domingo, 6 de novembro de 2016

Nósocorro, de Mateus Baldi — Segundo Lugar de Prosa do VIII PPBPP


O Nazista não era nazista coisa nenhuma, mas era assim que a gente chamava – porque era loiro; porque era alto; porque era forte e numa tarde de sol disse que ia descer a porrada no Arnaldo, que era judeu. Semana passada nos reencontramos num jantar e ele estava bem diferente – acima do peso e com um maço de cigarros no bolso. O Nazista e eu saímos para fumar quase que ao mesmo tempo e, justamente por não saber que o Nazista era o Nazista, pedi um isqueiro e ele deu e sorriu e disse que me conhecia de algum lugar, que tinha certeza de já ter visto meus olhos em algum lugar, aí foi a minha vez de rir e dizer Você diz isso pra todas?, e ele desviou o olhar para os carros rasgando a rua lá embaixo, Eu não digo isso pra ninguém, respondeu, a vida é muito curta pra gente ficar bancando o disco arranhado – e foi então que eu ri. Ele não entendeu, com razão, e eu pedi

- Desculpa.

e continuei, falei que era engraçado porque em dois mil e dezesseis ninguém mais fala disco arranhado, que certa vez minha filha soltou um escangalhar e eu me acabei de rir no sofá.  Ele sorriu. Disse que eu era uma mulher *****. Assenti. Eu definitivamente era uma mulher *****.  “Me conta de você”, pedi. “Eu não tenho nada de interessante, só tô aqui pra não perder o emprego.” “Ah, é?” “É.” “Eu também.” “Você trabalha pra ()?” “Não, trabalho na ##, mas minha filha quer se formar em |||||| e o único jeito disso acontecer é eu ganhar um aumento...” “...que você pretende conseguir vindo nesse jantar e bajulando seu chefe.” “Como você sabe?” “É o que todos nós, animais de escritório, fazemos”, ele respondeu dando de ombros.

Acabamos trocando telefones e marcando um jantar para a sexta-feira seguinte. Sushi. Em dois mil e dezesseis as pessoas amam sushi no primeiro encontro. Pedimos uma canoa gigante e quase morremos de rir quando engasguei com o wasabi. Depois de a $$$$ chegar, como a chuva ainda não havia parado de cair, o Nazista sugeriu que fôssemos para a casa dele: (hoje não) (por quê?) (porque é o primeiro encontro, não sou uma mulher >>) (tudo bem, quer que eu te deixe em casa?) (eu disse que não queria dar pra você, não que não queria um bom fim de noite): nos beijamos e ficamos dez minutos pensando no que fazer e eu disse: (uma vez quase fui pro Horto de noite, só que o fusquinha do meu namorado quebrou na ladeira e tivemos que voltar de reboque): o Nazista riu e disse: (ok, entendi, vamos pro Horto) (não, tá doido?, tá chovendo, foi só um comentário besta) (não, sério, agora eu quero ir pro Horto). Fomos.

Havia uma árvore no meio do asfalto. O Nazista desviou lento, quase parando, e pude ver dois gatinhos se abrigando sob os galhos retorcidos. Confesso que fiquei com pena. Ele estacionou atrás de um Ford velho e perguntou se eu estava bem – fiquei com dó dos gatos – respondi, mas ele não entendeu muito bem – os gatinhos sob a árvore – continuei –, você não viu? – Não vi gato nenhum, mas se você quiser a gente volta – Não precisa. – Tem certeza? – Absoluta, ele disse dando um tapinha no volante. Nos beijamos por um tempo e então perguntei

- Sua mulher morreu de quê?

e ele teve um sobressalto.

- Desculpa.

- Não, que isso, não tem problema falar dessas coisas. É só que... você é uma mulher muito ~~~~.

- Já me disseram isso. É um defeito grave. Prometo consertar.
  

Rimos. O Nazista disse que a esposa tinha morrido de câncer e perguntou se eu era sempre assim, severa comigo mesma: Só quando acho que estou fazendo algo de errado. E quando você acha que está fazendo algo de errado? Sempre, respondi enquanto baixava a cabeça e sorria com o canto da boca, o batom borrado.

[eu sei que você disse que não é uma mulher >>, mas não tem muita utilidade a gente ficar aqui, nessa chuva. Lá em casa podia ser melhor. Juro que não te encosto a mão. É só uma questão de conforto mesmo.]

Abri a porta do carro e desci.

A chuva me pegou de jeito e ensopou minha @@. O Nazista olhou pela janela, estupefato, e por um segundo desviou o olhar para os meus peitos grudados no tecido.

- Vem! – gritei. – Tá uma delícia.

Um trovão rugiu lá fora.

O Nazista abriu a porta e pisou numa poça.

Nos falamos quase todos os dias. Ao contrário de mim, ele é uma pessoa <, quiçá um pouco <<<. Anteontem conversei com minha filha pelo Skype e ela disse que eu deveria dar uma chance; que o namoro com o escocês estava uma merda; que todo mundo deveria aproveitar ao máximo o início de qualquer relacionamento que se promete duradouro. Perguntei onde ela tinha aprendido a falar bonito desse jeito – aproveitar ao máximo o início de qualquer relacionamento que se promete duradouro – e ela riu, as bochechinhas coradas, e me mandou deixar de palhaçada, Tu parece meu pai falando. Comentei que tinha chances de conseguir um aumento, que meu chefe adorou minha presença no jantar e que a Celeste ia se aposentar no fim do ano – a vaga tinha noventa e nove por cento de chances de ser minha.
  
Ficamos conversando até o dia raiar.


Hoje acordei com o interfone TOCANDO. O porteiro disse que era da floricultura, quis saber se era para deixar subir. Agora eu sou a Dona Silvia da Cobertura 01, os porteiros se importam com a minha segurança. E o Nazista ainda existe. E manda flores lindas. Agradeci com uma mensagem fofinha. 

Boa viagem, ele respondeu.


Sim eu quero largar tudo e ficar o dia de hoje & amanhã & depois com ele meu nazista mas não dá para adiar essa viagem de trabalho porque a celeste vai se aposentar no fim do ano e apesar de ser dona silvia da cobertura 01 eu não posso desperdiçar esse tipo de coisa porque a cobertura 01 não quer dizer nada ela foi herdada eu não tenho grana além da que mando pra sofia sobreviver no exterior então vou ter que ir pra São Paulo aquela cidade horrorosa onde só chove e não tem nem um horto pra gente se esconder e namorar e tomar chuva em paz só o horizonte que mais parece uma carreira de cocaína estendida debaixo das nuvens e fazendo um desabafo a cocaína está cara eu não contei pro nazista né mas tenho outro vício além do cigarro mas é muito pouco quase nunca e se ainda não contei é porque não quero estragar tudo pelo menos não agora em que estamos nos conhecendo tão bem e ele parece estar tanto na minha quanto eu estou na dele porque a gente minha filha quem disse precisa valorizar as coisas boas da vida antes que elas vão embora não não foi nada disso que ela disse e eu nem sei se o verbo ir está conjugado corretamente mas o que importa né afinal de contas sou uma mulher apaixonada e as pessoas apaixonadas podem tudo inclusive dar uns tequinhos quando se sentem solitárias porque não adianta nada nazista jantar  cigarro sushi leblon horto ipanema gávea jardim botânico rio de janeiro são paulo sofia silvia se a gente não puder ter uns prazeres escusos once in a while que é pra poder sofrer em paz sem ninguém perturbar a paciência mas o que eu queria mesmo lá no fundo da minha alma com todo o meu amor não era paulo são janeiro de rio botânico jardim gávea ipanema horto leblon sushi cigarro jantar coisa nenhuma e sim meu nazista que só chamo assim com esse apelido horrível porque o nome de batismo é pior ainda mas obviamente ele não sabe que chamo de nazista já que pessoalmente só chamo de IIIIIII enfim eu queria agora mesmo pular desse avião maldito e dizer que vim para ficar com ele e que mesmo não sendo uma mulher >> hoje eu vou ser >>>>>> e vamos fazer muito    :-)    e também                  que é pra ninguém botar defeito e vamos ser felizes para sempre só por hoje até o sol cair bem laranja quase tangerina por cima dos copans e masps afinal do dia de amanhã ninguém sabe e se esse avião cair ai meu deus eu só queria pai nosso que está no céu falar pro nazista santificado seja vosso nome que eu desci desse avião venha a nósocorro para ficar com ele e antes que pudessem me impedir cair em tentação eu já estava no táxi sorrindo feliz da vida e não há nada que ele possa fazer quanto a isso porque a besteira já tá feita agora estou aqui meu amor livrai-nos do mal e tudo está de volta ao normal, amém Sim.

“Mas e a viagem, Silvia, meu deus do céu, você tá doida? O que você vai fazer?”

“Perder o voo.”

Mateus Baldi

sábado, 5 de novembro de 2016

Texto sem título, de Gyzelle Góes — Terceiro Lugar de Poesia do VIII PPBPP


ainda criança o vento se aliava
às corridas pelo bairro
crescido
tão agilmente
as pedrinhas por volta do parque
no centro da rua
criavam folia junto aos pés
que pouco firmavam estadia ao chão
tamanha era vontade do ser
tímida buscava um buraco
onde se esconder
fazia disso brincadeira
e me sentia muito inadequada
quando surgia à luz de olhos arregalados
que moravam dentro do que
se fazia em mim
tinha estórias pra contar enfim
alugava diário cor lilás sabia
só página vazia suportaria
tanta infância
me descobri sozinha
levava as mãos em suspense
até locais onde a pele frisava em eriço
tamanha ousadia
o corpo como trilha desfrutava
da curiosidade dos gestos
e se revelava
um país das maravilhas
como lia nos contos apanhados
na estante do meu pai
toda vez quis buscar estrela subindo
no banco da cozinha corria
subia
e não tem luz
antes ou no instante que narro estória
nem agora
mas a infância
permanece ainda aqui
no verso na astúcia dos dedos
pendurada no quadro na mesa da sala
em tudo que escrevo

Gyzelle Góes

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Breve narrativa da miséria humana, de Rodrigo Elmas — Terceiro Lugar de Prosa do VIII PPBPP


Era noite de um domingo, e não por algum tipo de intenção estilística acrescento que estava a ler o Inferno de Dante quando subitamente bateram à porta de meu quarto. Uma ambulância à porta de minha casa às 21 horas de um domingo? Não desci. Aguardei no andar em que estava, e permaneci tentando – sem sucesso – ouvir o que uns homens a meu pai diziam. Era o tio Hédio que havia passado mal, e se encontrava hospitalizado.

A família não se abalou... era um bêbedo, valdevinos que vagava por aí a prestar pequenos serviços, reparos de casa; não constituíra família nem estudara. Vinham bater à nossa porta a fim de trazer-nos enfado. Quem acompanharia tal criatura em um hospital? Acompanharia? Sim. Malgrado fosse um ébrio, e ainda que a nossa ambição emergente nos levasse a ignorar familiares menores e distantes, havia uma ambulância em nossa casa! O que faríamos?

Pois bem, por Deus! Que espécie de ambulância vai a uma casa avisar que alguém está hospitalizado? 

Decerto teria morrido. E quem arcaria com o custo de enterrar o de cujus?

Não importa. Alguém deveria fazê-lo. E é nesse instante que os homens da casa se unem numa macabra empresa que se forma a cada morte de um familiar, e se dissolve assim que a última espátula de massa põe fim ao processo que demarca em uma parede recheada por mortos o mundo deles e o dos que ainda sob o sol respiram. Para tal empresa foram três os designados: eu, papai e meu cunhado.

Chegando ao local azado e prestadas as devidas apresentações fomos conduzidos por uma senhora gentil à sala onde descobri o que faz uma assistente social. Aquela devia pertencer a uma classe especial de assistentes sociais; tinha olhos fundos e baços, sombreados por olheiras que a distavam de nós, e que quase nos faziam crer ser ela o ente que controla o fluxo de almas naquele recinto.

Tal efeito se desvanecera à medida que o diálogo avançava e as explicações eram dadas. Sim, havia morrido, morrera enfartado às 17:15 horas precisamente (com o concurso da cirrose), e seu corpinho – nunca esquecerei esse eufemismo – estava nas dependências locais aguardando sua eterna morada.
Havia certa pressa, pois não havia câmara frigorífica no local, mas, ao mesmo tempo, pouco se poderia fazer, uma vez que o cartório estava fechado, mas no submundo que orbita a morte sempre se pode preparar algo – e foi então que decidimos conhecer a via do enterro grátis. Malditos! Somos malditos sovinas, sim. Fingimo-nos de pobres, obtivemos o carimbo de pobres em um papel encardido da secretaria de saúde e rumamos para a velha funerária onde um dia os cliente passivo seremos nós.

Deixamos o cunhado em casa; e eu e meu pai, que não nos falávamos havia algumas semanas, tivemos de dialogar. Era noite profunda, e me recordo de ter repreendido meu pai por cogitar passar por uma suposta cirurgia milagrosa e ainda experimental que o poderia curar do diabetes. Ora qual! Falar em cirurgia num momento de morte! Ao menos estávamos conversando. Era um avanço.

A funerária ficava no segundo piso, sobre as capelas onde algumas vezes eu velara alguns parentes, e subir as escadas me transportou a dez anos antes, à ocasião da morte de minha avó, quando meu primo me desafiara a entrar na sala de exposição das urnas. Ainda me recordo dele acenando ao fundo da sala, terrível, me chamando; o cheiro macabro, definitivo, inefável e inconfundível da madeira feral. Medo.

Quando a gente cresce o tamanho do mundo muda. A mesma sala das urnas agora era uma pequena sala onde os caixões se espremiam. De fora se os via por uma porta de vidro; e a primeira urna era a do meu tio-avô. Sobre cada tampa havia um papel com o preço em letras garrafais, terríveis, como se gritassem seus preços, causando pavor.

Sobre a urna de meu tio não havia preço: era urna doação: a dos desvalidos, dos pobres, e a que os servidores da prefeitura odeiam fornecer não sei porquê. Talvez nesses casos não recebessem propina per capta.

Fomos atendidos por um homem sonolento que trabalhava num recinto e que ao fundo se podia ver os trapos do que um dia fora um colchonete, e que fazia as vezes de cama. Tomamos ciência de algumas cobranças inesperadas; violava-se a premissa principal: gastar nada com aquele vagabundo – pois que já gastávamos com a gasolina, e era muito!

Por acaso ou destino, não importa, meu pai encontrara tio Hédio na rua havia cerca de um mês. Como o mesmo vivia de pensão em pensão, forneceu um novo endereço, na rua São João, centro de Niterói. Meu pai, sempre esquecido, anotou tal em um papel assim que chegou em casa, guardando tal lembrete numa gaveta qualquer.

Foi um golpe de sorte. Precisávamos de um documento do morto e, quiçá, oxalá Deus permitisse, algum dinheiro para algum eventual gasto ou para nosso entretenimento mesmo. Miseráveis!

Estacionamos em frente à pensão. Era quase madrugada quando adentrávamos aquela vila ladeada por um velho sobrado português. Desatamos a corrente que fingia trancar o portão e avançamos lentamente por sobre aquele chão antigo de pedras coloniais. Perguntamos a um senhor pelo quarto do Sr. Hédio. Tínhamos um combinado: jamais dizer que morrera. Se indagados, deveríamos dizer apenas ser parentes e que buscávamos roupas, que o mesmo estava internado, e só. Ora, se revelássemos a morte poderiam cobrar de nós qualquer débito com a pensão!

Sim, senti pena ao ver o lugar onde meu tio passara seus últimos dias. Era um quarto sufocante, com uma cama que se apoiava sobre caixas de cerveja, e o chão estava molhado, rescendia urina. O odor era nauseante. Atrás da porta havia um par de calças e, em seus bolsos – nova sorte -, duzentos reais. Foi como se tivéssemos ganho a noite. Logo achamos seus documentos, encostamos a porta e saímos como que fugindo. Não achávamos que pilhávamos um morto. Apenas fazíamos justiça e obtínhamos a paga pelo aborrecimento do enterro. Canalhas!

Já em casa, combinávamos o que deveria ser feito no dia seguinte. Papai considerou o dia da morte de seu tio: péssimo dia para se morrer! Um domingo! Como se se pudesse escolher o dia em que se morre. O enterro deveria ser providenciado impreterivelmente no dia seguinte, pois que, importa lembrar, não havia geladeira ou câmara frigorífica no local. Teria de ser numa segunda-feira – dia em que todos (menos eu) trabalhavam. Era o meu momento de ser o “homem da casa” e vestir, transportar e levar à sepultura um parente com quem muito pouco convivi – e sobre o qual muito (mal) ouvi.

Dormi mal, é claro. Todas noites que antecedem um funeral são noites ruins. Tenta-se imaginar a aparência do morto, seu semblante; ou até, de modo quase doentio, como Edgar Allan Poe, adivinhar se o rosto penderá mais para a direita ou para a esquerda; se o rosto estará encovado, como de costume, e se os olhos estarão abertos ou cerrados.

Recebi cem reais para pagar alguém que transportaria o corpo, e mais cinquenta reais de “brinde” pela tarefa. O Sr. Paulo me cobrou cinquenta reais, e assim lucrei cem reais com a morte de meu tio. Maldito!

Dirigimo-nos ao local onde estava o corpo. Fomos recebidos com a alegria de quem precisa abrir espaço para novos ocupantes. Lembro-me de naquele dia expandir meu léxico, aprendendo que frigorífico e câmara mortuária (ou frigorífica) eram o mesmo que morgue. Est’última indicava onde meu tio estava, podendo posteriormente entender a origem da palavra morgue e talvez até seu uso naquele local, sendo, quiçá, uma forma de fazer com que pessoas passassem pelo local sem saber o que havia ali dentro.

Lembro de ali tomar ciência de que morgue era uma sala de entulhos; onde cadeiras e televisores velhos e armários e macas enferrujadas aguardavam descarte com eventuais corpinhos embalados para a viagem.

Ao adentrar o recinto, nada estranhei. Somente ao olhar para a esquerda foi que me dei conta de um corpo amortalhado, mas não tive tempo para pensar muito. Homens – exatamente o que eu tentava ser ali – já colocavam suas luvas e começavam a desfazer o pacote em que meu tio estava. Veio a roupa, veio a urna. Junto com a urna veio uma barata, e após mais esse susto veio a percepção de que aquela urna era de madeira e papelão. Que miséria! Que tristeza! Também eu terminaria meus dias assim? Mas, se assim fosse, que diferença faria à minhalma jazer ali?

Não havia tempo para reflexões ou tristeza. Levamos tio Hédio ao cemitério. Os coveiros almoçavam. Teríamos de esperar. Optamos por voltar e almoçar em casa. Tio Hédio ficou lá, na entrada do cemitério, sob o sol inclemente. Quem roubaria um defunto velho?

Voltamos e o enterramos no alto da colina em que os pobres sem identidade jazem. Terra fofa e granulada, vegetação imperial e vasta. Solo adubado por corpos sofridos como o de meu tio. Nunca esquecerei que após algumas pás de terra a tampa de papelão do feretrum se rompeu, expondo parte da fronte de meu tio. Miséria das misérias!


Bem aventurados os mortos, pois que alcançam a graça de do convívio com os vivos se apartar!

Rodrigo Elmas

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Ópera para saltos cegos no escuro, de Mateus Baldi — Menção Honrosa VIII PPBPP


Início

Qualquer versão
moderninha daquele
tema de faroeste, que é
pro pessoal ver se entende:
apesar disso aqui ser um
barzinho: eu vou tocar o
concerto que fiz pra ti
duzentos e cinquenta e sete
dias antes do divórcio.

Ária

Talvez haja realidade
aqui – mas só talvez.

Ato I

Não há música, só o ruído
abafado dos teus uivos
no teatro lotado
que é este quarto.

Trio de jazz no bar ao lado

Dedos para rasgar cordas
e um batuque que faça teu
coração chicotear.

Cantiga de ninar no quarto de cima

Deita aqui no meu ombro
e fecha os olhos – shh –, acabou.

Ato II

As gotas no ladrilho do box
fazem um estampido que parece
o clec-clec dos teus saltos (cegos)
quando você sai pra trabalhar
todo dia depois da nossa primeira
vez – que também é sempre um
salto (no escuro).

Interlúdio

No banheiro:
um pequeno jato para o homem,
um futuro cientista ou filósofo ou
bandido ou natimorto para a
humanidade.

Ato III

Há tempos você
precisava estar
assim –
vestido preto,
colar de cristais
brilhando ao redor
do pescoço, os olhos
esverdeados saltando
do rímel –, para só então eu
te jogar do penhasco e dizer
foi um prazer,
meu amor, mas acabou.

Cachê

O dono do bar me
ofereceu um mês
de batatas fritas
pelas cordas tocadas –
e eu aceitei.

Divórcio

Testemunhas afirmam
ter visto os dois sorrindo
ao riscar os papeis com
garranchos sobre a linha
pontilhada.


Finale

(ponto) onde adormecem
os trens após passarem o
dia vomitando proletariado
com seu gosto amargo de derrota.

Casa

Era abrir a porta e te
ver lendo o último
da Patti Smith – em
qualquer lugar do mundo.

Mateus Baldi

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Encorpado, de João Pedro Maciel Schlaepfer — Menção Honrosa VIII PPBPP


todo corpo é orgânico mecânico
todo corpo é uma cidade esférica e esburacada
todo corpo é a lua de uma estrela
que de buraco em buraco se constrói
que de porta em porta fica sem saída

a cidade é um corpo em obra constante
as empresas, corpos edificados
na fumaça do centro e dos carros
e do ônibus que você pegou
você cheira tua blusa, teu corpo
você vê que você se fuma
você fuma teu cartão
você fuma teu estagiário
você fuma teu chefe, teu número, teu endereço
você fuma teu e-mail, teu número de telefone
você fuma teu cargo e tua logo
você enche o peito
e não acende um cigarro
pra matar a fome na hora do almoço
você volta na condução
com a condição de sentir toda a fome de um cidadão
escutando por alto o que sai dos templos que você construiu
encontrando corpos e ideias
subindo ladeira na contramão da fé
que é vendida nas esquinas, nos bares, cafés
nos ônibus, corpos, celestes
é tudo vendido sem nota e sem garantia
porque a fé prescinde propaganda
e o mau uso do dízimo dizima a diferença
aí, você almoça teu orgulho
com fome, com doce
com lama, perdão
almoça pra alimentar o corpo orgânico mecânico
cidade esférica e esburacada
lua de uma estrela
que de buraco em buraco se constrói
que de porta em porta fica sem saída

o homem todo funciona corpo
o corpo funciona todo homem
todo corpo homem funciona
homem funciona o corpo todo
todo corpo funciona, homem

João Pedro Maciel Schlaepfer

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Texto sem título de Helena Mussoi — Menção Honrosa VIII PPBPP


Você, você aí, o que quer? Quer uma narrativa estranha? Ah, pois sim. Dar-lhe-ei a mais bisonha narrativa de todas as galáxias, tenho-no dito e feito.

Veio-me o primeiro caldo de consciência bem como que em vala no mar de ressaca, o calabouço escuro enorme e eu pequeno, pequeno, microbiótico (ou a-biótico?) e cego. Mas não conseguia me mexer, estava amarrado a uma corda intransponível, e eu, eu despido de identidade, sem sexo, sem nexo, insígnio.

Eu era e não era. Não, não era. E o que se faz no status quo do não-ser, penso, "cogito, ergo sum"? Errado, está errado! Ser E não ser, eis a questão!

Ninguém me disse por quê, ou como, ou quando. Só me lançaram à cela num relâmpago, eu, que não tinha olhos, que não tinha nexo, que não tinha voz. "Por quê?", indagava a mim mesmo. As paredes, se é que havia paredes, calavam. Se não o houvessem feito, eu não as teria ouvido - como, ora? Não tinha ouvidos! Não tinha olhos, nexo, voz nem sentidos, o ser que não era.

Sabe o que não lhe contei ainda? A prisão, ela diminuía de tamanho, as paredes - se é que havia paredes - foram cerrando no passar dos dias, quiçá dos séculos! Tempo? Nenhuma unidade de tempo por lá. Imagine-se imóbil numa corda, sem sentidos e à deriva, sem o porquê. Morrer? Não me foi apresentada essa opção. Era (mas não era) eu sozinho, claustrofóbico no mais vasto dos espaços (era vasto?), um átomo reles, um paradoxo mergulhado na vala.

As unidades de tempo onde o tempo não havia se enfiavam por sobre as antes vigidas, peças de eternidade transcendental sobrepunham-se às demais (já obsoletas), e eu flutuava tanto quanto me permitia o segmento de corda. Não sei se esse segmento é que foi cedendo conforme a passagem tempestuosa do não-tempo - mas tempo, não obstante -, ou se a mim fora concedido o dom de sentir, pois sentia a corda ruindo, agora eu a comandava o bastante para nadar pelo oceano turbulento.

Pois resolvi me livrar da corda que me fazia prisioneiro. Chutei, esperneei, sacudi todos os músculos que antes não se manifestavam, tanto quanto meu corpinho de micro-a-bio me permitia. Eu chutei as paredes, encontrei as malditas paredes, elas eram grossas e elásticas e a corrente a qual me atrelava se provou corrente, não, não ruía, não cedia, solta, me solta! - não soltou. Ela não me soltou. Ela se enrolou no meu pescoço que nem jiboia, ela me abraçou para mostrar quem era o Mestre. Quis morrer de novo. Não me foi apresentada essa opção.

Tente, tente com força, imaginar-se preso numa cúpula - eu sei que era uma cúpula - escura, dentro da vala, inundada de caldo escasso, e tente com força se livrar da corda que era uma corrente, movendo-se, mas sem se mover, tal como apontou Zenão. Eu quis morrer, sem sequer estar ciente de minha vida - era vida, não era vida? Era e não era vida? -, sem saber por que lutar pela vida-não-vida em liberdade, sequer com a certeza de haver uma liberdade.

Houve o tempo-não-tempo em que a cela não mais me queria, a redoma não comportava mais meu ser-não-ser, e foi-me expulsando o corpo sem nexo, empurrando-me para fora das paredes elásticas. Naquele instante já estava eu acostumado à minha caverna caricaturalmente platônica, não almejava a liberdade, se existisse a liberdade. Eu amava meu cativeiro. Era a minha vala, era o meu caldo. Lutei mais, e quanto mais lutava, mais a corrente cedia, avessa a meu desejo de permanecer encarcerado. Sim, e gritos. Jorravam berros do lado de fora da cúpula, já me havia sido concedido o dom de ouvir. E o de ver - mas o que havia a ser visto? Nada, eu lhe digo. Eu sentia. Imerso na inundação caótica da Caverna, eu sentia. Talvez fosse esse o porquê de ela, minha Caverna, não me querer mais. Mais lhe valia um não-ser despido de identidade, sem sexo e sem nexo. Ela me traiu. Ela me empurrou.

Ela me empurrou, e fui escavando por um túnel tortuoso e estreito, o atrito me esmagava numa sangria inestancável e inescrutável. Mesmo assim ela me empurrou. Com força, a força de mil Aquiles e mil ondas dos mais revoltos dos mares. "Para fora!", ela berrava, a Caverna, "Para fora!". Força, mais força, eu conseguia escutar a Caverna me in-desejando, "Empurra com força!".

Doeu. Rasgou. Esmagou-me o crânio. Esmigalhou-me os miolos. Esgarçou-me como ao bicho morto produto da caça, pronto para ir ao forno. Eu não queria ir ao forno, tampouco sabia o que era forno. Quis morrer - podia até ser enforcado, não era má ideia -. Não me foi apresentada essa opção.

Mas agora, agora eu era. O não-ser era, e o não-tempo se media enquanto tempo nos ponteiros do relógio. Eu via. Não estava mais escuro. Estava claro demais. A luz fora da Caverna me cegou.

E meus sentidos recém-concedidos foram-se desvanecendo num frenesi de cores que eu não sabia que existiam, a corda-corrente apertava, apertava, a jiboia me abraçou, e com ela a tão cobiçada morte. Vi o Ceifador. Ele andava a largos e lerdos passos na minha direção. Parecia um não-sei-o-quê, porque não sabia de nada, não é mesmo? Doeu. Doeu, mas era uma dor deliciosa. Explodir-me eu ia em tantas cores e coisas bonitas, vai ver o caldo era para isso mesmo, para o gozo do a-biótico.

Enfim, ah!, enfim me foi concedido o dom de vociferar. A cobra largara meu pescoço (o que era um pescoço?). Vociferei. Eu quis morrer - mas me fora arrancada dos bracinhos-micróbio essa opção. E, afinal, lá sabia eu o que era um braço! Não sabia de nada! A liberdade existia, e eu a odiava. Tranquei os olhos, porque não queria mais ver. Cortaram a corrente com a facilidade com que se dá uma machadada na jiboia, tão corpulenta e opressora, e tão mole.

O ar rarefeito não era mais o caldo da vala. Era outra coisa. Cortaram a corrente. Eu era livre. Não mais parasita. Não mais a-biótico. Não mais insígnio. Livre. Livre. Livre. Livre. Livre. Livre. Livrelivrelivrelivrelivrelivrelivr-

-

A luz piscava, ao que voz da parapsicológa cortou o ar, a jiboia mole pairante na atmosfera, e indagou o paciente em transe.

- E depois?

- E depois do suplício eu aprendi.

- Aprendeu o quê?

- A tomar meu caldo de consciência ex utero.

Helena Mussoi

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Vencedores do VIII Prêmio Paulo Britto de Prosa & Poesia


Foi realizada, no dia 13 de outubro de 2016, no Anfiteatro Junito Brandão, PUC-Rio, a cerimônia de premiação do concurso de prosa e poesia aberto a todos os alunos da universidade. Organizado pelo PET-Letras, recebeu este nome em homenagem ao grande professor, poeta e tradutor Paulo Henriques Britto — um dos padrinhos do jornal Plástico Bolha. Os textos vencedores de cada categoria vocês conhecerão ao longo dessa semana, aqui, no Blog do Bolha!

Segue a lista com os nomes dos vencedores do Prêmio Paulo Britto:
 
PROSA

1º lugar: Úmido tríptico, de Natalie Lima
2º lugar: Nósocorro, de Mateus Baldi
3° lugar: Breve narrativa da miséria humana, Rodrigo Elmas

Menção honrosa:
Sem título, de Helena Mussoi

POESIA

1º lugar: The lovers, de A. B. Tinelli
2° lugar: Fusão, de Leoni
3° lugar: Sem título, de Gyzelle Góes

Menções honrosas:
O véu, João Moura Fernandes
Ópera para saltos cegos no escuro, de Mateus Baldi
Encorpado, João Pedro Maciel Schlaepfer


terça-feira, 25 de outubro de 2016

Lançamento de livro de Eduardo Jardim


Eduardo Jardim lança edição revista e atualizada de seu livro A Brasilidade Modernista - Sua dimensão filosófica. O evento conta com o apoio da Livraria Leonardo Da Vinci, da Editora PUC-Rio e da Edições Ponteio, e será realizado no dia 8 de novembro, terça-feira, às 18h30 na Livraria Leonardo Da Vinci.


Show do Rudah este sábado


O talentoso Rudah apresentará, neste sábado, dia 29/10, seu primeiro CD solo, As Escadas do Último Andar. O show será às 20h, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, em Botafogo. Todos lá!



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Seis e meia


Greve de lírios
vi no seu olhar

saíram todos

no céu
nuvens pasmas
foram incendiar.

Carla Andrade

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O espelho


Essa mulher no espelho
tem o mesmo olhar
abotoado da menina que roubava
as sombrinhas de cogumelos
das árvores e dos pastos.


Esse olhar no espelho parece
bolinhas de gude
na escada rolante,
olhos inconsequentes.

Essa mulher no espelho
tem gosto de hóstia
ao lembrar
dos dedos de menina
a lambuzar o próprio sexo.

Essa mulher é a mesma
que se atira nas raízes do seu colo
e se retira com nacos de barro
de obra inacabada.

Esse reflexo no espelho é o
reflexo de tantos outros reflexos.
Máscaras de pétalas
secas pelo tempo.

Coragem.
Pediu para o homem.
Essa mulher ainda sou eu?

Carla Andrade

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

VIII Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia




Convidamos a todos para a cerimônia de entrega dos prêmios da VIII edição do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia na quinta-feira, dia 13 de outubro, às 18h, no Anfiteatro Junito Brandão.




Como habitualmente, haverá leitura dos os três textos vencedores de cada categoria — prosa e poesia —, além de possíveis menções honrosas, que têm se tornado mais frequentes a cada edição.


Haverá um coquetel livre.



Este ano, contaremos com poetas e convidados especiais, bem como o microfone aberto para que os poetas de plantão espalhem poesia.




Sua presença é muito importante para mantermos esse espaço de criação literária em nossa PUC-Rio. 




Nos vemos lá!

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Lançamento do Livro Arte Brasileira para Crianças


Nesta quarta-feira, Dia das Crianças, teremos um evento todo especial no Parque Lage: o lançamento do livro Arte Brasileira para Crianças, da Editora Cobogó. 
Para crianças de todas as idades!


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Poesia Pichada - uma flor nasce na rua


Lá fora, a arte passa em alta velocidade. Os muros, alto falantes de quem não tem voz. Gritam, clamam, imploram atenção.
- Olha para mim, tenho tanto a dizer! Estão tentando me calar, mas você precisa me ouvir!
Lutando contra o cinza, em letras garrafais questionam. Mobilizam-se pela vida, pela liberdade, pela beleza. Cores jogadas na cara de uma sociedade que sufoca, formas livres e desimpedidas dançam diante dos olhos, e a poesia vocifera, agride, incomoda, exige.
"Não pense, não exista, só assista."
"Pixo, logo existo."
"Faça mais do que existir."
"Só peixe morto vai a favor da correnteza"
"Aonde você encontra sua liberdade?"
"Qual o significado da máscara que cê desenha?"
"Quantos mal me quer existem em uma única flor?"
"Mais amor, por favor."
E por fim, uma arte etérea, mutável e recém criada, clama para que o cinza não a devore. Clama para que não devore suas crianças, suas famílias, sua existência. Um ciclone de medos em uma única frase.
"Apaguem a miséria e não o grafite."

Heloísa Ramalho

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Ocupa Mario 2017 - Oportunidade imperdível!


Abrir os espaços da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ) para toda a classe artística do Estado é a proposta do Ocupa Mario 2017. Grupos, coletivos e artistas independentes devem inscrever seus projetos, sejam eles ensaios ou apresentações, para contar com os teatros, auditório, salas e demais espaços da Casa. As inscrições acontecem de 01 a 31 de outubro de 2016, através do e-mail ocupamario2017@gmail.com, para onde devem ser enviadas a ficha de inscrição e demais anexos que expliquem as propostas.

O Regulamento e informações sobre a documentação pode ser solicitado pelo e-mail projetosespeciaisccmq@gmail.com, além de mais esclarecimentos no telefone (51) 3211.5608. Após o envio, esses documentos são avaliados por um conselho artístico que divulgará os selecionados a partir do dia 1 de dezembro.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Cria


Sou filho de Bangu
Lembro de quando o viaduto velho era apenas viaduto
E o novo era de fato novo.
Lá comprava muito cigarro e fazia muito jogo do bicho pra minha tia.
Ela fumava os cigarros enquanto esperava o dia de ganhar no jogo.
Ouvi muitos tiros e muitas canções
Muitas brigas e muitas histórias
Ser de Bangu
(como de todo subúrbio)
 É ser filho da espera.
De Deus, de dinheiro e de amor.
E por mais que doa tanta espera
É possível distrair-se
Cantar e dançar a música daqueles que também passam a vida esperando
É possível admirar-se todos os dias
Com o grande espetáculo da vida comum.
Ela é de Bangu
Finge que não gosta, mas não se imagina em outro lugar.
Ele é de Bangu
Muito se orgulha do seu lugar. Eu sou de Bangu
E levo isso pra todo lugar.


Geovani Martins

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Barra da Tijuca


nem só de los hermanos vive
um relacionamento
na barra da tijuca
tem que ter o dedo do
porteiro
dedilhando pagodes
para nossa dor de cotovelo
e a intromissão do
padrasto
como um funk que veio
de modo aleatório
no spotify –
no fundo
a gente gosta.

Gabriel Dias

Cabaré Concreto, de Numa Ciro


Esse final de semana tem Numa Ciro, com Cadu Pereira e Rodrigo Faria, com o espetáculo Cabaré Concreto, na Casa de Cultura Laura Alvim. Não percam!


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A Maga Marilia no Bioescritas


Nossa Rainha, a Maga Marilia Rothier, estará depois de amanhã, dia 28 de setembro, apresentando seu “De musas, monstros e fantasmas” no II Seminário Internacional dos Grupos de Pesquisa Bioescritas Biopoéticas, evento que ocupa a UNIRIO de 27 a 29 de setembro.

Não percam!


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Poemas de mudança


Parte II:
foi quando desfiando o frango pra rechear o pastel
eu lembrei de um poema que você ia adorar
e fui buscar o livro e li pra você
porque estava mesmo com vontade de ler um poema bem bom pra você
daqueles que você diz caralho quando termino de ler
e você disse e perguntou quem escreveu
respondi e lembrei de umas vezes em que fiquei te olhando enquanto você dormia no meu colo
e esse foi um dos capítulos mais bonitos daquele nosso sábado de primavera
em que você quase me deixou sozinho naquele quarto
com minha arrogância minha solidão e mais um monte de lembranças rasgadas pelo chão
até que eu te contei aquilo que nunca havia contado pra ninguém
e falei de um jeito que não falo com ninguém
e você chorou e me beijou e me pediu pra te levar até a porta
e eu te levei e você ficou
e o caos daquela mudança continuou existindo a nossa volta
e a dor daqueles metros quadrados continuou doendo
centímetro por centímetro
e por mais algums vezes nós ainda choramos
por você quase ter ido embora
por eu quase ter deixado você ir embora
e principalmente por eu ter feito você querer ir embora
seria nossa última lembrança naquele quarto
de tantas risadas e descobertas
mas você não foi e fizemos brigadeiro
mesmo com pouca manteiga e com a casa desmoronando
e eu pude através dos seus olhos enormes
que você estava realmente disposta a mudar comigo através dos tempos.

Geovani Martins

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Poemas de mudança


Parte I:

A mudança sempre espalha tudo e todos
nós sabemos como machuca
ver nossas coisas espalhadas por além dos limites não estabelecidos
penduradas nos fios imaginários das zonas desconhecidas
dói
como toda transformação deve doer
entretanto gosto muito de pensar que estaria morto
caso sentisse menos esperança do que qualquer tipo de sentimento
no que diz respeito à mudança.
Minhas histórias encontrando outras histórias
e novamente aquele riso de quem descobre o mundo de novo
na companhia de um semidesconhecido
ou velho amigo muito desconhecido
naquele momento
vamos ouvir canções
jogar baralho
dividir a mesma máquina de lavar
comer o arroz sem sal feito às gargalhadas
com alho e tempero pronto de alguma erva verde e fina
daí mostro um poema
ouço histórias da escola dos amores das avós
e é tudo mágico por ser novo e fresco
e um dia qualquer por algum motivo
vou chorar na frente destes já velhos novos companheiros
e depois contar uma piada
fazendo trocadilhos com palavras que acostumamos a usar
naquela semana
naquele mês
e aí que volto a desconhecer a mudança
afinal a vida sempre foi assim
rir
chorar
esquecer o sal do arroz
falar de literatura
deixar a louça acumular na pia
que pode entupir ou não
com o passar dos almoços e jantares
fumar cigarros na janela
e sobretudo existir
sentindo sem sentir
o movimento que faz a terra girar
- mudando mudando mudando -
a cada pedaço de segundo não registrado oficialmente
pelos relógios biológicos de nossos corpos-alma.

Geovani Martins

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Palavra Impressa na EAV


Está rolando um imperdível curso de comunicação em palavra impressa no Parque Lage. Ministrado por Domingos Guimaraens, Júlio Castro e Pedro Rocha, o curso tem tudo para ser um sucesso! Não perca essa oportunidade.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

BOSQUE_puc cena experimental - O estranho mundo de Jack


Na próxima quinta-feira, dia 22 de setembro, primeiro dia do evento BOSQUE_puc cena experimental na PUC-Rio, o nosso querido Lucas Viriato fará a leitura do clássico de Tim Burton O estranho mundo de Jack, e de sua tradução originalíssima, lançada no começo deste ano pela Editora Cobogó. Ao fim da leitura, fará um bate-papo com o público sobre a tradução e sobre a sua experiência com esta obra.
O evento vai rolar no Decanato CTC, na PUC-Rio, às 16h. Não perca! 


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Tentativas


Fiz uma ou duas escolhas erradas,
visando cem ou mil possibilidades de acerto.

Usei mais palavras que devia,
tentando rimar,
e não cheguei nem perto.
Digo, me aproximei um pouco.
Afirmar assim fica mais correto.

Se o erro é o caminho à perfeição,
logo mais estarei certo.

João Victor M. R.

BOSQUE_puc cena experimental


Fazendo eco a toda a movimentação literária e artística que tem permeado o nosso mês de setembro, tem início esta semana a 4ª edição do queridíssimo BOSQUE_puc cena experimental, evento dos alunos de Artes Cênicas da PUC-Rio, que cresce e ganha mais peso a cada edição. 
O evento se dará entre os dias 22 e 30 de setembro, com a presença das mais diversas modalidades artísticas enfeitando e promovendo a integração do ambiente acadêmico, além da oportunidade de prestigiar nossos colegas. 

Acompanhe a programação na página oficial do evento: https://www.facebook.com/mostrabosque/?fref=ts


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Textos de Floriano Romano


I

Esse homem que não acerta, "que não tem que" fazer nada,  escreve revive e repete os dados do seu inconsciente em um caderno de notas, sobrepondo nomes de pessoas, nomes de ruas, em pequenos espaços compartimentados (ele sempre escreve em cima de uma comoda de gavetas), esse louco lento produz teias de corda e monta quebra cabeças, assim como monta suas memorias; ele tece sua teia, sem saber se é real ou sonho o que vive, magnifico exemplo humano que não consegue ser desfigurado pelo tecnicismo heroico e superlativo. essa vida tosca, de andar a esmo em si, vivendo na revivência, só esse louco conhece; só ele relembra de que já passou por aquelas gavetas, buscando a saída, o estar aí dos loucos quando vem ao mundo, e que de tanto investimento já toma toda a sua vida, não sobra mais nada , na casa, no quarto, tudo é lembrança em movimento, calma nervosa, agitação. O coração distraído pelo delírio não bate, apreensivo, em resposta ao esquecimento. Mas o que ele esquecera? acelerado, foi do quarto ao refeitório para pensar algo, pensou que esquecera, mas iria mesmo assim, não conseguia lembrar do que esquecera antes no quarto, precisava pensar de novo, voltar pro quarto, pensar tudo outra vez até achar algo que não sabia ainda. Foi ao refeitório, a memória estava nele, precisava comer para ficar livre e voltar para o quarto. a hora de comer era boa, ele sempre achava algo. assim andando lembrou de um nome que não se vinculara a nada, mas anotou sobre outro na parte de baixo de uma folha do caderno de notas. depois daquilo ele trançaria e desmontaria a rede, faria de novo e poria outro nome.

II

Desconfiado de si mesmo, ele não se perdoava. Acreditava ser o último de uma linha, mas ela era tão antiga que não se recordava a que tradição se ligara. Decerto o tempo passara e agora se encontrava ali, sem saída, mas também ser saber o que seria uma saída para alguém como ele.
Caminhava passeando pela areia da ampulheta, enquanto esperava a recordação que perdera, ansioso para saber o que deveria acontecer em seguida, sono contínuo, sua própria assombração no tempo congelado. De repente percebera, ele não estava ali realmente, daí aquela palidez em todos, (ele), estava no sonho de outro, em um lugar entre os tempos. Precisava sair dali, ali não havia a massa do sonho, palpável como ele sabia, ir buscar seu próprio sonho, sair daquela mesma cena que sempre se repetia. Mas imóvel (sempre que concluía algo se sentia imóvel) ficou pasmo a esperar uma solução, que não viria.  A areia, ela sim era a saída, seguir a areia e seu deslocamento era estar do lado da física, ao menos era com certeza a única coisa que se movia por ali.
A poeira do movimento da ampulheta intoxicou o andante que fatigado parou de caminhar, deitou e dormiu. Acordou longe dali, em um lugar sem areia, sem nada. Impressionado com a vaziez do novo sonho em que caíra, levantou-se e pôs-se a andar para ver se reconhecia alguma paisagem que não fosse a escuridão. aturdido, pensante, atirou-se ao vazio e para sua surpresa não caiu em parte alguma. É que cair em um sonho é como subir, ambos são movimentos de voo, e prometem um espaço contínuo sem funduras ou completamente fundo para todos os lados, um falteixo onde é impossível virar-se para baixo, um espaço desejante e úmido, como o sorriso que se formara em seu rosto.

III

Por vezes sentia-se como se fosse revirar-se. isso mesmo, revirar-se é ser do outro lado. Abrir-se, puxar a parte de dentro, como se desvira uma camisa, e pôr em cima o que estava encoberto, o outro lado. Ser assim, ficar desse jeito, seria mais fácil do que ter de se entregar todo o tempo. Como não se continha na sua intuitiva forma de se revelar completamente era melhor tomar uma atitude que o desgastasse menos. Sabia que revirado seria um, digamos assim, estranho com suas veias e músculos aparentes, (ossos ficariam no lugar) que as pessoas a princípio não saberiam como lidar com aquilo, mas achava também que havia um certo charme em ser o primeiro a tomar essa atitude. Sabia do seu temperamento e que as vezes exagerava, mas dessa vez não, estava convicto, era assim que viveria. Isso talvez mudasse a forma de lidarem com ele: tão completamente exposto, não haveria nada mais a explorar, não seria mais espoliado nem iludido, não haveriam negociações. Se ficassem chocados, não importava: melhor virado com o coração à mostra do que esconder os sentimentos profundos que possuía. a sua certeza faria daquele ato uma normalidade, isso é o que queria, viver sem dissimulação, mais do que nunca ser ele mesmo e, salvo um ou outro problema, mostrar o homem lindo que sentia ser por dentro e deixar de andar a esmo como fazia há séculos.

IV

A noite, ouvia aqueles sons e pensava: o que seria aquilo? não sabia mais como proceder com o dom da audição que recebera. De que servia ouvir aquilo tudo, se não podia separar e classificar cada um dos sons que existiam? o que ele ouvia era um contínuo caos de multiplicidades, não era algo linear, em sucessão. Para ele o mundo deveria ter outra sonoridade, onde as coisas se sucedessem lentamente e não viessem ao mesmo tempo, para que pudéssemos fazer uma escuta precisa de tudo. É claro que não importa o tempo para que cada um de nós, cada um dos bilhões de humanos, tivesse de gastar, isso não importa, mas sim o que viria depois disso, a capacidade de todos se entenderem, assim diria ele, a língua universal é o entendimento que surgiria do esforço de uma escuta total, interessada. Mas aquele zumbido múltiplo de todos os lados, onipresente e ubíquo não deixava que isso acontecesse, e ainda mais: aquela barulheira toda impedia que ele se concentrasse, daquela maneira nunca chegariam lá! deveriam suspender esse som ruidoso universal. Fazê-lo parar! até o som do big bang ainda estava lá vagando, não, isso não era necessário, mas sim, se todos concordassem em se ouvir, o entendimento que viria nos permitiria a arte do silêncio.

V

O mar selvagem o encantava. Suas vagas eram como lembranças se espatifando contra o fundo da sua mente. Sua força gigantesca o impressionava e ele se sentia renascer a cada vez que assistia uma tempestade. O perigo da morte, que gelava o sangue do mais bravio dos marinheiros para ele era um tônico estimulante. Esse era o momento em que mais (intensamente) vivia, quando se percebia abandonado pela sorte, vagando em um navio à beira da destruição. Os motivos para essa predileção pelo horror dos mares era simples. Fora criado em um ambiente de extrema delicadeza e cedo desenvolveu o desejo mórbido de uma vida perigosa. Sempre se viu enfrentando a morte, como forma de libertar-se das amarras que o tornaram covarde. Por isso se engajara naquela tripulação e embora não fosse absolutamente necessário, sempre o deixavam vir à proa assistir as tormentas que se sucediam naquele lugar infernal. Não tornara-se por isso mais valente, ainda congelava de medo, mas a sensação de renascer era mais forte, e agora que estava há tanto tempo no mar, aquilo o alimentava de esperança. Nunca pensou em chegar até o gelo, e nunca estivera tão seguro desde o dia em que se engajara no barco. Esperava pela sensação derradeira, pela hora em que se ajoelharia de pavor, certo do seu final. Qual seria a onda que devoraria a todos? o Kraken que daria fim a sua jornada? Esperava ansioso por esse encontro, sem o menor desejo de voltar. Pensava longamente sobre as profundezas e sentia o seu peito agitar-se como o mar, desejava-o mesmo tanto que não imaginava outra forma de viver que não aquela. A imagem do mar refletia profundamente na sua alma, e digamos assim, ele se sentia grato por isso.

VI
Andava e pensava, andava e pensava, precisava envelhecer, esse era o problema, o tempo não passava para ela, e portanto nunca sentira o medo de morrer como os outros. Não que reclamasse, no começo até gostava da sensação de eternidade. Era bastante bela e sabia disso, mas logo foi se cansando, por não ter com quem dividir o seu segredo. Afinal que importância havia em ver a todos cansados pela velhice e ela inteira e viçosa, com um vigor supreendente? Teria de começar a vida de novo, para sempre buscando uma geração que a acompanhasse, até que estes também se fossem, e então recomeçar. Os amores que tivera, deixara-os para trás, a desigualdade da convivência não permitia, também seus amigos mais fiéis, esses eram os mais difíceis de deixar, terminaram por perder a confiança nela até que por fim decidiu se afastar de todos, não para sempre, mas porque precisava dedicar um pouco do seu tempo a encontrar novos amigos que a amparassem com sua ingenuidade, que compreendessem seus anseios, que dessem a ela de novo a sensação de inexperiência, a coragem que só os jovens possuem. Sair pela estrada, perder-se no mundo, ela fingia tão bem que não conhecia essa sensação que parecia mesmo cheia de dúvidas, apenas uma hora do dia ela se traía, quando o sol se punha e  seus olhos demonstravam sua melancolia.

VII


Correndo, correndo e voltando, indo e voltando, era assim que sonhava. Sempre e sempre o mesmo. A bola vinha, fiel aos seus pés e ele arrancava com ela até o limite da grande área, via a expressão de pavor, se lembrava do pavor do zagueiro na hora em que passava, isso já conhecia, quando arrancava já estava a esperar pelo desmoronar da zaga, o goleiro, este era o último, via a sombra do goleiro, ele já sabia, bastava tocar a bola do outro lado, bola em um canto o goleiro no outro,  mas isso sempre passava, sempre acordava antes, nunca conseguia encerrar, nunca tocava nela, era tão dócil e agora lhe fugia, seu pé esquerdo chegava cada vez mais perto, estava a menos de milímetro e então acordava. Lembrava da última imagem do seu sonho, todos no chão, a defesa vencida, o seu pé a buscar a bola, ele era o jogador, daria o toque final, ele era o canhoto, imprevisível, surpreendente, impulsivo, ia fazer o gol, sentia a velocidade do seu corpo driblando outro corpo, o suor na camisa, era o jogador, e então acordava como se dormisse, sem saber o porque, nem se era o real, apenas sabia que estava preso em um eterno despertar daquele sonho.

Floriano Romano