segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Queira. Peça:


A protagonista – ou antagonista, agora tanto faz – retirou-se de cena aos prantos, como deve ser. Fica na coxia tentando se recompor e voltar. Há de voltar, é claro, pois a peça deve seguir. Rica em movimentos caricaturais, para que o espectador, único no teatro feito para dois, perceba todas as expressões. Algumas sempre escaparão, e é por isso que resolveram gravar em algo além da memória. Fitas, por favor. Prossiga.

Remonta-se e torna a desmanchar-se, sempre perdendo pedaços pelo palco. Torna-se fluida, diluída no pouco, e cada vez menos, em que se transformava. Sim, o conteúdo ainda está muito bem definido, mas escorre por frestas e pelos olhos da caríssima plateia de um.

Assim, diluída, mais fácil provar, entristece e furta a cor de todo o cenário. Sublime. Forma cristais translúcidos no teto e volta ao chão. Move-se estupidamente, corpo rijo e frágil. Gira, bailarina graciosa da caixinha de música, mas desequilibra e cai. Perdeu mais alguns cacos, que sublimam. O movimento de gás e sólido coloridos compõem a cena. As luzes baixam e tudo fica roxo. E preto.

Reaparece, sentada ao centro. Blasé, de acordo com o único que o disse sem ser pedante. Atua como se nada doesse e não estivesse cansada. Levanta, agradece e se retira. Na coxia, sozinha – era ela a roteirista, diretora e atriz desse monólogo sem palavras – cai. Permaneceu desmaiada enquanto a platéia se retirava, silenciosamente. A gravação cessa.

Amanda Bastos



Amanda Toni Bastos leciona e aspira ao doutorado. Transita entre o consumo de literatura e a escrita acadêmica, observando cada vez mais similitudes entre ambos. Entre atos de militância e as obrigações profissionais, pensa, rabisca, apaga e eventualmente submete o escrito para onde caiba.

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