quarta-feira, 2 de abril de 2025

Um poema de Paulo D'Auria


a palavra é exata
e vã
a palavra é sagrada
e pagã
palavra é mulher
e homem
criança
e anciã


Paulo D'Auria

terça-feira, 1 de abril de 2025

1° de abril


Não sei de ontem,
ainda não tinha nascido.
Nasço todo dia de hoje,
mas ontem rebrota na  memória,
pequeno cacto sobre escombros.
Querem tirar o cacto,
fantasiá-lo e dizer que é margarida.
— Não! O cacto é real,
e está aqui,
memória viva que fere hoje:

— golpe!


Jade Prata

Vers de Circonstance


I. imunidade de rebanho


A estupidez é sua própria recompensa.
Graças a ela, o mundo faz sentido,
um só, que é fácil de identificar.
E só o fácil satisfaz a quem não pensa.

Pensar é coisa trabalhosa. A ignorância
é o sumo bem dos cidadãos de bem,
é a verdadeira marca dos eleitos.
Ter sucesso é não ter que saber. Saber cansa,

e o objetivo central de qualquer existência
só pode ser não se cansar. Olhai
as vacas do campo: não lhes faz falta a ciência,

pastam em plena bem-aventurança,
sem que nenhuma antevisão do matadouro
perturbe a santa paz da ruminança.

II. Zeitgeist


Se te falta competência 
pra amar, mas queres na vida 
o condimento da paixão, 
resta uma saída. 
 
Pra quem nos duros embates 
do amor jamais subiu ao pódio, 
há um prémio de consolação 
bem fácil: o ódio. 
 
O ódio dispensa a razão 
e seus meandros sutilíssimos, 
a lógica, a estética, a ética; 
só requer o fígado. 
 
O ódio leva a emoção 
a seu mais extremo ápice 
sem amante e sem amigo: 
basta-lhe um cúmplice. 
 
Abraça com força teu ódio, 
faz dele um belo romance. 
Eis uma vera paixão 
a teu alcance. 


Paulo Henriques Britto