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Há dias em que você acorda e se vê diante do abismo. Olha para trás e não recorda o caminho que percorrera. O que você fez nessa vida? O que você fez da vida? Correu atrás de borboletas no jardim do cemitério, mas não encontrou nenhuma lápide para a saudade... só um túmulo onde se lê "Infância".
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Bruno Papito Nascimento
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quinta-feira, 30 de abril de 2009

Disk-Pizza, um conto de Giselle Ferreira

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A chuva espalhava o sangue brilhante que vazava do capacete. Seu dono estava estendido no chão imóvel. As pizzas atiradas no asfalto negro, rodelas de calabresa e tomate espalhadas em volta dos discos fugidios que se misturavam ao sangue como glóbulos gigantes. Logo apareceram várias pessoas para socorrê-lo, na maioria outros motoqueiros que se juntavam feito formigas operárias. Outras se aproximavam, insaciáveis desta mórbida rotina. Havia ainda as que preferiam escapar enquanto desse tempo, fugiam do trânsito, do outro, da proximidade da realidade.
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— Enganchou na traseira do caminhão, vinha costurando feito louco.
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— Também, se não fazem a entrega no tempo, tem que pagar pela pizza.
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— Meu Deus, onde é que a gente vai parar!
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O motorista do caminhão permanecia imóvel, olhos órfãos, sem entender ainda o que havia acontecido, lembrava-se apenas do leve impacto atrás do caminhão.
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— Alguém chama o resgate!
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— Tem que tirar esse pau da cabeça dele.
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— Não pode, se tirar ele morre.
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Sentia uma dor leve, um frio fino que lhe penetrava os caminhos da alma. A chuva grossa refrescava a pele morena no asfalto ainda quente do dia de verão; entre as pálpebras semicerradas, viu estrelas faiscando nos postes estampados contra a negritude da noite. ‘Pai, você me dá uma boneca que faz xixi no meu aniversário?’ ’Mas minha princesa, é muito cara, não tenho dinheiro.’ ’Então você vai no banco e pega!’ Aqueles pequenos olhos suplicantes lhe davam pistas da sua existência.
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— Vê se tem documentos no bolso.
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— Melhor ligar logo para o restaurante.
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Sentiu o cheiro da chuva e lembrou-se do subúrbio de terra batida onde crescera. Os pés enlameados a caminho da escola nos dias de chuva nunca chegaram ao final do ensino básico. Não havia tempo para aprender além do que estivesse no seu caminho. Urgia sobreviver à sua sina. Lutava para sair do vácuo, mas só ali, em cima das duas rodas, sentia vida, ainda que malfadada. Fazia entregas, uma após a outra até a última, a de sua vida.
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— Pizza D’Ore, boa noite.
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— Um motoqueiro que trabalha para vocês sofreu um acidente.
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— Morreu?
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— Não dá para saber. A chapa da moto é BRB 3355.
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— É o Josoaldo. Vou mandar fazer outra pizza.
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Giselle Ferreira
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Giselle Ferreira profissionalizou-se como Tradutora e Intérprete e possui mestrado em educação na Universidade de Harvard. Ela trabalhou no Consulado Americano e atualmente ensina inglês para crianças em um programa americano em São Paulo, além de participar do Laboratório de Criação Literária do Museu Lasar Segall. No meio tempo de tantos afazeres, passou no site do jornal Plástico Bolha para brindar-nos com alguns de seus textos.
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Lançamento coletivo de poetas em SP

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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Lançamento de "Cor de Cadáver" em BH

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Quarto com suíte, texto de Éder Rodrigues

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Salvo tuas mãos do sono, onde agora tudo singra e nada breve é o que se espera. Nenhuma palavra rompe o eterno que se desenha ou o impossível que se desculpa. Rente no assim tão dentro do enlouquecer dos dedos, do caminho que não conseguem. Teu escrito molhado num vício-corpo é qualquer coisa entre ir, sem se levar. Tudo escorre. Tudo migra. A distância não vira poema. Só o olhar de quem morre, de quem pede fim. Solidão coberta por lençóis de linho. Espelho-teto de uma lua amíngua.
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Salvo tua boca do silêncio onde agora nada vinga. Socorro tua palavra do corte, da nossa imagem embaçada nesse pedaço de céu espelhado. Gozo incerto que adormece os homens, antes de serem homens. Corpos num eclipse afora, na fase diminuta de seguir, ficando. Teu rastro de quem esquece, tua loucura de quem já se foi. Sono de quem arde ou adormece assim. No instante rompido de não estar, estando. Solidão nua. Sem lençol sem nada. Num banho morno de sarar não-ditos, de curar os escritos pontiagudos da tua língua.
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Éder Rodrigues
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Lançamento de livro sobre Guimarães Rosa!

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Lançamento de livro com a participação dos amigos do Bolha: Stella Caymmi, Leonardo Vieira e Eliana Yunes!
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Américas, novo poema de Miguel del Castillo

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Avenida das
Américas à noite,
cada poste que passa
a oitenta quilômetros
por hora é luz
branca que escorre pros
olhos,

os freios
vermelhos piscam
piscam
e o que vem ali
à frente depois
do Barrashopping
só Deus
sabe,

tantos prédios
condomínios
cercas
que eu
já nem sei —

essa avenida parece
um rio e
seus barrancos
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Miguel Del Castillo
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Evento "Poética" no Teatro Escola SESC

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terça-feira, 28 de abril de 2009

Operando a Manhã, poema de Lucas Matos

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Um saco pleno de gemas,
algo assim como um câncer luminoso,
E um bisturi afia a ponta da sua lâmina sobre a fina pele.

Repente
Amarelo!

Não é preciso nenhum galo
Para anunciar o amanhecer.
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Lucas Matos
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Evento "Terça Poética" em Belo Horizonte

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O caos da rosa, poema de Rebecca Garcez

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Olha lá! Até as pétalas em guerra.
Guerra pra ver quem vai sentir a terra
Mas conforme o caos come
a rosa
morre.
A pétala
cai.
E então anarquia se faz, meu pai!
Quando se vai, se cai, se ganha.
Nunca vi tanta barganha.
Se ganha, porque mesmo morta
a delicada pétala torta
abre uma porta pra sentir a terra.
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Acorda...
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Colóquio Literatura e Revolução, na PUC-Rio

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Evento em comemoração dos 35 anos do 25 de Abril organizado pela Cátedra Padre António Vieira de Estudos Portugueses. Clique na imagem para ampliar a programação
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Plástico Bolha #26 já em Belo Horizonte!

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Os leitores mineiros receberam em primeira mão a nova edição do jornal Plástico Bolha. Quem quiser conferir a nova edição pode encontrar no nosso principal ponto de distribuição na capital mineira:
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- Livraria Scriptum - Rua Fernandes Tourino, 99 - Savassi
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Crise, um texto de Anna Beatriz Siqueira

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Eram melhores amigas. Inseparáveis. Uma loira, outra morena. Uma de olhos castanhos, outra de olhos verdes. Até que um dia, a outra apareceu loira e a uma chiou.
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— Mas que é isso?
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— Pintei o cabelo.
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— Sim, eu sei, mas tinha que ser justamente da mesma cor que o meu?
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— Está na prateleira é para se comprar, querida.
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Isto não ficaria assim. Na semana seguinte, lá estava a uma com lentes de contato verdes. A outra reclamou:
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— Mas você, hein?
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— Está na prateleira é para se comprar, esqueceu?
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— Ah, é?
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No mês seguinte, a outra estava vestindo as mesmas roupas que uma. Passou mais um mês, uma estava com os mesmos sapatos que a outra. Mais um mês e surgiu o Carlinhos em suas vidas:
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— Eu vi primeiro!
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— Não, senhora! Eu que vi!
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E este, vendo que nem uma nem outra se acertavam, preferiu ficar só a ter que lidar com uma crise de identidade.
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Anna Beatriz Siqueira

Destino, poema de Petrônio Souza Gonçalves

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Eu sou um trem de ferro
Que leva minérios
No coração.

Eu sou um trem de ferro
Que traz histórias
No vagão.

Eu sou um trem de ferro,
seguindo os trilhos
Da palma da minha mão.
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Petrônio Souza Gonçalves
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Petrônio Souza Gonçalves trabalha na Academia Mineira de Letras e foi muito simpático em receber o pessoal do jornal Plástico Bolha por lá. Esse poema, Destino, está em seu livro Adormecendo os Girassóis, Ed. Europa.
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segunda-feira, 27 de abril de 2009

Lançamento de "A Casa do Fim", na Gávea

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Presente do Indicativo, de Fernanda Hott

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O presente se refere a um fato
E quando mudam os fatos
Muda-se todo o discurso
E o presente vira passado
E o que era fato vira um fardo
Que terá que ser carregado
Por todo o percurso
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Fernanda Hott
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Fernanda Hott é nossa leitora de Vitória, ES, e acaba de nos enviar alguns poemas. Escolhemos este Presente do Indicativo para compartilhar com os leitores do Blog do Bolha. Aguardamos mais textos dos leitores capixabas!
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LEITURAS ESPARSAS: A enfermeira Creuza

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Noite e dia se confundem no Hospital Cardiotrauma de Ipanema, a não ser pelo relógio que indica a hora. Por volta de 2:30 saio do leito e encontro uma enfermeira; ela estava com a cabeça debruçada nos braços ensaiando um cochilo. Perguntei se ela se importava em trocar algumas palavras. Ao ócio daquele ambiente nada restava a não ser se permitir conversar com uma curiosa. Aos dezesseis anos Creuza Souza deixou o esposo e a roça para buscar no Rio de Janeiro um futuro. Hoje , aos 52 anos, a auxiliar de enfermagem diz com convicção o que mais ama fazer na vida: cuidar de gente, ajudar a salvar pessoas. Quando começou a falar de livros, escorregou diversas vezes na sua própria história e memória. Creuza dá inveja à imaginação e à pretensão de qualquer escritor, sua vida é um prato cheio de terror e superação, de buracos, de “não dá pra explicar, dona Camila”.
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Você gosta de ler, Creuza?
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Ler é muito importante porque traz conhecimento. Eu li um livro em algum lugar do passado que me chamou muita atenção, não lembro o nome. Eu gosto de ler manchetes, das notícias dos jornais. Gosto de ler a revista Época.
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As histórias que você me contou dariam vários livros, como já deram de alguma forma. Você convive diretamente com uma linha entre morte e a vida. Não tem como fugir: você como enfermeira e seus pacientes, em casos mais graves ou não, refletem constantemente sobre a vida e a morte. Inclusive, esse é o grande tema dos livros, sabia? Mas o negócio é o seguinte, você se assusta com essa sua rotina de pessoas que fogem ou querem se entregar à morte?
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Não vou dizer que é fácil. Cada dia é uma experiência. Tudo que você faz na vida tem que ser por amor, senão você deixa a desejar. Então, lidar com essas pessoas, com os pacientes é algo que faço porque gosto. Por mais que elas pensem que a vida delas acabou, que não são mais importantes para o mundo, meu dever é incentivar e dizer que não. Nós temos é a esperança, porque a vida só Deus pode tirar. Qualquer um de nós, enfermeiros, médicos, qualquer um que cuide de um ser humano tem o dever de tentar salvar.
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Percebi os quartos do hospital não têm janelas e neles há televisões sempre ligadas! Os pacientes ficam deitados o tempo todo assistindo a televisão? Não pedem para ler um livro, uma revista?
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Alguns deles pedem para a gente ler em voz alta, quando têm gosto pela leitura. Tem gente também que não gosta de ler nem de televisão, tem pavor de televisão, aí ficam só no mundo deles... Mas, diante de tudo isso, o que eles mais precisam é de amor e carinho. As pessoas doentes ficam muito carentes.
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Se você fosse escrever uma história, que história seria?
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Olha só, a história é uma coisa muito linda, na história tem tudo, porque começa com você. É um avô do passado que às vezes você nem conheceu, aí você fala aquilo que seus pais te contaram do seu avô... eu acho lindo o amor. Eu acho que a história é o tudo, é a nossa vida, é o dia a dia, é o romance, é aquele amor que você teve no colégio, é aquele professor que você achava lindo, é aquela pessoa que você não pode ter ao seu lado. Eu acho que colocaria um pouquinho de cada no meu livro. Assim. Vamos supor, eu te conto algo que passou na minha vida, é uma história, mas tem algo que acontece na nossa vida que não tá na história do que aconteceu, tá em outra coisa, entende? Eu não sei explicar. Tem coisas também que você gostaria de apagar da mente. Eu não sei como eu poderia explicar essa palavra para você.
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Eu entendo Creuza, não precisa explicar mais. Agora, se fosse para você escolher uma história, um livro para ler, o que escolheria?
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Gostaria de ler a história da minha vida, mas gostaria de ler outras coisas, coisas importantes para ter mais conhecimento. Sobre a natureza eu queria ler também, coisas que aconteceram há milhões de anos atrás, no início do mundo, do tempo, é tanta coisa que eu queria ler! A gente se surpreende com tanta coisa que a gente descobre. Mas o mais importante da história, é que ela fica. A história fica, né?
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Acho que está bom, Creuza, vou deixar você descansar...
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Mas é para isso que serve uma história não é?
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Fui seguindo o corredor em meio àquelas respirações monitoradas.
O resto é silêncio.
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sábado, 25 de abril de 2009

Para Kafka, um novo poema de Rafel Castro

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O animal que tosse nas entranhas
Grita mudo o profundo ensinamento
Seja inseto, homem ou toupeira,
Todos sentem em si a centelha
Da fé que cura
O esquecimento
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Rafael Castro
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

ENTREVISTA COM RUY ESPINHEIRA FILHO

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A primeira vez em que encontrei a poesia de Ruy Espinheira Filho foi na feira de livros realizada no Rio de Janeiro, Poesia Reunida e Inéditos. Lá se vão quase dez anos daquele primeiro contato. O mais surpreendente dessa história é que fui conhecê-lo pessoalmente alguns anos depois, na mesma feira itinerante de livros, no dia em que o poeta receberia o prêmio na ABL, pelo primoroso Elegia de agosto e outros poemas (2005). Naquele dia passamos a manhã conversando sobre livros e a vida; mas, na verdade, a conversa já se iniciara bem antes e continua até hoje. Durante este tempo tenho tido a felicidade de compartilhar da amizade de um poeta simples e humano, sempre disposto a um diálogo igualitário, sem o distanciamento muitas vezes estabelecido entre escritores e leitores.
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Impossível ler seus poemas e não se sensibilizar diante dos questionamentos, pois são nossos também — compartilhamos das mesmas felicidades e agruras ao longo da vida. Assim, nada mais natural que ele fale de sentimentos humanos em linguagem humana, tal qual o fez Manuel Bandeira.
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Nesta conversa o poeta nos esclarece seus principais campos temáticos e nos convida a visitar sua fabulista memória.


LANZILLOTTI: Heléboro — seu primeiro livro, publicado em 1974 — já traz várias tendências de sua poesia, sobretudo a contenção expressiva e o lirismo elegíaco. A divisão do livro nas seções “Longe de Sirius” e “Música pretérita” revela o mal-estar existente em relação ao que é inatingível como experiência tátil, mas que se busca pela junção entre memória e recriação. O passado acaba tendo, dessa forma, um lugar privilegiado. Qual a relação entre sua poesia e a passagem do tempo?

ESPINHEIRA: Jorge Luis Borges dizia que todos os animais são eternos, menos o homem, porque este possui o conceito de tempo sucessivo — ou seja, tem consciência da passagem do tempo, com o qual leva a vida. A vida, sim; não apenas as coisas — como escreveu Ovídio. Em outras palavras: nos leva à morte. E esta é nossa angústia maior: a consciência da morte. Assim, como todo o mundo, desde cedo me senti participante desse drama. E, como escrevo com a vida, é claro que a consciência do tempo teria de estar presente. Quanto ao passado, é a única coisa que realmente possuímos — e que a fabulista memória vai tornando mais preciosa. Enfim, escrevo com o que há de mais forte em mim: o sentimento do efêmero e a memória. Que é o que somos todos nós: nossa memória; nosso passado. Encerrei o poema “As meninas”, de Julgado do vento, com este verso: “O passado não passa”.

LANZILLOTTI: O senhor lançou livros de crítica sobre Jorge de Lima, Mário de Andrade e Manuel Bandeira. Qual a influência da leitura desses e de outros poetas em sua poesia?

ESPINHEIRA: Influenciaram-me muito os três, pois eram mestres de poesia. No caso do Mário, sua influência foi mais crítica, ensinando-me, por exemplo, que a originalidade está em nós mesmos. Jorge de Lima e Bandeira foram mais mestres de poesia propriamente dita. Mas recebi e recebo a influência de muitos outros autores — como Camões, Drummond, Vinícius, Cecília, Sosígenes Costa, Carlos Pena filho e até Olavo Bilac, para só ficarmos nos escritores de Língua Portuguesa.

LANZILLOTTI: Ainda no que se refere à relação entre memória e passagem do tempo, o senhor, em “Insônia”, escreve “que lembrar é a minha natureza e às vezes/ um desespero”; já em outro poema, afirma que “mais pleno é o perdido, pois o resto/ ainda não se cumpriu”. A recordação de tudo que fora perdido é concomitantemente agonia e bálsamo?

ESPINHEIRA: Lembrar pode ser, mesmo, um desespero — sobretudo por não podermos assumir de forma total esse tempo contemplado, evocado, ou não suportar, como dizia Camões, a grande dor das coisas que passaram. E que, como já foi dito, porque passaram não passam nunca... Sim: a recordação é às vezes bálsamo, às vezes agonia. O outro verso que você citou ilustra o que falei há pouco sobre a memória e o passado: é claro que o que se foi é mais pleno, pois já está inteiramente realizado, cumprido; enquanto o presente e o que podemos chamar de futuro não chegaram a tal realização — ainda se encontram em processo ou apenas em estado de expectativa, anseio, sonho.

LANZILLOTTI: O poema “Elegia de agosto” fala da dor de Drummond diante da perda da filha. Manuel Bandeira publicou um poema homônimo. Coincidência ou não, sua obra poética, em alguns aspectos, evoca temas bandeirianos, partilhados também por outros poetas — quiçá, de toda a poesia. Até aí nada de novo... Enquanto Bandeira fala da vida que poderia ter sido, em sua obra perpassa, ao contrário, uma vida que foi e só volta a partir da recordação — seja esta real, seja fictícia. Qual o papel da recordação em sua poesia? Somente o que fora perdido é realmente nosso para sempre?

ESPINHEIRA: Esta é uma pergunta cheia de perguntas. Drummond viver mais alguns dias só para sofrer com a morte da filha única foi uma tragédia que me comoveu muito, daí o poema. Como o fato se deu em agosto, a elegia só poderia ser de agosto. O poema de Bandeira com título idêntico fala de coisa totalmente diversa e, a meu ver, sem valor poético: sua decepção diante da renúncia de Jânio Quadros. Creio que a segunda pergunta já está parcialmente respondida acima. Quanto a viver (ou reviver) pela recordação, direi que se trata de algo que acontece a todos os humanos. “Recordar é viver”, dizia o velho samba, repetindo um velhíssimo dito popular. Na verdade, todos os escritores, não apenas os poetas, escrevem muito mais com a memória do que com qualquer outro, digamos, encantamento.

LANZILLOTTI: A recordação da mulher amada, em alguns de seus poemas, trata ora de relações envoltas em dor, ora de perfis femininos que lembram semideusas. Outra vertente de sua poesia amorosa, entretanto, fala-nos de certa mulher tangível, humana, e vê o amor como o encontro entre os corpos. Essas duas vertentes caminham juntas no tema amoroso de sua poesia ou a tendência é uma suplantar a outra? É possível as almas se entenderem tão bem quanto os corpos?

ESPINHEIRA: Não me acho diferente dos outros no caso da poesia amorosa. O que acontece é que as mulheres são bruxas — como dizia Nikolai Gogol —, as quais tanto podem ser deusas, semideusas, quanto carne terrestre vibrante de sensualidade. Para mim, as mulheres são capazes de tudo, podem ser tudo, inclusive num só tempo. Sou grato a elas até pelos momentos de angústia, porque esses transes cruciantes também me enriqueceram. Quanto ao entendimento das almas, Manuel Bandeira achava que não era possível — e quem sou eu para discordar do mestre?

LANZILLOTTI: A infância em Jequié e Poções nos é passada como cercada de magia: lugar mítico onde a felicidade fora completa, sobretudo pela presença dos que hoje se encontram ausentes e pela liberdade das brincadeiras ao ar livre. Sobressai, entretanto, a impossibilidade de reviver aqueles momentos, instaurando-se, assim, a tristeza. A infância nessas cidades foi algo fundamental em sua vida, sobretudo como poeta? Qual sua relação com esse período da vida? O menino ainda existe no homem?

ESPINHEIRA: A infância foi em Poções; a adolescência, em Jequié. Houve magia, sim; e muita, nesses meus dois períodos de vida. Na verdade, houve magia em minha vida toda — e ainda há. Às vezes é uma magia cruel, mas magia; pois a vida não tem sentido, não tem lógica. Só a magia pode dar-lhe sentido — o sentido da magia. Nunca aceitei bem a separação que se faz entre sonho e realidade; sinto-me cada vez mais inclinado a concordar com Calderón de la Barca: “La vida es sueño”. Quem me prova que não é?

LANZILLOTTI: Alguns aspectos do pós-moderno estão incluídos em sua obra. Concorda com isso?

ESPINHEIRA: O que é mesmo o pós-moderno? Parece-me, mais do que qualquer coisa, uma dessas modas que de vez em quando assolam o mundo, especialmente as universidades. Moderno sempre foi, por definição, o que é atual, contemporâneo. Assim, se fôssemos pós-modernos, estaríamos vivendo depois da atualidade, adiante do nosso tempo. Fica fácil criar essas modas; é só mexer nas definições, nos conceitos, e inventar à vontade — como já inventaram até o fim da história... Se, como você diz, há aspectos pós-modernos em minha obra, gostaria muito de saber quais são — e certamente demonstrarei que são apenas coisas de meu tempo e minha vida, ambos anteriores a essa moda. De resto, como Octavio Paz, não gostaria de dizer aos meus descendentes que eles são pós-pós-pós...

LANZILLOTTI: Elegia de agosto foi premiado em 2006 pela Academia Brasileira de Letras, além de ter obtido o segundo lugar no Jabuti daquele ano. O que esses prêmios representam para sua poesia?

ESPINHEIRA: Creio que são um reconhecimento. Como não sou um poderoso na política da República das Letras, não passando de um nordestino que vive no Nordeste, devo concluir que a obra foi premiada unicamente por sua qualidade literária. Infelizmente, porém, tais premiações não ajudam em nada quanto à vendagem, o que é um fenômeno tipicamente brasileiro. Para piorar, estamos vivendo um tempo acrítico — quase não há crítica literária no país. Há resenhas, mas muitas vezes escritas por pessoas sem preparo para analisar e emitir opinião. E também há muita ação entre amigos — o que é ótimo para a promoção da mediocridade. Meu livro foi triplamente premiado — pois houve também uma Menção Especial da UBE-RJ — e só recebeu uma crítica: a de Miguel Sanches Neto, publicada na Gazeta do Povo, do Paraná, e no Jornal do Brasil. Aliás, Miguel foi também o autor das orelhas do livro. Como ele é um grande crítico — além de poeta, romancista, contista, ensaísta —, fiquei muito honrado com os dois textos. Considero-os, por partirem de escritor como ele, uma consagração.

LANZILLOTTI: Há pouca publicação de poesia no país. Quase sempre os novos escritores lançam seus livros por conta própria. Nada de novo até aí, já que muitos autores fizeram isso no passado, mas a poesia parece estar virando peça de museu. Isso se dá em decorrência da pouca publicação ou pela má qualidade da maioria do que é publicado?

ESPINHEIRA: Sim, alguns dos maiores começaram financiando os próprios livros — como Manuel Bandeira (dinheiro do pai, depois ajuda de amigos), Carlos Drummond de Andrade (descontando do salário) e Mário de Andrade (que pagou suas publicações até quase o fim da vida). Os problemas persistem hoje, pois poesia vende mal. Claro que há poetas que vendem bem — e não são necessariamente os melhores. Aliás, dos poetas que vendem bem, a maioria é de má qualidade. Acontece que o brasileiro não aprende a ler poesia; não sabe distinguir entre o bom e o ruim. Como geralmente o leitor não está preparado para a poesia maior, contenta-se com a menor. Contenta-se até com o que não chega a merecer o nome de poesia — não passando de um emaranhado de linhas irregulares, que esse leitor aceita como verso livre e que, na verdade, não é coisa nenhuma, oscilando entre conversinhas baratas de episódios domésticos, gracinhas, aventurazinhas sexuais e — em último caso — festivais escatológicos. Tudo isso em ritmo frouxo, sem nenhum artesanato, nenhuma técnica poética, nenhum talento. Em termos quantitativos, a má poesia — ou a não poesia — está vencendo. Para inverter esse resultado, seria necessário criar um público leitor mais exigente, o que nossa educação não vem fazendo. De modo geral, nossos leitores só conseguem ler — além de versos de segunda e terceira classes — manuais de autoajuda e best-sellers que repetem velhas fórmulas de sucesso popular. Enfim, os bons poetas dispõem de raros leitores — número insuficiente para comover as editoras... Não havendo uma mudança nessa triste realidade, sem dúvida a poesia — a que merece esse nome — vai mesmo acabar se transformando, neste país, em peça de museu.

LANZILLOTTI: A perda é uma constância em sua obra — diga-se de passagem, alguns de seus mais belos poemas tratam desse tema. Pessoas, sentimentos e espaços — tudo faz parte de um mesmo conjunto de ausências que é revisitado em sua poesia. Existe diferença entre viver e recordar?

ESPINHEIRA: Mais que em meus poemas, a perda é uma constância na vida de todos. Vamos vivendo e perdendo, o que é sempre uma experiência dolorosa. Mas o perdido, como já foi dito, não é o que se vai, o que desaparece; é o que permanece noutra dimensão. Faz pouco tempo, numa entrevista, disse que hoje convivo mais com mortos do que com vivos. Sim, tenho muitos mortos que sempre me visitam e comigo conversam. Não estou falando de espiritismo ou qualquer coisa de valor religioso; estou falando de memória, afeto e afinidades intelectuais e artísticas.

LANZILLOTTI: Bachelard escreveu, em A Poética do devaneio, que “Em sua primitividade psíquica, imaginação e memória aparecem em um complexo indissociável”; “[...] o passado rememorado não é simplesmente um passado da percepção. Já num devaneio, uma vez que nos lembramos, o passado é designado como valor de imagem”. Diante disso, podemos dizer que sua poesia, assim como a de outros poetas, tem raízes no pictórico? É possível diferençar recordação e imaginação?

ESPINHEIRA: Por que pictórico? Já na resposta à primeira pergunta, falei da fabulista memória, do que trata também gente como Bachelard, Proust e Borges. O que a memória não é mesmo é um retrato, pois sua natureza ficcionista está muito mais para recriação e até criação. Assim, a memória é uma contadora de histórias, muito mais um oceano em movimento do que uma pintura. Nunca achei que a memória me abastece com fatos — mas que, de maneira suave ou tempestuosa, amorável ou cruel, conta-me seus contos de Xerazade, em alguns dos quais sou o herói ou o vilão, ou apenas um pobre diabo que perdeu a oportunidade de ser feliz...

LANZILLOTTI: Em várias ocasiões sobressaem poemas em que o espaço fúnebre é utilizado como reflexão sobre a validade do estar vivo, já que todos caminham para o fim. Qual a relação entre a temática da morte e sua poesia?

ESPINHEIRA: Já disse que a morte é nossa angústia maior. Conscientes dela e não encontrando uma explicação para a vida, muito menos um sentido — tirante o sentido que damos a nós mesmos com nosso trabalho, nossos princípios, nossos sonhos etc. —, impossível evitar tais reflexões, questionamentos, perguntas dirigidas aos céus e aos abismos. Como sou poeta, é sobretudo na poesia que visito tais temas. Saio deles perplexo, sem certeza de nada; mas nunca disse, como Manuel Bandeira, que a vida não vale a pena e a dor de ser vivida. Aliás, o mesmo Bandeira escreveu que a vida é um milagre. E eu já falei das magias... E, se há magias, vale a pena, sim.

LANZILLOTTI: São muitos os casos de poetas que também são exímios prosadores; entretanto, uma parte de suas produções acaba suplantando a outra. Poucos sabem, mas Ruy Espinheira Filho é um profícuo escritor de prosa, com várias publicações. Há diferença entre ambas as escritas? Os temas de suas novelas e seus romances são os mesmos dos de seus poemas?

ESPINHEIRA: Escrevo prosa quando é prosa que me sopram as musas. Sou mais conhecido como poeta, mas a prosa está abrindo também seu lugar. Tenho até um prêmio nacional de romance — o Prêmio Rio de Literatura, pelo qual fiquei em segundo lugar (foram três premiados), em 1985, com Ângelo Sobral desce aos infernos. Recentemente, Um rio corre na Lua, que lancei em 2007, ficou entre os semifinalistas do Portugal Telecom. E meu último romance, De paixões e de vampiros: uma história do tempo da era, de 2008, foi considerado uma pequena obra-prima pelo crítico Wilson Martins, do Jornal do Brasil. O grande problema, neste país, é que o poeta não tem o direito de ser romancista — e vice-versa. É mesmo um complexo sul-americano, segundo Júlio Cortázar. Quer dizer: coisa de subdesenvolvido. O cidadão — e o crítico, o intelectual, até mesmo o escritor — vê um romance escrito por alguém que ele conhece como poeta e vai logo dizendo: “Um romance? Ora, mas ele é poeta...” E despreza o livro simplesmente porque é óbvio que o sujeito não pode fazer bem as duas coisas. Outra estupidez é comparar o romance do autor com sua própria poesia — em vez de compará-lo com outros romances, de outros autores, que é o que deve ser feito. Quanto às diferenças entre as escritas, há algumas, sim — sobretudo devido à mais longa duração de um romance e aos ritmos da prosa. Mas esta também vem das musas; é também misteriosa em sua origem. Quanto aos temas, creio que não há diferenças — são os do cotidiano...
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Luciano Lanzillotti (lmlanzillotti@gmail.com) é pesquisador de doutorado da UFRJ e autor de tese sobre as obras de Ruy Espinheira Filho e Manuel Bandeira. Publicou o poema Eu escrevi cartas de amor na edição #25 do jornal Plástico Bolha e agora vem nos agraciar com esta bela entrevista para Blog do Bolha, pelo qual somos muito gratos.
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terça-feira, 21 de abril de 2009

Lançamento do Retorno ao Oriente em BH!

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O Hussardo e a Suicída, por 'Os 7 Velhos'...

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Um cadáver esquisito bebe vinho
Espiando uma mulher que se mata.
Mas não é que ela me vê?
Pronto! Agora, que devo fazer? Comprá-la?
Pois tudo que há passa pelo consumo
De todas as coisas sugo o sumo
Ou apareço e fundo a cena vazia
Onde ruminam os caracóis na entrada
(Um hussardo mirava o homem no chão)
Eu desisto de continuar. Não, prefiro cessar.
Correntes estéticas afastem-se de mim!
Nem o sim, nem o ar, nem o brilho de mil sóis.
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Lucas Viriato
Mauro Rebello
Paulo Gravina
Raïssa Degoes
Luiz Coelho
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Este é um sincero poema de buteco, escrito a 14 mãos num guardanapo barato. A brincadeira é no estilo dos jogos surrealistas de escrita em que cada um escreve um verso e dobra o papel passando adiante para o próximo. Assim, escreve-se sem conhecer os versos anteriores. No final, procuramos a melhor forma de assinar esse poema: Os 7 Velhos, em homenagem aos nossos amigos 7 Novos...
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sexta-feira, 17 de abril de 2009

Novo ponto de distribuição PB em Curitiba

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O Plástico Bolha acaba de fechar parceria com mais um ponto de distribuição em Curitiba, PR. O proprietário da livraria Arte & Letras, Thiago Tizzot, se interessou pela publicação e entrou em contato conosco para passar a receber o jornal por correio e redistribuir aos seus clientes.
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Thiago também indica a Arte e Letra: Estórias, revista impressa que edita. Quem quiser pode conhecer um pouco mais no site: www.arteeletra.com.br/estorias
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ARTE & LETRA
Al. Pres. Taunay, 40 - dentro do Lucca Café. Tel: 3039-6895
Curitiba - PR - Brasil
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quinta-feira, 16 de abril de 2009

CLIQUE AQUI: Mergulho no mundo clássico!

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Uma biblioteca digital de acesso irrestrito, que pretende registrar a história da humanidade, com foco no mundo greco-romano, dedicando-se, ainda, a diversos outros temas. O conteúdo do site é em inglês. Um mergulho no mundo clássico, por meio da mais moderna das ferramentas!
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para ver um homem tocando um oboé

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primeiro procure uma janela atravessada por raios de sol.
aproxime-se e encoste uma das mãos sobre o vidro
(não importa qual, o importante é escolher uma das mãos)
aproxime também teu rosto, de modo que tua respiração
possa embaçar o vidro, se quiser
agora aperte bem os olhos, como se estivessem ofuscados
pela luz
não feche os olhos
pense em Elena. Elena.
espere alguns instantes

lá está ele.
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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Pus — novo poema de Felipe Ribeiro

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secretar flores arbitrárias
assim como as aranhas injetam teias,
líquido espesso amarelento,
bolha cutânea cheia de areia.
homem ambíguo,
ferida biforme,
corpúsculos de tecidos podres
e o amor que existe
da minha veia para a tua veia
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Felipe Ribeiro
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Análise: Sem sangue, de Alessandro Baricco

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Desde Dante, a literatura italiana tem se notabilizado por contribuir para com a tradição ocidental com grandes artesãos da língua, fazendo de textos lugares pulsantes da imaginação. Alessandro Baricco, nosso contemporâneo, não foge à regra. Autor muito conhecido no Brasil por Seda, romance de época, a meu ver deveras insosso, pode ser muito apreciado por Sem sangue — um thriller.

Novela que deixa o leitor sem tempo pra respirar, com uma narrativa muito próxima ao cinema, composta por muitos acesos e inquietantes diálogos que tangem o pulsante olho do ciclone da interioridade humana, sem grandes devaneios psicologizantes, somente a partir dos extratos que os personagens ofertam em seu contato, nada inorgânico.

“— o senhor não é cego — disse.
— o que disse?
— o senhor não é cego, não é mesmo?
O homem começou a rir.
— não, não sou.
— é curioso...
Por que eu deveria ser cego?
— bem, os vendedores de bilhetes de loteria sempre são cegos.
— é mesmo?
— talvez nem sempre, mas muitas vezes... acho que as pessoas gostam que eles sejam cegos.
— em que sentido?
— não sei, imagino que tenha a ver com aquela história de que a sorte é cega.
A mulher falou e depois começou a rir. Tinha uma bela risada, fresca.”
(pgs. 44 e 45)

Baricco tange a conturbada atmosfera da interioridade humana afetada pela guerra em interessantes recursos de evocação de memória, ao contrário de um lugar comum que nos fez acostumar com autores que se aplicam em pinçar nos olhos do leitor uma ou outra lágrima. O leitor já enfadado com a enxurrada de romances sobre o assunto, sobretudo em função de nosso último século, encontra uma grata surpresa, que põe em questão a estrutura íntima do trauma, sem muitas elucubrações filosóficas, mas com uma narrativa fluida, intensa e que surpreende por não adotar soluções fáceis ao que se impõe. Vale a pena se demorar, no máximo uma hora (pois a leitura não passa disso), com uma novela que prima pelo virtuosismo de um escritor que “não inventa”, mas põe em xeque o mais do mesmo da produção contemporânea.
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Cozinhando em banho-maria

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Vamos sonegar inspiração
Pois. Que todos mastiguem;
Por que não mudar de mesa?

Banquetes de gente a devorar
Complôs que não foram comprados
Permanecem genuinamente ingênuos.

O sabor original raramente provado
De tão simples e efêmero
Bate na alma como um punhal
E nos revira ao avesso.
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Bruna Piantino
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LEITURAS ESPARSAS: com Décio Nazareth

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São João Del Rei, Minas Gerais, 10 de abril de 2009, Sexta-feira da Paixão. O céu estava estrelado, a lua cheia, e um ar com cheiro de velas se espalhava na cidade. O chão fora coberto de tapetes com imagens sacras. As casas geminadas tinham suas portas abertas, as senhoras, crianças, maridos, esposas, turistas e quem mais podia se escoravam nas janelas num ritual típico. Eu me encontrava em uma dessas casas após a tradicional procissão, em que mulheres da alta sociedade local, todo ano é assim, estavam recebendo familiares e amigos ilustres. Claro que eu não era nem