sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Sintomas de Saudade


Tem horas que me dá um calafrio,
Que um sopro melancólico me invade,
Nos braços me percorre um arrepio,
Na alma a sensação é de vazio
E logo me dou conta que é saudade.

Tem horas que me pego pelos cantos
Sem ânimo, sem brilho, sem vontade,
Eu tento ver, com garra, se suplanto,
Contudo sou vencido, caio em prantos
E logo me dou conta que é saudade.

Meu coração dispara, dói-me o peito,
Cogito duvidar da sanidade,
Do juízo, que outrora foi perfeito,
Já não durmo, nem como mais direito
E logo me dou conta que é saudade.

As vezes não importa o que eu faça,
Não acho coisa alguma que me agrade.
Qualquer prazer a mente já rechaça,
O mundo já não tem mais tanta graça
E logo me dou conta que é saudade.


Nada para,
Segue o jogo,
Rio que corre,
Dor que arde.

Nada para,
Todos amam,
Só meu peito
Faz alarde.

Nada para,
Tudo gira,
Só meu mundo
Que se evade.

Então logo
Me dou conta:

É saudade.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lanternas nuas


Sorrateiros os gatos e os sapatos
  Felinos e engraxados
   Rumam pela madrugada adentro
    Ignorando as lanternas da rua
     Com as suas luzes amareladas
      Suas pernas compridas e nuas.

Os gatos com suas sete vidas
  Desvendam o trajeto do nevoeiro adiante
   Os sapatos com as prestações vencidas
    Sufocam as dores das feridas
     Pulsantes ou mal curadas
     
Sob a luz amarela há encanto
  Os gatos lambem a luz na poça ao lado
   Os sapatos tropeçam na ausência dela
    E a luz trêmula permite no seu canto
     Que a madrugada sua alquimia revela.

Perpétua Amorim

terça-feira, 3 de novembro de 2015

para virar uma árvore


respire muito muito muito fundo,
fundíssimo, como se fosse a última
vez que o ar estivesse disponível
antes de começar a ser vendido
em pequenos saquinhos amarelos.
(se o ar já estiver sendo vendido
em saquinhos no momento em que lês
o poema, não leia mais poemas).
plante os pés no chão, ao lado da mais
alta árvore que estiver ao seu
redor. agora, feche os olhos, pois
o resto acontece sozinho.

João Pedro Liossi

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Maria


É mais um fim de fria Madrugada,
com um espectro de uma neblina derrocada,
que fará de Maria novamente desalojada,
Ela esta em seu casebre , acordada,
olhando pra seus filhos que dormem
sem saber de nada.

Maria treme com  misto de frio e medo,
pois Ela, mais de uma vez,
esta vivendo este enredo,
eis que neste terreno que pagou pra invadir,
e que agora, forçadamente, tem que sair,
evidentemente, Ela e seus filhos não tem pra onde ir.

Maria é sozinha, 
nesta sua Vida descaminha,
só tem seus filhos,
pra seguir nesta agonia.

Maria não tem mobília,
esta descrente,
já não acredita em homilia,
cada vez mais esta sem energia.

Agora que mais uma vez foi despejada,
Maria esta encurralada,
não há programa de governo
que possa abriga – la
Maria não acredita mais em nada.

Maria novamente ira pagar pra invadir,
pois não tem pra onde ir,
até, que mais uma vez,
o rolo compressor imobiliário,
numa ação de despejo,
patrocinado pelo judiciário,
fará com que Maria e seus filhos,
tenham mais uma madrugada,
com um terrível espectro de neblina derrocada,
onde Maria irá tremer desesperada,
olhando seus filhos,
que dormem sem saber de nada.


Marco Aurelio Tisi

domingo, 1 de novembro de 2015

Em mãos, poema de Rachel Ventura Rabello


Ouve
com os olhos.
Sei que os olhos têm
uma audição própria.
Espero que o som seja
o mesmo
ou se assemelhe
ao roçar da língua
no ouvido...

Veja,
é só uma questão
de ouvir de dentro.
Preste atenção
ao que te digo
e não ao som
do que digo

Eu contarei o segredo:
S E G R E D O

Quero contar
como contar
o segredo
e, assim,
desfazê-lo.
(que segredo
que se conta
deixa de sê-lo).

Pegue, tome
tenho medo
de perder
o que direi
ao dizê-lo.
Então (por isso)

vou escrevê-lo:

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Aconchego


De manhã sou acolhido
Pelas luzes sorridentes dos teus olhos,
Refletidas do sol que vem nascendo.
Tremulam caracóis anelados mal dormidos,
Sob a brisa marinha que te embala


João Luiz Azevedo

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Duo


Os passantes no Fausto se desfolham
entulhados de peixes e reflexos
nas valas maceradas do Estado
Vacilam como quem inventa horas
Num rio que não aceita outro labor,
 E espalha uma canção na relva d´água
Teus olhos brônzeos como o lombo de Ares
assentando na margem uma sibila
a divergir no caos do riso alheio
Tua fala a romper-me como um hímen,
 envolta por um átrio de questões
como no eco a Insígnia se desmonta
Hordas de nuvens, lábios volteando
o desmembrar da chuva, como Éolo,
desnudos nas trincheiras do acaso.

Heitor de Lima

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Desafio poético das vogais

SEM U

Entre topografias e constelações
afloram centelhas poéticas,
dissipam-se fins e começos,
idas e vindas da 
viagem entre o
açafrão e o carmim.


SEM O

Mileumahistórias da mulher nua
sua vulva, medula e unha
miúdas pedras preciosas
exalam perfumes
alvuras e aragens.
Numa viagem impura
Pura miragem.

SEM I

Do eco do oco do coco
soam ondas de
águas doces.
Do verde vertem
volutas sonoras
sol-vento-mar
vaga-rosa
a tarde vem.



Só a sós
sem sol
tudo nublado


Ave pousa
em pausa
repousa


SEM E

Folha branca,roupa alva
anunciam líquidas linhas.
Traços, riscos, línguas
conjugam novos sons.
Garatujas, palavras
ritimizam o conto-canto.
No agora as mãos
criam o vazio.
Afirmação do mundo.


Ângela Quinto

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Andrômeda Acorrentada


Com que aterradora agressividade
Ataca a rocha a marina tempestade!
Água e terra em feroz competição
Por maremoto e intensa vibração
De Cefeu a orla etíope estremecem
E o terror no velho rei estabelecem,
Pois à fúria em Posídon instaurada
Gritos por misericórdia valem nada.

Também no cinzento e escarpado rochedo
Treme a virgem Andrômeda de medo.
De sua altiva mãe a desregrada voz
No deus marinho acendeu o ímpeto feroz
Ao as vastas filhas de Nereu comparar
Em beleza à sua prole singular.

Ao Oráculo muito penou dizer
Àqueles pais que para demover
Do deus colérico a ira inflamada,
Que deixassem na pedra acorrentada
A predileta filha como sacrifício
Ao monstro emergente do precipício.

Diante do seu reino a destruição
Só sobrou ao rei a paterna negação,
E não foi com pouco ressentimento
Que condenou a filha ao fim sangrento.
E como sofreu ainda mais o soberano
Em ter de assistir ao ato desumano!

No horizonte longínquo já assomava
Na superfície do mar a besta brava,
Um colosso em volume semelhante
À rocha sobre Andrômeda dominante.
Os incontáveis dentes na boca aberta
Mostrava Cetus alcançando sua oferta.

Eis que surge incauto o anguicida Perseu,
Por Zeus filho que Dânae concebeu,
Espada à mão, sobre Pégaso montado,
Com a cabeça da Górgona armado:
Troféus duplos que de Argos o varão
Colheu da Medusa na decepação.
Muito espanta o herói aquela cena,
Ver acorrentada a virgem pequena:
¬Formosa, tão alva quanto a espuma do mar,
O negro de seus cachos a contrastar,
Os graciosos lábios comprimindo
E seus olhos a tristeza traduzindo.

Por marmórea estátua seria tomada
Andrômeda na pedra encadeada,
Se não fosse por seu úmido sal vertido
E o cabelo pelo vento sacudido.
Lá a virgem bela em restada submissão
Esperava a derradeira execução.

À Andrômeda acorrentada dirige
Perseu a voz que uma explicação exige.
Qual foi o crime hediondo que cometeu
Para ser punida a filha de Cefeu?
Uma beleza assim sem precedentes
Não deveria ser posta em correntes!

Defronte de tanta altivez hesita
A tímida Andrômeda desdita.
Esconderia o rosto logo a mão
Se não lhe detivesse o frio grilhão.
Mas do herói a calorosa insistência
Na jovem vence a última resistência.

Mas tão logo que lhe contou a princesa
O que a levou a ser na pedra presa,
Ergue-se do mar um bestial rugido
Por gritos dos etíopes acrescido.
Grita também a filha de Cefeu,
Com o grito dos pais ecoando o seu.

Então exige Perseu valente,
Pela morte do monstro insurgente,
Ao pávido rei em matrimônio a mão
Da bela virgem salva da execução,
E do monarca só restava ao caso
Conceder ao pedido sem atraso.

E voa Perseu contra Cetus colossal,
Empunhando firme a espada fatal,
E dá três golpes do Pégaso alado
Na besta sobre seu dorso e lado,
Com que agilidade se esquivando
Do bruto ataque do monstro nefando!

Como não afundava a incansável besta,
Saca a anguícoma cabeça de sua cesta
E o petrificante olhar ele vira
Contra o fruto de Posídon e sua ira,
Transformando em rochedo esculpido,
A adornar a orla, Cetus vencido.

Morta a besta, Perseu voa sem demora
Para a pedra onde Andrômeda ainda chora.
Por golpes de espada ele parte a corrente
Que prendia os braços da virgem fremente,
E voando transporta à terra segura
A ainda assustada esposa futura.
Assim Perseu, por chuva de ouro gerado,
Salva a bela Andrômeda de seu fado.

Leonardo Ferrari

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Sem palavras


E o abstrato se fez concreto
e habitou entre nós...
Antes do engenheiro nasceu o arquiteto -
toda obra se faz antes, não após!

Oh, mundo tão apressado e veloz,
dos que concretizam antes de abstrair!
Por que viver de forma tão feroz?
Onde nasce seu pensamento
e onde está a sua foz?

Desague em mim sua fonte!
Vamos construir diálogos,
erguer nossa ponte!

De palavra abstrata.
Materialização da palavra.
Concretizando nosso diálogo,
quando ela conhecemos.
Para que nossa ponte não seja feita de medo,
para que se erga a ponte e não o muro!
Para que palavras sejam conhecidas
e não
jogadas no escuro.

Palavras é o que somos.
Que somos nós, além de palavras?
Palavras medrosas.
Palavras sem voz.

Raquel Scarpelli

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Dia do poeta


O Dia do Poeta é comemorado em 20 de Outubro, no Brasil.

Esta data celebra o profissional, o artista escritor, que usa de sua criatividade, capacidade linguística, imaginação, técnica e sensibilidade para expressar-se ou expressar o mundo, com lentes particulares - algumas o tornam mais belo, outras, mais seco, mas ela é sempre uma espécie de salvação.

Não há povo que não tenha em algum momento se expressado através de música, poesia, de narrativas ritmadas, e para celebrar essa arte tão profundamente humana, desejamos a todos os poetas que passaram pelo PB, assim como a todos que jamais passaram ou conheceram o jornal, um grande parabéns.

Equipe Plástico Bolha.

crime perfeito


abaixo todos os cartórios
viva a fronteira desguarnecida
a utopia não requer testemunhas
o poema é o crime perfeito
do qual todos querem ser cúmplices

Salvador Passos

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Um minuto, vinte e três segundos e quatro milésimos


um

Antes que você durma falemos dos seus olhos
Antes que eles sumam sob as suas pálpebras falemos dos seus olhos
ou da voracidade do seu corpo ou do açúcar na sua voz
qualquer coisa que me faça entrar abruptamente
em estado catártico até que se diluia o engarrafamento.

Você sempre se desculpa por me chamar tão tarde, mas
a verdade é que eu gosto de reparar
no retrocesso dos carros, no cessar das buzinas
nos corpos entre luzes e nas aves de rapina:

Um homem anda com as mãos nos bolsos em passos largos
uma menina salta da van e entra em um das ruas adjacentes
um mendigo urina displicentemente e entra na mesma rua
um cachorro fica a me olhar e mordisca uma das pernas.

Um minuto, vinte e três segundos e quatro milésimos:
Um caminhão de bombeiros passa a duras penas
e tudo volta a ser um grande tumulto.

dois

Imagina se um dia todos os cavalos se rebelassem, eu penso.

Cavaleiros não guerreariam.
Corredores não correriam.
A polícia montada  não montaria.
O estábulo seria fechado.
O hipismo cancelado por tempo indeterminado.

E os cem carros sem seus cem cavalos
enguiçariam na Brasil nesta noite de domingo.

Felipe Andrade

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

15 de outubro, dia do professor

  
 Eu escrevo estas trovas,
 sentindo muita emoção.
 Elas constituem provas,
 da nossa grande missão.

 Professoras, companheiras ...
 Nesta reunião tão singela,
 lembramos nossas carreiras,
 numa lição muito bela!

  Nossa vida é sacerdócio
 que cumprimos com prazer.
 E por não sentirmos ócio,
 nada pode esmorecer.

 Hoje, no inverno da vida,
 unidas na mesma estrada ...
 Numa existência florida,
 Eu me sinto abençoada.

Therezinha de Jesus Villaça Cassiolato

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Volátil


Um tanto de tudo
em tudo
sob o mesmo teto
tranquilo
tateio em segredo
e aquilo fica assim mais liso
em silencio
sobre tudo
um tanto de amores
corre
e em nós dois permeia
um tanto de tudo
um pouco.

Welington de Sousa

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O dia da redenção


Foi o dia em que o passado ficou para trás
O presente se tornou motivo de satisfação
Quem tinha pouco, terminou com demais
E quem não tinha nada, ganhou um milhão

Dia em que o ladrão devolveu o que roubou
Todos os povos celebraram a paz universal
O tímido conseguiu chegar lá e se declarou
E optou pelo bem quem havia sido do mal

Nesse dia, os antes tristes estavam sorrindo
O homem de terno cumprimentou o mendigo
Voltaram todos aqueles que tinham partido
E esbanjava serenidade quem corria perigo

No mesmo dia, as religiões se unificaram
Muitos solitários deixaram o seu marasmo
Os mudos foram os que melhor cantaram
E político honesto tornou-se um pleonasmo

O dia da redenção foi uma constante alegria
Nada podia deter o grande senso de justiça
A aguardada segunda chance causou euforia
E realmente sentiu-se uma mudança maciça.

Alan Caetano Zanetti

Lançamento do livro "Marulho", de Paloma Roriz


Será celebrado hoje (14/10/215) o lançamento em grande estilo de mais uma poeta que enriqueceu com seus versos o Jornal Plástico Bolha!
Paloma Roriz faz ecoar seu "Marulho", compêndio de poemas belos, precisos e contundentes, pela editora OrganoGrama Livros!
De 18:00 às 21:30, no Varal Bistrô (Glória, RJ).

Compareçam!



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Grandeza


Um escravo bem nutrido
por acaso
deixa a escravidão?
Liberdade, liberdade:
eis uma grande ambição!
Quantos aqui desejam ser livres,
se a maioria já se contenta
que lhe paguem
o seu tostão?
Crescer, conhecer, crescer!
Eis a melhor instrução!
Quantos aqui desejam ser grandes,
se a maioria só sabe sê-lo
ao lado
de um anão?

Raquel Scarpelli

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Mar de Gente


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas do Senegal,
da Turquia, da Síria, da Nigéria!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas pessoas se afogaram!
Quantas praias não chegaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Quantas famílias ficaram por se encontrar
Quantas vidas ficaram por melhorar
Para que fosses nosso, ó mar!
Ó lar!
Lar?

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a esperança é pequena
mas a alma não é.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Quem quer passar além do Mar Morto
Tem que sobreviver.
Quem quer passar além das fronteiras
Tem que enfrentar as trincheiras da hostilidade,
do preconceito e da barbaridade.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.
Que dó, meu Deus, que no continente europeu
parece que espelhaste o inferno.

Yasmin Barros

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Perdidos no espaço


As estrelas estragam a trama negra
do céu. Traças de luz sobre o veludo
traçam leões e bússolas, escudos
e escorpiões. Seus símbolos e letras

revelariam todos os segredos:
saúde, morte, amor, fortuna e azar.
Como se as traças dessem pra tramar
mais que furos de luz no fundo negro.

Leoni

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

IX


A cabeça do poeta: noite
em miniatura — no interior
do ovo ainda inteiro e intacto
a noite elabora a gema,
poema à imagem do sol;

sob a casca em branco
a técnica do espanto
até que na temperatura exata
do ovo se evade
a forma áurea da ave.

Erick Moraes

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Axiomas de prelúdio


Pega a Onomatopeia pega ela depressa pega e se exaspera e pega e se apressa. Pega com pressa, faz uma compressa para dor de cabeça. Liberta toda a fome da sexta-feira. Libera a cabeça que gira depressa. Liberta o sentimento poeta. Liberta várias almas com calma. Abre o decassílabo, persegue nele o destino. Segue de mansinho, vai depressa ao Anacoluto. A casa, o homem adentrou batendo as pernas com tudo. Contudo a hipérbole é assintomática. Tic-Tac no meu coração. Faz a metonímia transar a metáfora na maior das sinestesias com a personificação do criado mudo, pois o crioulo surdo já fala de provérbios velhos.

Axioma marginal
Polissíndeto acidentalmente marginal te dou aval
Que fales por mim!
Que saia das saias de roda
Que force a força do braço
Que pegue a enxada na roça
Axioma marginal
Não seja tu o meu banal
Sonho realmente
Verdadeiramente venal
Real metáfora
O sapo engole a cobra
Língua de sogra
Veneno chacal
E gato foge de cão
A galinha fala do milharal no quintal
Infâncias da gente
Seja veemente
Venha ainda que descontente
Quebre um dente
Leia a prosopopeia
Faça um verbeto
Reverbere no clarinete do negro
Antes venha com antíteses
Mímicas e mímeses
Engrosse o glossário
Escondendo o guarda-chuva no armário
Já que eu sei
O cacófato lerei
Saio do pleonasmo
Sou vicioso exagero
Ah! que coisa verifica a zeugma
E evita o barbarismo
Vibre com sufixos
E prefixos
Também não os esqueça
Guarde este poema de cor no coração.

Antônio Marcos Abreu de Arruda

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Algo ainda mais estranho e inexplicável


Desde que as fábricas do Cinturão de Órion
Patentearam os rubik’s cube
Invenção barata feita pela raça
Do terceiro planeta de um sistema solar
De uma galáxia empoeirada


Ficou impossível para todos
Ter uma razão de existir
É bem verdade que ainda
Existiam as palavras-cruzadas
Mas não era a mesma coisa


Os governantes da terra ainda se organizaram
Para a partir de uma base em marte
Enviar uma missão de camelôs astronautas
Para comprar o objeto em Alnitaka


Mas foram barrados pelo alto custo da missão
E pelo questionamento de políticos socialistas
Que suspeitavam que os cubos seriam
Comercializados a preços absurdos
Priorizando uma minoria burguesa


Preocupado com o alto índice de suicídios
O presidente das galáxias tomou uma medida
Que obrigava as fábricas enviarem um cubo
À cada planeta do universo e que os deixassem
Aos cuidados das mais famosas instituições planetárias


As fábricas tiveram prejuízos
O que as levaram a comprar peças
De segunda para os motores de dobra
Das naves mercantis interestrelares


A nave que trazia o cubo ao planeta terra
Errou o cálculo da dobra e foi para o passado
No planeta na cidade das sete colinas
Fizeram o primeiro contato com a instituição


Os homens de vermelho e chapéus engraçados
Não sabiam como tratar aquele assunto
Mas o entregador como todos os entregadores
Queria apenas cumprir seu dever


E deixou o objeto ali mesmo na porta embalado
Em plástico-bolha o que mais tarde seria
Uma febre mundial estourar aquelas bolhas
Que faziam barulho agradável aos sentidos


Os velhinhos de chapéus engraçados
Carregaram o objeto para dentro
E ali começou o maior de todos
Os desafios que tiveram em suas vidas


Anos a fio tentaram resolver
O enigma daquele cubo
Doutores foram levantados
Mestres questionados em oculto
Muitos ficaram loucos de pedra


Até que um dia para conter o frenesi
Dos que queriam resolver o cubo a qualquer custo
A instituição o colocou numa caixa e o trancou
Numa sala onde um único homem teria a chave

A sala ficou conhecida como a sala das lágrimas

Savannarola

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Mostra Bosque - PUC cena experimental


O Plástico Bolha vem divulgar, através da matéria de Santiago Perlingeiro, a iniciativa Mostra Bosque - PUC cena experimental, em andamento desde sexta-feira (dia 11) e que se estende até dia 18. A programação detalhada do evento e demais informações podem ser acessadas pelo facebook https://www.facebook.com/mostrabosque?fref=ts

Segue a matéria de Santiago, publicada pela NOO:
http://noo.com.br/mostra-bosque-ta-de-volta/ 


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Divina confusão


Contra o pôr do sol, alinhado                                  
ao nascer do dia, bem no alto          
da montanha — lá, o Redentor.      
Um erro de cálculo: Cristo               
(oxalá que mal saiba disto!)             
manda pra Meca seu louvor.

Alexandre Bruno Tinelli

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Soneto do nonsense


Certo dia meu bom jardineiro
Não quis bala como pagamento
Papilas sinvastativas no celeiro
Cachorro morto não liga pra faturamento

Na minha casa nem tem grama
Fiz a canja no estilo anagrama
Hoje é o dia, fotograma vira anedota
Esse cotovelo de plástico pertence ao agiota

Nessa vida que  Deus me deu aprendi
Gatos vesgos têm dificuldade de tossir
Cumpadi, seu “modos operante” acabou de sair

Meu soneto é fácil de levar a cabo
Foi só seu título pronunciar
E fiquei com vontade de comer quiabo.

Raphael Aguiar

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A programação de setembro da Exposição Poesia Agora está imperdível!


A nova programação para o mês de setembro está intensa: um evento por semana!
No dia 05 de setembro teremos o Sarau Casa das Rosas, tradicionalíssimo centro de cultura e poesia de São Paulo. Esperamos um evento de alto nível comandado por Frederico Barbosa e companhia.
Para o dia 12, Slam Poesia Agora, com Yassu Noguchi e Marcos Bassini sacudindo a poeira, mantendo a peteca no ar.
No dia 19, um grande encontro entre Guardanapos Poéticos (Daniel Vieira) e Poesia Biossonora (Wilmar Silva de Andrade).
Finalmente, para fechar o circuito com chave de ouro no dia 26, todos aqueles que acompanham o PB estão convidados ao Espaço Plástico Bolha, sob a tutela de Lucas Viriato e João Moura Fernandes.

Esperamos todos lá!


sexta-feira, 21 de agosto de 2015

No Jardim


respiro livremente
entre as flores
sinto as fragrâncias
danço com o vento
viajo até as flores,
as mais belas,
sigo meus instintos
os cheiros me atraem
não paro de dançar
meu círculo fascinante
meu mundo encantado
- a imagem da borboleta


Cristal Lacerda

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Senta lá, Sartre


brinquedos quebrados
não questionam
pureza

desinteressante a
ausência de foco
dos sentimentos:
                
                   o seguro morreu velho
                              e o apaixonado,
                                               cego

inocentes
os pés descalços
os cabelos
                amorfos

o fardo não é leve

mas vale o
uso da imaginação
e de crayons
pra colorir

enquanto isso
meu gato me encara
branco & preto
por trás do
verde –

habitante do brilho
prateado, ele sabe

certas as elipses
da vida
           (a miopia
                  necessária):

ocultam o inferno

em nós

João Meireles

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Irene no escuro


Estou suado e ofegante, largo a bicicleta na calçada de Irene, com cuidado, pra não fazer barulho, por mais que desconfie que ela saiba que cheguei, e mesmo que tão tarde da noite, tenho certeza que haverá uma testemunha.
Foda-se.
Não tenho nada a perder.
Aproximo com cuidado, conheço a casa de Irene como a palma da minha mão. Depois de dar uma olhada na rua deserta, pulo o muro do lado, que é menor e dá direto pra varanda, aterrisso no gramado bem aparado, tiro meus sapatos pra não fazer barulho.
Meu coração bate acelerado, sangue corre quente nas veias, tão vivo e fresco quanto o sangue que mancha minhas roupas.
Estou eufórico e tremulo de febre, sou como uma corda de violão que oscila e vibra criando imagens paralelas à sua.
Quando toco na porta vejo que está aberta, é a confirmação de que ela sabe que estou aqui, a sala tá escura, só com a luz da escada acesa, posso ver a silhueta do corpo magro de Irene parada no último degrau, me olhando enquanto seus cachos egocêntricos estão armados sobre sua cabeça.
Como ela sabe que eu tava vindo?
A corda ainda não terminou de oscilar.
Eu sou um cara possessivo e inseguro, é por isso que tenho uma faca presa na parte de trás do cinto. Meus óculos estão cada vez mais embaçados devido às bufadas de cansaço pela indisposição causada pela febre, enquanto a barba tá coçando.
Irene está nervosa.
Começo a andar em sua direção. Piso no primeiro degrau da escada e apago a luz para que não me veja.
Vou subindo cada vez mais rápido, vejo o vulto da Irene correr para a sacada da casa.
Mais gotas de suor escorrem pela minha testa, só que agora frias e incomodas.
Minha camisa ensanguentada pesa e escorre sobre minha calça jeans.
Sou a corda que oscila.
Vou puxar a faca presa na cintura, e vejo que não está mais lá.
Que merda é essa?
Noto também que já não estou subindo escadas, pois não existem mais degraus, e sim um chão gelado e plano, está uma total escuridão, mas posso sentir com os pés descalços o azulejo antiderrapante abaixo de mim.
Que merda?
Não sinto mais o corpo dolorido de febre, passo a mão pela testa, não estou suado frio, a camisa parece não estar mais ensopada do sangue da outra pessoa que matei antes de vir pra cá, até parece ser outra roupa.
Merda!
Eu chego ao fim do que deveria ser uma escada, só que agora parece ser um corredor.
Vou tateando pelas paredes.
Encontro um interruptor, acendo, por um segundo uma luz muito forte e branca toma conta de tudo, quando abro os olhos vejo que não estou na casa de Irene, realmente não há mais faca, nem roupas sujas de sangue, e sim um uniforme...
A corda parou de vibrar.
Levanto a cabeça, tudo começa a girar ao meu redor.
Merda!
Segundos atrás eu estava na casa de Irene, subindo as escadas, e agora...
Estou numa cantina...
Com pessoas de uniforme?
Uns três indivíduos velhos e barbudos jogam dominó numa mesa pequena e descascada, outro olha com cara de retardado pela janela, uma senhora acaricia um gatinho no chão, enquanto outras meia dúzia de pessoas assistem a uma pequena TV presa na parede, e três guardas armados vigiam as três entradas da sala.
Fico sem reação.
Onde é que eu tô?
Como?
De que jeito?
Um homem muito gordo de branco se aproxima de mim, puxa uma prancheta debaixo do braço, arrasta o dedo por ela e diz sem olhar pro meu rosto:
_Muito bem... Ah... O senhor, né? Hora do remédio.
Então tira duma pochete ridícula presa debaixo da barriga, um copinho de café, deposita dentro dois comprimidos vermelhos e estende o braço, eu apanho estupefato, mas não por isso, e sim pelo que diz no crachá pendurado em seu peito.
Clinica Psiquiátrico Santa Rosa.
Que porra é essa?
Eu começo a gritar e me debater, quero voltar pras escadas, o gordo tenta me segurar, puxo a caneta do bolso de sua camisa e enfio num de seus olhos, sangue jorra pra minha cara, um dos guardas corre, aponta a arma e dispara...

Numa fração de segundos estou no chão, sangrando e desfalecendo.

Igor F. G.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Bússola


o circo está na cidade
e o caminhão pipa
vem descendo pelo breu

eles correm para o portão
a boca cheia de areia
correm cansados de esperar
na sala de jantar

cresci sob um coqueiro
uma goiabeira
e um pé de acerolas

a ciência dos cuidados estraga
mas dos sonhos
me fiz sacerdote

entre mim e o outro
há apenas o meio
e no fim de todas
as estradas

o norte

João Meireles

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Gastronolobotomia


A ponta vermelha do dedo na pia.
Uma pilha de pratos.
A gota que vem da bacia, do cano do bico de uma torneira.
Alface prende-se no metal, papéis de flores encharcam lágrimas de cebolas risonhas.
Descascas de cascas descascadas.
Operante de cozinha, uma desgraça.

Luan Carlos Machado

sábado, 8 de agosto de 2015

Antes de usar,


Verificar se a voltagem de você coincide com a
da tomada. A rede elétrica deve ser de fio 14,
conforme determina a norma NB-3 da ABNT.
Instale o fio terra fixando-o no parafuso
indicado pela seta.
Para início de conversa, trabalhe
durante pelo menos 6 horas com o
botão de controle posicionado na graduação máxima.
Regule-o depois para a posição correta, segundo a
tabela de controle de temperaturas.
Em caso de falha,
você possui incorporada uma capacidade de diagnóstico
e mostrará um código de erro.
Caso o código não seja exibido, as demais funções de
controle e visualização não funcionarão e
não adianta contatar a assistência técnica.

Felipe Andrade

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Semana do Plástico Bolha no Blog do Noblat


Recém acabada, a segunda semana do Plástico Bolha no Blog do Noblat já deixa saudades! O blog publicou, uma vez por dia, poemas do PB publicados em diferentes épocas, dando mais visibilidade a nossos poetas e à poesia - algo de que sentimos tanta falta lendo os jornais de hoje e seus sites. Continuem acompanhando o Blog, que sempre apresenta aos leitores ótimos poemas.

Os links estão logo abaixo.
Curtam, compartilhem, pesquisem a semana do Plástico Bolha anterior!

http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/07/capivara.html

http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/07/orvalho.html

http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/07/por-um-saira-de-sete-cores.html

http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/07/ha-uma-aurora-desnorteada.html

http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/07/alexandre-bruno-tinelli.html

http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/08/ceia.html

http://noblat.oglobo.globo.com/geral/noticia/2015/08/amargor.html

Orquestra


É preciso afinar o violino.
O piano
O violoncelo. Tocar a harpa até o acorde sair perfeito.
Dedilhar a corda. Ouve o tom.
Tá perto do certo.
Tá perto do bom.
Agora toca. Toca.
As notas deslizam pelo ar.
Chamam o piano.
E agora passeiam juntos. Mãos entrelaçadas.
Juntos assim. Até a perfeição.
Ah, a flauta!
Hora da flauta entrar por aqui.
Cantam passarinhos. Aqui brotam os pássaros.
E brotam pelo ar.
As explosões antecedem o grande silêncio.
Porque...
Psiu..
Chegaram os violinos.
Afina...
Um fio de luz. O movimento do corpo gera a brisa que balança a cortina.
Aparece a perna musculosa.
Entra a bailarina! Estica o corpo a exaustão. o máximo grau da dor.
O peso do gesso nas sapatilhas. Sobe força que rodopia e gira
Até que os braços se escancarem na oportunidade de um abraço
Que chama o abrir do cenário.
Telhas, teto e gesso cedem
à majestade.
Alegoria
Rompe o sol.

É primavera!

Regina Pombo Nogueira

domingo, 2 de agosto de 2015

Tentação do Mar


I
Vem, barqueiro
atira tua vida
contra as pedras
Já não é teu coração
um estilhaço de madeira
mágoa e engano?
Vês alguma diferença
entre a morte e o mar,
o amor e a ingratidão?
Atira tua embarcação
contra a lâmina dos rochedos
Por que ainda resistes
se não encontrastes
nenhum continente
onde houvesse pureza
sequer uma ilha
que a compaixão habitasse?
Vem, barqueiro
desiste de tua procura
tua bússola é o diabo
—leva-te para a desgraça—
Atira tua vida
contra as pedras
Teu sono será eterno
terás um travesseiro de sal
e a água limpará teu abandono
Dormirás como um inocente
nascerás e serás vidente

II
Vem, barqueiro
joga-te ao mar
As ondas são impiedosas
e engolirão tua embarcação
como saturno comeu seus filhos
Não adianta remar
o mar é o útero
para onde retornará
feito criança indesejada
Teu balde é raso
jamais esvaziará teu medo
e as águas te inundarão
revelando tua traição
Vem, barqueiro
abandona-te ao corte
serás mais feliz
quando fores morte

Pedro Spigolon

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Transição


Entre escolhas relativas:
Portas entreabertas.
Entre atitudes passivas:
Respostas incertas.

Com sua licença poética,
Eis o amor, subestimado.
Proferem-no bocas céticas,
Num choro cru, amordaçado.

São escolhas promíscuas,
De mentes vazias, desertas,
E em meio a atitudes supérfluas,
Há sempre uma saudade que aperta.

Robson Rodriguez

quarta-feira, 29 de julho de 2015

morro dos Prazeres


Aquele que
pintou o céu
azul tinta guache
com certeza
usou cotonete
Porque pra onde
a gente olha
há resquícios
de algodão.

Felipe Andrade

segunda-feira, 27 de julho de 2015

sábado, 25 de julho de 2015

Criola


Cadê as criolas
Que tinham na cabeça o orgulho
Do ser e de ter a essência
Da beleza nata
Que a beleza imposta rouba
A sangue frio os cachos e os laços
Que a genética arrasta
Geração por geração
E muitas ingratas rejeitam e traçam
Uma nova face
Maquiada sem cabelos encaracolados
Alourados
Ah! Que saudade das criolas natas
De sorrisos gratos e orgulhos fartos
Desta beleza e 'raça' que a vaidade não disfarça
A verdadeira essência e graça
Ah! Que saudade das criolas natas.

Osvair Melo

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Granada


afora à marcha da prosa,
                                       a palavra
do poema arma-se
na violência do poeta

e rebenta ao escândalo do papel:
reconhecida e inédita

numa guerra sem quartel,
                                          explode,
solitariamente, contra si
e para todos...

deslocada e fecunda,
domina-se
e esquece o próprio amparo

por isso, no poema
é sempre uma pergunta

por isso, no poema
é sempre um estilhaço...

Flávio Morgado

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Plástico Bolha #36 para ler também na internet



A edição #36 do jornal Plástico Bolha está disponível em nosso site. São poemas e mais poemas, contos, e muito mais a um clique da sua leitura! Confira no link: www.jornalplasticobolha.com.br