segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Neuroses do mundo tecnológico alimentam a tensão de “Curto circuito” com o humor de Luiz Fernando Guimarães


Luiz Fernando Guimarães em "Curto circuito" | Foto de divulgação


Os abalos da saúde mental têm sido matéria-prima de textos escritos para cinema, teatro e televisão. Em "Curto circuito", peça com que o ator carioca Luiz Fernando Guimarães celebra 50 anos de uma carreira que ganhou impulso com o ingresso do artista no grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone, as neuroses de um mundo tecnológico e cada vez mais digital são abordadas com leveza e humor pelo dramaturgo Gustavo Pinheiro.

Ansiedade e insônia são temas filtrados pela estética do riso no espetáculo erguido sob direção de Gustavo Barchilon e em cartaz até 21 de dezembro no Teatro do Copacabana Palace, com ingressos já esgotados para toda essa primeira temporada carioca. Em cena, Luiz Fernando Guimarães divide o palco com Letícia Augustin nesse teatro de esquetes. 

Segura nas intervenções episódicas, a atriz personifica a “amígdala” do cérebro, cuja função na peça parece ser acionar uma crítica sobre o comportamento surtado dos personagens encarnados por Luiz Fernando, esse ator de embocadura própria que faz todo mundo ir ao teatro para rir com ele. 

Sim, rir. Luiz Fernando Guimarães é a alma desse quase monólogo em que a tensão entranhada nos temas abordados em “Curto circuito” e no comportamento escrachado dos personagens é alimentada (e diluída) com um humor evocativo do teatro carioca rotulado nos anos 1980 como “besteirol”. Através desse humor popular, tão ácido quanto livre de ranços de falsa erudição, autor, diretor e atores fazem crítica aos costumes de uma sociedade cada vez mais doente.

Em “Curto circuito”, Luiz Fernando interpreta, no tempo próprio de comédia, um comissário impaciente de um voo em turbulência, um estudante descerebrado na prova do ENEM, um paciente que se sente esquecido no tubo em que faz uma ressonância magnética, um resignado insone e uma atriz que entra em curto circuito do alto do carro alegórico do desfile da escola de samba que a homenageia. 

Em comum, além da habilidade para extrair o riso dos espectadores, os esquetes e os personagens expõem o absurdo da vida e a impotência do ser humano diante de situações-limite. A crítica a um mundo surtado é feita em doses homeopáticas e vem entranhada através da gargalhada, objetivo final de cada esquete. Sob tal prisma, “Curto circuito” se alinha com as peças blockbusters do besteirol carioca de outrora. Há uma crítica mordaz à sociedade e ao bicho-homem. Mas essa crítica vem embalada com o papel do humor para ser mais bem digerida pela plateia.

Autorreferente, Luiz Fernando Guimarães enfatiza, no início e no fim do espetáculo, que se trata de um trabalho comemorativo de 50 anos de carreira. Ao longo dessas cinco décadas, o ator solidificou o elo com o público, e isso é visível no espetáculo. Luiz tem a plateia na mão desde que entra em cena. É dessa cumplicidade que se nutre “Curto circuito”, peça que sai de 2025 com fôlego para continuar estourando bilheterias em 2026.

Mauro Ferreira