A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas
coisas contêm em si o acidente
De
perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca
um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A
chave perdida, a hora gasta bestamente.
A
arte de perder não é nenhum mistério.
Depois
perca mais rápido, com mais critério:
Lugares,
nomes, a escala subsequente
Da
viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi
o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar
a perda de três casas excelentes.
A
arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi
duas cidades lindas. E um império
Que
era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho
saudade deles. Mas não é nada sério.
—
Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que
eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que
a arte de perder não chega a ser mistério
por
muito que pareça (Escreve!) muito sério.
Elizabeth Bishop
Tradução de Paulo Henriques Britto
segunda-feira, 28 de julho de 2025
A Arte de Perder, poema de Elizabeth Bishop — tradução por Paulo Henriquess Britto
domingo, 20 de julho de 2025
Um poema visual de Ivana Vollaro
Ivana Vollaro
Portuñol/Portunhol, 2004
Pôster a partir de offset, 40 x 60 cm
Offset poster
Publicado na Revista Artéria 9, 2007
sexta-feira, 7 de maio de 2021
Tradução do poema de Max Schhmoll - Por Marilena de Moraes
Era um dia ensolarado na floresta
Eu caminhava, distraído
Via o sol atravessar as folhas.
Os pássaros piavam, cantavam,
Lembro bem.
Recordo os dias de infância
Quando eu circulava entre essas árvores, corria e brincava
As folhas ainda úmidas das chuvas da manhã
Naquela época, o mundo me parecia muito mais agradável,
Puro, muito mais sincero e verdadeiro
Eu tinha tudo que queria
Um sol brilhante, um céu do azul mais azul
De repente, num susto, parei
Bem à minha frente,
a árvore que tanto amei
O carvalho gigante da floresta
Jazia ali, inerte sobre a terra
Como, pelos céus, uma árvore como essa pode morrer
Seus galhos, antes grossos e poderosos, agora estão secos
Quantas flores surgiram de seu humus
Quantos pequenos animais da floresta sua força alimentou
quantos pássaros, assustados por tempestades e trovões, ali
se aninharam?
Naquele momento ficou claro
Em uma noite de tempestade sombria
Que esse gigante com tal poder,
Pode ser arrancado com raiz e tudo
Que chances tenho de sobreviver
Neste mundo rude
Cheio de ódio e erros?
De repente, meus pensamentos mudaram
Minhas lembranças do passado desapareceram
E comecei a pensar na morte
E então me perguntei
Estou preparado para enfrentar a morte?
Serei corajoso o bastante para morrer?
Ou, apavorado, vou chorar, soluçar
No meu último momento?
Covarde?
Não, não serei.
Não, não vou enfrentar minha última hora como o descanso
Um descanso tranquilo, há muito desejado.
Vou atraí-la,
Fazer dela convidada,
Tratá-la com delicadeza e
Talvez oferecer uma visão clara da vida
Vou me tornar seu amigo
Um amigo inesperado, inseparável
Que vai levar-me com mão forte e firme até o fim
Ela marcará minha hora precisa no cronograma da Morte
Mas espere: que nuvem negra encobre meus pensamentos e
bloqueia minha mente?
O que interessam os pensamentos
Se meu destino já foi traçado?
Devo deixar a vida abraçar-me com vigor,
Pois a Morte não quer ser amiga de ninguém
Ela jamais faltou a um encontro!
Que nuvens negras cobriram meus pensamentos, que morbidez
dominou minha mente
Em um dia ensolarado de primavera nesta floresta?
Continuo meu passeio, distraído, por entre os feixes de luz
Que atravessam as folhas.
Ouço os pássaros que cantam,
Os pássaros que cantam sem parar
Marilena de Moraes
O poema original pode ser lido aqui.
sexta-feira, 5 de outubro de 2018
Onions | Cebolas — poema de Ricardo Sternberg e tradução de Lucas Viriato
Onions
The opacity of onions
is deceiving.
The onion is a crystal ball
that makes you cry
for future sorrows.
I was told this
by my grandmother
tired of the daily drama
by the sink.
Ricardo Sternberg
Cebolas
A opacidade das cebolas
é enganadora.
A cebola é uma bola de cristal
que te faz chorar
pelas tristezas futuras.
Foi o que me disse
a minha avó
farta dos dramas do dia
cozinhando em frente à pia.
Tradução de Lucas Viriato
terça-feira, 25 de setembro de 2018
Garden Primer | Jardinagem elementar — poema de Ricardo Sternberg e tradução de Marilena Moraes
Garden Primer
Carrots, said my grandfather,
are nails
which keep the field
from flying.
Then sunflowers,
saind my grandmother,
are daughters
to the sun:
they stare and follow
their bright star father
then shed these hard
dark tears.
Ricardo Sternberg
quarta-feira, 6 de dezembro de 2017
Fome | Hunger — poema de Marina Du Bois e tradução de Pedro Du Bois
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
Orgulho | Pride — poema de Pedro Du Bois e tradução de Marina Du Bois
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Sede | Thirst — Poema de Pedro du Bois e tradução de Marina du Bois
sábado, 9 de setembro de 2017
To say | Dizer — poema e tradução
To say
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Camiseta Plástico Bolha - Buffalo / Búfalo
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terça-feira, 16 de outubro de 2012
Paulo Henriques Britto lança novo livro
sábado, 25 de setembro de 2010
A pequena chama — poema de Juana de Ibarbourou traduzido por Miguel Del Castillo
Eu sinto um amor selvagem pela luz.
Cada pequena chama me encanta e me ultrapassa.
Não é cada lume um cálice que conduz
O calor das almas que encontra em sua jornada?
Algumas são pequenas, azuis, tremelicantes,
Iguais às almas taciturnas e bondosas.
Outras são quase brancas: lírios fulgurantes.
Outras, quase vermelhas: espíritos de rosas.
Respeito e adoro a luz como se fosse inteira
Uma coisa viva, que sente, que medita,
Um ser que nos contempla, transformado em fogueira.
Assim, quando morrer, hei de ser, a seu lado,
Uma pequena chama de doçura infinita
Em suas noites longas de amante desolado.
.
Juana de Ibarbourou
("La pequeña llama", in Lenguas de diamante. Montevidéu, 1919.)
Tradução de Miguel Del Castillo
.
.
.
La pequeña llama
Yo siento por la luz un amor de salvaje.
Cada pequeña llama me encanta y sobrecoge.
No será, cada lumbre, un cáliz que recoge
El calor de las almas que pasan en su viaje?
Hay unas pequeñitas, azules, temblorosas,
Lo mismo que las almas taciturnas y buenas.
Hay otras casi blancas: fulgores de azucenas.
Hay otras casi rojas: espíritus de rosas.
Yo respecto y adoro la luz como si fuera
Una cosa que vive, que siente, que medita,
Un ser que nos contempla transformado en hoguera.
Así, cuando yo muera, he de ser a tu lado,
Una pequeña llama de dulzura infinita
Para tus largas noches de amante desolado
.
domingo, 5 de abril de 2009
CLIQUE AQUI: O Sindicato dos Tradutores
domingo, 22 de março de 2009
CLIQUE AQUI: Assoc. Brasileira de Tradutores
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
O Solilóquio do Príncipe
Verdade seja dita,
gostaria que ela
me desbeijasse,
transformasse-me de volta
no sapo que eu era
e criatura feliz
naquele pequeno lago
no Tennessee.
O que posso dizer?
Devolva-me as noites
quando desafiei a lua,
gorda e redonda,
a descer
e nadar nua
até a alvorada.
Esses calções de veludo,
o alvoroço que saúda
minhas aulas de canto,
a fanfarra que soa
quando engulo mosquitos,
nada aqui se compara
àqueles momentos
em que ela despia o manto,
testava a água
com os dedos do pé
e afundava, prateando
o lago escuro
e nadava ao som
do barítono retumbante
do meu gracioso grasnido.
.
domingo, 14 de dezembro de 2008
Canto XXIII da Odisséia traduzido e comentado por Rafael Huguenin
. Pound
E postou-se-lhe então sobre a cabeça e disse:
“Ergue-te, filha amada Penélope, e veja
Pois Ulisses voltou, que há muito se perdeu.
E matou pretendentes que toda tua casa
e tuas posses comiam oprimindo-te o filho.”
Respondeu novamente Prudente Penélope:
tanto destemperado fazer o que é são
como sóbrio fazer o que tem pouca têmpera.
Decerto te enlouquecem, ama outrora sã.
Zombas-me, eu que tenho alma em polipesar
do sono que meus olhos ata e brando enleva-me,
sono bom que eu não durmo desque ele se foi
para o Tróiço maldito que o nome não ouso.
Mas Eia! Vai-te agora e encerre-se no quarto,
pois se outra das escravas dentre as muitas minhas
vem aqui e falando tais coisas me acorda,
curta e grossa no quarto a poria em castigo,
mas disso com certeza a velhice te salva.”
Respondeu novamente Ama Amada Euricléia:
“Não zombo-te, querida, mas digo em verdade
Pois Ulisses voltou, em verdade declaro,
o estrangeiro, que muitos na sala insultavam.
E Telêmaco apenas há muito sabia
mas astuto ocultou os planos do seu pai
Odisséia, Canto XXIII - Versos 1 ao 31
Comentários
Nossa humilde tentativa, antes de tudo um esforço de um apaixonado pela poesia pouco afeito aos rigores que o estudo das línguas clássicas exige, é fruto de um estudo que realizamos acerca da poesia oral grega e da tradução de algumas partes da Odisséia. A transcriação que ora apresentamos, em versos alexandrinos, constitui apenas uma dentre as inúmeras possibilidades de invenção poética que o texto grego oferece aos poetas de língua portuguesa. Entre a condensação máxima da tradução decassilábica obtida por Odorico Mendes, que o obrigou a pular versos e a criar uma série de neologismos e novos arranjos sintáticos, e a tentativa de Carlos Alberto Nunes de buscar um metro equivalente ao hexâmetro grego, que, a despeito da fidelidade em número de sílabas ao original, não constitui um metro típico da poesia de língua portuguesa, optamos pelo verso de doze sílabas, o metro regular mais largo de nossa tradição.
A parataxe, isto é, relações coordenadas, é uma característica fundamental da poesia oral e, segundo alguns, da própria mentalidade de uma cultura de oralidade primária. A maioria das traduções contemporâneas de textos arcaicos tende a projetar sobre o texto antigo critérios discursivos que não se aplicam devidamente ao contexto da época. É mais cômodo ao ouvido moderno estruturar os enunciados de forma hipotática, isto é, estabelecendo relações subordinadas/lógicas entre eles, do que tentar ouvir o texto em toda a sua estranheza originária. No entanto, nossos critérios lógicos não se aplicam, de forma alguma, a um texto composto provavelmente por volta de 800 a. C. Sendo assim, tentaremos utilizar, sempre que possível, relações coordenadas.
Verso 7 – A parte inicial deste verso, êlth' Odyseùs kaì oîkon ikánetai, é repetida mais adiante no verso 27, o que caracteriza a utilização de uma fórmula, recurso típico da poesia oral. Cerca de um terço da Ilíada e da Odisséia é constituído por repetições, ipsis litteris, seja de versos inteiros, seja de partes menores de versos, chamadas fórmulas. O poeta homérico possuía um vasto repertório de expressões formalizadas, que ele utilizava em contextos métricos específicos, de modo a facilitar a improvisação. Qualquer semelhança com o nosso repentista não é mera coincidência.
Verso 10 – A parte inicial deste verso (tên d'aûte proséeipe) é repetida adiante, no verso 25, o que constitui outra utilização de fórmula. Traduzimos a expressão perífrôn Pênelópeia por Prudente Penélope, grafando com maiúscula o adjetivo de modo a caracterizar melhor o conjunto nome-epíteto, o tipo de fórmula mais comum nos poemas homéricos. Caso contrário, correríamos o risco de sugerir, na tradução, algum tipo de uso adverbial, certamente inapropriado.
Versos 12-13 – Os dois versos constituem um paralelismo, recurso largamente utilizado na poesia homérica e na poesia oral de modo geral. Fizemos uma tentativa de reproduzir, ainda que de forma provisória e um tanto arbitrária, a aliteração sugerida pelo emprego de quatro palavras com a mesma raiz: áphrona (acusativo singular de a-phrôn, palavra composta de um alfa privativo mais a raiz phrên, que pode ser traduzida, literalmente, por sem-entranha, mas também por demente, sem juízo, tolo, etc.), epíphrona (acusativo singular de epí-phrôn, que pode ser traduzido por pensador ou prudente), chaliphronéonta (particípio ativo acusativo singular do verbo chaliphronéô, composto por chaláô, que significa perder, mais a raiz phrên. Pode ser traduzido, literalmente, por que perde entranha ou perdendo entranha). E, por fim, saophrosynês (genitivo singular da forma poética de sôphrosýnê, palavra composta por sôs, que significa seguro, saudável, e phrên. Pode ser traduzida por temperança.) Um dos modos possíveis para manter a mesma raiz nas quatro palavras é utilizar os termos destemperado, têmpera, intemperante e temperança.
Verso 14 – Nossa opção (boas têmperas) para a expressão phrénas aisímê, que pode ser traduzida, literalmente, por entranhas corretas, soa esquisito em português. Tem obviamente o sentido de ter juízo, segundo o léxico Liddell & Scott. Isso explica-se pelo fato de que os gregos situavam nas entranhas, phrénes, o centro de atividades intelectuais, emotivas e intencionais. Phrên é equivalente ao termo latino praecordia, que pode ser traduzido por diafragma, coração, peito, vísceras, sentimento, etc.
Verso 15 – Polipesararosa, isto é, cheia de pesares, é nossa solução para polypenthéa, acusativo singular de poly-penthês, palavra composta de polýs (muito) mais pénthos (pesar). Acreditamos que o português é rico o bastante para traduzir qualquer expressão grega. O que falta é um pouco de esforço, e alguns quilômetros a mais de leitura dos nossos quinhentistas.
Rafael Huguenin é aluno do mestrado em Filosofia na PUC-Rio e, segundo ele mesmo, para sua desgraça, também é poeta e tradutor. Além disso, ainda acaba de terminar uma outra graduação em Letras (Português-Grego), na UFF.
Já publicou dois poemas no Plástico Bolha e, dessa vez, enviou essa belíssima tradução (ou transcriação) em versos alexandrinos do canto 23 da Odisséia, de Homero, seguida de alguns comentários.
Neste breve texto, podemos ver o quanto nosso amigo domina o assunto e o quão fascinante é a dedicação de algumas pessoas pelos textos clássicos. Sempre admirei muito pessoas que passam horas de suas vidas em frente à Ilíadas, Odisséias, Bhagavad Gitas ou Bíblias, destrinchando termos, analisando escolhas, chegando um pouquinho mais perto de outros tempos, de civilizações que já não estão mais por aqui. Esse tipo de estudo, que cruza os séculos, faz parecer que os 20 anos de espera de Penélope nem são tanto tempo assim.
Viva Junito Brandão e todos aqueles que usam o passado para nos fazer entender o presente e construir o futuro.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
The Prince’s Soliloquy
Truth be told,
I wish she would
unkiss me,
turn me back
into the frog I was
and happy being
in that small pond
in Tennessee.
What can I say?
Give me back nights
when I dared the moon,
fat and round,
to step down
and skinny dip
until dawn.
These velvet britches,
the foofaraw that greets
my singing lessons,
the fanfare raised
when I swallow gnats,
nothing here even close
to those moments
when she dropped her cloak,
tested the waters
with her toes
then slipped in to silver
the dark pond
and swam about
to the booming baritone
of my lovely croak.
Ricardo Sternberg
Ricardo Sternberg é carioca, mas mudou-se para os Estados Unidos com a família aos quinze anos de idade.
Bacharel em literatura inglesa pela University of California, Riverside, fez mestrado e doutorado em literatura comparada na UCLA. Seus poemas já foram publicados em revistas como The Paris Review, The Nation, Poetry (Chicago), Descant, American Poetry Review, The Virginia Quarterly e Ploughshares. Publicou The invention of honey (1990, reeditado em 1996), Map of dreams (1996) e Bamboo church (2003, reeditado em 2006).
Desde 1979, vive no Canadá, onde dá aulas de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Toronto. Escreve quase exclusivamente em inglês, mas não nega a influência de Bandeira, Drummond e Cabral.
Em 2007, fez uma visita à PUC-Rio, apresentando uma pequena palestra para os alunos da Oficina de Poesia do professor Paulo Henriques Britto. Nesta ocasião, Sternberg enviou ao Plástico Bolha cinco poemas. Quatro deles foram traduzidos por Marilena Moraes, Mariana Lopes Peixoto e Luisa Noronha, todos com a supervisão de Paulo Britto.




