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segunda-feira, 28 de julho de 2025

A Arte de Perder, poema de Elizabeth Bishop — tradução por Paulo Henriquess Britto


A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.



Elizabeth Bishop



Tradução de Paulo Henriques Britto

domingo, 20 de julho de 2025

Um poema visual de Ivana Vollaro





Ivana Vollaro


Portuñol/Portunhol, 2004
Pôster a partir de offset, 40 x 60 cm
Offset poster
Publicado na Revista Artéria 9, 2007



Quem não conhece o trabalho visual da Revista Artéria, corre logo para desvendar: pois é o máximo dos máximos!

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Tradução do poema de Max Schhmoll - Por Marilena de Moraes

Era um dia ensolarado na floresta
Eu caminhava, distraído
Via o sol atravessar as folhas.
Os pássaros piavam, cantavam,
Lembro bem.

Recordo os dias de infância
Quando eu circulava entre essas árvores, corria e brincava

As folhas ainda úmidas das chuvas da manhã

Naquela época, o mundo me parecia muito mais agradável,
Puro, muito mais sincero e verdadeiro
Eu tinha tudo que queria
Um sol brilhante, um céu do azul mais azul

De repente, num susto, parei

Bem à minha frente,
a árvore que tanto amei
O carvalho gigante da floresta
Jazia ali, inerte sobre a terra

Como, pelos céus, uma árvore como essa pode morrer
Seus galhos, antes grossos e poderosos, agora estão secos

Quantas flores surgiram de seu humus
Quantos pequenos animais da floresta sua força alimentou
quantos pássaros, assustados por tempestades e trovões, ali se aninharam?

Naquele momento ficou claro
Em uma noite de tempestade sombria
Que esse gigante com tal poder,
Pode ser arrancado com raiz e tudo

Que chances tenho de sobreviver
Neste mundo rude
Cheio de ódio e erros?

De repente, meus pensamentos mudaram
Minhas lembranças do passado desapareceram
E comecei a pensar na morte

E então me perguntei
Estou preparado para enfrentar a morte?
Serei corajoso o bastante para morrer?

Ou, apavorado, vou chorar, soluçar
No meu último momento?

Covarde?
Não, não serei.
Não, não vou enfrentar minha última hora como o descanso
Um descanso tranquilo, há muito desejado.

Vou atraí-la,
Fazer dela convidada,
Tratá-la com delicadeza e
Talvez oferecer uma visão clara da vida

Vou me tornar seu amigo
Um amigo inesperado, inseparável
Que vai levar-me com mão forte e firme até o fim

Ela marcará minha hora precisa no cronograma da Morte
Mas espere: que nuvem negra encobre meus pensamentos e bloqueia minha mente?
O que interessam os pensamentos
Se meu destino já foi traçado?

Devo deixar a vida abraçar-me com vigor,
Pois a Morte não quer ser amiga de ninguém
Ela jamais faltou a um encontro!

Que nuvens negras cobriram meus pensamentos, que morbidez dominou minha mente
Em um dia ensolarado de primavera nesta floresta?
Continuo meu passeio, distraído, por entre os feixes de luz
Que atravessam as folhas.
Ouço os pássaros que cantam,
Os pássaros que cantam sem parar

Marilena de Moraes


O poema original pode ser lido aqui.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Onions | Cebolas — poema de Ricardo Sternberg e tradução de Lucas Viriato


Onions

The opacity of onions
is deceiving.

The onion is a crystal ball
that makes you cry
for future sorrows.

I was told this
by my grandmother
tired of the daily drama
by the sink.

Ricardo Sternberg



Cebolas

A opacidade das cebolas
é enganadora.

A cebola é uma bola de cristal
que te faz chorar
pelas tristezas futuras.

Foi o que me disse
a minha avó
farta dos dramas do dia
cozinhando em frente à pia.

Tradução de Lucas Viriato

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Garden Primer | Jardinagem elementar — poema de Ricardo Sternberg e tradução de Marilena Moraes


Garden Primer

Carrots, said my grandfather,
are nails
which keep the field
from flying.

Then sunflowers,
saind my grandmother,
are daughters
to the sun:

they stare and follow
their bright star father
then shed these hard
dark tears.

Ricardo Sternberg



Jardinagem elementar

As cenouras
aprendi com meu avô,
como pregos,
prendem a vegetação à terra.

E os girassóis,
aprendi com minha avó,
são do Sol
os filhos:

olhar fixo, seguem o
brilhante pai-estrela;
em seguida,
vertem lágrimas amargas e densas.

Tradução de Marilena Moraes

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Fome | Hunger — poema de Marina Du Bois e tradução de Pedro Du Bois


Fome

Quando a fome
não se resolve
com comida

há o prato
a cor
o destino
dos restos
aproveitáveis

quando some a fome
no que não há para comer
há o prato

a receita internacional
a descoberta
a mistura
de restos inaproveitáveis

quando a comida
não atende a fome.

Pedro Du Bois



Hunger

When hunger
is not solved
with food

there is the dish
the color
the destination
of the enjoyable
remains

when hunger fades
by the emptiness to eat

there is the dish
the international recipe
the discovery
the mixture
of unusable debris

when the food
does not meet the hunger.

Marina Du Bois

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Orgulho | Pride — poema de Pedro Du Bois e tradução de Marina Du Bois


Na distância
descubro
a inutilidade
do orgulho

a nacionalidade desfalece
no que deixo de lado

habito o silêncio:
não estou perdido
no hino silenciado

(esqueço a letra do hino pátrio)

maior a distância
nítidos os vultos
de todo o sempre

menos o orgulho
na tristeza desamparada.

Pedro Du Bois



Pride

In the distance
I find out
the uselessness
of pride

nationality faints
in what I leave aside

I live in silence
I am not lost
in the silent hymn

(I forget the lyrics to the anthem)

the greater the distance
sharper are the figures
of all time

less pride
in helpless sadness.

Marina Du Bois


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Sede | Thirst — Poema de Pedro du Bois e tradução de Marina du Bois


Porque da sede somos o cantil repleto 
temos deveres e direitos em obrigações 
diversas dos outros que são a seca
no copo vazio onde não aplacam iras
nem votos declarados como prática
da ética: infiéis procuram nas luas
sinais externos de que a vingança
se fará breve e ilusória na hora
em que apenas o sonho for visto
sobre dunas em águas salgadas

meu barco não será seu barco
nem nosso o impulso dos remos
que nos levará as terras opacas
entre espelhos foscos
e o cantil estará pela metade

instante em que nos vemos
sem entendermos as razões
além das órbitas e rotações

por ciúme derramamos o líquido
sobre as faces que na sede
temos o cantil vazio: em areias
encalhamos o barco ao fazermos
as mãos destrançadas em ritmos
e gestos de até logo.

Pedro du Bois



Thirst
  
As we are the full cantel for the thirst
we have duties and rights in different
obligations from the others who are the
drought in the empty glass where they
do not placate ehtics wraths or declared vows
as ethics’ practice: infidels seek on the moons
external signs that revenge will become brief
and illusory at the time that only the dream
is seen above dunes in salt water

my boat will not be your boat
nor ours the impulse of oars
which will take us to opaque lands
between frosted mirrors
and the cantel will be in half

moment that we see ourselves
without understanding the reasons
beyond the orbits and rotations

out of jealousy we pour the liquid
on the faces that on the thirst
we have an empty cantel: on sands
we run aground the boat as we do
with untied hands in rhythms
and gestures of good-bye.

Marina du Bois

sábado, 9 de setembro de 2017

To say | Dizer — poema e tradução


To say

The man says: should not be here
        my way shows the other side
to where I will go
and where I will settle down and believe
I have reached my destination: the path
will be completed by the songs
I will play at the end of days

nothing happens by chance and songs are
sounds unestablished in the musical sheet
which improvisation surpasses reason
in the ignorance of dreams

the man says: no matter how bad
I am available and my readings
complete what I was thaught
almost nothing
            very little of this crazy science
that changes concepts of what is known
today and was known yesterday that tomorrow
will be new instruments and my silent voice
will say nothing at the end of the day.

Marina Du Bois


Dizer

O homem diz: não deveria estar aqui
       meu caminho indica o outro lado
para onde irei
e onde me estabelecerei e acreditarei
chegar ao meu destino: o caminho
se fará completo nas músicas
que tocarei no final dos dias

nada acontece por acaso e músicas
são sons não estabelecidos na pauta
que o improviso sobrepuja a razão
no desconhecimento dos sonhos

o homem diz: por pior que seja
estou disponível e minhas leituras
completam o que me foi ensinado
quase nada
         muito pouco dessa ciência louca
que muda conceitos do que se sabe
hoje e se sabia ontem que amanhã
serão novos instrumentos e minha voz
calada no final do dia não dirá nada.

Pedro Du Bois

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Camiseta Plástico Bolha - Buffalo / Búfalo




Quer vestir um poema de Ricardo Sternberg, com tradução de Paulo Henriques Britto e ilustração por Pedro Zylbersztajn?

Camiseta Buffalo - http://piratasart.com/produto/buffalo/
R$37.00 (preço promocional de lançamento)
Ilustração de Pedro Zylbersztajn
Poema de Ricardo Sternberg
Tradução de Paulo Henriques Britto

Conheça a camiseta Buffalo, a primeira da linha de itens dedicados à poesia e de conteúdo exclusivo do Plástico Bolha em parceria com a Piratas.art!!! Comprando a camiseta você contribui para o financiamento do Jornal Plástico Bolha.

Piratas é um ateliê especializado em moda alternativa e estampas personalizadas. Localizado no Rio de Janeiro, foi criado para oferecer roupas que se diferenciam dos padrões estabelecidos pelas grandes organizações que ditam a moda mundial. Arte e cultura alternativa, retrô, psicodelia, graffiti, surrealismo, natureza e Plástico Bolha – de tudo você encontra lá.

Cor: Cinza (outras opções de cor sob encomenda)
Malha em poliéster

Medidas:
P – 66cm (comp) x 49,5cm (larg)
M – 69cm (comp) x 52,5cm (larg)
G – 72cm (comp) x 55,5cm (larg)
GG – 74,5cm (comp) x 59,5 (larg)



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Paulo Henriques Britto lança novo livro

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É na próxima quarta-feira, dia 17, o lançamento do livro "A tradução literária" de Paulo Henriques Britto. O evento será na Livraria da Travessa do Leblon e contará com bate-papo com o autor às 19h e coquetel e sessão de autógrafos às 20:30h. Esperamos vocês lá!

sábado, 25 de setembro de 2010

A pequena chama — poema de Juana de Ibarbourou traduzido por Miguel Del Castillo

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Eu sinto um amor selvagem pela luz.
Cada pequena chama me encanta e me ultrapassa.
Não é cada lume um cálice que conduz
O calor das almas que encontra em sua jornada?

Algumas são pequenas, azuis, tremelicantes,
Iguais às almas taciturnas e bondosas.
Outras são quase brancas: lírios fulgurantes.
Outras, quase vermelhas: espíritos de rosas.

Respeito e adoro a luz como se fosse inteira
Uma coisa viva, que sente, que medita,
Um ser que nos contempla, transformado em fogueira.

Assim, quando morrer, hei de ser, a seu lado,
Uma pequena chama de doçura infinita

Em suas noites longas de amante desolado.
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Juana de Ibarbourou
("La pequeña llama", in Lenguas de diamante. Montevidéu, 1919.)
Tradução de Miguel Del Castillo
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Juana de Ibarbourou (1892-1979) foi uma poeta uruguaia incrível. Começou a publicar seus poemas apenas com 16 anos de idade, antes de se começar a falar em modernismo aqui na América do Sul. Embora sua poesia seja composta de sonetos, versos com métrica e rimados, Juana influenciou muito sua geração e seus sucessores, não apenas no Uruguai, mas em todo continente e na Espanha. O desnudamento sincero da alma — muito além de fórmulas prontas e pastelões — impressiona, ainda mais vindo de uma mulher naquela sociedade. Suas obras completas já foram editadas três vezes na Espanha pela Aguilar, e ainda assim Juana nunca foi traduzida no Brasil. Abaixo, o soneto original:
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La pequeña llama

Yo siento por la luz un amor de salvaje.
Cada pequeña llama me encanta y sobrecoge.
No será, cada lumbre, un cáliz que recoge
El calor de las almas que pasan en su viaje?

Hay unas pequeñitas, azules, temblorosas,
Lo mismo que las almas taciturnas y buenas.
Hay otras casi blancas: fulgores de azucenas.
Hay otras casi rojas: espíritus de rosas.

Yo respecto y adoro la luz como si fuera
Una cosa que vive, que siente, que medita,
Un ser que nos contempla transformado en hoguera.

Así, cuando yo muera, he de ser a tu lado,
Una pequeña llama de dulzura infinita
Para tus largas noches de amante desolado
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domingo, 5 de abril de 2009

CLIQUE AQUI: O Sindicato dos Tradutores

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O Sindicato Nacional dos Tradutores tem entre seus objetivos lutar pela remuneração digna do tradutor, pelo recebimento, pelos tradutores de livros, de direitos autorais, além de dar apoio aos profissionais nas suas questões com os clientes. O SINTRA publica uma lista de valores recomendados, que serve de orientação para quem contrata e para quem oferece serviços de tradução.
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domingo, 22 de março de 2009

CLIQUE AQUI: Assoc. Brasileira de Tradutores

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A Associação Brasileira de Tradutores - ABRATES reúne profissionais da tradução e visa ao desenvolvimento profissional, à interação e à cooperação entre os tradutores, professores de tradução e estudantes, e à valorização da profissão e dos profissionais. Tem um programa de credenciamento de tradutores e cursos, além de divulgar informações e eventos. Vale o clique!
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O Solilóquio do Príncipe

Verdade seja dita,
gostaria que ela
me desbeijasse,

transformasse-me de volta
no sapo que eu era
e criatura feliz

naquele pequeno lago
no Tennessee.
O que posso dizer?

Devolva-me as noites
quando desafiei a lua,
gorda e redonda,

a descer
e nadar nua
até a alvorada.

Esses calções de veludo,
o alvoroço que saúda
minhas aulas de canto,

a fanfarra que soa
quando engulo mosquitos,
nada aqui se compara

àqueles momentos
em que ela despia o manto,
testava a água

com os dedos do pé
e afundava, prateando
o lago escuro

e nadava ao som
do barítono retumbante
do meu gracioso grasnido.
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Tradução de Luisa Noronha para o poema The Prince's Soliloquy, de Ricardo Sternberg. Realizada com a supervisão do professor e tradutor Paulo Henriques Britto.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Canto XXIII da Odisséia traduzido e comentado por Rafael Huguenin

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Make it new
Pound
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E para cima foi a velha gargalhando
à senhora dizendo que o esposo voltou.
E os joelhos rangeram, pés pularam rápidos.
E postou-se-lhe então sobre a cabeça e disse:
“Ergue-te, filha amada Penélope, e veja
cos olhos teus as coisas que tu tanto ansiavas.
Pois Ulisses voltou, que há muito se perdeu.
E matou pretendentes que toda tua casa
e tuas posses comiam oprimindo-te o filho.”
Respondeu novamente Prudente Penélope:
“Ama, numes puseram-te louca, eles podem
tanto destemperado fazer o que é são
como sóbrio fazer o que tem pouca têmpera.
Decerto te enlouquecem, ama outrora sã.
Zombas-me, eu que tenho alma em polipesar
falando estas tolices e assim me acordando
do sono que meus olhos ata e brando enleva-me,
sono bom que eu não durmo desque ele se foi
para o Tróiço maldito que o nome não ouso.
Mas Eia! Vai-te agora e encerre-se no quarto,
pois se outra das escravas dentre as muitas minhas
vem aqui e falando tais coisas me acorda,
curta e grossa no quarto a poria em castigo,
mas disso com certeza a velhice te salva.”
Respondeu novamente Ama Amada Euricléia:
“Não zombo-te, querida, mas digo em verdade
Pois Ulisses voltou, em verdade declaro,
o estrangeiro, que muitos na sala insultavam.
E Telêmaco apenas há muito sabia
mas astuto ocultou os planos do seu pai
a fim de que aos varões cobrasse pelo crime.”

Odisséia, Canto XXIII - Versos 1 ao 31



Comentários

Nossa humilde tentativa, antes de tudo um esforço de um apaixonado pela poesia pouco afeito aos rigores que o estudo das línguas clássicas exige, é fruto de um estudo que realizamos acerca da poesia oral grega e da tradução de algumas partes da Odisséia. A transcriação que ora apresentamos, em versos alexandrinos, constitui apenas uma dentre as inúmeras possibilidades de invenção poética que o texto grego oferece aos poetas de língua portuguesa. Entre a condensação máxima da tradução decassilábica obtida por Odorico Mendes, que o obrigou a pular versos e a criar uma série de neologismos e novos arranjos sintáticos, e a tentativa de Carlos Alberto Nunes de buscar um metro equivalente ao hexâmetro grego, que, a despeito da fidelidade em número de sílabas ao original, não constitui um metro típico da poesia de língua portuguesa, optamos pelo verso de doze sílabas, o metro regular mais largo de nossa tradição.

A parataxe, isto é, relações coordenadas, é uma característica fundamental da poesia oral e, segundo alguns, da própria mentalidade de uma cultura de oralidade primária. A maioria das traduções contemporâneas de textos arcaicos tende a projetar sobre o texto antigo critérios discursivos que não se aplicam devidamente ao contexto da época. É mais cômodo ao ouvido moderno estruturar os enunciados de forma hipotática, isto é, estabelecendo relações subordinadas/lógicas entre eles, do que tentar ouvir o texto em toda a sua estranheza originária. No entanto, nossos critérios lógicos não se aplicam, de forma alguma, a um texto composto provavelmente por volta de 800 a. C. Sendo assim, tentaremos utilizar, sempre que possível, relações coordenadas.

Verso 7 – A parte inicial deste verso, êlth' Odyseùs kaì oîkon ikánetai, é repetida mais adiante no verso 27, o que caracteriza a utilização de uma fórmula, recurso típico da poesia oral. Cerca de um terço da Ilíada e da Odisséia é constituído por repetições, ipsis litteris, seja de versos inteiros, seja de partes menores de versos, chamadas fórmulas. O poeta homérico possuía um vasto repertório de expressões formalizadas, que ele utilizava em contextos métricos específicos, de modo a facilitar a improvisação. Qualquer semelhança com o nosso repentista não é mera coincidência.

Verso 10 – A parte inicial deste verso (tên d'aûte proséeipe) é repetida adiante, no verso 25, o que constitui outra utilização de fórmula. Traduzimos a expressão perífrôn Pênelópeia por Prudente Penélope, grafando com maiúscula o adjetivo de modo a caracterizar melhor o conjunto nome-epíteto, o tipo de fórmula mais comum nos poemas homéricos. Caso contrário, correríamos o risco de sugerir, na tradução, algum tipo de uso adverbial, certamente inapropriado.

Versos 12-13 – Os dois versos constituem um paralelismo, recurso largamente utilizado na poesia homérica e na poesia oral de modo geral. Fizemos uma tentativa de reproduzir, ainda que de forma provisória e um tanto arbitrária, a aliteração sugerida pelo emprego de quatro palavras com a mesma raiz: áphrona (acusativo singular de a-phrôn, palavra composta de um alfa privativo mais a raiz phrên, que pode ser traduzida, literalmente, por sem-entranha, mas também por demente, sem juízo, tolo, etc.), epíphrona (acusativo singular de epí-phrôn, que pode ser traduzido por pensador ou prudente), chaliphronéonta (particípio ativo acusativo singular do verbo chaliphronéô, composto por chaláô, que significa perder, mais a raiz phrên. Pode ser traduzido, literalmente, por que perde entranha ou perdendo entranha). E, por fim, saophrosynês (genitivo singular da forma poética de sôphrosýnê, palavra composta por sôs, que significa seguro, saudável, e phrên. Pode ser traduzida por temperança.) Um dos modos possíveis para manter a mesma raiz nas quatro palavras é utilizar os termos destemperado, têmpera, intemperante e temperança.

Verso 14 – Nossa opção (boas têmperas) para a expressão phrénas aisímê, que pode ser traduzida, literalmente, por entranhas corretas, soa esquisito em português. Tem obviamente o sentido de ter juízo, segundo o léxico Liddell & Scott. Isso explica-se pelo fato de que os gregos situavam nas entranhas, phrénes, o centro de atividades intelectuais, emotivas e intencionais. Phrên é equivalente ao termo latino praecordia, que pode ser traduzido por diafragma, coração, peito, vísceras, sentimento, etc.

Verso 15 – Polipesararosa, isto é, cheia de pesares, é nossa solução para polypenthéa, acusativo singular de poly-penthês, palavra composta de polýs (muito) mais pénthos (pesar). Acreditamos que o português é rico o bastante para traduzir qualquer expressão grega. O que falta é um pouco de esforço, e alguns quilômetros a mais de leitura dos nossos quinhentistas.


Rafael Huguenin é aluno do mestrado em Filosofia na PUC-Rio e, segundo ele mesmo, para sua desgraça, também é poeta e tradutor. Além disso, ainda acaba de terminar uma outra graduação em Letras (Português-Grego), na UFF.

Já publicou dois poemas no Plástico Bolha e, dessa vez, enviou essa belíssima tradução (ou transcriação) em versos alexandrinos do canto 23 da Odisséia, de Homero, seguida de alguns comentários.

Neste breve texto, podemos ver o quanto nosso amigo domina o assunto e o quão fascinante é a dedicação de algumas pessoas pelos textos clássicos. Sempre admirei muito pessoas que passam horas de suas vidas em frente à Ilíadas, Odisséias, Bhagavad Gitas ou Bíblias, destrinchando termos, analisando escolhas, chegando um pouquinho mais perto de outros tempos, de civilizações que já não estão mais por aqui. Esse tipo de estudo, que cruza os séculos, faz parecer que os 20 anos de espera de Penélope nem são tanto tempo assim.

Viva Junito Brandão e todos aqueles que usam o passado para nos fazer entender o presente e construir o futuro.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

The Prince’s Soliloquy

.
Truth be told,
I wish she would
unkiss me,

turn me back
into the frog I was
and happy being

in that small pond
in Tennessee.
What can I say?

Give me back nights
when I dared the moon,
fat and round,

to step down
and skinny dip
until dawn.

These velvet britches,
the foofaraw that greets
my singing lessons,

the fanfare raised
when I swallow gnats,
nothing here even close

to those moments
when she dropped her cloak,
tested the waters

with her toes
then slipped in to silver
the dark pond

and swam about
to the booming baritone
of my lovely croak.


Ricardo Sternberg


Ricardo Sternberg é carioca, mas mudou-se para os Estados Unidos com a família aos quinze anos de idade.

Bacharel em literatura inglesa pela University of California, Riverside, fez mestrado e doutorado em literatura comparada na UCLA. Seus poemas já foram publicados em revistas como The Paris Review, The Nation, Poetry (Chicago), Descant, American Poetry Review, The Virginia Quarterly e Ploughshares. Publicou The invention of honey (1990, reeditado em 1996), Map of dreams (1996) e Bamboo church (2003, reeditado em 2006).

Desde 1979, vive no Canadá, onde dá aulas de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Toronto. Escreve quase exclusivamente em inglês, mas não nega a influência de Bandeira, Drummond e Cabral.

Em 2007, fez uma visita à PUC-Rio, apresentando uma pequena palestra para os alunos da Oficina de Poesia do professor Paulo Henriques Britto. Nesta ocasião, Sternberg enviou ao Plástico Bolha cinco poemas. Quatro deles foram traduzidos por Marilena Moraes, Mariana Lopes Peixoto e Luisa Noronha, todos com a supervisão de Paulo Britto.
.
O quinto, The Prince's Soliloquy, acabou não sendo publicado e, por isso, nem foi traduzido. Quem tiver interesse em traduzir o poema de Ricardo Sternberg, pode enviar sua tradução para o e-mail do jornal, jornalplasticobolha@gmail.com, que a publicaremos aqui no Blog.