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quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Um haicai de José Bial

A pata peluda

nas lombadas amarelas

duma carambola

José Bial

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

SONETO PARA FREEMAN DYSON

Prazer, sou um ateu praticante mesmo não sendo nada crente As palavras do livro me encantam as reconheço como documento e canto um ateu de valores protestantes duma generosidade gigante que conhece o poder de uma cerveja e não tem medo de quem o serpeja se considera um cristão praticante que mesmo sem acreditar em Deus era um homem livre humilde diante da ignorância perante o importante essa singularidade dançante que é sempre impossível de tocar José Bial Na foto, o físico e matemático inglês Freeman Dyson, estudioso da eletrodinâmica quântica.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

GAGO


numa rua pequena em botaf—

fogo de manhã eu caminhava em direção a—

a um sebo que eu já conhecia e ti—

tinha esquecido


me encontrei já dentro sem perce—

ceber um li— livro em minhas mãos que já estava aberto e—

e as lágrimas da página 

não 


se anunciavam como

antigas ou minhas

não to— toquei pra ver— 

to—

toquei pra ver se estavam secas. José Bial


sábado, 23 de setembro de 2023

Homenagem à Flora Diegues


À janela de um prédio em Ipanema, um milagre. Como pôde um bebê de apenas poucos meses cair do segundo andar de um edifício e sair ileso? Não sei se acredito em destino e coisas do tipo, seria Flora uma alma destinada à morte desde seu nascer? Seríamos todos? Eternamente perambulando por nossas consciências estão os pensamentos que recorrem ao fim. Tudo termina em fim? Tudo termina em fim.


Existem teorias (universalmente aceitas e renomadas) que ditam o tempo como relativo, mas se relativo o tempo, então é também relativo o conceito de início, meio e fim. A forma como Einstein relativiza o tempo é mostrando que os mesmos fenômenos demoram tempos diferentes para acontecer levando em conta o espaço que ocupa cada referencial (ou pelo menos é isso que eu entendi).

O fim da vida de Flora ainda não chegou aqui. As memórias, emoções, sentimentos e afetos permanecem vivos demais. É impossível a separação da pessoa que era Flora das memórias que Flora deixou, tudo é Flora. 

Como pode o suposto “fim” de Flora fazer aflorar em minha mente tudo que ela era pra mim? Flora pra mim era exemplo de coragem, de força, de sabedoria e de futuro. E quanto mais velho eu fico, mais vejo Flora em mim.

Eu amo arte.
Eu amo ser Diegues.
Eu amo a Escola Parque.
Eu odeio a Escola Parque. Eu sempre soube que a Flora era confusa. Acho que nunca estive tão confuso. Acho que a imperfeição dela me acalma. Sua imperfeição me ensinou que a hierarquia entre erros e acertos é somente catalógica. Nossas piores falhas e nossas maiores conquistas são igualmente válidas e importantes. Te amo, Flora. Obrigado


José Bial

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

TUCANO

Os pais:


Uma briga como todas as outras que

não acabam até que uma das nossas

crianças apareça. Daí, nos amamos 

e é uma delícia como sempre é.


As filhas:


E aí eles levam a gente pra passear

e ver os bichinhos e as árvores.

Os passarinhos que brincam nas árvores

que a gente olha quando vai passear.


Os passarinhos voam e cantam

mas logo acima os tucanos

se jogam de rasante atacando


os passarinhos que gritam se desesperando,

agora eu entendi porquê o tucano tem esse bico.

É pra matar os outros bichos. Tão lindo. Colorido.

José Bial

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

GAZAL PARA NASRIN SOTOUDEH



A terra amarela que viaja até aqui.
Através de filmes que não poderiam existir.
De onde vieram os maiores poetas Abbas, Mohsen, Jafar Panahi.
Com poucos recursos e muitos motivos se filmam nos outros e falam de si.
Cultura tão parecida e distante intimidades, desejos e vidas que assisti.
Rostos tão brasileiros e morenos Iranianos, Turcos e Árabes que parecem daqui.
E que todos assistam Táxi Teerã e conheçam de perto a Nasrin
para sentir a tragédia que está se anunciando…
Sua prisão trágica que não podemos silenciosamente assistir.


José Bial

Na foto, Nasrin Sotoudeh, advogada de direitos humanos iraniana.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

3 TENTATIVAS DE 3 POETAS EM 3 VERSOS:

TENTATIVA 1- O QUE VÊ
Uma mulher suspeita observa dois homens num museu. Um deles sussurra algo no ouvido do outro e— enquanto isso percebe que ela os observa. Ela desmonta e pega seu caderninho. Azeite, cenoura, cebola… amendoim! Ela anota. Ele nota e comenta. Eles saem. Ela fica.


TENTATIVA 2- O QUE CHORA

Quatro horas nesse ônibus e eu aqui ainda escrevendo esse mesmo poema que não sai por mais que eu tente eu insisto que eu te amo mas meus poemas revelam que é mentira e eu ainda não acredito neles mas certamente eles sabem mais do que eu.


TENTATIVA 3- O QUE BEBE (ADENDO)

Escrevo este poema sem versos porque estou bêbado e nessa pequena — nesse pequeno guardanapo não cabem as divisões necessárias então melhor sacrificá-las. O sacrifício sempre cabe. Escrevo este poema sem versos porque preciso. Preciso escrever este poema porque — estou bebendo — estou bebendo — Estou bebendo pelo mesmo motivo que preciso escrever esse poema. Me convenci que preciso e sendo prec— me convenci que preciso e aqui estou, tornando minhas ideias sobre mim mesmo na realidade.

José Bial

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Adeus ao grande Cacá Diegues




Ontem, o Brasil foi surpreendido com a notícia da perda do cineasta e pensador Cacá Diegues. Em meio a tantas — e devidas — homenagens a este alagoano, ícone do cinema brasileiro, nós do Plástico Bolha nos sentimos no humilde dever de acrescentar esta nota de pesar, mas também de muita gratidão. Assim como muitos na cultura brasileira, o Jornal Plástico Bolha também teve a alegria de ser ajudado por Cacá na época de nosso financiamento coletivo. Para além do valor doado, a honra de ser apoiado por Cacá e de contar com sua confiança em nosso projeto é o que ficou de mais precioso para nós.

Fora isso, não podemos deixar de mencionar que sua filha, Isabel Leão Diegues, que hoje brilha nas edições da editora Cobogó, fez parte do time de autores/editores que fundou o Jornal Plástico Bolha, na PUC-Rio, nos idos de 2006. Nossa querida Bel participou com a publicação de seus textos, sua colaboração editorial, seus conselhos e inúmeras parcerias. Como o tempo sempre anda para frente, há poucos anos, tivemos uma nova alegria, ao passarmos a receber em nosso espaço, os textos e poemas de José (Diegues) Bial, filhote de Isabel e neto de Cacá, que hoje mantém a terceira geração desta linhagem viva e atuante nos espaços do nosso jornal.

Ao Cacá, nossa gratidão como brasileiros. À Isabel, ao José, e a toda família, o nosso sentimento e amor neste momento.