quarta-feira, 31 de março de 2010

PRETO NÃO É COR — de Sérgio Bernardo

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O homem queria o arco-íris nos jardins de Belém
mas também não queria o arco-íris nos jardins de Belém
por isso a dúvida na ida no elétrico número 15
e ainda a dúvida na volta no elétrico número 15

Na ida ele olhava as pessoas sentadas e em pé
a atenção desprezava quase todos os rostos
a atenção só se fixava nas velhas ciganas
de saia preta, sapatos pretos, manto preto, véu preto
e as cores das echarpes indianas compradas por quilo
elas só pediam a seu deus pra vender tudo
tudo do que precisavam era de alguns euros
e foi com esperança que desceram do elétrico número 15

Os coloridos — disseram com bocas sem dentes —
os coloridos seriam sua grande valença
e atravessaram com velocidade a passarela
e o olhar do homem não mais as fixou
viúvas perdidas no arco-íris dos jardins de Belém
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Sérgio Bernardo
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Sérgio Bernardo é nosso leitor de Nova Friburgo, RJ, e escreveu esse poema em Lisboa, em junho de 2009.
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Um comentário:

Cesar disse...

O poema de Sérgio Bernardo é muito instigante ao mostrar esse olhar aturdido com as cores, como alguém que se desloca impunemente entre as escolhas! Muito bom!