segunda-feira, 21 de agosto de 2017

A revolução da palavra


“Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.” (A revolução dos Bichos – George Orwell)

Uma letra mais um som. Um conjunto de letras e sons. Um conjunto de letras e uma escrita. Temos, pois, senhoras e senhores, uma palavra. Tão inocente e ao mesmo tempo tão perigosa, ela é o núcleo das acusações feitas perante este tribunal. Apresento, hoje, a defesa da ré- a palavra.

A acusação, como bem se sabe, é antiga. Muitos a diziam descaradamente, mas a maior parte da censura ocorria no plano do invisível. A palavra era acusada de pequenas subversões, uma ali outra aqui, mas foi sempre reprimida, desconsiderada, chegando até a não ser valorizada pela sua riqueza. Por isso, os poetas da década de 70 foram denominados de “marginais”, pois estavam à margem do uso valorizado - o editorial - da palavra.

Essa simples senhora - a palavra - submeteu-se durante anos a limitações. E não foram poucas. Houve até quem lhe 'parnasianisasse' e a pusesse como mera obra de arte num papel ou na boca de intelectuais. Tiraram a palavra do povo, subtraíram-lhe a vida.A palavra, porém, senhoras e senhores, está aqui diante de vós. Sem encobrimentos, sem vestimentas pedindo apenas o básico que deve ser dado a todo o ser: uma certa liberdade.

Não é pedir muito. Vejam: a palavra não precisa ser excluída de um espaço em detrimento de outro. A palavra não quer ter preferências. Só quer ser fluida como a "modernidade líquida" e poder ir de um local a outro, permear diversos campos, usar todo o seu potencial. Por que uma identidade apenas? - Eu pergunto: Por que não "celebrações móveis" de palavra? Percebam que o peso que impomos a ela não é o que impomos a nós mesmos. Se podemos viver em constante adaptação e mudança, por que a palavra não? Isso é injusto. E estamos aqui para tentar fazer justiça. Uma justiça de palavra.

Os senhores e senhoras devem estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com a exposição? Pois bem! A exposição não foi nada mais do que uma revolução. Algo que não foi tão planejado, que já vinha acontecendo em doses homeopáticas e agora tomou um espaço um tanto inusitado: o de uma exposição em um centro cultural. Inusitado porque estávamos acostumados a ler livros de poetas já falecidos e a colocá-los à frente das manifestações contemporâneas e vivas de poesia, de usos da palavra.

E que problema há em revoluções? Nós, Meritíssimo, fomos durante muito tempo inocentes quanto às mudanças que a própria palavra provocou. Uma abertura aqui, outra ali. Uma manifestação na periferia, uma manifestação na intelectualidade... A palavra, senhoras e senhores, não se deixou abater. E isso é digno de reconhecimento! Continuou a tentar se expandir e ampliar horizontes. Hoje, ela montou uma exposição de si mesma. Uma exposição, que como disse, é uma revolução. Uma revolução, eu diria, tão justa quanto a Industrial ou a Francesa. Uma revolução que muitos acreditam, e eu ponho fé, entrará para os anais da história.

É importante lembrar que, durante os anos e ainda hoje, a palavra foi além da mera comunicação, virou inclusive uma questão de poder (Foucault explica). Palavra é expressão, palavra é poesia. E por isso "Poesia agora". Palavra não é só direito dos livros de quem já está morto, de quem é conhecido, de quem sabe rimar. A palavra quer estar em todos os lugares: nas academias, nos parques, nas ruas, nas exposições, na boca e no corpo dos poetas. Na exposição, como já foi dito pela acusação, ela está nas lâmpadas, nas paredes, nos vídeos dos poetas, no banheiro e nos livros também. E quem a usa? Pessoas. Famosas ou não. Ricas ou pobres. Conhecidas ou não. A palavra, Meritíssimo, só quer o direito de ir e vir, previsto na nossa constituição.

É uma revolução? Sim! É uma revolução. A revolução da palavra! Como isso ficará lindo nos livros de história! Nossas crianças aprendendo desde cedo que a palavra não está morta, mas viva! E viva para se usar.Nossos meninos e meninas vendo, aprendendo e fazendo poesia, porque sabem que a palavra não quer ser direito de alguns.Não podemos derrubar a revolução da palavra. Tudo o que minha cliente pede, Meritíssimo, é o direito a uma certa liberdade. Direito esse que deve ser concedido à palavra, uma mera subalterna das emoções humanas. "Pode o subalterno falar?"- pergunta Spivak, e a palavra disse que sim. De fato, ela falou. Organizou uma exposição. Algo inovador. Notem que a minha cliente quer deixar de ser exclusividade de alguns e se mostrar viva. Seja no papel, seja nas ruas, na periferia, nos morros, na academia. A palavra deve ser livre!E olha que a ré não pede muito. Quer apenas continuar a ser usada pelas emoções humanas, só que com uma certa liberdade.

Na verdade, creio que, independente do que digamos aqui hoje, a história está mudando. A revolução já começou. Nossas atitudes não podem impedir um movimento tão digno quanto o da palavra. Entrará para a história. Isso é um fato. Mas como a história será contada? Como nossos nomes serão escritos pela palavra?

Dito isso, sem mais nada a acrescentar, deixo ao Meritíssimo a decisão.

À palavra, o meu agradecimento.


Caroline Ferreira de Oliveira Brizon

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