sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Artista nunca


Negam-nos no útero de nossas mães. Engenheiro, médico, atleta, advogado, dizem.

Artista nunca.

Negam-nos na juventude. Hobby, passatempo, distração, criancice, dizem. 

Artista nunca. 

Negam-nos na vida adulta. Ociosos, vagabundos, preguiçosos, promíscuos, dizem.

Artista nunca.

Negam-nos nos estudos. “Para quê”, “para quem”, “por quem”, “por quê”, dizem.

Artista nunca.

Negam-nos o trocado. “Por amor”, “por prazer”, “por saber”, “por favor”, dizem. 

Por labor, por mim,  por você, pra viver, não dizem.

Não.

Artista nunca. 

Negam-nos a profissão como negam-se a si mesmos. No cubículos, nas diárias, nos plantões, nos tons de cinza, digo. 

Negam-nos a profissão como negam o vazio que sentem já por hábito, por mérito, por medo, por dentro, digo. 

Negam-nos a profissão como quem aceita dar as costas, fazer coisa outra, fazer nada, fazer silêncio, digo.

Mas enganam-se.

Artista, nunca. 

Ana Luiza Albuquerque 

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