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sexta-feira, 21 de junho de 2024

Entrevista: Lu Menezes — paixões, leituras e escritas

                                                     por Anny Games, Gabriel Harle, Lucas Viriato e Marcella Mahara


Lu Menezes nasceu em São Luís (MA), em 1948, e cresceu no Rio de Janeiro, onde vive atualmente. Morou em Brasília, onde graduou-se na UnB em sociologia. No Rio, doutorou-se pela UERJ em Literatura Comparada. Publicou os livros de poesia O amor é tão esguio (ed. independente, 1979/80); — Abre-te, rosebud! (Sette Letras, 1996); Onde o céu descasca (7Letras, 2011); Gabinete de curiosidades (com Augusto Massi, Luna Parque, 2016) e Querida holandesa de Vermeer (Luna Parque, 2020), além do ensaístico Francisco Alvim por Lu Menezes (col. Ciranda da Poesia, Eduerj, 2013). Seu livro mais recente é Labor de sondar (1977-2022): poesia reunida (Círculo de poemas, 2022).


1) Como a leitura e a Literatura entraram em sua vida e como você se relaciona com elas hoje?  

Entrou via Literatura infantil e contos de fadas, ao lado de revistinhas e o que estivesse ao alcance desta primeira e infindável paixão: "leitura" em geral. Soube que aos seis anos, família reunida em torno da grande mesa na varanda do sítio de uma tia, chega o caseiro com um bilhete para ela; levanto e sussurro em seu ouvido "Me deixe ler este bilhete, por favor!". Hoje, suplico ao Tempo que me deixe tempo para ler. Quanto ao que já escrevi, não ter rede social além do WhatsApp talvez contribua para eu ser, acho, bem pouco lida. Em compensação, algumas poucas pessoas me leem muito bem! Minha poesia  em 2022 reunida pelo Círculo de Poemas e publicada pela Fósforo em Labor de sondar, vem reforçando isso.


2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se artista ou torna-se artista?

Não sei, talvez varie. Ironicamente, o grande Rimbaud, caso clássico de poeta nascido "pronto", deu as costas a ser "poeta" — título tão honorífico no meio cultural quanto irrelevante fora dele.


3) Sendo uma filósofa e uma artista da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser uma “leitora amadora”? Há um botão de liga/desliga? 

Botão de liga-desliga não tenho nem na livre-escolha nem no ter-que-ler. Estando quase sempre sujeitos à inconstância do inconsciente, podemos — sem prever — nos decepcionar, entediar ou encantar.


4) Em todo verdadeiro artista, a arte e a vida são uma coisa só. O que você acha dessa afirmação? Há separação? 

Artistas não são "verdadeiros" ou "falsos....Talvez, verdadeiramente bons ou ruins; depende do que você, eu, gregos e troianos achem. E, na relação arte-vida, a separação ou fusão de ambas deriva da arte e da vida de cada um. Absoluta relatividade certamente aí reina.


5) O que você considera ter sido fundamental para a sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual? 

Fundamentais: a leitura aos 13 anos de Minha vida de menina, de Helena Morley — pela simplicidade e precisão; e, mais tarde um pouco, Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll — pelo uso da linguagem também enquanto superfície, valor da camada significante. Atualmente, releio a poesia de Borges, tão incomparavelmente entranhada no que a história humana possui de mais atemporal! Magnífico antídoto para a terrível turbulência atual no Oriente Médio. E, a propósito, em chave "jornalística", os sempre excelentes artigos dominicais de Dorrit Harazim e Bernardo Mello Franco no Globo.


6) A Literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, em outras, como forma de abrir nossos olhos para suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua escrita criativa? 

A boa literatura não é "escape" no sentido de alienação da realidade: saímos do círculo do real imediato rumo ao encontro, via imaginação & linguagem, de outras possíveis faces suas reveladas. Quanto a isso, prefiro não tentar avaliar minha própria escrita; é tarefa pertinente à crítica literária.


7) Todos já fizeram poemas algum dia, em geral na juventude. Você escreve poesia há bastante tempo. O que te faz permanecer poeta?

Não sei se permaneço "poeta"... porque nunca ambicionei "ser poeta" — mas fazer bons poemas, com o mesmo direito ao prazer de criar que qualquer outro artista tem, mesmo sendo "poesia" uma arte "não-rentável".

 

8) Você nasceu no Maranhão e veio para o Rio de Janeiro ainda jovem. Poderia nos contar um pouco sobre as lembranças que guarda da infância e do seu estado natal?

As raízes são maranhenses, mas vim criancinha para o Rio. Não tenho, por isso, lembranças narráveis de São Luís, e esta entrevista não poderia ser sobre "minha infância no Leblon de outrora". Contudo, já que o seu motor foi o fato de eu "escrever", conto que meu bisavô paterno, Jefferson Nunes, "coronel todo poderoso e chefe político", como o descreve Sebastião Nery em seu Folclore político — que nele inclui três deliciosas historietas dele, era bastante espirituoso nos embates com adversários. E meu avô materno, além de juiz de direito, hábil sonetista. Algum lastro verbal "de raiz", portanto.


9) Você diria que essas lembranças e a experiência de deslocamento do Maranhão para o Rio, levando em consideração a passagem por Brasília, repercutem de alguma forma em sua obra?

Brasília foi muitíssimo mais que uma "passagem" em minha vida. Dos 13 aos 23 anos, foi um lugar maravilhosamente singular onde tive uma adolescência singularmente boa. Na UnB, depois de ingressar em Letras, acabei graduando-me em Ciências Sociais, com ênfase em Sociologia. De algum modo,  infância carioca e adolescência brasiliense induziram-me a escrever tendendo a equilibrar "figuração" — à sombra do Rio —  e "abstração" — à luz de Brasília.


10) A atividade de pesquisadora repercute no seu trabalho como poeta? E vice-versa?

"Pesquisa" é algo com amplíssimo espectro...Estudar já é pesquisar, e a pesquisa que mais me envolveu até hoje foi meu percurso estudantil (culminando em doutorado na UERJ).Ser estudante foi o que mais adorei ser na vida, além de mãe. E, sim: claro que estudar repercutiu na escrita; tudo pode repercutir na poesia que faço.


11) Quais as qualidades de um bom leitor?

Gostar de ler e ler com atenção são certamente indispensáveis a um "bom leitor" ideal. Também às vezes "discutir" com o que é lido. Por exemplo, com Borges quando diz no belíssimo "Elogio da sombra" que "La vejez (...)/ puede ser el tiempo de nuestra dicha./ El animal ha muerto o casi ha muerto./ Quedan el hombre y su alma."


Esta entrevista foi realizada como um desdobramento das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato.


sexta-feira, 7 de junho de 2024

Entrevista: Marcela Sperandio — a multiartista e as pontes construídas

por Lucas Viriato e Marcella Mahara

 

Marcela Sperandio nasceu em 1986. É formada em Filosofia. Cantou no Coral da PUC-RIO e na banda de disco punk Spllash!. Foi modelo e estudou cinema. Em 2015, publicou seu primeiro livro, intitulado Estranha de mim, pela Editora OrganoGrama, com poemas e desenhos retirados de diários íntimos e cadernos escolares. Em 2018, publicou seu segundo livro de poesia: Outra que não eu, pela Editora Raiz. Atualmente, é editora de vídeo.


1) Como a leitura e a Literatura entraram em sua vida e como você se relaciona com elas hoje?  

A leitura entrou mais pela escola, pela obrigatoriedade de ler para as provas. Eu nunca lia ao longo do semestre, postergava a leitura até o último final de semana antes da prova e então me dedicava com afinco a ler o livro em dois dias. Em algumas ocasiões me vi capturada pelo texto, e vivendo com intensidade todo o universo repleto de imagens e reflexões que se abria para mim através dos livros. Esse foi o caso do livro O mágico desinventor, de Marco Túlio Costa. Um livro fantástico que aborda problemas que enfrentamos a nível global e planetário, como poluição, desmatamento e risco de extinção. Acho que eu li com dez ou onze anos.

Eu frequentei por anos uma escola católica. Era praticante, acreditava em Deus e rezava antes de dormir. Até que na sexta série estudei sobre a Inquisição. Eu sou uma mulher que gozou de todas as liberdades. Eu tive certeza de que se eu existisse naquela época teria sido assassinada pela Igreja. Foi como se meu mundo tivesse desabado. Conforme ia caindo a ficha do papel que a Igreja teve na História Ocidental e quantos massacres ela fundamentou e cometeu, eu fui me metamorfoseando de criança em adolescente, profundamente horrorizada com tudo o que eu absorvia da cultura. Estudar a colonização, o processo de escravização, a Inquisição, o nazismo, todos esses temas me tiravam do centro e alimentavam uma revolta na minha alma. Passei a olhar para fora com uma profunda descrença, um desencanto. Enquanto meu interior borbulhava, eu crescia, meio em estado de choque.

Com doze anos comecei a prática de escrever em diários e dali um outro mundo surgiu. Comecei a usar os cadernos como válvula de escape, local de desabafo e também de autoconhecimento, além de experimentação poética. 

Na escola construtivista em que eu entrei na oitava série, havia uma biblioteca incrível, onde eu li o Canto dos Malditos, livro em que o filme “Bicho de sete cabeças” foi inspirado. Pude ler com indignação a história de um jovem que foi trancado em manicômios por fumar um baseado. Conheci a luta antimanicomial no Brasil. A partir de então comecei a explorar a leitura de uma maneira muito mais apaixonada.


2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se artista ou torna-se artista?    

Acho que nada é uma coisa só, tudo tem sempre, pelo menos, dois lados. Como se a unidade fosse constituída por contrários. Nesse sentido, trazemos alguma coisa conosco, como uma faísca que não podemos explicar, assim como realizamo-nos enquanto coisa construída. Parece-me que o artista tem uma predisposição da alma em trazer à luz o que está no invisível. Gosto da ideia de pensar que o artista, o louco e o xamã tem muito em comum. Os três acessam a imensidão do invisível, do imaterial e sem forma, do escuro, do inconsciente, mas só o artista e o xamã retornam e fazem a ponte entre os dois mundos de forma estruturada. O louco permanece imerso. Acredito que esse dom artístico seja inerente, próprio do ser humano. No entanto, esse dom só se realiza enquanto prática. Portanto, arte é trabalho árduo. Quanto mais engajado você está em sua prática artística, mais acontece de um fluxo perpassar você e suas criações acontecerem com ritmo e fluidez. 

É claro que para se engajar na arte poética é necessário uma predisposição estética. Como são os sentidos do artista? Eu diria que são intensos. O artista sente intensamente e isso o alimenta e impulsiona a criar. Assim como o foco é necessário para a leitura, ele o é para arte. Um foco e uma determinação que é o próprio ofício do artista. 


3) Sendo uma filósofa e uma artista da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser uma “leitora amadora”? Há um botão de liga/desliga? 

Eu, enquanto leitora, sou sempre uma leitora amadora! Meu jeito de amar inclui o ato de criticar. Não consigo desligar o botão do olhar crítico, mas às vezes, a obra te captura com tal intensidade que você fica imerso e não há distanciamento para crítica, apenas fruição estética. Aí a crítica chega depois, mas sempre chega.


4) Em todo verdadeiro artista, a arte e a vida são uma coisa só. O que você acha dessa afirmação? Há separação? 

Gosto de ver a arte como expressão essencial do indivíduo. Há muitos anos, quando eu era mais jovem, tinha muito mais tempo e era mais produtiva artisticamente, eu gostava de pensar na arte como excremento, algo como um vômito ou cocô. Você não pode escapar, é algo vital e necessário, um impulso incontrolável que te alivia. Eu sentia isso ao criar: produzir era quase uma imposição. Ao olhar para o mundo eu sofria e precisava me expressar e fazia isso através de textos e desenhos. Eu acho que o artista experiencia a vida intensamente e dessa intensidade toda vem a necessidade de expressão. Com o passar do tempo e com a chegada da vida adulta, eu tomei caminhos que me afastaram da arte. Trabalhar numa jornada de 54 horas semanais, de segunda à sábado, afasta qualquer um da reflexão e produção artística. Pra mim, a vida está totalmente ligada à arte. É da experiência vivida que brota o substrato para a arte. Ao mesmo tempo, entrar em contato com a obra nos dá ferramentas para elaborar visões sobre a vida.


5) O que você considera ter sido fundamental para a sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual? 

Eu tive muita sorte. Primeiro, por ter uma mãe atriz que me levava para assistir às suas apresentações quando eu tinha entre quatro e sete anos. Assisti muita peça da coxia. Depois, porque meu pai foi empresário de artistas brasileiros e atuou como produtor de grandes shows e em gravadoras, de modo que eu cresci rodeada de muita música boa. Na adolescência, tive a  sorte de descobrir o CEP 20.000 quando tinha entre treze e catorze anos. Lá, e em outros eventos da cidade, pude conhecer, conviver e me alimentar do texto, mas também das personalidades de grandes poetas cariocas como Guilherme Zarvos, Ricardo Chacal e Tavinho Paes. O CEP é um evento de poesia que foi crucial para a minha formação. Lá eu me encontrei, embora eu ainda me sentisse perdida. Morria de medo de subir no palco, demorei anos para relaxar. Me descobrir cantora ajudou nesse processo e só depois de cantar no coral da PUC e numa banda de punk rock chamada Spllash! que eu comecei a me sentir mais à vontade com um microfone. 

Algumas obras me formaram enquanto pessoa. Demian e O Lobo da Estepe, ambos de Herman Hesse, Orlando, de Virginia Woolf e Frankenstein, de Mary Shelley fizeram isso. Gostaria de citar duas obras cinematográficas, são elas os filmes The blood of a poet, de Jean Cocteau e Teorema, de Pasolini. Na música, o rock and roll foi crucial. Nessa fase mais adulta os livros do educador José Pacheco me ajudaram a achar um rumo produtivo pro bando de críticas que eu colecionei ao longo dos anos a respeito do sistema de ensino. Eu citaria os livros Dicionário de Valores e Inovar é construir um compromisso ético com a educação. 

Eu estou terminando uma pesquisa que investiga o uso veritativo do verbo “ser” em grego. Ela tem como base um livro de ensaios de Charles Kahn, Sobre o Verbo Grego Ser e o Conceito de Ser e o poema de Parmênides.

Então é isso que eu tenho lido ultimamente.

Eu indico como leitura a tradução em português do livro do Mark Coeckelbergh, Ética na inteligência artificial e o livro Superinteligência, do Nick Bostrom. Eles abordam muito do que precisamos saber para navegar na era ultra tecnológica na qual estamos entrando. 


6) A Literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, em outras, como forma de abrir nossos olhos para suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua escrita criativa?   

Acho que a Literatura proporciona ao leitor a experiência de uma ‘outra’ realidade. Quanto mais o leitor se deixa levar, mais é capturado pelo texto, então pode ter, sim, um teor de alienação, isolamento, na leitura. Mas, por outro lado, a leitura abre universos inteiros e a capacidade de se colocar no lugar do outro. Eu acho que, mesmo sem ter essa intenção por parte dos escritores, a literatura, a filosofia e a arte proporcionam um antídoto à desumanização do Outro. Através da reflexão, da expressão artística e da experiência estética, vivenciamos coisas que nos modificam e que transformam a maneira pela qual vemos o mundo e atuamos nele. Parece-me que desumanizar o Outro está na raiz de muitos dos males que vivemos. Eu acho que o mais urgente em nossa cultura é sanar isso. É esse processo que cega as pessoas e gera assassinatos, extermínios. É isso o que está por trás de barbáries como a Inquisição, a escravização, o Holocausto, que vimos há algumas décadas e, agora, o genocídio em Gaza. Por outro lado, quando lemos Ailton Krenak, vemos que a ideia de 'ser humano' do Humanismo carrega uma noção de superioridade do homem enquanto espécie. Como se ele ocupasse o topo da cadeia de seres da Terra, como se fosse a espécie mais importante e tivesse o direito legítimo de dominar e controlar as outras espécies e os recursos naturais como bem entendesse. O que a gente faz é extrair o que chamamos de recursos da natureza sem pensar em mais nada. Sem perceber que a nossa vida depende da vida dos rios, dos mares e de todo um equilíbrio que se manifesta tanto global, quanto localmente. Então chegamos num ponto em que a atividade humana é marcada pela destruição do planeta e pelo descaso com as outras espécies. Para manter o nosso estilo de vida, devoramos tudo ao nosso redor.


7) Você estreou na literatura com o livro Estranha de Mim (OrganoGrama Livros, 2015). Este livro continha muito de suas “angústias e devaneios da adolescência”, rabiscados com desenhos na marginália dos cadernos escolares. Como foi o processo desse trabalho? Qual a diferença daquela Marcela para a que vemos hoje em dia?

Era um fluxo intenso. Sou daquela geração que cresceu sem smartphone. Na minha adolescência, eu passava muito tempo no meu quarto escutando música, às vezes pintando, desenhando, com amigos, às vezes lendo, gravando vídeos e tirando fotos, bolando apresentações. Foi um tempo mágico em que eu tomava nota de tudo e rabiscava quase compulsivamente em cadernos e tinha uma rede de pessoas que vivenciavam toda aquela efervescência comigo. Eu levava comigo uns cadernos em que escrevia poemas, desenhava, relatava meu dia ou alguma reflexão. Tinha muita reclamação também. A brincadeira sempre foi se desfazer no fluxo e deixar o caos levar à ordem. Eu fazia esse processo com desenhos e textos. Os cadernos de escolas serviam como base, pois eu raramente estava presente na aula. Um dia queimei todos os diários, não sem antes retirar as partes que achava mais importante. Eu queria me desfazer daquelas reclamações, eu sempre fui muito reclamona. 

Hoje em dia é mais difícil produzir coisas desvinculadas do meu ofício de editora de vídeo. O tempo corre tão rápido e as tarefas do cotidiano se impõem de maneira que escrever com afinco e desenhar se dá “nas horas vagas”. De qualquer maneira, é possível trabalhar, cuidar dos filhos, finalizar uma pós-graduação em filosofia antiga e trabalhar no meu novo livro que é destinado ao público infantil.


8) Depois dessa estreia na poesia, você lançou outros títulos. Poderia falar um pouco mais deles? Como se deu a continuação da sua carreira como escritora?

Publiquei o livro de poemas Outra que não eu, pela Editora Raiz. O livro faz parte da coleção Ruído, com novos escritores. Durante a pandemia , participei do livro infantil Conto em Casa com a história “A roseira” que trata, de maneira simbólica, questões sobre a vida e a morte. O livro é uma coletânea de contos que abordam, com delicadeza, sentimentos angustiantes vivenciados pelas crianças durante a pandemia da Covid.


9) Está trabalhando em algum projeto atualmente? Pode nos adiantar o que vem de novidade por aí?

Estou trabalhando no meu primeiro livro infantil. A história foi criada fazendo meu filho mais velho dormir, há alguns anos. É ilustrado pelo meu marido. Fala sobre o sentimento de pertencimento ao planeta, sobre ser um filho da Mãe-Terra. Conta a história de um menino-pássaro que vive em um outro mundo e vem parar aqui. O livro traz questionamentos acerca do que é o homem e dá uma resposta, vinculando-o ao espaço que ele ocupa. O ser humano é a conexão entre o céu e a terra. É tudo isso, mas também pode não ser. Muitas vezes, estamos de fato desconectados dessa Mãe-Terra, assim como de nós mesmos. Quando colocamos os pés no chão e nos conectamos com a natureza, percebemos toda a grandiosidade da Terra, grandiosidade que está também no ser humano, sendo ele fruto da Terra. Acredito que seja isso que precisamos para seguir em frente: enraizar. 

Nós estamos com uma campanha de financiamento coletivo para publicarmos o livro. Você pode nos apoiar clicando no link e escolhendo um valor como contribuição. Separamos recompensas lindas feitas a partir das ilustrações do livro: https://benfeitoria.com/projeto/ovoodomeninopassaro.


10) Você já se aventurou como modelo, editora de vídeo, cantora de banda de rock alternativo, curadora de evento poético com Tavinho Paes, filósofa formada e praticante, entre tantas outras. Como se dá essa multiplicidade artística para você? Como isso tudo se conecta?

Minha mãe era modelo nos anos 80, então eu nasci no meio desse contexto da moda. Eu fazia fotos e comerciais para TV quando ainda era criança. Desde os doze eu escrevia e desenhava, mas mostrava bem pouco. Foi através da música que eu me realizei primeiro como artista. Durante muito tempo, tudo o que eu mais queria era cantar. Por sorte, nessa época do início da faculdade, eu mandei meus poemas para o jornal Plástico Bolha e, para a minha surpresa, vários deles foram publicados. E dois contos também! Isso me deu autoestima e vontade de publicar meus textos e desenhos mais antigos, coisa que fiz no livro Estranha de Mim.

Eu demorei pra entrar na faculdade. Antes, eu fiz um ano de curso técnico de estilismo e um semestre de educação artística. Acabei descobrindo a filosofia e entrei na PUC, onde logo comecei a pesquisar sobre cultura grega, mais especificamente sobre o deus Dionísio. Trabalhei por anos na televisão até que, depois de dois anos de pandemia, home office e a maternidade, tive um piripaque nervoso e me demiti. Hoje sou editora de vídeo, mas atuo como autônoma. 

Então eu diria que essa multiplicidade toda, no momento, se conecta através do sofrimento de não ter tempo suficiente para realizar tudo o que eu gostaria. Isso com certeza… Mas, pensando por outro lado, se conecta pela necessidade do encontro, pela troca. O que mais me instiga a produzir é, por um lado, o ímpeto expressivo e a troca com o outro, o encontro. A obra brota do artista, mas precisa de toda uma comunidade para existir. A troca é o mais importante, realizar o evento “Voz à Vossa” com o Tavinho Paes me fez perceber isso. 


11) A experiência da maternidade perpassou a sua escrita?
 
A maternidade perpassou-me por inteira. Se antes de ter filho, na época da faculdade, eu conseguia participar de diversas atividades, hoje em dia, posso me comprometer com bem menos coisas. Mas não é só isso. Virar mãe foi uma transformação profunda e me modificou em todos os sentidos. Reencontrar a sua identidade após o puerpério não é tarefa fácil. Parando para pensar, depois que virei mãe, quase tudo o que eu escrevi foi direcionado às crianças. 


12) Quais as qualidades de um bom leitor?

A qualidade de um bom leitor é o foco. Foco e uma capacidade de abertura, de se deixar levar pelo texto e por aquilo que o texto desperta em si. Uma boa leitura é um universo que se abre para o leitor e o toca completamente.


Esta entrevista foi realizada como um desdobramento das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato.


sexta-feira, 31 de maio de 2024

Entrevista: Mauro Ferreira — o crítico, a música e as palavras


por Lucas Viriato e Marcella Mahara
 

Mauro Ferreira é um jornalista e crítico musical brasileiro. É impossível pensar a música nacional nas últimas décadas sem esbarrar com alguma de suas críticas. De 2006 até 2016, manteve o blog Notas Musicais, e atualmente coordena seu próprio Blog no G1 com postagens diárias, sendo um dos mais lidos da plataforma. Também é um colaborador antigo do Jornal Plástico Bolha, no qual já teve uma coluna fixa. Jornalista de longa data, Mauro sabe o peso de cada palavra. Para nós, é uma alegria saber um pouco mais sobre a sua relação com a leitura e a música. 


1) Apesar de ser um especialista na Música, você é também um grande leitor. Como a leitura e a Literatura entraram em sua vida e como você se relaciona com elas hoje?  

Sou um jornalista reconhecido mais pela excelência do meu texto do que pela avaliação musical em si. E, se escrevo bem, é porque leio bem. A boa escrita é consequência de boa leitura. Leio desde que me entendo por gente. Primeiro, foram revistas especializadas em coberturas de TV — como Amiga e Contigo, blockbusters nos anos 1970 — e, a partir da adolescência, livros. Lembro especialmente de O encontro marcado, de Fernando Sabino. E de Maurice, de E.M. Foster. Mas também passei pela literatura brasileira mais tradicional, tipo O cortiço, de Aluísio Azevedo. Tenho grande prazer em ler. Adoro me deixar levar pelo universo de um livro. E, sem minimizar a importância do livro físico e o prazer de manusear as páginas de um livro, consumo também e-books. O essencial é o impacto de um livro na alma. Não importa se ele foi lido em meio digital ou mídia física.


2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se artista ou torna-se artista?   

Existe o dom natural para a profissão de artista, o talento nato, casos de atores que já nascem brilhando ou de cantores que parecem já surgir prontos. Mas isso não impede que alguém sem esse dom nato se aperfeiçoe no ofício a partir da labuta diária, do aprimoramento e do estudo. Pode-se chegar lá pelo trabalho e pela dedicação apaixonada ao trabalho. 


3) Sendo um profissional da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser um “leitor amador”? Há um botão de liga/desliga no olhar do crítico?   

Se for livro de música, é mais difícil acionar o botão. Mas, em outros casos, posso sim ser um leitor amador. De todo modo, eu instintivamente observo a escrita, a qualidade do texto, seja lendo um livro ou vendo uma série ou novela. É a fluência de um texto ou de um roteiro que me captura para um livro ou para um produto audiovisual. Nisso, a música é diferente. Se a letra for boba, mas a melodia for aliciante, ou o ritmo for sedutor, eu me deixo levar pela música e arrisco dizer que a maioria das pessoas é assim.


4) Em todo verdadeiro artista, a arte e a vida são uma coisa só. O que você acha dessa afirmação? Há separação?
   
Concordo. A arte é a expressão da vida de um artista. Não tem como dividir a alma e a criação artística em compartimentos diferentes. A arte é resultado da vivência e da formação do artista, do meio em que ele foi criado.


5) Quais livros foram fundamentais para a sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual?   

Lembro como fundamental a leitura dos fascículos de uma enciclopédia de música brasileira lançada nas bancas pela Editora Abril nos anos 1970. Cada fascículo era dedicado a um grande compositor da MPB. Foi dali que parti para a busca de mais conhecimento sobre a história da música brasileira. Lembro de ter livros do historiador Jairo Severiano, também fundamentais. Estou lendo no momento uma das mais conceituadas biografias de Madonna, Uma vida rebelde, recém-lançada no Brasil. É um livro com mais de 800 páginas de letras miúdas. Estou perto da 100ª página, mas já posso afirmar que o livro é fantástico por detalhar todo o percurso de Madonna da infância aos dias atuais, sem sensacionalismo.


6) A Literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, outras, como forma de abrir nossos olhos para suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua escrita criativa?   

A literatura abre a porta da percepção e do conhecimento, descortina admiráveis mundos novos. Mas, quando escrevo, me guio somente pela intuição e com o objetivo de ser sempre claro, objetivo, já que meus textos são quase todos de natureza jornalística.


7) Dizem que, dos gêneros de escrita, a poesia é aquele em que todos já se aventuraram algum dia, em geral na juventude. Você já “cometeu” algum poema que guardou na gaveta, ou até se desfez? 

Não. Nunca fiz poesia nem tive vontade de. Não é meu caminho, não é minha vocação. Meu dom é para o texto em prosa. Mas gosto de ler poesia.


8) Há canções que são poemas e poemas que são canções. Mas há diferenças de nuances. Você acredita que a canção musical é um gênero de escrita, ou, quando essa necessita do acompanhamento musical, é possível dizer que se torna um “gênero híbrido”?   

Há letras de música que são pura poesia. Mas não significa que essas letras sejam poemas em si. As letras servem às músicas, às métricas das melodias. Tanto que, quando um compositor põe música em algum poema pré-existente, por vezes ele precisa adaptar ou até mesmo suprimir um ou mais versos.


9) A partir da sua experiência de vida como crítico musical, o que você considera mais importante na escrita de um texto crítico? Como formar bons críticos, seja de Música, Literatura ou qualquer campo artístico?  
 
O texto de um crítico deve ser escrito com clareza, expressar com honestidade uma opinião que será entendida por quem conhece o artista dono da obra e também por quem ainda desconhece. A crítica é um texto opinativo, mas nem por isso deve deixar de conter informações que ajudem a contextualizar a obra criticada — no meu caso, discos, shows e/ou livros de música.

Forma-se um crítico com uma base boa de conhecimento histórico sobre o assunto criticado. E com honestidade, matéria-prima essencial de toda crítica.


10) Em alguns momentos do passado você já havia se aventurado no mundo dos livros, com um livro sobre a novelista Janete Clair e duas edições mais recentes do livro “Cantadas”, onde você analisa a potência da voz feminina ao longo da sua trajetória profissional. Como se sente nessa incursão no mundo da publicação em livros? 

Não me considero um escritor. Nunca pretendi ter uma carreira literária. O livro de Janete Clair foi escrito como um acerto de contas com minha memória afetiva, já que as novelas são tão ou até mais importantes do que a música na minha formação. Os dois 'Cantadas' foram livros comemorativos de 25 anos e 35 anos de ofício no jornalismo musical, sendo que o segundo foi ideia da editora da Garota FM Books, Chris Fuscaldo.


11) Também na dramaturgia você andou se aventurando: o roteiro de um musical sobre a obra de Djavan e um projeto ainda inédito para o roteiro de uma série. Poderia contar um pouco mais sobre os projetos? 

O musical sobre Djavan era um convite de 2018 que ganhou forma — leia-se patrocínio — em 2023. Gostei de fazer, mas não é o meu foco no momento. Quero, sim, tentar uma carreira como escritor de ficção no mercado audiovisual. Sem pressa e sem pressão. Termino em breve a escrita de uma série em seis episódios para tentar a sorte no mercado. Mas de forma light, consciente de que pode acontecer tudo, inclusive nada. Por ora, não posso dar detalhes do tema da série.


12) Quais compositores vivos e atuais você acredita que os leitores devem prestar especial atenção pela riqueza da composição poética e uso da palavra?  

Tim Bernardes se destaca na seara autoral. Zeca Veloso está tendo um início promissor. Também gostei muito do primeiro álbum de Jota Pê. E, como intérprete, Zé Ibarra é o que há.


13)  Como é sua relação com o mundo digital?

Minha relação com o mundo digital é boa. Acho que a tecnologia facilita a vida. No que diz respeito às redes sociais, acho fundamental para um profissional estar nelas.  Mas é preciso estar atento para que o prazer de estar numa rede não vire dependência ou gere ansiedade. 


14) Quais as qualidades de um bom leitor?

Concentração, sobretudo. É preciso se concentrar na leitura, para extrair o máximo dela. Em bom português, evitar a dispersão, ser atraído pela tela do celular, por exemplo, ou por qualquer outro estímulo externo. 



Esta entrevista foi realizada como um desdobramento das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Entrevista: Marilucia Corel — infância, leitura e o amor pela docência

 por Lucas Barreri e Ana Caroline Araújo 


Marilucia Corel Ribeiro é professora. Possui três graduações: Teologia, Letras - Português/Grego (UFF) e Pedagogia (CEDERJ). Atuou na rede estadual, no Liceu Nilo Peçanha, como docente da disciplina de Ensino Religioso e no município de Rio das Ostras como professora de Língua Portuguesa. Possui especializações em Literatura Infantojuvenil (UFF), Mídias na Educação (UFRJ) e Planejamento, Implementação e Gestão de EAD (UFF). Recentemente, realizou um curso de Guia de Turismo e atualmente pesquisa a História do Rio de Janeiro.

1) Como a Literatura entrou em sua vida e como você se relaciona com ela hoje?

Meu primeiro contato com a Literatura ocorreu por intermédio das histórias infantis contadas pelo meu irmão. Amava ouvir, por exemplo, "Os Três Porquinhos", e ver meu irmão interpretando os personagens. Assim que comecei a ler, por ser curiosa, lia tudo o que podia. Por ter desenvolvido esse interesse, ganhei livros ainda criança - A Fada que Tinha Ideias, Girafinha Flor faz uma descoberta, uma coleção de histórias em quadrinhos da Disney (mais de 30 exemplares). Na escola, sempre passavam leituras bimestrais, e eu também pegava livros emprestados na biblioteca municipal localizada no Barreto (li praticamente toda a série Vaga-Lume) no período da adolescência. Diante disso, não posso negar que o amor pela leitura foi um dos fatores que me levaram a cursar Letras. Atualmente, pelos diversos afazeres, meu ritmo de leitura não é tão intenso, mas continuo amando e viajando pelas páginas de muitos livros. 


2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se poeta ou torna-se poeta? 

Pergunta difícil, mas penso que é preciso nascer poeta. A questão é se o dom será desenvolvido ou não, e para isso é preciso trabalho e inspiração. Então, considero que há muitos poetas escondidos, pessoas que não tiveram a oportunidade de seguir e desenvolver seu talento e encantar o mundo com suas percepções.


3) Sendo um profissional da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser um “leitor amador”? Há um botão de liga/desliga?

Não sei se consigo ser uma leitora amadora, pois tenho meus autores e temas preferidos, mas não gosto de rotular livros. Talvez por amar literatura infantojuvenil, tenho a facilidade de ler de tudo um pouco. Isso não significa que não faço minhas críticas, mas como a leitura pra mim é uma forma de lazer também, então me permito sair de um livro considerado clássico e ler um texto de um autor mais recente, que não seja tão conhecido, e aproveitar da melhor maneira o que a obra está oferecendo. 


4) Quais livros foram fundamentais para a sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual?

A Bíblia é o livro fundamental na minha formação. Acrescento a essa prateleira A marca de uma lágrima, diversos livros da série Vaga-Lume, muitas histórias em quadrinhos e O Pequeno Príncipe. Meu foco de leitura atual está muito direcionado ao trabalho, então acabei de ler Arariboia – o indígena que mudou a História do Brasil e já iniciei a leitura de Rio antes do Rio – ambos de Rafael Freitas da Silva. Para o momento, sugiro a leitura de 1984, A Revolução dos Bichos, Robopocalipse, e as séries Maze Runner, Jogos Vorazes e Divergente.


5) A Literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, outras, como forma de abrir nossos olhos para suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua própria escrita?

Por mais que se queira, a realidade nunca escapa de nós. São nossas experiências, vivências que fazem toda a diferença na hora de enxergarmos o mundo, na hora de nos expressarmos por meio das palavras. Então, quando escrevo, não consigo me desvencilhar do ontem nem do hoje, até porque essas vivências se tornam as lentes para olhar para o futuro.

 

6) O que te levou ao desejo de lecionar? Fale um pouco sobre essa trajetória.

Apesar de pertencer a uma família pobre, meus pais fizeram de tudo para que eu tivesse o melhor estudo possível. Sempre estudei em escola pública (com exceção da 6ª série – atual 7º ano) e nunca faltou nenhum material, principalmente livros. Já com meus 10 anos falava em ser professora, mas isso foi esquecido durante a adolescência. Terminei o ensino médio sabendo o que não queria, entretanto não havia definições sobre qual caminho profissional tomar.

Terminado o ensino médio, fiquei um ano sem estudar. Havia planejado descansar um pouco e ter tempo para pensar sobre o que fazer, e isso só pôde ser executado porque no início de 1994 meu pai faleceu e precisei lidar com o luto e ajudar um pouco a minha mãe nesse processo também. Foram tempos difíceis. No ano seguinte, iniciei minha primeira graduação: Teologia. Os anos difíceis poliram minhas ideias e minha fé. Durante o curso, me encantei pela língua grega e, ao findar esse curso, prestei vestibular para a UFF - Letras Português/Grego. O ‘ser professora’ voltou para a minha realidade e em 2003 fiz meu primeiro concurso.

7) Conte um pouco mais sobre a sua formação e seus novos projetos. 

A especialização em Planejamento, Implementação e Gestão de EAD (UFF) me permitiu atuar como tutora em um curso semipresencial por alguns anos, o que foi uma experiência incrível. Por intermédio de uma colega tutora, fui convidada a participar da gravação de alguns episódios do programa de TV “Hora do Enem”, um projeto desenvolvido pelo MEC que disponibilizava análises de questões de todas as disciplinas e de diversos temas para redação.

Já são 19 anos nessa trajetória. Daqui a pouco, esse ciclo se encerrará e novos se iniciarão. Acabei de fazer um curso de Guia de Turismo e estou inscrita numa especialização sobre a História do Rio de Janeiro. O amor pela leitura não só me fez viajar pelo mundo do conhecimento, mas despertou meu interesse em visitar lugares e aprender sobre o outro também, e penso que minha sala de aula será transferida para locais sem paredes, afinal, conhecimento precisa ser compartilhado. Não que eu já não faça isso. Aprendi com meus professores ao longo da vida que visitar espaços marcam e transformam vidas. Experimentei isso com eles. Faço isso com meus alunos. Que alegria é levar uma turma a algum local que achavam não ser possível visitar e ver o brilho em seus olhos! É recompensador. Desejo continuar visitando mundos, aprendendo e compartilhando até que o tempo de minha história alcance seu ponto final.


Esta entrevista foi realizada como parte das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato.


sexta-feira, 10 de maio de 2024

Entrevista: Patricia Lavelle e o enigma do texto como ponto de partida

 por Rafaela Albernaz, Danilo Brandão e Martha Marques 


Patrícia Lavelle é poeta, tradutora e ensaísta. Professora do Departamento de Letras da PUC-Rio e pesquisadora do CNPq, fez doutorado em Filosofia na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, cidade onde morou entre 1999 e 2014. Tem publicado poesia, traduções e ensaios teóricos no Brasil e na França. Principais publicações em poesia: Bye bye Babel (7Letras, 2018, 2ª edição em 2021/Les presses du réel, 2023), Sombras longas (Relicário edições, no prelo). Bye bye Babel recebeu menção honrosa no Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

1) Como a literatura entrou na sua vida e como você se relaciona com ela hoje?

A literatura sempre esteve na minha vida. Desde que eu aprendi a ler, fui sempre uma leitora inveterada, era uma criança que não dormia enquanto não terminassem de me contar histórias. Quer dizer, a literatura já entrou na minha vida quando eu não sabia ler, e o meu grande desejo, na minha primeira infância, era aprender a ler. Quando aprendi, me tornei realmente uma leitora que devorava livro após livro. Então a literatura sempre esteve na minha vida. Hoje, a literatura se tornou uma parte da minha vida profissional. Isso faz com que, claro, eu tenha de ler textos teóricos e textos literários profissionalmente, o que cria para a leitura um direcionamento. Nem sempre é possível ler aquilo que dá vontade e prazer naquele momento, porque há a necessidade de organizar a leitura em função da preparação de uma aula ou de um artigo, por exemplo. Então a literatura está sempre presente, mas ela deixou de ser essa paixão caótica e se tornou algo mais organizado.
 
2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se poeta ou torna-se poeta?

Bem, poeta é quem escreve poema. Não vejo que esse seja um ofício muito elevado, como uma predestinação ou algo assim. Poeta é simplesmente quem escreve poema, independentemente daquela produção ser uma prática elaborada e publicada, ou apenas uma atividade momentânea. Então diria que a gente se torna poeta.
 
3) Sendo uma profissional da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser uma “leitora amadora”? Há um botão de liga/desliga?

Eu espero conseguir ainda ser uma leitora amadora, ou seja, conseguir ler aquilo que não é necessariamente direcionado para uma pesquisa, por exemplo. Além de ler o que é necessário para produzir artigos ou preparar aulas, ter também essa leitura selvagem, essa leitura que vai para todos os lados, que vai para aquele lugar que ainda não conhecemos, com assuntos que não dominamos, é fundamental. Essa leitura amadora, que vai por curiosidade aqui ou ali, eu não posso deixá-la morrer.
 
4) Em todo verdadeiro artista, a arte e a vida são uma coisa só. O que você acha dessa afirmação? Há separação?

Primeiramente, não sei se me colocaria nesse lugar de verdadeiro artista; é uma expressão, talvez, muito “pesada”. Quanto à separação entre arte e vida, eu vejo que a escrita poética é de certa forma ficcional: escolhem-se algumas coisas, recortam-se outras. Claro, como o romancista, o poeta também trabalha a partir das suas próprias experiências e vivências, mas transformando-as. Essa transformação passa também pela referência a outros textos literários e poéticos; o trabalho de leitura, o trabalho de reler e se deixar atravessar por outros textos faz parte da escrita literária. Por isso, eu não diria que não há separação entre a escrita e a vida, a não ser que se queira entender que tudo o que é leitura, tudo o que são referências intertextuais, de algum modo, faz parte da vida também – e de fato faz; a pessoa que eu sou, assim como a pessoa que todos nós somos, é a pessoa que leu isto e aquilo. Então, nesse sentido, sim, mas não naquele sentido mais imediato do texto poético refletir vivências pessoais e ser imediatamente confessional. Não é nesse sentido que eu penso esta questão da relação entre vida e escrita. Mas acredito que o material com o qual qualquer pessoa escreve está relacionado com tudo aquilo que ela viveu, e nisso se inclui aquilo que leu e aprendeu, o que é muito importante, assim como os recortes e sínteses que ela vai elaborar com esse material, e como tudo se conecta.
 
5) Quais os livros fundamentais na sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual?

Alguns livros mudaram a minha vida. Começo citando As flores do mal, de Charles Baudelaire, que me fez aprender francês; esse é um livro que foi fundamental para mim. Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, livro que me acompanhou durante muitos anos, é também um livro fundamental. Alguns livros de filosofia também mudaram a minha vida; por exemplo, Crítica da razão pura e Crítica do juízo, de Immanuel Kant, foram livros que me tiraram do eixo e me recolocaram em outro eixo. E não posso esquecer os textos de Walter Benjamin que habitam no meu imaginário há muitos anos, e foram muitas vezes relidos.
Entre as leituras marcantes da juventude, lembro de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, que li quatro vezes quando adolescente; foi uma leitura muito intensa. Cito também Machado de Assis, que a meu ver é uma leitura intensa para todos, uma leitura a que sempre voltamos. Também Virginia Woolf. E um livro fundamental na minha infância foi Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles, que aliás recomendo a todos; foi uma das leituras que me marcaram quando criança, e eu comecei a me interessar pela poesia a partir dessa obra.
Além desses, mais antigos, é importante falar dos textos que de algum modo me trouxeram de volta para o Brasil, e que me acolheram aqui quando cheguei; foram em grande parte textos poéticos. Tenho de falar de Lu Menezes, uma poeta que tem sido importante para mim; também Orides Fontela; meu colega e amigo Paulo Henriques Britto: sua obra foi e ainda é uma leitura importantíssima, uma leitura formadora. Aprendi muito sobre escrita poética com ele. Enfim, são muitos os autores fundamentais, os livros fundamentais na minha formação, mas eu mencionei alguns que de certo modo marcaram etapas na minha vida.
Atualmente tenho lido muita poesia contemporânea brasileira, dentro da minha pesquisa. É algo que me interessa trabalhar com poetas que, de algum modo, colocam em cena a questão da pluralidade linguística no seu trabalho poético. Eu comecei pensando que isso fosse uma exceção à regra, mas agora vejo que tenho uma pilha imensa de materiais que de uma maneira ou de outra trabalham com isso. Normalmente pensamos que a poesia tem relação com a língua materna, com o ritmo da língua materna – e tem mesmo. Mas tem a ver também com certo estranhamento em relação à língua materna, um olhar de fora; e nesse sentido muitos poetas são também tradutores ou, de algum modo, têm um trabalho que incorpora, de muitas maneiras diferentes, esse estranhamento em relação à língua e a relação com outros idiomas, propondo diversos tipos de abordagem como misturas lexicais, influência da sintaxe de outras línguas, autotradução...
Para mencionar um exemplo, trabalhei recentemente com Josely Vianna Baptista, que é uma grande poeta brasileira contemporânea, cuja poética surge dos seus estudos da língua mbyá-guarani, o que implica uma reflexão sobre a linguagem. Ela tem vários livros, e um livro especificamente é, metade dele, composto por traduções de cantos desse povo indígena, e a outra parte são textos dela que de alguma forma se relacionam com esse material traduzido. Enfim, eu tenho trabalhado muito com isso. Reli recentemente Roça barroca, da Josely, para pensar isso; li recentemente também, dentro dessa chave, fazendo um diálogo com ela, A queda do céu, de Bruce Albert e Davi Kopenawa, que também é uma figura incrível de intérprete. É algo que me tem interessando bastante, essa questão da pluralidade linguística no interior do território brasileiro, das línguas indígenas, portanto. Então andei lendo isso recentemente.
Quanto às minhas recomendações de leitura, há muitas obras interessantes para indicar. Todos esses que eu mencionei são recomendações de leitura, são autores que me interessaram e que eu recomendo. Walter Benjamin é uma recomendação de leitura. Também Franz Kafka, Marcel Proust... E de autores do Brasil contemporâneo, são tantas pessoas interessantes. Lu Menezes, Luci Collins, Josely Vianna Baptista, Marília Garcia, Ana Martins Marques, Aline Bei são recomendações de leitura.

6) A Literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, outras, como forma de abrir nossos olhos para as suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua própria escrita?

Eu acredito que seja mais uma forma de abrir nossos olhos para as sutilezas da realidade. Podemos pensar, por exemplo, que a leitura absorvente de um romance, de alguma forma nos desloca daquilo que está acontecendo aqui e agora e nos transporta para outro universo; mas, de certo modo, também nos faz projetar uma distância crítica em relação às situações cotidianas, e pensá-las de outro modo. Não digo que a literatura faça isso necessariamente, até porque temos de dissociar o texto literário e a dimensão política; há uma política nas produções literárias, claro, mas há textos que não necessariamente apresentam questionamentos em relação ao nosso mundo. Eu acredito, porém, que a leitura literária nos permite criar uma distância em relação à realidade imediata e, por isso, indiretamente incita a colocarmos questões, a questionarmos o que encontramos no mundo real. 

7) Todos já fizeram poemas algum dia, em geral na juventude. Você já escreve poesia há muitas décadas. O que a faz permanecer poeta?

Eu sou uma jovem poeta, na verdade. Não sou uma pessoa jovem, mas sou uma jovem poeta. Eu escrevi poemas na minha infância e na minha juventude, mas depois fiz mestrado e doutorado, e minha ambição foi para os estudos, para uma escrita ensaística. Eu estudei Filosofia, e deixei de lado essa escrita poética por muitos anos; fiquei vivendo muito tempo fora do Brasil, escrevi por muito tempo só em francês e só textos teóricos. E o desejo de escrever poesia surgiu em um momento em que estava querendo voltar ao Brasil, querendo voltar a escrever em português, e tinha começado a traduzir alguns textos meus do francês ao português. 
O meu livro de estreia, Bye bye Babel, foi lançado em 2018 e reeditado em 2022 com poemas novos. Agora acaba de sair na França também, reescrito por mim mesma num processo que incluiu tradução, recriação e uma série de novos poemas escritos diretamente em francês. Um segundo livro de poesia deve sair ainda em 2023 pela Relicário edições. Chama-se Sombras longas. Enfim, essa escrita com objetivo de publicação, esse projeto poético mais maduro, só surgiu muito recentemente, embora a poesia tenha sido sempre muito importante para mim.

8) A partir da sua experiência como professora, o que você considera mais importante na leitura em sala de aula? Como formar alunos que sejam leitores proficientes?

Eu acredito que, para formar leitores, é preciso suscitar ocasiões para leitura, e é preciso conversar sobre o que foi lido. É importante esse compartilhamento de leituras, a conversa sobre as leituras, a criação de um espaço afetivo de troca em torno do texto lido. Isso ajuda a desenvolver essa proficiência leitora. Em sala de aula, é importante que se coloquem situações de leitura que são coletivas: ler juntos, ler em voz alta. Isso cria uma dinâmica interessante e inscreve o texto numa dimensão menos individual, o que ajuda a alcançar essa proficiência de leitura. Mas a experiência da leitura individual em casa é muito importante também, até para animar as conversas em aula. 

9) A atividade de professora repercute no trabalho como poeta? E vice-versa?

Sim. O trabalho como poeta repercute em sala de aula, porque, claro, ao escrever poesia, eu acabei conhecendo certas técnicas poéticas, e isso acaba ajudando a pensar e a discutir os textos. O fato de escrever poesia traz uma vivência, uma consciência de certas técnicas, da dimensão artesanal do texto, e essa vivência ajuda no trabalho como professora, sim. E a atividade de professora também repercute na atividade poética. É muito estimulante essa experiência de ler em voz alta e ouvir textos na voz das pessoas. Para mim isso é estimulante, sobretudo no que concerne ao texto poético. Ouvir o texto em várias vozes tem, para mim, um efeito de estímulo à criação, já que o poema surge do ritmo, vem com o ritmo da língua.
Aliás, eu preciso contar esta anedota. Há um poema que eu escrevi assim: ia andando para a PUC, onde trabalho, e o poema veio vindo na minha cabeça. Quando cheguei à sala, comecei a dar a minha aula e, no momento em que havia uma tarefa em grupo para os alunos, eu anotei o poema. Ninguém sabe, ninguém viu, mas o primeiro esboço do poema surgiu ali em sala de aula. E significativamente esse poema se chama Língua materna, e é dedicado ao meu filho. Percebo que há um estímulo que vem das vozes de alunos e alunas lendo e se empolgando com os textos. E isso é muito importante.

10) Quais as qualidades de um bom leitor?

Acredito que a maior qualidade de um bom leitor é não se assustar com o que não é compreendido, ou seja, o leitor deve “montar no próprio tombo”. Essa é uma imagem de uma poeta brasileira contemporânea, Simone Brantes; eu gosto dessa expressão. É preciso não se assustar com o incompreendido e entender que é a partir do que não foi compreendido que podemos construir uma interpretação. É naquilo que fica em aberto, naquilo que fica indeterminado que algo pode surgir. Portanto, um bom leitor é a pessoa que não se assusta diante do que não ficou imediatamente compreendido, e que, ao contrário, parte dali, entendendo aquela incompreensão como um desafio produtivo, e não como algo que o coloca para escanteio. Enfrentar a frustração que temos diante da não compreensão é uma maneira de entrar no texto, e o bom leitor está tranquilo com isso. Às vezes colocar boas questões a partir de um texto lido é mais interessante do que trazer respostas, às vezes o texto nos suscita mais questões do que respostas. Isso também é algo que tem a ver com a não compreensão; há coisas que realmente não vamos resolver, mas aquele enigma no texto é um ponto de partida.


Esta entrevista foi realizada como parte das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato.


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Entrevista: Isabel Diegues — leitura, palavra e a delicada arte da edição

 por Romanita Santiago e Gabriele Santiago 

foto por Simon Schwyzer


Isabel Diegues é escritora, editora e cineasta. Formada em Letras pela PUC-Rio, é hoje Diretora Editorial da Cobogó e atuou como roteirista, produtora e diretora de cinema. Organizou publicações como Adriana Varejão – entre carnes e mares (2010), 5 x favela (2010), Pintura Brasileira Séc. XXI (2011), Gerald Thomas – Arranhando a superfície (2012), Paulo Nazareth, Arte Contemporânea/LTDA (2012), a série de entrevistas com Hans Ulrich Obrist (2010-2021) e ainda as coleções O livro do disco (2014-2023) e a Coleção Dramaturgia (2012-2023). Em sua produção cinematográfica, destacam-se os premiados curtas-metragens Vila Isabel (1998) e Marina (2003), dos quais foi roteirista e diretora. Em 2016, lançou o livro Diário de uma digressão (Uma viagem ao sertão do Piauí da Serra das Confusões até o mar), parte do Projeto Piauí, viagem que resultou em uma exposição de mesmo nome, e Arte Brasileira para Crianças, livro de atividades escrito a partir de artistas brasileiros, em conjunto com Mini Kert, Priscila Lopes e Márcia Fortes. Reside no Rio de Janeiro, onde, em 2006, também foi uma das fundadoras deste intrépido jornal Plástico Bolha.


1) Como a Literatura entrou em sua vida e como você se relaciona com ela hoje?

Leio desde criança. Primeiro através da leitura de clássicos infantis, através da minha mãe, que lia para mim e para o meu irmão Francisco. Depois, uma amiga querida, um ano mais velha e minha amiga até hoje, a Silvia, aprendeu a ler antes, e lia tudo pra mim. Passávamos horas lendo juntas, ela em voz alta. Em alguns momentos da vida li muito, noutros menos. Mas os livros sempre fizeram parte da existência, da minha vida. Não sei viver sem eles.
 
2) Sendo uma profissional da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser uma “leitora amadora”? Há um botão de liga/desliga?

Sou uma pessoa só, com interesses e desejos diversos e leio sempre com prazer, curiosidade, mas cada leitura pede uma dedicação diferente. Quando estou editando, estou atenta a questões que surgem na minha leitura avulsa, de títulos publicados por outras editoras, e aquilo que encontro que me parece fora de lugar, desestruturado ou passível de ser lapidado vai seguir como está. Mas confesso que por vezes faço umas marquinhas de revisão em livros que estou lendo pessoalmente, não como profissional. Mais que um vício, gosto de apontar caminhos, frases belas, ideias instigantes e trechos que gostaria de voltar com facilidade no livro.
 
3) Em todo verdadeiro artista, a arte e a vida são uma coisa só. O que você acha dessa afirmação? Há separação?

Não há regras. Pode ser de muitos jeitos. E essa é a graça da vida e da arte.
 
4) Quais os livros fundamentais na sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual?

Não tenho um livro preferido dentre todos. Os mais importantes mudam também ao longo da vida. Mas alguns autores me acompanham, como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Clarice Lispector, Paul Auster, Mario de Andrade, Orhan Pamuk, Octavia Butler, Ana Maria Machado. São muitos os autores que me formaram. Gosto de ler meus contemporâneos, e principalmente os brasileiros, Jeferson Tenório, Carola Saavedra, Grace Passô, Daniel Galera, Marcio Abreu, são muitos.
 
5) A Literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, outras, como forma de abrir nossos olhos para suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua própria escrita?

A literatura, assim como a arte, nos sensibiliza, diverte, ensina, alerta, assusta, é um aspecto da vida, fundamental para a existência humana, e para nos compreendermos no nosso tempo e em perspectiva.
 
6) Em qual momento você soube que queria trabalhar como editora de livros?

Até ser convidada pela minha sócia Márcia Fortes a montar uma editora, jamais havia pensado a respeito. Assim que comecei a entrar nos textos, descobri que eu já editava, há muito, trabalhos e criações de amigos próximos com quem discutia o meu trabalho e os deles. 
 
7) De todos os livros que você já editou, existe algum com o qual você se identifica mais e por quê?

Os livros fazem parte de determinados momentos da nossa vida. Alguns são especialmente gostosos de fazer não apenas por seu texto, mas também pelas discussões que suscitam, pelas pessoas com quem se pensa junto as eventuais soluções, ou apenas porque são belos e nos tocam. O primeiro livro que editei foi muito maravilhoso de fazer, Saga lusa, o relato de uma viagem, de Adriana Calcanhotto. O texto ia me chegando aos poucos, por e-mail, antes mesmo de ser um livro, e fui juntando os pedaços dessa que era uma viagem de turnê, mas também um perder-se de si, que recobra a lucidez através do próprio texto, da literatura. 
 
8) O que você leva em consideração ao publicar um livro? Quais são os seus critérios para a seleção dos livros que edita?

Publico o que acredito que precise ou mereça ser lido. E, claro, levando em conta a viabilidade dos projetos. Faço livros porque amo livros, mas vivo de vendê-los.
 
9) Você já se arrependeu de algum livro que editou? Caso sim, qual o motivo?

Nunca me aconteceu.
 
10) A Editora Cobogó está em um projeto interessante de entrelaçamento com o Teatro. Como está sendo a experiência de publicar a dramaturgia brasileira contemporânea em livro?

Tem 10 anos que publicamos dramaturgia, e já são mais de 90 títulos. Esta é uma coleção muito cara para mim. Tem muito a ver com os meus interesses não apenas no teatro, mas na performance do texto, na performance da leitura, seja individual ou coletiva. É onde publicamos na Cobogó o que podemos chamar de ficção. Ainda que muitas delas sejam verdadeiras teses ou ensaios. É onde discutimos a força e a singularidade do texto, e tantas outras questões que muito me interessam. Temos autores fenomenais.
 
11) Quais as qualidades de um bom leitor?

O bom leitor é aquele que se interessa pelo que está lendo. Que não tem medo de abandonar o texto quando não lhe interessa mais, mas também tem a persistência de seguir adiante, brigar com uma eventual preguiça de continuar a leitura, e que se propõe a se confrontar com as questões do textos, se dedicar a ele. O bom leitor é aquele que se oferece ao texto, e faz um pacto de cumplicidade que pode, ou não, acabar ao final da leitura. O bom leitor é aquele que, acima de tudo, se apropria do que está lendo.



Esta entrevista foi realizada como parte das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato. 

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Entrevista: Lorena Pimenta, atravessamentos pela palavra

por Anaili Sousa e Matheus Guariento


Lorena Pimenta, autora afro-brasileira de 31 anos, é formada em produção audiovisual. Publicou, em 2017, o livro de contos Juro, foi quase amor, pela Editora Transversal, e participou da coletânea Chorar de alegria, publicada pela Globo Livros. Carioca, canceriana e aberta a tudo o que a vida tem a oferecer. Gosta de observar o mundo e retratá-lo com poesia em suas histórias e textos. Nesta conversa com o Plástico Bolha, ela nos conta um pouco sobre a sua relação com a leitura e a escrita.

1) Como a literatura entrou em sua vida e como você se relaciona com ela hoje?

A literatura entrou na minha vida ainda criança quando uma vizinha, professora, me presenteou com um livro no meu aniversário. Na dedicatória escreveu que desejava que a leitura se tornasse parte indispensável da minha vida. Anos depois, emocionada, ela chorava na fila de lançamento da minha primeira obra — Juro, foi quase amor. O livro que ela me deu foi Os cavaleiros da távola redonda. Me conectei especialmente ao contexto de amores impossíveis. Aquilo me inspirou de alguma forma. Me trouxe identificação, adrenalina, paixão. De lá para cá, eu deveria ter uns 9 anos de idade, não parei mais de ler. A literatura, daquele tempo até hoje, é o modo que encontro de me entender e mergulhar no mundo. É como mapeio meu coração e dou nome aos meus sentimentos para vivê-los melhor. Muitas vezes, amadureço enquanto ser humano nas entrelinhas das obras. Aprendo com os personagens. Permito que os livros me leiam mais do que eu os leio. A literatura é uma cavidade do meu coração.

2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se poeta ou torna-se poeta?

Acredito que a poesia está em todos, mas alguns decidem vivê-la. Falo da poesia da vida como um todo. Agora, enquanto profissão, é preciso muito mais que inclinação, dom. É preciso dedicação, estudo e disciplina. É preciso insistir e evoluir enquanto autor. Além de aprender sobre o mercado como um todo. Dizem por aí que escrever um livro é sempre mais fácil do que vendê-lo.

3) Sendo uma profissional da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser uma “leitora amadora”? Há um botão de liga/desliga? 

Ao trabalhar com livros, é impossível lê-los e não fazer determinadas análises ou pausar a leitura algumas vezes para anotar inspirações ou impressões sobre técnicas. Contudo, isso não impede que eu aproveite a obra como um todo e me entretenha com ela. Acho que é complementar. Talvez eu tenha aprendido a ler melhor ao escrever. São processos entrelaçados.

4) Você consegue separar a sua obra da sua vida? ou vice-versa? Fale um pouco sobre a sua relação de vida e obra, se elas se interligam para você ou não.

Minhas obras se interligam com minha vida por diversos motivos. Um deles é o recorte de ser uma mulher negra, lgbt+, por exemplo. Minha perspectiva sobre amor e outros sentimentos acabam tendo esse atravessamento. Assim como a construção de textos e personagens (estou trabalhando num romance agora). E na hora de compor determinados aspectos, por mais diferentes que tenham sido da realidade, não deixo de beber na fonte dos sentimentos que já experienciei ou tenho ânsia (ou medo) de experienciar.

5) Qual sua obra literária favorita?

Pergunta difícil. A mais difícil até agora (risos). Tenho algumas obras. É quase uma traição citar apenas uma. Então, deixarei três: Hibisco Roxo, de Chimamanda [Ngozi Adichie], Caderno de um ausente, de [João Anzanello] Carrascoza; e A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe.

6) Lorena, sabemos do seu lindo trabalho na coletânea Chorar de alegria. Você pode nos dizer qual é o seu texto favorito do livro e por quê? Como foi escrevê-lo? O que te inspirou? E como você olha para o texto hoje em dia?

“Quando o mar virou gente”. É um texto que me traz nostalgia. Tem paixão, mas, ao mesmo tempo, é dolorido. É a descrição do processo de reconhecer o fim, o desamor e nomear sentimentos. Escrevi numa tacada só, com o peito transbordando. Foi como correr e colocar lágrimas no mundo através do suor. Me inspirei numa antiga paixão. Olho com alívio por estar vivendo um amor saudável, calmo e gostoso. E também com alegria por ter evoluído tecnicamente, mas, ainda assim, ter muito carinho por tudo o que foi escrito ali.

7) O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual?

Terminei de ler Nunca vi a chuva, do Stefano Volp, e estou no finalzinho de O quarto de Giovanni, do James Baldwin. Não sei se indicaria um livro em específico para o momento atual, mas diria para as pessoas ficarem ligadas no trabalho dos autores que estão surgindo. É importante ler clássicos, mas também é importante dar valor ao que está nascendo agora. Acredito que todo autor traz certo retrato de sua geração. E, é claro, complementaria dizendo para buscarem diversidade nas leituras. Leiam autores negros, indígenas, lgbt+. Leiam mais mulheres. Leiam mais autores latinos. Gastem realmente um tempinho na busca do que pode interessá-los em vez de seguirem sempre pelo mesmo caminho.

8) A literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, outras, como forma de abrir nossos olhos para suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua própria escrita?

Acho interessante encontrar um meio termo. Trazer temas atuais, orientar pessoas, trazer à tona problemas sociais, mas com leveza e humanidade para que gere empatia. Assim como colocar respiros dentro das obras. Acredito que a empatia possui um poder imenso de chocar pessoas. De fazê-las pensar e mudar de um jeito mais intenso e rápido. Não existe apenas um jeito de contar determinadas histórias, sabe? O que tenho visto agora no trabalho da maior parte dos novos autores negros é justamente isso. Abordar temas importantes sem excluir outros aspectos que são tão comuns à vida de todos. Tenho buscado esse caminho no meu atual trabalho, que está em andamento.

9) Quais as qualidades de um bom leitor?

Sentir o livro. Permitir que a obra te leia em vez de apenas lê-la. Não ter pressa, mas interesse.


Esta entrevista foi realizada como parte das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato. 

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Entrevista: Paulo Henriques Britto, o notório saber da palavra

por Paula Reis Vianna, Miguel Suzarte e Mika Cordero



Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. É escritor premiado, professor e tradutor. Publicou sete livros de poesia, o mais recente deles sendo Fim de verão (2022), e dois livros de contos. Para o jornal Plástico Bolha, ele exerce um papel quase originário, já que a iniciativa de criação do jornal veio de suas oficinas de poesia na PUC-Rio. O encontro com Paulo é sempre uma alegria. 


1) Como a literatura entrou em sua vida e como você se relaciona com ela hoje? 

Desde os seis anos de idade sou um leitor compulsivo. A partir dos 22, quando comecei a traduzir, percebi que a literatura ia ser também o meu trabalho; essa consciência se reforçou ainda mais quando, depois de fazer mestrado em linguística, comecei a pesquisar e ensinar poesia e tradução de poesia. 


2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se poeta ou torna-se poeta? 

Como em qualquer outro tipo de trabalho, a pessoa deve ter uma disposição inicial para a poesia — amor às palavras, algum talento — e muita dedicação: ler, ler muito, ler muitíssimo, e escrever constantemente. Sem trabalho, ninguém se torna poeta — nem músico, nem pintor, nem matemático, nem coisa nenhuma. 


3) Sendo um profissional da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você̂ consegue ser um “leitor amador”? Há um botão de liga/desliga? 

Muito difícil desligar esse botão. Claro que, quando estou mergulhado num romance, há momentos em que sou apenas um leitor, mas a qualquer instante posso me deparar com uma passagem que desperte uma série de considerações — para usar a sua palavra — profissionais. O mesmo se dá com um poema. Quando leio versos que me empolgam, há um momento de pura entrega, mas logo em seguida sinto a necessidade de entender por que motivo o poema me afetou tanto; e aí faço uma análise formal e semântica, e invariavelmente descubro onde reside a causa do impacto do texto. 


4) Em todo verdadeiro artista, a arte e a vida são uma coisa só. O que você acha dessa afirmação? Há separação? 

Sim e não. Sim, porque a qualquer momento você pode ter um impulso de escrever, uma ideia, uma motivação concreta, com origem por vezes numa atividade cotidiana; qualquer ocorrência na sua vida pode vir e ser utilizada na sua produção artística. Mas ninguém passa vinte e quatro horas vivendo em estado de imersão artística; há momentos que são vividos apenas como tais, e não como material para elaboração artística. Ninguém? Bem, talvez haja alguns artistas assim, principalmente entre os músicos; mas imagino que sejam componentes de uma minoria. 


5) Quais os livros fundamentais para a sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual?

São perguntas que eu levaria dias para responder! Vou ter que ser muito sucinto. Na área de poesia, os poetas que mais me marcaram foram, num primeiro momento, alguns poetas de língua inglesa que li por volta dos onze, doze anos, quando morava nos Estados Unidos: Shakespeare, Whitman, Poe, Dickinson. Quando voltei para o Brasil, descobri Pessoa, e pouco depois Bandeira e Drummond; em torno dos vinte e poucos anos, fui muito marcado pela leitura de Wallace Stevens e Cabral, e um pouco depois por Kaváfis. Esses são apenas alguns dos mais importantes para a minha formação. No momento, estou lendo o livro mais recente da crítica de poesia norte-americana Marjorie Perloff, Infrathin: an experiment in micropoetics. Quanto a leituras indicadas para o momento atual, isso vai depender do interesse de cada um. De novo, para ficar na área de poesia, vou citar apenas dois ou três nomes de poetas brasileiros contemporâneos que venho acompanhando de perto: Edimilson de Almeida Pereira, André Capilé e Claudia Roquette-Pinto. 


6) A literatura é, por vezes, considerada como escape da realidade e, outras, como forma de abrir nossos olhos para suas sutilezas. Como lida com essas percepções em sua própria escrita? 

A meu ver, a boa literatura nos obriga a enfrentar de modo mais direto a realidade, com tudo o que nela há de complexo e mesmo duro. A literatura nos faz tomar consciência da condição mortal, entre muitas outras coisas. Na minha escrita, estou sempre tentando entender em que lugar estou, tentando dar sentido às minhas vivências, mesmo quando escrevo coisas que estão longe de ser autobiográficas. 


7) Todos já fizeram poemas algum dia, em geral na juventude. Você escreve poesia já há muitas décadas. O que te faz permanecer poeta? 

A leitura e a escrita constantes, e a vontade — por vezes necessidade — de escrever. 


8) “Traduttore, traditore". A tradução é, necessariamente, fadada à imprecisão? 

É possível pôr ao mundo uma tradução isenta de marcas pessoais e infidelidades à obra original? De novo, uma pergunta muito ampla, que não vou ter espaço para desenvolver aqui. De modo geral, o que posso dizer é que nenhuma tradução é exata, mas isso não é um problema específico da tradução, e sim de toda e qualquer intervenção humana. Não há traduções perfeitas pelo mesmo motivo que não há tratamentos médicos que garantam saúde perfeita e imortalidade, nem engenharia do trânsito perfeita que acabe com os engarrafamentos em caráter definitivo. Do mesmo modo, toda tradução guarda marcas pessoais do tradutor, mas isso não é uma característica exclusiva da tradução: é impossível realizar praticamente qualquer atividade sem algum viés, alguma marca pessoal. As limitações da tradução são reais, tal como são as de qualquer outro empreendimento humano. 


9) Como está sendo a experiência de ser avô? Isso influencia de algum modo sua produção? 

Creio que a única influência direta é que tem me levado a escrever narrativas que eu possa ler para meus netos. 


Esta entrevista foi realizada como parte das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato. 


sexta-feira, 12 de abril de 2024

Entrevista: Ana Chiara, entre leituras e memórias

por Lucas Viriato

 


Ana Chiara é professora na Faculdade de Letras da UERJ e autora de obras acadêmicas aclamadas sobre literatura brasileira contemporânea. Seus livros incluem Pedro Nava: um homem no limiar (2001), Ensaios de possessão: Irrespiráveis (2006), Machado para jovens (2008) e Corpos diversos (2015), entre outros. No Jornal Plástico Bolha, ela já foi entrevistada na edição número 8, teve uma coluna fixa e publicou diversos textos avulsos, ou seja, é uma parceira e colaboradora de longa data. Passados tantos anos, já era hora de atualizar o nosso bate-papo com ela, e o resultado foi uma conversa repleta de poesia, lembranças e afeto. 


1) Como a Literatura entrou em sua vida e como você se relaciona com ela hoje?

Acho que entrou como refúgio. Conhece o poema “Infância”, de Carlos Drummond? “eu menino entre mangueiras/ lia a história de Robinson Crusoé”? Eu posso dizer: “eu, menina entre dois irmãos homens, lia”. Era gordinha e não brilhava em nenhum esporte, mas era muito estudiosa e estudar era fácil. Por causa disso, para me livrar da ansiedade de conviver com os meninos atléticos e levados, ia para a ilha da leitura. Eu me mostrava para meus pais. Queria ganhar o amor deles.

2) Dom, inspiração, trabalho, achado: nasce-se poeta ou torna-se poeta? 

Alguns nascem definitivamente poetas, são os que facilmente acessam as zonas da sensibilidade. Conheço pessoas que têm um pensamento e uma fala totalmente poéticos, mas nem se sabem poetas. Outros têm veleidades de serem poetas, estes têm de trabalhar mais: conhecer as máquinas dos poemas dos outros e se exercitarem. Outros ainda tropeçam nos achados. Ferreira Gullar contava que vinha distraído, pela Praça Mauá, num feriado. A cidade vazia. De repente sente um vrum ventando no seu rosto. Foi um pombo. Foi um achado. A partir de então ele explicava esse “espanto” como a poesia.

3) Sendo um profissional da palavra, o seu olhar está sempre afiado, ou você consegue ser uma “leitora amadora”? Há um botão de liga/desliga?

Consigo com perfeição isso como espectadora, sou totalmente aberta às impressões do coração quando vou ao teatro, assisto a um filme. Como leitora sou mais viciada, como se usasse um lápis corretor nos olhos. A verdade é que hoje em dia sinto dificuldades em ler: ou por cansaço físico, ou por cansaço da vista, rinite, ou por dificuldade de memória. 

4) Em todo verdadeiro artista, a arte e a vida são uma coisa só. O que você acha dessa afirmação? Há separação?

Acho que não existe um verdadeiro artista, porque isso depende do que a sua época julga ser um artista. Implico com esse mito vanguardista nietzschiano de fazer de sua vida uma obra de arte. É um mito burguês e machista. As mulheres têm a capacidade de fazer mil coisas práticas enquanto estão fabulando. Só os homens precisam de “ambiente”, “sossego” e, muitas vezes, drogas, para serem artistas. Artistas de teatro ou de TV por vezes embarcam nessa ilusão, tornando a vida dos outros um inferno. João Antonio, para viver seu “corpo a corpo com a vida”, precisou de uma mulher que ajeitasse a vida dele. O bom da arte é poder entrar e sair de mundos alternativos ao seu.

5) Quais os livros fundamentais para a sua formação? O que está lendo agora? O que indica como leitura para o momento atual?

Tudo que li me formou para o bem e para o mal, digamos assim. Estou lendo agora, e recomendo, Cobra Norato, de Raul Bopp, e Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa, fazendo leituras extensivas. Não gosto de ler o que todo mundo está lendo. E detesto quem joga uma estante de leituras “atuais” numa conversa. Porque acredito que a gente demora muito para assimilar o que lê.

6) Ultimamente temos nos debruçado sobre o poema “Cobra Norato”, de Raul Bopp. O que mais te encantou no poema?

Este poema é genial. Porque mistura muitas camadas de linguagem. É como se Bopp tivesse recuperado a inocência iluminada que as crianças têm para ver "com olhos livres", sem imitar o tatibitate de muitos livros infantis. A viagem é uma viagem assustadora e ao mesmo tempo cheia de ternura, movida pelo desejo amoroso. Quero copiar passagens para meus netos e ilustrar com colagens.

7) O que te leva a escrever poesia?

Não diria que escrevo poesia. O que escrevo na maioria das vezes é uma notação existencial.

8) Você dá aulas desde 1977. Uma vida na sala de aula, da qual você está prestes a se aposentar. Com todas as dores e delícias, valeu a pena?

Valeu uma vida. 

9) Poderia contar um pouco sobre sua infância em Minas?

Eu vim de Belo-Horizonte, onde nasci, com três anos. Não me lembro de nada de Belô...Minhas memórias vêm de minhas idas à Fazenda da família do meu pai e do convívio com os mineiros do interior. São lembranças ótimas e aterradoras. Tinha os banhos de rio no Rio Preto, no Ribeirão. Tinha os primos, o primeiro alumbramento. Quando chovia no verão, os relâmpagos e trovões eram tremendos. A gente acendia os ramos do Domingo de Ramos e esperávamos passar. Convivi com os empregados que tinham causos que o Rosa podia ter roubado. Minha mãe comandava tudo. Ela cozinhava em fogão de lenha e em panelas de ferro. Minha mãe se dava muito bem com os animais. Tinha uma mula que era da pomba gira Rosa de Fogo. Essa mula subia os degraus da cozinha. Só obedecia à minha mãe. Tudo fantástico.  

10) Como está sendo a experiência de ser avó?

A experiência de ser avó é poder ver a vida acontecendo de uma forma absolutamente encantadora. A menina e o menino recuperados em mim, para mim. 

11) Quais as qualidades de um bom leitor?

Para cada tipo de texto, um leitor esperto, sábio ou amoroso. Muitas vezes leio com a ironia sentada no meu colo. 



Esta entrevista foi realizada como parte das atividades de práticas extensionistas realizadas junto aos alunos da graduação em Letras da PUC-Rio, sob a supervisão da professora Helena Martins e com a coordenação de Suzana Macedo e Lucas Viriato. 




segunda-feira, 1 de março de 2021

Que tempos são esses, Ignácio de Loyola Brandão?

 

Há muito o que se perguntar a um escritor da grandiosidade de Ignácio de Loyola Brandão, ainda mais com a inata curiosidade de extrair de um acadêmico ideias, vivências e percepções do mundo. No entanto, foi impossível não pensar numa pauta para esta entrevista em que a palavra tempo não se fizesse presente nas questões, ainda mais quando se percebe o quanto a pandemia da Covid-19, causa da morte de quase 140 mil brasileiros, nos obrigou a lidarmos com a urgência do tempo. Quando iremos tomar a vacina que irá nos tirar desta incômoda paralisia da vida? Quando seremos livres para nos abraçarmos e nos aproximarmos daqueles que não vemos há mais de seis meses? Em março governadores decretaram a quarentena, e a partir daí o distanciamento social foi necessário para conter o avanço do contágio do novo coronavírus.

Em Tempo. Conheço o Loyola há mais de vinte anos, quando fora meu editor na revista VOGUE. Foi preciso o tempo de uma quarentena para despertar em mim a vontade de realizar a entrevista, portanto, o tempo é o hoje!
 

Elisa – Loyola, estamos sob a ameaça de um vírus, e em função disso, tivemos que nos isolar. No entanto, isolar-se não é nenhuma novidade para um escritor, que precisa mergulhar em seu interior para dali extrair personagens, criar uma história. Dentro do atual cenário, pode-se supor que agora escrever é isolar-se duas vezes, no individual e no coletivo? 
Loyola: Neste momento, Elisa, escrever é romper a solidão, sair do cômodo confortável, e procurar saber como os outros estão vivendo, sobrevivendo, sofrendo. Saber como tudo afeta cada um, como cada um, sem nenhuma experiência nesta situação, precisa se reinventar, descobrir uma nova forma de viver, trabalhar, se defender, sobreviver. Os personagens nunca são retirados apenas de nosso interior, mas de todos a nossa volta.  Cada personagem representa uma humanidade inteira. Perplexidade total. O que é isso aí? Vai terminar? Haverá outros momentos iguais? É uma praga tipo aquelas bíblicas que assolaram a humanidade? E a ciência? Tão desenvolvida e incapaz? E aí você pode calcular o tamanho do imbróglio.

Elisa – A escrita do próximo livro será afetada por essa realidade? De que forma?
Loyola: Será. Só não sei como, porque tenho um projeto na cabeça, mas não encontro o meio para desenvolvê-lo. Estou diante do desconhecido. Há mil faces nesta questão envolvendo vida, sobrevivência e principalmente morte. Ler jornais e ouvir notícias sem parar, como venho fazendo, não é suficiente. Pre de mais. Mais o que? Mais conhecimento de filosofia, historia, psicologia, antropologia, economia, até de religião e psicoterapia. Preciso me aventurar em projeções, invenções, imaginário. Preciso conversar com mais gente, mais, mais. Mas não posso encontrá-las cara a cara, posso matar o outros ou ser morto por eles. Tudo on line. Mas o humano se perde no on line, os sentimentos se esfacelam. Lives e mais lives. Mas as lives começam a me dar a sensação de que a fantasia entra dentro dela, as pessoas  te comunicam coisas idealizadas. O que gostaria que fossem e não o que são realmente. Não está, nem será fácil reencontramos conosco, ou com o outros. Como vamos conviver daqui para a frente?

Elisa – O livro Zero, escrito em 1974, ano em que eu nasci, é um grito por liberdade ante os tempos de chumbo que o país vivia pelo regime militar. Hoje parece que o tempo não passou. Clamam pela volta da ditadura, pelo fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. Isso significa que eu não nasci e o Zero foi censurado novamente. Que tempos são esses?
Loyola: ZERO foi um documentário feroz sobre um tempo feroz em que a vida humana e a liberdade nada significavam. Estamos lentamente mergulhando na mesma via de volta.  Reconheço uma coisa, havia certa inteligência nos militares. Nos dias de hoje estamos diante da mediocridade, da ignorância, do reacionarismo fatal, de pessoas toscas, semianalfabetas. Estamos retrocedendo, caminhando para trás. Cultura ameaçada, liberdade de expressão também. O cerco é maior a cada momento sob o comando de um homem que quer armar mais e mais o povo, um homem cuja mente é regida pelo manual de um dos mais sangrentos torturadores dos tempos ditatoriais. [Loyola se refere ao ex-chefe do DOI-CODI, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de crimes de tortura, que foi citado pelo então deputado federal, Jair Bolsonaro, quando do seu voto a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, uma das vítimas do torturador]. Usos, costumes, moral, hábitos, tudo tem cheiro de ranço. As queimadas não são apenas amazônicas e no Pantanal, são também nas ideias e na filosofia e na maneira de viver.

Elisa – Um grupo de amigos compôs a canção Que tempos são esses que falar de amor é quase um crime [composição de Zé de Riba e Walmir Pinto]. Loyola, falar de amor é quase um crime, um ato revolucionário ou um grito solitário?
Loyola: Falar de amor é crime, porque a fala agora é de ódio. Odeie o teu próximo. Cada vez mais. Nunca vi tanta polarização, antagonismo, inimigos criados a cada momento. Famílias divididas, dilaceradas. Como viver alimentado pelo ódio, se este nos corrói, nos envenena, nos provoca úlcera e câncer, nos destrói internamente? O ódio em vez de trazer vida, traz morte, destruição, nos envenena, nos afasta, enraivece, consome.  O ódio traz solidão e amargura e ninguém nasceu para viver solitário.

Elisa – Vamos dar uma leveza na entrevista. 2019, ano da sua posse na Academia Brasileira de Letras, (Loyola ocupa a cadeira de número 11 da ABL), aos 83 anos de idade. Houve um tempo em que acreditou que pertencer à ABL não seria um sonho possível? 
Loyola: Nunca foi sonho. Foi a partir de um determinado momento, já maduro. Nem imaginava ser candidato. De repente, me vi eleito, com a mídia proclamando: “Enfim um escritor”. Eleito por unanimidade. Lá estou. Veio a pandemia, acabaram as reuniões, nos distanciamos. Enfrento uma nova academia. Estive em duas reuniões, ainda não sei como é. Apenas sinto que temos lá imensa responsabilidade e não podemos nos afastar do mundo real.

Foto: Arquivo Pessoal


Elisa Marina