quinta-feira, 26 de abril de 2018

Latas de 20



Noites em claro
Memória desperta a vã tentativa
de ludibriar o tempo
Acorda a criança em mim adormecida
Pelo Diazepam da vida moderna
Filmes em preto e branco
são exibidos na minha TV sem LED
válvulas, fusíveis
imagens de íngremes degraus
esculpidos no argiloso barro cinza
desenham a escada de chão
cumeada céu adentro

Dura escalada cotidiana da gente
Que leva consigo um tanto de mim
cabeças rodilhadas n’algum pano velho
de um colorido encardido
a sustentar um equilíbrio distante
para o peso da água parca
Gente boa, gente de fé e as latas

Latas d’ água, d’ pedra, d’ vida e de tudo
Tudo aquilo que é suor, quente e salobro
Tudo que é trabalho árduo e mal remunerado
Gente boa, gente de fé, relegada às suas colinas
e seus castelos de areia fina
arrastados na primeira chuva insistente
que venha espiar-lhes o cansaço 
E eu, assistindo minha TV sem LED
Reflito que até as intempéries
parecem contribuir com as injustiças desse mundo.



Elizabeth Manja

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