segunda-feira, 4 de maio de 2020

Publique no Insta do PB!




É isso: mantendo a nossa tradição, vamos abrir mais um espaço para publicação de poemas, desta vez, pelo Instagram! Toda segunda-feira, sem prazo para acabar, publicaremos na página @jornalplasticobolha um poema enviado por vocês, selecionado pela nossa equipe de curadores. O tema é sempre livre e o formato, também, respeitando as limitações da plataforma:

poema em [VERSO]: .doc curtinho
poema [VISUAL]: 1080 x 1080 px (quadrado), 1080 x 1350 px (retrato) ou 1080 x 608 px (paisagem)
[VIDEO]poema: até 1 minuto, seguindo as dimensões acima

Para participar, envie o seu poema em anexo para contato@jornalplasticobolha.com.br, com o assunto [CHAMADA ABERTA PERMANENTE] + nome de poeta. No corpo do e-mail, apenas o @ do instagram, se tiver. Até 3 poemas por pessoa!

Compartilhem, marquem seus poetas prediletos e sigam a #chamadaabertapb para ficar por dentro!

terça-feira, 21 de abril de 2020

O papagaio


Uma vez ao meio-dia forte o meu fracasso ardia
Entre os livros tão banais que invejo não fazer iguais.
Como estava quente! e a luz do sol queimava Santa Cruz;
Quando o sono me é demais, escuto a impor os sons boçais
Golpes nunca assim cabais, à minha porta, os sons boçais;

Isto só - e nada mais!

Certo lembro-me era março - já sem grana nem disfarço -
Lia as críticas finais aos meus poemas tão formais...
Todas dizem - todas, sim! - que sou poeta bem ruim:
Meus fracassos são brutais, e agora ao ver vexames tais,
Todo um ego cai p'ra trás ao ver os seus vexames tais!

Golpes ouço - e nada mais!

É a dona de onde vivo - assim sussurro sem motivo -
"Ela deve ser, atrás de mim de novo, em dons astrais,
Quer as contas que eu não pago e sem carinho, sem afago,
Bate à porta em formas tais: batidas altas, sempre iguais,
São os sons que vêm mensais querendo quase mil reais";

Ela só - e nada mais!

Velha astuta, sente o cheiro quando ganho algum dinheiro,
Quer me dar lições morais - lições que julga vir dos pais -
Puto eu abro a porta, e o riso então agudo e sem juízo
Cai-me como nunca mais: na porta estava ali detrás
Seu José gemendo os ais de Cristo ao ler os seus jornais;

Seu José - e nada mais!

"Boa tarde, Seu José!" - lhe disse a rir, zangando-o até -
Nem responde e aqueles ais, ranzinza, geme a ler jornais!
"Quer ouvir poemas, Seu José, algum poema meu?" -
Ele apenas lê jornais e geme aqueles chatos ais...
Prosa tola ali detrás - e os sons agora aumentam mais!

Prosa tola ali detrás!

Para o quarto, então, voltando, sinto ainda os sons vibrando,
"São vulgares animais que batem na janela mais..."
Deles rindo agora, aos tombos, digo: "São aqueles pombos
Cujas caras desiguais se batem na janela mais -
São vulgares animais que têm as caras desiguais!

São os pombos, nada mais!"

Frente, pois, a tal janela, abrindo-a sem qualquer cautela,
Pronto, vejo ali detrás, no parapeito, em tons reais,
Um divino papagaio, que me olhando de soslaio,
Entra logo como um ás no quarto, e pousa bem atrás
De uma vela aos orixás - e, assim, dali não sai jamais;

Entra - e pousa - e nada mais! 

Senta ali enquanto escrevo, e num arroubo assim me atrevo:
"Louro, as plumas tem reais, e certo ilustres ancestrais!"
Mesmo que isto não se faça, digo: "Qual a sua graça,
Louro de épocas reais?" Dourado e verde até demais,
Ele, de épocas reais, não vai me responder jamais!

Diz o louro "Quero mais."

Quanto gosto ouvir seu nome, enquanto o tempo se consome,
Já que um nobre aos serviçais não fala frases pessoais!
E esse louro fala-me algo que não diz nenhum fidalgo:
Fala o próprio nome e mais, o louro de épocas reais,
Pois ninguém ouviu sem ais de um nobre nomes tão vitais,

Quanto o nome "Quero mais."

Não se presta a movimento algum enquanto ao pensamento
Vêm-me as críticas finais dos meus poemas bem formais -
Eu murmuro alguns dos versos, vendo como são perversos
Esses críticos - e mais murmuro os versos bem formais:
Olho a vela aos orixás, e quando vejo ali atrás,

Diz o louro "Quero mais."

Tão surpreso com a fala que uma dúvida me estala:
São respostas usuais que seu senhor lhe disse tais,
Desse mestre, que corrupto, o tempo teve ininterrupto
Para lhe ensinar as tais palavras - tramas usuais
De um político que mais deseja verbas ilegais;

Tramas são o "Quero mais."

Para toda a minha cisma não olhar em um só prisma
Alto leio verso atrás de verso - e versos ancestrais -
Para a vela que me assombra, de onde vem do louro a sombra;
Pois espero instantes tais aflito como nunca mais,
Pois espero instantes tais olhando-o como nunca mais!

Diz o louro "Quero mais."

O ego se infla novamente, existe um louro que me sente;
Quem me criticou demais, o louro de épocas reais,
Dá na cara e pede bis - bem feito para os imbecis!
Meus poemas ancestrais eu leio todos sem rivais.
Quando findo os recitais, e não possuo um verso a mais,

Diz o louro "Quero mais."

Ora, louro, já lhe li aquilo tudo que escrevi,
Pede, pois, ainda mais daqueles versos ancestrais!
Não possuo e não consigo novos versos, louro amigo,
Vê agora que não mais possuo versos bem formais,
Vê agora que não mais possuo versos bem formais?!

Diz o louro "Quero mais."

Todos já lhe foram lidos - louro de hábitos polidos -
Pois, pergunto: "Foram mais mentiras brancas, cordiais,
Só falou palavras boas que esse mundo de pessoas
Já me disse tais e quais, de meus poemas ancestrais,
Pelas redes sociais; que quer de meus poemas tais?!"

Diz o louro "Quero mais."

Nessa frase encerra a fraude, o mundo finge quando aplaude,
Só palavras cordiais que desonestas são iguais!
Como ao Face me elogia numa frase tão vazia,
Diga lá, em tons reais, que quer nas falas cordiais?!
Diga lá, em tons reais, que quer dos versos ancestrais?! 

Diz o louro "Quero mais."

Basta de cordialidades - nem mentiras, nem verdades -
Sejam as palavras tais, palavras pois então finais!
Não esqueça a sua pluma, mas não lembre estrofe alguma 
Desses versos ancestrais, pois não possuo um verso a mais;
Vá, enfim, me deixe em paz, que exausto não aguento mais!

Diz o louro "Quero mais."

Sua sombra qual ruína - ou glória -  vira a minha sina:
Quer os versos bem formais, e ao chão me pede mais e mais;
Pois agora bate palma, e quando quase não se acalma,
Para o chão me puxa mais, e em gestos sempre cordiais
Pede bis, e pede mais, e a minha vida leva e traz,

E esse bis - não quero mais!

Guilherme Ottoni



Guilherme Ottoni é colaborador constante do jornal Plástico Bolha e, dessa vez, nos brinda com esta bela recriação do poema clássico "O corvo" de Edgar Allan Poe, vertido para o contexto nacional.

domingo, 19 de abril de 2020

Arquivo, poema de Frederico Spada Silva


Colecionava miudezas,
pequeno e íntimo
museu de fragmentos
coletados ao acaso —
como a própria vida.

Frederico Spada Silva



Frederico Spada Silva é autor de "Coleção de ruínas". Publicou três livros de poemas, além de manter um canal no You Tube com depoimentos ligados à cidade de Juiz de Fora. Como editor e revisor atua nas Edições Macondo (MG).

sábado, 18 de abril de 2020

Três poemas de Vinni Correa


Erotismo motivacional

mesmo com a imensidão
são as pequenas coisas
que crescem com o tesão



Milf

mama mia
mama tua
mama todos



Matador alfa

já que touro alvo
o corpo é a arena
o buraco é o alvo

Vinni Correa



Vinni Correa é pornopoeta, autor de "Coma de 4", "Literatura de Bordel", "Lunch Box" e "Sexo a Três".


sexta-feira, 17 de abril de 2020

Um poema de Alice Sant'Anna


quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

Alice Sant'Anna



Alice Sant'Anna (Rio de Janeiro, 1988) começou a escrever com 16 anos. É autora de "Dobradura". "Pingue-Pongue", "Rabo de baleia" e "Pé do ouvido". Atualmente mora em São Paulo.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Guia, poema de Adalberto de Queiroz


A minha solidão desperta-me, convocando
a um retiro longo e silente —
no mar Cáspio, diante do imaginário.

Trama transporta-me célere
ao deserto de Owami. Sozinho, posso ver
as vidas dizimadas em aldeias africanas —
naufrágios variegados,
embarcadiços da Esperança.

Imaculee Ilibagiza segredou-nos
o desastre — salvados somos
Tu e eu, leitor irmão, à imaculada
Madonna Nera clamamos:

Vinde Mãe Santíssima, em nosso socorro,
Valei-nos, Nossa Senhora da Guia!

Adalberto de Queiroz



Adalberto de Queiroz é autor de "Destino Palavra", Goiânia, 2016.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

mulher de malandro, poema de Angélica Freitas


mulher de malandro
malandra é
vai dizer que não pode
ser verdade
os dois, marido e mulher
vivendo na malandragem
na maior malandragem
permitida pelas engrenagens
do sistema capitalista
não são zen, não são budistas
não tem trabalho à vista
e se têm, fingem que não veem
hoje não fazem nada
amanhã vão passear
e nem sabem quem foi o henry miller

Angélica Freitas



Angélica Freitas nasceu em Pelotas (RS) em 1973. Publicou dois livros de poemas "Rilke shake" e "Um útero é do tamanho de um punho", além da HQ "Guadalupe", com arte de Odyr.

terça-feira, 14 de abril de 2020

matrioshka, poema de Caio Carmacho


você é como uma boneca russa
dentro de outra boneca russa
dentro de outra boneca menor
e russa

quantas personalidades uma mulher
pode ter?

só os futuros cientistas
poderão saber
em uma autópsia exata de sua psique

mas não saberão de ti
o que sei

o estrondoso momento
que precede os dias sangrentos

Caio Carmacho



Caio Carmacho nasceu em São Paulo, cresceu em Paraty e mora em Piracicaba. Escreve no blog Noutratez e organiza o sarau Picareta Cultural. É autor de "Livre-me", da coleção Patuscada da editora Patuá.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Pneumonia, poema de Carlos Cardoso


Há em meu peito uma praga!

O que em meu ombro pousa
não é uma chaga que repousa
nem um filho mau
que advém da graça divina.

Em um lado do peito o catarro infiltrado
encrosta em minha imunossupressão
e me deixa artifícios para uma noite morte.

Quão assim sou elevado estranho?
Tamanha é a dor que revolta e me ilude
com a vicissitude de que a morte chegue
e com ela o deslumbrante alívio.

Tenho que dizer-te que viver para mim
é quase sempre um tormento.

Há quem comigo conviva
que diga que sou a própria morte,

pois, por tanto amar a vida,
quando ela, a morte, me convida,
em face do sofrimento que finda,
eu parto agradecendo a sorte.

Carlos Cardoso



Carlos Cardoso é engenheiro, natural do Rio de Janeiro. É autor do livro "Melancolia", vencedor do prêmio APCA 2019 como melhor livro de poesia.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Novo Jornal Plástico Bolha: Edição Latino-americana n° 2





Após um período de recesso o Plástico Bolha está de volta saudando nossos hermanos da América Latina. Nessa edição mais do que especial, poetas de todo o continente reúnem suas poéticas variadas para dar vida a esse encontro de versões nas páginas de nosso jornal. Acompanhe o lançamento também nas versos criadas especialmente para as redes digitais. É uma alegria para nós dar continuidade a esse projeto de união latino-americana através da poesia. E se você não conferiu a primeira edição basta clicar aqui.


Agradecemos mais uma vez os nossos apoiadores que, via Apoia.se, mantém vivo e ativo esse projeto de difusão poética:

Dani Pinheiro
Daniel Gil
Ana Paula Grillo El-Jaick
Maria Silvia de Souza Camargo
Lina Nunes Gomes
Mônica Gomes Azevedo
Bruna Peleio Amorim de Mattos
Marcello da Silva Azevedo
Saulo Dourado
Beatriz Junqueira Pedras
Fernanda Cordeiro Gazola
Pedro Vinícius do Valle Tayar
Domingos Guimaraens
Marília Rothier Cardoso
Laura Gurgel
Chiara Ciodarot Di Axox
Aline Teodoro de Moura
Paulo Henriques Britto
Lucas Brandão
Luiza Mussnich
Alexandre Bruno Tinelli
Francisco Pereira dos Santos
Barbara Brunbauer
Thiago Ferreira
Demetros Gomes Galvão
Gloria Regina Bandeira de Araujo
Thassio Ferreira