quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
O passado
Passadas as horas ficou o passado
e o vago que é a lagoa Rodrigo de Freitas
e seus peixes mortos a boiarem.
É nele que me fixo.
O passado é fonte de riqueza
é nele que busco o saber
é nele que encontro o que busco,
o passado é mais hoje que o presente
que quando ausente
é no passado que eu volto.
O futuro que vejo é refém do passado que eu sei,
como uma couve que brota do seu broto
como uma árvore que um dia foi semente,
o passado é melancolia
e de repente
isso é tudo o que eu queria.
Carlos Cardoso
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
360 graus
quanto mais veloz
mais voraz
quanto mais voraz
mais capaz
quanto mais capaz,
mais se esvai
no esforço sempre o mesmo
sempre a mesma resposta
Luciana Tonelli
domingo, 1 de fevereiro de 2026
sábado, 31 de janeiro de 2026
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
A ave
...acrescento
a palavra ave após reticências,
e as reticências
são, de repente, flocos de terra,
caso a ave ciscasse.
se a coloco entre
travessões, a — ave —
ganha asas e quando
entre aspas, a "ave" de repente
passa a abaná-las.
mas se por fim, as mesmas reticências
se seguem à palavra ave,
ao fim,
(e só no poema)
é como se fosse uma
trilha de ração para a ave, e a ave a seguisse,
se acaso se alimentasse...
Rafael de Oliveira Fernandes
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Pequena fábula
Lá fora estão as respostas
ao que ferve aqui dentro.
Mas uma vez saindo
— eu sei — nunca mais entro,
e se estou fora não há
pergunta a ser respondida.
e passo aqui dentro a vida
dando voltas e mais voltas
na trilha traçada no chão.
(Fora esse detalhe, o resto
é de fácil solução.)
Paulo Henriques Britto
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Acorde, de Mariana Teixeira
Há quem não concorde
que o acorde de ontem
acode quem acorda hoje
Acorde de acordo
que o acorde de hoje
te acode amanhã
Mariana Teixeira
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
O muro
Talvez, vai saber?
Eventualmente, sim.
É possível uma hipótese.
Pode ser não é?
Ou isso, ou aquilo.
Ou não.
É uma probabilidade.
E se...?
É provável que seja outra coisa.
Tá embaçada. Peraí.
Acho que...
não sei.
Um Homem?
Um cão?
Um rato?
Israel Antonini
domingo, 25 de janeiro de 2026
Todo amor, de Marina V. Medeiros
Todo amor é imenso
todo amor é insano
todo amor emociona
e faz verter lágrimas de felicidade.
Todo amor é dádiva
todo amor promove desejos
todo amor é único.
Esse nosso amor
é tudo isso e mais alguma coisa.
Pedi a Ele que fizesse
desse nosso amor
um amor infinito.
Marina V. Medeiros
sábado, 24 de janeiro de 2026
Florbela Espanca
Florbela,
Fada branca,
Dolorosa,
A dor foi teu dote,
Teu embate,
Teu embate,
Teu prazer,
Transfiguraste o mundo
Em arte.
Florbela,
Asa branca,
Amorosa,
O amor foi tua sede,
Tua loucura,
Teu vinho forte,
Choraste sempre
O ausente.
Florbela,
Égua branca,
Potranca insaciável,
Eros foi teu amante,
Bebeste fel amargo,
Na luminosa taça
De um sol agonizante.
Raquel Naveira
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
Conjugado
perdeu tudo junto:
emprego namorado
analista melhor amigo
estão todos mortos num
lugar dentro de você
pior nesse conjugado
nem dá pra adotar
um gatinho chamar de
elza cuzuza rita lee
mas e a poesia?
Ramon Nunes Mello
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Lápida
Esqueço a linha
o verso
a azia
mato o poeta
liberto a poesia.
Que escreva palavras belas
não tenha a sofrida espera
de quem não sabe onde andar.
Caminhe lento, siga o passo
batuque o próprio compasso
ame a quem souber amar.
Marina Laurentiis
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Um poema de Thiago de Freitas Peixoto
Sobre a vida,
a maior parte do tempo
não compreendo seu traço,
e as poucas vezes que entendo
dou de João sem braço.
Thiago de Freitas Peixoto
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Um poema de Cesar Kiraly
ao Ferreira
eu proporia um ferro
para frisar os cabelos
e mantê-los sujos
Cesar Kiraly
eu proporia um ferro
para frisar os cabelos
e mantê-los sujos
Cesar Kiraly
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
Selva, de Otávio Campos
Já me acostuma
silêncio
escrever seu nome
exercício
desleal você
acredita na palavra
desleal
Otávio Campos
domingo, 18 de janeiro de 2026
Um poema de Marcela Sperandio
Sofrer é alarmante
convida a consciência
a curar no presente
usando a alquimia
vibrando na magia
arte de transformar
a dor em alegria
e as mágoas em perdão
sinta só a harmonia
purifica o coração
Marcela Sperandio
sábado, 17 de janeiro de 2026
De um inferno ao outro
antes eu sempre sabia
quando o capiroto me espreitava.
agora vivo na dúvida: é ele
ou a debochada da minha vizinha
outra vez
de tamancos
novos?
Mr. Oculus
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
La danza del colibri
Golondrina de alas rotas, no vuela
pero baila la canción desconocida del colibrí
De mí tendrás las horas acumuladas sobre la espalda
la cama blanca y el reino de los infantes
Ave-ballena, no vuela
pero transtorna los sueños de Magritte
De mi tendrás las tardes sobre la almohada
y un lugar cálido en la palma de mi mano
Chimpancé de ojos tristes, no vuela
pero ejecuta el Lunfardo de los que aman
De mi tendrás la danza rota de los corazones
sin vuelo.
Mónica Gonzales Velázquez
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Um poema de Daniel Gil
Novamente a manhã se enrosca
No quarto
A luz do azul acende
Os vidros
Venho ter com a fidelidade entre
O mar e sol
Morrem juntos
Nascem juntos.
Daniel Gil
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Bússola
o circo está na cidade
e o caminhão pipa
vem descendo pelo breu
eles correm para o portão
a boca cheia de areia
correm cansados de esperar
na sala de jantar
cresci sob um coqueiro
uma goiabeira
e um pé de acerolas
a ciência dos cuidados estraga
mas dos sonhos
me fiz sacerdote
entre mim e o outro
há apenas o meio
e no fim de todas
as estradas
o norte
João Meireles
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
aberto-fechado
desde que o mundo é mundo
tudo se move nessas paralelas
não adianta mudar o eixo
usar de capoeiras do sentido
para formular um desfecho
imprevisto
a beleza convulsiva
deve vir naturalmente
caso contrário o poema
se metaforiza no cárcere
da sua própria semente
Caio Carmacho
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Repentino, de André Capilé
aguardo a constante surpresa,
embora nenhuma constante
surpreenda.
agarro a boca convicta
de não estar mímica.
a bolsa, mínima, desova
boas novas caídas por desuso.
André Capilé
domingo, 11 de janeiro de 2026
Um poema de Lorena Martins
o domingo
que entre mim
preguiça
acorda
essa gaveta
de insônia
Lorena Martins
sábado, 10 de janeiro de 2026
Cesta básica, de Ramon Nunes Mello
tem se alimentado de palavras
músicas poemas não vê a hora
de arrotar um livro
Ramon Nunes Mello
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Regresso
A chuva se abriu em pétalas
a navegar no doce mar das ruas
Eu, alma nua
me entreabri no colo das ondas
firmemente convicta de sua volta
que teima em escapar como uma vaga noturna
As espumas entrechocavam-se com meus lábios
despertos na secura do árido deserto
O oásis se fez cama ardente dos sexos
na minha imaginação que se encontrava
com seu distante regresso
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com os olhos cheios de lágrimas
Espero seu regresso
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com seu distante regresso
Regressar das águas
e batizar seu corpo
com os olhos cheios de lágrimas
Espero seu regresso
oração desfolhada que se atira
no riso de minha face molhada
Regresso, ao inverso
no inverno de meu verso.
Alexandra Vieira de Almeida
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Canção cor-de-rosa
Leio sua carta
cor-de-rosa, amiga,
como um fim de tarde
na cidade antiga.
Como se me enviasse
as nuvens de outrora
para iluminar
as cinzas de agora.
E então sou feliz
por ainda, amiga,
encontrar você
numa tarde antiga.
Ruy Espinheira Filho
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
Um poema de Luciana Tonelli
a vida de novo anoitece
uma longa noite
que dura todas as horas do dia
a vida de novo emudece
tempo suspenso
em desacontecimento
Luciana Tonelli
terça-feira, 6 de janeiro de 2026
em obras
uma tele ilusão:
controles remotíssimos:
nenhuma asa de papel:
vestido luzido todo entupido de carnaval:
réguas de ritmo:
mecânicos playgrounds:
dicionários de brinquedo:
rainhas cruéis não me fazem chorar.
câmeras na floresta de vertigens em que o trovador
se perde e se salva
van gogh
procurou outro amarelo
quando a tarde caiu
o semáforo marcou azul
Augusto Guimaraens Cavalcanti
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Em obras
sorria um sorriso desnivelado,
cada dente de um tamanho diferente,
um irmãozinho de tamanho diferente numa fotografia.
os dentes de leite haviam
caído como estalactites
mas quem olhasse diria que os dentes usavam
uniformes iguais e de vários tamanhos
como seus colegas de classe.
havia espaços vazios como janelas quebradas
como se tivessem sido derrubados por estilingues
eram as constantes guerras de faz de conta
a que havia sobrevivido.
na pele a cicatriz e a certeza de nunca envelhecer,
de que o sorriso estava em obras,
e de que crianças nunca vão ter rugas
nunca vão crescer,
tinha sardas que são rugas de brinquedo
Rafael de Oliveira Fernandes
domingo, 4 de janeiro de 2026
Calmaria, de Carlos Cardoso
Retiro das palavras
o que não foi dito
omito
os sentidos saborear
o cheiro, o paladar
fosse um verbo
fosse
a ignorância inútil
jamais calmaria
perpétua prioridade
no litoral da fantasia.
Carlos Cardoso
sábado, 3 de janeiro de 2026
2113
um dia eu sei farão
estátuas peroladas de nós dois
assim artistas claramente escuros
no centro ardido das multidões estreitas
e seremos mais eficazes que todas as placas
e mais abertos que todas as avenidas
porém entre os corpos muitos
somente nos amarão os
pombos que nunca
descobriram bem
onde se
depositar um voo
e outro.
Maíra F.
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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Acéfalo, de Lucas Viriato
Hugo Balls e
São João Batista
gadji beri bimba
cortem-me a cabeça
esta aqui de cima
gadji beri bimba
para que eu prossiga
gadji beri bimba
aprender com David Byrne
como se faz para dançar
um poema dadaísta
a volta das vanguardas
o tempo circular
habemus uma elite a chocar
gadji beri bimba
copiar colar cortar
ginsu na jugular
gadji beri bimba
eu e você étant donnés
bumbalo tuffm i zim
poeta sem rosto pra si
soldado decapitado
em Bataille
posto em revista
no cordão de Kali
bumbalo tuffm i zim
bandeja feita pra mim
boing boom tschak
e o som não para
gadji beri bimba
bumbalo tuffm i zim
abaporu das ideias
dinstantes
bumbalo tuffm i zim
todo delírio é assim
doo wop (that thing)
bumbalo tuffm i zim
tiúg… tiúg… tiúg…
twi twi-twi
bumbalo tuffm i zim
bora enfants de la patrie
guilhotina brinquedin
gadji gadji beri bom
Davi com Golias na mão
Robespierre e Danton
Bacurau e a fotografia
do bando de Lampião
técnica e reprodução
bumbalo tuffm i zim
plunct plact zum
duplos cucurutos
Cosme e Damião
gadji beri la bamba
Bárbara e tantas santas
os mártires antigos
bumbalo tuffm i zim
a Medusa e seus encantos
Jordão da Silva Cantanhede
crânio que rola como bola
do campo do mar do céu
estrangulo pescoço de cobra
dada isso em estrutura
escultura no papel
gadji beri bimba enfim
bumbalo tuffm i zim
bumbalo tuffm i zim
os sacrifícios astecas
já brotam em nossas telas
espadas de Kurosawa
Caravaggios pendurados
cortes de Tarantino
bumbalo tuffm i zim
a mão de gancho tic
o eu-ciborgue tac
no cheek to cheek
só TOCs e tiques
tiquinho de tilts
bumbalo tuffm i zim
gadji beri bimba
e surgem novos planos
cabeças falantes
eles matam nós limpamos
por que a gente é assim?
gadji beri bimba
bumbalo tuffm i zim
bumbalo tuffm i zim
basta olhar pros lados
o lance de dado
já dado dão em
gadji beri bimba
bumbalo tuffm i zim
siga todos os sentidos
belo tipo de anti-saci
mulas soltando fogo
pelos aplicativos
bumbalo tuffm i zim
stuv pensando em ti
bumbalo tuffm i zim
aparecida só corpo
bumbalo tuffm Maria
acaso e desejo pro nobis
bumbalo tuffm i zim
é quando o vidro trinca
bumbalo tuffm i zim
cantar custa uma língua
bumbalo tuffm i zim
Molly Bloom dizendo sim
Lucas Viriato
Lucas Viriato
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