Ivana Vollaro
Portuñol/Portunhol, 2004
Pôster a partir de offset, 40 x 60 cm
Offset poster
Publicado na Revista Artéria 9, 2007
mi amigo Alex
viene de Mar del
Plata
pero mira el mar del
Caribe
el sargazo no le
atinge
su guitarra es de
oro
llegó ayer
¿para quedarse?
del rock al tango
toca por el cambio
para encontrarse
Lucas Viriato
Ao apanhar um pardal
me dei conta do meu próprio peso,
a rotundidade do meu peso
engolindo-me
em uma espiral de assombro.
Néstor E. Rodríguez
é o símbolo do azar?
treze: aziago, agourento?
quiçá o riso da fortuna!
Henrique Duarte Neto
“Cultivo uma rosa branca
em junho como em janeiro
para o amigo sincero
cuja mão se estende franca.
E para o cruel que me arranca
o coração com que vivo
cardo nem urtiga cultivo:
Cultivo uma rosa branca.”
Já me acostuma
silêncio
escrever seu nome
exercício
desleal você
acredita na palavra
desleal
Otávio Campos
and as the years went by
you realized
your body could not grow
bigger your eyes could not
see further your legs
could not run faster
what kind of fish
were you?
is that the game
we're playing?
Matheus Hotz
Entre céu ou inferno
escolho os dois,
vou com meu livro
preferido,
unhas aparadas,
junto das parcas
Marcelo Torres
Rainha Victoria não acreditaria
na tua existência, oh amor de Lesbos.
Hoje talvez seja difícil pensar
que alguma mulher mais jovem e livre
ainda não te tenha experimentado!
Henrique Duarte Neto
o que Kafka pinta
como grotesco e absurdo,
não representa hipérbole,
é apenas o lado inumano
de nossa humanidade.
Henrique Duarte Neto
Vi homens
se transformando
em animais,
fuçavam
o lixo eletrônico
sobre mesas,
em frente
a modernos
computadores
Marcelo Torres
Há fragmentos de palavras
Escondidos em todas as coisas
Pertencem a uma linguagem esquecida
Onde habitam textos completos
E não é preciso ver para entender
Porque
Certos fantasmas são essenciais
Roberta Lahmeyer
Hora de quietude
Que existe na sombra
De todo movimento
Código secreto
Que acalma o instante
Roberta Lahmeyer
Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridentes
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia
Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais
Ana Martins Marques
Séculos de poesia pra dar nisso:
é o fim.
Cada verso, uma foto de mim
mesmo.
Este sou eu, em Berlim, andando a
esmo.
Neste em Dublin (ou seria
Sarajevo)? Enfim,
O que tenho pra dizer é isso
mesmo:
Meus versos viraram meros
selfies.
Rodrigo Garcia Lopes
Que eu saiba, parece.
Pelo sim, pelo não, por exemplo:
vai ver. Certeza.
Nem tudo,
ao que tudo indica, no fundo,
digamos, um dia,
e pronto.
Só que não.
Tomara.
Quem dera.
O sentido é sempre impre-
visível (invisível palavra,
sua máquina do tempo).
Sob a garoa vagarosa do agora
uma vaga vaga vaga.
Toda referência se rarefez
no raro fog dos afetos.
E por acaso, quer dizer, às
vezes
ou mesmo antes,
chove uma luz verde, é claro,
que eu saiba, como sempre.
Rodrigo Garcia Lopes
A poetisa pop
cutuca
com vara curta
o
poeta influencer tiktoker
que
posta no seu feed
uma
crítica decolonial
contra
um poeta neobeat
que
não se abate e cancela
o
trovador cabra da peste
que
não dá o braço a torcer
e
detona no Face a poeta trash.
Ninguém
tem tempo para escrever
um
poema que preste.
Rodrigo Garcia Lopes
Na química da natureza, a água traga e apaga o fogo. Na combustão
do teatro, na cena armada pela diretora Monique Gardenberg no
palco-corredor do Teatro Oficina, as águas míticas de “Senhora
dos afogados” trazem à tona e realimentam o fogo sagrado do
dionisíaco encenador José Celso Martinez Corrêa (1937–2023),
criador do Oficina e um dos mais relevantes arquitetos da cena
teatral brasileira em todos os tempos.
Em
cartaz no Oficina de sexta-feira à segunda-feira, na sede paulistana
do teatro projetado pela modernista arquiteta Lina Bo Bardi
(1914–1992), a encenação de “Senhora dos afogados” é a
primeira produção do Oficina após o encantamento de Zé Celso, há
dois anos, em decorrência de queimaduras sofridas em incêndio, numa
trapaça da sorte que corroborou a presença do fogo como elemento de
ascensão, crescimento e desaparecimento (físico) no destino do
artista.
Um
dos textos mais malditos da obra do dramaturgo carioca Nelson
Rodrigues (1912–1980), “Senhora dos afogados” era um desejo,
quase obsessão, de Zé Celso. Escrita em 1947, mas somente liberada
pela censura em 1954, a tragédia mítica — assim classificada na
dramaturgia desse escritor que deu contornos modernos ao teatro
brasileiro em 1943 com a montagem de “Vestido de noiva” erguida
sob direção do polonês Ziembinski (1908–1978) — simboliza no
Oficina uma interseção entre o estilo orgiástico das encenações
de Zé Celso e a arquitetura visual dos espetáculos de Monique
Gardenberg, diretora que se vale de recursos audiovisuais para criar
no palco imagens projetadas com forte aderência na mente do
espectador.
O
texto de Nelson está lá, íntegro, mas potencializado pela
convergência desses estilos e referências aparentemente díspares.
Na tela gigante colada numa das paredes, imagem das águas revoltas
de um mar banham a montagem e refletem a agitação existencial da
família Drummond, atormentada por mortes — todas relacionadas às
águas do mar que levam os corpos inertes ali jogados para a
eternidade — e desejos proibidos.
Não
por acaso, uma canção pouco lembrada de Roberto Carlos e Erasmo
Carlos (1941–2022), gravada por Wanderléa em 1969, reverbera na
cena, no registro original da “Ternurinha”, e se impõe na trilha
sonora pautada pela intensidade afinada com a alma das personagens.
Nessa trilha, cabem tanto um fado — “Nem às paredes confesso”
(1952), ouvido na voz referencial de Amália Rodrigues (1920–1999)
e Anabela — quanto uma valsa dilacerada de dor, “Súplica”
(1940), gravada por Orlando Silva (1915–1963) em período áureo.
Tudo
se afina com o texto em que, na trágica trama familiar de Nelson
Rodrigues, a ação opõe mãe (Dona Eduarda, personagem de Leona
Cavalli, atriz que vive momento de consagração com a autoridade de
ter sido revelada como a Ofélia de um já longínquo “Hamlet”
encenado por Zé Celso) e filha (Moema, vivida por Lara Tremouroux,
grande surpresa do elenco por manter a alta voltagem emocional do
espetáculo nas muitas cenas protagonizadas por Moema) em jogo de
amores, ódios e crimes que nem às paredes mãe, filha e demais
integrantes da família confessam.
Paira
na cena, com o olhar perdido e longe dos loucos, Dona Marianinha, a
matriarca interpretada com maestria por Regina Braga. Dona Marianinha
perdeu a sanidade por ação do filho, Misael, personagem de Marcelo
Drummond, peça também importante nesse jogo de lances arriscados e
passionais.
Na
ação dominada por mulheres, há também o fantasma da prostituta
assassinada na beira do cais, personagem de Sylvia Prado, e o luxuoso
coro das vizinhas interpretadas por Cristina Mutarelli, Giulia Gam,
Ligia Cortez e Michele Matalon. Com a acidez das línguas, as
vizinhas simbolizam em “Senhora dos afogados” uma representação
mais ferina do coro das tragédias gregas. Mas a tragédia acontece
no Brasil de hipocrisias e conservadorismo.
Imersa na plenitude emocional do elenco, a encenação do texto pelo
Teatro Oficina faz emergir o poder aliciante de um dramaturgo sem
papas na língua e que se revela ainda e sempre poderoso na cena
imagética de Monique Gardenberg, hábil ao reacender o fogo sagrado
de Fênix-Zé Celso sem apagar a própria carga autoral como diretora.
Mauro Ferreira
quando estamos
no teatro contemporâneo
no melhor dos cenários
pelo feitiço de um período
não estamos no Rio
nem em Sampa nem em BH
não tem aqui nem acolá
quando estamos no teatro
estamos apenas
(estamos sempre
em Atenas)
Lucas Viriato
Ficha Técnica
Texto:
Suzie Miler
Direção:
Yara de Novaes
Tradução:
Alexandre Tenório
Cenário:
André Cortez
Figurino:
Fabio Namatame
Iluminação:
Wagner Antonio
Trilha
Sonora: Morris
Consultoria
jurídica: Maria Luiza Gomes e Mateus Monteiro
Assistentes
de direção: Ivy Souza e Renan Ferreira
Coordenação
administrativa: Coarte
Assessoria
de Comunicação: Pedro Neves e Lucas Viriato / Clímax Conteúdo
Produção
Executiva: Catarina Milani
Direção
de Produção: Edson Fieschi e Luciano Borges
Realização:
Borges & Fieschi Produções e Antes do Nome
I
O tempo sempre responde
a pergunta nunca feita.
Mesmo não se sabendo de onde
veio a resposta, ela é aceita,
pois que a pergunta em questão
não foi feita por ninguém.
Ignorá-la? Não é opção.
Reclamar? Como? Com quem?
II
Ser incompleto, e só, é ser.
O ser completo é só ter sido.
E mesmo assim o que se busca
é a sensação do concluído,
acreditando (por ingênua
superstição gramatical)
que o “in” de “incompleto” implica
que a completude é o natural.
III
Tudo entender, nem tudo perdoar.
Sempre se pode perdoar mais tarde,
mas entender requer velocidade
e precisão, pra derrubar do ar
a ave em pleno voo. Já o perdão
(tal como a vingança) nunca tem pressa.
A ave pousou, pôs ovos à beça
e os chocou — sim, perdoar. Por que não?
IV
Um dia ainda vou rir de tudo isso.
Mas serei eu mesmo a rir nesse dia?
O eu novo estará rindo do antigo
ou daquilo de que
hoje eu não riria?
Paulo Henriques Britto