domingo, 30 de novembro de 2025

Gerald Thomas arma o circo de horrores em “Sabius, Os Moleques” para demolir os castelos dos reis

Cena da peça de Sabius, Os Moleques
📷 Roberto Setton

“A gente fica dizendo assim: ‘os tempos de hoje são horríveis. Bom era no passado!’. Não era! Não era nada bom no passado. Não era! No passado... tinha Holocausto... tinha guerra. Para de me enfrentar com essa câmera!”. 

Ouvidas na voz do ator Jefferson Schroeder no palco do Teatro Raul Cortez do Sesc 14 Bis, em São Paulo (SP), essas palavras demolidoras dizem muito sobre a reflexão proposta pelo diretor Gerald Thomas no espetáculo Sabius, Os Moleques, em cartaz até 21 de dezembro, de quinta-feira a domingo.

Com a inquietude que pauta a existência e a trajetória teatral do encenador nos palcos do Brasil e do mundo, a encenação de Sabius, Os Moleques, estreada na última quarta-feira, 26 de novembro, mostra um universo em desencanto e, sob esse prisma, se afina com a obra pregressa do diretor. Mais uma vez, Gerald Thomas arma um circo de horrores em cena para chacoalhar a mente do espectador já anestesiada pela futilidade e fugacidade dos joguinhos das redes sociais, atacadas no texto com acidez.

Na primeira metade, Sabius, Os Moleques tangencia a forma de uma peça-instalação. A estética visual impera na cena. Thomas submete as ideias a um conjunto exuberante de iluminação (o desenho de luz é de Wagner Pinto), cenário e trilha sonora que impacta pela beleza ao mesmo tempo em que anuncia o desconforto que pauta um texto que afronta o status quo e a noção de que o mundo já foi um lugar bom. É quando o texto ganha musculatura, na segunda metade da encenação, que Sabius, Os Moleques se engrandece no palco. 

“Conheço a história. Conheço esse horror chamado colonialismo, imperialismo, globalização – chamem do que quiserem. É a pirâmide que age em favor do um por centro. E que não te inclui, não me inclui, e está indo em busca da lama”, reflete Gerald Thomas através da voz de Fabiana Gugli, atriz associada ao universo do diretor pela longa parceria na Cia. de Ópera Seca.  

Em Sabius, Os Moleques, Fabiana Gogli é a única atriz em elenco majoritariamente masculino, formado por Apolo Faria, Nilson Muniz e Pedro Inoue, além do já mencionado Jefferson Schroeder, ator responsável pelo alívio cômico da encenação por meio de tiradas e entonações mordazes. É especialmente aliciante a cena em que Gogli, alçada ao alto do palco por um cabo de aço, evoca a figura de Nossa Senhora ao som de uma “Ave Maria” operística.

A peça permite altos voos. Na trama, um planeta Terra que sucumbiu à humanidade comete suicídio e cai de sua órbita em uma cratera de outro mundo. Ali, cinco sábios, historicamente de eras distintas (caracterizados pelos respectivos períodos históricos), depõem a respeito dos momentos que antecederam o "acidente" sofrido pela Terra e discutem entre si.

Com esse mote, Gerald Thomas não deixa pedra sobre pedra, demolindo os castelos dos reis. O mundo está um horror porque sempre foi um horror desde o início do que pode ser considerado civilização. Sobre os escombros, o encenador ergue um espetáculo que enche os olhos sem deixar de revolver certezas e confortos do espectador. Para isso serve o teatro de Gerald Thomas.

Mauro Ferreira