sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Diário de bordo, de Suzane dos Santos Moutta — Menção Honrosa de Prosa no IX Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia


Dia 7

Faz sete dias que estamos aqui. Meu sogro falou hoje para descansarmos. De fato, eu especialmente cansada e já ficando enjoada. Começou a chover há alguns minutos. Não estou acostumada a essa rotina diferente aqui dentro. Mas estamos todos bem.

Dia 19

Acordei à noite e estava chovendo. Cheguei perto da janela. Estava muito bonito. Mas estava muito escuro e não dava para ver quase nada. Só o cuidado e a proteção. Se eu tivesse visto talvez sentisse medo.

Dia 32

Minha sogra hoje fez um cozido de cordeiro muito gostoso. Acho que ela entornou um pouco de tempero, mas ficou com mais gosto de comida. Todos aqui pareceram gostar especialmente da refeição. Estamos comendo comidas várias, mas o tempero é sempre parecido. Dessa vez teve uma diferença boa.

Agora eu enjoada. Acho que o tempero foi demais para o balanço. Vou me deitar um pouco lá em cima e ver se meu sogro pode abrir um pouco a janela, para refrescar e não ficar com muito cheiro de betume. É capaz de ele abrir e tapar, para o vento não me fazer mal. Ele é um homem muito bom. 

Dia 33

Acordei desde ontem quando dormi perto da janela. Muito mais disposta. E lá fora está ficando diferente. Eu não consigo ver as montanhas que tem perto de casa, nem as que tem perto do curral. Devemos estar longe. Só a que fica atrás da casa de minha mãe eu vejo.

Dia 47

Agora é noite eu perdi o sono. Subi para pegar uma pena para escrever e vi que parou de chover. Vi também meus sogros, que estavam na janela adorando O Eterno. Foi uma cena muito linda, os dois juntos na janela, contemplando o céu claro de estrelas e orando ao Criador. Deu vontade de chorar. Mas aí antes que eu chorasse a mulher de meu cunhado mais velho apareceu. Estou no período de ciclo e estou com dores, minha irmã, disse. Ajudei a pegar mel para ela, que estava guardado no alto. Ela ficou muito feliz e agradeceu. Conversamos um pouco e logo apareceram nossos maridos, que deram falta de nós, e ficamos vendo meus sogros. Quando eles desceram, assustaram-se com todos nós acordados e acharam que não estávamos bem, mas era só a mulher de meu cunhado mais velho. Meus pais, falei, como eram lindos lá na janela! Minha sogra sorriu de forma especial pra mim. Meus sogros são bons, diferentes dos demais. A terra estava corrupta e cheia de violência.

Dia 62

Hoje uma vaca berrou por várias horas seguidas. Fiquei com a cabeça tonta. Agora ela está mais calma, mas também meu cunhado mais moço está cuidando bem dela. A mulher dele não gosta de como ele fica cuidando tão bem da vaca e é bravo às vezes com ela.

Dia 87

Meu sogro teve vômito ontem à noite. Ficamos preocupados, mas era claro que ele logo ficaria bem. Minha sogra descobriu uma massa meio passada que ele tinha comido. Mas aí ninguém mais comeu e ele ficou bom também. Umas frutas e um pouco de vinho e ele se recuperou. Graças ao Eterno! Já está até tosquiando os carneiros e ovelhas.

Dia 115

Eu gosto dos macacos. Eles são cheios de energia. Dão um pouco de trabalho, as mulheres de meus cunhados não gostam. Mas eu acho que são muito legais de se olhar.

Dia 137

Hoje eu fiquei perto da janela porque senti enjoo e vi galhos e restos flutuando. Nenhum monte ainda. Acho que está tudo coberto. Fiquei lembrando de quando entramos aqui, lá fora estava tudo seco e querendo morrer. Os casais vindo de dois para meu sogro, e todos entrando exatamente como O Criador quis. A lista estava completa. Muita alegria! Meus pais não acreditaram nas palavras do Senhor. Eles até riram do meu sogro, implicaram comigo por ter me casado com meu marido e vir com eles agora. Fiquei muito triste quando lembrei deles e gostaria muito que a cabeça deles tivesse sido diferente.

Dia 163

Tenho falta do sol. Apesar de ser muito sol lá perto de casa e eu reclamar constantemente disso, descobri aqui dentro que eu gosto do sol e tenho falta dele. Não vejo a hora de voltar. A pele do meu rosto está pálida como a do meu corpo, mas eu vou ficar muito corada quando estiver tudo pronto. Também vou poder colocar as roupas estendidas ao sol, que secam mais rápido. Vai ser tão bom sentir o quentinho da luz em minha pele de novo!

Dia 197

Começou a ventar muito. Ainda bem que aqui dentro estamos protegidos.

Dia 214

Meu sogro começou a contar histórias hoje de quando ele era criança. Estávamos todos sentados juntos após a refeição e ele começou uma maratona que foi da infância dele até quando conheceu minha sogra e casou-se. Aí falou de quando os meninos eram pequenos. Meu marido era muito bagunceiro. Ele uma vez derramou todo o leite que meu sogro havia tirado da vaca nas pernas, ainda quente. Começou a chorar e minha sogra correu e o levou para a bacia com água fria. Meu sogro falou, mas eu tinha colocado no alto. Só que ele subiu no banco e virou o leite nele. Demorou um pouco para a queimadura sair toda. Aí eu entendi por que ele tem tanto medo até hoje de coisa muito quente. Ele gosta de esperar a comida esfriar antes de comer quando é sopa. E eu entendi por quê.

Dia 230

Hoje meu sogro chamou todos nós para vermos algo na janela: os cumes de montanhas!
Sei que estamos parados, mas será que estamos perto de casa novamente?

Dia 251

É incrível como nenhum animal morreu nesse tempo todo aqui dentro. Acho que estão sendo muito bem cuidados.
Meu marido hoje disse que vai plantar uma vinha com o pai dele quando chegarmos de volta. Mas eu acho que meu sogro vai fazer tudo sozinho. Meu marido não leva jeito com plantação. O negócio dele é tratar de animal e também caçar. Aí eu cozinho bem as carnes, porque estou costumada.

Dia 270

Hoje meu sogro acordou pensando que talvez fosse hora. Eu também acordei pensando nisso. Mas ele quis ver e então pegou um corvo e o soltou na janela. O corvo voou e logo voltou. Não devia ter onde ele pousar. Aí meu sogro soltou uma pomba, porque ele queria mesmo ter certeza. E a pomba voltou logo também.

Dia 277

Meu sogro soltou a pomba de novo hoje e ela voltou. Mas voltou só à tardinha e trouxe uma folhinha de oliveira no bico. Meu sogro a recolheu e guardou segura aqui dentro.
Havia árvores, mas ainda não deveríamos sair.

Dia 284

Mais uma vez meu sogro soltou a pomba na janela. Agora é a hora décima e ela não voltou. Vamos esperar.

Dia 287

De fato, a pomba não voltou. Quer dizer que encontrou um lugar para repousar! Mas meu sogro disse que nós ainda não podemos sair, as pessoas. Devemos esperar mais, até que o Criador lhe mostre. Então esperaremos.

Dia 302

A mulher de meu cunhado mais moço passa mal do ventre. Estamos muito preocupados, mas eu confiante de que logo ficará bem. Nós recebemos muito cuidado aqui dentro. Minha sogra também cuida dela. Coma uma maçã, minha filha, ela diz, e dá um fruto à nora. Todos aqui são bons e justos.

Hoje acabamos de arrumar nossos pertences que nós não vamos mais usar. As roupas e mantimentos estão acabando. Certamente chegaremos muito em breve!

Dia 319

Tudo está ficando pronto! Tudo está quase pronto! Meu sogro descobriu-nos e pudemos ver a terra, que está linda!

Dia 343

Mal posso esperar para sairmos! Todos nós não podemos. Estamos alegres e emocionados, esperançosos sobre como tudo será novo. Estamos também aproveitando nossos últimos dias aqui.

Dia 376

Agora, sim! Tudo está pronto! Rendamos graças ao Altíssimo!

Saímos hoje e meu sogro ofereceu uma oferta ao Senhor e ofereceu um animal e uma ave de todas as espécies limpas. E O Senhor falou com Ele. Apareceu depois no céu um lindo arco, com muitas cores brilhantes! Foi lindo!

Tudo, na verdade, está lindo, novo, perfeito. Não há nada que não seja novo debaixo do sol.

Suzane dos Santos Moutta

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