quarta-feira, 24 de julho de 2019

De cair a chuva, de Mateus Baldi - Primeiro Lugar de Prosa do X PPBPP


Um.

A manhã ainda não chegou por inteiro quando Karen abre os olhos e vê a neblina encobrindo o Pão de Açúcar. Seu primeiro pensamento é Meu filho dormiu sem tomar os remédios. Karen levanta e corre até o quarto ao lado. Sente a pressão cair. O menino dorme em silêncio. A cortina chacoalha contra o vento. Karen acha que está muito frio para o pulmãozinho dele. Se aproxima. Toca sua testa – Sem febre, ótimo. Karen volta ao quarto e se enrola no cobertor. Ela não sabe se aquilo nos postes é chuva ou sereno. Coloca os óculos e tenta discernir. Chuva. Fina. Caindo por cima dos postes e interrompendo o fluxo da luz. A manhã ainda não chegou por inteiro e ela decide sair para uma corrida. Fica de calcinha, os peitos nus diante dos vizinhos dormindo, e escolhe uma blusa e uma calça no armário. A tina está descascando. Precisa falar com o proprietário. Vai trocar a pintura. Mas antes o filho precisa curar da pneumonia. Tomar os remédios direito. E Rodrigo tem que voltar de Chicago. E Nova York. Só então a pintura. Karen fecha a porta – a corrida, é importante correr. Não é errado, questiona enquanto mastiga um pedaço de pão, deixar alguém com pneumonia dormindo para correr na beira da praia em dia de chuva? Joga o copo na pia, passa uma água e deixa ali. Dá uma última espiada no filho. Oito anos. Emergência do hospital. Rodrigo em Chicago. Mensagem rápida – Como tá aí? Dois tiques. Zero resposta. Fuso horário. Karen abre a porta do elevador e não encontra ninguém, só o mesmo cheiro de mofo. O síndico deveria banir esses cachorros fedidos. O dia mal raiou e Karen já sente o cheiro de mijo.

Dois.

Empresa inteligente. A brand new concept. A indústria garante. Rodrigo garante. Karen pega o fundo da demissão e investe. Porque a indústria – e Rodrigo – garantem. Karen bota o cabelo num rabo-de-cavalo que repuxa e sente que precisa afrouxar. Mas acha melhor não. A corrida vai desfazer os laços. Agora sim é dia. Karen desliza pela rua, atravessa sem olhar para os lados, sem iPod, sem nada, e começa um ritmo lento, um trote, cavalinho sem sair da chuva, Karen não para, pisa em duas poças em menos de um minuto, deixa o ódio para trás, apressa o passo, corre por debaixo do viaduto, assiste aos ônibus passarem, aumenta o ritmo – cardíaco, tudo –, o peito acelerado é bom sinal, uma gotinha de suor pinga da testa, precisa retocar a tinta, comprar lingerie nova, aniversário de casamento daqui a duas semanas, tanta coisa, o sinal fecha e Karen pisa num pé, pisa no outro, abre os olhos, fecha, o sinal fica verde, pode ir, vai, observa os pombos, escolhe a direção, o Pão de Açúcar ainda está em neblina, tudo está em neblina, eu mesma estou em neblina, Karen pensa, meu filho está em neblina, puta que pariu, meu filho, eu larguei meu filho, mas já agora ela já está rápida demais e não consegue parar, o dia aumenta de intensidade e o ritmo também e o tênis pisa com força e desliza e Karen zune pela pista até tropeçar e quase cair de cara, as mãos repuxam o impacto, Karen vê o ardido grunhir por todo o corpo, talvez o ombro tenha deslocado, não, não deslocou não, para de drama, volta a correr, ninguém sabe, ninguém viu, até o Pão de Açúcar está fechado pela neblina, isso, continua a correr, Karen, corre, Karen, você consegue, dane-se a dor, o ardido, corre, corre, corre, corre, corre, hoje você vai até a Urca e se seu filho abrir os olhos ele vai entender que a mãe precisou dar uma saidinha e que os lençóis retorcidos, a calcinha e o pijama jogados na cama não significam nada, mamãe volta já, querido, mamãe só foi dar uma corridinha, é preciso correr, tem que correr, tem que suar, tem que malhar, vamos lá, pulmão, coração, pulmão, coração, rins, costelas, ardência na ponta dos dedos, não estar nem aí para os dedos, Karen, é preciso não estar nem aí para os dedos, corre, Karen, corre, Lola, Karen, Lola, Catarina, Cecilia, isso, nossa, Cecilia, lembra da Polignano a Mare, as ondas lá embaixo e o italiano te olhando e perguntando teu nome e você – É Cecilia – e o italiano – Um nome bonito – e dizendo Titilia, você riu, lembra, Karen, você riu, você dormiu com o cara em Polignano, aquelas rochas lá embaixo, a praia de conchas, uma gruta ligando o oceano ao fim do mundo, a família com os adolescentes, o neném, o garoto com blusa escrito I ♥ Porn, você rindo, os trailers no camping, você rindo, Titilia, Cecília, o italiano – Rino, my name is Rino – e você pensando que Rino era gerúndio em Mesquina ou Belfort Roxo, ai, que horror, menina, Rino, você lembra do pau, do corpo, o peito nu com aqueles pelinhos e seu desejo incontido de ser anônima por um dia, sem filho, sem marido, viagem às pressas, já que no sul, por que não Polignano, por que não visitar uma cidade construída sobre as rochas, casinhas brancas, um mar absurdo lá embaixo, tudo tão lindo, tão bonito, uma noite de sábado, enganar um Rindo, não, é Rino, isso, Rino, enganar um Rino e trepar com ele e gozar como Rodrigo nunca conseguiu te fazer gozar, é um sexo diferente, é tudo diferente depois que os filhos nascem, a existência presume a decadência, mas também é tudo junto, uma troca consentida num restaurante onde Rino é garçom e te serve uma pasta cheia de camarões e mariscos e aquela suruba alimentar que você mastiga, Rino, você pergunta se tem vinho e ele diz que te leva para tomar na melhor espelunca da cidade, ele diz num inglês macarrone, é engraçado, tudo em italiano termina com vogal, então eles falam inglês botando vogal no fim das palavras e você acha graça, você achou graça, você deu pra ele, What’s your name – É Cecilia – e no instante seguinte ele está te puxando pelos cabelos que nem Rodrigo nos primeiros dias, ele morde sua orelha e te põe em cima da balaustrada, o mar lá embaixo, o apartamento é de um amigo, fica de fundos, e os fundos em Polignano são a porra do mar, o mar inteiro, e ele te chupa com o mar por testemunha, sua bunda na balaustrada de ferro grosso, você se sente dona do mundo e crava as unhas nos cabelos dele, zonza, tonta, tudo, absolutamente tudo, Cecilia te liberta, mas é Karen, por isso no dia seguinte você fugiu, não foi, você fugiu, Karen, Karenina, tanto faz, fugiu, não houve trem, é certo, mas você fugiu e abriu uma fenda talvez no coração do pobre garçom, tadinho do Rino, volta lá, Marcela disse, tu precisa pedir desculpas pro maluco, mas você não queria pedir desculpas, apenas sumir, retornar ao Rio e sua vidinha miserável – entrepreneur, está na bio do Instagram, agora você é entrepreneur e investe dinheiro numa empresinha nova, inteligente, a brand new concept, a indústria garante, Rodrigo garante, todo mundo garante mas não confirma, o dinheiro uma hora desanima, o mundo desanima, o Pão de Açúcar desanima e o sol não adivinha, baby, no coração do Brasil, do mundo, do Rio, da Urca, hora de voltar, ainda correndo, Rino, Polignano, balaustrada, entrepreneur, pneumonia, o menino está com pneumonia, dois tiques, Rodrigo, Chicago, Houston, we have a problem, I cheated on you but it wasn’t so good, com on, Houston, Houston, Oi, tudo sim, e aí, Francisco melhorou? Sim, Karen responde, mas a verdade é que nem sim nem não, Karen não sabe, você não sabe, Karen, seu filho tem pneumonia, controlada, claro, o pai viajando e você sendo ausente correndo até a Urca debaixo de uma garoa que gruda a malha fina da caminha na tua pele de mãe ausente, mãe demente, que absurdo, Karen, o menino vai morrer e a culpa vai ser tua, vai sair em todos os portais de notícia, a mãe relapsa, mas tudo bem, você sobrevive, Rino sobrevive, o mundo sobrevive, até deixar de existir o mundo ainda vai acabar muito, você sabe disso, decide fazer a curva e seguir correndo, não vai atravessar e passar por baixo do viaduto, não, vai seguir correndo, um bom ritmo, um bom pace, não precisa de aplicativo, olha o ritmo, segue o ritmo, Karenina, segue o ritmo, olha que bacana, ritmo, o marido ficaria orgulhoso, o mundo ficaria orgulhoso, Rino provavelmente perguntaria – Por que você fez isso?, mas quem se importa, não é mesmo, da sua vida já basta você se preocupar, e não só dela, porque há uma empresa e um filho, um filho é outra vida, embora todo mundo sempre tenha dito que um filho é parte sua, coisa nenhuma, ele é diferente, ele é Rodrigo menorzinho, ele reclama, responde, causa problema na escola, você é chamada, você acha um inferno, não foi para isso que eu engravidei, e olha que nem tinha Instagram, porque se tivesse é claro que seria mais fácil, tudo é mais fácil na vida visível do Facebook, do Twitter, do Google, será que Rino ainda posta aquelas breguices no Facebook – Forza Azurra!, va funcullo pezzi di merda, buon giorno a tutti, daje – ou parou, tomou jeito, como anda Rino e seu pau, como anda Rodrigo e seu pau, como andam os homens e seus paus, como suportam existir com aquele peso entre as pernas, haja cinismo, é mais fácil sorrir quando não se tem nada impedindo uma boa cruzada de pernas, uma boa cintura, só o deserto percorrido de estrias que é a tua pele, o maior órgão do corpo humano, corre, ritmo, olha o ritmo, Karen, mantém o ritmo, Rino, Francisco, Rodrigo, todos os homens da sua vida rimam, e rimam porque os homens nasceram para rimar entre si, existe o clube do Bolinha e o clube da Luluzinha, são impenetráveis as bolhas, a social media, a internet, o aluguel, o condomínio, impenetráveis na sua própria existência, corre, Karenina, corre desse homem, Cecilia, faz a curva, volta, volta, a chuva está apertando e seu corpo não aguenta, vai cair de novo, menina, volta para casa, toma um táxi, pede um Uber, grita, urra, espirra, tosse, só falta eu também pegar pneumonia, calma, Karenina, tudo sob controle, ritmo, pace, meia-maratona no fim do ano, maratona no início do dia, o ritmo, continua tudo sob controle, a existência, a vida, o silêncio da cidade, Rino vendo você sorrir no começo da mattina e perguntando se está tudo bem e você sem saber o que dizer, só querendo fugir dali ao que ele diz – Troppo silenzio – silêncio silêncio silêncio silêncio silêncio silêncio explodindo em barulho no teu ouvido, o rugido do mar nas grutas de Polignano, nas pedras balaustradabaixo de Polignano, o mar em tudo e em nada e Rino dizendo – Meu avô era promotor de justiça e sempre me dizia que a vantagem do silêncio é não perturbar os inocentes – você queria ir embora, você só quer subir as escadarias, dane-se o elevador e o cheiro de urina, Francisco, você precisa de Francisco, ele precisa de você, ele acordou e está chorando em desespero, você tem certeza, Francisco, calma, filho, eu tô chegando, foda-se o portal de notícias, eu vou ser a mãe do ano, eu sou a mãe do ano, a melhor mãe do mundo, a melhor corredora, eu sou, eu sou, eu sou eu sou eu sou eu sou eu a melhor mãe do mundo abre a porta Karenina corre até o quarto não para de correr olha como você foi burra Francisco ainda está dormindo e lá fora nunca para não para nunca
de
cair
a chuva.

Mateus Baldi

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