quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Bicho papão


Pegue, abuse, deseje. Deseje mais um pouco, inspire, lembre-se de respirar. Sinta, mas com muita vontade de se apegar. Uma receita simples. Alguns se arriscam a dizer que até mesmo deplorável, e o que o homem pode dizer no quesito sentir? E pensava repetidamente na vontade louca de tocar e sentir. Pareciam tão antagônicos para mim a essas alturas. Não posso dizer com 100% de certeza, mas respirava esse ar de maré vazia e debruçava meu corpo numa posição dos primórdios do meu ser, a posição fetal. Sentia-me um dos milhões de grãos de areia na praia, mas definitivamente não me sentia como as ondas que iam e vinham.

Havia chegado àquele lugar ainda cedo, as horas se aproximavam das 9 da manhã. O canto dos pássaros ainda ecoava por algum lugar ao redor. Um feriado. Deveria gostar, porém, essa sensação de monotonia se mostrara oposto ao meu ser. O que fazer? Pensava eu inconformado.

Observava como um estudioso os corpos que naquela praia desfrutavam o que a sociedade autodenominou de feriado. Uma espécie de banho de sol para quem passava seis dias da semana encarcerado em qualquer que seja o seu papel social.  Eu? Me perguntava:  E eu? Nessa altura, sequer sabia onde esse pronome se encaixava no jogo do bicho. Tentava nesse exato momento surripiar o máximo de sol possível das peles das pessoas. Posso com isso me auto intitular de patético, ou ainda, me autodescrever como solitário. Nesse exato momento, estava deitado sobre a areia analisando os encontros familiares de forma ávida. Corpos, e mais corpos. Corpos maiores, corpos menores, corpos genéricos de feminino e masculinos. Eram diferentes corpos bronzeados.

Encarava intensamente, nesse instante, a sombra ensolarada dos coqueiros. E assim como os corpos, em algum momento, a desejava. Mas, insistia em me autoflagelar. Estava me punido por não aproveitar meu único dia de banho de luz por semanas. Sentia-me como um viciado querendo ser tocado pelas mãos do sol, ansiando pelo abraço da areia. E encarava profundamente minha necessidade de afeto, como copos d’água. Por isso, agora fechava os olhos e pensava no som das ondas. Pegue, sinta, respire, deseje, relaxe, goze, sinta mais uma vez, cobice, queira, amor? Fogo, água, suor, transpiração, o toque. Era minha programação. Estava estranhamente programado para a afetividade de querer e ser querido, tocar e ser tocado, devorar e ser devorado, amar e ser amado. Estava numa sensação de suspensão de atividades, mas não de pensamentos.

A maré enchia, e vazava, enchia e vazava. Imaginava nesse momento que talvez fosse um livro de capa dura que ninguém quisesse ler. E, nesse momento, fazia reflexões sobre o passado, o contínuo do contínuo, do contínuo do amanhã. E como no amanhã iria vender minha alma, e não só minha alma, como também minhas ações. Pensava que se vender ao diabo talvez fosse melhor do que se vender aos homens. E nessa mistura horrenda de pesadelos da vida real que assombra qualquer homem moderno, fui levado por aquelas ondas do invisível. Imaginava agora mais uma vez os corpos nada dóceis, enquadrados em pedaços mórbidos de panos. Visualizando peças íntimas. Todos escondiam o que todos podiam em algum momento ver. Eram corpos de sonhos e vergonhas sem sentido. Eram copos d’água vazios.

...

Eu, nesse momento me encontrava sendo cobiçado e não mais cobiçando. A presa no lugar do caçador. Fêmeas me encaravam, e como justificativa estava o fato de devolver esse apetite de curiosidade. E não só devoravam meus olhos. Devoravam minhas pernas, braços, tronco e falo.  Machos, que se diziam machos, mas seu instinto animal e fome, também me devoravam. Encontrava-me jogado aos leões. Estava próximo das 4 horas da tarde, e a ansiedade corroia por detrás dos meus pensamentos afogados.

Os machos daquele lugar eram animais muito ousados. E não pensem que era espécie diferente das fêmeas. Eramda mesma espécie, mas com desejos divergentes. Os machos transmitiam uma ferocidade de dominação. E por falar em dominação, o interessante de dominar, não é o fato de subjugar o outro, mas de se sentir soberano entre outros machos. Alguns machos não querem devorar somente a pele, querem sentir o prazer de encurralar a presa. E agora essa presa era eu. Ou era o contrário, mas logicamente quando se ouve o elogio mais constrangedor do mercado:

-Belas pernas.

Esse instinto de querer devorar se dispersa, dando espaço ao ciclo de vingança dos Tupinambás: mesmo sendo devorado, os meus irão vingar-me.Nessas alturas, quem seriam os meus? Estava eu só, só num feriado, tentando ser querido pelo sol e aparentemente pelos meus iguais.Contudo, o fato de não me deixar abater, me tornara o animal mais respeitoso naquele reino feroz. Não queriam me devorar porque me parecia com uma presa, mas sim porque queriam o prazer de saciar sua fome e saciar seus desejos. Esse ato foi nomeado pelos brancos de canibalismo.

Ao tentar entender o mecanismo de funcionamento do canibalismo, fez com que me sentisse o gentio menos importante da redondeza. O que me levou a ignorar a vozdesse caçador. Porém, as fêmeas caçavam de uma forma diferente. Essas fêmeas eram silenciosas. Eram as leoas mais perigosas do reino animal. Elas tentavam me abocanhar na cruzada de suas pernas. E eram bocas extremamente perigosas! Não existia profundidade para seu apetite. Assim como eu, elas eram antropofágicas de sentimentos.Tinham um apetite tão afetivo que procuravam por meio da antropofagia, a procriação. E, por esse apetite elas se utilizam das artimanhas mais sórdidas possíveis, como: o aroma, a pintura, o olhar. São as caçadoras mais eximes que já tinha visto. Desse modo, agora estava exausto do ato de fugir por essas selvas psicológicas.Então,também as ignorava.

O sol agora se afastava do seu cume. E nos acalentava com doces lágrimas de adeus. Corpos, corpos nada dóceis se despediam.E o desejo, vontade, querer não querendo, afago, o toque, aqui ficava. Eu era um antropofagistade afeto. Um devorador de sentimentos. Devorava os sentimentos para eles nunca morrerem, mas que se sentia acuado quando a presa demonstrava a mim, seu interesse pela minha carne para simplesmente matar sua fome. E nesse jogo de pensamento o meu primeiro caçador decidiu insistir:

- Belas pernas.

O pensamento ainda astuto se mantinha, e como resultado o corpo se mantinha indiferente exigindo a fuga como resposta. Tentava me afastar fisicamente daquele macho. O que o meu pensamento não contava era com o ditado que diz: “Quem cala consente”.

As lágrimas de despedida do sol eram muito mais frias que as minhas. E o toque da areia muito mais enfermo que o meu. Fui debruçado abruptamente sobre a areia, as ondas nesse momento, eram minhas testemunhas. Não havia percebido a estatura do meu caçador. Homem de aproximadamente 1,90m, com seus 90 kg bem torneados. Seu hálito alcoólico, sua barba por fazer e sua sunga branca cheia por prazer, sua pele que almejou o sol tanto quanto a minha pele, um canibal nato, um antropólogo branco inexperiente, um animal de aparentemente 26 anos. Com grandes e profundos olhos famintos.

A mente gritava como meu corpo. Em instantes estava despido de uma forma dolorida. O pensamento de caos me atravessava, sentia-me dolorido, envergonhado, confundia essa vergonha com a culpa de me deixar ser violado. Arfava contra vontade, a consciência se pareceu turva. O corpo não deixava de lutar, quando seu músculo rígido, forçosamente adentrou por entre minhas entranhas no mais íntimo do ego. A dor atravessava por entre minhas pernas, a dor atravessa por entre o meu eu, um eu que não mais importava uma singularidade, que não mais interessava a vida e nem a ninguém. Acreditei nesse momento rogar intensamente a Deus uma súplica de ajuda. Um Deus que não me atendeu, nem rogou por mim.Quando meus pensamentos atravessavam as minhas lágrimas e gemidos doloridos: O antropofágico de afetivo vira presa do antropólogo canibal; corposchoram, sentem e são violados. Quando fui preenchido em meio ao vazio.

...

O tempo não mais passava. Só havia a sonoridade das ondas e o respirar pesado do meu caçador. O ar pesava sobre nossos corpos, ou melhor, sobre o corpo dele e sobre mim um copo d’água vazio. Seu membro agora flácido se recolhia do aconchego do meu eu. E num movimento relativamente rápido, se lançou ao lado, arfando de cansaço, resolvendo depois de instantes, acomodar-se melhor e sentar-se de frente ao meu corpo, que estava parado e estaticamente tremulo.

O meu caçador agora estava aliviado. E agradecia aos deuses por seu desejo saciado. Quanto a mim? Envergonhado tateava o estrago que fora feito ao meu ego. Via nesse momento em minha mão uma mistura de líquidos, o esperma, o sangue e sentia a dor de estar vazio. Quando meu caçador pouco a pouco recobrara o mínimo de sanidade. Ele me encarava como se desejasse garantir o estrago. De repente, pude adivinhar o que nesse exato momento passava pela sua mente, pelo seu olhar malicioso.  Meu caçador me analisava: homem negro, ou será um adolescente com ascendência indígena? Aparentava ter 15 anos, ainda possuía o olhar de pureza e aquele ar de ousadia, deveria ter seus 1,64 m e pesar uns 61 kg. De fato esse era eu. Morava próximo àquela praia e por ter crescido naquela região, os meus pais não tinham medo de deixar-me ir à praia só.

Meu caçador demonstrava uma camaradagem de só quem é conterrâneo pode sentir. Só quem mora no mesmo país, estado, cidade e vizinhança podem sentir. Aquele macho era um amicíssimo de minha então intitulada família, era o irmão que minha mãenão tinha, ele agora era o que a racionalidade jamais deveria expressar. Ele demonstrava uma felicidade de criança pura por detrás daquele sorriso torto. Era um desejo que existia hámuito tempo e foi reprimido, era uma fome subversiva, era a vontade de quem estava cheio e queria muito mais, era a gula.

Estava petrificado, quando me atormentou uma sensação de lembrança muito nítida para isola-la. Lembro-mebem, ele esteve nas minhas festas de aniversário desde sua chegada ao meu bairro, ele ria, brincava, bebia e bradava cantigas de parabéns. Cumprimentou-me com sua família diversas vezes. Uma fêmea branca infeliz, que não sabia mais o que era ser desejada. E um filhote que muito se parecia com a mãe, embora, também fosse filhote daquele macho. Ele tinha o olhar tão triste e sofrido quanto o da mãe. Assim como eu, ele agora deveria ter 15 anos. Aquele filhote meu Deus, era brasileiro que nem eu! Ele estava vazio como estou agora, ele era apático como sou agora, ela era tudo o que em instantes me tornei.E então desmanchei por entre aquela memória, a ânsia de vomitar a minha dor era inevitável. A voz falhou novamente, me sentia imundo. Quando voltei todo meu corpo àquele macho. Fixei meu olhar para o olhar obscuro daquele animal. E assim como eu, ele teve certeza do que se passava pela minha mente.

...

Após me dar conta, um arrepio gritava por entre meu dorso. O suor tão gélido quanto podia ser, escorria. O frio das mínimas gotículas de chuva demonstrava a afetividade térmica entre minha pele e suas gotas. O sangue ainda emanava por entre minhas pernas misturado com aquele líquido branco que, agora aparentava estar mais ralo e transparente. Não tinha força para me mexer. Todo meu corpo tremia por conta da violência. Eolhando para meu caçador, senti um afeto sombrio, o tipo de afeto que só quem é violado sabe bem. O pior ainda estava por vir.

Meu caçador de forma ávida se põe sobre mim, vira-me para encara-lo bem. Roga frases tão ternas quanto uma carta sem sentido de um suicida. Com as mãos sobre meu pescoço, apertava-me de uma forma tão poética quanto aquele local: Areia alva, coqueiros um pouco acima como se anunciassem a fronteira da praia com a terra firme. Maré vazante, céu crepuscular, uma nuvem de chuva passageira que insistia em dissipar as pessoas para longe daquele local, o sol nos acalentando de um calor que só podemos comparar ao amor de uma mãe para com seu filho. E um arco-íris bem acima do meu caçador que parecia sorrir para mim por entre suas cores, como o de meu pai, dado a mim ao nascer.  E ao fundo, tocava o soneto das ondas vindo e indo. Definitivamente, não me sentia como aquelas ondas que se moviam livremente, me sentia como uma pedra estanque e sem vida. O meu caçador de forma performática recitava, escarrava o típico hino nacional que parecia falar de outroanimal.

-Você gostou viadinho! Você gostou!

Sentia por entre meu pranto, o veemente ardor que invadia o meu pulmão pela falta de ar. Tentava balbuciar palavras, mas sufocava-me pela falta de singularidade. Sentia cada toque daqueles dedos, a interseção entre o polegar e o indicadora sonegar-me a tão cobiçada liberdade, e seus dedos que almejavam tocar-mecom a mesma concretude de só quem ama pode fazer. Nesse momento, entendia o que era o amor. Ao mesmo tempo em que seus dedos me arranhavam e tinham a intenção de quebrar o meu pescoço. E, nesse momento, entendi o que era querer algo. E então peguei fortemente os braços daquele macho enquanto afundava na areia daquela praia. Mas, já nada mais podia fazer. O encarava não mais por medo. Era doloroso ser querido, era doloroso ser querido, era doloroso ser querido e não poder querer.

Eu o encarava por querer que seu ato de carinho acabasse. Pouco a pouco, senti um sono leve. O doce e peculiar aroma do nada a gritar horrores em minha mente. Larguei carinhosamente aqueles braços. Senti uma pressão enorme dentro do meu crânio, senti meus olhos estufarem, senti a dor de estar sendo amado. Meu pulmão e coração doíam de uma maneira única, jamais havia sentido tal dor. O sangue ainda escorria pelo meu orifício anal. Urinei-me como um recém-nascido que não sabia o que era urinar, chorei a última lágrima silenciosamente. Quando por fim...

...

Acordei aos prantos e berros. Minha mãe adentrou por entre meu quarto em busca de uma explicação.

- O que foi meu filho?
- Nada mamãe. Outro pesadelo!
- Você anda tendo muitos pesadelos! Também, fica nesse quarto assistindo filmes de monstros, de bicho Papão. (risos).

Calado assenti enquanto enxergava meu pai a analisar-me. O olhar era malicioso. Como em meu sonho, gostaria que esses atos de amor fossem corriqueiros. Infelizmente não era um adolescente, não podia lutar. Tinha 10 anos e, desde os meus 8 anos, papai brinca comigo de marido e mulher, segundo ele. Como dizer para mamãe que o bicho papão eu chamo todo dia de papai?

Juan Messias

Um comentário:

Unknown disse...

Magnífica obra ! Bela !