terça-feira, 20 de junho de 2017

O tucano Casanova – uma crônica carioca


Sempre morei naquela esquina, mas faz pouco tempo que descobri vizinhos ilustres, metódicos, que saíam à mesma hora para passeios diários. Chamavam a atenção de todos, com a plumagem colorida, os gritos próprios da espécie. Estando na rua por volta das onze da manhã ou das cinco da tarde,passei a olharpara cima, torcendo para que o casal de tucanos estivesse dando seus rasantes, cruzando a rua arborizada do Leblon.

Resisti à tentação de batizá-los com óbvios nomes de políticos ─ coitados, ficariam marcados...Para mim, eramTuco e Tuca, sem maiores compromissos─ eleitorais ou eleitoreiros.Tirei fotos, filmei, alardeei no Facebook que tinha tucanos como vizinhos, que resistiam à poluição, às obras do metrô, às freadas barulhentas no cruzamento próximo.

Se havia pescoços esticados, crianças agitadas, sabia que lá estavam eles,multicolorindo o verde das folhas. Voavam de um lado para o outro, asas abertas; escolhiam um galho, passeavam, dando seu show de equilíbrio.

Pois em janeiro um dos tucanos foi atropelado. Num voo mais baixo, atingido por um caminhão-baú, cujo motorista sequer se deu conta do trágico acontecimento. Nem deve ter entendidocomo uma pena amarela acabou enroscada no para-brisa.

Por dias, o inconsolável Tuco (sim, era ele o viúvo) se lamuriou, cortando o coração de porteiros, moradores e crianças da rua.Imaginei que morreria de saudades. Quis fazer alguma coisa;fui para a internet, atrás de soluções. Zoológico, Jardim Botânico, a quem recorrer? Enfim, soube que devia chamar o IBAMA.

Quando fui conferir a localização da árvore para ter os dados precisos, soube que, depois de sumir por dois dias, Tuco estava de volta, devidamente acompanhado.

Um novo par tinha se formado.Tucoe ...Teca, assim a chamei.

Afinal, o show não pode parar!E ele tem acontecido nos mesmos horários, diariamente. Posso provar com meus cliques.Os tucanos voam de um lado para o outro da rua, se equilibram nos galhos, voltam para o oco da árvore.

Tucanos são aves piciformes, com penas de coloração preta, vermelha, laranja ou verde, com a garganta branca ou amarela. É a descrição oficial.


Para mim, os do Leblonjá foram Tuco e Tuca, agora são agora Tuco e Teca. Que sejam felizes, criemseus filhotinhos e colem neles fitas florescentes para alertar desavisados condutores de caminhonetes. 

Marilena Moraes

Nenhum comentário: