segunda-feira, 31 de março de 2025
Divórcio
a bandeja que serve o café
e serve a cerveja
só não serve para consertar
o que não tem conserto
nem com fé, nem com jeito
nem com pé, nem com peito
Mariana Teixeira
domingo, 30 de março de 2025
Re-criação
Des-construir a forma
des-membrar
des-estruturar o verbo
des-ordenar a estrutura
des-mitificar
ir além do provável
e — assim — instituído o caos
re-modelar
o imponderável
Ianê Mello
sábado, 29 de março de 2025
Rosalina In Flor
Tem uma rosa a desabrochar
Pelas bandas de cá!
Tem espinhos,
É viçosa
Mora em Jacarepaguá.
Pinta livre,
Fala em prosa,
Gosta de perfumar
Esta Rosa lina é linda
Não a queiram arrancar.
Vai perfumar a história
Com toda a sua memória
Que sementei no lugar.
Lá na terra fértil da cidade de Deus
tem a sua plantação,
há de ter roseiral, cheiro de esperança
nas mãos de nossas crianças
Para enfeitar a nação
Valéria Barbosa
sexta-feira, 28 de março de 2025
Um poema de Bruna Escaleira
às bruxas
neste mundo machofágico
toda mulher é sobrevivente
Bruna Escaleira
quinta-feira, 27 de março de 2025
Sem nome
Deu vontade de chorar...
Mas não vou, não posso...
Tenho que me libertar de mim.
Tudo está na minha cabeça,
passo a crer que não existe sentimento algum em meu coração.
É simplesmente minha mente funcionando a mil por hora...
A saudade, a falta, a tristeza,
essa necessidade imensa...
Tudo eu criei...
São frutos da imaginação.
Será que devo ficar melhor e feliz agora!?
A vontade de chorar ainda não passou...
Ainda não passou...
Fernanda Otoni
quarta-feira, 26 de março de 2025
abre-mundo
abre o futuro
o passado pretérito
abre língua, abre fome
abre túmulo, abre e soca
quando, de um pro outro
— muda cena —
troca o eu-lírico
Anelise Freitas
terça-feira, 25 de março de 2025
Ciclos, um poema de Thais Vicente
Como a folha que cai da árvore
e se decompõe, desmanchando-se
para que, no lugar, outra cresça,
continuamente, até que a árvore morra,
assim somos nós: frágeis e passageiros,
vivendo para cumprir o ciclo da vida,
até que todas as árvores morram,
o planeta morra e a vida se extinga
completamente
pra algum Deus ou explosão poder criar de novo.
Thais Vicente
segunda-feira, 24 de março de 2025
domingo, 23 de março de 2025
água-forte
singrando fantasia qualquer
freme um risco
olho azul
dardo ofegante rapto
de um lance
pego acaso
quanto mais faz-de-conta
vigília de bolas de gude
miramar miramar
lufada de cor
irrompe
— prova o Cais
Naila Rachid
sábado, 22 de março de 2025
Um poema de Numa Ciro
passarei a tarde toda
descascando cebolas
só pra chorar sem motivo
Numa Ciro
Marcadores:
clássicos do bolha,
poesia
sexta-feira, 21 de março de 2025
Carrossel
de manhã na
praia eles combinam
o que farão à noite de
noite, na festa eles
combinam de ir à
praia amanhã
Ana Salek
Marcadores:
clássicos do bolha,
poesia
quinta-feira, 20 de março de 2025
Um poema de Natasha Felix
logo farei 22 anos.
me recuso a ir embora antes.
até lá enterrarei um filho. isso não será triste.
não vou embora sem cruzar a fronteira
enterrar esse filho
profundamente
não ser triste.
Natasha Felix
quarta-feira, 19 de março de 2025
Rosa Luxemburgo
passei a maior vergonha
no dia que tu viesse me buscar
usando uma camiseta
rosa-choque
tu só usa preto
e eu sempre reclamo
digo "aff Lukas que tédio"
e eu adoro rosa-choque
a cor o nome
não sei o que deu em mim
certeza que não foi inveja
foi outra coisa mais feia
olhei pra tu e disse
"oxe que cor é essa menino?
e tu
oito anos mais novo
millennial
anos luz à frente
dissesse
"qual o problema? só quem pode usar rosa é tu?"
e eu não soube responder
porque de fato
não há problema
algum
cores são uma invenção
e não têm dono
"pertencem à vida"
(não fui eu quem disse, foi goethe)
Adelaide Ivánova
terça-feira, 18 de março de 2025
Querida
Queria ser homem político
Sujeito herói bom lutador.
Queria ser poeta maldito
Profundo gênio sofredor.
Pronto me Safo do burro querer
És filha da terra e mãe hás de ser
Toda poesia que te queira nascer.
Marina Laurentiis
segunda-feira, 17 de março de 2025
Teima, de Ana Elisa Ribeiro
Às vésperas do casamento, mandou-me um bilhete, re-
presentante máximo de sua franqueza presente e futura:
não lavo, não passo, não sei cozer nem desejo aprender,
não limpo, não seco, não espano. Baixei os olhos, verti
uns pequenos arrependimentos antecipados e me casei.
Ana Elise Ribeiro
domingo, 16 de março de 2025
Ungida
Vem,
Unge-me com santos óleos:
O corpo,
Os cabelo,
A pele,
O plexo solar.
Vem,
Unge-me
Com óleo bento:
A mente,
O espírito
Sedento
De azeite quente.
Vem,
Unge-me,
De cada poro
Transpiro
Gotas de luz,
Toda pura
E poderosa.
Raquel Naveira
sábado, 15 de março de 2025
Para a mão que escreve
A pele soltando da mão
Parece um paço de dança
Parece doença
(embaixo da atadura
há vermes silenciosos
muito empenhados no seu trabalho,
seriíssimos decompositores)
Se for contagioso a esquerda
Escreve estrahno um pequeno desvio,
não se preocupe:
Fim de festa é sempre assim
Freezer vazio
E alguns corpos podres espalhados pela casa
Ana B.
sexta-feira, 14 de março de 2025
O assassinato de Marielle Franco
como apaga um corpo depois
de correr nele um vinho de tanta
fruta gorda e suculenta
você segura nas mãos da vida
e nela há respiração timbre
a pisada de um búfalo
o fôlego vindo das raízes
o vento que bate na areia da pele,
você vê os pelos eriçados
você inclusive se arrepia
e de repente um outro sopro
morde
onde tudo sangra
como que pode
morrer às vezes
ser tão lento
como apaga um corpo depois
depois de a pele que temos
ser tão consoladora
fica um pouco mais
poderia ter dito
mas o vinho por dentro ardia
e mesmo que o corpo ficasse
o elo de ser um animal
já tinha se desfeito
o visgo inteiro vazado
a ponto de nunca mais
poder ser recolhido
como que pode
um corpo inteiro
quebrado
a gente estendendo a mão
que fica mais no vazio
a gente também um corpo
esperando seu quebrado
como pode um corpo inteiro
sumir
mesmo desmembrado
sempre pode ou deve
o desencanto ser admitido
morrer como adormecer
entre as ruínas
as bombas
perder
sopro sangue ar
barco e mãos
atracados mas
pendentes
nos filamentos do espaço
a mão última que acena
sabe porque dói
o impossível
não pode mais.
Tatiana Pequeno
quinta-feira, 13 de março de 2025
Teima, de Laura Assis
Correr ao contrário
o caminho mais claro.
Ciência da escolha
em oposta direção.
Desacreditar a equação
precisa das respostas.
Insistir em tudo
que não tenha
o peso da realidade.
Laura Assis
quarta-feira, 12 de março de 2025
Escuro, de Marilia Kubota
o olhar ficou frio e duro
o mar sem movimento
ondas rápidas, gaivotas sujas.
o tigre ruge
no lençol azul-marinho.
nuvens de fuligem
sobre o pergaminho enrugado:
é inverno no atlântico
a vida tomba diante
do punho fechado.
Marilia Kubota
terça-feira, 11 de março de 2025
Quadrado Vermelho
de banhar também insiste
escorrer a mão ao sexo
cegar o pássaro pela metáfora molhada
você sabe bem
apanhar um número caído
estourar a bolha sociopata:
hoje eu menstruei em desesperos homeopáticos
Carla Diacov
segunda-feira, 10 de março de 2025
Espelho
Tirei as sandálias e, lentamente os meus pés tocaram aquela areia fofa e molhada. Os meus dedos sumiram em meio aos grãos. Como uma descarga elétrica, o meu corpo desligou e ligou. Certifiquei-me que estava de pé. As gotas de chuva caíram como diamantes e ao tocarem o mar transformavam-se em grandes e múltiplos aros de prata entrelaçados. Eu ainda estava de pé. Conectada àquela natureza, não consegui resistir. Caminhei delicadamente em direção ao mar. Mergulhei! Mergulhei mais fundo que pude e ao tentar voltar à superfície, algo impedia-me. Imóvel. Sem ar. Queria gritar! Berrar! Ar! Desliguei. Na tentativa de gritar pela última vez busquei forças. Acordei.
Indira Kupfer
domingo, 9 de março de 2025
Jogo de prefixos
Quero
unir
o inútil
ao agradável.
Os que
desejam
o útil
fiquem
também
com
o desagradável.
Bianka de Andrade
sábado, 8 de março de 2025
Mulher
À noite, tempestade,
amanheço nublada
à janela, manhã de inverno,
reflexos internos,
tantas minhas metades.
Espelho quebrado dá azar.
Há quem se mire
todo, inteiro de tudo?
— Não.
Eu nuca
bebo. Minto às vezes
para consolar o mundo
que anda triste.
Anoiteço toda inverno,
quente numas partes,
labareda noturna
sou, em toda parte, Mulher.
Jade Prata
Jade Prata
sexta-feira, 7 de março de 2025
Poema Imemorável, inédito de Noélia Ribeiro
caligrafia de lapsos
língua geográfica em versos voadores
química de significantes
pai e mãe anímicos
profusão de pré-histórias
poema-platô: alecrim-vinagre-tinta-sal
tentativa de reaver o contorno original
Noélia Ribeiro
Noélia Ribeiro
quinta-feira, 6 de março de 2025
Um poema de Nadiá Paulo Ferreira
Quando me abraças
mais uma vez
esse verbo amar
tantas vezes escrito
com surpresa
vem dizer algo
ultrapassando
qualquer verbo transitivo
Nadiá Paulo Ferreira
quarta-feira, 5 de março de 2025
PUTA DA BABILÔNIA
sou apenas como são os passarinhos:
não tenho entendimento do silêncio
mas
sou como são todas as mulheres
também:
mais fera que gente
ainda que por filosofia,
maldição ou benção
Fera de colo
querer de besta:
amar, matar e deitar, depois
beber água
cuidar das plantas
acompanhar uma vela inteira queimar
pensar eventualmente na morte
porque
se o apocalipse se deu
pela Puta da Babilônia
chama-me Babilônia
chame-me Puta
Ágatha Kreisler
terça-feira, 4 de março de 2025
segunda-feira, 3 de março de 2025
Eva, de Laura Liuzzi
Eva também é ave
palavra voo
desde cima
o cimo da pedra:
tártaro
dentista do limo
escalavra
a pedra da palavra pedra.
Laura Liuzzi
domingo, 2 de março de 2025
Dama da noite, de Marilena Moraes
Naquela noite, não houve aula no curso supletivo. Os alunos comentavam, atônitos, a manchete do jornal popular que passava de mão em mão.
"Exorcismo na boate" — "Professora de dia, stripper à noite, Bernadete dos Santos, 30 anos, também conhecida como Lucimar, foi assassinada por seu aluno, José Tenreiro, inconformado ao descobrir a segunda identidade da professora do curso supletivo que frequentava. Apresentando sinais de desequilíbrio mental, Tenreiro foi preso em flagrante, tendo ainda nas mãos o punhal de prata que cravou entre os seios da bailarina/professora em meio ao show da boate Clamores."
Era o texto da notícia que um engraçadinho fizera questão de colar no quadro-negro, contando a morte trágica da professora, Bernadete de dia, de noite Lucimar.
Ar de beata, rosto lavado, poucas palavras, tinha nome de santa e cheiro de talco. Dava aulas no supletivo, num bairro de gente simples. Com os alunos, o relacionamento era apenas cordial.
Ninguém poderia imaginar que a professora pacata, de roupas discretas, saía dali direto para Copacabana, onde, às três da manhã, estrelava o show da boate Clamores.
"Sex alive" — anunciava o neon. Maquiagem pesada, óleo no corpo, Lucimar se roçava no parceiro, sem sequer olhar para o seu rosto e sem encarar a plateia de homens agitados, que gritavam palavras que ela fingia não ouvir. Uma amiga a levara para a Clamores, convencendo-a de que podia fazer bom uso do belo corpo. Se o dinheiro das aulas era pouco, as notas verdes dos turistas ajudavam bastante no orçamento.
Religião? Nunca tivera. Pudor? Há horas em que a necessidade fala mais alto. Ao fim de alguns meses, o prazer de estar no palco, nua e exposta, passou a ser a razão mais forte de sair toda noite do Méier direto para a Princesa Isabel.
Não poderia, no entanto, imaginar um aluno na plateia. Tenreiro voltou na noite seguinte e em outras tantas noites. Reconhecera a professora na mulher de roupa colante e meia arrastão que saía da boate quase de manhã, pendurada nos sete centímetros de salto, abraçada a um gringo qualquer.
Passou a segui-la, e a ideia de purificá-la, fazê-la voltar a ser apenas a professora, tornou conta dele. Limpar seu corpo, salvar sua alma foi a missão a que
se propôs.
Hoje, ele está internado no manicômio judiciário, constatado o problema mental.
A professora foi homenageada na entrega dos diplomas, mas os alunos preferiram louvar suas qualidades de dama da noite, a bailarina de pernas bem feitas, seios redondos e sexo depilado.
A comemoração, na Clamores, correu por conta da casa.
Marilena Moraes
Noite
saí tropeçando
fuligens.
rastro de pólvora
cola, descola
medo da sua língua
na minha — segurei.
a mão
quente
medrosas gotículas brotaram
do útero.
essa flor
é
para você.
Letícia Simões
Marcadores:
clássicos do bolha,
poesia
sábado, 1 de março de 2025
Mês da mulher no Plástico Bolha
No Plástico Bolha, todos os dias são dias para autores, autoras e autorxs. Mas nesse março de 2025, fizemos uma seleção especial no blog, juntando autoras parceiras do PB, com textos e poemas que mostram a marca da escrita feminina: uma pequena antologia de autoras de nossa literatura atual.
Confira, ao longo desse mês, a seleção de autoras parceiras, que selecionamos especialmente para a celebração do mês da mulher. E não se esqueça que, independentemente do seu gênero, o Plástico Bolha está de portas abertas!
Assinar:
Postagens (Atom)