segunda-feira, 21 de maio de 2018

Maio em Revolução


Aos vinte anos, um estudante caminha até a faculdade para cumprir com suas matérias regulares. Faz filosofia e participa das reuniões com diferentes grupos no campus de uma universidade. Entusiasmado, discute com seus colegas a situação política, econômica e social do momento. Nos intervalos das aulas, carrega um punhado de livros debaixo dos braços e os lê. Tem confiança em suas virtudes e no que fala, como por exemplo, quando propões soluções para a situação incerta do país em que vive. Não aceita a instauração do tédio, do silêncio e do ódio. Busca, junto aos outros estudantes, as respostas para diminuir as injustiças sociais.

Mas há momentos em que tudo muda. Como na primavera, a inspiração floresce em todos os cantos e pessoas. Um sentimento de esperança, em meio a um clima acinzentado de um regime político retrógrado, é tudo que um idealista deseja. Com intuição, esses farejadores conseguem enxergar um novo tipo de tempo. Atos e falas se tornam ferramentas e aqueles que não tinham suas vozes escutadas, agora dominam o palco político. O intenso agora preenche a vida de um jovem e de toda uma geração. A revirada do tabuleiro político é tão rápida, que se demora anos para entender suas consequências e efeitos.

Esse mesmo estudante também percorre as ruas. Deseja e luta por mudança. Entende que a filosofia precisa estar presente nas atitudes e dentro das manifestações. As palavras têm poder. Quando elas são direcionadas aos governantes, em voz alta pelo povo, possuem um valor ainda maior. Não é muito difícil imaginar um jovem sonhar com transformações. Mais fácil, quando se vive em uma sociedade estagnada de um governo repressor. São nesses lugares que nascem o desejo da liberdade. De criar planos para concretizar ideias em benefícios coletivos. De acreditar que ainda há pessoas que pensem assim. Mas a Academia é um lugar pequeno para caber ideias revolucionárias. Há momentos em que as palavras se acumulam em um espaço muito pequeno. Palavras também precisam de escape. As represálias só fazem sua força se acumular. E então elas invadem todos os territórios. Mas são as pessoas, como esse e tantos outros estudantes, que irão levá-las para a rua.

Todos já passaram por um sentimento de anseio ao desconhecido, nas vésperas de um marco histórico. Em algumas épocas, acordar significa presenciar e participar desse momento. Assim como ficar parado pode significar um ato político. Alguns poucos grupos tomam as primeiras atitudes para desencadear movimento. O recuo é transformado em contra-ataque. No começo são poucos e então, como a concretização de um imaginário comum, a força das pessoas aumentam e se espalham. Mais pessoas começam a se concentrar nas ruas em poucos dias. É mais rápido do que se pode prever. A sensação é de que nada está ao controle. Os governantes estranham e os jovens ocupam as ruas, os discursos, a mídia. A história se revela no presente. É o chamado de Kairós, o deus do tempo oportuno, para a experiência desse momento decisivo. Quando se quer salvar o mundo, não se pode deixar a espessura desse tempo desvanecer. É necessário ir até as barricadas, onde as peças do jogo se movimentam.

O estudante abaixa a cabeça, tem gritaria vindo de todo lugar. Tem polícia na rua, mais gente do que o normal. Quando levanta o olho, são mais pessoas correndo e se atropelando no recuo. Há suor nos rostos, os barulhos de explosões ao fundo continuam altos. Alguns preferem correr até um lugar mais seguro. Mas outros estão na rua para enfrentar o establishment. Carregam cartazes e esbravejam canções antitotalitárias. A anarquia, liberdade e esperança são sentimentos compartilhados pelos protagonistas desse grande ato.

Pedras são atiradas e novas vidraças quebradas, às vezes, até de grandes bancos e comércios. Pneus incendiados, muita fumaça, mais do que o suportável. E as vozes das pessoas. O caos vigente seria chamado de saudável por esse estudante, ainda desconhecido de todos. A resposta, explosão de gases, o enfrentamento de cacetetes e pedras, a violência estatal e um corte acima do olho direito. Sangue e sujeira se misturam na confusão. Os estrondos parecem estar mais perto. O chão treme. O calor do fogo queimando os carros em ruas antes pacificadas. De olhos fechados pela dor do corte, a vida o transforma. Apesar de não poder ver, aquele estudante sente a história acontecer em sua pele.

Assim como em um doze de Maio qualquer e violento, a Nouvelle Vague é esquecida nas ruas da França de 1968. Nos arredores da Universidade de Sobourne, em Paris, algumas pessoas aprenderam a carregar a esperança desse mês simbólico. Maio de 1968 ficaria marcado como o período em que os jovens universitários franceses saíram às ruas e decretaram dias de desordem e anseio de mudanças no regime político.

Três décadas depois, aquele estudante está agora em um procedimento cirúrgico, no Timor Leste. Seus cabelos já estão mais grisalhos. A voz, que apesar de mais cansada, está firme e amena. A esperança interna, entretanto, permanece como se ainda fosse jovem. Mas são pelos seus olhos, que se torna possível ver toda a história internacional da segunda metade do século XX. A cirurgia de recuperação seria necessária no olho levemente ferido, lembrança de seus anos de protestos na juventude.

O olho era de Sérgio Vieira de Mello. Um diplomata da Organização das Nações Unidas respeitado pela sua carreira internacional. Acostumado a lidar com situações complexas, envolveu-se em diversas missões da história mundial recente. Alguns deles, como negociar com o grupo terrorista Khmer Rouge no Cambodia, servir a Força Interina da ONU no Líbano como conselheiro político, lidar com refugiados após a guerra civil em Ruanda, entre outros cenários.

Em outubro de 1999, Sérgio se tornou o representante máximo da Administração Transitória das Nações Unidas no Timor Leste (UNTAET). Tarefa encarregada pelo então secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Anaan. Tanto tempo depois, o experiente diplomata brasileiro estaria em uma posição diferente daquela que se encontrava, quando ainda era um jovem estudante de filosofia em Sobourne.

A chama que foi acesa em Maio de 1968 ainda permaneceria motivando Sérgio a superar novos desafios e a lutar contra injustiças sociais. Mas agora seu cargo correspondia ao equivalente a um Chefe de Estado de um governo transitório. Seu objetivo era guiar o processo para a independência do que seria um dos mais jovens países do mundo. A chance de uma população conseguir almejar sua liberdade pesava em suas costas. Assim como a possibilidade da estagnação e do fracasso da missão. Algo desse porte nunca tinha sido completado na história da Organização das Nações Unidas. O intenso agora recomeçaria mais uma vez.

Bruno Justino

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