segunda-feira, 24 de setembro de 2018

No habitat do ogro


Decidi engordar. Sempre que me dá na telha, como fast food. Vivo comprando sorvetes, bolos e tortas para a sobremesa. Estou orgulhoso com os resultados até agora: minha barriga cresce a olhos vistos e, mais importante, vai adquirindo consistência gelatinosa.

Para ajudar no processo, decidi beber. Costumo tomar vinhos ou cervejas especiais, que harmonizo com o prato, aperitivo ou sobremesa do momento.

Voltei a fumar cachimbo porque combina com todo o resto. Prefiro o risco de câncer de garganta do que o de pulmão – se não, fumava cigarros.

Deixei a barba crescer, e se não fosse tão magro (tirando a barriga), pareceria Karl Max. É verdade que nos trópicos faz calor e, às vezes, o suor escorre entre os pelos, mas não me incomodo. Faço um gesto de cão que se enxuga e molho a casa toda.

Por falar em cão, o meu tenta me fazer acordar cedo para sair. Recuso-me. Se quiser, cague no jornal, que está ali para isto. Estranhamente, Brutus não liga e toda vez que me vê faz a mesma festa. Aperto seu focinho com as duas mãos, jogando-lhe fumaça na cara. Ele ri, o danado, e tenta me morder. Antes eu recolhia sempre o cocô dele na rua; hoje só às vezes.

Quem chega aqui em casa, olha-me esquisito e ao perceber que todos os livros estão espalhados pelo chão, me chama de porco. Nestas ocasiões, rolo no chão, rindo e coçando a barriga, para que fiquem satisfeitos. Sempre os deixo felizes, dá para notar porque saem cochichando, entre eles, encômios sobre minha pessoa. Eu reforço seus laços sociais, e se você me perguntar, acho que devia ser condecorado.

Quase não saio. Perdi muitos ditos amigos. Quem ficou, gosta da minha presença e não exige nada de mim. São feios e a maioria pobre. Tem aleijados também. E negros, homossexuais, mulheres, trapaceiros, nerds, intelectuais, gênios. É tudo muito colorido e barulhento. Normalmente quebram tudo antes de ir embora, mas só porque os incito a fazê-lo. Tenho uma necessidade um tanto doentia, admito, de quebrar objetos. É isto ou ranger os dentes, mas penso que a primeira opção é mais elegante.

Raramente vou a festas e nunca a festividades. Natal e Réveillon são minhas preferidas para ficar em casa. Tomo cervejas que nunca tomei, harmonizo Häagen-Dazs com uma porter e incenso toda a casa com fumaça de Irlandez chocolate alpino. Brutos é como eu: fica puto com os fogos de artifício. Se eu tivesse uma metralhadora, devolvia o favor a esses filhos da puta que só sabem se repetir, ano a ano, como se fossem pequenos fantoches de uma força sobrenatural desconhecida. Vestem branco, os pequenos robôs!

Às vezes, nesses fins de ano, tem uma mulher comigo (é incrível, eu sei). Proponho transarmos no momento da queima de fogos para me livrar do desejo assassino. Elas acham estranho, mas topam. Não faço amor. É difícil descrever estes entrelaçamentos suados. Elas não reclamam e no dia seguinte me ligam perguntando o que vou fazer à noite. A coisa tende a desandar quando criticam minha barba e pedem que eu a raspe. Onde já se viu tamanho atentado à livre manifestação da vontade? Meus relacionamentos terminam, creio, por causa desses pelos que tenho na cara.

As pessoas normais, definitivamente, eu não entendo. Passei cinquenta anos tentando. Desisti. Essa mesmice me revolve o estômago. E não é que a padronização não tenha seu charme – a atração fascinada das ovelhas, a tara pelo rebanho –, ainda mais quando impregnada de juventude e beleza. Mas a vista cansa e a paciência não é eterna. O que atrai o mundo é um monstro forjado, cujo focinho reconheço a quilômetros de distância. Brutus rosna na presença destes protótipos de gente. Eu sorrio, em sintonia com a inteligência canina.

Minha barriga agora emitiu um som gutural. Arroto, e o eco percorre a casa. Meu cachorro corre para buscar um brinquedo. Ao redor, há o som de vizinhos que se preparam para ir ao trabalho. Fico de ouvidos atentos, esperando, esperando. Brutos solta a bola, pois me conhece. Quando se faz o silêncio, digo:

– Chegou a hora, rapaz.

Então, prendo-o e vou dormir. Tenho quase certeza de que gargalho no meu sono. Babo também, porque o travesseiro sempre amanhece úmido.

Bruno Mendonça


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