terça-feira, 30 de junho de 2015

Poema de José Juva


osso que recobre a pele
os sumérios sumiram
com as pérolas
e a telepatia
de alta velocidade
as canções
da invasão alienígena
e os desenhos do projeto
por um teletransporte
público
a mente sonha
com tartarugas
e fogueiras anciãs
polegares
coçando os olhos
da floresta
biografias das folhas
perdidas nas ventanias.

José Juva

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Abertura da exposição Poesia Agora


Às 19 horas de hoje, dia 22 de junho, será inaugurada, no Museu da Língua Portuguesa (Estação da Luz, São Paulo), a exposição Poesia Agora. Todos os leitores, colaboradores e amigos do Plástico Bolha estão convidados. Vamos celebrar a poesia (agora)!

terça-feira, 16 de junho de 2015

Abertura da exposição "Poesia Agora", no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo




É na próxima segunda-feira, dia 22 de junho de 2015, às 19h, a abertura da exposição Poesia Agora, uma criação do jornal Plástico Bolha em conjunto com o Museu da Língua Portuguesa, levando a poesia contemporânea para o centro da cena! Com curadoria de Lucas Viriato e coordenação artística de Domingos Guimaraens e Yassu Noguchi, a exposição estará em cartaz até o dia 27 de setembro, com uma programação especial e gratuita prevista para 8 sábados

A exposição Poesia Agora tem como principal objetivo explorar o cenário poético atual, apresentando ao público um pouco da obra de quase 500 poetas vivos, de todos os estados do Brasil e até do exterior. Além disso, ainda há o convite para o visitante também experimentar as palavras e tornar-se também um criador.

Venha ver, ler, inspirar-se e entrar na poesia, agora!



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Planificação do mar


                                                                              A Georg Trakl
Ofusco-me no Vento em letras de ferrugem
Enquanto a tarde passa em verdes nuvens ocas,
Impressas à Canção das Náiades nas tocas
Do ocaso entre o carmim celeste e uma penugem

De Sono redentor. Na maré surda mugem
Os Cacos da unidade: espaços entre a
De marfim onde um barco esguio se desloca
Em tridentes de pó. Sobre o marulho surgem

Bocas de espuma, véus salgados nas madeixas
De minério solar vestindo um Fogo morto
Que ondeia azul no cais. Em taciturno horto

Marítimo, no branco, olvidada na areia
Vespertina, a sonora e reticente Ceia
De Íris, e nada mais sustenta alguma queixa.

Heitor de Lima

domingo, 14 de junho de 2015

Exposição Casa 70


É com muita felicidade que o Plástico Bolha vem convidar vocês para uma exposição coletiva da qual nossos autores e colaboradores Fernando Brum e Piti Tomé vão participar. Será na Casa 70, que fica na Gávea, dia 20 de junho, das 16 às 22 horas, e reunirá uma turma fera! A exposição será dia 20/06 anotem aí!! Quem se interessar, basta enviar um e-mail com o nome confirmando a presença no endereço que está na imagem em anexo.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Palíndromos tardios


Pedimos, para a coluna Desafios Poéticos da edição 35 do PB, palíndromos. O tempo passou, a edição 35 rodou, a 36 tomou as ruas - e não é que até agora chegam alguns? Atrasados demais para o impresso, mas atuais para o Blog, seguem os criativos palíndromos tardios de Frederico Bohland Neto.

Diálogo do Povo:
— Ele é senador?
— É sim.
— Mísero, dane-se ele.

Palíndromo do Vulcão:
Ata-me, aceso pó, a lava.
És Etna, e sem o fogo - fome.
Se antes é a vala, o pó seca e mata.

O velório:
Sal e vermes somava.
— Já vai?
— Lava...
— Era bom (sem ar)
— Oh!!!
— Caladas.
Na cova a dor vil...
— Ela dá uma saudade.
— Da duas...
Amuada, lê livro da avó. Cansada, lá chora.
— Mesmo bar?
— É - avaliava.
— Já vamos.
Sem revê-las.

Telegrama:
Tioná, rumo trôpego, foge Porto Murano, IT.

Reprovação:
Ada rufa tese: Toda Doença é Acne.
O dado: Tese ta furada.

Frederico Bohland Neto

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Plástico Bolha e o Museu da Língua Portuguesa




Exatamente no mesmo dia 21 de março de 2006, tivemos duas boas notícias para a nossa literatura: a inauguração do Museu da Língua  Portuguesa, em São Paulo, e o lançamento do jornal Plástico Bolha, no Rio de Janeiro. Agora, praticamente uma década depois, esses projetos se cruzam para explodir em poesia. Ou seja, vem coisa boa por aí: aguarde!


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Haicai Combat - o Micro Slam


Os poetas Marcos Bassini e Yassu Noguchi, que estão na edição #36 do Plástico Bolha, apresentam hoje uma edição do Haicai Combat, slam de poemas curtos, às 20 horas, no prédio do Fórum de Ciência e Cultura, durante o evento Arte de Segunda, promovido pela UFRJ.

O link do evento:

https://www.facebook.com/events/1413014315688444/





quinta-feira, 21 de maio de 2015

Pedido de ânsias


Foi numa balsa de crânios de pato
Que atravessei o rio de Roraima
Procurando uma flor
Que perto duma árvore espinhosa caíra.

Precisava voltar ao túnel subterrâneo
E apresentar a flor ao mago,
Que com conjuros, lapsos, e traças de ferro
ia encobrir, desmedir e reintegrar
um
estame
de açafrão
à medida do contratempo.

Quando voltei, abstrato
Eu supliquei
Mago meu,
Mas por que contrair o tempo?

Porque as lambadas planetárias estão todas erradas!
Replicou furioso.

Observei o relógio ossudo
Que cada segundo salpicava sangue à parede nua,
E entendi que Roraima
Minha aurora, rima amena
Era só um lírio, caído no rio
Num atardecer
Que eu nunca teria tido
Atravessado em uma balsa.


Naomi Garcia Pasmanick

Palíndromos! –- matéria na revista O Globo





Matéria da Revista O Globo que cita o nosso último desafio poético de palíndromos.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Plástico #36 nas ruas!


O Plástico Bolha 36 já está ganhando as ruas! Em breve, você e o jornal terão o prazer de se encontrarem. Até lá, confira a lista de autores cujos textos se espraiam pelas 16 páginas do nosso bom e velho jornal:

Ricardo Sergio Albuquerque
Augusto Seixas
Vinicius Varela
Yassu Noguchi
Vidi Descaves
Frederico Barbosa
Guilherme Costa
Cacau Vilardo
Carlos Meijueiro
Thiago Gallego
Daniel Granato
Guilherme Ottoni
Marcos Bassini
Yasmin Nariyoshi
Alexandre Bruno Tinelli
Catarina Lins
Renato Augusto Farias de Carvalho
Marcio Rufino
Santiago Perlingeiro

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Novo livro de Santuza Cambraia Naves




É com muita alegria que anunciamos o lançamento do livro "A Canção Brasileira", um lançamento póstumo, da nossa grande amiga e apoiadora Santuza Cambraia Naves.

"A Canção Brasileira", organizado por Frederico Coelho, Juliana Jabor, Júlio Naves Ribeiro, Paulo Henriques Britto e Tatiana Bacal, reúne onze artigos produzidos por Santuza ao longo da sua carreira. Tomados em conjunto, os textos acompanham por cem anos a história da música brasileira.

Editora Zahar
200 páginas
Preço livro impresso: R$ 59,90
Preço livro digital: R$ 34,90








Plástico Bolha #36 — Poesia Agora



O Plástico Bolha está de volta! 
Na edição #36: poemas, contos, desafio poético e muito mais.
 Poetas novos e consagrados reunidos em torno de um novo mantra: Poesia Agora.
Em breve, perto de você.







sexta-feira, 15 de maio de 2015

Lançamento do livro “Versos para uma flor morta”, de Guilherme Ottoni




Ode à loucura

Ver tua mãe aturdida em pranto ao chão,
Com seus olhos vazios, encharcados
Pela álgida e triste constatação
De ter aquele seu filhinho amado

Entre estilhaços que lhe cortarão...
Com os pulsos em sangue e decepados,
Pois agora tem pensamentos vãos,
No hospício neste momento internado...

Não me consoles nem me digas nada!
Tu não hás de compreender como é
Ter a noite infinda em plena alvorada!

Morte: descendo da cabeça ao pé!
Ter o sangue escorrendo pela espada
E a psicose inumando minha fé!



Guilherme Ottoni



Lembrando, lançamento do livro “Versos para uma flor morta”, de Guilherme Ottoni, hoje, dia 15, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira, 417, Leblon), às 19 horas.


Esperamos todos lá!


Alicerces, poema de Bernardo Cordeiro


Por alicerces de um mundo caído
Não existe Atlas que sustente
Este mundo tão triste e chato
Existe apenas uma esperança

Digo-lhe que a vida mudou
Não para melhor e nem para pior
Apenas teve sentido,teve vida
Que mora em um amor

Mais uma vez lhe digo
Amar é algo tão difícil que
Ridiculariza qualquer filósofo
Imprestável ao conhecimento
Alicerces de um mundo caído
Não serão sustentados por algo
Amor será seu sustento mundo


Por alicerces de um mundo caído...

Bernardo Cordeiro

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Poema de Felipe Andrade


Não olhe para o poeta
com esses olhos
de quem se olha no espelho
observando sempre
  a mesma boca pequena
  o mesmo nariz afunilado
  o mesmo queixo alongado
  e a cara redonda.

Olhe para o poeta
com o mínimo de olhos
de quem se olha nos olhos.

E quem sabe
nos olhos do poeta
verá a tua
verdadeira

dimensão.

Felipe Andrade

terça-feira, 12 de maio de 2015

Lançamento de "Versos para uma flor morta", de Guilherme Ottoni


O plástico Bolha vem anunciar o lançamento do livro de estreia de Guilherme Ottoni, um desses poetas que de vez em quando aparecem no jornal como breves e fascinantes flashes divinos. “Versos para uma flor morta” é uma obra de fôlego e dedicação desse jovem autor que não teme a tradição e abusa de recursos métricos e formais, atualizando as influências múltiplas que destilou ao longo da vida e condensando-as em um romantismo inconfundível. Sentimentalismo, sofrimento, amor: o livro traz poemas de alguém que trilha seu caminho na literatura como quem se agarra a uma tábua de salvação.
Sexta feira, dia 15, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira, 417, Leblon), às 19 horas.

Esperamos todos lá!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Miriam Sutter e Affonso Romano de Sant'Anna na Reinauguração do Anfiteatro Junito Brandão


O Plástico Bolha divulga a reinauguração do Anfiteatro Professor Junito de Souza  Brandão (PUC-Rio), que será amanhã, terça-feira, dia 12 de maio, às 17 horas. Haverá, em celebração, um encontro com participação do escritor Affonso Romano de Sant'anna e da professora Miriam Sutter Medeiros, autora da coluna Oráculo do Plástico Bolha e integrante do Departamento de Letras da PUC-Rio.

terça-feira, 5 de maio de 2015

3º Movimento - Nua na Voluntários da Pátria, amada Brasil


para Francisco Tito Yupanqui

Hoje saí de casa de camisola. Uma camisola razoavelmente publicável, confundível com vestido, de um preto comportado, mas com a qual sei que dormi, o que sonhei vestida dela, a coisa mais distraída que faço, a coisa mais desastrada que faço, a coisa mais infinitamente desejável que faço, dormir. Saí com a banana por terminar, pra comprar pó de café que acabou, ando escrevendo até os pássaros adiantados das 4 da manhã e isso só com café mesmo, que geralmente revezo com vinho pra amenizar os sobrenados e ajudar minha cidade a guardar sua ordem nenhuma. Meu Deus, quanto tempo faz que não corto as unhas dos pés. Saí pelo café e já voltando, a cica da banana não sai mesmo, me lembrei de um livro fundamental, todos os dias tenho um estalo de um livro fundamental, nunca terei tempo de ler todos os livros que considero fundamentais às minhas plantas dos pés que se mantenham calejadas e me conservem de pé diante do vermelho dos sinais. Peguei o metrô e fui até a Travessa de Botafogo. De camisola. Botafogo é logo ali, quase uma extensão da minha casa, eu geralmente caminho sobre o alívio de braços que me estreitam em Botafogo, minha identidade não se desloca em Botafogo. Eu esqueci que estava. Eu esqueci que estava de camisola fora do meu bairro, mesmo em Botafogo, verão, uma água de coco de carrinho, máquina de costura, a gente não é nada, pensei, por mim e pelas pessoas que me viam caminhar nua fora do meu bairro, e sorri por mim e pelas pessoas que me sorriam sem qualquer domínio sobre o desfecho de seus sorrisos, bocas se fechando trêmulas, o fim do sorriso sem dar-se por ele é a maior distância possível entre dois habitantes. Já lavei as mãos, a cica não tem jeito. Eu sorria de volta, mas não era verdade. Aproveitei pra comprar uma canjica, pilhas palito e adaptador de tomada que somem todas as tardes pelos cantos abstrusos do meu apartamento, e claro que não me dei por satisfeita com 1 só livro fundamental. Agora eu era nua na calçada com o peso da história que os escritores inventam para não morrerem sob meus punhos, sob a história que invento para não morrer. A camisola não cumpria qualquer papel de indumentária, não conversava por mim, não protegia minha pele nem a carne, meu pulmão, minha garganta, a camisola era só o vento que ela fazia entre as minhas pernas. Não tinha me dado conta da diferença que faz um túnel entre uma casa e o objetivo, no tanto que pode interferir no despojamento de um habitante. Entendi que a cara de qual o problema dos rapazes do bar vizinho em Copacabana por onde passo todos os dias, e todos os dias com a roupa que estiver mais perto, é por causa do costume que já têm em me ver de qualquer jeito. Eu nunca durmo de roupa e era como se não tivesse excepcionalmente dormido dessa vez, meu corpo estava ali completamente nu em plena Voluntários da Pátria, amada Brasil. Temo um dia sair com a roupa nenhuma com que durmo em Copacabana. Seria a mesma coisa que estar de camisola em Botafogo. Minha casa é Copacabana, eu não ligo em Copacabana, tudo me é familiar em Copacabana, carrego tudo na mão, é carteira é chave é celular, não há estrangeiros em Copacabana, os estrangeiros de Copacabana são meus vizinhos, vizinho é uma palavra mais forte que qualquer outra denominação pra gente desconhecida, minha vizinhança é o que sopesa o templo do meu calendário, e Botafogo apesar de bairro vizinho à minha vizinhança não é a minha casa, não é bonito igual, não dá pra sair de camisola, não tem cavalos de madeira em tamanho natural, não tem camelos, nem camelôs que se prezem, não descobriram o teclado no meio da rua, não se vê resgate de princesas velhas que nunca existiram, os rapazes não estão acostumados com o vento que a camisola faz entre minhas pernas em Botafogo, e eu nunca fui boa em desviar de bueiros que ventam pra cima, eu não sou mulher pra Botafogo. Quanto mais me sentia uma estrangeira naquele bairro, mais arrumava função pra ver se o tempo dedicado a ele me fazia sentir como se fosse meu, algum bálsamo da minha terra, Copacabana!, alguma calamidade de maresia pelos orifícios. Costumo me sentir em casa em Botafogo mas é porque geralmente estou de roupa de sair, em Botafogo. Ir a Botafogo é sair. Copacabana não. Me pergunto se foi o que aconteceu comigo ou com Botafogo. A cidade já não é do morador faz tempo, pensei sem meus botões, a carteira a chave o celular na sacolinha de plástico das pilhas palito. A cidade do habitante é o bairro do habitante quando não a rua dele, a casa, o quarto dele, o banheiro, a privada dele, a cidade do habitante é o vaso sanitário do habitante, o chuveiro, as gavetas, a cama, o travesseiro mais tardar. O poste do habitante é a luminária de mesa dele, o abajur de cabeceira do habitante, a luz fria da cozinha, a luz quente do computador, da cafeteira dele, do forno, do ferro de passar, da vela de sete dias, do fogo soprado pelas bocas do fogão do habitante, do isqueiro, do celular, da luz insolente do vizinho que entra pela janela mais tardar. O corpo do habitante é o único vestíbulo unívoco do habitante. Não era nada disso que eu ia falar.

Querido Rio de Janeiro,
estou apavorada com a gentrificação de Botafogo. O Estação agora é NET, tem japonês com neon azul na Arnaldo Quintela, um Zona Sul, uma Travessa, nenhuma locadora, 5 bares por quarteirão, comprei laranja e não deu troco, couve já faz tempo, uma penca de apartamentos a mais de 1 milhão vazios, não deu vazão para vender na planta, tantas opções que os corretores tinham, mas eu juro que ainda compro tapioca milho e churros na entrada do metrô, e canjica na saída do metrô, que daqui a pouco, aos moldes madrileños, vai virar Metrô Vivo Botafogo. Viva Botafogo, viva o Soho Botafogo, viva o Rio de Janeiro Manhatã, mãe ateia, quê que te deu que eu não tava aqui pra ver?, que santo anda baixando nesse povoado?, você se lembra do rapaz do abacaxi?, vê se não esquece o troco da pipoca, vê se não esquece o cinema baratinho, vê se não esquece de me cumprimentar da próxima vez.

Luana Carvalho

domingo, 26 de abril de 2015

Chamas, de Salvador Passos


no alto dos mastros do marasmo
o câncer já prenunciado
morre
e o cântico entoado
pelas ruas
é raivoso & revoltado

nada de lirismo

no ar
o cântico alucinado
o cancro poético de tudo
como um vírus
espalha
o pânico ensimesmado
proclamando a mais grave pandemia
epidemia de epifanias
vírus nocivo
as bases do sistema destruídas
por uma simples utopia
o surto
a catarse
o escarro
o vômito fétido
o exorcismo do liberalismo panfletário
aristocrático
protozoários autoritários
a elite dos mamíferos
mamando nas tetas do sistema
e o poeta a ler poemas como Nero
lançando fogo sobre as certezas de uma outra Roma
a romaria dos economistas desesperados
e seu aroma ardendo nas fogueiras

Salvador Passos

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Medula, de Alex Moura


o movimento
a raiz
o laço
que

lastro
é forte

a solução
a agulha
sempre
uma
esperança
medula

código genético
seis semanas
célula-tronco
emana
transgênico
transgênero
tudo é vida
e tem gente
que
ainda
duvida

o olho
falha
o farol
fala
a solução
fragmentos
o lastro
decepção
mil pedaços

teste
de farmácia
de laboratório
a menina virgem
não é mais
tá no sangue
no dna
nasceu
pra dar

Alex Moura

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Cidade real maravilhosa, de Marco Alexandre de Oliveira


O Rio de Janeiro é realmente uma “cidade maravilhosa”, como diz a canção, “cheia de encantos mil". O que encanta, no entanto, não são apenas as suas inúmeras belezas, nem os seus inesquecíveis 450 anos de história, mas os seus incríveis contrastes, que revelam as incomensuráveis contradições desse “coração” do Brasil.

Por um lado o mar, por outro as montanhas. Por um lado a Zona Sul, por outro a Zona Norte. Por um lado o morro, por outro o asfalto. Assim, entre a natureza e a cidade, o cosmopolita e o provinciano, a pobreza e a riqueza, o Rio de Janeiro representa um entre-lugar, por ser um lugar de várias diferenças,e múltiplas realidades.

Entre gente boa e gente ruim, os cariocas também apresentam os seus contrastes marcantes, e as suas contradições significantes. Por um lado, se os cariocas são “bonitos”, “bacanas”, “sacanas”, “dourados”, “modernos”, “espertos” e “diretos”, como canta a gaúcha Adriana Calcanhotto, por outro lado, os cariocas são igualmente feios, chatos, corretos, escuros, antiquados, ingênuos e indiretos, como se pode observar[1].  Então, se alguns cariocas “nascem bambas”, outros nascem sem ginga. Se uns “nascem craques”, outros nascem pernas-de-pau. Uns “tem sotaque”, outros não falam carioquês. Uns “são alegres”, outros são tristes. Uns “são atentos”, outros são negligentes. Umas “são tão sexys”, outras são bem barangas. Uns “são tão claros”, outros são bem sombrios. Assim, os cariocas podem ser tão finos quanto grossos, tão chiques quanto cafonas, tão tranquilos quanto nervosos, tão generosos quanto mesquinhos e/outão malandros quanto manés, sem que essas características contrastantes, ou até contraditórias, sejam descaracterizadas.

Como estereótipos, as impressões podem ser tão verdadeiras quanto falsas. Até as constatações podem aparecer, às vezes, impressionantes. Por exemplo, o Rio de Janeiro já foi apontado como “a cidade mais simpática do mundo”, segundo uma pesquisa realizada pela revista New Scientist, que também classificou a cidade como “uma das mais violentas do mundo, notória por sua taxa alta de criminalidade e seus incontáveis males sociais”[2]. Ao mesmo tempo, parece que sobra antipatia e falta solidariedade na cidade, onde o povo contraditoriamente (ou não) se une pela paz.

A justaposição dessas realidades tão contrastantes caracterizaria o Rio de Janeiro como uma cidade “surreal”, na concepção do francês André Breton, que escreveu que “o maravilhoso participa obscuramente de uma classe de revelação geral, de que só nos chega o detalhe”, como, por exemplo, as “ruínas” antigas ou os “manequins” modernos, ou qualquer outro “símbolo” que “comove a sensibilidade humana por um tempo”[3].  Seja entre o efêmero e o eterno, seja entre a vida e a morte, o maravilhoso então surge dos contrastes e/ou das contradições, assim como em “quadros que nos fazem sorrir” enquanto pintam a “inquietação humana”, segundo Breton. Deste modo, a “cidade maravilhosa” que se (auto)retrata como “cartão postal” tropical, local de uma das sete maravilhas do mundo moderno, revela a imagem contemporânea de um ícone medieval, que abraça toda a baía e ilumina o mundo mundano com o seu coração sagrado, e sangrando.

Na realidade, o Rio de Janeiro é uma cidade “maravilhosa”, e se o tropicalista Gilberto Gil cantou que o “Rio de Janeiro continua lindo”, o surrealista Breton antes escreveu que “o maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, só mesmo o maravilhoso é belo[4].  Mas o Rio de Janeiro não é uma cidade surreal, apesar de ser linda e maravilhosa. Pelo contrário, é uma cidade real em suas diversas realidades. Assim, dir-se-ia que o Rio de Janeiro é uma cidade real maravilhosa.

Para o cubano Alejo Carpentier, que concebeu a estética do “real maravilhoso”latino-americano em contraste com a do “surrealismo” europeu, invocada na “descrença”, o maravilhoso “surge de uma inesperada alteração da realidade (o milagre), de uma revelação privilegiada da realidade, de uma iluminação incomum ou que favorece singularmente as inadvertidas riquezas da realidade, de uma ampliação das escalas e categorias da realidade”[5].  Proveniente de um certo“estado limite”, a “sensação” do maravilhoso é, antes de tudo (ou nada), fundada em uma “fé” na realidade do maravilhoso: é o maravilhoso do real e não da imaginação, do concreto e não do abstrato, da história e não da ficção. E se Carpentier presenciou esse fenômeno no Haiti, ele também percebeu que é, de fato,“patrimônio da América inteira”.

Enquanto os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso contam como o “Haiti é aqui”, no Brasil, o “real maravilhoso” encontra-se realizado no Rio de Janeiro, patrimônio cultural da humanidade, onde tanto os passos e as canções do samba, quanto as alegorias e as fantasias do Carnaval, não perderam o seu “caráter mágico ou invocatório”, mas ainda guardam “um profundo sentido ritual”, criando-se em torno deles “todo um processo iniciático,” como Carpentier diria[6].  Sem lembrar dos jogos de futebol, das novelas das nove, das noites de boemia e das missas de domingo.

Assim, repetir-se-ia que o Rio de Janeiro, onde a história se (con)funde com o mito para revelar uma realidade maravilhosa, pela “virgindade da paisagem” deflorada pelos homens, pela “formação”dessa cidade grande onde não há um grande rio, pela “ontologia” de ser a Cidade de São Sebastião, santo católico sincretizado orixá iorubá, pela “presença fáustica” dos índios desalojados e dos negros descriminados, pela “revelação” que consiste em sua constante dissimulação, pelas “fecundas mestiçagens” que ainda proporciona, está“muito longe de ter esgotado seu caudal de mitologias”[7].

Para concluir, uma pergunta de Carpentier poderia ser reformulada na seguinte questão: Mas o que é a história do Rio de Janeiro senão “uma crônica do real maravilhoso?” Há de se declarar que o Rio de Janeiro, este entre-lugar único e diferente, esta metrópole pré-pós-moderna, ex-capital da nação que era tanto império quanto colônia, é realmente uma cidade maravilhosa, cheia de contrastes mil. Uma cidade maravilhosa, contradição do Brasil....

Marco Alexandre de Oliveira

[1] Adriana Calcanhotto, "Cariocas", A fábrica do poema (1994). http://www.adrianacalcanhotto.com/sec_musicas_letra.php?id=14
[2]http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,rio-e-a-cidade-mais-simpatica-do-mundo-diz-revista,20030618p7948; http://www.newscientist.com/article/mg17824005.600-the-word-simpatico.html
[3]André Breton, "Manifesto do Surrealismo" (1924). http://www.culturabrasil.org/breton.htm
[4]Gilberto Gil, "Aquele abraço", Gilberto Gil(1969). http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=4;
André Breton, "Manifesto do Surrealismo" (1924). http://www.culturabrasil.org/breton.htm
[5]Alejo Carpentier, "De lo real maravilloso americano" (1967). http://www.literatura.us/alejo/deloreal.html
[6]Caetano Veloso e Gilberto Gil, "Haiti", Tropicália2 (1973). http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=32;
Alejo Carpentier, "De lo real maravilloso americano" (1967). http://www.literatura.us/alejo/deloreal.html
[7]Alejo Carpentier, "De lo real maravilloso americano" (1967). http://www.literatura.us/alejo/deloreal.html

Marco Alexandre de Oliveira é professor adjunto do Departamento de Letras da PUC-Rio, onde ensina cursos de Literatura e Cultura Americana e de Língua Inglesa. É também o nome real do Gringo Carioca, poeta e autor do livro Reflexos e reflexões (Oito e meio, 2014). 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

DESAFIO POÉTICO DAS VOGAIS


Na edição número 24 do Plástico Bolha, em que o desafio era não utilizar a letra A, textos incríveis chegaram a nós - embora muitos tenham reclamado da dificuldade para driblar a abundante letra. Dessa vez, decidimos expandir a proposta: quatro desafios de uma vez! Intimamos nossos incansáveis leitores a escreverem e enviarem poemas sem E, I, O ou U. Não queremos ninguém deixando de enviar por colapso de indecisão: se você não consegue evitar o E, tente fugir do I, e assim por diante. Envie seu desafio poético para jornalplasticobolha@gmail.com

Alguns. e a vida, poema de Sarah Israel


se passa assim
assim vemos e às vezes
nem
enxergamos
como muda
e continuamos a.

Respostas. e livros
são para nosso combustível
queimar
funcionar
são como nosso ar
e mais ar só por rimar.

Leituras. e canetas
servem para eternizar
como foto-
         grafia
desse modo te desenho
ao meu lado
para um sempre
com as mesmas letras
e mais. Ilusão.
            Aves.
            Asas.
Sem engenho
eu
uso a tinta das veias.

Sarah Israel

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Lançamento: "Escuta", de Eucanaã Ferraz



Mil pássaros, poema de Yasmin Barros


Saí da faculdade
nesta quinta-feira chuvosa.
Tomei não o primeiro ônibus que vi,
pois este foi embora antes que eu o alcançasse.
Confesso que no caminho,
imersa no mundo dos smartphones
(qualquer hora acabamos afogados)
não dei muita atenção ao engarrafamento,
que até parecia pior do que realmente foi.

Sentei-me à janela, mas
— que erro o meu —
sentei-me do lado errado.
De onde estava, não podia
ver a praia.
Erguendo os olhos, porém,
já cansada do celular,
pude avistar um senhor.
Ofereci a ele o meu lugar
e após o sorriso que acompanhou o seu
"não, querida, muito obrigada",
decidi por virar-me à janela.

A claridade me incomodou,
o que não pareceu fazer sentido
considerando que tão cinza estava o céu.
Mas talvez fosse um holofote
para me fazer ver
o estranho fenômeno que me leva a este poema.

Havia aves.
Não uma ou duas.
Centenas.
Não cento e duas.
Milhares.
(É sempre assim o céu de Ipanema?)

Fiquei não sei quanto tempo olhando
apreciando
admirando.
(Será que eles sabem como são livres?)
(Será que eles sabem quantos de nós gostariam de um par
de asas, não de braços,
porque os braços não nos permitem voar?)

Peguei o celular e tirei uma foto
de péssima qualidade
— nem sei bem por que o fiz.
Acho que achei que justo seria
não guardar só pra mim
este momento de poesia.

Pensei que todos no ônibus notariam a foto que tirei
e os que ainda não tinham visto
(seria possível não ver tantos pássaros negros no céu?)
logo perceberiam
e se perderiam naquela visão
da forma como eu me perdi.

As pessoas, porém,
pareciam não notar
— tão imersas no mundo dos smartphones —
(um dia ainda vão se afogar).

De repente a Vieira Souto
não era seus prédios,
não era seu valor
(na verdade nunca foi),
não era nem mesmo sua praia.

De repente a Vieira Souto
era milhares de manchas negras
no céu acizentado
desta quinta-feira chuvosa.

De repente eu só queria
saber para onde iam
saber por que eram tantos
saber por que nunca na vida eu vira algo assim.
Mas, sem sequer responder minhas perguntas,
o ônibus virou à esquina.

Agora eram as árvores
e eu já não via mais o céu.
Via a vitrine de mil lojas
mil vestidos
mil blusas
mil sapatos
mas nada era tão belo quanto os meus
mil pássaros.

Para onde iam?
Por que eram tantos?
Por que nunca em minha vida
eu vira  algo assim?
Desci na praça e
— que alívio! —
havia aves.
Não uma ou duas.
Centenas.
Não cento e duas.
Milhares.
Mas ninguém as via.

Não me importava que não me vissem
— talvez até tropeçassem em mim —
mas não havia problema, desde que vissem
mil pássaros.

Mas não viam mil pássaros.

Caminhei, caminhei,
e quase caí na calçada.
Não vi a pedra no meio do caminho
porque o chão não era belo como o céu.

O chão não tinha mil pássaros.

Obrigada a olhar para a frente
disse adeus aos meus mil pássaros.
Passei então pela entrada do metrô
na certeza de que o subterrâneo
não me mostraria mil pássaros.

Sentei-me à janela, mas
— que acerto o meu —
sentei-me do lado certo.
De onde eu estava, não podia
ver a praia.
Mas pude ver mil pássaros.
Seriam eles mais belos do que a praia?

Penso agora que os pássaros parecem as palavras neste papel
coincidentemente escritas com caneta preta,
porém em uma folha não tão cinza quanto o céu
desta quinta-feira chuvosa.
O único problema é que
em vez do ar puro e livre
recebem o ar abafado do metrô apertado.
Em vez do meu olhar admirado
recebem o olhar desaprovador das que incomodo com meu papel.

Desculpem, senhoras,
as palavras não esperam.
As palavras são como os pássaros, senhoras.
Se não as escrevesse,
voariam para um lugar
que eu não sei onde é
e eu nunca mais as veria.

Porém, já vai chegando minha hora de parar.
Parece que este poema é tão longo quanto a distância
de Ipanema à minha casa.
Parece que este poema tem tantas palavras

quanto havia de pássaros no céu.

Yasmin Barros

quinta-feira, 19 de março de 2015

Liberdade provisória, de João Miguel Maio


Meu verso é livre como um condenado em regime de prisão domiciliar
Carrega um aparelhinho preso no tornozelo
Que apita quando ele se afasta tantos metros de casa
Mas os vizinhos nunca o ouviram apitar
Porque meu verso é obediente
E só abre a porta para pegar o jornal
Cumpre pena atolado no sofá

Meu verso é livre como um cão medroso que pensa em fugir,
Mas só pensa, porque ele ama a liberdade,
Mas também ama a coleira
Então ele fareja e explora e dá meia-volta
No limite onde a corda termina e começa a rima

Meu verso é livre como uma vítima de sequestro com Síndrome de Estocolmo
Ele já está aqui há tanto tempo
E se aconchega na forma do cativeiro
E conhece todos os sons que vêm de fora
E já não sabe mais se prefere ficar
Ou se ainda cultiva alguma vontade de ir embora

Meu verso, livre, tem muitos braços
E por isso permanece algemado
Deus hindu desastrado
Ele os estica na tentativa
De alcançar tudo o tempo todo
O vaso, a vela, o livro
A planta, a lâmpada, a câmera
E ele quebra as coisas.
Pronto, aí está: quebrou o vaso

Meu verso é livre como um adulto de castigo

João Miguel Maio

quinta-feira, 12 de março de 2015

Escuro, poema de Matheus Felipo


escuro
há de se tocar o disco inteiro no escuro
preste atenção

cada letra tem um significado
a entende-se bem melhor no escuro

escuro
há de se ter somente a música

palpável superfície nenhuma

Matheus Felipo

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

JE SUIS CHARLIE



O Plástico Bolha interrompe suas férias para manifestar seu imenso pesar pelo ataque ao jornal Charlie Hebdo, em Paris. Acreditamos que episódios lamentaveis como este podem terminar colaborando para manter todos unidos pelas liberdades e contra os extremismos.

Foto de Raissa Degoes.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Férias


Todo mundo sabe que a poesia não tira férias. Mas nossos funcionários sim! Feliz ano novo
(em 2015 voltamos)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Lançamente de "Como se", de Cláudia Chigres


Amanhã cedo tem o lançamento do livro "Como se", da Cláudia Chigres, no Centro. Apareçam!



quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Que perda


você vem tentar fingir ser uma flor
daquelas azuis com lilás se quiser
pode até pintar de rosa, aí fica
igual aos outros diferentes de voce

você tenta despedaçar a espada feita
cortar ela ao meio mas esquece que
uma espada ruim está sem paciencia
para morrer, e para desbainhar

suas lágrimas não irão enferrujar
o que já está materializado aos seus olhos huohuohuouo

eu sou o que eu quiser
ajo da forma que quiser
sem prejudicar a próxima
é assim e tá acabado

suas lágrimas não irão enferrujar
o que já está desmaterializado
aos seus olhos sem vida
que só querem ditar letras, células

suas lágrimas não irão enferrujar
o que já está materializado aos seus olhos huohuohuouo

João Grabois

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Lançamento de Natália Rubra


Será na 5ª feira da semana que vem, na livraria Saraiva do Leblon, à partir das 19 horas. Fiquem atentos!



carrossel


de manhã na
praia eles combinam
o que farão à noite de
noite, na festa eles
combinam de ir à
praia amanhã

Ana Salek

gente grande


enquanto isso o céu metódico
o carro parado a tv desligada – como o rádio
somente o homem resta no sofá

dorme criança depois
da confusão
depois da brincadeira de gente grande
descansa o corpo crescido
da alma que folga

Gustavo Moreira

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Tatiana Salem Levy e seu livro novo


o livro novo da Tatiana Salem Levy vai ser lançado esse sábado agora, dia 6, na Livraria da Travessa de Botafogo, a partir das 19 horas... Vamos?



um poema de Jordano Souza


Trabalha dia e noite
Pela renda que costura
Trabalha sol
Trabalha lua
Trabalha sereno
Trabalha chuva

O sorriso também labuta,
Grisalho, estampado nas rugas
Que pelejam
No sol
Na lua
No sereno
Na chuva

Trabalha sempre pra cuidar
Mesmo que os cuidados
Sejam rejeitados (ignorados)

Prevalece a luta,
Seja no sol
Seja na lua
Seja ardendo

Prevalece a lua
Seja cansado
Seja sorrindo
Seja sofrendo

A barraca protege,
Chuva.
Mas não esconde
A marca da luta.

Jordano Souza

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Filete vermelho


Como és bonito filete vermelho
E como escorres pelo meu braço!
Olho-te angustiado do chuveiro
E os pingos de água, com descaso,

Diluem-te, mas não a minha dor.
De novo, a escorrer, a escorrer.
Da vida à miséria no amor.
Filete que representa tudo, o morrer!

Filete triste, por mim almejado,
Te desfaz pelo meu braço, cortante.
Agora, pelos pingos vermelhos aguados,
Vejo-te longínquo, febril e distante.

Vejo-te findo, a escorrer bonito,
Que dor, que tristeza eternizarás?
Transportaste-me para além do infinito,
Que dor não amenizarás?

Tu, filete vermelho da rósea flor,
Que escorres pelo meu braço.
Como é lindo o olvidado amor!
Como a dor é forte, feito aço!

Mas tu um dia hás de findar
E por mais que no meu braço escorras,
A dormência do meu amar,
Tu não farás com que ela morra.

A respiração, agora irregular,
E tu continuas a escorrer.
O pulso parando de pulsar,
Tu olhas frio, o meu morrer!

Quais tristes sentimentos foram vividos?
Tu és tudo e simplesmente o que me resta.
Que vida frívola, entorpecida e sem sentido
Foi friamente pensada dentro de minha testa?

Cor viva! Cor vermelha! Cor amada!
Por favor! Leva-me e deixa-me mais tranquilo!
Mostra-me tudo, mostra-me o nada,
Conforme durmo sob as folhas de mirtilo...

Guilherme Ottoni

As águas que me banham


Faz duas semanas que não enxergo,
não leio
faz duas semanas que não penso,
não vejo
faz duas semanas que não digo,
faz duas semanas que não choro

Faz duas semanas que me sinto um andarilho
em busca de seu livro
faz duas semanas que peço
por favor
não pegue esse avião

chorar não impedirá o avião de voar
estarei no chuveiro
confundindo as águas que me banham
com as lágrimas
que me escorrem os olhos.

Miguel Lydia

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Lançamento do DVD O vento lá fora


2a feira tem lançamento do DVD da profa. Cleonice Berardinelli e de Maria Bethania! Na PUC, não percam!



the


qualquer coisa de vinicius, ela tem
talvez seja a gávea florindo
um quê de drummond
à janela, escondido
sofre feito um bandeira
feito passarinho
e quando ela deita
e quando ela chora
todos lê
menos a este poeta
que te adora

Cesar Sampaio

Poema


Ah, se eu fosse como Bandeira,
ou feito de Barros,
Carlos.
Saberia menos
do que se sabe preciso,
ciso.
Saberia mais
do que se sabe de fato,
lato.

Tiago Maviero

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Por um saíra-de-sete-cores


se um passarinho entra pela sua janela
vôo errante, agitado
em expressão multicolorida
olhar tão curioso, inquieto;
apesar do receio de
envolvê-lo na palma,
em socorro
não pegues pela cauda
- mesmo sutil toque
as penas soltas mostram
a fragilidade da criaturinha;
e a pena, frágil, é a mesma
que seu pio, tão miudamente profundo,
faz sentir,
e ressoa numa lágrima
tão bruta

Idjahure Kadiwel

Plástico Bolha no Metrô


É isso mesmo! Plástico Bolha estará no metrô levando a poesia a todos os buracos! Microfone aberto pra quem quiser colar junto! A partir das 14h de sábado, 29/11, na estação Estácio do metrô do Rio.
Chega mais!



Amanhã a gente não se viu


Amanhã a gente não se viu
Na soleira da sua porta
Eu não quis dizer
oi

Amanhã eu fiquei com medo
Dos seus tantos compromissos
Da sua escapatória ao dizer
depois

Amanhã eu não soube o que fazer
Com você rondando por aqui
Sem coragem de dizer
talvez

Amanhã eu pensei
Que pudesse me mover
Mas fico parada até poder dizer
adeus

Isadora Falcão


Lançamento do livro de Maria França Cunha, A dança dos sentidos


Esta quarta-feira, 26/11, Maria França Cunha convida para a noite de autógrafos de seu livro A dança dos sentidos, no Espaço Multifoco, a partir das 18h. Não percam!




Lançamento do livro Imagens de Paris nos trópicos, de Angela Perricone


Quinta-feira, a partir das 17 horas, haverá o lançamento do livro de Angela Perricone, Imagens de Paris nos trópicos. Confiram!


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Lançamento de O Ser-se, de Júnia Azevedo


Dia 26 de novembro, às 20 horas no Centro Cultural Midrash, não percam!




Sobra


olhos diferentes
enxergam a mesma coisa
mas veem coisas distintas
a quem sobra
indiferença
a quem falta
vontade faminta

quem tem sapato que fala
sabe onde o calo aperta
a caixa
outrora nova
hoje guarda tralha velha

se sobra algo
além de holerites obsoletos
basta
termino meu texto

Alex Moura


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

lançamento de Cachorras, de Claufe Rodrigues


Dia 24/11, segunda-feira próxima, Claufe Rodrigues estará na Travessa do shopping Leblon, lançando seu livro Cachorras. A partir das 19h, não percam!




Meu sonho


Peço-lhe licença para ser humano e tentar,
dou-te meu carinho e meu prazer,
resguardo minha raiva sem te esconder.
Tenho sede e busco luz.
Sinto-me rico às vezes e danço,
tenho vislumbres e piro.
Sinto-me presente, nem sempre
me espanto...
Peço-lhe licença para mexer no teu quarto
e zoar com teus sutiens.
Toma minha mão se você quiser
e minha pele no teu peito.
Oh,  que tem muito mais no meu ser.
Ainda tenho um tempo aqui,
um tempo contigo,
até despertar,
meu sonho.

Dimitri Merino

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A alma antiga


Queria ter a alma de um poeta velho
Escrever histórias num antigo caderno
Recitar cada frase para os apaixonados
Criar rimas sem motivos
Para os nãos inconformado
Sobreviventes de guerras
 Mais que frias
Corpo estalando de dor
Mais que agonia
Sentados em bares
Ou escadas
Até esquinas
Chorar por erros de amores
Que não os compreendiam
Depois de murchar todas as flores
Em sua maestria
A dor acaba tendo seus valores
De cada derrotado desse dia a dia
Me chame de poeta antigo
Com coração dos tempos de guerra
E com a maior prepotência
Me preparo para as batalhas
Escrevendo versos como os poetas.

Camila Lages

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Copacabana


Eu ontem fui pro Forte
atrás de um reforço
porque depois de muito
esforço, eu larguei o tal
E eu fui assim, sozinha
na marra. E de cara
a dor passou
É que a coisa é tão linda lá de cima
que parece até que anima
mesmo que de mentira
Sabe como é?
Aí, eu olhei pra frente
e era tudo, assim,
feito os olhos do Vicente
E por pouco
eu não me apaixono outra vez
o que seria o cúmulo da estupidez
então, eu virei o rosto pro lado
só pra ver se ele sumia
Que nada! era ainda o Vicente
insistente. Que vinha lá das águas
feito peixe:
com escama, espinho, uma enguia!
e me apavora, me olha
me namora, me decora

Vicente vem lá do Leme
e ele olha pra mim
E olha só pra mim:
o peito soca
a perna treme
ele vem, vem vindo
E o Leme ficou pra trás
E Vicente,
Já dá pra ver a barbatana
Quem me dera agora ser Joana,
Maria, qualquer fulana

Mas eu vim é pra cá
eu quero força!
Tô no Forte
e que Deus me conforte
porque não tá dando
Vicente, me larga
vá em paz, boa sorte!

Eu juro que amei
mas acabou, meu amor
Aqui já é outro bairro
dá pro Sul, tem outra cor
E o que houve entre nós
ficou no Arpoador

Jéssica Sena