sábado, 31 de janeiro de 2009
As pazes de Terturiano, de Rafael Viana
Terturiano cortava cenouras
E resolveu cortar Márcia um dia
A delegacia de mulheres não gostou
E resolveram cortar Terturiano da sociedade
Jogaram-lhe numa cela, com dezesseis Terturianos
Para cinco metros quadrados
Enquanto o juiz resolvia quem iria cortar desta vez
Numa briga na penitenciária
Cortaram Terturiano com quatro iguais facas opostas
E cortaram Terturiano em nove pedaços indefectíveis
Márcia, no canal onze, assistiu a rebelião com suas quatorze cicatrizes
E acendeu seis velas de sete dias para agradecer os cinco palmos de terra rasa
Que deus no nono dia de descanso sábiamente lhe reservou
Rafael Viana
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
Panapaná, uma poesia de Raquel Naveira
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Já viram um panapaná?
É uma onda interminável de borboletas
Que pousam sobre o pântano fumegante,
Batendo as asas impacientes,
Sorvendo sais da lama,
Num desassossego
De seres que não cansam.
Já viram um panapaná?
As borboletas formam nuvens,
Miraculoso caudal
De pétalas alaranjadas,
Perdidas e ligeiras,
Em busca de flamas brilhantes.
Crisálidas,
Meninas aladas,
Espíritos viajantes,
Esvoaçam como almas saídas
De estranhas moradas.
Atravessei o panapaná:
Era um banhado,
Um brejo
Banhado de flores,
Virei fada
Do lado de lá.
Raquel Naveira
Mauro Rebello: show do Futuro Estouro

Mauro Rebello é músico, poeta e assina a coluna Futuros Estouros do jornal Plástico Bolha, onde divulga novas bandas e cantores. O show de amanhã marca o lançamento de seu primeiro CD, feito de forma independente e que demorou quatro anos para ficar pronto. Vamos todos prestigiá-lo! Você pode conhecer mais do trabalho de Mauro em seu MySpace.
SHOW MAURO REBELLO
DATA: 31/01/2009, ÀS 21H
LOCAL: CLUBE NÁUTICO MANDALA
(AV. PREFEITO DULCÍDIO CARDOSO, 777, BARRA DA TIJUCA)
ENTRADA GRATUITA
Puzzles: A Rotina Categórica de Kant

Ninguém escapa aos olhos dos outros e hoje, Kant estando vivo, seria personalidade garantida para a próxima edição da Casa dos Artistas. Que voyeur (eu não seria capaz de dar outro nome para o telespectador) não julgaria bela a experiência sublime de observar os meandros e as reticências do comportamento obsessivo daquele que tanto insistiu no conceito de sujeito transcendental, tornando-se quase que o teórico de um voyeurismo metafísico?
Dando, então, pirulito na boca de criança, palmas para o palhaço ou pão e circo para os cidadãos de Roma, contarei alguns a posterioris sobre a vida de Kant para que, a partir dessas brechas de subjetividade, possamos penetrar, com nossos olhos curiosos, em seus a prioris mais íntimos. Antes de começar a novela, uma pergunta sibila em minha mente cheia de galhofas: será que no detalhe de um comportamento está contida a chave de interpretação de um gênio? Fica a pergunta em off, como se ocupasse o espaço das charges de cartunista antes do programa, ou fosse o comercial de geladeira na hora do intervalo.
Uma curta biografia de Kant certamente seria uma caricatura de sua filosofia, fazendo ver exemplos práticos de sua atitude teórica. Nascido na Prússia, ganhou condições de ter uma educação abrangente por receber auxílio financeiro de um parente próximo. Entrou na Universidade com 16 anos e, aos 22, escreveu sua primeira obra, intitulada “A Avaliação das Forças Vivas” acerca de uma questão levantada por Leibniz. Os últimos dias de sua vida foram relatados por Wasianski, um ex-aluno que se tornou fiel companheiro na velhice, fase mais angustiante da vida de Kant. Thomas de Quincey, no livro Os últimos dias de Immanuel Kant, lançado pela Editora Forense Universitária, relata os depoimentos daqueles que permaneceram ao lado do filósofo e puderam observar suas manias e hábitos tão peculiares.
É bem verdade que a vida de Kant era um pouco irritante: acordava todo dia abrindo o olho esquerdo antes do direito e pisando com os dois pés ao mesmo tempo do lado de fora da cama porque não era muito dado a superstições. Vestia-se rapidamente para estar, pontualmente, às cinco da manhã, sentado à mesa para o desjejum. Nessa hora procurava manter-se em silêncio para capturar toda a potência contemplativa contida em sua xícara de chá. Quando uma não o saciava, contemplava mais e bebia duas, três, várias, até que seu momento estivesse pleno. Dirigia-se então ao escritório para planejar sua aula com a ajuda de um cachimbo e um pouco de fumo.
O aspecto mais interessante de sua rotina era a organização da mesa para o almoço. Kant nunca almoçava sozinho. Era um adepto rigoroso da regra de Lord Chesterfield – de que os convivas em sua mesa, incluindo ele próprio, não fossem em número inferior ao das Graças nem excedessem o das Musas. Então convidava, diariamente, uns poucos amigos para o almoço, de modo a formar um grupo de no mínimo três e no máximo nove convivas, e, por ocasião de algum festejo, de cinco a oito pessoas. Tomava aquilo que ele próprio chamava de “tônico”, um vinho da Hungria ou do Reno e, na falta deste, uma bebida inglesa chamada Bishop. O copo ficava servido, mas não bebia até todos estarem a postos e confortáveis. Para que a bebida não se evolasse, cobria-a com um papel. Após o pequeno ritual de arrumação de seu vinho, ia vestir-se para receber seus convidados em trajes de cerimônia.
A mesa era composta de um número suficiente de iguarias para atender à variedade dos gostos. Kant mostrava desprazer ao perceber espírito cerimonioso em seus convidados e tinha horror a ter que esperar o último convidado. Antes de chegarem à mesa de almoço, Kant fazia comentários sobre as condições climáticas e o assunto era desenvolvido durante a parte inicial da refeição. Questões mais graves, como eventos políticos, jamais eram introduzidas antes do almoço. Raramente dirigia a discussão para algum aspecto de sua própria filosofia. Os temas de discussão eram relativos à filosofia da ciência, da química, da meteorologia, da história natural e da política.
Além do cuidado com os temas para conversas e da variedade de comidas, o filósofo buscava convidar pessoas que formassem um grupo heterogêneo para garantir uma variedade suficiente na conversa: desde um número adequado de jovens a representantes de todos os tipos profissionais. Como verdadeiro anfitrião que era, nunca deixou de cumprir normas do bom trato social, e acabou ficando conhecido como um verdadeiro artista na composição de almoços.
Encerrado o almoço, Kant ia, sozinho, fazer seu famoso passeio de três da tarde. Passeio cumprido em hora tão precisa que, diz o mito, toda a cidade de Koningsberg acertava seus relógios quando Kant passava. Esse passeio era feito sem companhia porque queria preservar os outros de suas longas falas e também porque desejava respirar apenas pelas narinas ao caminhar. Dizia que assim preservava-se da rouquidão, de tosses e de indisposições pulmonares.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Receitas deliciosas no Quitanda de Minas
AB-SINTO, poema inédito de Mia Vieira

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Clube da Leitura e a filha de Machado
Um belo poema de Paloma Espínola

Quando retiro os óculos do rosto
percebo as coisas pelo que suponho.
Meu Deus, duvido tanto do que vejo,
As impressões me dão um tênue beijo
No entanto, sei: somente ali eu pinto
a tela desse meu olhar estreito,
Teatro: Apropriação e Los Engrenajes

O convite teatral vem de nosso amigo Patrick Sampaio, que lembra que neste próximo fim de semana serão realizadas quatro apresentações a preços populares do projeto Operação Orquestra Improviso. A estréia de Bel Garcia na direção de Apropriação recebeu elogios do crítico Macksen Luiz, do JB.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Defesa do Amor de Cleo e Toni
Mote: Para ambos, o suicídio não foi pecado, mas castigo.

O que seria o suspiro
Sem ter por quem suspirar?
Contra a solidão conspiro
A favor de suplicar
O perdão para o casal
Que junto permaneceu
No pecado mais mortal.
Conhecemos Prometeu
Cujo fogo tem trazido
Não só a sabedoria
Para humanos mais franzinos,
Mas também a orgia
Para os mais desinibidos.
Já diante dos seus olhos
Senhores do júri, eu rogo:
Lembrem de Cleo como era,
Que maldição ser tão bela!
Concedam o seu perdão,
Que Toni já tem sofrido
De embriaguez de paixão:
Enquanto trocavam beijos
Era um colar com calor
Línguas loucas de tremor,
Seios duros como seixos
Apertados contra o peito
Muito antes de no leito
Consumarem seu amor.
Para as criaturas digo:
Não há pior castigo!
Como pena alternativa
Que eles juntos permaneçam
Como os dois eram em vida
Pois que ambos só mereçam
O veneno que os matou.
Pior pecado seria
viver como quem nunca amou.
Desafio: escrevendo um poema-cabeça...
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Vale mandar textos de poesia, prosa ou qualquer outra modalidade que rompa com essas especificações para o nosso e-mail: redacao@jornalplasticobolha.com.br. Todos estão convidados a participar e o melhor texto será publicado também no jornal impresso. Então, está esperando o quê? Escolha a sua imagem e coloque a cabeça para funcionar!
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
O homem que matou Plutão, Tiago Maviero

Poema: A Corrupção dos Santos Libertinos
O doce ardor de minha estória
Juntas, parecem complementar-se
Ligam-se neste Universo sombrio
O Universo lascivo...
Nem o Pai assume os erros
Apenas apodera-se da misericórdia carnal...
O aroma fortificante deste ser
Ilumina-me pelos outros
Mas estas adoráveis e ignorantes pessoas
Nunca saberão,
Nunca tocarão.
Vamos nos calar frente ao caos
Calemo-nos frente à discórdia
Barulhemo-nos no momento certo
O momento que o pai descer
E escolher todos os seus crentes
Com aquela discurseira amarga
Discursos enfadonhos são necessários...
Gilvan Irineu Oliveira
Bolhas em Desfile — Letras está na moda!
Adriana Maciel faz show amanhã, no CCC

domingo, 25 de janeiro de 2009
o louco apaixonado pela diva
o movimento não faz muito mais.
o movimento engana, tabu maior.
o movimento é tábua de transferência,
a psique te pergunta, Freud no banheiro.
das coisas leves, malditas e fundas,
virá o gracejo do cinismo mitológico,
a idade do perdão, a idade do adeus
– a idade de dizer a idade de dizer a –
o infinito presságio, infinito refúgio,
solidão repartida em sorrisos técnicos.
Leonardo Marona
Leonardo Marona é a capa da próxima edição do Plástico Bolha, com o poema Clint Eastwood. Quem quiser pode conferir mais de seu trabalho em seu blog aqui.
sábado, 24 de janeiro de 2009
Corujão da Poesia — na livraria diVersos
Além de ser um dos pontos de distribuição do jornal Plástico Bolha na Barra, também é lá que acontece o evento — já tradicional na zona sul da cidade — Corujão da Poesia, Universo da Leitura. Nele, o microfone está aberto democraticamente para quem quiser ler suas poesias, liberar a criatividade e permitir que seus talentos reverberem. Quem quiser pode conferir o blog do Corujão da Poesia aqui. O próximo é nessa segunda, dia 26 de janeiro.
A livraria diVersos (anexa ao restaurante Balada Mix) fica na rua Érico Veríssimo 843, no Jardim Oceânico, Barra da Tijuca — RJ. Para mais informações o telefone é 2495-0040.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
4 novas colunas no site do Plástico Bolha
Poema inédito de Aline Miranda
Posso pintar, mas as estações não são iguais.
Cada instante é navio que parte,
mesmo junto não reflete o improvável da vida.
Quero, procuro, estou.
Depois, nada. O assim, assim é.
Não sou quietude,
sou plenitude,
sou fim.
Aline Miranda e Juliana Veiga
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Champagne, poema de Gustavo Gadelha

Ó, vida passageira!
Passa logo, qual água de cachoeira.
Tão difusa e espumante
quanto constante e cristalina:
profana e divina.
Gustavo Chataignier Gadelha é formado em Jornalismo, fez mestrado em Filosofia na PUC-Rio e, agora, cursa o doutorado, também em Filosofia, em Paris. Já publicou dois textos no Plástico Bolha, sendo este o primeiro. Mais um Clássico do Bolha para os leitores do Blog!
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Leitor de Plástico Bolha: tipo em ascensão
Está cada vez mais comum esbarrar com algum desses pelas grandes cidades. Você se reconhece? Já viu algum por aí? Envie sua foto com o PB para o nosso e-mail jornalplasticobolha@gmail.com.
Milésimo de Segundo, por Tatah Gouveia
Magnífica Cidade, por Maurício E. Fonseca
Por entre as serras das Gerais se faz memória
É Ouro Preto encenando as tuas glórias
E proclamando tua grandeza infinita.
É testemunha o Brasil das mil vitórias
Da merencória e antiga Vila Rica
Em voz triunfante Ouro Preto glorifica
Os grandes feitos que compõem a tua história.
Oh! Que esplendor, que magnífica cidade!
Do teu silêncio nasce uma inspiração
As tuas obras nos refletem, na verdade,
A grande arte da mais pura perfeição.
És, Ouro Preto, na sua singularidade,
A arte máxima da nossa tradição.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Breve: Plástico Bolha 2009 — leve literatura
- Antonio Mattoso e novo CD de Calcanhotto na coluna Oráculo
- A música em análises, notas e previsões por Santuza C. Naves, Mauro Ferreira e Raïssa Degoes
- Poemas de Ramon Mello, Letícia Simões & Ricardo Domeneck
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Concurso "Uma Viagem para Pasárgada"

O objetivo do concurso é escrever um poema de no máximo 45 linhas respondendo à pergunta: “Se você fosse para Pasárgada, como seria a sua passagem por lá?” Para conferir o regulamento e participar acesse o site da editora aqui.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Uma mágica de agora (em diante)
Agora que entendi que antes doido que doído,
monto uma prática para insignificar-me.
Agora, que me influíram esses astros de que tudo é fluido,
vago vagaroso divagando meus encontros.
Hoje que sei que só sou hoje e ontens,
não quero me secar do banho de orvalho de retinas.
Energias de gente-mundo me cambalhotaram pássaro.
E agora, agora mesmo, agorinha,
sigo mais a rolar vôos de alegria.
Leandro Jardim, do livro todas as vozes cantam, Ed. 7Letras
Blog do Bolha retoma as suas atividades
O Blog do Bolha acaba de retomar suas atividades! Para você que gosta de literatura, aqui tem poesia, prosa, os textos clássicos do jornal, notícias, divulgação de eventos, efervescência cultura e muito mais .
Para divulgar eventos literários ou mandar seus textos, basta enviar seu material para nosso e-mail, jornalplasticobolha@gmail.com . Estamos esperando
A próxima edição impressa do Plástico Bolha, de número 25, já está a caminho...
Que 2009 venha com tudo!
Abraços da Equipe do Plástico Bolha
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
Blog do Plástico Bolha em breve recesso
Olá, querido leitor,
.
o Blog do Bolha entra de férias agora, mas volta em 14 de Janeiro! Aguardem... Feliz Natal e um ótimo fim de ano para todos!
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Feira de livros no Campo de São Bento
Três Constructos, um poema de Lucas Viriato

Existe mais verdade
no rastro da cobra
que rasteja no chão
escrevendo na areia
do que nessas palavras tolas
mera observação, por certo besteira.
Existe mais verdade
em qualquer vôo de pássaro,
na invisível movimentação de ar
escrita com a ponta das penas,
do que nessas palavras fugazes
tentativa de contemplação digna de pena.
Porém, não fossem essas palavras hábeis,
zumbindo entre o céu e o chão,
nunca que estaríamos aptos
para ver verdades alheias
a escrita invisível do pássaro,
o rastro da cobra na areia.
Lucas Viriato de Medeiros
Do Livro Retorno ao Oriente, 7Letras, Novembro de 2008
Show de Do Amor, próximo Futuros Estouros
.Para o próximo número, quem assinará a coluna será Raïssa Degoes, que fez uma entrevista exclusiva com a banda Do Amor, composta por Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado, Gustavo Benjão e Gabriel Bubu. Certamente você já deve ter visto algum deles por aí, tocando com o Caetano, Los Hermanos, Lucas Santana entre muitos outros artistas.
Quem quiser vê-los, todos juntos, antes da próxima edição, pode ir ao show do Do Amor, este sábado, no Cinemateque, em Botafogo. O evento ainda contará com festa à fantasia, gravação de clipe, apresentação de DJ’s e... aniversário do Bubu, guitarrista da banda.
Do Amor já se apresentou em diversos estados do Brasil, incluindo São Paulo, Bahia, Rondônia e o Distrito Federal. Quem quiser conhecer um pouco mais, pode visitar o seu MySpace aqui.
SHOW DA BANDA DO AMOR
SÁBADO, 20 DE DEZEMBRO, 21 H.
Entre na comunidade do Plástico no Orkut!
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Triagem, um novo poema de Lasana Lukata
Miniatura n º. 18, de Marcelo dos Santos
O direito à fala. Quem o dá? O que o dá. A fala que se escreve, riscada, um dito que rasga o outro, interrompe-o, sobretudo. Nesse estágio, nesse “aquém do logos” (Derrida em A farmácia de Platão), precisamente lá, encobrem-se todas as falas de direito, no impresso. Um direito encobre o outro. O direito que advém do legislado, do legitimado, do legível encobre como uma sombra a região das falas. O privilégio da letra é civilizatório. O texto é uma permissão dada à fala para falar, este “pronto para o prelo”, quando “ficou resolvido que deveríamos conceder-vos esta nossa permissão pelo citado motivo” (idem), autorização pelo rei; isso interrompe todas as outras falas, preenche os espaços em branco. A fala se faz lei. A lei a atravessa. Logo, constam códigos do escrito, direitos de autoria, crimes contra a violação, contabilidade da produção do escrito. A literatura tenta perverter esse literal-lei, é uma tentativa de abertura, de violência. No buraco desse corte, ela vê a fera não-civilizada. Será que precisaríamos ainda fazer a ressalva de que a historiografia crítica é também uma história da lei?
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Blind Date, um texto de Marilena Moraes
Alto, louro, olhos azuis, mas de óculos, lentes grossas.
Baixa, morena, tão comum, olhos castanhos, sem óculos, tiques ou manias; essas coisas que marcam as pessoas.
Ela passou devagarzinho pela porta do bar. Lá estava ele, encostado no carro.
Reduziu, quase parou. Lá estava ele. Alto e louro.
Pisou fundo no acelerador.
Marilena Moraes
Silviano Santiago no próximo Plástico Bolha!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Marla de Queiroz lança Flores de Dentro

Amanhã, a poeta Marla de Queiroz, vai lançar seu livro de estréia Flores de Dentro no Espaço Multifoco, na Lapa. Além da noite de autógrafos, o evento ainda terá a apresentação de dois DJ’s tocando música brasileira a noite toda. Marla é mais uma que passa da internet para o impresso. Quem quiser, pode conferir o blog da autora aqui.
TERÇA-FEIRA, 16 DE DEZEMBRO
A PARTIR DAS 19H
ESPAÇO MULTIFOCO — Av. Mem de Sá, 126 – Lapa – RJ
O Solilóquio do Príncipe
Verdade seja dita,
gostaria que ela
me desbeijasse,
transformasse-me de volta
no sapo que eu era
e criatura feliz
naquele pequeno lago
no Tennessee.
O que posso dizer?
Devolva-me as noites
quando desafiei a lua,
gorda e redonda,
a descer
e nadar nua
até a alvorada.
Esses calções de veludo,
o alvoroço que saúda
minhas aulas de canto,
a fanfarra que soa
quando engulo mosquitos,
nada aqui se compara
àqueles momentos
em que ela despia o manto,
testava a água
com os dedos do pé
e afundava, prateando
o lago escuro
e nadava ao som
do barítono retumbante
do meu gracioso grasnido.
.
domingo, 14 de dezembro de 2008
Canto XXIII da Odisséia traduzido e comentado por Rafael Huguenin
. Pound
E postou-se-lhe então sobre a cabeça e disse:
“Ergue-te, filha amada Penélope, e veja
Pois Ulisses voltou, que há muito se perdeu.
E matou pretendentes que toda tua casa
e tuas posses comiam oprimindo-te o filho.”
Respondeu novamente Prudente Penélope:
tanto destemperado fazer o que é são
como sóbrio fazer o que tem pouca têmpera.
Decerto te enlouquecem, ama outrora sã.
Zombas-me, eu que tenho alma em polipesar
do sono que meus olhos ata e brando enleva-me,
sono bom que eu não durmo desque ele se foi
para o Tróiço maldito que o nome não ouso.
Mas Eia! Vai-te agora e encerre-se no quarto,
pois se outra das escravas dentre as muitas minhas
vem aqui e falando tais coisas me acorda,
curta e grossa no quarto a poria em castigo,
mas disso com certeza a velhice te salva.”
Respondeu novamente Ama Amada Euricléia:
“Não zombo-te, querida, mas digo em verdade
Pois Ulisses voltou, em verdade declaro,
o estrangeiro, que muitos na sala insultavam.
E Telêmaco apenas há muito sabia
mas astuto ocultou os planos do seu pai
Odisséia, Canto XXIII - Versos 1 ao 31
Comentários
Nossa humilde tentativa, antes de tudo um esforço de um apaixonado pela poesia pouco afeito aos rigores que o estudo das línguas clássicas exige, é fruto de um estudo que realizamos acerca da poesia oral grega e da tradução de algumas partes da Odisséia. A transcriação que ora apresentamos, em versos alexandrinos, constitui apenas uma dentre as inúmeras possibilidades de invenção poética que o texto grego oferece aos poetas de língua portuguesa. Entre a condensação máxima da tradução decassilábica obtida por Odorico Mendes, que o obrigou a pular versos e a criar uma série de neologismos e novos arranjos sintáticos, e a tentativa de Carlos Alberto Nunes de buscar um metro equivalente ao hexâmetro grego, que, a despeito da fidelidade em número de sílabas ao original, não constitui um metro típico da poesia de língua portuguesa, optamos pelo verso de doze sílabas, o metro regular mais largo de nossa tradição.
A parataxe, isto é, relações coordenadas, é uma característica fundamental da poesia oral e, segundo alguns, da própria mentalidade de uma cultura de oralidade primária. A maioria das traduções contemporâneas de textos arcaicos tende a projetar sobre o texto antigo critérios discursivos que não se aplicam devidamente ao contexto da época. É mais cômodo ao ouvido moderno estruturar os enunciados de forma hipotática, isto é, estabelecendo relações subordinadas/lógicas entre eles, do que tentar ouvir o texto em toda a sua estranheza originária. No entanto, nossos critérios lógicos não se aplicam, de forma alguma, a um texto composto provavelmente por volta de 800 a. C. Sendo assim, tentaremos utilizar, sempre que possível, relações coordenadas.
Verso 7 – A parte inicial deste verso, êlth' Odyseùs kaì oîkon ikánetai, é repetida mais adiante no verso 27, o que caracteriza a utilização de uma fórmula, recurso típico da poesia oral. Cerca de um terço da Ilíada e da Odisséia é constituído por repetições, ipsis litteris, seja de versos inteiros, seja de partes menores de versos, chamadas fórmulas. O poeta homérico possuía um vasto repertório de expressões formalizadas, que ele utilizava em contextos métricos específicos, de modo a facilitar a improvisação. Qualquer semelhança com o nosso repentista não é mera coincidência.
Verso 10 – A parte inicial deste verso (tên d'aûte proséeipe) é repetida adiante, no verso 25, o que constitui outra utilização de fórmula. Traduzimos a expressão perífrôn Pênelópeia por Prudente Penélope, grafando com maiúscula o adjetivo de modo a caracterizar melhor o conjunto nome-epíteto, o tipo de fórmula mais comum nos poemas homéricos. Caso contrário, correríamos o risco de sugerir, na tradução, algum tipo de uso adverbial, certamente inapropriado.
Versos 12-13 – Os dois versos constituem um paralelismo, recurso largamente utilizado na poesia homérica e na poesia oral de modo geral. Fizemos uma tentativa de reproduzir, ainda que de forma provisória e um tanto arbitrária, a aliteração sugerida pelo emprego de quatro palavras com a mesma raiz: áphrona (acusativo singular de a-phrôn, palavra composta de um alfa privativo mais a raiz phrên, que pode ser traduzida, literalmente, por sem-entranha, mas também por demente, sem juízo, tolo, etc.), epíphrona (acusativo singular de epí-phrôn, que pode ser traduzido por pensador ou prudente), chaliphronéonta (particípio ativo acusativo singular do verbo chaliphronéô, composto por chaláô, que significa perder, mais a raiz phrên. Pode ser traduzido, literalmente, por que perde entranha ou perdendo entranha). E, por fim, saophrosynês (genitivo singular da forma poética de sôphrosýnê, palavra composta por sôs, que significa seguro, saudável, e phrên. Pode ser traduzida por temperança.) Um dos modos possíveis para manter a mesma raiz nas quatro palavras é utilizar os termos destemperado, têmpera, intemperante e temperança.
Verso 14 – Nossa opção (boas têmperas) para a expressão phrénas aisímê, que pode ser traduzida, literalmente, por entranhas corretas, soa esquisito em português. Tem obviamente o sentido de ter juízo, segundo o léxico Liddell & Scott. Isso explica-se pelo fato de que os gregos situavam nas entranhas, phrénes, o centro de atividades intelectuais, emotivas e intencionais. Phrên é equivalente ao termo latino praecordia, que pode ser traduzido por diafragma, coração, peito, vísceras, sentimento, etc.
Verso 15 – Polipesararosa, isto é, cheia de pesares, é nossa solução para polypenthéa, acusativo singular de poly-penthês, palavra composta de polýs (muito) mais pénthos (pesar). Acreditamos que o português é rico o bastante para traduzir qualquer expressão grega. O que falta é um pouco de esforço, e alguns quilômetros a mais de leitura dos nossos quinhentistas.
Rafael Huguenin é aluno do mestrado em Filosofia na PUC-Rio e, segundo ele mesmo, para sua desgraça, também é poeta e tradutor. Além disso, ainda acaba de terminar uma outra graduação em Letras (Português-Grego), na UFF.
Já publicou dois poemas no Plástico Bolha e, dessa vez, enviou essa belíssima tradução (ou transcriação) em versos alexandrinos do canto 23 da Odisséia, de Homero, seguida de alguns comentários.
Neste breve texto, podemos ver o quanto nosso amigo domina o assunto e o quão fascinante é a dedicação de algumas pessoas pelos textos clássicos. Sempre admirei muito pessoas que passam horas de suas vidas em frente à Ilíadas, Odisséias, Bhagavad Gitas ou Bíblias, destrinchando termos, analisando escolhas, chegando um pouquinho mais perto de outros tempos, de civilizações que já não estão mais por aqui. Esse tipo de estudo, que cruza os séculos, faz parecer que os 20 anos de espera de Penélope nem são tanto tempo assim.
Viva Junito Brandão e todos aqueles que usam o passado para nos fazer entender o presente e construir o futuro.
Corujão da Poesia faz arrecadação de livros
Centro de Espirituosidade Mãe Ida
. Letícia Féres
sábado, 13 de dezembro de 2008
Novo poeminha de Isabel Diegues
Estava péssima.
Me olhei no espelho e
não estava tão péssima assim.
Eu me conserto
para a platéia que sou
eu mesma.
.
Isabel Diegues
.
.
.
Isabel Diegues é diretora e produtora de Cinema. Desde 2004, começou a se aventurar pelas Letras. Este ano, nossa amiga de Plástico Bolha abriu uma editora chamada Cobogó, que publicou o livro Saga Lusa, de Adriana Calcanhotto, além de livros sobre a Bienal de São Paulo.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Estátua no centro da cidade
Lançamento do Bondinho no Cinemateque
.The Prince’s Soliloquy
Truth be told,
I wish she would
unkiss me,
turn me back
into the frog I was
and happy being
in that small pond
in Tennessee.
What can I say?
Give me back nights
when I dared the moon,
fat and round,
to step down
and skinny dip
until dawn.
These velvet britches,
the foofaraw that greets
my singing lessons,
the fanfare raised
when I swallow gnats,
nothing here even close
to those moments
when she dropped her cloak,
tested the waters
with her toes
then slipped in to silver
the dark pond
and swam about
to the booming baritone
of my lovely croak.
Ricardo Sternberg
Ricardo Sternberg é carioca, mas mudou-se para os Estados Unidos com a família aos quinze anos de idade.
Bacharel em literatura inglesa pela University of California, Riverside, fez mestrado e doutorado em literatura comparada na UCLA. Seus poemas já foram publicados em revistas como The Paris Review, The Nation, Poetry (Chicago), Descant, American Poetry Review, The Virginia Quarterly e Ploughshares. Publicou The invention of honey (1990, reeditado em 1996), Map of dreams (1996) e Bamboo church (2003, reeditado em 2006).
Desde 1979, vive no Canadá, onde dá aulas de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Toronto. Escreve quase exclusivamente em inglês, mas não nega a influência de Bandeira, Drummond e Cabral.
Em 2007, fez uma visita à PUC-Rio, apresentando uma pequena palestra para os alunos da Oficina de Poesia do professor Paulo Henriques Britto. Nesta ocasião, Sternberg enviou ao Plástico Bolha cinco poemas. Quatro deles foram traduzidos por Marilena Moraes, Mariana Lopes Peixoto e Luisa Noronha, todos com a supervisão de Paulo Britto.










