quinta-feira, 31 de março de 2016

Pássaros


Dentro de mim há milhares de pássaros,
centenas de milhares de pássaros.
Dentre uma bicada e outra
rompe-se a casca,
a casca de novo.
assim nascem em mim
milhares de pássaros,
centenas de milhares de pássaros.
Logo rodeiam-me o estômago,
sobem-me o esôfago,
sobrevoam-me o céu da boca
e se chocam contra a arcada dentária.
Assim engulo dia após dia
milhares de pássaros.
centenas de milhares de pássaros.

Felipe Andrade

segunda-feira, 28 de março de 2016

Vazamento


  as artérias da minha
    casa estão
  entupidas com a
    sujeira dos
   anos que acumulam
     e pressionam
    por toda vida
      o desespero
 e as paredes
    quebradas como
  eu e o meu saldo
 devedor
  credor apenas
       do destino
 mero clandestino
        da existência
          resistente eu sigo
     insistentemente
     buscando saídas
      que nem sempre
         aparecem

Pedro Tostes

sexta-feira, 25 de março de 2016

Alice Cooper


tenho o cabelo comprido
e uso jeans azul rasgado

minha juventude é ininterrupta
não vivo pra ser demasiado breve 

gosto de Alice Cooper
e outros EP’S

as vezes me bate uma loucura
de querer as coisas

de uma vez só

as vezes eu até consigo
falar tudo o que penso

prefiro um copo de chopp
do que temer a vida enormemente

Matheus Felipo

quinta-feira, 24 de março de 2016

Adeus, oh pátria minha


Alegre o marinheiro
em voz pausada canta,
e a âncora já levanta
com estranho rumor.

Da corrente ao ruído
me agita a pena fria.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

O barco suavemente
se inclina e se remexe,
e logo se estremece
pelo impulso do vapor.

As rodas são cascatas
de branca prataria.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

Sentado, eu, na poupa
contemplo o mar imenso,
e em meu azar eu penso
e na minha tenaz dor.

A ti minha sorte entrego,
a ti, Virgem Maria.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

De fogo, ardente globo
nas águas se oculta:
uma onda o sepulta
rodando com furor.

Rugindo, o mar anuncia
que morre o rei do dia.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

As ondas, que se mexem
como o menino a ninar,
retratam do luar
o rosto sedutor.

Geme a brisa triste
qual homem em agonia.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

Do astro da noite
um raio brandamente
resvala a minha frente
enrugada de dor.

Assim como hoje a lua
no México luzia.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

No México!... Oh memória!...
Quando teu rico solo
e teu azulado céu
verei, triste cantor?

Sem ti, cólera e tédio
me causa a alegria.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

Penso que em teu recinto
há quem por mim suspire,
quem ao oriente se vire
buscando seu amor.

Meu peito profundos gemidos
à brisa os confia.
Adeus, oh pátria minha,
adeus, terra de amor.

Ignacio Rodríguez Galván

Tradução: Yasmin Barros

O poeta mexicano Ignacio Rodríguez Galván foi o autor homenageado do VI Festival Internacional de Poesía, que está acontecendo na cidade de Tizayuca, México, entre os dias 16 e 22 de março. Lucas Viriato, poeta e fundador do Plástico Bolha, foi convidado para o Festival, e levou como presente para os nossos amigos latinos o Jornal Plástico Bolha - Edición Latinoamerica, e este poema, traduzido por Yasmin Barros, membro de nossa equipe, como uma forma de estreitar os laços entre Brasil e México. Levamos nossas bolhas para o exterior - e fomos muito bem recebidos! Que venham mais oportunidades de derrubarmos as fronteiras que (não) nos limitam.


quarta-feira, 23 de março de 2016

aMarécomplexo


(H)á-mar agitado
(H)á-mar calmo
(H)á-mar imenso
(H)á-mar intenso
(H)á-mar(é)
(H)á-mar(é) simples
(H)á-mar(é) complexo
Há mar
Amar
Amar é
A Maré.


Vanessa Américo

segunda-feira, 21 de março de 2016

Contagem


1

Todo fim de mês
minha vó cabelos
brancos e vestido
florido doava
religiosamente
uma pequena quantia
da sua pensão
para a Igreja.

2

De tão religiosa
e evangélica
e fervorosa
que era cantava
uns hinos
mas não aquele hino
o hino conhecido
o hino obrigado
esse já nem lembrava
talvez um Ipiranga
ou nas margens plácidas
mas o que é plácidas?

3

Minha vó caminhava
pelos corredores
em passos lentos
dobrando o tempo
das coisas
e o dia
pela metade.

4

E ai de quem
lhe entregasse
a faca pelo cabo
ou dissesse “diabo”
ou chinelo emborcado
ou dissesse
“eu te odeio eu te odeio”

— porque isso atrai coisa ruim.

5

Minha vó sentada na sala
tomava sopa de batatas
enquanto conversava com Zé Pinto.

— mas Zé Pinto não morreu, vó?

— mas eu vejo
            eu vejo,
                dizia.


6

Quando partira
minha vó deixara
o vestido florido
que agora não é mais
tão florido
e alguns fios de cabelo
entre as almofadas
do sofá.

7

E há quem diga
que ainda canta o hino
mas não o mesmo hino
o hino evangélico
o hino religioso
mas um outro hino
talvez mais falado
talvez mais cantado
um hino que aprendera

da própria boca de Zé Pinto.

Felipe Andrade

sexta-feira, 18 de março de 2016

Amazonês


Brincar de falar
De escrever

Eita nóis ...
Difícil entender
Esse tal de português

Em cada cantinho
Um jeitinho

Riqueza de sotaques
De gente

Um fala “Uái”
O outro diz “Oxente”

Do Sul ao Norte
Uma presença marcante
Forte

A flor da pele
Originalidade

Na ponta da língua
Regionalidade
  
Quer ver só...sua língua dar nó?

No Amazonas tem
Um jeito invocado

Diferente de falar
Cheio de caqueado

De pensamento emborcado
Sobre o jeito de assuntar

Desse povo empombado
Paid´égua de lugar

Terra maceta, chibata
De Chibé e alguidar

Se você que lê não entende
Deixa eu te dizer

No Amazonas pra não esquecer
O português também se chama
Amazonês

Luciano de Abreu

quarta-feira, 16 de março de 2016

Hora magra


A vista pálida    
de uma dúbia natura que resvala
nos córregos de pedras silenciosas
e o silêncio de cada coisa viva,
tangível, preso ao rabo do Azulado,
repensa o fruto plástico das horas.

Nas asas da vogal o verbo líquido,
jamais pronunciado e de erudito
corpo, galho inerte e vento,  
retumba no jardim que se esboroa.

A rosa amarga, preta, rejubila
a torre de folhagens esquecidas.

O rasgo de dois versos num espinho.

No espaço entre duas asas o anelo
de ornar com seixos de ócio esta vereda:

Vales hirtos de espelhos retorcidos
refletindo o mar alto entre seus rotos
caules de vidro. Rezas junto ao cume  
De ferro arroxeado, dia findo, 
o magnético orvalho do suspiro,
o branco sobre o plano iridescente,
alma e plano, cerúleo patrimônio,
o faro insone do ocaso.

A flora quebra e escoa em pranto de ônix
sujando o véu turquesa pincelado.

Relva do azul, terreno amorfo. Eis  
a lâmina de sangue ensimesmada
cortando em som opaco estas veredas
incolores do espaço, tudo é negro.

A voz plúmbea da rosa destruída,   
que a chamam: letra cinza, vulcão débil.
Ecoa pelo vale e então se funde
ao olor que da terra exposta brota
Ungido no vermelho da consoante, 
e como gema insurge, ametista 
do dia, dissolvendo a noite em pétala.

Que, no ar, a treva imensa sobre os poros
da quietude cedendo ao próprio peso,
Se não salva o silêncio, salva a ti,
Que em mim redoura o verso morto.

E aqui, teu rosto em cor, aberto à rosa
descobre-me na condição de luz.  

Heitor de Lima

terça-feira, 15 de março de 2016

Nova quadrilha


João fornecia a teresa que mandava a
Raimundo
que repassava a Maria que entregava a Joaquim
que vendia a Lili
que não dava a ninguém.
João trazia dos Estados Unidos,
Teresa, da Colômbia,
Raimundo morreu de overdose, Maria
injetava na veia,
Joaquim suicidou-se e Lili passou a comprar de
J. Pinto Fernandes
que era do morro rival.

Pedro Rabello

segunda-feira, 14 de março de 2016

Ítaca não há mais


Ulisses
está sentado
no banco mais alto
preso entre
dois headphones:
lá fora o grito
da sereia indiferente,
da sereia egoísta,
da sereia coletiva.
A antiga Ítaca não existe mais,
a destruímos gradativamente
ao longo dos anos.
os Ulisses pós-modernos
são todos lotófagos.
Felipe Andrade

sábado, 12 de março de 2016

Lançamento da autora Luiza Mussnich


Convidamos a todos para o lançamento do livro de contos de Luiza Mussnich, vencedora do Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia de 2015.

Será no dia 15 de março, terça-feira, a partir das 19h, na livraria Argumento do Leblon - rua Dias Ferreira, 417, Rio de Janeiro.


sexta-feira, 11 de março de 2016

Peixe de Aquário


                   solitário
 imerso em sua própria bosta
           preso neste imenso
   cubículo
   repleto de sonhos perdidos
     lembranças do que foi
         e outros tipos de lixo
 em vão
        nada
      rumo à superfície
   tencionando respirar
  buscar comida
      algum sentido pra
             essa porra toda
    tão cristalina quanto
  os vidros

     dessa janela

Pedro Tostes

quarta-feira, 9 de março de 2016

O Plástico Bolha 37 está no ar!!!


Depois de devassarmos as ruas do país com os exemplares impressos do jornal, chegamos à internet com a versão eletrônica do lindíssimo Plástico Bolha 37. Acesse-a pelo nosso site:

http://www.jornalplasticobolha.com.br/index.html

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poema de Fritz Nonato


Efêmera fêmea
Efêmera fêmea.
Fêmea, vida!
Efêmera vida?


Fritz Nonato

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ramo-Gineceu


I
Dar à flor e ter no pólen
o amor que outrora pétala, decanta
mordido, cuspe. o sopro lapidado
desce em orvalho e espinho roto
no cálice xerófilo da sépala,
descasca o cinzento,
coral de lânguidos saberes.
Tombo nouveau
de próteses desnudas, centopeia:
o furo torto e oco do endosperma,
a flor desloca o escroto, tessitura
de ambíguas coronárias,
e furta a espuma e pega à mão
um alvo, dente-de-leão, leve peludo
pendurado no ar, no destilado escudo
de umidade, corcunda sereníssima,
(assinatura de ilustre candelabro)
móvel, estojo escondido no outono.
Incerta e folha, menina

II
A flor estanca seca
barrando a exatidão que em si conserva
cínica, obesa, colorida
flor de esguelha, vacila e se desloca
orelha a orelha, no ramo digital
da mão estranha, dos namorados curvos,
 condensados, esquálidos urbanos.
Pote de vácuo, piolho súbito,
a flor descalça no diadema
silábico, de espirros e batuques.
mirrados colibris na copa descoberta
se estiram pelo fogo sensorial,
sem cinto, sem mensagem.
No parto este elástico de pele,
 o coma e a sudorese sensitivos.
 contida flor, explode flor, uníssona,
e é flor forçada a ser não mais que um sexo 
e fere a vã vontade deste branco, 
recolhida, figurada, adolescente 

III 
Cromo em faísca, este breu
de Eros e óleo no visível.
flor que anda preguiçosa
perto do êxtase, acima do estio:
séria, rútila, centrífuga,
mulher que habita o som

Heitor de Lima

sábado, 5 de março de 2016

Medida por Medida, de William Shakespeare, no teatro João Caetano


"Permanece a convicção de que Shakespeare é de uma atualidade fascinante. Hoje tive a oportunidade de assistir à montagem de "Medida por Medida", uma das peças conhecidas como "dark comedies", do diretor Ron Daniels. Em linhas gerais, a trama da peça se desenvolve uma vez que Angelo, detentor temporário do poder legislativo na cidade, decreta a sentença de morte para Cláudio. Cláudio convoca, então, sua irmã - Isabela - para que convença Angelo de voltar atrás em sua decisão. Isabela vai até Angelo e este a propõe um acordo: caso ela transe com ele, a decisão seria revogada. Ao recusar a proposta de Angelo, Isabela é assediada sexualmente por ele, mas foge antes de Angelo ser capaz de forçá-la a fazer sexo. A cena seguinte coloca Isabela na prisão contando a Cláudio do ocorrido, o irmão por sua vez acha que ela deveria aceitar esse "pequeno pecado" para salvar sua vida. Em toda peça, a plateia é crucial para o desenvolvimento dos atores em cima do texto encenado. No caso de hoje, assisti a essas duas cenas vidrado no palco. Vi de um lado da plateia subirem gargalhadas enquanto Angelo perseguia Isabela com a clara intenção de estuprá-la. Conforme os gestos do ator faziam de Angelo quase que um pateta machista atrás de Isabela, as gargalhadas pareciam inevitáveis; foi então que começaram a surgir ecos de um riso nervoso - daqueles que não temos certeza se podemos ecoar. A cena terminou. Seguiu-se para a cena de Cláudio implorando a Isabela para fazer sexo com Angelo e permitir-lhe viver um pouco mais. Risos, fossem eles de qualquer tipo, pipocavam raramente. A seriedade das cenas começaram a ser percebidas. Não havia nada de engraçado ali. A resposta a isso foi o clamor da plateia quando, no final da apresentação, todas as luzes do teatro se acenderam e Isabela pergunta a nós (!!!) o que merecia Angelo em resposta aos seus atos: JUSTIÇA! Parabéns Ron Daniels, Luísa Thiré, Thiago Lacerda e grande elenco, vocês fazem jus ao Bardo! Que comecem os 400 anos da morte de Shakespeare com uma belíssima montagem brasileira, retratando temas cuja atualidade chega a assustar o espectador..."
Gabriel Leibold

E é assim que começamos as homenagens aos 400 anos do falecimento de William Shakespeare: com as belíssimas montagens das peças Medida por Medida e Macbeth, dirigidas por Ron Daniels e com participação de Thiago Lacerda, já consagrado por sua presença em Hamlet. Ambas encontram-se em cartaz no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, do dia 03 ao dia 20 de março, nos seguintes horários:

Macbeth: quintas e sábados, às 19h.
Medida por Medida: sextas, às 19h; domingos, às 18h.

O valor dos ingressos para ambas as peças varia entre R$30 e R$60, e a classificação etária é 14 anos. Para maiores informações, acesse os sites:

Macbeth: http://www.ingresso.com/Rio-De-Janeiro/home/espetaculo/teatro/repertorio-shakespeare-macbeth/teatro-joao-caetano

Medida por Medida: http://www.ingresso.com/Rio-De-Janeiro/home/espetaculo/teatro/repertorio-shakespeare-medida-por-medida/teatro-joao-caetano

sexta-feira, 4 de março de 2016

Poema de Felipe Andrade


Os rastros
escavados
pelo pendulo
pelo tempo
a sola do sapato
e o pneu do carro
tornaram
possível
a criação
do nosso
pequeno
precipício.


Felipe Andrade

quinta-feira, 3 de março de 2016

Passageiro


Já nasci escorrendo,
minguado,
gotejando esperança.
Cresci levado,
danei a correr,
cresceram meus braços,
suava fertilidade.
Amadureci imponente,
expansivo, dura corrente,
atravessei-te mulher
— minha terra.
Envelheci calmo,
sorrateiro como serpente,
carregado de passado,
para encontrar-te mar,
morte:
abraço permanente.

Jade Prata

quarta-feira, 2 de março de 2016

Pessimismo


Dor de dente,
Febre de
Catapora.
Nova escola
De manhã cedo.
E todo dia
E ainda o medo
E dever de casa,
Quando se quer brincar, e brincar.
Mãe a falar:
Come tudo!
Primeira espinha
Empregada de saia na cozinha
Banho longo
Cabelo na mão
Videogame no chão e
N’algum lugar
Uma Capitu a chamar.
Primeira frustração.
A filha-da-puta então...
De mim nem gostava!
Baseado e álcool,
E o perigo das substâncias
No primeiro dia de trote.
Uma morena de rebote,
Que outro talvez não quis
O pinto de capote
A deslizar feliz
E quando acaba
Logo o primeiro romance
“Dane-se; era uma meretriz”.
E sem grana no bolso
Ou álcool na garganta,
Toma o ônibus pro trabalho
E arruma alguns trocados.
Faculdade e meio-expediente
Falta de garota e todos os ingredientes,
Faz as malas e sai de casa
E vai pros bares bater asas,
Qual gaivota suja de petróleo.
Tranca matrícula e se perde
Um ano nos albergues
De novo as substâncias
E xoxotas que enchota
Logo no dia seguinte.
Sem dinheiro, mulher, ou futuro,
De casa bate à porta
E, os pais, cristãos que são,
Lembram Mateus 15.
Enfim a formatura
E um emprego numa fábrica
De gazes e ataduras.
Ótimo contador
Futuro promissor.
E aparece uma estagiária
Falante e de beleza
Muito pouco ordinária.
Um namoro e um noivado
E logo tudo se tem por arrumado.
A moça engravida
Então nova vida!
E dor de dente
E febre
De catapora
E espinha
Empregada na cozinha
E as substâncias e...
Um desastre de automóvel.
Um filho morto nos braços
Sepultamento e os números
Agora são todos baços.
A mulher não aguenta
E na loucura se afugenta.
(Os avós a chorar)
E mais trabalho
Pro tratamento pagar.
Depois ela melhora
E quando enfim chega
Essa aurora,
Súbito uma pergunta:
“Isso é tudo?”
Sim.
Isso é tudo
E isso não é tudo;
Pois isso dói

Afrânio Santiago

terça-feira, 1 de março de 2016

A gente não nasce pronto


A gente não nasce pronto,
a gente vai se fazendo
que ninguém nasce sabendo,
a vida vai ensinando.
Quando se apaga um verso,
o poeta escreve outro,
se uma voz emudece
a ideia permanece !
Pra não ser reiteração
a gente vai se fazendo
sem data de validade,
inventando e reinventando
um tempo, um lugar não pronto,
um passo, um caminho novo.
a gente é um fato inédito,
a mais nova edição!
A gente vai se fazendo
e fazemos uns aos outros,
por isso não se limita,
não se acalma, não fenece,
se um dia a ponte desaba,
resta a fé na própria vida!
A gente não nasce pronto
está   sempre  aprendendo ,
não é refém do que sabe,
quando aprende alguma coisa,
passa a ser uma coisa nova
e assim nunca envelhece,
pois do tempo a gente esquece!

Maria Lídia Moreira

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Pronome pessoal


Eu aqui
Tu aí
Ele lá
Nós dois naquele cantinho
Vós lendo este poema
E eles?

Juliana Margarete

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A marcha de Alberto


Alberto Silveira Braga, almirante quatro estrelas reformado, abria caminho com duas sacolas de compras entre o Gandhi, a Marilyn Monroe e o Saci Pererê. Corpos suados bailavam entre confetes e serpentinas, enquanto uma colorida bola de praia era estapeada pra lá e cá sobre o mar de cabeças. Um palhaço de circo passava em pernas-de-pau, uma fadinha purpurinada balançava um bambolê e homens travestidos de noivas, baianas e quengas tocavam instrumentos. Nem Lewis Carroll imaginaria tamanha lógica do absurdo materializada no mundo real; a vitória inquestionável da insanidade coletiva. Afinal, não se tratava de um pesadelo, nem muito menos o velho Braga estava alucinando ou ficando gagá. Era, sim, o carnaval do Rio de Janeiro. Período em que a cidade obtinha o alvará da vagabundagem para cinco dias de ininterrupta embriaguez, galhofa e sem-vergonhice.

O teu cabelo não nega mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega mulata
Mulata eu quero o teu amor

A marchinha resgatou na memória do almirante os bailes de gala do Teatro Municipal, ele e os amigos de escola naval vestindo fraques elegantes, as mulheres brilhando em fantasias de Cleópatra. Tempos de alegrias comedidas, sem drogas ou libertinagem. Mera fase de transição até a vida adulta, com uma esposa decorosa, obediente e, sobretudo, comprometida a criar futuros gênios da medicina, advocacia ou política. Doutores e senadores. Seus rebentos. “Os Braga, estes sim... cidadãos exemplares, modelo de estirpe, não há uma semente ruim entre eles, todos ajuizados e bem-sucedidos.”, diriam os colegas de farda, de Clube Naval, e, posteriormente, de seus seletos círculos de gabinete. Acreditou que tudo fluiria no automático quando casou-se com Marieta, e a sensação de dever cumprido o permitiu desfrutar dos anos seguintes, comandando corvetas pelo Rio Negro e São Francisco, escalando o mastro até a gávea para contemplar o horizonte.

Hoje, a simples troca de uma lâmpada lhe exigia um esforço sobre-humano.

O tempo, de fato, era uma amante inescrupulosa, dessas que nos tiram tudo e arruínam nossa vida. Sortudo havia sido o Heraldo, morto nos anos do “milagre” do Médici, muito antes de experimentar os dissabores dessa rotina sem apetite sexual, escrava da diabete, hipertensão e colesterol galopante.

Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata mulatinha meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor

Alberto sempre fora entusiasta da boa e velha ironia, mas essa, que o destino miserável lhe imputava, era demais até pra ele. Aquela mesma marchinha, criada por uma geração que sonhava com um Brasil progressista, agora era entoada por esses baitolas, larápios e imbecis, que deviam estar atrás das grades por perturbação da ordem pública. Como haviam se enganado! Anos e anos desperdiçados tentando limpar a merda desse país, para que, cedo ou tarde, os bueiros todos se abrissem e a podridão se instalasse como musgos sobre a terra. Que esgoto a céu aberto! Sentiu o rosto em chamas, uma fúria que lhe varria as vísceras, e bendisse sua sorte por não ter trazido o trinta e oito. Se tivesse, certamente esvaziaria o tambor para pôr fim àquele ultraje.

À sua frente, um sheik árabe com cara de nórdico chacoalhava o esqueleto com cerveja na mão. Alberto se deu conta de que o rapaz lembrava muito o Henrique: mesmo tipo franzino, cabelo loiro, olhar de palerma. Deu uma trombada violenta no moleque, que foi ao chão levando outros dois junto com ele, como num jogo de dominó.

- Qualé coroa!?

- Calma ai, meu senhor!

- É carnaval...

Seguiu em frente com um sorriso de canto de boca, num lampejo de satisfação ao interromper, mesmo que por um minuto, a farra daqueles pulhas. Já estava puto da vida por ter tido que sair na rua. Desde a morte de Marieta, adotara como prática fazer um estoque de comida e bebida antes dessa ode à estupidez chamada carnaval. Ficava trancafiado os cinco dias, distraindo-se com seus livros e telejornais, apenas ouvindo, a uma distancia segura, rumores da algazarra. Sempre dava certo e ele conseguia evitar o estresse, mas esse ano calculara mal a quantidade de vinho do porto, religioso acepipe antes de cada refeição. Não conseguia engolir uma garfada sequer sem antes entornar duas doses de Porto Quevedo. Ainda assim, decididamente, não tinha valido a pena pisar fora de casa.

Entrou e sobre a mesa da sala estava uma carta. Porteiro filho da puta! Já tinha advertido o Antônio, seu filho mais velho, que essa história do porteiro ter uma chave do apartamento era não apenas desnecessária, mas também imprudente. Embora ele nunca viajasse, nem mesmo dormisse fora de casa, os porteiros conheciam sua rotina e poderiam entrar quando ele não estivesse, pegar uma cerveja aqui, um gole do uísque ali, um bombom de licor acolá... Talvez aí estivesse a explicação porque seu Porto Quevedo acabara tão depressa dessa vez. Estranho, muito estranho... 

Aproximou-se da mesa e viu a palavra escrita no envelope: “Perdão”.

Paralisou. Sentiu como se mergulhasse num oceano em tempestade. Em segundos, um suor gelado, opressivo, escorria em gotículas por seu corpo, o coração palpitando como rufos de tambor.

Não foi a palavra em si que provocou aquela aterrorizante reação involuntária, mas sim a letra, a inconfundível letra de Henrique.

Hesitou por longos minutos. Caminhou com dificuldade até a cozinha, as pernas tremendo descontroladamente, e preparou uma dose cavalar de Jack Daniels. Agora, o vinho do porto simplesmente não daria conta. Raciocinava aos solavancos quando rasgou o envelope e começou a ler a carta. Não a terminou. No meio, deixou cair o copo de uísque, que se espatifou no assoalho.

Encarou o vazio por meia hora, neurônios em descompasso, até que o som da marchinha viesse resgata-lo das profundezas. Andou feito um zumbi até a cômoda da sala, tirou o trinta e oito da gaveta e saiu à varanda.

O bloco estava parado bem em frente ao seu prédio, oculto sob a copa das árvores.

Ó jardineira porque estás tão triste
Mas o que foi que te aconteceu
Foi a camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu

Engatilhou e disparou um tiro em cada direção, conscientemente, numa insanidade ordenada. Voltou para dentro, alheio aos gritos de desespero, e sentou-se na cadeira com o revolver no colo. O olhar, perdido no porta-retratos, buscou viajar no tempo. A foto: ele, de farda branca e quepe da Marinha, Marieta num vestido austero de dona de casa, Antônio com oito anos e o pequeno Henrique, com quatro, camisa do Botafogo, shorts e meião, o único que não olhava para a câmera, encarando de cenho franzido algo que apenas ele enxergava. Mais atrás, atracada na base naval de Aratu, via-se a Fragata Niterói, que Alberto estava prestes a comandar pela baía de Todos-os-Santos.

O porteiro e a polícia irromperiam porta adentro pouco depois, levando o velho almirante Braga para uma viagem sem volta.

No carnaval seguinte, o bloco da Rua do Catete levou dois mil foliões às ruas. Ninguém se lembrava do velho militar aposentado que morava no prédio da esquina, sujeito rabugento que vira e mexe arrumava briga com vizinhos e comerciantes. Nem ao menos se lembravam da história que dera cabo de sua vivência por ali e que na época inundara os jornais e tabloides sensacionalistas: o almirante descarregara um revolver da varanda, matando dois jovens fantasiados de Raul Seixas e Bob Marley, que acompanhavam o cortejo. Condenado a dez anos de prisão, foi negado o regime semiaberto, apesar das limitações da idade. A pena, contudo, foi encurtada pelo próprio almirante, habituado a comandar seu destino como se fossem navios de guerra, graças a uma navalha surrupiada para dentro do presídio pelo filho de um colega de farda. Um corte limpo na garganta e pronto, o fim da marcha do velho almirante Braga.

Ah sim, o surto na varanda supostamente se dera após a descoberta do suicídio de seu filho esquizofrênico. Mas disso também ninguém se lembrava, uma vez que a Terra já completava uma volta em torno do sol e os deuses da “embriaguez, galhofa e sem-vergonhice” nos traziam um novo carnaval.

Bruno Flores

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Passadas


Se a cada passo,
Um passo eu avanço,
E no avanço do passo,
Sempre aprendo,
Um novo passo.

Aprendendo um novo passo,
Passo passeando,
Passo passando meu passo,
Não.
Meu novo passo,
Que aprendi no avanço,
Do meu passo a passo.

João Carini

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Em turnê


TORRES
o baixista

tem
presença
de
palco

mas
não sabe
tocar

(...)

LOPES
o baterista

é
motivo
de
confusão

quando
resolve beber
antes
do
show

(...)

MAGALDI
o guitarrista

traçou a
linha
do
tempo

em
cada uma
de
suas
tatuagens

(...)

GOMES
o vocalista

quer
um
espelho
de corpo inteiro
no camarim

só pra ele

Fabio Ramos

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

manchas


ler no solavanco das sílabas
o sinônimo ausente
o vento
o tempo
o esquecimento

poema é manchar a página com silêncios

Salvador Passos

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Visitante


I
o olhar da pedra sobre mim
cansa
e
o sorriso da planta afloreia

o sol tá mais baixo agora
e
o silêncio silencia minha voz

o ar quente abafado transmuta
lentamente a direção
e
o correr da criança
encanta muito mais

o voo rasante do pássaro
prenuncia alguma coisa
que não sei o que é

e
a estrada de terra (chão batido)
traz direção ao sertanejo
que ainda sonha com a vida melhor

a tarde vai caindo vagarosamente
na intensão de uma bela noite
trazendo um pouco de suspiro

pois amanhã é um outro dia...


II

o olhar sinaliza a intensão
percorrendo minutos de distâncias
que não haja uma única forma
de substituir...

não há como reverter
nenhuma situação
e
a desistência é ainda é o único
caminho a ser seguido...

a vida é assim e pronto!
a vida é deste jeito e pronto!

a perspectiva de melhora se foi
junto com a seca do último mês,
a esperança de tudo passou
mediante a falta de água,

por aqui, a fome luta com a sede
pra ver quem ganha
e
é uma competição diária,

a cada dia que o sol renasce
renasce no sertanejo a tortura
e
o desespero,


a cada dia que o sol renasce
renasce no sertanejo a decepção
e
a intranquilidade,

mas todos tem uma única convicção
(talvez essa seja plena)
que tudo ainda está por piorar
cada vez mais...      

Anderson Bee

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O poeta


Tendo ido dormir tarde, acorda cedo....
Reles espectador, não ator da vida...
Exila-se em silencioso degredo
Só pra procurar a poesia perdida.

Cercado apenas de solidão e medo
Mantém sua rotina tão repetida
Como o mais imperscrutável segredo
Até mesmo das pessoas mais queridas!

Então resolve publicar seus versos
Talvez pensando que sua arte bendita
Faça eco em algum lugar do universo.

Recebe seu soldo em duro desdém.
Porém lá no fundo da sua alma aflita
Sabe que a poesia é sua... e de mais ninguém!

Felipe Macedo

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Máscara


Cara, mas ? -

Qual é a sua máscara?
máscara
mais cara
cara
nem sei qual é a minha máscara
cara a cara
a mais cara
?
?
? trago um cigarro
entreguo à quem pergunta
trago eu
-
-
máscara é caro
prefiro ser eu
máscara
e se ela te for cara?
cara, então, mascara.
mas porque seria bom
não ser eu?
?
?
-
-
as más
caras
se cobrem
e o outro mascarado
finge que não
percebeu

qual é cara?
sou cara bom
não mascaro o meu eu
se eu usar minha máscara cara
será daquele que não se rendeu
qual é a SUA máscara?
Hoje?
a de um cara que não cresceu
tem a de um sujeito que esqueceu
a do que sabe tudo
a do que não entendeu
a do sortudo
a do semi-Deus
e sem?
máscara?
Aí sou apenas
?
?
_
_
Eu.
o cara que se perdeu.


Legenda
        ? traga
        - Solta fumaça

Fernanda Medeiros

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Onde encontrar o PB #37


O Plástico Bolha 37, brinde à poesia agora - à exposição Poesia Agora, à poesia de agora, à poesia do agora - está rodando o Brasil.
Além de Tiradentes, Juiz de Fora, Belo Horizonte e vários pontos no Sul de Minas Gerais, chegamos aos pontos listados abaixo, no Rio de Janeiro:

UFRJ - Campus Praia Vermelha (Escola de Comunicação,
Livraria Universo, Contabilidade, Psicologia); Campus Centro (Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais)
UNIRIO - Campus Praia Vermelha (Faculdade de Letras)
Real Gabinete Português de Leitura
Biblioteca do Planetário
Biblioteca Vinicius de Moraes
Biblioteca municipal de botafogo
Livraria da Travessa Botafogo
Fundição Progresso
Fundação Calouste Gulbenkian
Letra Viva Livraria
Pop - Polo de Pensamento Contemporâneo
Cavídeo
Papel aos pedaços
Cinema Estação NET Botafogo
Espaço Move
Casa da Gávea
Bar do Pires


Caso você tenha buscado em algum desses pontos o Plástico Bolha #37 e não o tenha encontrado, informe-nos através do e-mail: contato@jornalplasticobolha.com.br

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Ô de casa


uma légua
e meia
de
pernada


vindo
de
acolá


com destino
ao além


(...)

na estrada
de terra

quando
passa
um
carro

sobe aquela
poeira
do
chão

é o olho
que
arde

a
garganta
que
fecha

se
não for
incomodar

água
do
filtro
de barro

na
caneca
de alumínio

aqui moço
(beba)

Fabio Ramos

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

O Suvaco do Bispo ou o Bispo do Suvaco — (samba por Nanico e Chacal)



Nesta terça-feira de carnaval, enquanto as cinzas não baixam, comemoremos nos embalos do Suvaco do Cristo! Viva quem é maluco o ano inteiro! Viva o Bispo do Rosário! Viva Chacal! Viva a poesia! Viva o Carnaval!


"te mando o samba que fizemos pro suvaco do cristo."
— Chacal, Ricardo

Minha nação suvaquense
Bora pintar e bordar
Dentro deste samba quente
Vamos homenagear o rei dos reis
Arthur Bispo do Rosário
No seu mundo imaginário
o universo recriou

Nos seus panôs e bricolages
Num duelo
Bispo deixa no chinelo
o Duchamp ou Andy Warhol

É o ano inteiro... Fevereiro
O samba ferve nos terreiros
E Bispo só em sua cela
Dá luz ao seu interior
E faz do lixo, do resto, do quase nada
Uma nave engalanada
Com ela subir aos céus

Bispo bordou
os seus mantos e estandartes
Com os fios da pura arte
Num hospício aterrador

Qual a cor do seu semblante? Azul
Veio de Japaratuba pro sul
Embarcou na nau errante
Ouviu vozes sussurrantes
Foi fazer seu inventário
De bichos, coisas e nomes
Em transe bordou!

paula beto chico rita
flávia zeca gil joão
neco léo luiz maria
rosa helena julião

prato prego pão e peixe
rede roda azul botão
galocha colher caneca
tico tico gavião

Sem choque ou internação
Pro Bispo ficar legal
Bispo é força nessa luta
antimanicomial

Chacal




 +


O carnaval
do Plástico Bolha
é o carnaval do Chacal
é o carnaval dos malucos
o carnaval antimanicomial
o carnaval do Suvaco
carnaval mais legal

Lucas Viriato





segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Poema de Matheus José Mineiro


[ . . . ]

um poema que oxigena o sangue
nascido do trabalho de parto das plantas

sedativo entorpecente alucinógeno
proteína que se nutre a cada dia
cilindro de oxigênio
no meio da massoterapia
e das lâminas da serralheria.

um labrador me espreita ao lado da cama                        
como um drone com fome focaliza o fêmur                                                                      
rosna
e só me aguarda despertar.

procuro um poema
que equilibre o fluxo energético do corpo

acupuntura erva medicinal                            
                        acasalamento de libélulas
                                                  e pessoas
poema que a nado borboleta atravesse a cachoeira
e o cano da escopeta                                                              



pois os maxilares dos hipopótamos e rinocerontes                                                            
estão sempre escancarados e voltados
para nossas tíbias e vértebras.

Matheus José Mineiro

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Mocinha


Após viúvos anos, Ieda anda afoita. É que o viço irrompeu seu ventre e empurrou fora o azedume do tempo. Expedito, que bate ponto na padaria e vive a cercar as meninas do posto, é quem está por trás de tanta euforia. Foi ele que desprendeu a renda que cobria a caixinha afetuosa de minha mulher. E o romance corre como o escapar dos dias.

Nem tudo, no entanto, vai bem, visto que há pouco o rapaz queixou-se de algo constrangedor para Ieda. A meu ver, uma reclamação incabível. Ela compreende, já sabia que o namorado era pouco provido, só esperava a ocasião em que ele diria, como fez, sentir-se desamparado dentro de tanta frouxidão. Contrário de mim.

Eu me ajustava com perícia à vasta vulva de Ieda. Fui eu que a fiz grande assim, nunca protestei. Aliás gostava era por demais de flanar lá dentro. Entrava integral e de lá saía só quando os dois estávamos derreados. O efeito de tanto gozo foi um fluxo de criaturinhas, que por um tempo conteve nossa disposição.

Já se deslocaram alguns anos daquele dia. Eu caminhava certo na direção do quarto, querendo a generosidade de Ieda quando um aperto sanguíneo confundiu meus sentidos e cegou minha vista até última e gutural exclamação. Tornei-me imaterial.

Ieda foi submissa à minha ausência por um honesto período, antes de seu facho chamejar outra vez. E esse fogo era possível ver em seu olho buliçoso. Ela gostava do amor, e o primeiro a perceber que aquela alma queria reza foi Expedito. O rapaz, apesar de desfavorecido, considerando as dimensões de Ieda, era animado, um desajuste pequeno não a inquietou.

No dia seguinte à queixa, Ieda decidiu adaptar-se ao par, custasse qualquer recurso. Procurou D. Alda Raizeira, que cometia garrafadas de todo tipo na região. A mulher entendeu o caso e aviou uma gloriosa lavagem pra uso corrente. Ieda agora se asseia diariamente com chá de casca de aroeira, pra ficar mocinha.

Nossos filhos ouviram boatos sobre a mãe estar com uma doença nas partes. Ela cuidou de tranquilizá-los, disse que os filhos-de-candinha da cidade adoram falar mal, e que aquela infusão fazia um bem enorme à circulação, sendo esse o motivo de seus banhos íntimos inclusive. No fundo, pouco se importou com o desassossego dos outros, queria mesmo era enredar-se no corpo novo do namorado, o qual por um tempo parou de reclamar porque a artimanha funcionava como um encanto.
Além de mim, ninguém havia conhecido antes o desejo de Ieda. Era um poço de fundura injusta para Expedito. Quando a aroeira já não cumpria a função, ele voltou a reclamar do préstimo de Ieda, que já não sabia como prosseguir afeiçoada a quem não conseguia mais agradar. Ela insistiu, pois assim é o amor desajustado, deixa uma das partes resistente a agravos, pronta para admitir sem desprezo múltiplas cusparadas da boca que venera. Me impressiona essa necessidade de ser feliz à força de qualquer artifício.

Semanas mais tarde, Ieda soube de uma cirurgia que deixava qualquer mulher novinha. A matéria de jornal explicava sobre traumas sofridos durante o parto, dizia coisas sobre o útero. Isso fazia muito sentido pra ela, que dera à luz seis filhos. Claro, só podia ser uma mulher traumatizada. Com uma cirurgia assim já resolveria dois problemas de uma vez, o trauma e a lassidão.

Cuidou para que a intervenção fosse marcada na capital. Tudo correria dentro dos conformes, em um único dia, sem espertar a curiosidade da vizinhança. Para os filhos, seria uma viagem rápida de comerciante.

Ieda passou de resguardo uma quarentena. Em grande expectativa. Expedito ficou dias sem aparecer, sabia o tempo exato em que ela seria liberada, e no fim desse período assomou a porta do quarto, impaciente, com a mão no pintainho, de olho comprido no regaço da velha; um moleque a cobiçar brinquedo novo. Ieda sentiu-se dulcineia, mesmo sabendo que o motivo da alegria estava rejuvenescido no meio de suas pernas.

O indivíduo se sentou na cama, amarrando-a em abraços entulhados, entre beijos ligeiros descalçou os sapatos e arrancou a roupa, depois estirou-se todo a fim de tomar o prometido, puxando o tronco de Ieda pra si, instante mesmo em que assoprei uma posição no ouvido dela, e ela escanchou-se como uma cavaleira, com a experiência que não tinha aos dezoito puxou macio sobre as pernas o tecido da camisola e quando já estava pronta o madraço enterrou sem comiseração. Ieda sentiu o tranco, mas a despeito disso, não rogou brandura, segurou as mãos do rapaz e, sem rédeas, pôs-se a galope.

Os dois se enviesaram na cama, pareciam medir forças. Num descontrole carnal, ela fez o que induzi e arqueou o corpo atirando-se pra trás. Ouviu-se então um barulho alto de madeira se partindo. Alarmado, sem cor nem volume, Expedito jogou de lado a mulher e quis escapar. Os dois encarnados de susto. Ele cambaleou, despenhando-se aos pés de Ieda. Segurava entre as mãos o pau pequeno, quebrado e cruento. O silvo do socorro soou na rua distante, mas isso cuidei também para que tardasse.

Aleksandro da Costa

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Sem título


Como escritor, aprende-se:
A abordar um editor
A abordar um agente literário.

Como escritor, viaja-se
A fim de divulgar seu trabalho.

Livre da agenda
Aquela que o prende
Lê e vive. 

Não pensa em títulos:
Escreve.

Hugo Pernet

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Epílogo I


Todos  estão  mortos  cavalos  estão  mortos  todos  os cavalos  estão  mortos não  é  um  título  é uma constatação de  que algo  está acontecendo  de  que  algo  está  por  acontecer   de que  todos os   cavalos  estão mortos e não  há  nada a ser feito senão a  constatação de  que  tudo está   acontecendo  neste  segundo neste  milésimo  de segundo neste  milésimo de milésimo  de  segundo  o que está  morto  está  morto e um cavalo  morto é um cavalo  atemporal tal  qual  o  nome  do   morto  vivo  sobre  o   limbo  da  lomba   sem valor para  o desenrolarda  história  mesmo  que esta tenha visto tanto  quanto o seu  líder  o seu pseudo  líder e ainda que  neste  segundo neste  milésimo de segundo  um  cavalo  atravesse  a  Avenida Rio Branco com suas duras patas sobre  o  cimento quente das ruas num Rio  seco de  verão  e  todos os olhos o  mirem  e  alguém o  fotografe  e alguém  o classifique  como  espécie rara  e faça um  poema então acreditarei que vai  sair no jornal  com certeza vai sair  no jornal  é melhor gravar o  que ele diz vai  que  escapa alguma coisa e  cavalo qual  é  o  teu  nome  eu   pergunto  cavalo como  tu  sobrevives eu  pergunto  cavalo  cavalo onde estão os outros  eu pergunto os  outros já não estão os outros  já  se foram há anos nós os cavalos fomos ameaçados  suplantados engolidos e  incorporados pela foto pelo esporte pelo carro pelo comercial de cigarros pelo  policial deslocado e  pelo título  mesmo que esse não  seja um título mas  sim  uma constatação de que  todos os cavalos  estão mortos e por ventura nós as  éguas ainda ilustramos o  exemplo da letra c sobre o quadro negro necessário  até  que  as   littles  crianças  da  sua  espécie  sejam  enfim   alfabetizadas  e  adestradas e podadas segundo as leis do estado e da ferradura e do cabresto  ou até mesmo que surja  uma outra  palavra dessas mais bonitas  e  concisas  como casa caqui   coitado  curvelo  crustáceo camelo cavaco canteiro casado  cruzeiro calado chaveiro cimento cemente centido ceção cessão cei não diz a  criança  olhando  as flores  sobre a janela  enquanto a professora  estressada  pergunta esticando o braço e essa essa ela diz  c com a ba  bavalo professora.


Felipe Andrade

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Destino: Barcelona


Desceu a rua, passou pelo museu, atravessou em direção à estação. Estava adiantada quase duas horas. Pediu um expresso no balcão do bar. Catou o celular na bolsa. Duas ligações de Olavo. Ele nunca a deixaria em paz? Trocaria o número assim que desembarcasse. Àquelas alturas já tinha lido a carta que ela deixara no quadro de recados da cozinha. Se bem o conhecia, estava dando murros nas paredes. Olavo não era violento. Não com ela. Mas tinha lá seus descontroles. Um homem possessivo que a enchia de mimos para comprar sua submissão. Antes do casamento, Maria Tereza tinha planos de publicar um livro de crônicas e investir na carreira jornalística, mas Olavo a convencera de que era um sonho sem futuro e por comodidade, ela cedeu. Agora estava decidida: queria retomar seus planos. E mais que tudo, queria distância de Olavo. E Luiz Antônio que não chegava? Era cedo ainda. Faltava uma hora para o último trem e o trânsito estava calmo. Buscou no celular a foto dele, clicada no último encontro. Sorria. Ela retribuiu como se ele a pudesse ver. Tudo a encantava naquele homem: o jeito pausado de falar, o meio tom da voz, a elegância, a discrição; o humor sempre pronto a fazê-la gargalhar.  Amante intenso, ele dedilhava sua pele com a maestria de quem conhecia todos os caminhos. Nenhum outro a fizera experimentar tal plenitude. Foi por acaso que se conheceram numa livraria-café na Porta do Sol.  Ela folheava um livro de Juan Ramón Gimenes e ele, gentil, aconselhou-a que levasse. Assim começaram uma conversa sobre outros autores. Foi para casa pensando nele. Voltou lá no outro dia. Sentaram na mesma mesa. Naquele e em todos os outros dias daquela primavera. Depois vieram os encontros no apartamento de um amigo dele na Calle de las Huertas. Luiz Antônio tinha uma esposa de quem quase nunca falava a não ser para deixar claro que o casamento já afundara fazia tempos. Amor mesmo, só por ela, Maria Tereza. Ela nada perguntava. Mas falava de Olavo, se queixava. Ele ouvia calado e depois a abraçava com ternura espantando os fantasmas daquele quarto emprestado. A ideia de começarem uma vida juntos partira dele. No começo Maria Tereza teve medo. Depois teve dúvidas. E logo veio a certeza de que ele era o único homem com quem queria estar.  A vida ao seu lado seria bem diferente daquela que levava com Olavo. Olhou o relógio da estação. Faltava ainda meia hora. Saiu. Abriu a bolsa, apanhou o espelho, limpou o excesso de batom. Acendeu um cigarro. E esperou. Vinte minutos. Luiz Antônio Já deveria ter chegado. Vai ver teve problemas no trabalho, era seu último dia na redação. Correu os olhos pela rua. Nada! Sete minutos. Não. Ele não vinha. Aquele trem tão esperado partiria sem eles. Não a amava. Devia estar em casa com a família, o mundinho perfeito onde todas as coisas se encaixavam. E ela ali, tentando evitar uma lágrima teimosa. Era o fim. E sequer tinha para onde ir. Jamais voltaria para Olavo e aquela vida sem brilho. Apagou o cigarro com a ponta da bota. Correu para a saída. Precisava de algum lugar seguro para chorar. Nada mais fazia sentido. A multidão se aglomerava à porta da estação para fugir da chuva. E antes que pudesse ultrapassa-la, alguém a segurou pelo braço. Voltou-se assustada tentando se livrar.

Ele sorriu.

Ela tremeu.

E o alto-falante anunciou a última chamada para o trem.

Destino: Barcelona.  

Marga Cendón

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O jogo da imitação


O macaco faz sinais
e o humano não entende
o polegar direito do macaco se une ao indicador
e dá meia volta num sentido horário
enquanto a mão esquerda se afasta de si
com todos os dedos esticados
e a palma apontada para o humano
O humano pensa é um jogo
e sorri e consente e acena
se sente privilegiado, se sente escolhido
e coloca sua mão esquerda sobre a cabeça
e com a direita retira seu chapéu imaginário
O macaco nega e faz outros sinais
aponta para a perna do humano
o humano olha para sua própria perna
põe uma mão no bolso
o macaco faz um movimento com a cabeça para cima e para baixo
o humano aponta para a perna do macaco
e faz um movimento afirmativo com todo o corpo
O macaco leva as duas mãos a cabeça
parece dizer de-ses-pe-ra-da-men-te
com os olhos voltados para o alto de sua cabeça
depois repete todos os gestos pausada-mente
O humano acha graça,
gira seu corpo para esquerda
gira seu corpo para direita
e segue para a jaula dos leões
O macaco não pode fazer nada
voltou para o fundo do cenário
e não se moveu mais.

Ellen Maria Vasconcellos