terça-feira, 13 de julho de 2010

Conto da menina-mãe, por Isabella Pacheco

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Ela cozinhava. Já. O antebraço menor do que a colher-de-pau que mexia a carne moída na panela, a pequenina subia num banco de madeira que ora pendia para os lados para preparar o almoço para si e para o irmão mais novo antes de se arrumarem para escola. Quarta-feira. Era dia de carne. Na ponta dos pés fechava os olhos para aguçar o olfato enquanto o vapor umedecia-lhe a face com o cheiro da proteína só degustada novamente na semana seguinte. Quem sabe. A rotina era dominada por ela. Mãe por necessidade desde os seis, assumira a responsabilidade do irmão e a própria por amor e instinto, tamanha dor que lhe causava a não-vontade da suposta mãe de cuidar dos seus. Jamais reclamara. Privava-se da infância quase por vontade, consciente de que para cada humano um destino particular Deus havia concedido, e de que podia transformar seu fardo no prazer de seus dias. Pensamento precoce para os treze. Não para ela. Não agora, que já alcançava o fogão.

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Dias. Quarta-feira. Carne. Semana. Semanas. Anos. Anos. Anos. Tornou-se mãe. De sangue. De caridade. De obrigação. De vontade de mudar o mundo. De vergonha de sua própria. E trabalhava. E cozinhava. E ensinava. E criava. E amava. E ajudava. E estudava. E era mulher.

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E depois de adulta, começou a sonhar. Sonhar com um mundo melhor. Com mais amor. Com mais justiça. Com mais honestidade. Com mais educação. Com menos vergonha. Com menos sangue. Com menos filhos. Com menos pensamentos precoces. Com menos fardos. Com menos destinos. Com menos vontades. Com menos infância. Com menos dor. Com menos instinto. Menos responsabilidade. Menos necessidade. Menos proteína. Menos vapor. Menos olfato. Sem ponta dos pés. Sem carne. Sem quarta-feira. Sem escola.

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Sem almoço. Sem banco de madeira.

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Sem panela. Sem colher-de-pau.

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E por um segundo quis ser seu irmão.

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Ou sua mãe.

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Isabella Pacheco

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