quarta-feira, 30 de julho de 2014

maçã e macieira


O caminho das letras
na palavra
da palavra na frase
da frase no texto
do texto na Vida
podem talvez regar
uma pequena flor
escondida
na vasta plantação
de poesias adormecidas
no pequeno peito
daquele simples cidadão
que atravessa a rua
sem jeito
e com olhos embaçados
acompanha com tristeza
o mundo em sua explosão

José Maurício Ambrósio


Ariane com asas


Ariane sempre me surpreende. Quando eu menos espero, tchan-ran!, ela me aparece com mais uma. Dessa vez, logo que acordei, sobre o embaçado dos meus olhos, estava Ariane de frente para o espelho, claramente feliz, com as lindas asas que lhe nasceram. Disse que foi durante a noite. Ela mandou que me apressasse, porque agora precisávamos de um novo lar, maior e mais confortável. Que um novo fruto colheria. Ela precisava voar. Confesso ter ficado um tanto confuso com aquilo tudo: talvez com tantas asas, perca-se um pouco da humanabilidade. Mas não com Ariane. Ela estava convicta e merecidamente linda. Só vendo.

Ela me disse que agora pode voar. Sentir o vento bater nos olhos. A chuva queimar. Pousar sobre a flamboyant que a gente vê daqui de casa, confundi-la com suas novas cores. Que agora sua liberdade não tem mais aspas. Danadinha a Ariane! Sabe tudo. Sabia de tudo o tempo todo. Espera sempre a hora certa para falar. Todo aquele suspense da última semana me deixou assustado. Mas ela me confortou, dizendo para eu não me preocupar, porque só almas gêmeas ficam em silêncio sem constrangimento. Como eu aprendo com Ariane! Só ela faz de um canteirinho de plantas na varanda, sítio. De um feixe de luz, ocaso. E de qualquer asa, liberdade.

Paulo Henrique Motta


terça-feira, 29 de julho de 2014

Misticismo político


pistantrofobia

[prefácio] apenas havia passado dois minutos de jogo e a bola já estava no gol do brasil à contragosto da copa das copas. [primeiríssimo ato] quando dei por mim, eu já estava atrás das grades, porque tudo aconteceu tão rapidamente que não tive tempo de olhar para o relógio, me debater, gritar ou até mesmo pedir socorro a alguém que pudesse estar passando pela minha rua naquela tarde de domingo, mas nada disso me foi permitido por culpa do tempo, do álcool, da adrenalina, da aceleração, por culpa da taxa temporal de variação da velocidade que se apressou demais e, pronto, um-dois-três-quatro homens fantasiados de cinza, bota e cassetete já tinham pisado no rabo do meu cachorro no quintal, arrombado a minha porta envernizada, derrubado a minha cerveja, invadido a minha casa e me levado embora sem eu saber se havia roubado alguém, agredido, matado ou talvez difamado, só que não tive nenhum tipo de informação, não tive tempo, não tive olhos, braços, pernas e o pior é que não tive nem o reflexo de desligar a televisão que naquele momento pessoal caótico fui interrompida de olhar a apoteose futebolística que estreava na minha frente (outro gol da alemanha em pleno jogo da holanda com brasil), mas nada disso estava no script ao meu alcance, nada, nada e mais nada, somente a voz grave me zombando de fadinha e me dizendo que eu tinha o direito de ficar calada porque tudo o que eu falasse poderia ser usado contra mim em um momento posterior, mas a única coisa que consegui dizer foi que eles poderiam ficar tranquilos, afinal, apesar da fama, eu não tinha poderes mágicos e a minha voz não tinha poder nenhum diante das suas fantasia. [segundo ato] fiquei isolada durante uma-duas-três-quatro horas ou talvez o que eu acredite ser o espaço de tempo que estava sem observar nem a sombra de alguém, trancada num cubículo de um metro e meio quadrado, onde parecia uma gaiola para animais ferozes, só que não poderia ser apenas isso, meus amigos: eu sou uma menina magra, nunca matei ninguém, então não sei porque alguém me prenderia como num zoológico e me colocaria às vistas de turistas que resolvesse passear naquelas férias de julho enquanto o país festeja o show da bola organizada por uma tal de fifa, mas mantive a incompreensão, a imobilidade que atava as minhas pernas e braços, até o momento que, subitamente, apareceu um homem fantasiado e, assim, a minha voz se manifestou, saindo melancolicamente da minha bile, subindo pelo meu tronco, passeando pelo esôfago seco e chegando à boca questionando: o que vocês estão fazendo comigo? [terceiro ato] eu era a fada de neverland, meus caros, e isso bastava para que eu fosse presa: a resposta do homem fantasiado deixou isso em clarividência, já que evidentemente meu nome está atrelado à indignação, à rebelião, à voz do povo, à cobrança e, no país-tropical-abençoado-por-deus-e-bonito-por-natureza e por bola na rede (afinal, quem não sonhou em ser um jogador de futebol?), eu deveria estar sempre calada, se possível deitada a sete palmos de terra, porque nada pode sonhar em abalar a estabilidade dos sorrisos, das alegrias compradas a dólar, dos brindes da cerveja holandesa heineken (mesmo durante o três a zero), só que, apesar dessa dita-duríssima ação, todas minhas indagações não desvendavam a proposição inicial: se eu estava sentada no sofá assistindo televisão, por que diabos agora eu estava presa? [posfácio] apesar do país ser laico mas regido pelos cristão, eu estou diante de governantes médiuns, que jogam búzios, tarôs, bingo e bilhar, utilizam bolas de cristal, escrevem memórias do que ainda não viveram e, sobretudo, utilizam forças místicas (e por que não ocultas, né) para prever o futuro: eu estava presa por precaução, meus caros, pois meu nome, meu histórico e a minha indignação é lastro de destruição, é potencial de periculosidade, não estou do lado certo da luta, estou do outro lado da rua, e, portanto, rasguem a constituição, mandem um abraço pros direitos humanos e que se dane um peter pan sem sininho: cortem-lhe a cabeça, ordenou  imediatamente a rainha de copas (ou da copa?) antes mesmo sequer do primeiro gol da holanda. 

Gustavo Clevelares

terça-feira, 22 de julho de 2014

Lançamento do livro Só sei que foi assim



Lançamento do livro Só sei que foi assim, de Maria Biterello!
Dia 31 de julho em Juiz de Fora e dia 6 de agosto em São Paulo!
Mais informações aqui!

terça-feira, 15 de julho de 2014

Custódio


Custódio se casaria
Com a palavra
Mais bela.

Tentou de tudo
Para encontrar
Aquela que
O completasse.

Custódio se casou.

Cólera
Pegou-lhe ódio               
Perdulária
Exauriu-o com custo
Luxúria
Dava-lhe somente um lado.

Tentou, então, mudar;
Casou-se com Melífluo
Sem conjecturar o cônjuge.
Mas soava mal
A união, proibida.
Pior:
Suava nos poros.

Custódio virou
Então
Copidesque.

Hugo Pernet


Hugo Pernet é leitor-colaborador do Plástico Bolha e tem outros textos publicados aqui no blog!!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

No bar


          “Muito bem, muito bem, admitamo-lo!” concedeu João ao seu debatedor. Um bafo etílico adensava o ar com as palavras que soltava. Opunham-se os dois sobre uma mesa de bar, onde a franqueza faz às vezes de genialidade. Num bar, o orador fica obrigado a ter discurso claro o suficiente para que mesmo um bêbado o entenda — e para que mesmo um bêbado o profira.

          Mas dizia João, “... admitamo-lo! Digamos que sim meu amigo, que os ortodoxos tenham razão e que nós, nós somos isso que eles dizem: que somos a corrupção da verdade que eles apregoam aos quatro ventos, e que cabe à nossa boa-fé escolher entre a submissão a seus dogmas ou a proscrição. Que somos, portanto, reles grupelhos perdidos, e que não ajudamos ninguém, quanto mais os pobres e miseráveis, a dignamente levantarem-se por sua salvação, contra o poder da besta, que faz do mundo refém de sua voracidade usurária, desse maldito amor ao lucro! Mas eles são todos uns velhos caducos! Não percebem a necessidade de renovação, não percebem quão crassa é sua defasagem histórica! Nossa causa precisa se renovar, como disse, e a adequação histórica não é pecado. Ele, a cujas palavras recorro em horas difíceis, não à toa é a quem me devoto: já nos orienta há tanto tempo, e quem mais soube viver como um homem de sua época, e, mais importante, à frente dela? Ele não pode ser esquecido, e os ortodoxos parecem que fazem tudo nesse sentido, preferem morrer abraçados com sua miopia! Fica difícil demais convencer as pessoas. Ele não ignorava a história — claro que não preciso lhe ensinar isso — é evidente que, também aí, devemos seguir os ensinamentos que hoje os velhotes enxovalham. Vivem presos em seus claustros! Não atentam para as novidades das ruas, e só querem discutir o “sexo dos anjos”! Ele foi um filósofo também, a partir da vida que viveu, e foi perseguido por tais ideias, sabes disso. Sua filosofia é um legado grandioso, sim, mas é nessa vida, na ação, na ética que provém dela que devemos nos embasar agora. Caso contrário, como faríamos a conversão dos povos, meu caro?”

          O confrade, cujo respeito pelas palavras do amigo não o furtaram de certa distração, assentiu positivamente com a cabeça por diversas vezes. Comovia-o a contundência de João. Mas o comoveria ainda mais sua capitulação naquele debate.

          “Eu sei João, estou de acordo com quase tudo que você falou. Mas seja sensato! Não podemos cismar com nossos irmãos assim, não podemos nos fragmentar, trocar alguma satisfação tacanha pela integridade de nossa missão. Deixe de ser orgulhoso. Pense, sem tanta afobação. Sejamos virtuosos, como deve ser nossa luta. E além do mais, de que nos adiantaria peitar os cânones? De nada, senão nos arriscar à expulsão. Quero o avanço de nossa causa, tu sabes, prezo pela solidariedade contra a opressão, contra a miséria humana, tanto quanto você. Sou fidelíssimo ao nosso propósito, não duvide disso. Mas assim, irrefletidamente, expomo-nos à exclusão, à excomunhão! O fanatismo sempre foi um mal entre nós, não recaia nele, João. Nunca devemos nos esquecer do nosso fim, do qual não podemos fazer nunca um meio: o homem. Lembra-se? Caso contrário, por que entregamos nossas vidas a isso? Abdicamos das mulheres, da família, dos prazeres mundanos... E afinal, a ala tradicional é velha sim, mas também mais experiente e calejada que nós, já passaram por tanta coisa, temos que nos resignar a nosso lugar também. Seja prudente Joãozinho...”

          Deixou pairando o conselho, para vê-lo decantar no ambiente. À tardinha, o bar estava escasso em clientela, e as frases fervorosas dos amigos preenchiam-no. No chão formavam-se, lá e cá, ninhos de sujeira acumulada, cobrindo o piso com um tapete enegrecido. O vento que soprava na rua se segurava imóvel dentro do estabelecimento. Séries horizontais de cervejas, cachaças e outras bebidas eram sustentadas em prateleiras paralelamente dispostas sobre o balcão, encimadas por uma velha tabela de preços. Sob ela, o ocioso dono do bar limpava a mesa, os copos e os ouvidos para melhor escutar a vida alheia. Feita a réplica, João demorou-se a responder. Colhia com cuidado os contra-argumentos que o amigo cultivara em sua cabeça. 

          “Pois é, mas a doutrinação já passou da conta. É arcaica demais, naufraga diante da apatia geral da população. Como podemos tocar os céticos? Infelizmente, a vertente clássica segue a mesma decadência de nossas instituições antigamente tão sólidas. Nem contamos com a segurança das diretrizes da sede europeia mais! Deus nos ajude... E nem tente me lecionar sobre experiência, ora! Você sabe que não sou tão infante assim, já fiz muito pela organização também. Calejado? Calejado sou eu! Quem fez mais pela irmandade dos homens, pelo amor solidário ao próximo, à humanidade? Embrenhei-me no campo, sabia disso? Fui aos rincões mais relegados da Terra, abaixei-me à lama que a ganância de idólatras do dinheiro difunde nas margens do mundo. Ele, que foi sem dúvida o maior dos sábios, nos alertou para o lugar dos ricos no futuro que há de se impor sobre todos nós, e que está inexoravelmente cada vez mais próximo. Sem falsa modéstia o digo: estive junto aos flagelados mais humildes desta América Latina, da África e da Ásia, semeando a verdade redentora entre os famintos. Compassivamente busquei lhes transmitir a sabedoria e a graça do nosso caminho. Nosso, e o único, caminho para a emancipação. Fui fazer a militância com a qual nos comprometemos há muito, conduzir os fracos à iluminação, sabe? Ele já profetizava o desconhecimento de fronteiras do que está por vir: hoje uma utopia, sim, mas que há de se tornar real para todos, estejam conosco ou não. Aí infelizmente será tarde para os incrédulos se arrependerem. No novo mundo a justiça será perfeita, como tudo o mais, e por isso severa com os que obstaram a sua chegada.”

         A voz de João não se gastava somente em quem pretendia. Agora, escutava-a também com maior atenção o dono do bar que, na surdina, se intrigava com o messianismo da dupla. Discretamente, aproximou-se da mesa dos debatedores, atraído pelo verbo solto de João, que continuava o discurso.

          “A beleza é a única coisa no mundo da qual os homens não esperam justificativa, meu amigo. E por isso ela é a única justificativa possível para o que fazemos, a única que resta absoluta, independente de causas externas. Por isso lutamos, irmão. Porque é bela a nossa luta. Não só porque é moral fazê-lo — ou, como sei que és arredio às afirmativas que reduzem a sutileza da ambiguidade, porque é imoral não fazê-lo —, não só porque qualquer outro tipo de vida é falso, o que dá no mesmo que ser imoral, e se resume em nosso dever ético. Mas porque a beleza, como disse, é o universo das razões, de qualquer razão, que qualquer um poderia demandar de nossa missão. Portanto, a justificativa de que fazemos o que fazemos porque nos preocupamos com o futuro da humanidade, porque agir de outra maneira seria atentar contra o manifesto da verdade, contra suas palavras vivas — hoje, mais do que nunca —, só se basta nisto: servimos, antes de tudo,à força que move o mundo, a história: a beleza. É a ordem harmônica das coisas, que faz do homem a criatura mais maravilhosa que se pode encontrar, e a primeira dentre todas elas, porque agente capaz de reconhecer e realizar a beleza. É a língua exclusiva da boa natureza para nós. Da beleza resistente de hoje, que deve também resistir a nosso ocaso, à beleza fulgurante do amanhã. Essa é minha visão das coisas, como já te explanei uma vez, eu acho. O que fazer? Ele é quem deve governar nossos passos. Nele, encontramos a trajetória dessa beleza já toda delineada, só é preciso ler.”

       O dono do bar já não se aguentava diante do espetáculo singular daquela tarde modorrenta. Inclinava-se a intervir na conversa para anunciar aos dois falantes como se lhes irmanava no assunto que ele, em anos de profissão, verificou ser bastante incomum no meio boêmio.

         “Ele! Ele! Não abuse, João! Ele te legitima qualquer argumento! Ele é quem você trai ao propor esse comportamento desviante, afastando-se dos seus, dos companheiros de tanto tempo... Ok, acho que discordamos, enfim. Ele também é pra mim, em última instância, o ponto máximo mesmo, mas vieram tantos seguidores depois que contribuíram de alguma forma para engrandecer, intelectual e praticamente, a obra a que nos aferramos, João. Ele os aprovaria, tenho certeza. Sua morte não poderia ser, como não foi, o fim da mensagem que anima nossos esforços hoje, Joãozinho. Por isso devemos respeito à tradição que nos legou essa mensagem. Ele...”

          “Com licença meus senhores”, finalmente interrompeu o dono do bar, “Mas não pude deixar de ouvir a conversa. Sou um homem religioso também, e fico muito feliz em ver que ainda há gente interessada em discutir e concertar os percalços da Igreja. São tempos difíceis para quem tem fé, não é?  Mas com tanto empenho assim, sei que vamos superá-los, sim, vamos.”

          Perplexo, João tratou de absorver as palavras do recém-chegado com curiosidade.

         “Desculpe amigo, do que acha que estamos falando?”

          A resposta veio com o embaraço do interventor, que não esperava reação desse tipo, mas a acolhida de quem é surpreendido por um velho amigo.

          “Ora, vocês estão conversando sobre Ele, Deus encarnado, Jesus. Não é?”

          “Não”, retrucou João, “Estamos falando de Marx.”

Filipe Novaes


segunda-feira, 30 de junho de 2014

Epifania


(Como quem, entrão, sabendo
que não será proibido, invade
sem pudor um ambiente, tiran-
do a calma de quem ali está)
a borboleta entrou
no túnel.

É um longo túnel.
O trânsito está parado sob aquela gávea azul.
No morro onde se cavou o caminho: verdes, árvores
Nele: fumaça fumaça fumaça
Muita gente a caminho do trabalho, como a borboleta.
Suas asas tão loiras, batendo, são como as rodas do
meu ônibus: incansáveis, desesperadas...
buscando o quê?

ficou pra trás, ignorada por todos.
Suas asas, ao fim, negras como as paredes do túnel?
O pulmão e a vida de todos nós enegrecendo naquele lugar,
enquanto a borboleta desliza seu último vôo
contra um século convulsivo.

João Fernandes

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Lugar nenhum



Exposição Lugar nenhum, do artista plástico Barrão.

Hoje, a partir das 19h na galeria Fortes Vilaça - São Paulo/SP.

Mais informações aqui!

Trovar escuso


I.
o prisioneiro será conduzido
uma câmera colocada no teto esquerdo da sala
outra instalada no centro
depois de meses
aquele será o seu primeiro interrogatório
ele foi treinado.

como sobreviver a um interrogatório
militar
como obter o tom certo
atuar o fardo
encontrar o dizer
(a culpa exige ser dita, não existe se não o for)

na cena do interrogatório
adrenalina
preparar o corpo para o grande esforço
pela colaboração de especialistas
em arrancar
travar
pergunte lentamente
repita repita subindo o tom
silencie o pulmão
e saberá empregar tudo
será perfeito em sua atuação
para cada interrogação
exercícios
um interrogatório será um teatro
(e poderá se passar em Guatánamo, no Oriente ou bem perto daqui)

entoar
uma música
uma unha
gritar
raspar
entregar seu corpo meticuloso à tortura

(ele deverá dizer o que não está mais em seu coração
dizer pelo sofrimento daquilo que deveria desejar
e foi treinado para não dizer dizendo)

repetir antes para a câmera
(sua dócil plateia)
seu corpo de torturador o torturado estará bem preparado
torturar a voz a impostação da voz
o grito
tocar lentamente perfurar em ziguezague
fazer sua língua soltar
percorrer arrastar
atingir o palco puro
silenciar.

II.
aí .... posta no mundo? … ... do sangue?
em seu .... confessa ... mutilação?
a Pátria, … é?

… ..., aí antes da hora ...dito?
pequenos pedaços de mulher? tudo
… é Religião?

me diga... inimigo?... fugiu
... infiltrado? ... não importa?
o Capital, …?

pai… mãe… fantasmas? vestígios?
organização?… mentiu ... digam
as Armas, ah é?

Masé Lemos


Masé Lemos é leitora-colaboradora do Plástico Bolha, e tem outros textos publicados na edição impressa do jornal! 

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Curativo


Sangue no rosto,
tapa na cara,
um suor pela testa.
Olha pela janela, sofre o que dá,
fuma o que dá,
cospe no chão.
Sangue no rosto,
corte na boca,
uma mão de apoio no queixo –
e na alma.
Enrola a vida,
finge que vive bem;
enrola o tempo,
fala que ainda tem.
Com sangue no rosto,
um tapa na cara,
um corte na boca
e apoio na alma.

Galego


Confira outro texto de Galego no blog do Plástico Bolha!!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Tractatus Poetico-Politicus


De novo Junho, sob a espessa névoa,
Quando o Rio a irradia, ou quando escrevo a
Sua insistência, somos. Negais, escravos,
Que ainda tereis de serdes cruéis e bravos
E, pios, colherdes balas de borracha
Como conchas intactas ? Ninguém acha,
Creio, nesta plantação que semeio,
A violência apenas fase, meio,
Trânsito fluindo (e por vinte centavos
a menos) ao que vos abula, escravos,
A condição, e o orgulho da pele,
Digo hematomas belos, vos debele.
Almeja-se outra do rasgo em que vem-se à
Terra, e a fenda chamo violência
Que em saltá-la propõe maior vazio
Pra sofrêgos transpormos, tal Dario
Desmantelado ante Alexandre hilota.
Postulo a violência como rota
De Samarcanda e aos confins da seda
E ao pothos que ao seu largo lhe suceda.

Assim importa, nos colégios, luta
Co'os PMs da consciência absoluta
E mata-se, e há de matar-se mais
No galgar-se estas eras abissais.
Assim, o alvejado de amor entrega
As chaves viciadas, como quem prega
Lenha a lenha de uma armadilha oca.
Assim a minha prosa carioca
Sulcada, cicatriza na vitrola
Onde, pra renovar a língua, a viola.
Assim, que hoje o excesso no ar angarie-te
Entre o limes do monte e o mar, aríete
Batucando a febre aos portões do império,
Mesmo ignoto quem por fim recupere o
Teu destroço, Rio, tribo de germanos,
A pesar se leal aos Majorianos,
Se aos chefes teus brutais, se ainda ao saque
Ou outra alta poesia ; mas destaque
Dado o campo em que és forro e ninguém quis la-
vrar, oh com que soberania legisla
Tua fúria e fome na espera (requinte!)
Da pena em cada mão constituinte,
Das bênçãos que imperadores outorgam...

Se a tua maça sem nome eleita orgão
Executor da máxima censura
Nos devolve a violência que cura
Banco, cartório, jornal, toda triste
Paixão sobre o que deseja e resiste
E amaria e comporia na insurreição
Rapsódia infinda de como reis são,
Assim pare-se o Novo, assim impede-se
O brinco de Sarney, o anel de Médici.


Marco Passini

Segunda


segunda-feira e o prognóstico da semana, o recomeço sempre à espreita, o bote dos dias úteis. o metrô e seu humor negro diário, sua piada de mau agouro. as pessoas paramentadas de bolsas, documentos, rugas na testa. as pessoas e seus itinerários urgentes, intransigentes. as pessoas. ------- eu.



Vivian Pizzinga é leitora-colaborado do Plástico Bolha, e tem outros trabalhos publicados aqui no blog!!

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Um poema de Gabriel Gorini


esse meu parapeito meu inferno
astral que se destaca nas
sucintas imagens celestiais
que se cobre em convulsões
maternas que abdica dos
espíritos primevos que se
fere em deslocamentos
amorosos em paixões
abortadas pela intempérie
já ninguém quer dançar
comigo esse meu parapeito
meu inferno astral que aceita
argumentos solúveis que
silencia os comboios partidos
que não comunga em paredes
encobertas que distancia qualquer
forma de afeto esse meu
parapeito meu inferno
astral que na dúvida retrai
a maré que no medo repele
ladeiras que no ímpeto
oculta os anseios esse meu
parapeito meu inferno astral
que não cessa em preces
convexas que corta o cabelo
curto ainda me pergunta se
eu acredito nas estrelas

Gabriel Gorini

terça-feira, 17 de junho de 2014

Paixão de Cristo é cancelada


3 da manhã. A polícia surge como um bando robótico, andando em uma calma formação de quem segue as ordens sem pensar, sem sentir. Não, não para pra pensar. É só manter o movimento, um, dois, um dois. Enquanto isso, famílias inteiras correm pra salvar o que restou das suas vidas. É, não sobrou casa, não sobrou teto. Não sobrou praticamente nada. Só o medo. O medo e a vontade de vencer.

O que eu vi na madrugada de sexta foi uma covardia sem tamanho. Sem. Tamanho. Dava pra ouvir o choro e os gritos das crianças. Vinde a mim as criancinhas, não era isso que Jesus dizia? Mas hoje Jesus morreu. E seus filhinhos não têm pra onde ir. As pessoas correram para o ponto de ônibus. Queriam ir embora, vamos fugir, aqui não dá pra ficar. Elas iam embora. Pra onde iam? Que diferença faz? O que conta é que estavam deixando o cenário. A digníssima prefeitura. Um prédio: tijolos, vidros e tinta – protegidos por dezenas de guardas. Noventa pessoas: sangue, pernas, amor e lágrimas – atacados e perseguidos por dezenas de policiais. E essas pernas não têm pra onde ir. Elas têm que ir embora, estão sendo expulsas, não te querem, saiam! Mas não podem ir, não deixam que vão. São perseguidas, não acaba, corre, corre, me deixem em paz, deixem elas em paz, só querem ir embora, por que não nos deixam em paz. Corre, viciado, corre, vagabundo. Um riso de deboche, uma bomba de ameaça, um, dois, não pensa, não pensa, um, dois.

Elas não podem ir, não podem fugir, vamos, parem de existir. Respira fundo, pra dentro e pra fora. Vai pro céu, vagabundo, deixa de existir. Teu mundo não é esse, vai pro reino de Deus, e Jesus, o morto, o pobre, o subversivo, o perseguido, o excluído, ele que te acolha.

Horas de perseguição. Pessoas chorando, com medo, com frio, com sede. Perambulando pela cidade escura e inóspita. Essa cidade que só quer cuspi-las. A peregrinação, uma caminhada sem fim, segura tua cruz, vai, segue, não cai, não cai. Chegamos ao destino, a casa de Deus, aqui hão de te acolher, vai, não cai. Mas a casa de Deus fecha as portas. Não ficaram sabendo, a Paixão de Cristo foi cancelada. Não há Paixão e não há Cristo na Igreja do Rio de Janeiro, ela vê os necessitados e lhes fecha as portas. Vai, anda, aqui não é teu lugar. Não, essa não é a morada de Cristo, não vê, ele está lá fora, acampado no pátio. Cristo está ali de novo na cruz, ainda sendo perseguido. A Igreja fechou as portas para ele e sua Paixão. Cristo está desabrigado.

Bruna de Lara

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Fuga de Alcatraz


e de repente a gente arrisca
risca o fósforo sobre a monotonia
tchau colchão
zona de conforto
falsa alegria



Caio Carmacho é leitor-colaborador do Plástico Bolha e já teve outros trabalhos publicados no blog do Plástico Bolha. O poema Fuga de Alcatraz é parte do livro livre-me (Patuá, 2013).

Lançamento Antologia PB na Livraria Cultura



No último domingo aconteceu o 2˚ lançamento da Antologia de poesia Plástico Bolha (OrganoGrama, 2014), na Livraria Cultura de São Conrado, Rio de Janeiro - RJ. Tivemos as leituras de alguns autores participantes: 

- Ana Chiara
- Claudia Roquette-Pinto
- Marilena Moraes
- Maria de Andrade 
- Lasana Lukata
- Rodolpho Saraiva
- Augusto Guimaraens 
- Lucas Viritato

Obrigado à todos que compareceram, e à Livraria Cultura, pelo espaço e atenção!

Veja aqui mais fotos do evento!

Decifráveis versos


Faço vidente e cristalino os versos que escrevo,
Em cabalas rítmicas no variado número de palavras,
Onde as runas já não revelam o próximo poema,
Nem tarôs decidem os caminhos da minha poesia.
Nenhuma delas está nas linhas de minhas mãos,
Mas em ébrios versos, que enganam a enomancia.
São independentes dos tabuleiros de búzios,
E de qualquer interpretação do I Ching.
Faço versos sem mistérios,
Decifráveis apenas pelo belo e pelo despido,
Onde está sempre nua a minha alma.

JAAK BOSMANS

JAAK BOSMANS é leitor-colaborador de Belo Horizonte - MG. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Lançamento na Cultura!




No próximo domingo, 15 de junho, acontecerá o lançamento da Antologia de poesia Plástico Bolha, na Livraria Cultura - Fashion Mall.

O evento contará também com alguns dos poetas participantes da Antologia lendo os seus poemas!

Leituras confirmadas de:
- Breno Góes
- Augusto Guimaraens Cavalcanti
- Lucas Viriato
- Maria de Andrade
- Maíra Ferreira
- Rodolpho Saraiva

As leituras começarão às 18h!!

Livraria Cultura – Fashion Mall – Estrada da Gávea, 899 – São Conrado, Rio de Janeiro/ RJ.

Mais infos sobre o evento aqui.

Provador


Eu já expliquei pra minha mãe que não adianta ela me dar uma calça nova quando a velha já não presta mais. Meu namorado vem em uma semana. Uma semana não é nada. Não dá tempo de deixar a unha crescer e muito menos de emagrecer. Estou uma vaca de tão gorda e minhas espinhas brotam no meu rosto como se fossem morangos cultivados por um agricultor. Abri aquela sacola da calça nova... a calça é boa. Demarca bem as minhas coxas grossas e o meu bumbum arredondado. Pena que esmaga a minha barriga. O pior tipo de calça é aquele que faz a sua barriga sobrar em todas as direções. O meu maior pavor foi quando NENHUMA blusa conseguia disfarçar as sobras. Essa flacidez consumindo o meu corpo. Esses quilos a mais transbordando para fora da calça. E o desespero. Uma semana para resolver tudo e agora só dois dias para trocar a calça. Eu prometo ao meu namorado que vou emagrecer. E prometo que esse tratamento para espinhas vai funcionar. Mas ninguem promete pra mim que as calças vão guardar o meu corpo devidamente. Todas as blusas foram arrancadas dos cabides e largadas pelo chão. Eu não suporto essa adrenalina de uma semana para a chegada do meu namorado e ao mesmo tempo eu vou me apaixonando mais por ele, só porque vamos estar juntos. Eu tenho pena por ter me descuidado tanto. 12 calças, um vendedor simpático e um cartão de crédito que eu ainda não sei se vai passar. Quase uma terapia. Eu e a calça, eu e a próxima, eu com pernas grossas e curtas, eu com quadril largo, eu com bumbum grande, eu gorda e flácida, a calça de cós baixo, a calça de pernas longas, a calça que não passa pelas minhas pernas, a calça que briga com a calcinha, a calcinha que se enrola por cima da calça, a calça que põe a calcinha para dentro, a calça larga demais, a calça justa demais, a calça que entra perfeitamente e guarda toda a minha barriga. A calça que está em paz com a calcinha e que ainda assim valoriza minhas medidas. Adeus pulos, puxões e todo o sacrifício para vestir uma calça. Seja bem vinda calça perfeita! Disfarce minha gordice e continue me dando esse prazer de me sentir em forma por não sofrer para entrar em você. Afinal, o mundo é cheio de peitos falsos, magrinhos descolados e gordinhos disfarçados.

Tânia Beniz

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Deste lado


Apesar do trem desta velha cidade ter dois lados
São Cristóvão parece crescer para só um deles e
sozinha

a cabeça de ferro e ferrovia do Zumbi
estende os olhos para o mar, estrada infinita.
nesta cidade-trem onde tempo e espaço são Bonsucesso e o Ano 2000

No dia em que o olhos de Zumbi caminharem pela Zona Norte
por detrás do Maciço
se verá a infinidade o que essa cidade-trem tem de sorte.

Fernando Impagliazzo

terça-feira, 10 de junho de 2014

Curso de extensão em Literatura


A professora mestre Raquel Naveira ministrará dois cursos de extensão em Literatura na USCS: A "Literatura latina: mitos, épocas, autores e reflexões" - mais informações aqui   e "A importância da literatura infantil na formação do leitor" - mais informações aqui.

Dias sufocantes

Atravesso um daqueles dias sufocantes,
Em que me faltam o chão e o ar,
e não há nada para se apegar,
o caminho a traçar,
um lugar para chorar,
nem medalhas para ostentar

Ando pela rua à procura de um olhar
preciso, profundo, próprio
que busco em inúmeras investidas
diretas, dramáticas, dóceis

Pedindo em silêncio um instante...

Solene manhã chuvosa de dezembro
instável por natureza, intempestiva
coberta por olhares rancorosos,
corpos enrijecidos pela leve brisa
e mãos que congelam com um só toque

Tendo então somente palavras
como armas para um exército
Defendo-me por todos os lados
somente com sentimentos escritos

Sufoca-te poeta, sufoca-te

Anderson Estevan


Poema publicado originalmente no livro Cores primárias (Futurarte). Anderson Estevan é leitor-colaborador do Plástico Bolha e tem outros textos publicados em nosso blog!!

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O Livro de Antonia - Clara de Góes

Amanhã, 10/06, acontecerá o lançamento d'O Livro de Antonia, da poeta Clara de Góes. A partir das 19h no Teto Solar - Rua Paulo Barreto, 110 - Botafogo, Rio de Janeiro. Assista à Clara lendo alguns dos poemas que compõem o livro!



LUZISOLES


queridolhos encantamorados
caminholindo passopertado
carreganhando os olhos teus
brilhoriso andaluz
luzisoles faroletes

amorolhos são os meus

Ana Noronha