quarta-feira, 3 de maio de 2017

Monique de corpo e poesia




Quem a vê assim andando, nunca diria “é poeta! ”. Mal sabem que ali eles não estão vendo mulher, nem roupa nem nada. Senão corpo e poesia. Se de alma é munido o homem, então Monique por dentro o corpo tem poesia a correr pelas veias, a tencionar os músculos, a expirar para fora dos pulmões.

Ela peregrina de sarau em sarau. Sua “obra” não está imortalizada em folhas de papeis com belas capas. Sim! Aquelas a envolver como mortalha todo escritor que se deu por conhecido ou famoso – sentença de morte! Já como a Noite, se despe em cada verso, chegando ao cabo de si mesma; sem roupa, sem rosto, sem carne... só um punhado de versos ereto no palco e microfone na mão.

Ela não fala dos amores, do belo, de outrora.... Pelas suas palavras gritam todos os órgãos, todas as mulheres, todas as crianças. E mais mulheres e mais crianças do que se pode contar. Na sua boca quem está gritando é o povo, é a vontade de mudar, é a inquietude, a insônia. Ela não é clássica, ela tem classe: a classe do povo que quer falar e não consegue. Ela desatou as amarras do dodecassílabo, do jâmbico e do soneto. Morte aos clássicos! Não precisa deles. Ela tem tudo o que precisa na inconformidade, outro nome para a sua escola. 

“Que ninguém lhe dê piedosas intenções, ninguém lhe peça definições...” (Cântico Negro - José Régio) Monique tem esse cântico negro engasgado na garganta. Não, ela não vai por aí...

Nesse espetáculo da vida, ela atua do momento em que desperta até a hora que vai dormir, seu palco começou no útero e terminará na cova. Se um dia fores ver Monique declamando, não é uma mulher com o microfone, é Deus falando defronte.

Há aquelas que escolhem seguir parâmetros, Monique jamais os segue. E nesse grande teatro, umas escolhem deixar o palco e sair para a morte, Monique escolheu abaixar a cortina e sair para a vida.

Iuri Mello

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Rainha de Maio


Sou todas as manhãs do mundo
A mãe, suas lágrimas, sorrisos e amores
Sou terra fértil, sou alma livre
Caminhando no jardim das delícias
Nadando em rio limpo
Sou mulher
Espelho e poesia do mundo
Heroína de mim mesma.


Ilma Pessoa

domingo, 23 de abril de 2017

A SÓS – POEMA EMBOLADO


SE FOR
Amor tem que ser a dois
DUETO
em solo
VIBRANTE
e inteiro
CANTO
lírico e trovão
PRIMAVERA

outonal

Ilma Pessoa

sábado, 22 de abril de 2017

Desafio: sem letra u


Cadeira com encosto

avezei-me em viver
com essa dor latente
que va-ga-ro-sa-men-te
me declina.

Araújo

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Desatino


Sinto o bom dia leve da Brisa
Que diz que de mim faz cobiça 
Me tomas de leve atino
Penso em você. Desatino.

Deságuo no mar das tuas curvas
Da mesma primeira e ultima
Me aqueço com o calor dos teus poros
E inevitavelmente não para de olhar-te nos olhos.

Os olhos que já me prenderam
E as lagrimas que deles desceram
Disseram que de alegria saltaram
E pro doce amor me levaram

Atiro-me sem medo, como quem se joga no mar
Atiro-me em ti, como quem não quer mais voltar
Atiro-me sem paraquedas
Atiro-me para quedas.


Jamile Cazumbá

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Desmaterializar-se


(Som do vento)
sopro do mundo
os orvalhos caem levemente das folhas,
Caem lentamente das suas pálpebras
(Som de pingo d’agua)
pinga nas terras firmes
onde semeei.

Se enraíza
se alimenta dos teus próprios adubos
mas cresce,
cria galhos
e folhas
e flores
e frutos.
E se desmaterializa.

Te sinto, mas não te palpo,
não cabes em minhas mãos.

És a fresca que surpreende e refresca no meio do dia.

o pássaro que me visita nas manhãs
Me canta, me encanta
te alimentas
e voa. 

Me apaixono todos os dias, quando tu se vai.

Jamile Cazumbá

sexta-feira, 24 de março de 2017

Lançamento de Nepal Legal e Índia Derradeira


É na próxima segunda-feira o lançamento dos livros Nepal Legal e Índia Derradeira, de Lucas Viriato, editor do Plástico Bolha. Venham conferir essa aventura pelo Oriente em 2 livros de 108 fragmentos poéticos cada!

Dia: 27/03/2017
Horário: 17:00 a 01:00
Endereço: Ettore Cucina Italiana — Avenida Armando Lombardi, 800, Lojas C/D/E — Condado dos Cascais, Barra da Tijuca — Rj


segunda-feira, 20 de março de 2017

domingo, 12 de março de 2017

desejo


eu mato o desejo
ou ele me mata?
me maltrata
me arrebata
me desgraça
me arregaça
e embaraça
meu cabelo e o meu ser

eu sinto o desejo
ou ele me sente?
que de frente
de repente
vem, me rende
me apreende
e a cabeça
se arrepende
ao notar o que pensou

mas se foge
já me fode
porque volta
com mais força
e me força
me destroça
e me deixa abandonada

largada
envergonhada
mas talvez não saciada
e talvez
sem solidez
perco minha lucidez

e corro
e morro
e vivo
e revivo
e volto
e me revolto
pelo desejo no meu ser

mas se afasto
e te afasto
junto a isso te puxo
e sussurro
e me assusto
com o que fui capaz

e me perco
e me acho
junto a um emaranhado
de prazer
e embaraço
com as roupas
no chão

e os dedos
me penetram
como o pensamento
e são você lá dentro
e me fazem gemer
e eu grito de prazer

e depois que tudo acaba
e me resta pura culpa
no desejo que sepulta
a minha moralidade
sobra apenas a verdade:

me culpar por te desejar
não me faz desejar menos

Yasmin Barros

sexta-feira, 10 de março de 2017

intelectuaisativistashipócritas ?


Bem alimentados, esperamos
que cedam
que cheguem
que relevem
que nos vejam
e lutem
por eles, por nós.
E "bem alimentados" continuamos.

Camila Araújo

segunda-feira, 6 de março de 2017

Poesia Agora na Caixa Cultural de Salvador


O Plástico Bolha, com grande alegria, apresenta aos seus leitores a exposição Poesia Agora, que se prepara para a sua segunda exibição em menos de dois anos. É para nós razão de muito orgulho ver os resultados alcançados pelos nossos 11 anos de pesquisa poética apresentado em tão grande estilo para o público. Quem assina o projeto tipográfico é o cenógrafo André Cortez.

Poesia Agora, juntando mais de 300 poetas da atualidade em uma exposição interativa onde a democratização da poesia e da escrita estão em primeiro plano.

Agora, depois do triste incêndio no Museu da Língua Portuguesa, e nos tempos difíceis que vivemos, é com muita felicidade que a Bahia nos deu o chamado e a oportunidade para voltar com a exposição em grande estilo na Caixa Cultural de Salvador.

A abertura será no dia 14, terça-feira, às 19h, com um sarau juntando diversos poetas da cena local e alguns que vão especialmente para a ocasião. A exposição ficará aberta ao público até 28 de maio.

Convidamos a todos para estar presente nesse momento tão importante para a tribo dos poetas!


Textura: pequena feira de impressão e literatura


Alô, internautas mineiros! A feira Textura: pequena feira de impressões e literatura apresenta sua proposta para promoção da literatura e das artes impressas em papel e em outros suportes. O evento, pensado pela Impressões de Minas Editora e pelo Agosto Butiquim, mescla publicações independentes a outros objetos que tragam atrelados a si a literatura em seus diferentes suportes. O objetivo é abrir espaço para que editores, artistas e designers locais mostrem seu trabalho, contribuindo para a aproximação das linguagens literárias e das editoras independentes à gastronomia, às artes plásticas e a outros modos de colocar o texto em prática.


domingo, 5 de março de 2017

Poema 22 de Rodrigo Brito


Desliguei todas as vozes
apaguei todas as luzes
A escuridão é a outra parte de mim

O silêncio
fumará as dores


Rodrigo Brito

quinta-feira, 2 de março de 2017

Oficina de Poesia no Parque Laje por Domingos Guimaraens e Pedro Rocha


Oficina de poesia no Parque Lage ministrada por Domingos Guimaraens e o poeta Pedro Rocha.
Informações na filipeta eletrônica abaixo e no link http://eavparquelage.rj.gov.br/poema-potencia/

Há vários tipos de bolsa, desde as destinadas a estudantes de letras às destinadas a alunos da PUC-Rio, escolas e universidades públicas. Confira o regulamento de bolsas neste outro endereço: http://eavparquelage.rj.gov.br/inscricoes/bolsas/ 

 As inscrições estão abertas.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Soneto


As estrelas que lhe emprestam o brilho
Não suportam mais sua usura.
Que credora intransigente e dura
Resiste a rogo por pai e filho?

E cobra juros de mora e multa
Dos pobres astros, já melancólicos.
Um apetite nada católico,
Que a todas galáxias oculta.

Será a bancarrota celeste?
Devedora, a Lua também,
Recorre ao Sol por algum vintém;
E ele já se esconde no leste.

Tudo isso por uma riqueza
Que tem infinda por natureza.

Leonardo Afonso

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Poema 1 de Rodrigo Brito


Sonhei que escrevia um poema
e nos versos desenhava o arrebol
dentro de mim cresciam castelos
dentro de mim nasciam árvores
na ponta do meu corpo brotavam confusões
ao norte eram apenas os segredos
de uma noite ilusória.

Imaginei Macário a declamar os meus delírios
em cada descompasso que minhas lágrimas
ofereciam ao Anjo de Sodoma

Desenharei algum dia a cena que me alucina
e será a grande obra do acaso.

Os sonhos não receberão aplausos
não receberão um beijo
não receberão um abraço

Rodrigo Brito

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Deriva


Desde que fugi para dentro de mim,
Pouco se me dá que o mundo exploda.
Política, esporte, guerra - que se foda:
Levar o circo a sério não estou afim.
Misantropia é meu refúgio enfim,
E com o cinismo ela celebra boda.

Por que dar ouvidos à cacofonia?
Tantas bizantinas e estéreis polêmicas;
Mediocridade e estupidez endêmicas.
Busco, no silêncio, uma sinfonia;
Na solidão, férias da humana agonia:
Desejos frustrados, afeições anêmicas.

Se é verdade que ninguém é uma ilha,
Sou tal como uma Península Ibérica.
Um terremoto que fende a América,
Faz a Califórnia seguir sua trilha.
Um lobo que se separa da matilha
E se entrega todo a sua sina tétrica.

Leonardo Afonso

domingo, 29 de janeiro de 2017

Lapa


Pintaram de branco os arcos
a fome o mijo e o medo continuam sem cor

Geovani Martins

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Voz à vossa: segunda edição




Sexta-feira 27/01, às 21 hrs.
Estúdio Hanoi (R. Paulo Barreto,16. Botafogo)
INTEIRA: 30,00
LISTA AMIGA: 15,00 (confirmar na página do evento https://www.facebook.com/events/1645995032360863/)

#poesia #música #gastronomia #performance #arte #cultura
#PalcoLivre

MÚSICA
Fred Nascimento
Clara Rosa
Jonas Póvoa

POESIA
Yassu Noguchi
Juliana Hollanda D'Avila
Tavinho Paes
Victor Colonna
Laís Ziegler

PERFORMANCE
João Maia Peixoto

PINTURA
Priscilla Faro

PROJEÇÕES
Jodele Larcher

E PALCO LIVRE!!!!

** Apresentação: Marcela Sperandio
Curadoria: Cecilia Spyer e Marcela Sperandio

domingo, 22 de janeiro de 2017

Poema de Leonardo Afonso


Não há modo de escapar
Não nasci para poeta
Por que diabo tentar
Combinar alfa com beta

Larga essa imagem em paz
Que é banal ou absurda
Rimas pobres, triviais
A Musa se faz de surda

Não se meta a declarar
Entortando a linha reta
Outro amor sem nenhum par
Passando ao largo da meta

Não se ponha a elucubrar
Com sua pouca metafísica
Língua rude e vulgar
Abandona a pena tísica

Deixa o ofício a quem sabe
As Letras são arredias
Aceita a mediocridade
Ocupa melhor teus dias

Leonardo Afonso

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Camiseta Plástico Bolha - Buffalo / Búfalo




Quer vestir um poema de Ricardo Sternberg, com tradução de Paulo Henriques Britto e ilustração por Pedro Zylbersztajn?

Camiseta Buffalo - http://piratasart.com/produto/buffalo/
R$37.00 (preço promocional de lançamento)
Ilustração de Pedro Zylbersztajn
Poema de Ricardo Sternberg
Tradução de Paulo Henriques Britto

Conheça a camiseta Buffalo, a primeira da linha de itens dedicados à poesia e de conteúdo exclusivo do Plástico Bolha em parceria com a Piratas.art!!! Comprando a camiseta você contribui para o financiamento do Jornal Plástico Bolha.

Piratas é um ateliê especializado em moda alternativa e estampas personalizadas. Localizado no Rio de Janeiro, foi criado para oferecer roupas que se diferenciam dos padrões estabelecidos pelas grandes organizações que ditam a moda mundial. Arte e cultura alternativa, retrô, psicodelia, graffiti, surrealismo, natureza e Plástico Bolha – de tudo você encontra lá.

Cor: Cinza (outras opções de cor sob encomenda)
Malha em poliéster

Medidas:
P – 66cm (comp) x 49,5cm (larg)
M – 69cm (comp) x 52,5cm (larg)
G – 72cm (comp) x 55,5cm (larg)
GG – 74,5cm (comp) x 59,5 (larg)



terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Mal estar


Esse mal estar
Sempre mal estando em qualquer lugar

Essa vontade de amar
Até que o outro corpo sugue o meu

Enquanto o arco íris não me deixar adentrá-lo
Há de ser eu o próprio mal estar

Esse mal estar
Em todos os lugares

Essa vontade de se transformar em um elemento que não tenha
(sangue nem brilho

Esse mal estar
Por ser rejeitado a todo instante

Esse mal estar
Por querer ser
E não ser

Sempre esse mal estando aqui ou ali
Ou em outras paragens

Esse mal estar
De estar dentro de um corpo
De uma mente estragada

Essa vontade de deixar na estação para a eternidade
Todos os que querem partir de imediato

Aí sim deslocar o mal estar para os outros
Os outros que se danem com suas malas e suas ansiedades
De verem outros locais ainda não vistos

Já não desejo esse mal estar
Que não se dilui em gases
E se fecha em todo o ser

Fernando Barros

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Para mudar o mundo


Antes de qualquer coisa é preciso estar nele
E mais do que isso, sentir-se parte dele
Feito isso, você pode plantar uma árvore
Ajudar uma velhinha atravessar a rua
Pode matar o governador da sua cidade
Ou amarrar bombas na cintura e derrubar algum templo capitalista
Pode fazer um filme uma música um poema
Pode pixar o Cristo Redentor
Fumar cigarros falsificados
Levar sua esposa a uma casa de swing
Pode adotar uma criança
Abortar uma criança Educar uma criança Tudo reverbera por aí...
A verdade é que são tantos mundos dentro do mundo Que ele muda nós mudamos e quase ninguém vê
Essa versão romântica de "mudar o mundo" é coisa da nossa cabeça para deixá-lo do jeito que imaginamos
Mas para isso precisaríamos ser deus ou uma explosão.

Geovani Martins

Lançamento do Livro "Poemas em Linha Reta", de Monique Nix




A Editora Texto Território lança o livro Poemas em Linha Reta de Monique Nix.

Poemas em Linha Reta, de Monique Nix, é um livro de 50 poemas, 53 atos — ou livro de um poema só. O prefácio é assinado pela escritora e jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho.

Brindemos esse momento tão especial! Aguardamos todos na Livraria Arlequim, no Paço Imperial dia, 22/12, a partir das 17:00.

Data: Quinta-feira, dia 22/12/2016, às 17:00.
Endereço: Praça XV de Novembro, 48, Centro Paço Imperial — loja 1 - Rio de Janeiro – RJ
Tels.: (21) 2220-8471
musica@arlequim.com.br

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Seis e meia


Greve de lírios
vi no seu olhar

saíram todos

no céu
nuvens pasmas
foram incendiar.

Carla Andrade

sábado, 10 de dezembro de 2016

Lançamento do novo livro de Catarina Lins



“depois você
quando diz que toda vez que apaga a luz do quarto
nalgum lugar do mundo
uma garagem
se abre”
__________________________________

O Plástico Bolha e o coletivo garupa convidam a todos para
o lançamento de “parvo orifício”
de catarina lins

com leituras de Ana Salek, Chacal, Italo Diblasi, Julia Klien, Liv Lagerblad, Maria Isabel Iorio, Omar Salomão, Thiago Gallego, Victor Squella e mais [!!!];
participação de Domus Dada.

& música, bebida e boas conversas
 entrada gratuita

Vila do Largo - RJ
Rua Gago Coutinho, nº 04, 22221070 Rio de Janeiro

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

cogitare


pensa, pensa
pensa no que não pensou
pensa, pense
pensa no que já pensou

pensa, pensa
enquanto não for
‘crimepensar’
ou ser pensador

Mateus Sanches

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Lançamento de Menina do Cerrado, de Sueli Rios




Convidamos todos os leitores para o lançamento do livro "Menina do Cerrado", da amiga Sueli Rios.
O romance foi parte de sua pesquisa de mestrado.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

PB no Festival Cria da Rua


Nesta quinta e sexta-feira, dias 8 e 9 de dezembro, na Arena Carioca Dicró, na Penha, acontecerá o Festival Cria da Rua, idealizado e produzido pelos alunos do 3º ano de Eventos da Escola Técnica Estadual Adolpho Bloch. O PB estará por lá no dia 9, às 13h, para um bate-papo sobre poesia marginal contemporânea.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Canção a Shiva


Quero engolir suas nuvens
E vomitar uma tempestade
Quero mastigar seus palácios
E cuspir saraivadas de tijolos
Quero beber todos seus rios
E inundar o mundo em urina.

Pôr abaixo castelos e templos.
Aos sete mares, aos quatro ventos
Anunciar belos e novos tempos.

Quero cheirar suas areias
E espirrar redemoinhos
Quero escutar suas selvas
E berrar uma ária triste
Quero mudar
Tudo que existe.

Leonardo Afonso

Lançamento de "Ubaldo", de Juva Batella, sobre seu tio João Ubaldo Ribeiro




Convidamos todos os leitores para o lançamento do livro de Juva Batella sobre seu tio, o escritor João Ubaldo Ribeiro. O livro é um diálogo obsessivo entre dois sujeitos (no bar de uma livraria) sobre Ubaldo: sua infância em Sergipe, sua juventude em Salvador, sua maturidade como escritor, seu alcance internacional, sua vida particular, suas questões filosóficas, suas opiniões polêmicas - e ainda as cartas e os e-mails engraçados (e às vezes mal-humorados) que Ubaldo escreveu pra mim (de 1998 a 2014).

O livro está lindamente ilustrado pela filha do João, Chica Batella, e os desenhos estarão expostos para venda na noite do lançamento. Vale um pulo no site da Chica.

Dia: 5 de dezembro (segunda-feira)
Onde: Livraria Argumento (como sempre...)
Endereço: Rua Dias Ferreira, 417, Leblon
Hora: 19:00 (noite de festa, encontros & copos)

Lançamentos 7Letras HOJE, 05/12/2016, às 18:30




7Letras e Luna Parque Edições fazem a festa em uma das livrarias mais poéticas do Rio de Janeiro, com os lançamentos de:

[Luna Parque]
• "Revista Grampo Canoa #3"
com a presença dos autores Leonardo Villa Forte, Estela Rosa, Beatriz Berredo, Rodolfo Caesar e Alberto Pucheu
• "20 sucessos", de Bruno Brum & Fabiano Calixto
• "Caderno americano", de Fabrício Corsaletti & Alberto Martins
• "Cigarros na cama" (2a ed.), de Ricardo Domeneck
• "Risco no disco" (2a ed.), de Ledusha

+

[7Letras]
• "Patchwork", de Janice Caiafa
• "Máquina de fazer mar", de Augusto de Guimaraens Cavalcanti
• "Manual para melodrama", de Ricardo Domeneck
• "Epifanias", de A. F. Ramos
• "Além do visível" (2a ed.), de Karl Erik Schøllhammer

Contamos com a presença de todos os amigos e leitores para mais uma noite especial na livraria da 7Letras

segunda-feira, dia 5 de dezembro de 2016
a partir das 18h30

Galeria Vitrine de Ipanema
Rua Visconde de Pirajá 580, loja 320
tel. (21) 2540-0076

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Plástico Bolha em Brasília contra a PEC


O Plástico Bolha e sua equipe estão neste momento em Brasília junto aos mais de 10.000 estudantes para participar do ato nacional contra a PEC 55/2016. O Jornal Plástico Bolha sempre se posicionou contra o golpe, contra o governo Temer, e a favor da democracia. Não assistiremos parados ao retrocesso. Nem um direito a menos!


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Poema de Geovani Martins


Aquele bandido
que com a língua
você matou e achou bom
era eu
possível poeta do Brasil
futuro não há
não adianta chorar a mãe
não há
futuro não há
se tivesse chegado  a poeta ser
diria
com corpo voz e olhar de poeta:
é foda ser o adubo
que se joga pra poder nascer a paz!

Geovani Martins

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Barra grande


Levei um ano para ver estrelas de novo.
Olhei muito para cima nesse intervalo,
mas elas se escondiam entre prédios com sobrenomes.

Tinha que voltar...
colecionar  as conchas que o mar
não nos trouxe,
como uma antologia
de tudo
que não se pode repetir.

Carla Andrade

Fragmentos


Sou um caracol lunático
A espera desse sol que queima
Sou a vítima
Ou a bala que mata deixando no ar a pólvora

Meu quarto meu refúgio
Lugar em que me distancio de um cotidiano enjoado
E há gente enjoada me procurando
              
Sou um caracol que se esconde
Desse caminhar desenfreado de homens que procuram queimar
A energia
Sou eu a energia a povoar as quatro paredes que me prendem

Sozinho estou feito um caracol que anda sonâmbulo
Numa folha de verdura molhada de água de chuva
Sozinho
A sós
Sem compreensão e sem sorriso
Sempre na espreita do que pode acontecer...

Faço das coisas brinquedos
Meu membro ereto é um brinquedo que dilata
Dilata porque o sangue corre nas veias
Esse sangue de excitação e orgia

Desfaço em lágrimas
Meu corpo magro vai minando água urina e secreções
Daí a pouco serei uma poça indesejada

Como é difícil olhar para cima e não sentir vertigens
Como é difícil matar alguém e não deixar vestígios

Não carrego velas nem mastros
Afogarei num mar de descrenças e aceitações obrigadas

Quem me dera engolir-me
Evacuar-me
Evacuado não mais seria eu um caracol sonâmbulo a andar
Em meio a um jardim que desconheço

Evacuar-me perante os outros
Evacuar-me perante o que é sombrio
Evacuar-me diante de quem me deseja

Não ser desejado
Mas ser dissimulado
Feito um caracol lunático que caminha ás tontas numa folha
De alguma verdura

Lívia que me deixou no início da primavera
E sem falar em outras tantas que me largaram em cada estação
Sou o caracol lunático dessas mulheres que me apertaram
Com tanta fome e destruição

Sou e pronto
Um caracol que arrasta calmamente sua carcaça
Numa folha de vegetação molhada pelas gotas de chuva

Fernando Barros

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sarau Rio Literário - Botafogo - Sábado, dia 26/11, de 13:00 a 16:00



Seguindo a tradição de apresentações e performances poéticas dentro da Campanha Paixão de Ler, promovida pela Secretaria Municipal de Cultura, o Sarau Rio: Cidade Literária reunirá um eclético grupo de poetas e vozes da geração contemporânea, dentre os quais representantes de diversos saraus cariocas, para apresentações de obras autorais e de terceiros, compartilhando o desejo e o prazer da poesia com o público e revisitando o Rio de Janeiro através da literatura.

Literatura, rimas, música, performance, distribuição de poesia, microfone aberto: variados artistas exibindo o que fazem de melhor para o público e entre si, promovendo o encontro em um ambiente lúdico e artístico. Poesia, Liberdade e Diversidade.

Evento Gratuito.
Sarau Rio Literário - Botafogo.
Biblioteca Popular de Botafogo Machado de Assis - Rua Farani, 53 - Botafogo, Rio de Janeiro.
Data e horário: dia 19 de novembro de 2016, de 13:00 a 16:00.

Evento no Facebook: 
https://www.facebook.com/events/221288104961082/222320854857807/?notif_t=like&notif_id=1479146844628329

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sábado, 12 de novembro de 2016

Úmido tríptico, de Natalie Lima — Primeiro Lugar de Prosa do VIII PPBPP


Rosario
Vai e fica. A parte dela que andou pela Paraguay, pela San Luis e pela Mitre, que comeu papas españolas encharcadas de manteiga – isso desaparecerá aqui. Quanto às ilhas, permanecerá nelas, o rio cor de doce de leite, e ainda assim bonito, islas flotantes. Não são grandes coisas, mas coisas interessantíssimas.

No barco, sente o tapete de água sob o corpo – nunca sem sapatos, pois sua pele é a superfície que aos mosquitos encanta chupar. Quer salvar ao menos os pés do alcance desses vampiros pequeninos e bárbaros. Capazes de picar, diversas vezes, sua panturrilha esquerda por cima da calça de linho, deixam finos rastros de sangue entre o tecido e a pele.

Indiferente a tudo isso, o barco bate contra a água, teimando, dizendo que sim, que segue em frente apesar de. Ao passar por algumas das ilhas, diminui a velocidade para que os outros passageiros possam mergulhar. Ela não. Seu corpo não quer imersões, vai ver que é medo de afundar e não ter o que levar de si para o Brasil. Só deixou que a tocassem o vento, o sol, a superfície da água e a barqueira, que a ajudou a entrar e sair da lancha para turistas. Os mosquitos não contam porque o que fizeram não foi tocar, mas furar e beber. Porém, graças a eles a mulher fica um pouco mais na Argentina, seu sangue na barriga de insetos rosarinos, bichos que moram e dormem e procriam em ilhas flutuantes. O tapete de água, eles não o temem. Ela também não. Sentiu-o sob os tênis que usava, que sentiram a madeira do barquinho, que sentiu a água amuralhada e mole na horizontal, que sentiu, sob a superfície, as correntes e os peixes, que sentiram a profundidade e o fundo arenoso, que sentiram, junto com os peixes que só nadam no fundo, algo ainda mais fundo. Não se sabe o que é, mas isso, o fundo do fundo, respondeu aos peixes, à areia e à profundidade, que responderam aos outros peixes, que responderam às correntes, que responderam à superfície, que respondeu ao casco da lancha, ou do barquinho, chame-o como quiser, o barquinho tão pequeno e frágil de tanto transportar turistas, ele respondeu às solas de borracha, que fizeram de escuta um par de pés.

  
44, rue de l’Amiral Hamelin
O maior clichê sobre Proust é seu leito de morte, sua foto de morto no leito de morte, naquele quarto em que ele deveria sufocar e, ao que parece, escrever durante a noite. Mas e se ela: uma mulher encharcada com água gelada do Sena e que de cabelos molhados quase se pareça com um rapaz; e se ela entrar no quarto, sem explicação alguma, e depois estender uma mão a Proust, e ele aceitar essa oferta, e a janela do quarto se abrir e começar a aumentar de tamanho, e o dia estiver agradável, e houver um jardim lá fora, e a janela se abrir mais e mais e mais, a ponto de se tornar um buraco na parede do quarto que dá para o jardim do edifício de Proust, e ele e a mulher encharcada que se parece com um rapaz caminharem por esse jardim, e apanharem sol, e toparem com aquelas bandeiras tibetanas coloridas que, quando tocadas pelo vento úmido, espalham seus mantras e seus fluidos, e Proust respirar fundo, com pulmões infiltrados, tentando ler o que está escrito nas bandeiras, e ver ali borrado com água do rio o seu próprio texto?

  
Caetité
Ela nunca foi a Caetité, não sabe quais horizontes se consegue avistar por lá. Ainda assim é preciso, o sertão. Ir até. Não por sua lonjura – mesmo da própria Bahia Caetité se afasta –, quando sim por sua aridez inexata. É dessa maneira que a terra quase vira areia, navalha invisível de vento seco. Quem sabe ali a sensação – aguda e, como sempre, ainda sem nome, quase sem forma – estanque; no melhor dos casos, se transmute, abrindo sobre si mesma um sulco, uma fenda quente.

É possível, no entanto, que haja de fato pouco a ver em Caetité – o que, no fim das contas, nem importa. Muito mais interessante e capital é saber o que fazer quando uma vez lá: em que partes farejar os rastros de uma bisavó índia cujo rosto nunca encarou e cujo nome desconhece, em qual chão verter as águas de rio armazenadas em garrafas PET de quinhentos mililitros.

Ela mesma as colheu, essas águas, sem a intenção prévia de derramá-las sobre alguma terra brasileira. São duas: a mais antiga e quase acidental vem da superfície de um rio argentino cor de doce de leite chamado Paraná; a outra, verde-cinza-negra-clara, vem do fundo gelado e mítico a que chamam La Seine. Sumirão rapidamente, uma vez fora de suas respectivas garrafas. Vão se misturar ao chão, vão penetrá-lo com tal gentileza, fazer nele caminhos, para depois pouca coisa ou quase nada delas restar no visível. Imperceptíveis, mas ainda assim lá. É isso um destino. Quantos.

A importância desse gesto em Caetité, onde ninguém a conhece – exceto, justamente e com esforço, a terra. Imperiosa, semiárida, cheia de ossos que já não existem, hoje transformados em pó e revirados intensamente por formigas, ventanias, chuvas e leitos baixos, amassados com parcimônia por gado de corte ou, no pior dos casos, pelas retroescavadeiras das Indústrias Nucleares do Brasil. Então aí, mesmo aí, algo da bisavó jê, um pouco dela para molhar com água de rio estrangeiro e cheirar depois.

Não sozinha, para que sozinha, Caetité tem mais de cinquenta e três mil habitantes, diz o senso do IBGE. Então serão mais de cinquenta e três mil somados a uma, essa-ela, e vai ver aparecem as que desejem águas estrangeiras derramar também, águas de viagem e de sonho, fluxo que não é outro, mas coisa de fora que logo se junta e se espalha e repousa.

Natalie Lima

Murmurinhos, Diogo Paiva


Os ventos da federal

Passam por aqui

Finalmente!!!
Com a sabedoria que ele vê pela frente

Para, paira,

Repousa sobre esta.

Há de ouvir murmurinhos quando se passa por certos lugares.

Há ainda lugares que se ouve gritos

Você há de passar

Há lugares que se vê gritos

Alguns já desgarrados

Escrevem em certas paredes
há os que escrevem e registram

há os que registram!

Não sei,

Pelos corredores se ouvem murmurinhos.


Eu sou a poesia
Eles não sabem quem sou
Me vêem, mas não me enxergam

Sou tudo e sou nada
Não tenho massa, sou a massa
Sou mais, sou arte!
Eles são segredos,
Segredos que regem

Segredos sempre,

Segredos de Estado
Segredos mentem

Me afastam quando sentem

Segrega, mas não quebra
Me olha mas me erra
Agora os olhos são outros
Pois chegaram os ventos!

Diogo Paiva

terça-feira, 8 de novembro de 2016

The lovers, de A. B. Tinelli — Primeiro Lugar de Poesia do VIII PPBPP


aprender uma língua ela
dizia lendo W Blake
na varanda é
um ato solitário

in the forests of the night
cheguei a vestir
um terno cinza e no altar
declamei W Blake

e bem imaginei um Mundo
em um pequeno grão um Céu
em uma flor selvagem pegar
o Infinito com as mãos prender
no Agora a Eternidade

mas invisível um véu
sobre seu rosto impedia
o enlaço amoroso como

numa tela de magritte

meu amor todo caminho
é ela dizia
também um exílio

dor e alegria em um mesmo tecido
(eis o caminho de um verso batido)

uma coisa ela não disse

in the forests of the night
sob toda dor
e todo pinheiro

brilham os olhos de um tigre

A. B. Tinelli

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Fusão, de Leoni — Segundo Lugar de Poesia do VIII PPBPP


o início da história
já não importa
a essa altura
a mistura

de você em
mim do meu
rosto nos seus
olhos dos seus

sonhos nos meus
braços dos meus
risos nos seus
ossos do que é nosso

no que é seu
por osmose meu
é nossa solução
inseparável já

não há substância
pura os átomos
embaralharam as
órbitas para além

do ponto de qualquer
fissura nossas
línguas mis-
(tri)turaram línguas

que já não falamos
apagamos portas pistas
fronteiras resíduos
de Tordesilhas

importa agora
o holofote da nossa
estrela de estilhaços
atiçando o incêndio

desse estardalhaço
de alegrias – de
que importaria agora
o início da história?

Leoni

domingo, 6 de novembro de 2016

Nósocorro, de Mateus Baldi — Segundo Lugar de Prosa do VIII PPBPP


O Nazista não era nazista coisa nenhuma, mas era assim que a gente chamava – porque era loiro; porque era alto; porque era forte e numa tarde de sol disse que ia descer a porrada no Arnaldo, que era judeu. Semana passada nos reencontramos num jantar e ele estava bem diferente – acima do peso e com um maço de cigarros no bolso. O Nazista e eu saímos para fumar quase que ao mesmo tempo e, justamente por não saber que o Nazista era o Nazista, pedi um isqueiro e ele deu e sorriu e disse que me conhecia de algum lugar, que tinha certeza de já ter visto meus olhos em algum lugar, aí foi a minha vez de rir e dizer Você diz isso pra todas?, e ele desviou o olhar para os carros rasgando a rua lá embaixo, Eu não digo isso pra ninguém, respondeu, a vida é muito curta pra gente ficar bancando o disco arranhado – e foi então que eu ri. Ele não entendeu, com razão, e eu pedi

- Desculpa.

e continuei, falei que era engraçado porque em dois mil e dezesseis ninguém mais fala disco arranhado, que certa vez minha filha soltou um escangalhar e eu me acabei de rir no sofá.  Ele sorriu. Disse que eu era uma mulher *****. Assenti. Eu definitivamente era uma mulher *****.  “Me conta de você”, pedi. “Eu não tenho nada de interessante, só tô aqui pra não perder o emprego.” “Ah, é?” “É.” “Eu também.” “Você trabalha pra ()?” “Não, trabalho na ##, mas minha filha quer se formar em |||||| e o único jeito disso acontecer é eu ganhar um aumento...” “...que você pretende conseguir vindo nesse jantar e bajulando seu chefe.” “Como você sabe?” “É o que todos nós, animais de escritório, fazemos”, ele respondeu dando de ombros.

Acabamos trocando telefones e marcando um jantar para a sexta-feira seguinte. Sushi. Em dois mil e dezesseis as pessoas amam sushi no primeiro encontro. Pedimos uma canoa gigante e quase morremos de rir quando engasguei com o wasabi. Depois de a $$$$ chegar, como a chuva ainda não havia parado de cair, o Nazista sugeriu que fôssemos para a casa dele: (hoje não) (por quê?) (porque é o primeiro encontro, não sou uma mulher >>) (tudo bem, quer que eu te deixe em casa?) (eu disse que não queria dar pra você, não que não queria um bom fim de noite): nos beijamos e ficamos dez minutos pensando no que fazer e eu disse: (uma vez quase fui pro Horto de noite, só que o fusquinha do meu namorado quebrou na ladeira e tivemos que voltar de reboque): o Nazista riu e disse: (ok, entendi, vamos pro Horto) (não, tá doido?, tá chovendo, foi só um comentário besta) (não, sério, agora eu quero ir pro Horto). Fomos.

Havia uma árvore no meio do asfalto. O Nazista desviou lento, quase parando, e pude ver dois gatinhos se abrigando sob os galhos retorcidos. Confesso que fiquei com pena. Ele estacionou atrás de um Ford velho e perguntou se eu estava bem – fiquei com dó dos gatos – respondi, mas ele não entendeu muito bem – os gatinhos sob a árvore – continuei –, você não viu? – Não vi gato nenhum, mas se você quiser a gente volta – Não precisa. – Tem certeza? – Absoluta, ele disse dando um tapinha no volante. Nos beijamos por um tempo e então perguntei

- Sua mulher morreu de quê?

e ele teve um sobressalto.

- Desculpa.

- Não, que isso, não tem problema falar dessas coisas. É só que... você é uma mulher muito ~~~~.

- Já me disseram isso. É um defeito grave. Prometo consertar.
  

Rimos. O Nazista disse que a esposa tinha morrido de câncer e perguntou se eu era sempre assim, severa comigo mesma: Só quando acho que estou fazendo algo de errado. E quando você acha que está fazendo algo de errado? Sempre, respondi enquanto baixava a cabeça e sorria com o canto da boca, o batom borrado.

[eu sei que você disse que não é uma mulher >>, mas não tem muita utilidade a gente ficar aqui, nessa chuva. Lá em casa podia ser melhor. Juro que não te encosto a mão. É só uma questão de conforto mesmo.]

Abri a porta do carro e desci.

A chuva me pegou de jeito e ensopou minha @@. O Nazista olhou pela janela, estupefato, e por um segundo desviou o olhar para os meus peitos grudados no tecido.

- Vem! – gritei. – Tá uma delícia.

Um trovão rugiu lá fora.

O Nazista abriu a porta e pisou numa poça.

Nos falamos quase todos os dias. Ao contrário de mim, ele é uma pessoa <, quiçá um pouco <<<. Anteontem conversei com minha filha pelo Skype e ela disse que eu deveria dar uma chance; que o namoro com o escocês estava uma merda; que todo mundo deveria aproveitar ao máximo o início de qualquer relacionamento que se promete duradouro. Perguntei onde ela tinha aprendido a falar bonito desse jeito – aproveitar ao máximo o início de qualquer relacionamento que se promete duradouro – e ela riu, as bochechinhas coradas, e me mandou deixar de palhaçada, Tu parece meu pai falando. Comentei que tinha chances de conseguir um aumento, que meu chefe adorou minha presença no jantar e que a Celeste ia se aposentar no fim do ano – a vaga tinha noventa e nove por cento de chances de ser minha.
  
Ficamos conversando até o dia raiar.


Hoje acordei com o interfone TOCANDO. O porteiro disse que era da floricultura, quis saber se era para deixar subir. Agora eu sou a Dona Silvia da Cobertura 01, os porteiros se importam com a minha segurança. E o Nazista ainda existe. E manda flores lindas. Agradeci com uma mensagem fofinha. 

Boa viagem, ele respondeu.


Sim eu quero largar tudo e ficar o dia de hoje & amanhã & depois com ele meu nazista mas não dá para adiar essa viagem de trabalho porque a celeste vai se aposentar no fim do ano e apesar de ser dona silvia da cobertura 01 eu não posso desperdiçar esse tipo de coisa porque a cobertura 01 não quer dizer nada ela foi herdada eu não tenho grana além da que mando pra sofia sobreviver no exterior então vou ter que ir pra São Paulo aquela cidade horrorosa onde só chove e não tem nem um horto pra gente se esconder e namorar e tomar chuva em paz só o horizonte que mais parece uma carreira de cocaína estendida debaixo das nuvens e fazendo um desabafo a cocaína está cara eu não contei pro nazista né mas tenho outro vício além do cigarro mas é muito pouco quase nunca e se ainda não contei é porque não quero estragar tudo pelo menos não agora em que estamos nos conhecendo tão bem e ele parece estar tanto na minha quanto eu estou na dele porque a gente minha filha quem disse precisa valorizar as coisas boas da vida antes que elas vão embora não não foi nada disso que ela disse e eu nem sei se o verbo ir está conjugado corretamente mas o que importa né afinal de contas sou uma mulher apaixonada e as pessoas apaixonadas podem tudo inclusive dar uns tequinhos quando se sentem solitárias porque não adianta nada nazista jantar  cigarro sushi leblon horto ipanema gávea jardim botânico rio de janeiro são paulo sofia silvia se a gente não puder ter uns prazeres escusos once in a while que é pra poder sofrer em paz sem ninguém perturbar a paciência mas o que eu queria mesmo lá no fundo da minha alma com todo o meu amor não era paulo são janeiro de rio botânico jardim gávea ipanema horto leblon sushi cigarro jantar coisa nenhuma e sim meu nazista que só chamo assim com esse apelido horrível porque o nome de batismo é pior ainda mas obviamente ele não sabe que chamo de nazista já que pessoalmente só chamo de IIIIIII enfim eu queria agora mesmo pular desse avião maldito e dizer que vim para ficar com ele e que mesmo não sendo uma mulher >> hoje eu vou ser >>>>>> e vamos fazer muito    :-)    e também                  que é pra ninguém botar defeito e vamos ser felizes para sempre só por hoje até o sol cair bem laranja quase tangerina por cima dos copans e masps afinal do dia de amanhã ninguém sabe e se esse avião cair ai meu deus eu só queria pai nosso que está no céu falar pro nazista santificado seja vosso nome que eu desci desse avião venha a nósocorro para ficar com ele e antes que pudessem me impedir cair em tentação eu já estava no táxi sorrindo feliz da vida e não há nada que ele possa fazer quanto a isso porque a besteira já tá feita agora estou aqui meu amor livrai-nos do mal e tudo está de volta ao normal, amém Sim.

“Mas e a viagem, Silvia, meu deus do céu, você tá doida? O que você vai fazer?”

“Perder o voo.”


Mateus Baldi

sábado, 5 de novembro de 2016

Texto sem título, de Gyzelle Góes — Terceiro Lugar de Poesia do VIII PPBPP


ainda criança o vento se aliava
às corridas pelo bairro
crescido
tão agilmente
as pedrinhas por volta do parque
no centro da rua
criavam folia junto aos pés
que pouco firmavam estadia ao chão
tamanha era vontade do ser
tímida buscava um buraco
onde se esconder
fazia disso brincadeira
e me sentia muito inadequada
quando surgia à luz de olhos arregalados
que moravam dentro do que
se fazia em mim
tinha estórias pra contar enfim
alugava diário cor lilás sabia
só página vazia suportaria
tanta infância
me descobri sozinha
levava as mãos em suspense
até locais onde a pele frisava em eriço
tamanha ousadia
o corpo como trilha desfrutava
da curiosidade dos gestos
e se revelava
um país das maravilhas
como lia nos contos apanhados
na estante do meu pai
toda vez quis buscar estrela subindo
no banco da cozinha corria
subia
e não tem luz
antes ou no instante que narro estória
nem agora
mas a infância
permanece ainda aqui
no verso na astúcia dos dedos
pendurada no quadro na mesa da sala
em tudo que escrevo

Gyzelle Góes

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Breve narrativa da miséria humana, de Rodrigo Elmas — Terceiro Lugar de Prosa do VIII PPBPP


Era noite de um domingo, e não por algum tipo de intenção estilística acrescento que estava a ler o Inferno de Dante quando subitamente bateram à porta de meu quarto. Uma ambulância à porta de minha casa às 21 horas de um domingo? Não desci. Aguardei no andar em que estava, e permaneci tentando – sem sucesso – ouvir o que uns homens a meu pai diziam. Era o tio Hédio que havia passado mal, e se encontrava hospitalizado.

A família não se abalou... era um bêbedo, valdevinos que vagava por aí a prestar pequenos serviços, reparos de casa; não constituíra família nem estudara. Vinham bater à nossa porta a fim de trazer-nos enfado. Quem acompanharia tal criatura em um hospital? Acompanharia? Sim. Malgrado fosse um ébrio, e ainda que a nossa ambição emergente nos levasse a ignorar familiares menores e distantes, havia uma ambulância em nossa casa! O que faríamos?

Pois bem, por Deus! Que espécie de ambulância vai a uma casa avisar que alguém está hospitalizado? 

Decerto teria morrido. E quem arcaria com o custo de enterrar o de cujus?

Não importa. Alguém deveria fazê-lo. E é nesse instante que os homens da casa se unem numa macabra empresa que se forma a cada morte de um familiar, e se dissolve assim que a última espátula de massa põe fim ao processo que demarca em uma parede recheada por mortos o mundo deles e o dos que ainda sob o sol respiram. Para tal empresa foram três os designados: eu, papai e meu cunhado.

Chegando ao local azado e prestadas as devidas apresentações fomos conduzidos por uma senhora gentil à sala onde descobri o que faz uma assistente social. Aquela devia pertencer a uma classe especial de assistentes sociais; tinha olhos fundos e baços, sombreados por olheiras que a distavam de nós, e que quase nos faziam crer ser ela o ente que controla o fluxo de almas naquele recinto.

Tal efeito se desvanecera à medida que o diálogo avançava e as explicações eram dadas. Sim, havia morrido, morrera enfartado às 17:15 horas precisamente (com o concurso da cirrose), e seu corpinho – nunca esquecerei esse eufemismo – estava nas dependências locais aguardando sua eterna morada.
Havia certa pressa, pois não havia câmara frigorífica no local, mas, ao mesmo tempo, pouco se poderia fazer, uma vez que o cartório estava fechado, mas no submundo que orbita a morte sempre se pode preparar algo – e foi então que decidimos conhecer a via do enterro grátis. Malditos! Somos malditos sovinas, sim. Fingimo-nos de pobres, obtivemos o carimbo de pobres em um papel encardido da secretaria de saúde e rumamos para a velha funerária onde um dia os cliente passivo seremos nós.

Deixamos o cunhado em casa; e eu e meu pai, que não nos falávamos havia algumas semanas, tivemos de dialogar. Era noite profunda, e me recordo de ter repreendido meu pai por cogitar passar por uma suposta cirurgia milagrosa e ainda experimental que o poderia curar do diabetes. Ora qual! Falar em cirurgia num momento de morte! Ao menos estávamos conversando. Era um avanço.

A funerária ficava no segundo piso, sobre as capelas onde algumas vezes eu velara alguns parentes, e subir as escadas me transportou a dez anos antes, à ocasião da morte de minha avó, quando meu primo me desafiara a entrar na sala de exposição das urnas. Ainda me recordo dele acenando ao fundo da sala, terrível, me chamando; o cheiro macabro, definitivo, inefável e inconfundível da madeira feral. Medo.

Quando a gente cresce o tamanho do mundo muda. A mesma sala das urnas agora era uma pequena sala onde os caixões se espremiam. De fora se os via por uma porta de vidro; e a primeira urna era a do meu tio-avô. Sobre cada tampa havia um papel com o preço em letras garrafais, terríveis, como se gritassem seus preços, causando pavor.

Sobre a urna de meu tio não havia preço: era urna doação: a dos desvalidos, dos pobres, e a que os servidores da prefeitura odeiam fornecer não sei porquê. Talvez nesses casos não recebessem propina per capta.

Fomos atendidos por um homem sonolento que trabalhava num recinto e que ao fundo se podia ver os trapos do que um dia fora um colchonete, e que fazia as vezes de cama. Tomamos ciência de algumas cobranças inesperadas; violava-se a premissa principal: gastar nada com aquele vagabundo – pois que já gastávamos com a gasolina, e era muito!

Por acaso ou destino, não importa, meu pai encontrara tio Hédio na rua havia cerca de um mês. Como o mesmo vivia de pensão em pensão, forneceu um novo endereço, na rua São João, centro de Niterói. Meu pai, sempre esquecido, anotou tal em um papel assim que chegou em casa, guardando tal lembrete numa gaveta qualquer.

Foi um golpe de sorte. Precisávamos de um documento do morto e, quiçá, oxalá Deus permitisse, algum dinheiro para algum eventual gasto ou para nosso entretenimento mesmo. Miseráveis!

Estacionamos em frente à pensão. Era quase madrugada quando adentrávamos aquela vila ladeada por um velho sobrado português. Desatamos a corrente que fingia trancar o portão e avançamos lentamente por sobre aquele chão antigo de pedras coloniais. Perguntamos a um senhor pelo quarto do Sr. Hédio. Tínhamos um combinado: jamais dizer que morrera. Se indagados, deveríamos dizer apenas ser parentes e que buscávamos roupas, que o mesmo estava internado, e só. Ora, se revelássemos a morte poderiam cobrar de nós qualquer débito com a pensão!

Sim, senti pena ao ver o lugar onde meu tio passara seus últimos dias. Era um quarto sufocante, com uma cama que se apoiava sobre caixas de cerveja, e o chão estava molhado, rescendia urina. O odor era nauseante. Atrás da porta havia um par de calças e, em seus bolsos – nova sorte -, duzentos reais. Foi como se tivéssemos ganho a noite. Logo achamos seus documentos, encostamos a porta e saímos como que fugindo. Não achávamos que pilhávamos um morto. Apenas fazíamos justiça e obtínhamos a paga pelo aborrecimento do enterro. Canalhas!

Já em casa, combinávamos o que deveria ser feito no dia seguinte. Papai considerou o dia da morte de seu tio: péssimo dia para se morrer! Um domingo! Como se se pudesse escolher o dia em que se morre. O enterro deveria ser providenciado impreterivelmente no dia seguinte, pois que, importa lembrar, não havia geladeira ou câmara frigorífica no local. Teria de ser numa segunda-feira – dia em que todos (menos eu) trabalhavam. Era o meu momento de ser o “homem da casa” e vestir, transportar e levar à sepultura um parente com quem muito pouco convivi – e sobre o qual muito (mal) ouvi.

Dormi mal, é claro. Todas noites que antecedem um funeral são noites ruins. Tenta-se imaginar a aparência do morto, seu semblante; ou até, de modo quase doentio, como Edgar Allan Poe, adivinhar se o rosto penderá mais para a direita ou para a esquerda; se o rosto estará encovado, como de costume, e se os olhos estarão abertos ou cerrados.

Recebi cem reais para pagar alguém que transportaria o corpo, e mais cinquenta reais de “brinde” pela tarefa. O Sr. Paulo me cobrou cinquenta reais, e assim lucrei cem reais com a morte de meu tio. Maldito!

Dirigimo-nos ao local onde estava o corpo. Fomos recebidos com a alegria de quem precisa abrir espaço para novos ocupantes. Lembro-me de naquele dia expandir meu léxico, aprendendo que frigorífico e câmara mortuária (ou frigorífica) eram o mesmo que morgue. Est’última indicava onde meu tio estava, podendo posteriormente entender a origem da palavra morgue e talvez até seu uso naquele local, sendo, quiçá, uma forma de fazer com que pessoas passassem pelo local sem saber o que havia ali dentro.

Lembro de ali tomar ciência de que morgue era uma sala de entulhos; onde cadeiras e televisores velhos e armários e macas enferrujadas aguardavam descarte com eventuais corpinhos embalados para a viagem.

Ao adentrar o recinto, nada estranhei. Somente ao olhar para a esquerda foi que me dei conta de um corpo amortalhado, mas não tive tempo para pensar muito. Homens – exatamente o que eu tentava ser ali – já colocavam suas luvas e começavam a desfazer o pacote em que meu tio estava. Veio a roupa, veio a urna. Junto com a urna veio uma barata, e após mais esse susto veio a percepção de que aquela urna era de madeira e papelão. Que miséria! Que tristeza! Também eu terminaria meus dias assim? Mas, se assim fosse, que diferença faria à minhalma jazer ali?

Não havia tempo para reflexões ou tristeza. Levamos tio Hédio ao cemitério. Os coveiros almoçavam. Teríamos de esperar. Optamos por voltar e almoçar em casa. Tio Hédio ficou lá, na entrada do cemitério, sob o sol inclemente. Quem roubaria um defunto velho?

Voltamos e o enterramos no alto da colina em que os pobres sem identidade jazem. Terra fofa e granulada, vegetação imperial e vasta. Solo adubado por corpos sofridos como o de meu tio. Nunca esquecerei que após algumas pás de terra a tampa de papelão do feretrum se rompeu, expondo parte da fronte de meu tio. Miséria das misérias!


Bem aventurados os mortos, pois que alcançam a graça de do convívio com os vivos se apartar!

Rodrigo Elmas

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ópera para saltos cegos no escuro, de Mateus Baldi — Menção Honrosa VIII PPBPP


Início

Qualquer versão
moderninha daquele
tema de faroeste, que é
pro pessoal ver se entende:
apesar disso aqui ser um
barzinho: eu vou tocar o
concerto que fiz pra ti
duzentos e cinquenta e sete
dias antes do divórcio.

Ária

Talvez haja realidade
aqui – mas só talvez.

Ato I

Não há música, só o ruído
abafado dos teus uivos
no teatro lotado
que é este quarto.

Trio de jazz no bar ao lado

Dedos para rasgar cordas
e um batuque que faça teu
coração chicotear.

Cantiga de ninar no quarto de cima

Deita aqui no meu ombro
e fecha os olhos – shh –, acabou.

Ato II

As gotas no ladrilho do box
fazem um estampido que parece
o clec-clec dos teus saltos (cegos)
quando você sai pra trabalhar
todo dia depois da nossa primeira
vez – que também é sempre um
salto (no escuro).

Interlúdio

No banheiro:
um pequeno jato para o homem,
um futuro cientista ou filósofo ou
bandido ou natimorto para a
humanidade.

Ato III

Há tempos você
precisava estar
assim –
vestido preto,
colar de cristais
brilhando ao redor
do pescoço, os olhos
esverdeados saltando
do rímel –, para só então eu
te jogar do penhasco e dizer
foi um prazer,
meu amor, mas acabou.

Cachê

O dono do bar me
ofereceu um mês
de batatas fritas
pelas cordas tocadas –
e eu aceitei.

Divórcio

Testemunhas afirmam
ter visto os dois sorrindo
ao riscar os papeis com
garranchos sobre a linha
pontilhada.


Finale

(ponto) onde adormecem
os trens após passarem o
dia vomitando proletariado
com seu gosto amargo de derrota.

Casa

Era abrir a porta e te
ver lendo o último
da Patti Smith – em
qualquer lugar do mundo.

Mateus Baldi