quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Viagem aos seios dela


Faz tempo e tempo e tempo, mas sei que estive aqui com os pés
enterrados nesta areia e a água nos tornozelos porque o aroma é
peculiar e familiar, paira no ar, maresia áspera em mistura com
cheiro de mato molhado pela chuva invernal na beira da praia, e o
seu hálito quente e parecido com jasmim dizem que as donzelas
emanam assim e é verdade pelo menos com você no seu caso que
pude sentir naquele dia de sol recém-nascido tardio parido das
nuvens escuras que mandaram chuva para molhar o mato e fazer
surgir esse aroma misturado com o seu e também o sol saído veio
alumiar sua pele bronzeada em parte e em parte branca por sob o
maiô, que saquei, não propriamente saquei mas retirei com
cuidado, desamarrando os nós enquanto você olhava meus
desajeitados movimentos quando lhe ergui nos braços e lhe fiz
deitar na areia dura e o mar vindo e voltando em nossos corpos.

João Luiz Azevedo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A Tarde


A tarde é uma mulher recém saída do banho
pingos de chuva em sua pele lisa
como as calçadas nuas e escorregadias

escorre um recomeço verde
revelado nesta luminosidade
frescor de folhas estalando
coisa de florescer

eu e a tarde
suspensas no tempo fotográfico
num canto das folhagens
nos lábios vermelhos de sol - um sorriso
vários verdes desfilam como vestidos
o que guarda esta paisagem
um encontro
um amor?

Rosália Milzstajn

sábado, 26 de agosto de 2017

meu primeiro caderno de poesia


para Oswald de Andrade

confidente
de expectativas frustradas

absurdas utopias.

Flavio Machado

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Poema de Flavio Machado


a
   
solidão
  
dos
mortos
a
dor
dos mortos
absurda
dor
 a
  
solidão

dos
mortos
provisória
ausência de consciência
provisória

dor.

Flavio Machado

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

6º Curta na Uerj — festival de vídeos


O festival, promovido pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) tem como propósito incentivar a divulgação de produções não profissionais em vídeo e animação, bem como revelar novos talentos. Nesta 6ª edição o Curta na Uerj desafia os realizadores a abordar um tema amplo e complexo: Identidades. O tema vem de encontro com esse mundo globalizado, de fronteiras fluídas e de informação que trafega na velocidade da luz e tenta entender como os indivíduos constroem seu pertencimento a comunidades e criam novas formas de se relacionar com o mundo.
Os vídeos poderão abordar várias questões acerca do tema "Identidades", tais como diversidade, interação com diferentes grupos, trocas culturais e tolerância às diferenças.

Podem participar produções em vídeo ou animação realizadas com celular, filmadora ou máquina fotográfica. O Festival é organizado em duas categorias: Teen (para autores de 12 a 17 anos) e Adulto (a partir de 18 anos).

Os vencedores de cada categoria receberão câmeras digitais, smartphones e tablets. Os vídeos podem ser enviados até o dia 11 de setembro de 2017.


Inscrições e regulamento no site www.curtanauerj.com.br


terça-feira, 22 de agosto de 2017

A casa


A casa é um lugar dentro da gente
que as vezes cresce para fora
e a gente mora

Rosália Milzstajn

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A revolução da palavra


“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” (A revolução dos Bichos – George Orwell)

Uma letra mais um som. Um conjunto de letras e sons. Um conjunto de letras e uma escrita. Temos, pois, senhoras e senhores, uma palavra. Tão inocente e ao mesmo tempo tão perigosa, ela é o núcleo das acusações feitas perante este tribunal. Apresento, hoje, a defesa da ré- a palavra.

A acusação, como bem se sabe, é antiga. Muitos a diziam descaradamente, mas a maior parte da censura ocorria no plano do invisível. A palavra era acusada de pequenas subversões, uma ali outra aqui, mas foi sempre reprimida, desconsiderada, chegando até a não ser valorizada pela sua riqueza. Por isso, os poetas da década de 70 foram denominados de “marginais”, pois estavam à margem do uso valorizado - o editorial - da palavra.

Essa simples senhora - a palavra - submeteu-se durante anos a limitações. E não foram poucas. Houve até quem lhe 'parnasianisasse' e a pusesse como mera obra de arte num papel ou na boca de intelectuais. Tiraram a palavra do povo, subtraíram-lhe a vida.A palavra, porém, senhoras e senhores, está aqui diante de vós. Sem encobrimentos, sem vestimentas pedindo apenas o básico que deve ser dado a todo o ser: uma certa liberdade.

Não é pedir muito. Vejam: a palavra não precisa ser excluída de um espaço em detrimento de outro. A palavra não quer ter preferências. Só quer ser fluida como a "modernidade líquida" e poder ir de um local a outro, permear diversos campos, usar todo o seu potencial. Por que uma identidade apenas? - Eu pergunto: Por que não "celebrações móveis" de palavra? Percebam que o peso que impomos a ela não é o que impomos a nós mesmos. Se podemos viver em constante adaptação e mudança, por que a palavra não? Isso é injusto. E estamos aqui para tentar fazer justiça. Uma justiça de palavra.

Os senhores e senhoras devem estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com a exposição? Pois bem! A exposição não foi nada mais do que uma revolução. Algo que não foi tão planejado, que já vinha acontecendo em doses homeopáticas e agora tomou um espaço um tanto inusitado: o de uma exposição em um centro cultural. Inusitado porque estávamos acostumados a ler livros de poetas já falecidos e a colocá-los à frente das manifestações contemporâneas e vivas de poesia, de usos da palavra.

E que problema há em revoluções? Nós, Meritíssimo, fomos durante muito tempo inocentes quanto às mudanças que a própria palavra provocou. Uma abertura aqui, outra ali. Uma manifestação na periferia, uma manifestação na intelectualidade... A palavra, senhoras e senhores, não se deixou abater. E isso é digno de reconhecimento! Continuou a tentar se expandir e ampliar horizontes. Hoje, ela montou uma exposição de si mesma. Uma exposição, que como disse, é uma revolução. Uma revolução, eu diria, tão justa quanto a Industrial ou a Francesa. Uma revolução que muitos acreditam, e eu ponho fé, entrará para os anais da história.

É importante lembrar que, durante os anos e ainda hoje, a palavra foi além da mera comunicação, virou inclusive uma questão de poder (Foucault explica). Palavra é expressão, palavra é poesia. E por isso "Poesia agora". Palavra não é só direito dos livros de quem já está morto, de quem é conhecido, de quem sabe rimar. A palavra quer estar em todos os lugares: nas academias, nos parques, nas ruas, nas exposições, na boca e no corpo dos poetas. Na exposição, como já foi dito pela acusação, ela está nas lâmpadas, nas paredes, nos vídeos dos poetas, no banheiro e nos livros também. E quem a usa? Pessoas. Famosas ou não. Ricas ou pobres. Conhecidas ou não. A palavra, Meritíssimo, só quer o direito de ir e vir, previsto na nossa constituição.

É uma revolução? Sim! É uma revolução. A revolução da palavra! Como isso ficará lindo nos livros de história! Nossas crianças aprendendo desde cedo que a palavra não está morta, mas viva! E viva para se usar.Nossos meninos e meninas vendo, aprendendo e fazendo poesia, porque sabem que a palavra não quer ser direito de alguns.Não podemos derrubar a revolução da palavra. Tudo o que minha cliente pede, Meritíssimo, é o direito a uma certa liberdade. Direito esse que deve ser concedido à palavra, uma mera subalterna das emoções humanas. "Pode o subalterno falar?"- pergunta Spivak, e a palavra disse que sim. De fato, ela falou. Organizou uma exposição. Algo inovador. Notem que a minha cliente quer deixar de ser exclusividade de alguns e se mostrar viva. Seja no papel, seja nas ruas, na periferia, nos morros, na academia. A palavra deve ser livre!E olha que a ré não pede muito. Quer apenas continuar a ser usada pelas emoções humanas, só que com uma certa liberdade.

Na verdade, creio que, independente do que digamos aqui hoje, a história está mudando. A revolução já começou. Nossas atitudes não podem impedir um movimento tão digno quanto o da palavra. Entrará para a história. Isso é um fato. Mas como a história será contada? Como nossos nomes serão escritos pela palavra?

Dito isso, sem mais nada a acrescentar, deixo ao Meritíssimo a decisão.

À palavra, o meu agradecimento.


Caroline Ferreira de Oliveira Brizon

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domingo, 20 de agosto de 2017

Código de barras


A primeira foi o beijo.
Depois vieram a indiferença e as diferenças,
Colocadas lado a lado.

Houve também melancolia
e desprezo velado.

Da mistura dessas barras impenetráveis
resultou o código do nosso amor chinfrim:
sem começo e sem fim.

Noélia Ribeiro

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Três semanas na Venezuela: Diário de uma carioca na República Bolivariana, por Júnia Azevedo.


"Em maio de 2017, saí do Rio com destino à Venezuela, como colaboradora para uma série de matérias para um jornal espanhol. A ideia era apoiar um jornalista que cobria temporariamente o país. Do Rio voei até a Cidade do Panamá e, de lá, para Caracas, num voo da empresa venezuelana Santa Bárbara – nome no mínimo curioso para uma companhia aérea. Entrei irritada no avião, pois queriam me cobrar 90 dólares (o voo havia custado 100) porque meus dados estavam errados na reserva feita pela internet (em lugar do nome estava o sobrenome e vice-versa). Tive que protestar bastante e fazer um drama para que me deixassem embarcar sem pagar a multa. Já havia sido muito difícil comprar a passagem, considerando que as companhias aéreas bolivarianas não constam dos populares guias de viagem que pipocam no Google. Aparentemente, o mercado de turismo chavista está protegido contra as onipresentes Expedia (EUA), Kayak (EUA), Decolar (Argentina), Submarino (Brasil), Viajanet (Brasil)..."

Para acessar o diário da nossa colaboradora Júnia Azevedo e ler mais sobre um relato pessoal escrito da forma mais isenta possível, segundo a própria autora, fugindo da "informação" coalhada da grande mídia, clique no link https://midiaindependente.org/?q=node/346

Para um resumo do diário, clique no link http://jornalggn.com.br/noticia/tres-semanas-na-venezuela-i-diario-de-uma-carioca-na-republica-bolivariana-por-junia-azevedo

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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Como dizer


Como dizer que é noite
se dentro de mim é dia
como dizer do frio
se dentro de mim é fogo
como dizer não sei
se dentro de mim eu sei
como dizer de ti
se dentro de mim sou eu

Rosália Milzstajn

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Lançamento do livro Paisagem interior, de Marcos Vinícius Almeida


O lançamento do livro acontece em São Paulo, na Livraria Patuscada, em Pinheiros, no dia 18 de agosto, a partir das 19:00. Também será lançado em Luminárias, no interior de Minas, na Casa da Cultura, no dia 20 de agosto, a partir das 17hs.

Título: “Paisagem interior”, contos
Editora: Penalux
Autor: Marcos Vinícius Almeida
Páginas: 110 páginas,
Preço: R$ 35
Disponível em:


Paisagem interior
Marcos Vinícius Almeida
Por Annita Costa Malufe

Este conjunto de contos parece contradizer certas ideias frequentes em nosso tempo:todas as histórias já foram contadas, não há mais espaço para se narrar, estamos fadados a narrativas fragmentadas, a fatos que perderam qualquer sentido comunitário (como primeiramente previu, talvez, Walter Benjamin)... Ainda bem que, vez por outra, alguns escritores não se conformam com isso e retomam o hábito ancestral da narrativa, devolvendo-nos, renovado, o prazer da simples escuta de uma história.             

No caso dos narradores deste Paisagem interior, a proximidade do tom do contador de causos: figura típica dos interiores de nosso país, sobretudo de Minas Gerais, de onde vem o autor. O contar por contar, pelo mero prazer de desenrolar uma história, muitas vezes apelando a detalhes insignificantes, seguindo sempre o andamento da fala. A oralidade se faz forte nessa escrita, e o leitor se põe de fato a ouvir o texto, que se transforma em um fluxo oral extremamente fluente e bem construído – muitas vezes a partir de um competente uso do discurso indireto livre.

Tal traço não indica, contudo, um parentesco direto com Guimarães Rosa. Ao contrário, mais próximo de escritas como as de Thomas Bernhard, William Faulkner ou AntonioTabucchi (autores em que a oralidade assume a frente), os contos de Marcos Vinícius Almeida são povoadosde narradores e personagens urbanos, moradores das pequenas (quando não minúsculas) cidades brasileiras, e que nos são revelados com uma linguagem direta, extremamente contemporânea, sem pretensos regionalismos atualizados ou mimetismos roseanos.

Vale observar que a Paisagem interior, aqui, poderia ser também ado interior, do Brasil, para além de uma remissão mais imediata ao íntimo, dos personagens ou do próprio autor. Interessante é notar que o título bem expressa o movimento presente nas narrativas: os lugares por elas trazidos, mais do que simples cenários externos, são reveladores de qualquer coisa de interior, de interno, aos personagens.

Esse jogo entre paisagens interior e exterior, do espelhamento mútuo entre dentro e fora – que nos lembra o poeta Fernando Pessoa e sua teoria da sensação – faz a riqueza desses pequenos causos, em que uma aparente mera descrição de uma tempestade, de um jogo de futebol ou de um corpo morto de um homem sendo salvo por outro, é carregada de afetos e reflexões existenciais. Tudo com muita sobriedade e às vezes humor. É através de imagens muito concretas e sensoriais que somos levados ao interior das personagens, que pode ser, no limite, o interior de nós mesmos, leitores.


Seria impossível falar desses contos sem notar, como insistia Júlio Cortázar, a proximidade entre os gêneros conto e poesia. Para além do ritmo certeiro, asutileza e atenção sensível às minucias fazem não somente a riqueza, mas também a maturidade do olhar do autor, que embora tenha reunido pela primeira vez seus contos em um livro, está longe de poder ser considerado um estreante.