pra não fal
har, fal
ei o que não dev
ia e fal
hei como temia
porque deixei
o medo da fal
ha me atrapa
lhar Thais Vicente
pra não fal
har, fal
ei o que não dev
ia e fal
hei como temia
porque deixei
o medo da fal
ha me atrapa
lhar Thais Vicente
A literatura brasileira é marcada por grandes escritores, assim como nossa história está marcada por grandes fatos. Apesar de tamanha grandiosidade, é possível encontrar a simplicidade em meio aos versos, a vida comum encontrando a vida extraordinária e criando o que há de mais belo: a poesia.
Não é raro encontrar poemas falando sobre eventos extraordinários, tais quais um amor à primeira vista, a perda de um amigo, um encontro com as estrelas etc., porém, é ainda mais frequente encontrar poemas sobre o dia a dia, a vida comum, uma pedra, alguns pássaros ou uma criança que brinca. A verdade é que essa é a matéria da poesia: o ordinário é o substrato trabalhado no poema, aquele que será lapidado para tirar o fôlego do leitor e levá-lo a refletir sobre suas pequenas ações diárias ou sobre as fases comuns de sua vida.
Carlos Drummond de Andrade e Ana Lins dos Guimarães Peixoto, os grandes poetas do ordinário, como carinhosamente os chamarei a partir de agora, são esses mestres da literatura poética brasileira que têm o poder de, com papel e caneta, fazerem, a partir das coisas simples, um verso que revela aquilo que a vida quer nos mostrar.
Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas brasileiros do século XX, era mineiro de Itabira do Mato Adentro e foi um representante da segunda fase do Modernismo brasileiro. Além de poeta, foi contista e cronista e, entre suas publicações, destaco aqui o livro de 1930 intitulado Alguma poesia onde o poeta das sete faces dá ênfase à vida cotidiana, às paisagens e às lembranças que o marcaram. Sua escrita foi marcada pela sua visão crítica do mundo, assim como por sua postura irreverente.
Ana Lins dos Guimarães Peixoto viveu grande parte da sua vida como doceira, apesar de escrever versos desde seus 14 anos. “Poeta por acaso e doceira por convicção e necessidade”, Cora Coralina, nome adotado por Ana, nasceu em Villa Boa de Goyaz e viveu grande parte de sua infância na Casa Velha da Ponte, onde hoje existe o Museu Cora Coralina. Apesar de seu longo tempo de escrita, Cora passou anos impedida de publicar por conta de seu marido, com quem ficou casada por 20 anos. Nesse tempo, a poeta escreveu pouco e, apenas aos 75 anos, publica seu primeiro livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais trazendo para o leitor “um modo diferente de contar velhas histórias”.
Antes de falar sobre a poesia e seu encontro com o cotidiano, é preciso falar de um encontro especial e único: o encontro entre Drummond e Aninha. Esse encontro se deu de maneira distante, como o encontro entre o olhar e a pena do poeta, através de uma carta escrita por Drummond para Cora Coralina, então com 90 anos. Essa carta foi transcrita na orelha de um de seus livros. É a partir deste contato, desta primeira carta, que se inicia uma relação entre Drummond e Aninha, Aninha esta que já não nos pertence, segundo as palavras do próprio poeta, mas é patrimônio de todos nós.
Carlos Drummond de Andrade, a partir do achado da poesia de Cora, se torna seu maior divulgador no Brasil, sendo um incentivador de seu trabalho. Além da amizade, os grandes poetas compartilham o amor pela poesia privilegiam a presença do cotidiano em seus versos. Os temas ordinários entraram na poesia com o modernismo e Aninha seguiu esse caminho, mesmo não pertencendo ao Movimento.
Nos poemas é possível vislumbrar as coisas mais simples e corriqueiras, o desejo por explorar o que estava ao redor em seu pequeno mundo, como podemos ver neste trecho da menina Ana: "Sempre gostei de olhar carreirinha de formiga. Seus movimentos. Suas constâncias. Acho que aprendia muito com elas, que formiga muito ensina. Aquele vaivém continuado, aquele poder... O quintal era grande, o meu mundo.”
Tal qual Cora, Drummond também sabe aproveitar as situações e os locais comuns para extrair o que eles têm de mais profundo ou o que eles carregam escondido sob suas aplicações diárias. É essa Aninha, que diante de uma fileira de formigas consegue obter aprendizado, assim como Drummond diante de uma pedra. Brunna Gomes Correia
As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates
(Clarice Lispector, no conto "O Amor")
a pútrida primavera
não nasceu desesperada
abriu o floral nativo
despertou fogo nas noites
nua da ideia de medo
justamente aquilo que
não lhe faria amarela
fazia mau ouro e o rubro
o inferno escarlate
que amava-me com nojo Luisa Issa
suspiro em medo? não;
— primavera em verso
nascendo na pele da
dama desesperada,
lembrança dum nativo
das noites cariocas
— justamente aquele
que inverna a ânsia de
fazer-se gente aos olhos
desapelados do circo. Luisa Issa
quando Ismália enlouqueceu pôs-se no mundo a viajar amarrou uma corda nos pés e foi do grand canyon se jogar de bungee jumping Isabelly Gama
Sou uma tágide,
Ninfa do Tejo,
O meu desejo é inspirar o Poeta,
Dar-lhe som alto,
Sublimado,
Estilo solene
De quem toca com fúria
E sem pejo
Um saxofone de ouro.
Sou uma tágide
Ninfa do Tejo,
Vejo pinhais e carvalhos,
Montanhas pelas margens,
Passo por pontes,
Docas,
Paquetes
Até o estuário
Onde pássaros gigantes
Fazem ninhos
Em estranhos ramalhetes.
Sou uma tágide,
Ninfa do Tejo,
Noiva e sereia,
Rosa e areia,
Embora ninguém ouça minha voz
Latejo ainda,
Oculta em ondas
Como as naus e as caravelas
Que partiram
Rumo à foz.
Sou Tágide,
Ninfa do Tejo,
Consolidei tua obra, Poeta.
Raquel Naveira
TENTATIVA 2- O QUE CHORA
Quatro horas nesse ônibus e eu aqui ainda escrevendo esse mesmo poema que não sai por mais que eu tente eu insisto que eu te amo mas meus poemas revelam que é mentira e eu ainda não acredito neles mas certamente eles sabem mais do que eu.
TENTATIVA 3- O QUE BEBE (ADENDO)
Escrevo este poema sem versos porque estou bêbado e nessa pequena — nesse pequeno guardanapo não cabem as divisões necessárias então melhor sacrificá-las. O sacrifício sempre cabe. Escrevo este poema sem versos porque preciso. Preciso escrever este poema porque — estou bebendo — estou bebendo — Estou bebendo pelo mesmo motivo que preciso escrever esse poema. Me convenci que preciso e sendo prec— me convenci que preciso e aqui estou, tornando minhas ideias sobre mim mesmo na realidade.
CANÇÃO
Pus o meu sonho num navioe o navio em cima do mar;– depois, abri o mar com as mãos,para o meu sonho naufragar.Minhas mãos ainda estão molhadasdo azul das ondas entreabertas,e a cor que escorre de meus dedoscolore as areias desertas.O vento vem vindo de longe,a noite se curva de frio;debaixo da água vai morrendomeu sonho, dentro de um navio…Chorarei quanto for preciso,para fazer com que o mar cresça,e o meu navio chegue ao fundoe o meu sonho desapareça.Depois, tudo estará perfeito;praia lisa, águas ordenadas,meus olhos secos como pedrase as minhas duas mãos quebradas.
ACEITAÇÃO
É mais fácil pousar o ouvido nas nuvense sentir passar as estrelasdo que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.É mais fácil, também, debruçar os olhos no oceanoe assistir, lá no fundo, ao nascimento mudo das formas,que desejar que apareças, criando com teu simples gestoo sinal de uma eterna esperança.Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,nem tu.Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
Volte lá e diga a João que lhe corto o pinto se me trair e
eu ficar sabendo. Mas só se eu ficar sabendo. Que se vire
pra esconder seus desatinos.
Ana Elisa Ribeiro
A forma quase hipnótica do encaracolar das ondas respinga gotículas de algo momentaneamente grandioso. Girando, engolindo tudo para si. Um redemoinho espiral, assustador e natural. Se Machado temia a indagável ressaca, quem sou eu para não ouvi-lo?
Olho em volta. Como se a imensidão já não fosse solitária o suficiente, pequenos borrões mostram o que os olhos não enxergam com nitidez. Talvez não seja tão solitário. E como o estatelar de um vidro, o ciclo recomeça. A espuma chega com o quase tilintar do resto de pélago e mostra a doçura dos pequenos chiados. Apaixonantes e inegáveis. E quem dera eu pudesse ser a própria ressaca. Recomeçar a cada batida na areia, engolir e atrair tudo para mim.
Os pais:
Uma briga como todas as outras que
não acabam até que uma das nossas
crianças apareça. Daí, nos amamos
e é uma delícia como sempre é.
As filhas:
E aí eles levam a gente pra passear
e ver os bichinhos e as árvores.
Os passarinhos que brincam nas árvores
que a gente olha quando vai passear.
Os passarinhos voam e cantam
mas logo acima os tucanos
se jogam de rasante atacando
os passarinhos que gritam se desesperando,
agora eu entendi porquê o tucano tem esse bico.
É pra matar os outros bichos. Tão lindo. Colorido.
José Bial
cavo no fundo de mim mesma as palavras como uma mina de dicionários próprios a ser explorada
encontro vocabulários brutos
garimpo as melhores sílabas
prontas pra uma métrica sem ritmo vasculho as palavras inventadas as locuções desregradas
o verso inexistente
escavo
perfuro
raspo as paredes de mim
me arranho na esperança de ter uma mísera poesia debaixo das minhas unhas
Isabelly Gama
Crocodilai-vos, tristes lagartixas, Proporcionando bolsas às madames. Zilka Vasconcelos
Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.
Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.
Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,
câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?
José Bial
Na foto, Nasrin Sotoudeh, advogada de direitos humanos iraniana.
até aquele dia eu
ouvia a primavera no vento
podia saborear a cor das abelhas
sabia falar a língua dos mares
até aquele dia
até aquele dia que eu tateei
na minha própria voz
o mar no céu
em uma tempestade desesperada
de um nativo que tá sendo invadido
por dentro
como o mar não me avisou?
até aquele dia…
que eu ia perdendo os sentidos
e o sentido da vida que agora era…
de um nativo que agora sabe que
é perigoso dançar debaixo das noites
justamente nas noites que
eram tão claras! e não são mais claras
estão tão escuras
como o mar não me avisou
que eu ia perdendo o cheiro das coisas
que eu ia perdendo o cheiro do ar
sem respirar
como o mar não me avisou
que eu ia me acabar em mar
que eu ia me acabar em nada
sem saber nadar Isabelly Gama
E sem choro.
Inchaço, frieza e roxo
como adorno.
Primavera por um cordão virou outono.
Desesperada suavemente arrancou o abrupto
cordão característico a nativo de útero.
E as mães de natimortos, eternamente, abandono.
Enquanto a placenta anoitece com o sangue se pondo.
De todas as noites, essa costura
para sempre o sonho.
Do meu filho só ficou, justamente, os pontos. Milena Marques
a casa comprei
com as lembranças acumuladas
nada que não sei
seixa as paredes amargas
a dívida eterna
de lhe entrar sem seres minha
a dividida e terna
face que encarnas sozinha
vinte contos eu gastei
sem pensar nos dividendos
nas portas que arranquei
pelas têmporas ardendo
imponderáveis desejos
de aproveitar o dia
insuportáveis lampejos
mundo: porcelana fria
Luisa Issa
Nada melhor
que uma manhã nublada
de domingo
de madrugada chuvosa.
Folhas com restos d'água
molham o papel:
gozo que escorre lento
pelas pernas e pelos — fel.
Marcela Sperandio