segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Duas mãos e o sentimento do mundo (IV)

IV. Tempo de homens partidos

Em Na Praça dos Convites, o tópico explorado é o choque social. Drummond procura um significado para o ofício poético no mundo contemporâneo, como relata o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Roberto Said:

Moderno por excelência e desdobrado ao longo de quase todo o século 20, esse processo de subjetivação deflagrado pelo poeta itabirano revela uma dimensão eminentemente reflexiva e filosófica, com a qual se desenvolve e se abre ao mundo, de modo a expandir, para um universo de interesses coletivo e histórico, o campo individual da experiência. (SAID, 2020)

O poeta aborda temas que tangiam a sua atualidade. Há a constante presença de sua inquietude perante o mundo e a forma de se viver: incômodos e desamparos nos âmbitos político (observado em textos como Congresso Internacional do Medo), social (como nos poemas Nosso Tempo e Anúncio da Rosa), trabalhista (visto em Elegia 1938), afetivo (como em Coração Numeroso e Os Ombros Suportam o Mundo).

O autor viveu e produziu plenamente na Era Vargas (1930-1945), onde diversas transformações sociais, políticas e econômicas ocorreram, incluindo um golpe de Estado, promovido pelo então presidente Getúlio Vargas, em 1937. Simultaneamente, ocorria a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Era, portanto, um momento profundamente conturbado, e isso se reflete em sua obra, como evidenciado nessa passagem de Elegia 1938:

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição 
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

O medo, a revolta e o desejo e procura por um mundo melhor são sensações constantes neste conjunto. Isso é exemplificado nestes fragmentos de Nosso Tempo:

IV

É tempo de meio silêncio,

de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso

na esquina. Tempo de cinco sentidos

num só. O espião janta conosco. (...) 

 

VIII 

 

O poeta

declina de toda responsabilidade

na marcha do mundo capitalista

e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas

prometa ajudar

a destruí-lo

como uma pedreira, uma floresta

um verme.


Nessa divisão, o poeta se utiliza da poesia para denunciar os horrores observados no cotidiano, como observado no poema A Morte do Leiteiro e O Desaparecimento de Luísa Porto.

Através de uma contorcida escrita do eu, sua visão de mundo não só nos remete ao universo sociopolítico propriamente mineiro, de que os poetas do século XVIII da cultura do ouro são referência obrigatória, como também nos permite uma elaborada visão do roteiro moderno do Brasil no contexto das nações. (SANTIAGO, 2002)


RITUAL BUDISTA


a cabeça pende no peito
moedas cobrem as pálpebras
as duas mãos no coração
crisântemos amarelos e brancos
em cima do terno amassado
unhas e cabelos da família
protegem os deuses

Marilia Kubota

domingo, 19 de novembro de 2023

A esgrima, um poema de Bruno Madeira





Para Y, que luta sem saber

A esgrima é uma luta em pista

14 x 2m

e possui duas fases: classificatórias e eliminatórias
diferente das outras lutas a esgrima

é caracterizada por se usar da arma branca

sendo florete a espada de ataque e

a roupa

dum branco tão neutro que assemelha-se a nudez
é completamente proibido contato físico na luta
sendo assim

fica estabelecido o olhar como a arma mais forte

e a mais tesa

Na esgrima os dois (ou mais) oponentes
se utilizam de uma lâmina flexível

ou seja

não há como se machucar ao menos

não como morrer

(talvez até como morrer) mas

eu estou vivo com você

cheio de prazeres ansiosos e ansiedades prazerosas
dureza e maciez

Para se saber quem está ganhando ou

melhor dizendo

quem está perdendo

os pontos são computados de forma eletrônica visto que
as roupas

(tão neutras quanto a nudez)

possuem sensores que percebem toques
pontadas de prazer — e dor
dureza e maciez


A esgrima ainda que inofensiva

matou ao menos duas vezes em torneios registrados

dia 12 de abril de 2004 Yevgen Prokopyev foi ferido

após ter a fria lâmina do florete penetrada em seu pulmão

o golpe duro

golpes e galopes tiraram o ar do jovem ucraniano que morreu
ali mesmo

na pista

Vladimir Smirnov em 1982

também morre ao ver de perto a espada atravessar seus olhos
perfurar sua órbita

alojar-se em seu cérebro

Vladimir resiste

mas morre 9 dias depois no hospital

Você não acreditaria nisso que digo
em meus movimentos

meus desejos

sequer no metal que te toca frio

te excita a carne e
você nega

No entanto, nos olhamos

e quando nos olhamos somos os únicos oponentes da terra a se olharem
estabelecemos uma batalha aqui mesmo

fazemos da cama uma pista digo

das roupas não roupas

da arma dois beijos

e repetimos uníssono:

eu estou vivo com você

e estou vivo com você Bruno Madeira

sábado, 18 de novembro de 2023

Ansiedade, um poema de Thais Vicente


Sombrio
Silenciosamente sonoro
Fugaz.
Traz o terror de um aperto voraz.
É algo que não se sabe bem o quê.
Passa longe da calma 
e parte rumo ao caos.
Não sei definir muito bem. 
Sei apenas que, por aqui, 
a paz é algo insólito.

Thais Vicente

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

19:00h


Escrevo o rasgo
Escrevo e rasgo
Me escrever rasga

Afasto, contemplo
Filho do nefasto tempo
flutuam vontades densas
Tento agarrar, suspensa

Escapa entre fendas
Verdade, certeza
Resta-nos beleza
Eco no abismo

Escuto um som que sai de mim
Vejo os olhos que são meus
Adentro no quarto escuro
Fecho as pálpebras

Acordo de súbito
Em mim pulsa incessante
As pressas, de como quem espera
Dou luz à poesia

Thalie

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

SONETO PARA FREEMAN DYSON

Prazer, sou um ateu praticante mesmo não sendo nada crente As palavras do livro me encantam as reconheço como documento e canto um ateu de valores protestantes duma generosidade gigante que conhece o poder de uma cerveja e não tem medo de quem o serpeja se considera um cristão praticante que mesmo sem acreditar em Deus era um homem livre humilde diante da ignorância perante o importante essa singularidade dançante que é sempre impossível de tocar José Bial Na foto, o físico e matemático inglês Freeman Dyson, estudioso da eletrodinâmica quântica.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

PARABÉNS PELO QUÊ?

Não tomo mais leite
Tenho menos tarefas
Durmo mais cedo
Meu pace aumentou
Meu metabolismo desacelerou

Os dias passam por mim apostando corrida. Isabelly Gama

terça-feira, 14 de novembro de 2023

comunicação


ela é de ralações púbicas
eu sou de jorralismo
juntamos com um rabalista
e com uma pubiscitária
tá faltando um fodógrafo

Vinni Corrêa

Thereza, um poema de Guilherme Zarvos

Visito minha mãe no Jardim Botânico
Faz dois anos que ela morreu
Parece que faz uma vida
Tenho tanta saudade
Das conversas
Do uisquinho, até do barulho nervoso do gelo
O excesso de uísque ajudou a matá-la
Pena que os excessos matem
Já conheci quem morreu de amor
De excesso e falta

A árvore que eu e minha irmã escolhemos para
              depositar suas
Cinzas não tem nada de excepcional
É um Tiliacea da Malásia
Ela me parece velha
Foi um descuido espalhar as cinzas numa
Árvore que pode tombar logo
Mesmo antes da minha morte
Me parece um canto agradável
Ela deve estar contente no céu
Estou aqui na terra

Depositar cinzas de cremação no Jardim Botânico
É proibido. Tirar fotos de casamento pode
Imagino se todos depositassem seus mortos no
Jardim Botânico se assemelharia ao Ganges
Todo humano deveria passar uma tarde
Olhando uma cremação do Rio Ganges, na Índia
Depois de pôr fogo no morto, com a presença da
Família, com um pedaço de pau dilaceram-se os
Ossos e o crânio que são muito resistentes ao
Fogo. Tudo é calmo e sagrado. As cinzas vão para o rio

Minha mãe não sofreu muito ao morrer
Eu e minha irmã ficamos contidos. Nossa família é
Assim. Fatalista. Já me falaram que é um resquício
Aristocrático. Sempre nos orgulhamos da
República. Em volta da Tiliaceae nasceram cogumelos
Cada vez que visito minha mãe tem novidade
Em volta da árvore. Minha mãe está sempre
Presente e o chão sempre apresenta surpresas
Os cogumelos formam um ajuntamento
              como uma ninhada
Do meio salta uma flor! É da raça das Therezas.

Guilherme Zarvos

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Duas mãos e o sentimento do mundo (III)


III. Minas além do som

Não sou ainda suficientemente brasileiro. Mas, às vezes, me pergunto se vale a pena sê-lo. (...). Sou um mau cidadão, confesso. É que nasci em Minas, quando devera nascer (não veja cabotinismo nesta confissão, peço-lhe!) em Paris. O meio em que vivo me é estranho: sou um exilado. (ANDRADE, 1924)

Na segunda sessão da Antologia, Drummond aborda textos sobre sua terra natal, Minas Gerais. O autor trabalha as tradições e características socioculturais de seu estado, além de suas lendas e histórias populares, como visto nos poemas Canção da Moça Fantasma de Belo Horizonte e A Morte de Neco de Andrade

O escritor se debruça sobre o modo de vida interiorano em seu celebrado texto Cidadezinha Qualquer,
que abre esta categoria da antologia:

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

A religiosidade católica, basal na cultura mineira, é bastante presente. Em Romaria, é trabalhada a tradição católica dos Romeiros, grupo de fiéis devotos que realizam peregrinações a locais considerados sagrados. Em Estampas de Vila Rica, o autor versa sobre o tema utilizando-se de cinco pontos turísticos da cidade de Ouro Preto, Minas Gerais: a igreja de Nossa Senhora do Carmo, a igreja de São Francisco de Assis, a igreja de Nossa Senhora de Mercês de Cima, o Hotel Toffolo e o Museu da Inconfidência. Percebe-se no trecho II: São Francisco de Assis:

Dai-me, Senhor, a só beleza
destes ornatos. E não a alma.
Pressente-se dor de homem,
paralela à das cinco chagas.

Mas entro e, Senhor, me perco
na rósea nave triunfal.
Por que tanto baixar o céu?
Por que esta nova cilada?

Senhor, os púlpitos mudos
entretanto me sorriem.
Mais que vossa igreja, esta
sabe a voz de me embalar.

Em 1934, Carlos Drummond de Andrade mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a maior parte de sua vida. Drummond aborda nesta sessão a dualidade sentimental pela qual passava: sentir a dureza e orgulho de ferro herdados de sua origem, descritos em Confidência do Itabirano:

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

Ao mesmo tempo, o autor relata a saudade da pátria imaginária que sentia vivendo no Rio de Janeiro, relatada em Prece de Mineiro no Rio:

Espírito de Minas, me visita,
e sobre a confusão desta cidade,
onde voz e buzina se confundem,
lança teu claro raio ordenador.
Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça:
não quero ser um móvel num imóvel,
quero firme e discreto o meu amor,
meu gesto seja sempre natural,
mesmo brusco ou pesado, e só me punja
a saudade da pátria imaginária.

Esta sessão da antologia dialoga com a categoria seguinte, A Família que Me Dei, que aborda a infância e vivência familiar do escritor. Nela, Drummond rememora suas vivências e dores, partindo da infância e seguindo para outros períodos da vida. Parte, em diversos momentos, da perspectiva de perdas diversas. Nos textos relacionados à sua puerícia, destacam-se Retrato de Família, A Mesa, Viagem na Família e Infância. O poema Os bens e o Sangue também integra essa categoria; nele, Drummond funde sua própria vivência com a história de Minas Gerais.

A morte também é uma temática muito presente nessa categoria, como nos poemas Perguntas e Convívio. Inclui-se também o poema Ser, dedicado ao seu filho, Carlos Flávio, que faleceu meia hora após seu nascimento.

Seguindo na exploração de declarações de afeto, na categoria seguinte da Antologia, Cantar de Amigos, Drummond versa sobre suas amizades com diversos artistas. Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Américo Facó e Federico García Lorca são alguns dos nomes sobre quem o autor se debruça; retrata sua admiração e estima por cada um. Vide trecho de Mário de Andrade desce aos infernos, originalmente integrante do livro A Rosa do Povo, de 1945:

O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo.


Luisa Issa 

EU SOU


Rua, rota, som, direção,
carro, tráfego, carburador,
quina, esquina, motorista,
mão, retrovisor, imagem,
alfabeto, intelecto,
linguagem... Sou a fresta.
Adivinha! Entra!

Soéli de Souza

domingo, 12 de novembro de 2023

Noturno, Alexandre Bruno Tinelli


A vida é uma centelha. E o coração
quando se ateia logo se encaverna
nas águas dessa noite que se alteia
brilhante de escaravelhos de estrelas.

Alexandre Bruno Tinelli

sábado, 11 de novembro de 2023

Poema para um ser, um poema de Cob Jones


como você está?
está tranquilo?
a vida não é
nada daquilo

deixe de brigar
de reclamar
deixe de falar
de abusar
pois a vida
não é nada
nada daquilo

passe a viver
e a não chorar
passe a querer
pois é bom amar
pense só no bem
que o bom já vem

aaah... a vida
a vida não é
não é nada
daquilo

Cob Jones

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Beijo de Fumaça


Tão de repente se quebra corrente, e muita graça
Quero tanto um manto de encanto, que estilhaça
Quero ver a vontade dum prado forte
Nas graminhas nascentes em meios-fios
Que se amarram e entrelaçam na meada.

Só espero que o que procuro, me procure
como tiro no escuro
derreta a hipoderme num incêndio
que usurpa toda queimadura
energize e fracasse, em tomar o veneno.

Suplanta vidas e aduba sonhos
Deslumbra desde as pontinhas cuticulares
prontas para serem puxadas
Que nunca são só as pontas
E se rasgam quando penetram o “Até”.

Só espero, e espero só
que esse breve ar, me faça respirar dor
e seja eu, seja meu,
um reflexo dum mais alguém…

Bernardo ArouK

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

cidade de palavras


ler mais uma vez a carta que te escrevi
não mandar 

dizer a mim mesma: quando 

esses encontros acontecem 

nunca duram 

então não mandar

desenhar em torno do sonho 

na borda da carta 

uma cidade de palavras 

ali sim 

ali eu mandaria mil 

uma carta por dia 

relatando a discrepância dos nossos objetivos

e a razão promíscua de eu estar aqui

ontem eu estava bêbada 

que foi um desperdício 

hoje já me sinto eu 

e com isso quero dizer mal Paula Reis Vianna

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Um poema de Malu Brito




O mindinho do pé é curvilíneo

Achatado nanico anguloso

Possui casca rosada no cume

E um aspecto: jujuba mirrada Malu Brito

terça-feira, 7 de novembro de 2023

fauna sexoológica, de Vinni Corrêa


beija-flor
pica-pau
papacu

Vinni Corrêa

LAMENTO DA GERAÇÃO MILÊNIO


Eu não queria ter nascido na virada do século.

Eu não queria ter nascido neste país.

Eu não queria ter nascido mulher.

Eu não queria ter nascido.

(Eu acho). Fora isso, tudo bem. Rola um cinema hoje à noite?

Zilka Vasconcelos

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Duas mãos e o sentimento do mundo (II)

II. A antologia poética

Drummond apresenta uma obra ampla: publicou livros de contos, crônicas e literatura infantil. Na poesia foram, ao todo, mais de 30 livros, incluindo A Rosa do Povo (1945, Livraria José Olympio Editora) e Claro Enigma (1951, Livraria José Olympio Editora).

Em 1962, completando seus 60 anos de vida e mais de 30 anos de intensa produção literária, Drummond publica pela Livraria José Olympio Editora uma síntese em cima de sua própria poesia: a Antologia Poética. O autor divide sua produção poética em nove sessões, que definiu como seu espelho mais fiel (ANDRADE, C. D. 1962):

Ao organizar este volume, o autor não teve em mira, propriamente, selecionar poemas pela qualidade, nem pelas fases que acaso se observem em sua carreira poética. Cuidou antes de localizar, na obra publicada, certas características, preocupações e tendências que a condicionam ou definem, em conjunto. A Antologia lhe pareceu assim mais vertebrada e, por outro lado, espelho mais fiel. (DRUMMOND, 1962)

Estão presentes na obra poemas de doze de seus livros: Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934), Boitempo (1968), Claro Enigma (1951), Fazendeiro do Ar (1954), José (1942), Lição de Coisas (1962), Corpo - Novos Poemas (1984), A Rosa do Povo (1945), Sentimento do Mundo (1940), Viola de Bolso (1952), e A Vida Passada a Limpo (1959).

A divisão e seleção da obra não seguem um critério cronológico, nem a divisão dos livros. O próprio autor agrupou os textos em nove categorias: Um Eu Todo Retorcido, Uma Província: Esta, A Família que Me Dei, Cantar de Amigos, Na Praça dos Convites, Amar-Amaro, Poesia Contemplada, Uma, Duas Argolinhas, e Tentativa de Exploração e de Interpretação do Estar-no-mundo.

A primeira categoria, Um eu todo retorcido, aborda as questões do indivíduo, seus desconfortos, estranhezas perante si e o mundo. Entre os destaques está uma de suas produções mais conhecidas, Poema de Sete Faces, onde Drummond relata sua gaucherie ou gauchismo perante a vida:

Inicialmente, o gauchismo aparece como característica do eu lírico. Porém, a abordagem subjetiva cresce por representar os marginalizados como um todo. Assim vão-se desenrolando os assuntos da poesia em Drummond: partindo de um “eu retorcido”, vislumbra-se uma sociedade “torta”, na qual o sujeito não consegue encontrar nenhuma expectativa. (...) Nasce o gauche mais famoso de que a literatura brasileira tem notícia: “um eu todo retorcido”, documentado por um poema que o apresenta ao mundo, como sua certidão de nascimento. Esse é o primeiro poema do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade; um dos que compreende a síntese das características da sua obra, como a psicologia, os procedimentos formais e estilísticos que serão desenvolvidos mais tarde. (ERTHAL, S. p. 185, 2016)

O caráter inquieto do autor, seja no âmbito individual, político, social ou espiritual, é uma constante, não só nessa categoria, mas em toda sua obra. A solidão e a melancolia (observada em A Bruxa e Estrambote Melancólico), o desamparo (Soneto da Perdida Esperança, Consolo na Praia e José), as inspirações e aspirações (A Música Barata), a intensidade das emoções (Poema Patético) são alguns dos assuntos abordados. A passagem do tempo e da idade é um dos temas mais fortes dessa sessão, sendo temática de poemas como Dentaduras Duplas, Últimos Dias e Idade Madura. Isso se percebe também em Versos à boca da noite, integrante do livro A Rosa do Povo:

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva.
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas. 
 
Escreverei sonetos de madureza? 
Darei aos outros a ilusão de calma? 
Serei sempre louco? Sempre mentiroso? 
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Apesar de ter uma sessão inteira dedicada ao choque social e político (Na Praça dos Convites), o escritor também explora essa questão nessa categoria, como nos textos Idade Madura e José. O texto que exemplifica isso com maior intensidade é o poema A Flor e a Náusea, publicado originalmente em 1945, ano em que o autor se aproximou do Partido Comunista Brasileiro:

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo? 
Posso, sem armas, revoltar-me? 
 
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre 
fundem-se no mesmo impasse. 
 
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova. 
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
O incômodo do eu-lírico não está somente no âmbito político, mas também, na passividade das pessoas perante a vida. Ele se debruça sobre seu próprio contexto com profundo desconforto, mas a impossibilidade de comunicação com outros e com o mundo (Em vão me tento explicar, os muros são surdos) transmuta esse incômodo em um sentimento de solidão e impotência. O eu se sente retorcido perante os outros, e a seu próprio contexto. Assim, Drummond trata seu desagrado como uma sensação individualizada, ilhada. Observa-se na quarta estrofe:
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais

e soletram o mundo, sabendo que o perdem.


Luisa Issa 


Poema tirado de um jornal virtual


erro 769
ao conectar
destino
específico
inalcançável

Ramon Nunes Mello

domingo, 5 de novembro de 2023

Os cadernos do encanto #2

um vaga-lume

piscou

nos seus olhos

e ninguém mais

sabia

se era noite

ou dia Italo Diblasi

Os cadernos do encanto #1

escreve

com o sopro

seu corpo

no meu Italo Diblasi

sábado, 4 de novembro de 2023

Born, never asked, um poema de Bruno Madeira


há dias que se passam despercebidos
coisas que passam despercebidas
quando se anda com os olhos às pernas
a mente aos relógios
o peito a memórias

despercebidas
como um falso silêncio
um grito no deserto
um tombo que se toma no espaço
meu amor estamos cada vez menos perceptíveis
qualquer dia Deus nos esquece e
já era

quando pequeno
tive uma hérnia no umbigo
devido a força que fazia ao chorar
(você já pensou quanta força é necessária pra chorar?)
diferente de nós
a lagrima dos bebês nem sempre está atrelada a tristeza
mas muitas vezes um frenesi absoluto

há o desejo de ser percebido e tudo que isso corrobora
ser querido

ontem William morreu atropelado entregando comida
o trabalho por aplicativo é árduo e competitivo
é competir pra viver
o assassino ainda não foi encontrado diz a polícia
e ao que sabemos
nem vai

há mortes que passam despercebidas
quando o terrorismo se faz vivo em nosso corpo
nesse caso, é tudo guerra e campo minado que tocamos
temos braços pra gritar ajuda
acenar desejos

minha mãe que não tá mais viva
tinha pernas e sonhos
podia ir a qualquer lugar com eles
contanto que viva
e com suas pernas
e com seus sonhos

seu filho
que sou eu
por falta de sonhos aprendeu cedo a correr em círculos

é preciso aprender a duração das coisas
a cartilagem
o orifício
o tempo do tempo dum poema

acho a vida algo particularmente milagroso (pra não ser tão meloso)
algo belo demais pra se estar sem querer Bruno Madeira

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Vazio, um texto de Thais Vicente


Na direção de preferência do vazio, o Espaço, não deformado por um corpo que não existe, torna o tempo ilusório. Horas a fio que não se vão perder tentando encontrar o caminho de volta pra lugar algum, também não se ganham. No vazio, onde há muito espaço para guardar, tudo é um desleixo, e nada se guarda. E os gritos, que em nada ressoam, provocam um silêncio barulhosamente ensurdecedor. Não se distingue o vazio que contém o corpo, do corpo que contém o vazio. E assim como eu, o tempo corre para uma única direção: o caos, cada vez maior. Sozinho. Morrendo sem fazer aniversário. Não, aqui não tem aniversário, relógio, nem calendário. Regido pelas leis de coisa alguma. Tão leve como uma pluma, porque corpo nenhum me atrai. Solitáriamente sozinho. E as horas, que por mim não passam, tampouco me tornam eterno. Na direção de preferência do vazio, tudo é nada. E o tempo, uma ampulheta furada. Thais Vicente

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Um texto de Bruno Jablonski


o choro feito em casa é muito distinto do da rua: cheira diferente, é abundante e desavergonhado; o pranto público se derrama devagarinho, sem tanta fúria, bem apertado o peito. respira-se mal ao chorar à contraforça. mas paciência. assim se procede. descuidar da face e dos impróprios barulhos é incivilizado como a gripe, como o autoelogio.

Bruno Jablonski

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

FELICIDADE, um poema de Darcy Ribeiro


Não tenho nada,
Absolutamente nada, a dizer.
Poesia de palavra,
Já não me fala.

Est'outra sim.
Essa aqui sim.
Muda, crispada,
Dentro de mim.

Darcy Ribeiro