segunda-feira, 4 de julho de 2011

do fim e do início, do dez e do onze


se cheguei aqui, não sei por onde comecei. o centro da cidade não me leva a lugar nenhum: passar por ele é mero acaso. é como que topando com joaninhas. pode ser sorte, pode ser azar. à margem, à margem, à margem? talvez a margem do la plata, e só. as orillas do cortázar não andaram comigo, tão pouco vieram pra casa. de lá, observei as meninas de 35 passando, passando, passando como o vento. não quis muita conversa, hesitei, olhei para os lados e, quando ninguém mais me fitava, virei para elas e gritei “me mandem um postal falso dessa cidade arrependida”. o depois ninguém quer saber. os olhares estão comigo e camuflados entre letras tortas de uma mente fugidia. e parece que só olhares: buenos aires não tem voz, não tem música, não tem ruído. e eu grito, eu grito, eu grito. uma cidade quase destruída por sua loucura. não é américa, não é milão: é orilla, orilla, orilla. buenos aires, mi terra querida, gardel te predestinou um futuro trágico, melancólico e doído. e troco tudo isso por um miles davis tranquilizante, mas cheio de sobressaltos. so what? minha paradinha foi, sim, estratégica. queria tanto falar. mas o jazz sem voz é sempre mais agradável. jazz, vinho e fumaça: a combinação ainda não está perfeita. procuro o doce e o amargo da cerveja. troco um, pelo outro e vou trocando de acordo com a música que toca. caminho pelas ruas transladadas da cidade não-proviciana que me oferece bugigangas, camelôs e flores, muitas flores. visto as quinquilharias e penduricalhos como se eu fosse um museu de tudo e carrego a cidade aconchegada em bolsos vazios e olhares cheios. procuro clarissa pelas ruas arborizadas e a vejo no calçadão da florida, claro, calma e feliz. buenos aires é isso, um pequeno buquê de flores barato: de vida curta sem ser pequena.

Renata Gomes


quinta-feira, 30 de junho de 2011

MARIA


Maria acordou sorrindo, sonhou com um tempo onde não havia nada, nem mesmo ela e se sentiu bem. Maria é estranha, mas se sente viva quando tudo parece morto. Maria, Maria! - chama sua irmã – Corre pra cá! Vem ver a festa! Mas ela não vai. Maria não gosta de festas. Maria não gosta de nada, nem de sonhar.

Maria é assim: morta e viva e triste e bela. Semi-perfeita em seu nome curto e beleza dura. Maria é tão blasé que nem sei como ela pode ter uma história. Na verdade ela não tem uma história, ela não tem nada, só uma descrição. Maria não faz nada, não ama ninguém, não estuda, nada aprende. Maria apenas está ali, Maria é como um rosto do outro lado da rua, você nem vê, nem mesmo sabe que ela está ali, mas lá está ela com sua vida e morte e beleza e tristeza. Maria é assim, como um flamingo pegando carona numa kombi cheia, caso você a veja apenas ri.

Maria é um eco, uma resposta vazia e mecânica que grita e grita e grita e acaba. Assim, sem início nem meio nem fim. Maria não pode ter uma história, Maria não aparece na tela nem vai ao cinema nem sabe de nada. Maria é grão de poeira que a gente sopra do dedo, é um dente-de-leão recém-soprado. Maria é o fim da picada.

Mariana D Casals

Café, Tabaco e Cadonda

Um gole de café amargo
Virginal cigarro entre os dedos
Afago
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Atrito, a pólvora acende
Consome, o palito se rende
Entre os dentes
Tragada
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Inspiro fumaça
Expiro neblina
Que a dança disfarça
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Dissimulado prazer
Café e Tabaco
Carol quero você
Não te acho...
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Vitor Granado

domingo, 26 de junho de 2011

Espaço Plástico B. no CEP 20.000

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Espaço Cultural Sérgio Porto

29 de Junho, 20:30h

Programação:


20:30 – Cinecurta CEP 20.000:
“CANTE UM FUNK PARA UM FILME”
de Emílio Domingues e Marcus V. Faustini

21:00 – Microfone Aberto: 2 minutos pra ser feliz!

21:30 – Farani Cinco Três (performance)

21:50 – Ju & Juju (performance)

22:00 – Espaço Plástico B.: Ana B. & Greco B. (poesia e música)

22:10 – Löis Lancaster e conviados: E. E. Cummings (poesia)

22:20 – Alice Caymmi e Rafael Rocha (música)

(R$ 5,00)

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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os Azuis: Lançamento do primeiro cd


Show da Banda Os Azuis no Teatro Odisseia dia primeiro de Junho as 22 horas. Confiram!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Cidade aTravessa

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Evento que contará com a participação do nosso amigo do bolha Paulo Henriques Britto. Também o lançamento do livro Promessas Provisórias de Lucas Nicolato.
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Da Janela do Sobrado

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– Ah, mas eu casava com qualquer um – diz a Joana –, porque todos eles são bonitos!
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– Pois é – Regina concorda, e acrescenta: – Os que não têm beleza no rosto, a beleza vai no corpo.
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Essa conversa, meu amigo, segue embalada. Joana rasga elogios aos rapazes, Regina os estica do outro lado. Eu da janela do sobrado tudo ouço: rádio de pilha ligado no jogo do Fluminense pra disfarçar a espionagem. Parecem duas meninas novas, com menos de dezesseis, não fosse uma ter vinte e lá vão tantos e a outra passar dos quarenta. A mais velha é a Joana, ou a mais experiente, como dizem os cavalheiros.
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Pois bem, com seus quarenta – ou quase tantos –, Joana não perde o desejo. Não pode ver um homem logo sonha com o malandro a seu lado, na cama, ou em cima dela, ou no portão, de costas, saindo pra trabalhar; afinal, que importa que ele volte tarde da noite, com cheiro de bar e marca de unha de outra mulher? Ela quer casar, isso é que é. Ela quer casar e sonha isso toda vez que pousa a cabeça no travesseiro. Assiste à novela só pra matar a saudade de como se beija. A cada cena picante, fica com água na boca. E, por mais que os moços desdenhem, está longe de ser feia; tem o cabelo vermelho, felpudo, e, pra deixá-lo apresentável, passa horas na casa das amigas cabeleireiras: todas entusiastas, “mais ou menos profissionais”, dizem. Um cabelo bem bonito por um preço camarada.
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Isso é que é.
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Joana tem pernas grossas; cada coxa, meu amigo, vai pra mais de uma régua – dessas comuns, de se levar pro colégio –, os peitos são bem projetados: um dia, seguramente, foram bons de ter nas mãos; e pra esse fim ainda valem, mesmo que esteja perdida a robustez da juventude.

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Isso, camarada, não tenho medo de contar, se um dia Joana ler essas linhas, tome isso de elogio.

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Agora penso por mim, que pensar por outros não tem vez: um dia quisesse o divino que eu fosse o querer de Joana. Porque os rapazes sem camisa miram no longe das janelas as meninas bem de vida que namoram marinheiros. Ah, o divino abençoasse; eu partiria sem medo, de corpo e de alma – mais de corpo nesse caso – e perderia a castidade que o destino me impõe feito grilhão nos pés de escravo, e se o amigo acha que a metáfora padece de anacronismo, pense nisso como algema no punho de preso. Isso sim é que é!
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Elas, lá em baixo, assistem ao desfile dos rapazes pela rua esburacada.
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ESTOU AQUI, dá vontade de gritar. Mas gritar mesmo eu não grito.
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Sou fraco.
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Mas não grito.
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Elas olham cá pra cima e eu aceno com um sorriso.
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O mundo, Joana, é mesmo infinito!
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Eduardo Gaspar
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terça-feira, 21 de junho de 2011

Estio do tempo

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É semana que vem o lançamento do livro de Pedro Duarte, com a participação do professor Eduardo Jardim. Apareçam!
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O emoldurador

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O trabalho:

Dar moldura a um quadro.

O que significa fazê-lo.

Dar moldura não é mero

Ofício de marceneiro,

É significar o quadro

Perante o nada.

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Aqui neste quadrante

Há a arte.

Após a madeira, o nada

(que a arte tentou enquadrar)

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Uma paisagem, um rosto

Um momento pretenso a parar.

E que para isso se desloca,

E o coloca preso à parede

Para que toda realidade possa andar.

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Dois dedos de madeira

Para o limite

Da realidade que passa

(e ainda se tornará arte)

Para o quadrado que marca a ausência,

Dada a moldura.

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O pintor que em seu ofício

Pára um instante, que

Nunca pára, mas

Já é ausente, e

Por isso pintado.

Significado pela falta,

Referendada a moldura.

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A moldura que não sabe

O pintor até ali

- só sabe o quadro.

O pintor que não acessa o todo

- só percebe o instante.

E o poema

- que não sabe o emoldurador –

Mas o emoldura mesmo assim.

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Afinal nem o agora nos basta.

E no mais, a ausência dirá por mim.

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Flávio Morgado


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Destino poético

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Destino poético:
medir um caminho sem fim,
enquanto a música silencia,
a luz crepuscular se eterniza por segundos
e o pensamento toma seu devido lugar;
o vazio e a coisa.

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Entre o sabor do acaso
e a certeza do saber,
há um som que só pode ser ouvido
no absoluto silêncio:
a meditação do corpo.

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Sabor é saber sem esforço;
é ser a própria estrada na qual se caminha.
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Dorly Neto
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sexta-feira, 17 de junho de 2011

O passar das horas




Os ossos tremem na beleza

Da noite que surge

A natureza

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As roupas encharcadas

A água que urge

Do céu aos nadas

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Meu cigarro acabou

Meu dinheiro acabou

Meu cabelo acabou

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Ao longe um som ecoa

A hora que ruge

Meu tempo que voa

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Luiz Lianza

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Isabé




Mordeu as maçã
Fumou os baseado
Queimou os sutiã
Libertou os escravo


Lucas Viriato

terça-feira, 14 de junho de 2011

Inauguração do Espaço Oito e Meio



E também o lançamento do livro de Rafael Sperling e do segundo número da Revista Minotauro. Hoje!

Verbalizando o amor


Que com cada letra eu possa escrever mil palavras de amor para ti.

Que com todas as palavras eu possa dizer que te amo.

Que em cada verso eu te proclame minha poesia

E que em cada poesia tu te transformes em melodia.

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Pois em cada pensamento te tenho dentro de mim,

Em cada olhar contenho enlevo por ti,

Em cada sentimento em que te desejo

Encontro-te em todas as delicadezas afáveis,

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Que em todo lugar te anseio veementemente

Que em toda direção que eu siga te tenho em meu coração

Que em toda a imagem que se forme tu te tornes uma imagem que me conduz ao paraíso

E que em toda essa alvorada me governe a esta imensa paixão.

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Enfim, em que toda essa imensidão,

Eu encontre meu vocábulo:

Amar-te sem definição.

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José Ricardo Costa Miranda Filho

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Armadura

Chego partida em cacos
e me deparo
com a maresia do seu corpo
numa falsa cara de descaso
de quem não gosta das rachaduras
mas sempre vem e me cola
me ergue, me reestrutura


Stefanie Vilas Boas

domingo, 12 de junho de 2011

Homens


Pastam bois, mansamente.
Pastam, simplesmente por serem bois.
Homens, por serem homens,
arrastam-se sempre querendo mais.
Cavam, cavam suas covas
garimpando ouros de morte,
peneirando riquezas falsas,
alicerçando o caos
de suas vidas.

Voam pássaros.
Cantam; humildes, encantam
suados homens que
repousam sobre seus túmulos.

Caem das árvores
frutas que não foram
colhidas. Adubam o solo,
são esmagadas pelos pés
dos homens, que acabarão feito elas.


Hernany Tafuri



Hernany Tafuri é poeta de Juiz de Fora, MG, e autor do livro Vertigens do Tempo, onde se encontra o poema acima.

sábado, 11 de junho de 2011

A Obscena Senhora B.

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Sua vinda mudara os hábitos da casa. Por exemplo, todos passaram a recolher-se mais cedo, alegando um cansaço antes desconhecido (alegação justa, dado que duro era o trabalho nas minas). No entanto, foi apenas depois da sua chegada que eles passaram a queixar-se de sono e a ir deitar-se nem bem começada a noite.


Breve a casa respira silêncio e ela dirige-se, felina, até um dos quartos. Uma fresta de luz se insinua e expande, dando passagem ao seu vulto. Ansiosamente aguardada, ela caminha lenta até a cama onde um deles a espera. Sua mão – alva, nívea, lépida - toca aquele que, em prontidão, a espera. Sonâmbula, beija-lhe a testa e o faz sentir que sim, que valeram os esforços de um dia de trabalho árduo, apenas para aquela rápida carícia, momento do indizível. Arremate: a respiração se faz suspiro e ele sabe, redimido das penas do dia, que poderá adormecer aliviado.


Silenciosa como entrara, ela sai. Em seus quartos, a aguardam os outros seis homenzinhos.







Henrique Fagundes Carvalho




sexta-feira, 10 de junho de 2011

Habemos Twitter



Piu-piu

Faz o passarinho na janela

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Piu-piu

Faz o passarinho no telhado

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Piu-piu

Faz o passarinho na cabeça do homem de ressaca pela manhã

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Piu-piu

Não para o passarinho

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É o Plástico Bolha que não para de piar

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Siga-nos em http://twitter.com/#!/OPlasticoBolha

POR QUE NÃO VIVER AO VIVO?


De repente tudo se tornou tão previsível.

Acordarei e repetirei o ritual diário

Não farei nada de novo

Mas pode ser que eu conquiste um novo público.

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O cenário não mudou

Mas reparo uma mudança:

Os atores não são os mesmos.

Ah! mas são os mesmos personagens!

Aquele ali eu já conheço

Aquela? Já interpretei muitas vezes

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A cena se repete sempre

A emoção mais expressiva que observo?

Uma “Tensão Pré-Flash”

E que exigência a câmera nos faz!

Tão felizes, tão magros, tão agradáveis

E cada vez mais distantes de nós mesmos

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Em que cabeça vejo os cabelos do comercial de Shampoo?

Fios lindos e saudáveis

E, voando no mesmo vento que os balança,

Uma consciência remota

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Ria de si mesmo

Mas não chore na frente dos outros.

Não te reveles a qualquer um!

E a ti, quando te revelarás?

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Perdemos quem somos.

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Olhei meu rosto no espelho

Ornado de lápis, blush e batom

E me perguntei quem eu queria representar

Com aquele retrato que acabara de pintar

Fiquei aborrecida com a questão

Lavei o rosto.

E mesmo com a face limpa

Não reconheci quem eu era

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Eu era uma tela em branco esperando qualquer cor?

Onde estariam os rascunhos e estudos que antecederam aquele final?

Era como se eles tivessem se perdido

Agora a minha verdade era aquele personagem

Do qual não era de minha autoria sua história

Mas que eu sabia de cor cada falso ato seu

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Por que não viver ao vivo?

Falta coragem de assumir o errático

Então, simplesmente perguntamos:

- Se a suavidade existe, por que toda essa aspereza em viver?

E esquecemos que sentir é seco e sem anestesia


Camila Da Vinci


quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um poema de Edson Pielechovski

Caminho

(entre casas e ruas)

o poder da tua leitura

cega flores; livros; passarinhos

Olho

no último andar

(sonho em ser dono de um bar)

anonimato? democracia? memória?


Edson Pielechovski


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Lixo, luxo e leitores extraordinários


Notícias sobre leitores inusitados, em meios considerados inusitados, atravessam, com certa freqüência, os noticiários televisivos dos canais brasileiros. Elas trazem exemplos de pessoas que, distantes dos bancos escolares, fisgados pelo anzol das letras, recolheram livros, nas condições mais precárias em que se pode pensar, e formaram bibliotecas. Está aí o surpreendente!

Neste cenário, a última notícia diz respeito ao catador de lixo, José Carlos da Silva Bahia Lopes, conhecido como Zumbi, de 35 anos, trabalhador em um dos maiores aterros sanitários do mundo. Localizado no Jardim Gramacho, bairro periférico de Duque de Caxias, o lixão é o local onde foi filmado o documentário Lixo Extraordinário, indicado ao oscar (se o leitor quiser saber mais, pode procurar ele mesmo e ler, pois há muito disponível, inclusive na internet) paisagem também de Estamira, do ano de 2004, de Marcos Prado, outro documentário premiado.

Noticiou a imprensa: o catador de lixo está montando uma biblioteca com os livros que encontra entre materiais diversos, tais como, latas, plásticos e garrafas, rodeados de moscas e urubus, estes atraídos pelo odor fétido do material ali depositado.

Na trilha em que segue este texto, os leitores, do lado de cá do saber, já fizeram a ligação com filósofos e poetas como Benjamim e Baudelaire, catando no lixo deste personagem real, imagens daquele que coleciona “tudo o que a grande cidade jogou fora, tudo o que ela perdeu, tudo o que ela desprezou, tudo o que ela espezinhou”, catando pedaços de conhecimento.

Do lado de lá, no catar do lixo, Zumbi (lembremos da carga histórica desse nome!) também já catou pensamentos como os de Niestzche e Maquiavel! E já acumulou mais de dez mil títulos, entre eles, dicionários, manuais de informática, livros de noções de Direito Penal, obras de ficção como O Código da Vinci e outros. Há também os escritores brasileiros renomados, como Drummond _ O Avesso das Coisas e Contos de Aprendiz; Clarice Lispector, A Hora da Estrela; Machado de Assis, com o Dom Casmurro... e muito mais.

Bem, em meio ao luxo da leitura, ato de poucos, e ao lixo, produção de todos, o caminho que desejo tomar nos leva a formular algumas perguntas: por que um leitor se forma em meio ao lixão, não descartando o descartável em outros contextos? E por que, em grande parte das escolas e universidades, um enorme contingente de estudantes descarta o saber disponível, desestimulado de ler? O que há no saber escolarizado que funciona como uma droga inibidora da vontade para a leitura e, por conseqüência, para uma adequada construção do conhecimento?

Do lado de cá do nosso conhecimento, para responder a isso, seria necessário recorrer a teorias, pesquisas, a todo um aparato acadêmico, com citações, referências; discussões em simpósios, congressos nacionais e internacionais, seminários, encontros, mesas-redondas, debates, palestras...

Do lado de lá do conhecimento do leitor formado no lixão, ele responde, na singeleza da pergunta: “se você não lê, de onde vem o seu saber?”

E como Rita Lee, que “não quer luxo, nem lixo, quer só saúde pra gozar no final”, estamos nós, os professores, e queremos só saúde para o final... do ano letivo. Mas como, se, em meio às fórmulas mágicas e quadradas dos planejamentos educacionais, o que temos é nosso fracasso, diante dos leitores catadores que escrevem os anais da desordem?

Valéria Pereira


Valéria Pereira é doutora em estudos literários pela PUC-RIO.


terça-feira, 7 de junho de 2011

As Tintas de Juraíma

Quando Juraíma nasceu,
as folhas eram pingos de sol,
as árvores eram pedras verdes
e o azul se inventava nas praias.
Em três dias Juraíma conheceu a terra vasta
e a noite guardada nos oceanos.
Ensinou o vento a correr,
tatuou estrelas nas costas de Deus.
Preguiçosa, sentou na beira de um rio.
Bebeu água, deitou, dormiu.
Então, os homens nasceram.
Fizeram palavras, fizeram cidades.

Hoje, repetem antigos gestos.
Quando repousam, Juraíma brinca com seus rostos:
Pinta-os de tempo, num desenho sutil e infinito.
Os homens despertam e nada percebem,
enquanto ela ri, baixinho, na beira do rio.

Paloma Espínola



Paloma Espínola, além de poeta também é cantora e já publicou diversos textos no Plástico Bolha, entre eles O que tem de ser tem muita força.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Crase


Levei meu texto para esse escritor ler. Afundei naquele sofá que me deu uma sensação de desequilíbrio. Escritor novo é foda. Ainda mais com essas novas tecnologias. País que ninguém lê. Pirataria. Filmes 3d. Ele me olhou como se eu fosse um passa fome. Não que eu não seja, mas jogar assim na cara é foda, né? Depois mudou a posição das pernas, tirou os óculos e disse: você só fala do teu bairro. E eu: é... Eu só falo do meu bairro. E pensei que nunca viajei de avião e queria viajar de avião. E que não conheço ricos depressivos ou policiais em crise. Ele me disse: gostei do teu livro, você escreve bem. “Eu escrevo bem”, pensei. Mas tem que melhorar o português, o texto está cheio de erros, sobretudo a crase, falou num muxoxo. Ele estava preocupado com a crase.

Delano Valentim



Delano Valentim estreou no blog do Plástico Bolha com o texto Sujeito-Homem. Além disso, È autor do livro Todo Mundo é Jhow! Diretor do filme Hoje É Dia de Baile e cantor de rap lançando a mixtape Gringada.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Quando a alma castiga o corpo

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Permaneça em suspenso
A promessa de amor
O quadro sem cor
O abraço tenso

Sem graça a despedida
Dois amantes sem freio
Sem conta ou qualquer outro meio
Além da estrada perdida

O lar em chamas
Sob a tempestade
Um pedido de socorro porque amas

Não encontrarás nenhuma piedade
Nessas viciadas damas
Apenas uma estranha obviedade

Descobrirás tarde demais o inútil soneto torto
Melhor é viver fora do alcance de Deus e do Diabo
Não há ritmo ou rimas
Para acompanhar um coração louco
E antes que todas as mulheres te abram as pernas
Também descobrirás que há inimigos entre amigos
Que nada é fixo ou medido
Que tua herança será uma má reputação.
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Anderson Pires da Silva
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Anderson Pires da Silva já publicou diversos textos aqui no Blog do Bolha.
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POEMA DO HOTEL M.

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Ressaca no mar/ branco/ 18 graus no Rio/ surpresas ao descer do ônibus/


nublado/ pombos/ areia vazia/ ondas grandes/


pessoas pequenas lá longe & caminhando/ ooohmn/ cháááá/ a espuma é amarela, suja como areia amarela/ quebra-mar/ mar vazio/ peixes solitários dando lições aos filhotes/

cabelos pro lado por causa do vento/ se movimentando/ a água deve estar fria/ trabalho/ o mundo inteiro em casa/ o mar revolto/ lá vem chuva/ acordar pra trabalhar/ marina


Paulo Vitor Grossi
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Paulo Vitor Grossi já publicou diversos textos no jornal Plástico Bolha e tem um texto na Antologia de prosa Plástico Bolha.
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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Bénédicte vê o mar


Bénédicte vê o mar, o novo livro da nossa amiga-de-bolha Laura Erber, foi lançado nestas comarcas virtuais: desenhos desentranhados de noites nórdicas e um poema que conta a história dessa rapariga, seus dias no porão sob o encanto de uma musa carrancuda (a única que ela conhece). O livro pode ser acessado gratuitamente no site: www.editoradacasa.com.br. Aproveite!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

É o CEP de Maio!




ESPAÇO CULTURAL SÉRGIO PORTO
Rua Humaitá, 163 (fundos)

QUARTA-FEIRA, 25 de maio

20:30, 5 reais

PROGRAMAÇÃO:

CINECURTA CEP:
Pretinho Babylon, de Emílio Domingos e Cavi Borges

PERFORMANCE:
Gabriel Fomm e Ângela Câmara

POESIA:
Romã Neptune, André Pessoa, Gregório Duvivier,
Ismar Tirelli Neto, Leonardo Marona, Fred Coelho
e a participação dos poetas da oficina Farani Cinco Três!

ESPECIAL DE JUIZ DE FORA:
Eco Performances Poéticas - a missão!
com: André Capilé, Anelise Freitas, Larissa Andrioli, Laura Assis,
Lucas Viriato, Luiz Fernando Priamo, Tiago Rattes de Andrade,
Thais Thomaz (fotos) e Pedro Paiva (som)

MÚSICA:
Dimitri BR: voz e cavaquinho
+
Os Siderais
+
Show da banda DeLírios Tropicais


Site do Plástico Bolha: jornalplasticobolha.com.br

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Cerne Marginal


A poesia marginal é o centro
As trovas não mais classicam
As trevas encobrem o abandonado
As ruas percorrem o implícito

Devaneios de amor

Se que sofrem, sofram
Quem grita, urra
Sou amalgamo, amargo
Tragédia obscura

Tantos foram os ditos
Tão poucos os momentos
Lixo tristonho despido
Cores e luzes, o sustento

Devaneios de, quase, amor
São minhas, quase, glândulas
Que implicam em meus, quase, remédios
Minhas drogas

Ah que droga!
Neste calor deveria ser político ou economista
Não pobre e fudido
Um poeta


domingo, 15 de maio de 2011

Com a sua Permissão

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Havia tanto a se dizer
Que nem pude escrever

Debaixo do céu rosa
De nuvens densas

O som do chuveiro
E de uma goteira incessante

Foi de tanto olhar
Que a pedra se virou

Passa um avião que
Corta o céu

Verticalmente

Em direção à Marte
Para fazer um depósito bancário
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Rafael Sperling
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Rafael Sperling é poeta, escreve no blog Somesentido e irá lançar, em breve, seu primeiro livro pela editora Oito e meio.
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quarta-feira, 11 de maio de 2011

A ciclovia

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— Meu caro, você conhece o terror que tenho de motos e carros.
(e dos pedestres)

Um passante de
bicicleta
se destaca no horizonte.
Sua intenção é atingir a ciclovia perfeita.
Ele reclama:
— “A pista da ciclovia é inútil, ela termina, ela desemboca na rua”.

O ciclista sabe que precisa
passar pelos carros para atingir a
ciclovia.

O ciclista sabe que precisa
passar pelas motos para sair da
ciclovia.

Ele pedala altaneiro
por alguns minutos respira a sensação
enfim esse espaço.

O espaço da ciclovia se confunde com a calçada.
O pedestre flana.
O pedestre invade a
ciclovia.
Na superioridade de sua preferência
sua prioridade absoluta facilita o acidente [alguém adverte].

Manoel me disse que o carro deve manter a distancia de dois .............................................................................metros da
bicicleta.
Qual a distância que o pedestre deve manter da
bicicleta?

O pedestre vive seu estado de exceção.
O pedestre turista vive seu estado de imposição.
— Ele tem Razão! Isso não é uma razão, diz Michel.

[Outro dia Marília esbarrou com Deguy de bicicleta]

João quer pedalar continuamente mesmo não sendo um atleta.
Sem interrupções, de ponto a ponto, da esquina até Ipanema, até a .......................................................................................... Lagoa.

As pernas retraídas
esticam-se continuadamente.
Se esforçam formando
ondulações.

Elásticas
as pernas
na bicicleta
ondulam.

[Marília depois me contou]

Deguy saiu da
ciclovia
chegou na avenida de
bicicleta.

Naquele momento interrompido em que
caía.
Ridículo na lama.
Quando o poeta se estatelava no
chão.

Masé Lemos

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Masé Lemos é professora de Teoria da Literatura na UERJ. Em 2007, publicou Redor pela 7Letras. Este é seu primeiro poema no Plástico Bolha.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Meu cartão vermelho

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Carlos Minc posa com o Plástico Bolha

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Carlos Minc e o Plástico Bolha na Marcha da Maconha 2011.
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domingo, 8 de maio de 2011

Casa dos desejos

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Na sua casa não havia tapetes. Foi isso que lembrou quando os pés sentiram o macio. Naquela outra casa não se admitiam tapetes nem pelúcia, porque a mais nova era cheia das alergias e, mesmo depois de curada, agora tinha o caçula, e “Deus me livre outra vez”, era o que se dizia.

Naquela outra casa também não se acordava de calafrio porque na Barra da Tijuca não faz frio como na Zona Sul, e isso era outra coisa que ela havia descoberto. Ainda era tempo de se acostumar à mudança. Por enquanto ainda acordava com a surpresa de estar em outro lugar, como quando se viajava e, ainda de olhos fechados, dá para lembrar que não se está em casa. Mas ela estava naquela idade de se prever e sabia que era questão de tempo até lembrar, um dia, quem sabe na hora do almoço, dos anos passados no outro lar. A partir daquele dia, as tardes seriam vazias.

O problema em desejar certas coisas por muito tempo é que, quando a gente as tem, sente falta de desejá-las. Talvez não tivesse tanta graça assim dormir às três e acordar ao meio dia, nem ver TV em paz, nem cantar sossegada, sem choro de criança, sem “atende a porta” ou “traz o telefone”.

Na casa nova não tinha café na cama, não tinha beijo do pirralho. Não só sentiria falta de desejar o que agora a aprisionava, como passaria a desejar, com força, todas as outras coisas que já não tinha.

O caminho do tapete até o espelho era dos menores possíveis, mas era um caminho enorme, arrastado. Ela sabia que, naquela mania de se prever, acabava sempre antecipando tudo e, por isso mesmo, tentou adiar ao máximo a hora de se ver refletida.

De fato, chegando ao espelho, viu uma velha prematura exibindo sua solidão nos olhos cansados. Fez que ia correr, mas voltou. Parou quase de perfil, os olhos ainda alcançando o reflexo. Era uma velha sozinha. Num choque, correu ao telefone. Na pressa, discou um número a mais, agendando uma visita que, lhe foi dito – e era óbvio – não precisava ser agendada.

Logo que chegou, soube que a casa ainda lhe pertencia – ou que ela ainda pertencia à casa – quando percebeu que não estranhava cheiro nenhum. Pediu um abraço, ganhou um outro, um “alô” da cozinheira gorda. Cada vez mais gorda, para mostrar que o tempo passava. Atravessou a sala sem tapete, o triplo da sua, afundou no sofá e ali ficou para sempre, por alguns minutos. Prestes a criar raízes e virar parte do assento, tomou outro choque e foi parar no corredor. Ele era tão minimamente enorme e arrastado como o caminho do tapete ao espelho. Isso porque ela teria, e o sabia, que se encarar ao final.

E, como não poderia não ser, lá estava, pendurada na parede, a menina de olhos viris, a franja mal cortada, um tênis de cada cor e um vestido azul de festa. Dessa vez, não fez que ia correr e nem pensou em ligar, porque ninguém atenderia. Mas, agora sim, ficou em pé, descobrindo que era, ali, tão livre para desejar ser velha quanto seria, lá, para desejar ser moça.

Mariana de Almeida Moura Milani
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Mariana de Almeida Moura Milani ficou em primeiro lugar na categoria "prosa" do Prêmio Paulo Britto, organizado pelo PET do departamento de Letras da PUC-Rio.
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CHUCRUTE&BRONZE

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Sábado, como é de costume a cada 15 dias, fui a Feira do Troca. Sempre na Praça XV, a feira ocorre embaixo do viaduto da perimetral, para ser mais exato. O lugar não é dos mais convidativos na minha opinião, mas o cheiro das velharias, das raridades e do bom preço me agrada demais. Nesse dia, apesar de não ser de costume, não queria me demorar, estava cansado e não queria ficar procurando coisas novas, nem pechinchar. Uma das minhas raras visitas com objetivo. Fui comprar uma agulha nova para minha vitrola, que alguém havia me feito o favor de quebrar (morar com os pais tem seus pontos baixos). Assim que saí da barca, fui a passos largos em direção às barracas de discos e logo na primeira encontrei o que havia ido buscar. Com a minha agulha novinha em folha na mão, decidi voltar a passos também largos para as barcas, mas fui tão rápido que nem me lembrei de que aos sábados as barcas funcionam com intervalos de meia hora. Pensei em ir até o ponto de ônibus, mas minha preguiça “sabatomatutina” me impedira. Pensei, então, em dar uma volta pela feira até a chegada da barca para voltar para casa. Passei pelas barracas de quadrinhos, nada de novo. Nas barracas de DVDs, os preços continuavam altos e os vendedores irredutíveis. Cambada de mal-amados que vão morrer abraçados aos filmes! Já assisti à maioria, mas queria alguns para minha coleção, por isso os invejo e não é inveja boa, se que é existe esse negócio de inveja boa. Perto da escadaria, como sempre, estavam os “vendedores” de celular. Dizem que com eles você consegue comprar os aparelhos mais modernos a preço de banana. Mas, nem quando meu último celular “morreu”, eu cheguei perto daqueles caras. Meu amigo que me levou à feira pela primeira vez, um dia resolveu fazer barganha com eles, achando que faria um ótimo negócio. Enquanto negociava, se arrependeu, ou, em outras palavras: num arroubo moralista percebeu que os aparelhos eram roubados e resolveu não participar da receptação, digo... “negociação”. Quando entrou no carro, percebeu que havia perdido seu celular. O dele mesmo, que havia levado cogitando uma troca. Resolveu, então, voltar e comprar “qualquer coisa” para não ficar incomunicável. Voltou apenas para que lhe fosse oferecido o seu próprio celular. Ai! Como eu amo essa feira! Tem dessas coisas, mas é só não dar mole. Mais perigoso do que ser furtado, só o caldo de cana da barraca central. Bebeu, Morreu e Arsênico da Moenda são os apelidos do líquido (não merece ser chamado de caldo de cana) vendido nessa barraca, logo, acho que não preciso falar muito sobre a qualidade e os efeitos (que seu humilde cronista já sentiu) provocados por ele.

Já perto da hora de partir, me dirigia à estação das barcas, olhando os produtos expostos nas barracas. Acho sempre muito engraçado como a maioria delas tem sempre as mesmas coisas à venda. É possível até utilizar alguns produtos como ponto de encontro. O enorme catálogo cultural de capa dura estampada por um palhaço de sorriso singelo e o vestido florido de grávida expostos logo no início da feira são ótimos pontos de encontro. Cansei de dizer “Me encontra no palhaço!” e “Te vejo embaixo do vestido!”. Fez ou outra alguém ouvia por alto e franzia a testa, o que era muito engraçado. Resolvi dar uma olhada em uma barraca que sempre me chamou a atenção, mas, não sei por qual motivo, nunca havia chegado perto. Ela é bem parecida com as outras, um pouco mais organizada talvez, chamava atenção pela enorme bandeira Dixie hasteada num enorme mastro improvisado ao lado. Quando cheguei mais perto, percebi que havia todo tipo de material relacionado a guerras. Cantis, facas, capacetes e até fardas. “Tudo original e usado em combate!”. Era assim que um senhor que parecia ser o dono da barraca, com uma energia, ironicamente belicosa descrevia alguns itens para um rapaz. Achei aquilo muito interessante, o cheiro de história que dali exalava era forte. Como um bom adorador de coisa velha, resolvi levar algo de lembrança, nada caro. Olhei para um mural pendurado do meu lado e vi vários patches bordados, daqueles que você passa a ferro e eles colam na sua roupa. Enquanto meus olhos curiosos corriam o enorme quadro de feltro, o rapaz esticou um braço, passando na frente do meu rosto para pegar uma bandeira do mural. Eu, absorto com a minha difícil escolha diante de tantas opções, tomei um susto. Mas, meu susto maior foi ver que o patch que o rapaz estava segurando era todo preto com as letras SS, em branco, no meio. Pois é, era o símbolo da Schutzstaffel, uma espécie de polícia nazista. Olhei em volta e, numa epifania muda e em preto e branco, vi que ninguém parecia constrangido.Olhei de novo para o mural à procura de uma suástica. Queria ver a seriedade da coisa. Não vi nenhuma, mas fiquei com a sensação de que elas “aparecem” se você souber como pedir. Fiquei também com uma pergunta na cabeça: “Quem usaria um símbolo daqueles?”. Sei que em São Paulo há alguns grupos neonazistas e que de vez em quando fazem uma besteira digna de noticiário, mas, aqui no Rio, não esperava uma coisa dessas. Acho que por estas bandas, não fizeram nada digno de noticiário. Ainda. Me senti ingênuo e com medo. Medo dos nazistas bronzeados da Praça XV.

João Arthur da Silva Souza

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João Arthur da Silva Souza ficou em segundo lugar na categoria "prosa" do Prêmio Paulo Britto, organizado pelo PET do departamento de Letras da PUC-Rio.
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sábado, 7 de maio de 2011

DOMINGO

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Acordou que nem um desesperado. Sentiu uma sensação estranha e em meio a uma gritaria que ouvia na rua, não queria saber de nenhuma outra coisa a não ser achar sua mãe. Desde pequeno, o maior trauma de sua vida era estar longe de casa. Na escola, espancado pelos colegas e maltratado pelas professoras, não podia esperar a hora da saída. Ele era cheio de traumas. Mas nesse dia, as coisas não pareciam estar claras em sua cabeça. Assim que se levantou, começou a procurar sua mãe. Ela não estava em nenhum lugar da casa. Era estranho, pois ela não costumava sair cedo. Eram sete e meia da manhã.

Sem pensar duas vezes, pegou a lista telefônica e começou a ligar para todos os membros da família. Era domingo, sete e quarenta e cinco da manhã. Ninguém atendia. Não conseguia imaginar o que estava acontecendo. A mãe tinha oitenta e três anos, mal andava. Onde teria ido? Os dois viviam sozinhos desde que o pai os abandonara há cinquenta e cinco anos, idade dele. Rodava e andava de um lado para o outro. Olhava-se no espelho. O rosto pálido e o pouco cabelo todo bagunçado refletiam o estado de angústia. Sair para a rua não era a solução. Não tinha motivo para aquilo estar acontecendo.

Oito e cinquenta e quatro. O vento parecia aumentar e as janelas tinham de ser fechadas. Não tinha força para tal. Não conseguia pronunciar uma só palavra. A situação começou a ficar tensa quando entrou na cozinha e viu que não tinha nada. Abriu a geladeira e encontrou potes vencidos de geleia. Nem água tinha. Não entendia nada. A cada passo que dava, ouvia o ranger do chão. Era o único som presente. Andando adunco e torto, resolveu parar. Queria gritar e entender o que estava acontecendo. Nove e treze. O tempo não passava. Tinha de esperar até as dez para ir perguntar a alguém o que estava acontecendo. As lojinhas só abriam nessa hora.

Nove e quarenta. Subiu as escadas e voltou para o quarto. Viu que havia um bilhete perto de sua cabeceira. Estranho não ter o visto antes. Dizia: Não esquecer de levar. Ao lado, uma caixa vazia. O telefone começou a tocar, mas não teve tempo de chegar e atender. Cai na secretária eletrônica. Dizia na mensagem: Chegarei um pouco atrasado, mas fique tranquila que o negócio está quase fechado. A voz era desconhecida.

Dez e quatro. Era hora de ir perguntar às pessoas na rua quem poderia ter visto sua mãe. Quando pretendia descer as escadas, ouviu um barulho de chave. Um homem alto, elegante e perfumado entrava juntamente com umas três senhoras que aparentavam ter uns sessenta anos. O senhor chamava pelo nome de minha mãe. Ele também a procurava. No momento em que eu ia descer para falar com ele e dizer que também não sabia onde ela poderia estar, uma das senhoras o cutucou e disse:

- Ela não está em casa?

- É, pelo visto não.

- Estranho não é? Logo hoje?

- Ah! Então é por isso. Há alguns meses, ela vai cedinho para o cemitério e fica lá até a hora do almoço. Dessa vez ela até deixou um bilhete para se lembrar de levar as bolinhas de gude. Pretendia enterrá-las junto.

- Nossa!

- Mas não se preocupem! Já ela chega e fechamos o negócio.

O corretor estava ansioso pela venda da casa. Ninguém mais havia topado pagar um preço tão bom por uma casa velha e caindo aos pedaços.

Marcelo Cassar Magdalena
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Marcelo Cassar Magdalena ficou em terceiro lugar na categoria "prosa" do Prêmio Paulo Britto, organizado pelo PET do departamento de Letras da PUC-Rio.
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sexta-feira, 6 de maio de 2011

POTÊNCIA DE FÊNIX

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O palito de fósforo contém
o fogo estacionário dos incêndios;
com o vento, em seu harém,
amansa-os, empresta-lhes, reacende-os.

O poema e a ferrugem
não são nem bem, nem mal.
Não penetram sem que se sujem
no nauta, no pavio, no mar, na cal.

Um verso que se domina
pode-se ver do erro
da régua da indisciplina
do carvão da neve do ferro.

O fato mais comezinho
é que poesia dorme:
cedo acorda e vai passarinho,
águia, embora (ou) conforme.

Escrever é falar sem manto,
começo no ponto final?
Segue-se, apesar do entretanto,
mirando-se, estátua de sal.

Escreve-se porque não se escuta
a fala, tão pouco loquaz.
Tampouco se espera que a luta
acabe. E acaba-se em paz.

Acento, o silêncio e seu ensaio,
fogo se desfia;
Pássaro adentro. Pensai-o
Poesia.
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Marcelo Moraes Caetano
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Marcelo Moraes Caetano ficou em primeiro lugar na categoria "poesia" do Prêmio Paulo Britto, organizado pelo PET do departamento de Letras da PUC-Rio.
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CATARATA

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da minha janela
o que vejo é muro
com grade ainda
tecendo uma divisão
o que enxergo são os limites das plantas
verdes escuras, senão
e suas sombras projetadas
numa parede branca
– mais cinza que essa que então –
desenhando molduras
mais duras que a grade a janela
moldaram em nãos
o sol, qualquer traço de luz
só me chega refletido
: sou beirada num muro de solidão
e as cortinas brancas
leves, que voam a qualquer brisa
só transparecem a mentira que são
tentam confundir-me a liberdade
como que se eu pudesse de fato
ter vontade
não tendo nem ainda
visão

eu recortada em verticais
entre / meadaentre / cortada
longe dos limites da razão
vejo as plantas que caem,
final de vida despencam
e proibidas que são
de me fazer ver mais além
saem do meu campo de visão
que não entra mais nada
mais ninguém

não sou cega porque não me dizem
enquanto não dizem não sou nem o quê
só percebo que resisto nas marcas da chuva,
na ferrugem do metal,
na visão do imundo,
talvez nas palavras que desejo,
mas daqui nada vejo
nada é o mundo
nada mesmo
e sendo só beira
toda vez que o vento entra
só me entra na alma poeira
e nesse muro branco, é essa a minha deixa: eu sigo a vida lá fora
nas suas rachaduras, pela sua sujeira.
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Sofia Vaz Rabinowitz
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Sofia Vaz Rabinowitz ficou em segundo lugar na categoria "poesia" do Prêmio Paulo Britto, organizado pelo PET do departamento de Letras da PUC-Rio.
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