quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Dunas de certo, de Igor Lima Crespo — Menção Honrosa de Prosa no IX Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia


Eu nem queria escrever isso. Aqui estou. Talvez você nem quisesse estar aqui. Idem. Eu realmente não vejo muito sentido nisso, um conjunto desconexo de símbolos criados por um bando de loucos em algum lugar perdido no espaço e no tempo. Sabe, realmente acho isso uma grande perda de tempo. Eu não vou mais falar dessas baboseiras da mente. Você veio aqui por uma história. Bom, eu não tenho uma, mesmo assim, toma.

A criança, munida com uma faca que media mais do que um graveto e menos do que uma baguete, vagava sozinha pelo deserto laranja. Mancando, ela subiu até o topo de uma duna bem alta e olhou o horizonte que seus olhos míopes alcançavam: antes do borrão, uma lagoa linda, de água azul escuro refrescante e sedento. Mas a água ainda não era real.

A criança olhou para trás e constatou o óbvio.

Estava só.  

Resolveu não esperar mais por adulto nenhum; agora não seria diferente. Mancando, deu um passo à frente – e para baixo. Já havia ouvido algo sobre quedas, mas não entendia porque doía tanto. Seria a surpresa? O inesperado esperava-a, garoto, e ria dela. Todos seus ossos sentiram o impacto, e depois mais mil quedas. Só parou quando atingiu o fundo que, no fundo, era só mais baixo que o topo. Admirada, a criança se levantou, a câmera – como a imaginava, mesmo nunca tendo visto ou ouvido uma – a observava de baixo, a engrandecia, a plateia atenta aos feitos da protagonista. “Um passo de cada vez”, pensou baixinho para não ouvirem. E finalmente chegou. 

O lago parecia tão bonito de longe... O que acontecera? Teria ele ficado mais velho? Ou a criança demorou tanto que ele cansou, perdeu sua juventude e com ela, sua beleza? Mas o reflexo não mentia: a criança ainda era criança, mas já havia passado tempo desde o início de sua jornada. O reflexo mentia? E começou a entrar no lago. Desde mais novo, o infante temia lagos, não agora – será mesmo? Agora reside o presente; e é ele que pode falar sobre si mesmo, sobre todos. O infante, primeiro, sentia água até o início da canela, depois até o joelho, e assim por diante. No meio do lago, o infante sentou – não era tão fundo quanto pensava – e com os braços abraçando as pernas parou de mancar um instante e pensou tão fundo que dormiu em suas lágrimas. 

Quando acordou, Noite. Ela faz aqueles incapazes de dormir sonhar e os de sonhar dormir. Agora, o infante sangrava e suas pernas estavam vermelhas, não por muito, porque o sangue se espalha na água. Olhou para o céu estrelado e as estrelas, longe, não podiam ser escutadas. Olhou ao redor, com apenas o frio da noite o sibilando, e entendeu. 

Só estava.

Seus cabelos longos e castanhos escondiam seu rosto; mas de quem? Resolveu tomar uma atitude e se levantou, bem no meio da Lua. Saiu do lago e subiu a duna logo à frente. Do alto, sentiu o calor escaldante do Sol, provavelmente escondido até pouco atrás da duna, agora abaixo de si. Seus olhos queimaram – e nem por isso ficaram menos míopes. Olhou para baixo. E deu um passo avante rumo à morte. Essa duna era maior do que qualquer outra e não há volta depois dessa queda. Lembrou do adulto de cabelo curto dono da faca e ficou com ódio. Ódio dele. Ódio de si. Dizem ser impossível errar o chão quando embaixo de nosso ego. 

Não é verdade. 

Errou o chão. E voou. Voou tão alto quanto as nuvens, já conhecedoras experientes da arte de errar o chão. E continuou assim por horas até escurecer. Quando as estrelas chegaram e começaram a conversar, perdeu solidez nos pés e parou de voar. As asas sempre morrem ao ouvir “não pode”. 

Caiu em câmera lenta, com o público já impaciente – a pipoca acabara em dez minutos. Seu grito ensurdecedor foi tão exagerado que ensurdeceu seus ouvidos; e parou de ouvir o berro, gradativamente mais mudo. Em um último momento, parou de cair para refletir um pouco. Fez uma lista dos prós e dos contras. Concluiu a queda ser realmente desnecessária e os pés fincaram raízes novamente no topo da duna. O Sol voltara e a faca estava ali. Olhou pelo reflexo o rosto da criança travestida de infante. Seus olhos – dolorosamente – encararam os olhos da figura animalesca parecida com homem. As íris de um refletiam infinitamente as íris do outro e criavam um jogo bonito e macabro.

Diálogo de submissão mútua. 

Um corpo de criança representa a encarnação da mentira ou do oculto? 

O adulto estava em pé ao seu lado. “Faça”. Por um instante, pensou em acatar a ordem. Por outro, acatou pensar sobre ela. “Não!”. Como se fosse fácil dizer não a um adulto. Do alto de seus metros de gigante, o Sol escondia a face cruel do agressor e a roupa feita de sombras tentava ocultar os gestos, tão óbvios. Se a criança não tivesse visto aqueles movimentos antes, talvez fosse tarde. As mãos tiravam o cinto e se preparavam para realizar ato bárbaro. A boca da criança já sangrava só de lembrar, porém conseguiu posicionar a câmera imaginária bem atrás do que a escondia por estar na frente. As poucas pessoas ainda vendo o filme – a maioria estava comprando mais pipoca, em uma fila inteligentemente arquitetada para só fazer sentido quando todos se revoltassem com a demora – ficaram horrorizadas com a cena e saíram da sala pedindo o ingresso de volta. Ao verem a fila, entraram esperando chegar ao gerente, no final se mostrando mais pipoca do que gerente e mais cara do que gostosa. O gerente, ironicamente, entrou na sala vazia e ficou vendo o filme sem pipoca nenhuma, as barras de chocolate deliciosamente hábeis em tirar a atenção da violência exagerada mostrada na tela – por isso ele não se incomodou em ficar para ver como se desenrolaria a história. 

A criança toda suja com sangue tentava fugir. Inutilmente. Uma mão grande pegou o cabelo e uma maior ainda pegou a faca. O cabelo era longo demais para fugir e não conseguiu evitar ser partido, reduzido a uma mera cuia mal feita, com fiapos de cerâmica, ainda com a sensação de ter aquela parte faltante, um membro ainda preso ao dorso. Os fios eram iluminados pelo Sol, caíam em câmera lenta. A criança começou a chorar. “Por quê? POR QUÊ!?”. 

Todos se perguntam isso. 

O adulto pareceu satisfeito e foi embora, sabe-se lá por quanto. A criança estava mais uma vez sozinha naquele deserto laranja. Olhou para baixo e foi rolando, os grãos de areia entrando nas feridas e fazendo novas. Se arrastando, foi de pouco a pouco até o lago. Projetou a cabeça de encontro à água, tanto para beber, quanto para lavar o rosto. Entretanto, entre tantas caras possíveis, achou justo a sua. Mais uma vez entrou em um vórtex etéreo sincronizado de olhares profundamente vazios. Infelizmente, não se apaixonou pelo que viu. A imagem era muito diferente do esperado; da última vez, pelo menos, mantinha seus cabelos compridos e sedosos. Perdê-los foi a gota d’água. Curioso ser justo a falta de água a causa de sua morte. Antes, no entanto, tentou de tudo quanto foi jeito trilhar um caminho salvador, uma teia para sair daquele inferno. Nenhum fio veio, seus cabelos ainda incompletos. Estava deitado, em sensação de verticalidade, ponta-cabeça, coroa de espinhos, sangue borrando o perto da vista, o longe já míope incontornável. O reflexo dizia muito sobre o adulto-sombra, pouquíssimo sobre si. Qual era seu nome? Qual? Não via sentido em destino tão cruel. Caminhava manco desde o nascimento. Observava desde sempre os outros caminharem normalmente – para longe. Só aquele patife gigante o seguira até o deserto. Mais ninguém, nenhum bom samaritano, nenhuma alma perdida. Era quase como se tivesse construído aquilo tudo grão por grão. Não. Não era Deus. Era apenas alguém Sem Nome. Entendeu no resquício derradeiro de vida toda sua jornada, sua queda heroica. 

Só estava só. 

As luzes do cinema acenderam. Não tinha cena pós-créditos. O gerente pulou da cadeira, quase tendo um ataque cardíaco – já era meia-noite, hora de ir para casa, deitar ao lado da esposa e ver mais um filme qualquer. 

Igor Lima Crespo

Nenhum comentário: