segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Discurso de formatura Letras 2018


Bom dia a todas e todos.

Primeiramente, uma ressalva: escrevi este discurso, principalmente, como um ou uma estudante de Letras, e não para o ou a estudante de Letras.

Toda e todo estudante de Letras sabem que os tempos não vão bons para nós, os vivos. Já faz um tempo que eles não estão bons. Fala-se demais nestes tempos (e, inclusive, cala-se). As palavras se esmagam entre o silêncio que as cerca e o silêncio que elas transportam. É cada vez mais pesada a paz do dia-a-dia (há paz no dia-a-dia?). Mas o que é feito das palavras senão as palavras? E o que é feito de nós senão as palavras que nos fazem? Todas as coisas são perfeitas de nós até o infinito — somos, pois, divinos. E uma maneira trivial de exercer nossa divindade é por meio de nosso poder de escolha. 

Podemos escolher o que fazer após sair daqui, onde almoçar ou até mesmo se vamos dar um pulo na praia. Isso também é importante. Mas o essencial é que podemos escolher o que pensar. E nosso trabalho é destruir, aos poucos, e com muita intensidade, os pensamentos dominantes que promovem abismos sociais, preconceitos, desrespeito, desamor — e morte. Vamos imaginar que você saia daqui e resolva almoçar. Ao chegar ao restaurante, você pede seu prato favorito: um filé, mal passado, com fritas. Quando a comida chega, você percebe que sua carne está bem passada. O que você faz? Provavelmente, você reclama com o garçom.

Da mesma forma que você reclama, mesmo que internamente, do motorista que não te dá passagem na pista da esquerda ou da caixa de supermercado que insiste em conversar com os clientes e que, por isso, atrasa todo o andamento da fila. E assim, no tédio da rotina cotidiana, no tédio disso que as pessoas chamam de Vida, você vai, automaticamente, esgotando a si mesmo e aos outros.

Mas você pode escolher o que pensar. Você pode escolher pensar que o cozinheiro poderia estar tendo um dia estressante, muito parecido com (mas muito distante do) seu, após ficar mais de uma jornada de trabalho dentro de uma cozinha fervendo e entupida de gente, tendo saído de casa às 04:00 da manhã, fazendo uso de todos os meios de transporte público possíveis para chegar ao trabalho, pontualmente, às 08:00. E quanta história nas costas do motorista à sua frente não segura o carro dele; quanta coisa no peito da caixa de supermercado não a leva a puxar assunto com desconhecidos e retardar o andamento da fila?

Aqui chegamos a um ponto importante — mas muito, realmente muito mal visto e muito, muito pouco considerado atualmente: vou chamar esse ponto de “O Outro”. “O Outro”: essa entidade que, neste exato momento, por exemplo, está ao lado de cada um de vocês e também está bem aqui, no centro de toda beleza, lendo este discurso. Quem diria: logo eu, que quando criança sempre brincava sozinho. 

Hoje, eu não estou sozinho. Quem me olha agora vê não um, mas muitos. Neste discurso, inclusive, há outras escritoras e outros escritores presentes. E eis o grande segredo que mantém as estrelas no céu, eis a unidade mítica de todas as coisas: nós não estamos sozinhos. Eu sou todos vocês. E todos vocês são eu. O coração de vocês bate pelo meu coração. Mas somos filhos da época e toda época é política. Essa é a verdadeira educação que devemos levar de agora em diante. Para entender isso, é preciso coragem, amigas e amigos. Afinal, a vida é coisa perigosa — é feita de escolhas, e escolher requer coragem.
Encerro este breve discurso agradecendo a todas e todos que participaram desta caminhada: cada professora e professor, homenageada ou não, famílias, amigas e amigos, que compartilharam momentos, alegrias e agonias. De uma coisa vocês podem ter certeza: somos gratos pelo que aprendemos e pelo que vivemos e saímos daqui prontos para seguir a boa luta. Obrigado.

Alexandre Bruno Tinelli

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