Domingos Guimaraes
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
LUAMÉRICA
Domingos Guimaraes
terça-feira, 18 de novembro de 2025
Neguinho
Neguinho era branco, muito magro, baixinho, feio, narigudo, pé grande e pau pequeno. Detestava futebol, novela, praia, churrasco e pagode, ou seja, tudo em Neguinho era estranho. Gostava de cinema europeu que assistia desde criança na cabine de projeção do centro cultural onde o tio trabalhava. Na verdade, o tio dormia e ele tomava contada projeção.
Amava a escuridão da sala de projeção. Como não sabia ler, podia inventar as histórias que quisesse para aqueles filmes, o mesmo filme poderia ter enredos completamente diferentes e como a sala vivia vazia, muitas vezes, podia terminar o filme a hora que bem entendesse. Na tela podia viver outras vidas, ser alguém, ali era impossível viver sem ele. Neguinho era Deus.
Foda mesmo era quando tinha que voltar pra casa, geral tinha mania de falar que morar no morro era maneiro, maneiro é o caralho! Os vizinhos eram tudo um bando de filhos da puta! Só por que a caxanga dele era de telha, muitos ficavam esculachando. As outras casas eram de laje, tinham umas até com antena parabólica, mas de que adianta? Eles moravam na favela que nem ele! Era tudo um a mesma merda.
Do lado da casa dele era um terreiro de macumba que tinha batucada todo dia, do outro lado da rua uma igreja evangélica com direito à música ao vivo, mal tocada e mal cantada. De manhã cedo abria a birosca da Edna que só tocava e pagode. Pra completar, ainda tinha a oficina do Jô que tocava funk o dia todo. Aquela mistura de som alto deixava qualquer um maluco. Ainda mistura de som alto deixava qualquer um maluco. Ainda dizem que a favela agora é pacificada.
Teve um dia que tacaram um cano de ferro que quebrou a telha e caiu na cama, exatamente onde ele dormia. Já pensou se ele tivesse deitado na hora? Morria! Essas paradas são sinistras!
Os arrombados dos vizinhos ainda foram chamar a polícia! Os PMs vão fazer o quê?
— Tô lá em casa, tranquilão. Escuto bater na porta, me aparece o Abelha com os PMs dizendo que eu quebrei o vidro da janela da casa dele. Quebrei mesmo, mas falei que não quebrei. Ele não falou que ninguém viu ele tacando o ferro no meu telhado? Falei logo que ninguém tinha me visto jogando a pedra na janela. Até provar que berimbau não é gaita rolou o maior bate-boca e ficou tudo por isso mesmo. Tem dia que me vem uns pensamentos neuróticos, todo mundo me vê assim, magrinho, baixinho, mas eu sou ruim! Vai vendo!
Neguinho desceu o morro do Vidigal bolado e quando viu aquele monte de gente descendo pra pista pra fazer uma manifestação na rua do governador, foi junto, nem sabia o que era, mas foi.
Quando chegou lá o bagulho já estava doido, cheio de carro de polícia, rolava tiro, bomba, spray de pimenta. Neguinho tremia de excitação, nem sabia mais pra onde estava indo, aquilo tudo era lindo, se sentia o cão solto no meio do redemoinho, quebrava os vidros dos carros, das portas dos bancos, das lojas. Saqueava as mercadorias e não era para roubar, era só pra botar fogo e ver tudo arder. Nunca tinha visto uma fogueira tão linda.
As luzes do fogo e das câmeras de TV se misturavam e ele mostrava mais a cara, sorria, saiu no jornal com foto e tudo. Agora era o vândalo procurando: José Desidério da Silva.
Márcio Januário
sexta-feira, 25 de julho de 2025
Pierre, o flâneur — texto de Eduardo Moraes
Pierre
acorda sempre às 5h em ponto já tirando a regata e as cafonas meias
compridas. Suando, como de costume, por se recusar a ligar o ar
condicionado. Pelo menos tinha aprendido a abrir as janelas para
entrar um ar. Já solta duas ou três bufadas quando ouve o barulho
da rua, corre à janela para espiar o que os transeuntes estão
fazendo no estimado bairro da Glória. Resmunga enquanto sorri
por dentro pela visão familiar de cada dia. Ele
era um daqueles branquelos com
a pele queimada do sol e, por mais que morasse no Brasil há muitos
anos, sempre ficava com a bochecha vermelha, denunciando a sua
cara de gringo. Usava aquele chapeuzinho de malandro que
ornava perfeitamente com a sua barriguinha de chope, que, de
fato, tinha muita história para contar.
Quando
chegou da França, vinte anos atrás, não tinha escolhido o bairro
para morar, foi a Glória que o escolheu. Pelo menos era isso
que ele contava quando queria romantizar a sua história no Rio de
Janeiro. A verdade é que veio ao Brasil a convite dos sócios de
Gaston Lenôtre para comandar a cozinha de um bistrô na Zona Sul
carioca, métier que
não vingou pela sua falta de assiduidade no trabalho. Rapidamente
deram a cozinha na mão do ainda não tão conhecido Claude
Troisgros, e Pierre ficou de mãos abanando.
Com
dinheiro apenas para mais um mês no apartamento que estava no
Flamengo, descobriu uma pensão simpática e barata na Glória, cuja
dona, Jussara, hoje uma grande amiga, aceitou recebê-lo em troca de
serviços gastronômicos até que ele encontrasse um emprego. Para
ele, estava ótimo, ainda mais considerando que aquele quartinho na
pensão era mais que o dobro do chambre
de bonne no 9ème
arrondissement de
Paris em que vivia antes de chegar ao Rio. E a localização era
ótima, bem perto do metrô da Glória, onde hoje funciona o hotel
(motel) Love
Time.
Só
que ele não parava em um emprego sequer, de modo que seus pagamentos
eram inconstantes e raros, mas assim foi levando por alguns meses.
Sorte dele que Jussara aceitava, porque o motivo era simples: ele
era um flâneur incurável.
Não
andava com tempo cronometrado ou preocupado com o caminho mais
rápido. Pierre ia vagando, passeando sem pressa pelas ruas, vendo a
vida acontecer diante dos seus olhos, contemplando cada detalhe e se
inspirando nas belezas que o Rio tinha a oferecer a ele diariamente.
E
Pierre desempenhava com louvor todas as modalidades de flâneur.
O vagabundo de Baudelaire. O flâneur investigador
de Allan Poe. Ou o “cronista da cidade” descrito por Walter
Benjamin. O azar é que nenhuma dessas modalidades era admirada pelos
seus chefes.
Enquanto
perambulava pelas ruas, nada mais importava. Ele só queria
bater perna, dar um borboleteio e flanar, ora! Foi
ficando mais simpático com o passar dos meses e por todos os lugares
pelos quais passava lançava um sorridente “Bonjour,
Monsieur”.
Como a rotina era diária, para os mecânicos da oficina, os padeiros
da rua e para o apontador do jogo do bicho, Pierre virou o “Seu
Mêsiê”.
O
pessoal brincava, mas no fundo gostava da sua formalidade, que nunca
o deixou tratar os outros sem ser por “vous”, que, com o tempo,
acabou virando "você".
Dizia
a todos que tinha parado de fumar quando completou mais tempo de
Brasil que de França. A exceção era quando estava irritado. E,
mesmo sem muitos motivos para estar, todo dia ele dizia que alguma
coisa o tinha tirado do sério, o que obrigava o homem a dar um
traguinho no seu cachimbo. Sempre na surdina, para ninguém notar. Só
que todo mundo notava. Quando
alguém o acusava, já apontava para o pôster amarelado do “La
trahison des images”
de
Magritte que tinha nos fundos da pensão dizendo “Ceci
n'est pas une pipe”.
Quando
ganhava um cascalho a mais, pagava o que devia à dona Jussara, que
nunca cobrava nem aplicava juros ou correção, e ia ao restaurante
da esquina, que era simples, mas delicioso, para pagar uma cerveja e
um jantar a ela.
Quem
comandava o boteco e morava no charmoso apartamento que ficava em
cima era Elba. Pierre, como 80% dos frequentadores, se apaixonou
por ela. Classuda, inteligentíssima e muito bonita.
“Elle
est très jolie, cette femme, mais bien plus que ça”.
Ele
achava muito irônico estar apaixonado por uma mulher que levava o
nome da ilha italiana em que Napoleão foi exilado.
Ainda
mais pelo fato de seu nome ter sido escolhido justamente pela raiva
de sua mãe, Hilda, professora de História na rede pública, pelo
pai, Seu Napoleão, um cara muito bonito que parecia que não
envelhecia, e conhecido por ser um grande cafajeste por todo Rio
Comprido e adjacências. Não era Bonaparte, mas também era um
conquistador. Seu
apelido? O Príncipe Etíope, pela sua semelhança com o craque
Didi, da Seleção Brasileira, e que fez história no Fluminense e no
Botafogo.
Elba
começou a trabalhar muito cedo, sem nunca largar a escola, algo que
sua mãe não perdoaria. Formou-se na escola e, a duras penas, também
na faculdade de Administração. Depois de graduada tocou alguns
negócios bem-sucedidos com uns colegas de faculdade, até tomar um
golpe de um sócio.
Perdeu
tudo.
Ficou
mais cascuda, e também bem amargurada, de modo que perdeu o sorriso
fácil, que só aparecia quando alguém tocava alguma do Paulinho da
Viola ou do Jorge Aragão. Decidiu que seu novo negócio seria um
restaurante simples, agora sem sócios. E que toda sexta e sábado
teria samba. Afinal, no samba ela sabia que podia confiar. E
deu certo. Muito certo.
Bancava
a casa da mãe, que atualmente morava com seu novo marido, e também
os remédios do pai, que tinha dinheiro para tudo, menos para os
remédios do vitiligo, que o afetava muitíssimo por influenciar sua
aparência, apesar de não diminuir em nada os casos que arrumava
pelo Rio de Janeiro.
Um
dia, bem na hora de fechar o recinto, Pierre apareceu por lá dizendo
que era a décima vez que ia no restaurante e que queria chamá-la
para jantar. Mas que nunca tinha tido coragem.
Ela
disse que não era assim que funcionava, mas gostou da
ousadia. Falou
que ia pensar e subiu para casa com um sorriso no rosto, que Pierre
não achou que tinha sido por sua causa, já que ao fundo tocava
“Timoneiro”. Sorriu porque viu que as palavras eram sinceras
e não mais um papinho de um gringo fetichizando uma mulher
preta brasileira, como já tinha vivenciado dezenas de vezes.
Na
décima primeira ida ao bar, ele renovou o convite, agora com mais
convicção. Ela curtiu, mas disse que preferia um café da manhã.
Ele topou, é claro, porque não podia perder a oportunidade, mas por
dentro pensou não entendia muito bem essa história
do petit-déjeuner se
chamar, em português, “café da manhã” e ser mais do que apenas
um café.
O
romance vingou.
E,
conforme evoluía, Pierre percebeu que não sustentaria por mais
tempo nas condições de vida que levava. O nome de Elba era
trabalho e o sobrenome, hora extra. Ela
valorizava demais a labuta. E também não dava para levá-la para a
pensão de Dona Jussara dia sim dia não. Ao mesmo tempo, não
conseguia abandonar sua alma de flâneur.
Enfim, tomou uma decisão: por Elba, acordaria mais cedo ou dormiria
mais tarde para poder flanar antes e/ou depois do horário comercial
e provaria a ela que sabia e podia trabalhar bem.
Elba
falava pouco com palavras, mas muito com o olhar e percebeu a
movimentação de Pierre, até que decidiu fazer uma proposta de
trabalho. Ele comandaria a cozinha da birosca e lhe daria aulas de
francês em troca de um salário mais do que justo, que o ajudaria a
pagar suas dívidas na pensão. E tinha um bônus: se desse
certo, ela o colocaria para dentro de casa definitivamente. Ele
aceitou na hora.
— Ça
va aller, mon cœur -
puxando o “r” de propósito, porque sabia que ela gostava.
A
convivência diária não começou fácil. Mesmo depois de muito
tempo de curso, Pierre seguia jogando lixo no vaso, para terror de
Elba, que ficava louca quando o via lançar na latrina os papéis que
usava para sua higiene matinal. Os gastos com pão, manteiga, queijo
e geleia aumentaram demais, e ela detestava abrir a porta do banheiro
e se surpreender com ele fazendo xixi sentado, costume que pegou de
seu pai alemão.
Falando
em pai alemão, ele, que sabia a sua árvore genealógica de cor até
a quarta geração, aprendeu que, no Brasil, que vive até hoje as
mazelas dos 300 anos de escravidão, era normal que uma pessoa
preta da sua idade não soubesse o nome e muito menos a origem dos
bisavós. No caso de Elba, nem o nome dos avós maternos.
Pierre
foi aprendendo a viver com Elba e botou na rotina os dois banhos
diários. Tudo bem que eram banhos de gato, gelados e rapidíssimos,
mas pelo menos tomava. Foi a condição imposta para ganhar um beijo
quando descesse no bar, onde Elba já começava a todo vapor
coordenando as rotinas do recinto. Antes mesmo das suas flanadas
matinais.
Outro
problema foi a mania de Pierre com tigelas. Ele usava todas da casa
para as mais diversas utilidades. Sopa, geleia com pão e até café,
que tomava apenas um por dia, acompanhado de um shot de pastis
marseillais, sempre
depois do almoço para não dormir em pé.
Apesar
de algumas alfinetadas, ela o amava muito. E sabia disso pelo simples
fato de seu lindo sorriso ter voltado para o rosto.
Amava
o seu audível “bon
appétit”,
que desejava para todos que servia. Achava uma graça o fato de fazer
questão de comer na mesa posta e sempre esperar todo mundo se sentar
para comer nas clássicas feijoadas de sexta-feira que serviam no bar
para todos os funcionários, dona Jussara e outros amigos do bairro.
Só detestava a nojenta mania de assoar o nariz à mesa e pediu para
ele parar. Ele parou.
“Pas
de problème, mon chou!”
Eles
viviam situações inusitadas nessa dinâmica franco-brasileira.
Quando ele disse que ia “faire
le ménage”,
ela deu um tapa na sua cara, sem ver que ele estava com o aspirador
de pó na mão pronto para fazer uma faxina na casa. Ela pediu
desculpas e explicou o porquê. Ele não só entendeu como concordou
com a reação dela. Sempre romântico, antes de beijá-la, cravou:
“J’ai
envie de toi et seulement de toi”.
E
nessa de ficar falando português e francês misturados, acabou se
surpreendendo com a safadeza de Elba quando, em um momento íntimo, a
moça, querendo dizer um “Beija Eu”, no melhor estilo Marisa
Monte, lançou um “baise-moi”,
que acabou de fato se concretizando no final da noite.
Mas
essa, no caso, foi uma confusão boa.
Fora
as clássicas de gênero. Era “a carro” (la
voiture)
pra cá, “um árvore” (un
arbre)
pra lá e o lindo erro de falar “a mar” (la
mer),
que fazia o coração de Elba vibrar já que achava que o
equívoco era a palavra “mar” ser um substantivo masculino.
Uma
que amava também, e que Pierre continuava errando de propósito, era
o uso dos verbos prendre e offrir em
tradução literal.
Quando
ela passou a flanar com ele, volta e meia paravam para “pegar um
café da manhã” (prendre
un petit-déjeuner)
ou paravam em alguma loja em que ele “oferecia um presente”
(offrir
un cadeau)
a ela, mas não só oferecia, dava!
E
nessas andanças, Elba só se apaixonava ainda mais por Pierre, que
militava pela flânerie dizendo
a ela que seus antigos chefes o chamavam de vagabundo porque não se
adequava ao sistema. Mas reconheceu que sem Elba, nunca teria entrado
no prumo e que sua disciplina o fez ser um homem melhor.
Por
isso, acorda para trabalhar com um sorriso no rosto. Todos os dias.
Com
Elba, ele aprendeu a trabalhar. Com Pierre, ela aprendeu a flanar. E
assim vão levando, na labuta ou flanando.
E
amando.
Eduardo Moraes
quarta-feira, 23 de julho de 2025
BRAZILIAN DREAM
segunda-feira, 21 de julho de 2025
Lançamento do livro "Enquanto elas crescem no escuro" de Laura Assis, em JF, RJ e SP 💘💘💘
"Os poucos minutos que passava naquele elevador — um modelo dos mais antigos, com duas paredes que imitavam de modo ordinário a textura de madeira, uma porta sanfonada lenta e ruidosa e um enorme espelho cuja opacidade denunciava a passagem do tempo e a falta de cuidado — não eram lá muito agradáveis, mas isso era o de menos. Claro que não era fácil se fechar naquela velha cápsula de aço barulhenta, que subia e descia no espaço escuro do poço, pendurada por um cabo em que ninguém parecia querer pensar muito, mas que há tantos anos sustentava todos os dias o peso de dezenas de corpos e poderia, como tudo no mundo, se romper de repente. Entretanto, ela sabia que a verdadeira provação viria depois."
[trecho do conto "Vida em Marte"]
Laura Assis
terça-feira, 10 de junho de 2025
Sereiando, texto inédito de Indira Kupfer
Indira Kupfer
quarta-feira, 30 de abril de 2025
Jenipapo
Nada de ressentimentos. Senti minha cabeça girar e logo respondi: vamos! Escolhemos ir à praia das Flores. Enquanto estendia minha canga na sombra, Paulo corria para o mar. O vento estava agradável. Deitei e, olhando as folhas verdes da amendoeira, meus olhos começaram a fechar. Aos poucos fui lembrando do que tinha acontecido na noite anterior.
Estávamos felizes pelo festival de forró. Animados, paramos na primeira barraca. Eu sempre pedia o mesmo; licor de jenipapo!
Mais um copo de licor, dois, três...
— Banana com coco queimado!- Percebi que Paulo teve a intenção de perguntar: coco queimado? Mas desistiu.
— Betina, você é linda. - Agradeci com um sorriso.
Vamos! Mais um licor. Lá vem! Era o trio de forró. Seguimos felizes como se estivéssemos no carnaval. Paulo era tímido e não sabia dançar, mas bastava beber que a timidez ia embora. O trio parou na praça— Agora sim! Vem dançar Betina.— Apesar de estarmos bêbados, eu conseguia perceber as pessoas apontando em nossa direção e rindo.
Despertei às gargalhadas só em lembrar da cena. Olhei para o mar e lá estava Paulo me chamando para ir para a água. Mas tudo o que eu conseguia era rir ainda mais. De cansada voltei a deitar na tentativa de lembrar do fato principal, mas tudo o que vinha em minha memória eram “flashes". Depois de algumas horas dançando fomos até o bar do coqueiro, local em que todos vão depois que acaba a festa.
— Betina?
Indira Kupfer
terça-feira, 22 de abril de 2025
VALA DE INDIGENTE
Giovanna Ramundo
terça-feira, 15 de abril de 2025
, a palavra que eu reúno em pequenas embarcações ,
Valéria Grassi
(Este é um trecho do livro Intermitências apenas, publicado pela editora Cambucá, e segue a diagramação proposta pela autora)
segunda-feira, 14 de abril de 2025
Mate, texto de Raquel Naveira
Raquel Naveira
sábado, 12 de abril de 2025
As bonecas só falam "mamãe" — Eduardo Moraes
Depois de uma hora e quinze no busão, Danilo chegou em casa da escola. Largou a mochila em cima da mesa — o terror de Perla: “trazendo sujeira da rua para a mesa em que a gente come, meu filho” — e foi para o quarto depois de mais um simulado para o ENEM. Ele tinha ido muito mal e sabia que seria salvo apenas pela redação e pela química. A primeira, pelo tanto que gostava de ler e escrever, a segunda, por tudo que aprendeu com a mãe, que tinha estudado só para ensinar a ele.
A pressa era tanta que nem reparou que no sofá, Perla estava prostrada, imóvel, mirando a televisão desligada.
Danilo percebeu que, ainda nos tempos atuais, seguia muito fácil ser pai.
Pela primeira vez, aos 16 anos de idade, pensou no quanto dá trabalho pensar no cotidiano de uma criança, desde o momento em que acorda até quando vai dormir. E também perguntar o que chateia, buscar na escola, levar ao médico, dar carinho e tudo mais que envolve o dia a dia de uma criança. E que isso parecia ser um extra aos pais, e não a obrigação que era às mães.
Acabou seu dia tentando acreditar que ainda podia ser amado. Tentando não pensar que a culpa era dele. E recuperar a confiança. E colocar na cabeça que não deveria ficar tentando recuperar a atenção e o amor do pai. Já que o amor nunca existiu do lado de lá.
Antes de pegar no sono, sem chorar um minuto sequer, cravou uma profecia a si mesmo: se um dia concretizasse o sonho de ter um filho, não seria pai.
Danilo queria ser mãe.
Eduardo Moraes
quarta-feira, 9 de abril de 2025
Armandinho
Teresa Garbayo
domingo, 6 de abril de 2025
Técnica singular para inflar balões
Perce Polegatto
segunda-feira, 10 de março de 2025
Espelho
Indira Kupfer
domingo, 2 de março de 2025
Dama da noite, de Marilena Moraes
Naquela noite, não houve aula no curso supletivo. Os alunos comentavam, atônitos, a manchete do jornal popular que passava de mão em mão.
"Exorcismo na boate" — "Professora de dia, stripper à noite, Bernadete dos Santos, 30 anos, também conhecida como Lucimar, foi assassinada por seu aluno, José Tenreiro, inconformado ao descobrir a segunda identidade da professora do curso supletivo que frequentava. Apresentando sinais de desequilíbrio mental, Tenreiro foi preso em flagrante, tendo ainda nas mãos o punhal de prata que cravou entre os seios da bailarina/professora em meio ao show da boate Clamores."
Ar de beata, rosto lavado, poucas palavras, tinha nome de santa e cheiro de talco. Dava aulas no supletivo, num bairro de gente simples. Com os alunos, o relacionamento era apenas cordial.
Ninguém poderia imaginar que a professora pacata, de roupas discretas, saía dali direto para Copacabana, onde, às três da manhã, estrelava o show da boate Clamores.
"Sex alive" — anunciava o neon. Maquiagem pesada, óleo no corpo, Lucimar se roçava no parceiro, sem sequer olhar para o seu rosto e sem encarar a plateia de homens agitados, que gritavam palavras que ela fingia não ouvir. Uma amiga a levara para a Clamores, convencendo-a de que podia fazer bom uso do belo corpo. Se o dinheiro das aulas era pouco, as notas verdes dos turistas ajudavam bastante no orçamento.
Religião? Nunca tivera. Pudor? Há horas em que a necessidade fala mais alto. Ao fim de alguns meses, o prazer de estar no palco, nua e exposta, passou a ser a razão mais forte de sair toda noite do Méier direto para a Princesa Isabel.
Não poderia, no entanto, imaginar um aluno na plateia. Tenreiro voltou na noite seguinte e em outras tantas noites. Reconhecera a professora na mulher de roupa colante e meia arrastão que saía da boate quase de manhã, pendurada nos sete centímetros de salto, abraçada a um gringo qualquer.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025
Hanishira e a moto amarela sobre a mesa do imperador
Hanishira ouviu o ronco do motor e isso fez com que ela saltasse da cama, de um só pulo e se pusesse em frente ao espelho do banheiro. Jogou, com as duas mãos, água gelada no rosto para ativar-se.
Era ele, tinha certeza, acabara de dobrar a primeira ladeira, virara a esquina lá em baixo. Subiu e ela o ouviria mais uma vez quando contornasse a segunda curva. Ele contornou. Estava mais perto. É ele! Sem dúvidas é ele: ele e sua moto amarela. Pensou apertando involuntariamente as pernas. Que sensação gostosa que fazia o motor da possante amarela enquanto pousava nela sua buceta! Só de pensar nisso ficou com muito desejo. O que esse cara havia feito com ela? Que tipo de feitiço era aquele?
Ouviu o motor silenciar em frente à casa. Rapidamente aplicou um blush e um rímel, apenas para ressaltar o olhar e ganhar uma cor. Ele assobiou. Isso é bom, lembrou que a campainha está com defeito. É sinal que pensou em mim, que tá ligado. Hoje, nada daquele papo tântrico, hoje eu parto pra cima dele e com sorte ele será o cara que terei coragem de falar: Vai, come a minha buceta! Abre ela todinha! Pronunciar essas coisas lhe enchia de tesão. Mas raras foram as vezes que ousou pronunciar na hora do ato sexual a palavra buceta. Só na cabeça, pensava, mas sempre usava outra nomenclatura: periquita, pão doce, preciosa, nomes assim. Talvez porque julgasse que uma mulher não deveria gostar de buceta, que pega mal. Que esse é um direito apenas dos homens. Mas ela adorava essa palavra, ficava louca. Mas até então só conseguia pensar nunca falava.
— Tô acordada. Tava lendo na cama.
— Tem hoje tempo pra praticar?
Tomou Hanishira nos baços e a beijou. Quando esses lábios se desgrudaram ela pôde sentir, o gosto do abacaxi com hortelã e o celular de João vibrar no bolso. Ele desligou automaticamente o que fez com que ela se sentisse muito importante.
— Eu devo me trocar.
Ela adoraria ter coragem de montar na moto daquele jeito, mas não era assim tão descolada. Correu até o quarto e teve vontade de colocar o guarda roupa abaixo. Uma saia e uma blusa surgiram como num passe de mágica, meias e a calcinha. De volta à sala. João a tomou pela mão e a conduziu até a moto. Ele sabia a pressão certa ao lhe dar a mão. Na noite do último encontro enquanto dissertava baixinho em seus ouvidos as maravilhas do sexo tântrico. Ele segurava pressionando sua mão de tal maneira que a fazia delirar. E também teve aquele momento dos pés, onde se tocaram, pé com pé. Que só em pensar já fazia Hanishira ficar totalmente molhada. Ao sentar-se na moto, a sensação do motor
De vez em quando ele falava algo para ela gritado para tentar ser ouvido apesar do barulho infernal que produzia a possante como ele mesmo a havia apelidado.
— Se chegar alguém eu arranco a tua roupa toda.
Falava baixo, mas desejando falar para fora, enquanto se mantinha de bunda para cima abriu os olhos e deu de cara com os olhos de João. Ele estava agachado olhando para ela, o mundo de cabeça para baixo, ela o via e sentia a sua mão. Ele colocou na própria boca uma folha de louro que tirou do bolso e levou uma outra a boca de Hanishira.
Ela percebeu que ali, ele dava um salto a mais em suas etapas da conquista. O que ele poderia querer mais? Já estava semi nua, entregue. É por isso então, ele quer magia! E teve as mãos dele dentro dela. Enquanto mastigou o louro amargo.
Ela não teve tempo de falar nada, Ele tapou lhe a boca e ela gostou. E pedia para ela manter os olhos abertos e ela fazia esse esforço. E se esforçou tão bem que suas pálpebras pouco se mexiam, estavam fixadas nos olhos negros de João, que agora tinha olhos e pau. Para ela, ele tinha apenas olhos e pau. Ela deitada na pedra, ele segurou suas pernas no ar e com jeitinho nem muito delicado, nem muito bruto, certeiro, meteu seu pau que entrou deslizando, encaixando em cada curva por dentro dela. Momento já sonhado por Hanishira.
Ela então não conseguindo mais conter falou em boa altura: Mete na minha buceta! E ter dado esse grito à fez jorrar para fora, como se ele despertasse nela sua verdadeira vocação.
— Tô metendo!
Ele arrancou a moto ladeira abaixo. De vez em quando entre uma curva e outra ele dava gritos.
Na Jardim Botânico engarrafada, ela continuava seu ritual de roçar os peitos nas costas de seu condutor. Os dois riam de prazer.
Depois desta trepada nunca mais voltaram a praticar nenhuma das doze lições de sexo tântrico, mas enquanto juntos, mantiveram o habito de se devorarem em lugares públicos.
Luciana Bezerra
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025
Os Ratos Embaixo da Cama de Selma
Encontrei Selma sentada no primeiro banco do Parque. Olhava fixamente para o portão, o braço sobre o encosto, os dedos com um cigarro espetado que se tragava sozinho, as pernas cruzadas, com uma sacola de compras, onde estavam suas roupas, repousando no assento. Apesar do rosto enrugado do tempo e dos abusos, seus olhos cor de mel lembravam uma beleza que ainda não havia se despedido por inteiro. Parei a sua frente, seus olhos continuaram no portão. Retornou de seus pensamentos quando o cigarro queimou seus dedos, mesmo assim, não expressou dor, havia superado a sensibilidade física desde muito tempo; arremessou o cigarro longe, puxou da sacola mais um, acendeu e não me olhou.
Fabrício Pinheiro


