Alô, São Paulo! Na próxima terça-feira, 13 de maio, a partir das 21h, acontecerá o lançamento do CD de estreia de Marina Wisnik. Mais informações sobre o evento aqui.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Instiga
esse vazio
que me
puxou
com uma correnteza
inefável
para você
agora não diz
nada
embola
no silêncio
das coisas
não resolvidasPaula Neves
quinta-feira, 1 de maio de 2014
Delírio
Íntimo,
Doce veneno
Singelo Engodo
Soco no vazio.
Deixe-me ir
E podem vir
Pois distingo
Pés desnudos do medo
Quadro por quadro,
Foto por foto,
Texto por texto:
Eis que surge o rolo de filme
Do ser que se reconhece em si mesmo,
O vindouro e próprio desejo.
Inverno ou outono,
Pós de vidros vermelhos...
Muitos jugos
Zero ou nove,
Importo-me com conceitos?
Nulo e positivo
Tudo tem um jeito
Distorço, recorto, envolvo
Engole e eu devolvo.
Oremos.
Devoro e recuo
Vendo pio d'ouro modesto!
Que medo!
E em frente, no monte esquecido
Deem lírios
E em mim, no cerne esquecido
Delírios!
Quero enquanto sou,
Eis meu design
E filosófico espelho.
Ser enquanto ser,
Ser por devir,
Ser por eterno retorno.
Sem show,
Sem riso,
Sem medo!
Descoberto, eu-lírico sou.
Lia Ferreira
Portas...
São tantas as portas; e quis abri-las. Pensei no que havia
por trás de cada uma delas. Sonhei com o que encontraria. Seriam êxtases? Ou
braços abertos prontos para me acariciar? Ou bocas ecoando palavras sem dor,
dizendo o ainda não pronunciado? Ou seriam alegrias sem fim? Eu não sei, nem
mesmo consigo lembrar, só sei que eram tão instigantes (as portas) que não
resisti e sai abrindo-as, saí girando as chaves nas diferentes fechaduras,
aberturas, olhos e impulsos, sempre em buscas desconhecidas. Eu queria descobrir,
saciar-me, se isso fosse possível - e é! – ás vezes é!... Algumas chaves me
mostraram imagens e distrações bem interessantes (eu provei!). Condensei-me sem
recusas, e, assim, germinei instantes; extraordinários momentos! Só que,
acumulado certo número de dias, meses e anos, a chama diminuía, e, outra vez,
eu, enlouquecido de interesse, pensava em outras portas, e logo a mochila se
refazia, e minhas passadas deslizavam rumo a outras portas, tantas portas,
desconhecidas portas...
As portas são infindáveis; não cessam nunca; escondem o
segredo que me faz perder os medos que me empurram para os abismos, para as
fantasias, para as noites em que me embriago sob as luzes estelares, nesse
vento forte que sacode meus cabelos e me carrega para o beijo de alguém que
amei, que amo, que já se foi para além de minha compreensão. E, ando devagar,
observando as imagens da cidade nos rostos perdidos; de todas essas pessoas que
velozmente passam por mim; as quais me enxergam sem me ver, as quais se vão
para algum lugar acreditando nunca terem cruzado comigo, pois eu não existo em
seus pensamentos coerentes, e, incoerentes vamos... Vou reformulando o percurso
dos prédios inertes que se exibem para olhos que olham e que pensam sobre a
cidade grande, cheia de gente no vai e vem se fim para qualquer lugar ou lugar
nenhum. Mas o movimento é frenético e frenético eu preciso também estar, mas
não quero estar, embora esteja, no entanto sigo em passos desconexos dentre a
multidão, e compro o bilhete do metrô neste dia que se mostra lento e, até
consigo um lugar para sentar, para olhar as pessoas conectadas e atentas
desatentas nestes mundos virtuais, mas ainda entre um clique e outro um casal
acha algum tempo para se beijar e se olham e sorriem e logo voltam aos seus
aparelhos e nesse grande aparelho atingimos outra estação, e pessoas entram e
saem e a norma educacional me diz que devo ceder o lugar, pois os mais velhos
já viveram um tanto de anos e seus ossos estão cansados. Então a velhinha olha
para mim e diz “obrigado” e vamos... Agora estou de pé, e ao meu lado a voz ao
telefone de alguém que diz: “estou quase chegando...” e, eu nem sei exatamente
para onde estou indo, mas o metrô não é infinito e logo eu terei que descer e
andar por outros locais... E noutra parada, nossos olhos se cruzam e seguimos
viagem nos inspecionando. Eu gostaria muito de saber o que se passa por sua
cabeça nestes instantes enquanto seus olhos me olham, apenas sei que seria
legal se trocássemos palavra quaisquer, afinal algum tipo de afinidade fluiu
entre nós, mas não há falas, não há palavras a nos aproximar, apenas meus
ouvidos que viajam nessa música que ouço no meu celular, enquanto você insiste
em me observar e me falar com olhos que dizem algo que, talvez eu até consiga
identificar. Nesse ínterim, atingimos outra estação, e você se prepara para
sair sustentando os olhos grudados em mim. Então você se vai, foge, desaparece,
mas permanece nos minutos seguintes percorrendo as linhas do meu pensamento, e
em seguida você se desfaz em nuvens; se evapora no imenso céu; esse céu que se
apresenta em variadas tonalidades; tons e redutos desconhecidos, e não detenho
os instrumentos para revelar-lhe; você se foi igual nuvens passageira que nem
mesmo conseguiu chuva formular, mas não, acho que gotas de você molharam o meu
ser, pois fico a pensar onde você mora e com quem se relaciona, e para onde
está indo, e também como seria se eu tivesse puxado assunto com você. Tais
suposições transformam o nosso momento em mágico e poético, em real e imaginário,
em possível e impossível... Subitamente o metrô me expulsa do seu vagão, diz
que devo sair ou refazer o percurso. Indeciso, posiciono-me na plataforma e,
observo pouco a pouco a movimentação eufórica. Mas não; preciso sair do mundo
subterrâneo e atingir a cor do sol; sentir o cheiro do ar livre; ver o
transitar dos pedestres; parar numa banca de revistas; caminhar sem direção.
Assim, minhas
passadas cruzam a orla, o mar ao longe acolhe meus olhos e sinto imensa vontade
de mergulhar. Sem pressa, envolvo-me na melodia das ondas, e danço nas águas do
mar...
Valdon Nez
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Ode à bicicleta
O frio me empurrou pra frente
Como fez a vida
a sua censura
e a dela
Sair do chão me deu ar...
lúdico.
Triste inferno trajado de civilidade.
Não fui por shortcut
Morte à praticidade!
Pode tornar-se invisível, o prático,
a sentir a imensa vantagem
de aguardar na linha de chegada,
invicto e invisível.
Alline Pedrotti
Alline Pedrotti
terça-feira, 29 de abril de 2014
Hélice
Os dias únicos
O rumor das horas
O trançar de ponteiros
As promessas desfeitas
O que nos escapa
Dá ao tempo fatias
Nos intervalos
Acontecemos
Marcos Gonzaga
Marcos Gonzaga é leitor-colaborador da cidade de Itabirito - MG.
Sinto, cinto, recinto
Sempre que impossível
Procuro no céu da minha boca
Os cometas que me atravessam
As luas que me iluminam
Os sois que me ardem
E os raios que rasgam.
Carolina Gonçalves
segunda-feira, 28 de abril de 2014
O caderno de poemas e o velho espanhol
Sempre gostei de fingir que escrevia poemas. Na verdade só
havia um caderno com rabiscos da adolescência. Nada demais! A adolescência nos
traz bons questionamentos, mas não é nada demais. Nem completo estava quando,
num dia de fúria ignorante, foi para o fogo junto outros objetos dispensáveis
da casa, que passava por uma mudança. Um dia depois eu me achei dispensável.
Porém, não havia nenhum pensamento de atear fogo ao próprio corpo. A gente se
conserva, não é mesmo? Alguns anos depois, ouvi num filme de Woody Allen sobre
um velho espanhol que nunca publicava seus poemas, alegando que o mundo não
merecia a sua arte, sobre sua desilusão com a humanidade etc. Nunca concordei,
mas sempre me pareceu uma boa justificativa. Ri bastante quando o ouvi dizendo!
Quem sabe um dia eu escreva poemas decentes?! Quem escreve se arrisca: a sorrir
de si mesmo; galantear; ludibriar; inspirar; perder o fôlego ou a fé; receber
um beijo ou um soco... Aquele velho, até onde sei, compreendia o valor das artes
e do amor, no entanto, aparentou um humor mórbido. O que estaria fazendo ali,
isolando-se entre seus poemas e quadros? Ele também tinha um belo sorriso. O
que conclui, afinal, depois do filme: maldito o dia [aquele] em que o caderno
virou cinzas. Maldito o dia que ouvi sobre aquele velho. Aquela era a minha
arte. Pobre em imaginação e valor, mas, pelo menos, minha. Pensando bem... o
velho também reprovaria o meu ato.
Jhobert Abreu
Jhobert Abreu é leitor-colaborador de Paço do Lumiar, São Luís, Maranhão.
Minha salvação
Estava eu estilhaçada
muito magoada
Ele avançou e falou:
— Dança comigo?
Eu disse não, mas ele tinha determinação:
-Ah, mas vai dançar sim.
E assim, começou
Me embrulhou, me acolheu
Me segurou, me envolveu
Estava eu encantada
muito assustada
Ele me soltou e falou:
— A música acabou.
E completou:
— E aí, doeu?
Eu disse não, com um pouco de irritação.
— Mais uma vez, então, por favor.
E assim, recomeçou
Me embrulhou, me acolheu
Me segurou, me envolveu
A música parou
Mas ele
nunca mais me soltou
Estava eu estilhaçada
muito magoada
E ele apenas avançou
A gente apenas dançou
Estava eu estilhaçada
muito magoada
e a determinação dele
me salvou
me levou de volta
para o amor
...
sexta-feira, 25 de abril de 2014
Poema 37
vagamente se conhecem no
elevador aqueles rostos não são
estranhos um sorriso se desenha em
suas faces rosadas do calor que faz
lá fora e ela diz bom dia timidamente
ele responde com um suave movimento de
cabeça mal poderiam imaginar que se
conheciam de muito tempo atrás quando
eram crianças a brincarem naquele
parque que agora está abandonado ali
na frente do mesmo prédio espelhado que
antes não passava de um terreno
vazio onde o mato crescia sem limite
e a chuva caía e o cheiro de chuva e
mato molhado os fazia rir naquele
calor todo mas agora a porta abre
e a moça desce ainda com um sorriso
e ele se olha no espelho e pensa que
deve tê-la confundido com alguém
outro qualquerGiovani Kurz
Giovani Kurz é leitor-colaborador da cidade de Curitiba - PR.
Poeminha canino
invejo mesmo
é o meu cachorro
que sequer
sabendo
que é um
cachorro
somente
deita e rola
balança o rabo
sabe a que veio
sem se perguntar
de onde e por quê.Ulisses Borges
quinta-feira, 24 de abril de 2014
J'
Chez moi no espelho,
avec autre
nous autres
sans autre.
Mari sans Mari.
"a vida é rarefeita em qualquer lugar"
Sentires e falares
Para que palavras se existem sentimentos?dizem
alguns
Para que sentimentos se
existem palavras? retrucam outros
Sentimentos calam no coração,
palavras deslizam ao vento
Palavras saem das bocas, são
ouvidas, são registradas em papel, pergaminho, paredes
Sentimentos não combinam com registros racionais
Palavras são sempre fluentes,
convincentes, inocentes, repetentes
Sentimentos jamais se repetem
jamais, são sempre inocentes sempre
Palavras a gente muda o tempo
todo, o tempo a gente não muda tempo nenhum
Sentimentos são como flores
bordadas num pano de prato, tão belas que parecem enfeites do coração
Palavras conhecem caminhos,
decoram labirintos, descobrem descaminhos
Em que momento o sentimento
fez da palavra sua expressão?
E como as palavras se tornaram
a voz do sentimento?
Desentender mistérios é o que
faço
Não me interessam as lógicas,
as métricas ou as certitudes
Me encantam as incertezas, porque as certezas desencantadas
estão
Gostam de mim as inteirezas, porque
metade é meio, divide, corta
Porque sentir tem sentido, saber tem gostar e gostar não tem palavras.
Priscila Beraldi
Priscila Beraldi é leitora-colaboradora da cidade de Brasília - DF.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Caminhante
Esse aroma de estrela
Que vem de cima
Vem de cima e cai
Cai para me golpear
E mais a noite
A noite anota
E por de cima da copa
Nas raízes
Se deposita
Calma e pesada
O cheiro faz sombra
Seu ruído assombra
Constelações conspiram
E giro quieto
Um espirro mudo
Espio o mundo
E sua máquina oscilante
Canta a redenção dos mortos
Promete iguarias sem iguais
Finalmente
Ao cabo
No reino da igualdade
Aportados
O passo apazigua o caminho
Antes não visto
Eis a marcha
Continuar apenas
Sem menções a
Seivas e monções
Moldar o mundo
Com rasteiras
Pisadas
Que tão logo
Na noite se precipitamGustavo Chataignier Gadelha
Gustavo Chataignier Gadelha tem outros textos publicados no blog e no jornal Plástico Bolha! Confira!
No mundo de Cristina
um moinho se move
sem uma vez sequer
tirar os pés do chão.
mói
mastiga
tempo
semente
grão
e dentro dele
um rio de desejo quer
fazer do que é só vento,
pão.
Victoria Reis
quinta-feira, 17 de abril de 2014
PB contra o golpe — a poesia e o silêncio
Como parte de uma série de eventos planejados pela
Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro para relembrar criticamente os 50 anos
do golpe militar no país, o jornal Plástico Bolha convida você para o evento
Plástico Bolha contra o golpe — a poesia e o silêncio. Serão apresentadas
intervenções poéticas e musicais com a participação do grupo Movimento
Territórios Diversos, do escritor Lucas Viriato e do músico Rodrigo Leite Pinto.
O evento ocorrerá na Biblioteca Popular da Tijuca, na rua
Guapeni n˚61, das 15h às 17h.
Esperamos todos lá!!
Um pouco mais que um milhão de dólares
Uma mesa simples próxima da janela, quatro cadeiras, uma
garrafa vazia e outra pela metade. Cachaça barata. Praticamente um litro e meio
e não sentia efeito. Ele sentado no chão encostado na parede e a mala com os dólares,
mais de um milhão, encostada na parede oposta. Como se o encarasse.
Devolver e eximir-se da culpa ou fugir com o dinheiro? E se ao fugir for preso?
Definitivamente, ou não, estava mergulhado em dúvidas. Definitivamente por que não via saída. Mesmo que ela existisse.
Mas, bolas, o que o incitou foi o fato de que a velha disse que não tinha herdeiros. E que se sentindo cansada e próxima da morte iria doar a pequena fortuna para alguma instituição de caridade. Ouvindo isso, ele foi ao banheiro, encontrou calmantes e misturou duas drágeas em um chá que a secretária do lar, antes de terminar seu expediente e ter ido embora, tinha preparado para ela. Ela adormeceu, de roncar e babar no sofá. Por que ela confidenciou sobre a fortuna? Provavelmente por caduquice.
Oito horas depois ela já deve ter acordado e ligado para a polícia. Ou não.
Ele não sabia o que fazer por que nunca tinha roubado. Nem bala no supermercado. Nem copo no restaurante. Muito menos cinzeiro em hotel. Nem um clips em alguma empresa que tenha ido fazer uma manutenção. Ele é eletricista. Ou, enquanto não fugir, conseguir converter os dólares em reais e viver da aplicação deles na poupança, sem mexer no principal, continuaria a ser eletricista. Se não for preso, é claro.
Pensando nisso tudo, decide: Vou devolver essa mala.
Pega um táxi e vai ao endereço dela.
Ao chegar, observa um carro funerário estacionado na frente do prédio. Pensa: nesse prédio antigo, de centenas de salas e quarto e quitinetes, deve morrer um velhinho por semana.
Aperta o botão do interfone chamando a portaria, para confirmar se a velha estaria dormindo ou não. Dona Rute? O senhor é parente dela? Não, ele responde. Bom, de qualquer forma sinto muito, ela faleceu.
E agora, sente-se além de ladrão também assassino…
Mais atordoado do que antes, pega outro táxi e segue pro aeroporto.
Ao chegar num guichê pede uma passagem para qualquer cidade do Nordeste. Como qualquer? Qualquer, moça, qualquer, quero esquecer um amor no Rio parando em qualquer lugar do Nordeste, pode ser Norte também. Falou amor para despistar, evidentemente, e o olhar da moça parecia ser de compaixão.
Chegando a João Pessoa procurou um hotelzinho barato. Dorme por umas três horas. Acorda e procura uma banca de jornal, compra um jornal do Rio. Nenhuma notícia de assassinato por envenenamento. Aguardar até amanhã. Um dia. Comprar algumas roupas, ir a praia, algum bar, conhecer garotas, quem sabe uma transa? Beber e dormir.
E assim seguiu ele, até o dia seguinte.
Na manhã seguinte ressaca e medo. Descer do hotel e comprar o jornal.
Notícia: Encontrada senhora morta em Copacabana, há suspeita de envenenamento. O corpo passará por autópsia. Ela deixou testamento, segundo depoimento da doméstica, ainda não encontrado, em favor de uma entidade filantrópica, por não haver herdeiros.
Ele tremeu, mas pensou. Além de mim mesmo outra suspeita seria a secretária. Estou longe. Outro dia de esbórnia e cachaça. Para não pensar no dia seguinte.
E naturalmente o dia seguinte chega. Ressaca e receio. Banca de jornal. A notícia: “A senhora de Copacabana teve uma parada cardíaca. Os calmantes somente não causariam isso. Havia algum comprometimento cardíaco. Como não deixou herdeiros iria se procurar por testamento.”
Que demoraria a ser encontrado se existisse.
Um dia um detetive encontra o testamento. Entra em contato com a entidade. Inicia a investigação de onde estariam o milhão e mais alguns dólares. Mas a investigação se arrasta. Nosso eletricista guarda a maior parte do milhão e abre uma lojinha de conserto de eletrodomésticos. Nunca foi descoberto. E teme ter vendido a alma ao diabo.
Claudio Pereira
Devolver e eximir-se da culpa ou fugir com o dinheiro? E se ao fugir for preso?
Definitivamente, ou não, estava mergulhado em dúvidas. Definitivamente por que não via saída. Mesmo que ela existisse.
Mas, bolas, o que o incitou foi o fato de que a velha disse que não tinha herdeiros. E que se sentindo cansada e próxima da morte iria doar a pequena fortuna para alguma instituição de caridade. Ouvindo isso, ele foi ao banheiro, encontrou calmantes e misturou duas drágeas em um chá que a secretária do lar, antes de terminar seu expediente e ter ido embora, tinha preparado para ela. Ela adormeceu, de roncar e babar no sofá. Por que ela confidenciou sobre a fortuna? Provavelmente por caduquice.
Oito horas depois ela já deve ter acordado e ligado para a polícia. Ou não.
Ele não sabia o que fazer por que nunca tinha roubado. Nem bala no supermercado. Nem copo no restaurante. Muito menos cinzeiro em hotel. Nem um clips em alguma empresa que tenha ido fazer uma manutenção. Ele é eletricista. Ou, enquanto não fugir, conseguir converter os dólares em reais e viver da aplicação deles na poupança, sem mexer no principal, continuaria a ser eletricista. Se não for preso, é claro.
Pensando nisso tudo, decide: Vou devolver essa mala.
Pega um táxi e vai ao endereço dela.
Ao chegar, observa um carro funerário estacionado na frente do prédio. Pensa: nesse prédio antigo, de centenas de salas e quarto e quitinetes, deve morrer um velhinho por semana.
Aperta o botão do interfone chamando a portaria, para confirmar se a velha estaria dormindo ou não. Dona Rute? O senhor é parente dela? Não, ele responde. Bom, de qualquer forma sinto muito, ela faleceu.
E agora, sente-se além de ladrão também assassino…
Mais atordoado do que antes, pega outro táxi e segue pro aeroporto.
Ao chegar num guichê pede uma passagem para qualquer cidade do Nordeste. Como qualquer? Qualquer, moça, qualquer, quero esquecer um amor no Rio parando em qualquer lugar do Nordeste, pode ser Norte também. Falou amor para despistar, evidentemente, e o olhar da moça parecia ser de compaixão.
Chegando a João Pessoa procurou um hotelzinho barato. Dorme por umas três horas. Acorda e procura uma banca de jornal, compra um jornal do Rio. Nenhuma notícia de assassinato por envenenamento. Aguardar até amanhã. Um dia. Comprar algumas roupas, ir a praia, algum bar, conhecer garotas, quem sabe uma transa? Beber e dormir.
E assim seguiu ele, até o dia seguinte.
Na manhã seguinte ressaca e medo. Descer do hotel e comprar o jornal.
Notícia: Encontrada senhora morta em Copacabana, há suspeita de envenenamento. O corpo passará por autópsia. Ela deixou testamento, segundo depoimento da doméstica, ainda não encontrado, em favor de uma entidade filantrópica, por não haver herdeiros.
Ele tremeu, mas pensou. Além de mim mesmo outra suspeita seria a secretária. Estou longe. Outro dia de esbórnia e cachaça. Para não pensar no dia seguinte.
E naturalmente o dia seguinte chega. Ressaca e receio. Banca de jornal. A notícia: “A senhora de Copacabana teve uma parada cardíaca. Os calmantes somente não causariam isso. Havia algum comprometimento cardíaco. Como não deixou herdeiros iria se procurar por testamento.”
Que demoraria a ser encontrado se existisse.
Um dia um detetive encontra o testamento. Entra em contato com a entidade. Inicia a investigação de onde estariam o milhão e mais alguns dólares. Mas a investigação se arrasta. Nosso eletricista guarda a maior parte do milhão e abre uma lojinha de conserto de eletrodomésticos. Nunca foi descoberto. E teme ter vendido a alma ao diabo.
Claudio Pereira
A liberdade é intransigente
A liberdade é intransigente
Febre incoerente
Loucura que desagua na estrada
Na planície do tempo
Nas rodas que giram e giram até o fim
Nos olhos da liberdade há lágrimas
Que curam os desalmados
E dá esperança aos que perderam a fé
Senhor devolva toda a liberdade que me foi roubada
Espero
Enquanto canto a canção de fuga
Que diz:
Siga a voz das estrelas
Siga o que é imaginário
Ouça os tambores no meio da mata
E lá ao longe onde o sol derrete em purpura
A salvação espera o homem valente
Vestida de ouro
Com colares feitos de pedra bruta
Pendurados em seu pescoço
A liberdade não aceita escravos!
A não ser o escravo fujão
Ela não quer sistema
Quer o avesso
Quer o não
Quer a dor
Tampouco precisa de filosofia
Necessita apenas do que é selvagem
A liberdade só existe para quem quer fugir
Abrir um buraco no céu e pular para o desconhecido
Ela é a Deusa dos irreais
Dos suicidas
Daqueles que em uma noite chuvosa
Sentem vontade de voar
Bruno Bochio
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Menina dos olhos verdes (Em vão)
Enquanto o mundo desfalece,
me parece tudo tão mais vago;
afago com as mãos as desgraças,
e a graça percebo, mas em vão.
Tudo passa na vida, tudo corre;
discorre em mim a vontade inata
da nata colher dos teus olhos verdes,
rede que arria meus sentidos.
Maculo, internamente, o sentimento,
há descontentamento em não ver teu vil sorriso,
piso em estradas descalçadas,
em caladas, mas gritantes, teus olhares.
Tu, razão do meu suspiro,
inspiro-me em escrever em prosa e verso
nunca meço a dor em que me fere;
se queres ser minha não pergunto.
Mas sonho, mulher, com teus olhos verdes,
a sede na polpa que me trazem,
que fazem de mim poeta franco;
e estanco a paz no coração por eles.
Vem, mulher, perceber meu pranto,
o encanto teu molhar minha seca;
seca em mim todas as lágrimas,
lástimas, de mim, foram-se tantas.
Mas entende, mulher, o meu desejo
relampejo aos céus a minha luta,
a fruta dos olhos teus é minha poesia.
Por um segundo, nunca em vão, seja minha.
Galego
Galego é leitor-colaborador da cidade de Salvador - BA.
Surpresa
A diferença entre
o romântico e
o psicótico
é tênue:
necessita-se
calma ao
abordar a vítima
Carlos E. Álvaro Velazco
Carlos é leitor colaborador da cidade de Rio Bonito - RJ.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Sadame
Ele se jogou
O vento tocava seu corpo de forma violenta
Mas ele não escutava
Os fones no ouvido impediam de escutar o mundo
Sabia que iria em breve se chocar
E esse choque seria doloroso
Segundos depois a queda
Ele sentiu a dor da queda
A dor de mergulhar no próprio âmago
Horiatan Teixeira
Horiatan Teixeira
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Mostra Cinema, Globalização e Multiculturalismo
A CAIXA Cultural Rio de Janeiro apresenta, de 8 a 20 de
abril, a mostra que abordará as transformações e singularidades da
pós-modernidade. Mais informações sobre o evento aqui.
Ar liso, lisomar
O que é segredo
surtado sentido emaranhado entrado de pé esquerdo na sala de estar?
O que é santo
imaculado virgem derrapado libertado do grito que esperneia em soltar?
O que é eu de ser seu
sendo meu de ter eu ali no seu lugar?
Não sei se é figo ou
ter sido ou ser dito ou ser sido interdito na clareza do caminhar?
Apenas sei que piso
impreciso
pauta paraliso
minto rescindido
assim não consigo
comisso
te ter em mim aqui o
seu lugar.
Lior Zalis
Distribuição do PB em escolas municipais da zona oeste
Mineiridades
O sol esconde atrás das montanhas
e entrete o tímido habitante das gerais.
Sem mar, o itinerante divide os retalhos.
Tantas dores, lampejos de arte.
Finos teares de sombra, cores da tarde.
O falar provinciano reconcilia os opostos,
de Brecht ao mais convicto dos liberais.
Distrai os opostos com queijo e goiabada,
viola, causo e piada.
O menino veste o adulto,
o errante pede o indulto.
Quer o culto ao sábio tempo de nascer dilema.
Conselho de um certo Guimarães,
que me fez colher Rosa
nos prados de Adélia,
nos versos de Drummond.
O riso discreto espreita atrás da porta,
entreaberta tamanha espera.
Serena lágrima que acende a fogueira.
Eu madrugando no clarão da ribanceira,
ao som do cancioneiro popular
embalado em noite estrelada.
Os mineiros se perdem nos mistérios
que nem seus ricos minérios conseguem pagar.
O detalhe sutil ressurge para reparar
a beleza altiva da estrada real,
pouco afetada pelo falso ideal
de um controverso inconfidente feito herói.
Velho Chico, choro-rio agonizante,
gemido pungente que dói.
Seca escassez, contido em barragens, ganância dos patrões.
As lavadeiras alvejam roupas nos quintais
enquanto o jovem desassossega-se lendo jornais.
O doce caseiro satisfaz a boca
enquanto a alma se deleita na tristeza
divertindo-se com o tom barroco dos vitrais.
A arte também tem seus frágeis cristais.
Sentada na calçada,
alcoolizada de indecifráveis ais.
Fingindo-se mal-amada,
útil e fútil, tudo e nada.
Sentencia-se suportável e, às vezes, não.
Bem-vindo ao interior das bagagens.
Identidade plural de Minas Gerais.
Patrícia Vieira de Faria
Patrícia Vieira de Faria é leitora-colaboradora da cidade de Uberlândia - MG.
sexta-feira, 11 de abril de 2014
Canção noturna para melodia nenhuma
dois dos muitos pontos de brilho no asfalto
distorcem sutilmente o reflexo da lua
(que tudo o que tem de nua,
pede chuva)
as noites de súbito úmidas
são um balé com corpos tortos
e eu não sei em que ponto do tronco
foco o guarda-chuva para o que não me revela
o outro
tudo o que nunca revelará
- diz que pra atrair mirada
fixa-se um ponto na nuca
e, com um tempo,
a pessoa olha.
(mas não há tempos)
fugisse das pessoas ligeiro
corria a noite, solta
e fixava era o marCarina Carvalho
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Vida morta
Nesta vida nada mais se sabe. Nestes dias tudo é diferente.
Os sorrisos são falsos. Os olhares são tortos. Os beijos são dados por simples
forma de cumprimento. Os parabéns são dados por tradição e os desejos de
felicidade são dados por etiqueta. Os elogios são meras cortesias. Os abraços
são dados por educação. Os “te amo” são falados por hábito ou para não perder o
hábito ou ainda para criar um hábito. As amizades são passageiras. Os romances
são breves. As pessoas são indiferentes. A quê? Elas são indiferentes ao resto
da humanidade. São indiferentes à ética, à moral, ao pudor. São indiferentes à
vida.
Simplesmente não ligam. Trilham o seu caminho procurando
chegar ao ápice da ordem lógica que criaram para seguir. Não fazem as coisas
porque querem, de verdade, fazê-las. Fazem-nas por fazer, porque acham que
assim será melhor. Fazem porque todos fazem. Fazem para seguir os ditos da
sociedade atual. Fazem para poder dizer que fazem. Mas qual é o grande valor
nisso? No fim do dia ainda lamentam. Lamentam por nada. Lamentam por tudo.
Lamentam por estarem onde estão. Então, olham-se no espelho. E o que vêem? Algo
que não queriam ver. Vêem o reflexo de outra pessoa. Mas repetem para si mesmas
que tudo está normal, tudo está bem. Como tudo pode estar bem se, ao olhar-se
no espelho, vê-se um outro alguém? Um alguém bem diferente daquele que se tinha
idealizado ser.
É como se todos tivessem desistido. Desistido de lutar, de
sonhar. Não desistiram de amar porque este é um conceito que todos os seres
inseriram na sua inútil ordem lógica da vida. Em algum momento, todos amam. E
se orgulham disso.
Mas será que esse amor é mesmo o amor planejado? Será que é
mesmo o amor verdadeiro? Será que, no final das contas, é mesmo o amor? Não, na
maioria das vezes não é. É só um amor. Um amor qualquer. Um amor que foi criado
para que, no fim do dia, possa se dizer que se ama alguém. E então, todos se
sentem melhor. Pensam que conseguiram realizar uma das metas da sua vida inútil
e sem-graça. Sentem-se mais competentes por amarem, fato que está de acordo com
o plano que traçaram. Mas o amor não pode ser uma meta, tem que ser um sonho. E
não pode ser planejado. O amor, o verdadeiro, o original, é arrebatador,
inusitado, vivificante. O amor é assim. Um amor não. E hoje, o que mais se tem
são uns amores. Amores comprados. Não literalmente, claro. São amores nos quais
as pessoas se empenham e nada se resolve. São daqueles amores vagabundos,
traiçoeiros, revoltosos, turbulentos, complicados, confusos, estranhos,
mesquinhos, egoístas, falsos. São amores falsos porque eles só existem porque
duas pessoas infelizes se sentiam sozinhas. Então se encontraram. E se
juntaram. E se suportaram. E felizes com a chance de finalmente terem
encontrado algo que as fizessem felizes, chamaram aquilo de amor.
São amores confusos, porque com toda a sua turbulência e
todas as mágoas que geram, confundem os seus adeptos, que já não sabem se
“amam”. Na verdade, nunca se amaram. Mas dizem para si mesmos que sabem o que é
amor. Uns até realmente acreditam que sabem. Outros não, eles sabem que estão
se iludindo, sabem que o amor que estão vivendo não serve nem de rascunho para
o amor que queriam ter. Pois o amor que queriam ter é tão magnífico,
esplendoroso, compreensivo, paciente e vivo que parece até uma fantasia. E por
acharem que esse amor tão divino só pode ser uma fantasia, as pessoas desistem
de procurar por ele. E ficam, dessa forma, sonhando com ele. Não têm coragem
para realizá-lo, nem mesmo intenção, mas fantasiam. E ficam dia após dia
fantasiando. Acabam vivendo uma vida de sonhos, sonhos que sequer acreditam que
vão se concretizar. Chegam a casa após um dia cansativo e sonham acordadas,
imaginado a vida que queriam ter, criando a rotina da vida que almejavam. E se
tornam pessoas frustradas.
Porque um dia acordam, olham ao redor e enxergam que a vida
que queriam não era aquela. Enxergam que a rotina com a qual sonham acordadas
está distante, na verdade, nunca nem foi real. É como todos os dias ter um
mesmo sonho e ser feliz com ele. Até que um dia você acorda e percebe que tudo
aquilo que tinha vivenciado nunca aconteceu. Você percebe que estava, todo esse
tempo, dormindo. Percebe que tudo foi apenas um sonho. É isso que essas pessoas
sentem, a única diferença é que sonham acordadas. Mas um dia acordam para a
vida, percebem que esse tempo todo estavam dormindo, deixando a vida passar.
Percebem que os sonhos que têm estão bem longe da realidade em que vivem. E se
desesperam, no íntimo.
E, ao invés de lutar, se acovardam ainda mais. E recorrem às
futilidades, ao consumismo, aos prazeres mundanos, numa tentativa desesperada
de esquecer a sua frustração. Mas tudo isso só faz com que elas se lembrem
ainda mais. Porque no final, tudo o que lhes resta é um vazio no peito. Um
vazio grande e impetuoso, que já não pode ser preenchido. Então, elas se
amarguram. Passam a olhar de soslaio os outros. Passam a analisar, a julgar
todos de uma maneira cruel. Passam a desforrar a sua dor nos outros. E esses
outros passam a desforrar a sua raiva em outras pessoas, por pura vingança.
Querem mostrar o que têm. Passam a almejar, mais do que tudo, o poder. E
tornam-se pessoas ainda mais ambiciosas, vaidosas, traiçoeiras, perigosas e
instáveis.
Passam a procurar amores. Passam a planejar amores. Passam a
procurar motivações, motivações pra viver. E quando não acham, respiram fundo e
começam a fazer com que outras pessoas também não se sintam bem. Ficam
destruindo, de uma forma ou de outra, as vidas alheias. Ficam destruindo a
própria vida. E se escondem numa bolha de cristal, longe de tudo e de todos.
Limitam-se a assistir a vida ir embora, passando devagar. E já não ligam. Ficam
esperando a morte, apáticas.
Agora elas só existem, vão seguindo o fluxo, obedecendo à
voz de comando, com a passividade de bons animais domésticos. Quem comanda? Já
não se sabe. Todos viraram fantoches, prisioneiros na própria liberdade.
Esqueceram-se de como é viver. Perderam a racionalidade, a
vontade de viver. Vivem por covardia de se matar. Mas morrem do mesmo jeito,
por covardia de viver. E quando morrem, morrem com aquele sentimento de nunca
nem terem vivido.
Bruna Romeu
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Eu, planta
que vontade de ser orquídea
dependurado em casa
ou numa árvore pacífica
aquietado
o sol leve em minhas folhas
a água escorrendo
e tons pacíficos se formando
de cores vivas em furta-cor
em meu corpo de matéria orgânica
que vontade de ser copo-de-leite
branco desnudo
branco que me adormece em paz de sono de criança
raízes flores folhas só e tudo
clorofila ao invés de sangue
que me esquenta em excesso
que vontade de ser girassol
buscar o sol como salvação
procurar vida e nunca desejar escuridão
sentir-me vivo, iluminadamente amarelo
lindo tão lindo de rasgar os cantos da boca
não querer saber onde nem quando nem quanto nem quem
às vezes
que baita vontade me bate
de só sentir o vento inconstante
absorver água que nuvem sem pantone
me fornecem ou de mãos caridosas
quando lembram-se de mim
o simples com carinho é mais que suficiente
planta ser
e de mais nada querer saberOs bolsos do meu casaco
Os bolsos do meu casaco são orifícios mofados,
Os bolsos do meu casaco são imundos, mal cheirosos
Os bolsos do meu casaco são fragmentos
De goela vazia
Escarrando grito
Os bolsos do meu casaco têm um furo na cabeça
E outro no estômago
Possuem a boca costurada
E o fundo mal cosido
Carcomido
Amarrotado
Como quem é expelido
Do cu do mundo
Pelos bolsos do meu casaco
Expurgam-se
Dois rins, um fígado e trinta e dois dentes quebrados
Mãos vazias
Preenchidas pela falta
Punho fechado
A escorar espirros de fúria e cansaço e
Miolos cozidos com coriza e restos
Do corpo que existe
Não gozado
Por debaixo d'
Os bolsos do meu casaco:
O ontem, o hoje e o amanhã
A morte de cada dia
Hora a hora
Da insustentabilidade da vida
Da sustentabilidade do mundo
Na ferida da pele corroída
Nos bolsos do meu casaco
O maior órgão do corpo
Putrefato
Onde o ar encontra caminho
Que do pulmão é tirado
No rombo que coincide com o umbigo
Do mundo que berra
Ao morrer
De insuficiência múltipla
Danielle Magalhães é leitora-colaboradora do Plástico Bolha, e tem outros textos publicados aqui no blog!!
terça-feira, 8 de abril de 2014
O voo
Lá se vão as aves de rapina
Magnânimos animais de porte
Com suas penas esvoaçadas
E seus leques de caçadores.
Esbravejam por sobre as águas
Imponentes em seus rasantes
Não deixam escapar, pois, nada
Em seus olhos de diamante.
Oh, aves de linhagem plena
De grandes dotes e sangue azul
De pureza extrema e cheias de virtudes.
Mal sabeis, vós, que desse colosso
Imponente e vistoso de onde alçam
Estão pedras amarradas em tuas patas
E homens que manipulam tuas asas.Miquéias Dell'Orti
Máscaras
Sob as máscaras da realidade meu discurso cai no descaso.
São letras aquelas lá no fim do poço? Sim. As letras que eu usaria para fugir
deste hospício. Como meu amigo diria: “I was h(r)opeless.”
Sob a faceta de um mundo unitário a escolha de viver em um hospício não me parece loucura tamanha. Reprimidos, oprimidos, subjugados destituídos. Descrita nossa realidade parecemos pouco. Somos poeira de verbo, não de Beckett, mas de Ocidente. Condenados à reclusão, pois da vida fomos capazes de retirar tudo: vida e morte, apenas para começar.
Sob a escuridão de noites melancólicas aperto-me pelos corredores
em direção à ala dos deficientes mentais. Ando tendo preferência pelo paciente
a que os interinos denominam Albee. Os médicos o diagnosticaram como:
suscetível à tendências absurdas. Tratam-no, portanto, como um ser sem
inteligência. Seu senso de humor dificulta a compreensão plena de que haja, ao
menos alguma, seriedade em sua fala. Eterna alegria de um sádico. Desencadeador
da desordem humana. Ideia paradoxal quando ao lado da experiência de plenitude
à qual ele me encaminha. Um possível reencontro à realidade de um eu
contemporâneo? Talvez. Nunca esquecerei aquela musiquinha que ele sempre
cantava: “Quem tem medo de Virgínia Woolf? Virgínia Woolf? Virgínia
Woolf?”
Sob a dor de meu contato com outros pacientes reflito sobre
a minha condição. Não sei se encontro-me presa a uma âncora. Mas lá fora
sinto-me presa a um navio! Como posso deixar esse lugar me vencer?! Permitir
a acepção de um mundo o qual, em primazia, nega a dualidade inerente à toda e
qualquer pessoa. Dor.
Sob a realidade deito meu corpo. O hipnótico Doutor Hoffman
coloca-me sob os cuidados de seu assistente. O homem da areia. Para
onde foram os outros pacientes? Só resta a mim? A última a enfrentar o
inevitável lamento de nosso mundo dual? Quais serão os ícones estes que
permeiam meus sonhos de defeitos e simbologias? À partir de agora conduzo-me
aos pacientes mais subjetivos desse hospício. Sigmund e Friedrich. Nessa eterna
paralização do real, na qual o social se dissolve e escorre como água
derramada, o homem sofre a pequena morte do gozo, que, no auge do desejo,
lembra-se de tudo que o une á morte. Eis que aquilo que não o mata, o
fortalece. Passo, finalmente a existir onde não sou. Existir no outro. Caem,
então, as máscaras da realidade e colocam-se as máscaras da experiência alheia.
Incessantemente.
Sob o inconsciente ascendo-me à inteireza do ser.
Gabriel Leibold
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Sarau Plástico Bolha
Na última sexta-feira, 4 de abril, aconteceu o Sarau Plástico Bolha, uma realização do Calé, a Casa de Letras da PUC-Rio. É um prazer retornar à nossa casa em um evento tão rico e com tantas participações bacanas! Obrigado à todos que estavam presentes, assistindo e participando! Um obrigado especial ao nosso amigo Rodrigo Leite Pinto, e parabéns pela bela organização do evento! Veja as fotos do dia no álbum do evento, na página do Plástico Bolha, pelo link: Sarau Plástico Bolha.
Leio poemas como quem busca
leio poemas como quem busca
um tropeço
um golpe brusco
o soco na boca do estômago
a falta de fôlego
o passo trôpego do bêbado
a brusca percepção
da falta que nos aflige
leio poemas como quem busca
busco como quem luta
luto como quem ama
amo como quem basta
mas bastar não é o bastante
Salvador Passos
Salvador Passos é leitor-colaborador do jornal Plástico Bolha e tem outros trabalhos publicados aqui em nosso blog!
Salvador Passos
Salvador Passos é leitor-colaborador do jornal Plástico Bolha e tem outros trabalhos publicados aqui em nosso blog!
sábado, 5 de abril de 2014
Adeus a José Wilker
É com grande tristeza que recebemos a notícia do falecimento do ator, escritor e diretor José Wilker. Além de um talento indiscutível para o cinema e televisão, José foi também um amigo das letras e do jornal Plástico Bolha. Foi com muito orgulho que publicamos a sua entrevista na nossa edição #17, que temos a honra de republicar aqui, como uma última homenagem. Todo o nosso sentimento a nossa grande amiga Isabel, sua filha, que assina a entrevista, e a todos os demais amigos e familiares. O Plástico Bolha se junta a este sentimento e temos certeza de que este amigo do bolha deixará saudades.
---
José Wilker é ator, escritor, diretor. Tem mais de quarenta
anos de carreira, já atuou em mais de quarenta e cinco filmes, trinta e cinco
novelas, e um sem número de peças de teatro. Escreveu crônicas durante cinco
anos para o Jornal do Brasil, que resultaram na publicação do livro Como deixar
um relógio emocionado, em 1996. Também escreveu sobre cinema para a revista
Contigo por um ano.
Você tem o hábito de escrever desde criança ou começou mais
tarde?
Minha memória mais antiga está numa foto na qual estou
escrevendo. Ela está perdida, tenho apenas a memória dela. Estou sentado diante
de uma mesa, num lugar que suponho seja o quintal das minhas tias. Escrevendo.
Então, devo dizer que o ato de escrever exerce desde sempre um fascínio todo
especial para mim. Eu já escrevia mesmo antes de saber escrever. Copiava
letras. Juntava várias delas em grupos, apenas porque as formas delas me
encantavam. Depois, lia em voz alta lhes atribuindo significados, algo como a
reprodução das histórias que andavam pela minha cabeça.
Tem o hábito de escrever regularmente?
Escrevo sempre, todos os dias. Às vezes por obrigação
profissional, outras por simples prazer ou para não esquecer.
O que o faz ter vontade de escrever?
Não tenho exatamente “vontade” de escrever. É como respirar,
a gente nem percebe. De repente, está escrevendo.
Como funciona a escolha dos seus temas? Quando trabalhou no
JB, por exemplo, e precisava escrever uma crônica por semana, como fazia?
Escolho ao acaso. Escolho quando algo me chama a atenção.
Quando percebo algum humor num acontecimento. Para o JB – e nessa época eu
escrevia para mais dois outros meios – por conta da exigência de um texto novo
a cada semana, eu usava um método um tanto quanto maluco. Escrevia uma frase
qualquer e esperava que ela me conduzisse daí para frente. Ficava olhando a
frase na tela do computador até que ela me ensinasse como continuar.
O que mais gosta de escrever, crônica, teatro, cinema,
poesia, contos....?
Gosto de crônica e de teatro. Já escrevi poesia e morro de
vergonha dela. Minha poesia é medíocre. Contento-me com as letras de música que
escrevo para as minhas peças. Letra de música é mais fácil, basta colar algumas
imagens desencontradas, um verso quase brilhante e a música se encarrega de dar
sentido àquilo.
Quando está trabalhando com prazo, consegue fazer as coisas
com antecedência ou espera o último minuto possível para começar a escrever? A
urgência ajuda ou atrapalha?
Escrevo sempre no último minuto. A urgência é uma
conselheira razoável. Mas, se não publico de imediato, faço centenas de
revisões. No caso do teatro, por exemplo, das peças ainda não encenadas ou
publicadas, faço revisões intermináveis. Minha peça O sim pelo não vem sofrendo
revisões freqüentes nos últimos dez anos.
Acredita que o trabalho de ator — e também de diretor — faz
de você um crítico mais cuidadoso?
Sem dúvida, saber do calvário do ator e do diretor me faz um
crítico mais cuidadoso. Mas, também e paradoxalmente, mais rigoroso. Como ator
e diretor, não me sinto confortável com a superficialidade. O mesmo vale para a
crítica.
O que é mais libertador? Expressar-se através do corpo
(atuando) ou das palavras(escrevendo)? O que cerceia mais ou menos - a
linguagem ou o corpo físico?
As palavras são mais libertadoras. Posso continuar a fazer
malabarismos com as palavras em qualquer tempo. O corpo, coitado, depois de um
certo tempo, de uma certa idade, já não responde com a devida presteza e
eficiência aos nossos apelos. As palavras, porém, vão se enriquecendo, ganhando
novos significados com o passar do tempo.
Você trabalha mais com a crônica e com a crítica. Isso
aconteceu naturalmente ou foi uma escolha?
Aconteceu naturalmente. Não foi uma escolha. De repente, lá
estava eu fazendo aquilo. Mas, devo dizer que não me considero, não quero ser
tomado como um crítico. Na verdade, escrevo sobre as minhas paixões e divido as
minhas paixões com os amigos que tenho, ou quero ter, e que eventualmente me
lêem ou me escutam.
Ser um leitor voraz fez você ter vontade de escrever? A
leitura está sempre ligada com a escrita?
Para escrever é fundamental ler. Não duvido do fato de a
leitura ser ótima fonte de inspiração e de orientação.
Algumas palavras para nós, leitores, jovens escritores e
interessados em geral?
Está em Drummond: “Penetra surdamente no reino das palavras”.
O verso, para mim, é o resumo do melhor método de interpretação e de escrita.
* Foi com enorme prazer que dei conta desta tarefa para o
Plástico Bolha. Acho que nunca tinha entrevistado meu pai formalmente, e tentei
aproveitar a oportunidade como pude. Digo isso porque, além de filha, também
sou fã apaixonada, e fico tímida, curiosa, deslumbrada... Fiquei nervosa por
não saber o que perguntar. Tive medo de que ele não gostasse das minhas
perguntas... Mas acabei por me conformar com perguntar só o que eu gostaria de
saber e nada mais. O resultado está aqui, e espero que gostem!
Assinar:
Postagens (Atom)






