sexta-feira, 19 de julho de 2019

Gengibre faz bem pra garganta, de Lucas César de Oliveira - Terceiro Lugar de Prosa do X PPBPP


- Dizer o que sente também!

Eu sempre joguei esse assunto para o outro lado do muro, mas como fugir agora, preso em um apartamento sozinho com ele!? Claro que não durou muito mais que duas horas, mas algumas gerações minhas se entediaram e morreram no desenrolar. Resisti: tinha almoçado e meu corpo dava conta de estar acordado. Eu quis pular da janela, ver se minhas asas bateriam, mas não aconteceu, eu escondi o rosto em minhas mãos até o libertador surgir, indiferente e comprometido no ofício de salvar vidas presas em apartamentos com a chave para fora. Vou, sigo para o próximo assunto até eu perceber que estou em uma sala espelhada, onde eu olho para frente e enxergo infinitas costas minhas encostadas nas costas de você sabe quem, eu também sabia mas preferi ficar quieto a invocar o nome. Meu temperamento nunca foi explosivo mas ando muito enérgico, procurando caixas com aranhas para enfiar a mão: adrenalina da mais urgente e sem chances de dar errada. Tudo bem, paro logo no primeiro cigarro já com a pressão baixa, de fato não sou um senhor com traços sérios e barbas grisalhas, até gostaria porque assim não seria eu e então não estaria tentando escrever para no fundo cavar o oco do meu peito em busca do desconforto que sinto ao estar com meu pai. Eu disse calado que não diria mais nada sobre. Por muito tempo aceitar sua morte em forma de ausência foi de fato mais fácil, era como ignorar a escara em corpo alheio. Agora não, filho do pai eu e ele, por estar em meu corpo, pegajoso pelo meu braço e escorrendo por toda minha pele: como me livrar se ao abrir o chuveiro eu escuto o eco do seu chamamento. Queimando eu tenho você me olhando, calmamente dizendo algo macabro; que medo sinto de cair no mar e mesmo morrendo te ver ali do meu lado, passivo de olhos fechados se deixando afundar, ao fim dar-se. Eu abri minhas meias queridas e coloridas, soletrei o abecedário inteiro e você não escutou, mas por que agora que me jogo nesse buraco sem profundidade chamado ser adulto, você surge!? Deixa-me, eu e minhas calcinhas que agora cavo no meu cu. Nunca me reprimiu de mim, mas que história engraçada essa contada no pé do meu ouvido que te traz como homem, assim, de bronze fervendo a luz do sol à noite. Meu Deus, que mulher sejas e tenhas misericórdia da minha alma que está sufocada, vamos!, ouça-me e me puxa para um lado no qual a música tocada me lembre apenas tapetes árabes dançante, luas em peixes e lagostas, além de bocas vermelhas dizendo lagostas. Oasis. Por hora estou na gengiva do meu pai, roxa, enquanto o escuto comer como quem tem urgência, barulhento e tirando de mim arrepios. Santo madre o papa e a palhaçada toda, juntando em mim Jó e os carneiros eu não teria paciência. Que qualidade de texto você me permitiria fazer se não fosse o fato de seguir digitando como um bêbado correndo em uma rua infinita? Há, aqui mesmo no meu vagão, um sentimento de ânsia que não se vomita, um desconforto deitado na tarde de domingo sem sono, uma surdez de subida de Serra sem viagem, é como caminhar para um velório: nunca fez muito sentido, mas respeito em silêncio. Com certeza diriam essas palavras de alguma forma diferente, mas eu proponho carne de diversas cores ecoando as diferenças que em mim chegaram ao se partir de você. Riachos, percorram acelerados enquanto eu possa caminhar em silêncio ao seu lado, meu pai, eu deitaria no seu colo calado se tivéssemos coragem e lá, na nossa história composta de agora, um carinho na cabeça não pareceria uma britadeira escandalosa no sábado a gritar pelas seis da manhã. Com os números aprendi que demoro a compreender as equações, mas que é possível. Eu não lhe cobro o que não tive, sabemos que faltou em mim essa peça que quem sabe numa velhice esquecida passa a fazer parte, mas não reclamo a ninguém, nem a mim mesmo, quem escreve este texto é uma alma morta pronta para reencarnar em alguém como coragem de se viver o risco em se assumir precisado. Alguém que aguarda. Eu suspiro triste o fato das paixões terminarem assim como o fósforo à noite e de eu não estar bêbado e mesmo assim sentir que todo esse vômito faz sentido e diz algo fossilizado em 1500 anos dos meus 21 vividos, sim, dei looping em noites à procura de um cu que eu pudesse colocar o dedo me sentir cheio; como não preenchi meu corpo espaçado, segui cutucando buracos até começar a escrever, jogando-me no abismo de vez. Que saber, pai sabido, aqui é confortável e eu consigo deitar minha cabeça nas paredes úmidas, não sinto tanto frio apesar dos musgos e eu posso chorar sem ter a chance de me calar olhando-me você no espelho: quantas camadas de nós couberam em cigarros fumados escondidos no banheiro sem luz? Em!? Vagueio, meu pai que caberia em meu colo, quente e afetuoso, enquanto eu posso imaginar que é realmente possível ser amado por outro homem. Depois disso, chegando minha estação sinalizada pela voz robotizada do metrô frio, eu vou achar tudo mais possível de se perder. Entre o agora possível e o instante que vivo, eu salto em nuvens de algodão, sim, que não pesam, mas que podem me aguentar sendo reais durante meu sonho que escrevo ou adio o choro pelas palavras que não são minhas, mas morreram na garganta apertada. Minha e sua.

Lucas César de Oliveira


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