sábado, 14 de março de 2009

A vizinha do 402, um texto de Marina Sena

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Fui à praia, como sempre costumo fazer, logo pela manhã, aproveitando que ainda estava vazia. Havia apenas algumas poucas pessoas, que, como eu, não gostavam do alvoroço que é a praia mais tarde.
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Algumas delas estavam sentadas olhando o horizonte, outras caminhando à beira-mar. E tudo estava como sempre costumava ser. A não ser por uma só coisa: a vizinha do 402. Ela nunca ia à praia, então porque o teria feito naquele dia? Ninguém sabe. O fato é que ela estava lá, sozinha e quieta.
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A gente se conhecia apenas de se cumprimentar às vezes, bem vagamente. Nunca soube muito sobre ela, pois sempre foi muito reservada, mas sei que é estrangeira e tinha uma loja de perfumes no bairro mesmo. Na verdade, isso de ela ser estrangeira era uma coisa que logo se via. Era muito branca, de olhos claros, bonita, e com um sotaque inglês inconfundível que notei nas raras ocasiões em que me cumprimentava.
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Morava sozinha no 402, e pra dizer a verdade, eu não sabia nem mesmo seu nome, mas tinha certeza que ela era do 402. Lembro-me de que morava com um rapaz, mas acabaram se separando. Dizem que foi porque ela o encontrou com uma amante, mas não se sabe bem, foi apenas o que me disseram.
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Ninguém sabe também o que a levou morar aqui no Rio. Dizem os vizinhos que foi para abrir a tal loja de perfumes, mas na verdade isso era um mistério tão grande quanto o motivo que a levou ir à praia naquela manhã.
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Estava deitada, com uma perna esticada e outra dobrada, com seus óculos escuros, quando resolveu dar um mergulho. Entrou no mar, na água fria que devia estar naquele dia e depois de uma ou duas ondas, saiu, linda de ver.
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O sol a iluminava toda revestida de água que refletiam a luminosidade do sol, e de repente ela tornou-se tudo o que havia de mais belo naquela praia. Nada era tão lindo de se apreciar. Nem o Cristo, o mar, as montanhas, nem os pássaros, que voavam leves e majestosos. As ondas se congelaram no azul do céu, e os pássaros ficaram suspensos por algo invisível. Tudo, por um instante, parou, enquanto ela, uma sereia, saía do mar.
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Fulgurante que só, sem mesmo o saber, pôs sua canga florida e, ainda molhada, com os cabelos belos e despenteados, veio caminhando pela praia, e passou bem ao meu lado, me olhou e disse com seu sotaque inglês:
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— Bom dia!
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Imaginei tantas coisas para dizer a ela. Talvez devesse perguntar seu nome, ou dizer o quanto era linda, mas de repente algo em mim gelou as palavras que eu organizava em minha mente e me limitei apenas a lhe responder:
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— Bom dia!
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Ela foi andando, atravessou a rua, para o mesmo prédio em que eu morava, entrou pela portaria e, em alguns minutos, eu já não a avistava mais. Desde então, para meu desapontamento, nunca mais a vi na praia logo de manhãzinha.
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Por algum tempo, sempre que pela manhã ia à praia, esta me parecia deserta e eu procurava pela minha vizinha, mas ela não aparecia.
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Sempre que a via, não murmurava mais do que um “bom dia”, tímido e moço que eu era. Ela jamais soube que naquela manhã agraciou com sua beleza, o seu vizinho do 102.
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Agora ela nem é mais minha vizinha. Dizem que voltou para Europa.
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De tudo, é certo que depois daquela manhã, sempre esperava sua presença, e a praia ficava deserta sem ela. Eu já devia saber que ela não voltaria mais naquela mesma hora e na naquela mesma praia, afinal ela nem costumava ir... Devia ter adivinhado que tudo foi uma feliz coincidência. Mas sempre me recordo dela, linda de ver, saindo do mar.
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Marina Sena
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Dores do mundo, poema de Patrícia Couto

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Olhos de fome
Me falam todos os dias
Olhos de tristeza
Me choram a cada hora
Olhos de angústia
Imploram-me amor
E meus olhos se fecham
Apagados pela dor
Mas não posso evitar
Esta música cortante
Melodiosa e corrente
Que meus olhos sempre ouvem
Gostaria de possuir
O bálsamo calmante
O sonífero apaziguador
Poderoso restaurador
Para as dores do amanhecer
E as angústias do anoitecer
Que vazam destes olhos
Que me fitam a cada dia
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Patrícia Couto
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Patrícia Couto é formada em Matemática com Informática, fez Pós na PUC-RJ e MBA na FGV-SP. Por sorte, as ciências exatas não a impediram se seguir escrevendo seus versos.

quinta-feira, 12 de março de 2009

I Mostra Brasileira de Poesia de Maricá:

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A Prefeitura Municipal de Maricá e a Secretaria Municipal de Cultura lança o projeto Maricá, Cidade da Poesia”, e realizam a “I Mostra Brasileira“, neste mês de março. A Mostra contará com a presença dos mais renomados poetas e escritores brasileiros, além da participação dos novos e novíssimos talentos. Está dividida em cinco painéis: Poesia Cantada, Poesia Visual, Poesia Encenada, Poesia Dançada e Poesia Falada. O evento contará com a presença do pessoal do jornal Plástico Bolha no dia 15 de março, domingo!
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I Mostra Brasileira de Poesia - Programação:
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12 de março (quinta- feira) - 15h
Restaurante Maria do Céu (Av. Roberto Silveira, 880 – Flamengo)
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Coral Maricanto
Ferreira Gullar (palestra)
“Poesia e Realidade Brasileira”.
Mesa: Camilo Mota (Jornal Poiesis)
............Gilson Herval (jornalista, poeta e crítico literário)
............Erivelton Reis (poeta)
............Primitivo Paes (poeta)
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14 de março (sábado) - 18h
Restaurante Maria do Céu (Av. Roberto Silveira, 880 – Flamengo)
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Coral Maricanto
Affonso Romano de Sant´Anna (palestra)
“Tendências da Poesia Nacional”.
Mesa: Tanussi Cardoso (poeta,jornalista,presidente da AERJ)
............Leila Miccólis (poeta)
............Belvedere Bruno (jornalista)
............Gilberto de Mendonça Teles (poeta)
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14 de março (sábado) - 18h
Praça São Francisco de Assis – Itaipuaçu
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Cia. De Teatro Máscaras – Poesia Encenada
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14 de março (sábado) - 20h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Companhia de Teatro Amandaba
Leila Miccólis
Dalmo Saraiva
Jorge Ventura
Belvedere Bruno
Sady Bianchin
Gilberto de Mendonça Teles
Cia. Vida de Teatro e Dança
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15 de março (domingo) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Dalmo Saraiva
Jorge Ventura
Altay Veloso
Beatriz Chacon
Cairo Trindade
Denisis Trindade
Chacal
Grupo Djota
Grupo Poesia Simplesmente
Sady Bianchin
Santiago Galassi
Casa de Cultura (funcionários)
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16 de março (segunda-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Novos e novíssimos (estudantes)
Professora Iara e alunos
Universidade Severino Sombra
Grupo Versart
POVEB (Poesia vem da Barra)
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17 de março (terça-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Erivelton Reis
Primitivo Paes
Grupo Djota
Jorge Cardozo
Marlos Degani
Prata da Casa (poetas de Maricá)
Fabíola Miguez
Paulo Miguez
POVEB (Poesia vem da Barra)
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18 de março (quarta-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Novos e novíssimos (estudantes)
Jorge Cardozo
Marlos Degani
Prata da Casa (poetas de Maricá)
Maestro Walter (música)
POVEB (Poesia Vem da Barra)
Jiddu Saldanha
Cia. de Teatro Máscaras
Sergio Geronimo
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19 de março (quinta-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Casa de Cultura (funcionários)
Novos e novíssimos (estudantes)
Jorge CardozoMarlos Degani
Prata da Casa (poetas de Maricá)
Maestro Walter (música)
POVEB (Poesia Vem da Barra)
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20 de março (sexta-feira) - 18h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Enéas (pescador de Zacarias)
Grupo Djota
Prata da Casa (poetas de Maricá)
POVEB (Poesia Vem da Barra)
Cia. De Teatro Máscaras
Arnaldo Antunes
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21 de março (sábado) 17h
Praça Orlando de Barros Pimentel – Casa de Cultura
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Painel feminino – Sala Darcy Ribeiro
Lena de Jesus Ponte
Maria Helena Latini
Beth Araújo
Carmem Moreno
Prata da Casa (poetisas de Maricá)
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21 de março (sábado) 18hs
Praça Orlando de Barros Pimentel – Centro
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Vanderlino Teixeira Leite
Beatriz Chacon
Joelcio Tanus
Fatima Tanus
POVEB (Poesia Vem da Barra)
Edmilson Santini (cordel)
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Verso vivo, o retorno de Rafael Silveira

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É um prazer, senhor que me lê!
Aqui lhe escreve quem você foi um dia,
Ainda inseguro sobre o futuro, sem saber
Se mais tarde esses versos releria

E se sentiria saudades ao reler
A data em que, jovem, o senhor não sabia
Se a pena haveria mesmo de valer
Escrever-se e reler-se em poesia

Sem metro, sem metas nem motes
Como um jornal antigo a acumular poeira.
Sim, senhor, espero termos sido fortes
E ter-nos reescrito pela vida inteira.

Nossa vida lida pelo verso, leia,
Porém, sabendo-o mero recorte.
Visto que eu queira é, após a morte,
Ter esse verso vivo pela lida alheia.
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Rafael Silveira
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Após já ter publicado o poema Identidade na edição #24 do jornal Plástico Bolha, Rafael Silveira dá as caras mais uma vez com esse belo poema.

Plástico Bolha já está no Distrito Federal!

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O excelentíssimo jornal Plástico Bolha, o folhetim literário mais viajado do Brasil, acaba de chegar a Brasilia. Apesar de estranhar um pouco os endereços, ele chegou direitinho e já pode ser encontrado nos pontos abaixo:
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- Sebo Virthual Libraria - CLN, 201 Bl B loja 37
- UNB - SECOM - Campus Darcy Ribeiro - Prédio da Reitoria
- Açougue Cultural T Bone - SCLN, 312 Bl B Loja 27
- Paulus Livraria - SCS quadra 1 Blobo 1 lojas 15/16
- IESB - Dpto MKT - SGAN 609 - módulo D, Dpto MKT, Faculdade IESB
- Eduacativa Papelaria e Livraria - SCRN, 706/707 Bloco H Loja 3
- Café das Oito - CLN, 408 Bl B loja 20
- Livraria Dinâmica - QNB, 18 Lote 1, loja 3, Taguatinga
- Café com Letras - SCLS, 203 Sul Bl C loja 19 asa Sul
- Fundação Cultural Cine Brasília - EQS, 106/107 - Área Especial
- Tribo das Artes - SCRS, 508 Bl B Loja 13/14
- ICESP - Qe 11 - Área Especial C/D - Guará
- Faculdade das Águas Emendadas - Av. da Independência SCC, Qdr 1
- Faculdade Michelangelo - SCS Bl. 2 - Shopping Venâncio 2000
- Universidade Católica de Brasília - QS 7, Lote 1, Águas Claras
- Centro Universitário Euro-Americano - SCES, Av. das Nações Sul
- Inst. de Ensino Sup. do Centro-Oeste - QS 5, R. 330, Águas Claras
- Faculdade Mauá - Colonia Agrícola Samambaia, Itaguatinga
- Faculdade Alvorada FAEFD - Setor de Grandes Áreas N, SEPN, Bl. E
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Aguardamos os textos dos escritores da capital!
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FOTO-BOLHA: La lectura del Inca...

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Conferência sobre o Acordo Ortográfico

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quarta-feira, 11 de março de 2009

Subjetivas: O homem que nasceu velho

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Quando Haroldo nasceu, ele devia ter uns 76 anos, configurando um caso raro de bebê idoso. O primeiro som emitido por ele não foi um choro, mas um gemido de dor, fruto de uma pontada no coração. Antes mesmo de notar se era menino ou menina, o médico constatou: "É velho". De fato, ele tinha rugas, reumatismo e murmurava coisas enfadonhas a respeito de política. Por isso lhe deram esse nome, Haroldo, que só dariam mesmo a um bebê velho. Ele reclamou, é claro; disse que aquele nome era um exemplo típico de descaso com o idoso. Mas pouco ligaram, como pouco ligam para o que dizem os velhos. O tempo foi passando e, na creche, Haroldo tentava insistentemente convencer os alunos a largarem as massinhas e a jogarem sueca. Aos 6 anos lia o Jornal do Commercio e sofria do coração. Sua saúde, aliás, era um problema: tinha viroses, úlceras e pontadas sem fim. Até que pouco a pouco, seus problemas de saúde foram sumindo. Aos 12 anos, ganhava corpo, e suas rugas, misteriosamente, foram desaparecendo. Procurou um médico, que não teve dúvida. Disse-lhe:-
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Haroldo, você está rejuvenescendo.
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Como, se eu nunca fui jovem? retrucou.
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-Bom, nesse caso, então, você está juvenescendo. Parabéns.
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Sem saber se aquilo era bom ou ruim, Haroldo foi vivendo sua vida. E logo percebeu que não eram apenas as rugas que sumiam: passou a ver e ouvir melhor. Sua coluna, antes curvada, escoliótica, foi aos poucos se reerguendo e aos 20 já estava quase ereta. E não era a única parte do seu corpo que se erigia, pois Haroldo descobria também aos poucos nascer nele um sentimento inédito: o desejo. Procurou uma parceira, mas poucas eram as mulheres de 20 anos que se interessariam por aquele sujeito grisalho e resmungão. Passou então a trabalhar desesperadamente, dia e noite, para passar o tempo. Ganhou uma boa soma de dinheiro e aos 30 e poucos já reunia então uma pequena fortuna. Aí então (e só aí) se identificava com as pessoas da sua idade. Mas esse momento durou pouco, pois seus colegas logo começaram a preferir uma vida mais tranqüila e reservada enquanto ele começava a preferir sair à noite a trabalhar no escritório. E assim acabou gastando sua fortuna com mulheres, bebida e drogas. Aos 50 e poucos anos, levava uma vida totalmente libertina e gozava de saúde invejável. Até que, entrando na casa dos 60, passou a ganhar certo desconforto com as mulheres e com a vida, sentindo-se mal dentro de seu próprio corpo e optando pelo sexo manual como forma de dar vazão a um desejo ainda latente. Mas esses pensamentos espúrios foram aos poucos sumindo de sua mente de tal forma que aos 65 havia ganhado certa ingenuidade, aliada a uma enorme energia. Sentia-se cada vez mais disposto para brincar, rir e chorar, especialmente aos berros. Tornou-se logo dependente das pessoas à sua volta. Aos 70 já não fazia nada sozinho: já não sabia mais ler, aos poucos desaprendia a falar e logo não conseguia mais andar. E, assim, em seu choro final, viu sua vida passar na frente dos seus olhos, como um filme, e teve a súbita impressão que alguém havia apertado o rewind.
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Este texto do nosso amigo Gregório Duvivier pode, em alguns minutos, te poupar uma ida ao cinema para assistir ao curioso caso de Benjamin Button. Publicado originalmente na coluna Subjetivas do Plástico Bolha #6.

Vitória: o Plástico Bolha já chegou ao ES!

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Se o Plástico Bolha já é leitura obrigatória para pais e filhos, chegou a vez do Espírito Santo receber os seus exemplares! Veja onde encontrar o jornal em Vitória, Vila Velha, Carapina e arredores:

- Livraria Reler - R. Nestor Gomes, 200
- Sebo República das Letras - Av. Anísio Fernandes Coelho, 1715
- Sebo Livraria e Café Praça - R. Treze de Maio, 71
- Sebo Utopia - Rua Carolina Leal, 289
- Alfabeto Livraria e Lanchonete - R. José Alexandre Buaiz, 160
- Escola de Teatro e Dança FASI - Av. Jerônimo Monteiro, 656
- Teatro Carlos Gomes - Praça Costa Pereira, 25
- Instituto Social Casa Verde - Rod. Serafim Derenzi, 4263
- Faculdade Saberes - Av. César Helal, 1180
- Centro de Ensino Superior de Vitória - R. Wellington Freitas, 265
- Papelaria e Livraria King of Kings - Av. Lourival Nunes, 203
- Opus Papelaria e Livraria - Rua L, 7
- Papelaria e Livraria Doce Saber - Av. Norte Sul, s/n
- Livraria Celino - Rua Rosa de Ouro, 474
- Banca do Paulo - R. Ferreira Coelho, 98
- Bella Vídeo Locadora - R. Espírito Santo, 32
- Bauhaus Educação Cultura e Arte - Av. Saturnino Rangel Mauro, 488
- Galeria de Arte Ana Terra - Rua Eugênio Netto, 106
- UFES - Rua Augusto dos Anjos, 101
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terça-feira, 10 de março de 2009

O agora inteiro, poema de Dimitri Merino

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Este mar enorme.
O amarelo, o laranja,
também a asa-delta
a deslizar no vazio colorido
do céu, do instante.

Não se trata de algo concreto.
O momento vivido
é indescritível.
De que adiantam estes versos?
Cabe a ti, leitor, adiantar-te.

Seja como for,
o mar continua abundante
e, como a vida, esconde
em suas profundezas
seja o que for.

Eu riria, choraria,
gritaria o tom
de minhas entranhas.
É tanto que eu me resigno
aos limites deste poema.
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FOTO-BOLHA: alguns itens da juventude...

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PUZZLES: vida de Lima Barreto no PB#26!

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A coluna Puzzles do jornal Plástico Bolha sempre desvenda a vida das grandes figuras das Letras, entre elas Kant, Santo Agostinho, Sarte, Alberto da Cunha Melo, Carlos Sussekind. Para a próxima edição — que já está no forno! — quem assinará a coluna é Daniel Lourenço, com um texto sobre Lima Barreto. Em seu texto, Daniel nos falará um pouco mais sobre os outros romances do autor: Recordações do Escrivão Isaías Caminha e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Lima Barreto é lembrado, em geral, apenas pelo seu Triste fim de Policarpo Quaresma, matéria obrigatória das aulas de literatura dos colégios.

LEIA A COLUNA AQUI!
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Metro, um conto de Juliana Cesario Alvim

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Cedo da manhã, senhores, senhoras, senhorios caminham impacientes em direção ao buraco no chão. Escapolem pela escada datilografando os degraus com saltos de madeira até alcançarem a roleta que lhes dará acesso ao interior dinâmico da cidade.

O sol, deixado metros acima, contrasta com a luz branca que tudo entristece. A proximidade entre as pessoas impede qualquer ajuste à crescente temperatura.

Distraem-se como podem: folheiam o jornal, ouvem música e até, os mais experimentados, lêem livros valendo-se de manobras contorcionistas e exercícios monásticos de concentração. Alguns buscam os modos alheios, furtivamente. Não convém buscar o outro.

A cada parada trocam-se os rostos, milhares deles. Em comum, a pressa de chegar. Pressa exata, calculada em minutos e exibida em letreiros luminosos. Os trens costuram as entranhas da terra veloz e maquinalmente, nosso teletransporte de ferro. E nós, carregados, cismados com um caminho: hemácias, plânctons, poeira.

Na saída, desfaz-se o labirinto. Para trás, abaixo dos pés, os trens, os pedintes, o calor. Acima, o que vem é otimismo.
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Juliana Cesario Alvim
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Juliana Cesario Alvim é mais uma nova autora a se destacar com esse belíssimo texto. Borges costumava dizer que viveremos na era do conto e aqui vemos quantas possibilidades podem advir daí. Um conto veloz que atravessa com a linguagem a dinamicidade da nossa era através do olhar subterrâneo de uma autora que é mais uma revelação do jornal Plástico Bolha.
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Bolhas Bahianas: chegamos a Salvador...

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Depois da badalação do carnaval, nada melhor do que balançar na rede com um pouquinho de literatura. Veja alguns pontos de distribuição do jornal Plástico Bolha em Salvador:

- Sebo Livraria Brandão - Rua Ruy Barbosa, 15
- Livraria Galeria do Livro - R. Anísio Teixeira, 161
- O Livro Distribuidora - Av. Leovigildo Filgueiras, 449
- Fundação Gregório de Matos - Rua Chile, 32
- Conjunto Cultural Caixa Economica - Rua Carlos Gomes, 57
- Quarteto Distribuidora de Livros - Av. ACM, 3213
- Banca Job Livraria p Concursos - Rua Haeckel José de Almeida
- Paulus Livraria - Rua 7 de Setembro, 80
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segunda-feira, 9 de março de 2009

tsumântrica, um poema de Kiko Ferreira

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água
.......mole
.............dura

tatibitática

até
......que
.............fúria

Kiko Ferreira



Falando em Kiko Ferreira na postagem anterior, publicamos este seu clássico sobre as águas que remete ao maremoto na Ásia, aos dizeres populares, aos mantras e muito mais... (ou será apenas à Pampulha?) Um poema simples e certeiro!
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Cacaso na livraria Scriptum da Savassi

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Evento Cacaso não por acaso, na livraria Scriptum. A livraria é um dos pontos de distribuição do jornal Plástico Bolha em Belo Horizonte e o evento terá participação de nossos amigos de bolha Vera Casa Nova, Kiko Ferreira e Jovino Machado. Para ver a programação completa do evento basta clicar na imagem.
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FOTO-BOLHA: um coqueiro diferente!

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Espécime rara da Cocos bolhifera L., da família das Literáceas, fotografada em seu estado natural por Lucas Viriato.

DESAFIO POÉTICO: um poema narrativo...

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Ainda há tempo de mandar o seu poema para o próximo Desafio Poético do jornal Plástico Bolha. Para a próxima edição o desafio é escrever um poema que também conte uma história, que desenvolva de alguma forma a narratividade. Aceitamos poemas de todos os tipos, sem nenhuma restrição quanto à forma, desde que sejam narrativos. Basta enviar para o e-mail do jornal redação@jornalplasticobolha.com.br. Participe!
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fio desencapado no sótão, de Flávia Amaral

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Da fresta podia enxergar seus passos largos fazendo ranger a madeira do chão. De cima, avistava sua cabeça como um ponto negro mudando de direção arrastando móveis, revirando gavetas, abrindo e fechando cortinas. Um bicho enjaulado, faminto.

Ele não cansa! Não cessa de arrumar e desarrumar armários e prateleiras. O que precisa é arrumar a vida, rearrumar o que tanto bagunçou aprontando com a família, amigos e quem mais se aproximasse.

Adormeci e quando despertei do cochilo, naquele sótão empoeirado, com os olhos ainda embaçados da curta dormida, focalizei o vão no assoalho e lá estava ele nu, prostrado sobre a cama desarrumada com o quarto revirado exalando suor, num ambiente com ar viciado. Seu corpo de bruços brilhava com o suor viscoso que junto com sua baba molhava os lençóis de cambraia com fios egípcios de trama complicada. Idiota! O que ele merecia era um jornal velho para se proteger na sarjeta da rua da amargura. Sua figura inerte instiga a descer e acabar com ele, talvez com uma tesoura desferindo-lhe um golpe certeiro no coração! Sei onde fica a tesoura, na terceira gaveta à esquerda da bancada da cozinha. Alguém bate na porta e entra no quarto, volto do meu devaneio num rewind enlouquecido e antes que consiga retomar a respiração, lá de cima, do sótão, pela fresta do teto, me vejo na cena, como em um sonho assistido de fora. No quarto, na cama, sobre a colcha de chenile, enroscada nos lençóis de cambraia, eu e aquele homem nos amamos como se amam os bons. Um amor sentido, vivido, sem palavras.

Sou o anjo que veio de uma louca vigília no sótão para acalmar o coração da fera adormecida objeto do meu desejo descontrolado, estéril, maluco.

Flávia Amaral



Flávia Amaral é aluna do primeiro período de Letras-Produção Textual da PUC-Rio. Já trabalhou como roteirista na TV Globo e como produtora de artes durante 13 anos. Agora, acaba de enviar alguns textos para o jornal Plástico Bolha e escolhemos este para compartilhar com os leitores. Esperamos que gostem!

Lançamento: Discursos socioculturais

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O discurso como constituinte da realidade é o tema da coletânea “Discursos socioculturais em interação”. Organizado pelas professoras Maria das Graças Dias Pereira, Clarissa Rollin Pinheiro Bastos e Tânia Conceição Pereira, este trabalho abarca um período de dez anos de investigações sociolinguísticas e expressa uma preocupação fundamental: compreender práticas cotidianas importantes na vida dos seres sociais e, assim, expor tensões e instabilidades das relações contemporâneas. Esse processo de construção dos discursos é especialmente relevante pelo fato de compreender que o significado não é intrínseco à linguagem, mas sim o resultado de um trabalho interacional que implica negociação, embate, ideologia e poder.”
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domingo, 8 de março de 2009

Plástico Bolha viaja pelo estado do Rio!

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Outras cidades fluminenses já receberam os seus exemplares do Plástico Bolha. Veja abaixo onde buscar seus jornais:

- Rio das Ostras: Biblioteca Pública, Av. Amazonas
- Rio das Ostras: Fundação de Cultura, Prça. São Pedro
- Paraty: Centro Cultural, R. Dona Geralda
- Resende: Cultura e Cia., R. Luiz Pistarini
- Itaguaí: Estação das Artes, R. Ismael Cavalcanti
- Paraíba do Sul: Banca da Praça, Praça Garcia
- São João da Barra: Casa de Cultura Zenriques, R. do Rosário
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sábado, 7 de março de 2009

Criança, um poema clássico de Jõao Lima

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Hoje cruzei a esquina do mundo.
Experimento as mãos de velho veludo
e o pulso responde
sacoleja o coração desbotado.
Ainda era criança
quando amava o teu corpo pequeno.
Neles sempre tuas mãos, baças
telúricas:
uma se assenta em um joelho,
firme. E o teu peito
o teu peito.
Antes a tua luz, os teus cachos
caindo em chuva sobre os ombros
primavera esperada:
teu flanco
tua perna de mulher por um triz.
Hoje te ofereço meu sorriso sem fósforo
te imponho o eixo arbitrário da minha pelve
e a tua boca vai se abrindo, estranha e velha cicatriz
e sem fingimento toda te acendes.
Liga-te a vida se não te apagas.
Imagino a vida que há de vir do oculto do teu ventre
nadando em teu lago tão distante
na gema de todo teu caos.
Imagino-te mãe, ah tão violentamente imagino-te mãe.

João Lima



João Lima já publicou dois textos no Plástico Bolha. Este, intitulado "Criança", saiu na última página da edição 21. Trata-se de um poema belíssimo que entrou na memória como um dos clássicos do bolha!

sexta-feira, 6 de março de 2009

BOLHAMAZÔNICA: chegamos em Rondônia

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O Plástico Bolha atravessou o país e chegou até Porto Velho, capital de Rondônia. Lá, temos contato com o Coletivo Madeirista, um grupo de poetas nascido à beira do Rio Madeira que faz a ponte com o Plástico Bolha na cidade. Além disso, você pode encontrar o jornal nos seguintes pontos:

- Faculdade Amazônia - IESB - Rua Marechal Deodoro, 1856 - Centro
- Faculdade São Lucas - Rua Alexandre Gumarães, 1927 - Areal
- Federação de Quadrilha e Folclore - Rua Pres. Dutra 3004 - Caiari
- Faculdade Interamericana UNIRON - Av. Mamoré, 1520 - Cascalheira
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quinta-feira, 5 de março de 2009

Sorvete, um poema de Gabriela Costa

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Dever de casa findo
Moedinhas juntadas
Crianças gripadas
Do que é feito um sorvete?
Casaizinhos de mãos dadas
Gente enamorada
Olhos sorrindo
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Gabriela Costa

Flagra: leitura de PB em plena luz do dia!

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Inocente Jaula, de Igor Pombo Menezes

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Eu estava cansado, dissolvido, amargurado e meus sonhos a quilômetros de mim. Aquele momento foi a minha revolução. Assim que parti em direção, o maldito sorriso desaparecera e uma face de surpresa o tomara. Assim que lhe acertara a primeira vez as coisas haviam mudado de lugar, tudo que me dissolvia agora também o machucava como se estivéssemos ligados em corrente mortal: de um lado o veneno, do outro os espinhos.

Não havia jeito de ele me fazer parar, tempo demais passara e muitos sentimentos foram calados e convertidos em ácido, (para não saírem e me fazer enlouquecer). Mas agora... O que mudara? Eu me pergunto. A situação tinha apenas tomado uma nova forma, a angústia tinha se transformado num profundo, ardente e inocente ódio no qual eu me aprisionara, certo dia de minha vida, e nunca mais saíra.
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Igor de Freitas Pombo Menezes
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Igor de Freitas Pombo Menezes tem apenas 15 anos, mas já possui um estilo peculiar de escrita. Já vem vindo a novíssima geração....

Plástico Bolha em Duque de Caxias:

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- Salada de Livros - Av. Dr. Manuel Teles, 38
- Livraria São Bento - Av. Pres. Vargas, 384
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quarta-feira, 4 de março de 2009

Restaurante Ettore serve PB aos clientes!

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O Restaurante Ettore Cucina Italiana, nosso grande patrocinador, começa a distribuir, a partir de março, kits do jornal Plástico Bolha para seus clientes. O jornal, que já era distribuído no restaurante, vai ser servido também em casa, quando os cliente pedirem entrega. Agora, além das diversas opções de massas todos também poderão se deliciar com nossos textos!
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Plástico Bolha na cidade sorriso!

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Veja onde encontrar a nova edição do Plástico Bolha em Niterói:

- Botequim Honesto - Rua Ministro Otávio Kelly, 483, Icaraí
- HM Livros - Estr. Francisco Cruz Nunes, 6501, Piratininga
- Bistrô do MAC - Mirante da Boa Viagem, s/n, subsolo
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Caixotes e Livros, um texto de Rod Britto

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Uma pena sem precedentes é essa de perdermos nosso ponto de biblioteca pública na Cobal do Humaitá, anunciada para fechar em breve, a data já marcada – aliás, algo sempre tão difícil de pegar em nossa sociedade pouco amiga das leituras, ou seja, o de preenchermos essas lacunas do pouco contato com o texto, com o estudo, com a reflexão, senão uma aversão primeiramente intimidada pela quantidade de páginas, e, posto que assim, termos idéias como essas, por exemplo, um posto de empréstimo de livros em meio ao ambiente barulhento de compra e venda, gritos e ofertas de todo lado, a Cobal e Afins; ou só uma banquinha de chiados, mais nada. Gostaria que fosse só primeiramente mesmo, e não brevemente. Está bom; sejamos nós mesmos, revelemos; até porque essa historia mal amada já conhecemos de tempos e épocas, penas e penas. É que a coisa parece que pegou mesmo. Falo não só por mim, que, felizmente, tenho outras saídas para o “problema” da leitura, dentre outros e outros leitores: muito mais mal deverá fazer essa decisão de acabar com a biblioteca aos próprios comerciantes locais, aos feirantes e empregados gerais da Cobal, que, até onde pude conversar com alguns deles, antes e depois de saber que a Secretaria de Cultura do Estado acabaria com aquela “sua banquinha” ali, retiravam livros dali, gostavam de passar ali seus tempos livres, seus intervalos de rotina, suas diferenças e semelhanças em revista, mais bem entendidas ou mal difundidas, muitos desses homens e mulheres em sua primeira camada de formação de leitores; uns jovens e outros bem mais velhos, que vieram a partir dali, daquela pequena biblioteca pública, ou seja, um ainda tímido contato – quase que uma estante só, pra falarmos a verdade, nada mais do que uns trezentos títulos, ao menos o que percebemos visualmente, cabendo em três ou quatro caixotes –, a se interessar, a se pegarem lendo, distraidamente; enfim, fora ali a sua primeira pausa para com os livros, sendo essa uma atitude livre e descontraidamente, ao levarem seus volumes pros de casa, e após o serviço sempre corrido no horto-mercado, não só caixotes e sobras. Pena, se isso perdurar e voltar ainda por dias e dias, maus amores – como também os últimos livros com data a serem devolvidos de uma vez por todas, o aviso bem legível afixado por ali. Agradeça e vá. No que também não podemos deixar de falar sempre que fora essa uma atitude antes do Estado do que de qualquer outro (apesar de existirem, e muitos), da Secretaria de Cultura, em quererem criativamente prover aquele espaço agitado com outras culturas e instantes, leituras locais, bem distraidamente, ainda que, digamos também, bem distraidamente, sem políticas de vontade, sem ser na base do grito do que é bom e fresco, agora, quererem encaixotá-la dali, nem se sabe se por não dar lucro ou o quê, dado qualquer parentesco com o consumo (ao menos parece) irrestritamente letrado da Cobal, no que faço coro e parte na “muvuca”, bem distraidamente. Ponto pra eles, que é e será uma pena sem leitores. Mas agora essa decisão de terminar com o posto é, além de um desserviço ao público (e a coisa pública, com o perdão da palavra, do desleixo mesmo), talvez um desânimo, nem se sabe se recuperável com muitas outras chances que venham e sejam – ainda que venham por ora os animadores concursados do livro –, da parte de quem mais concorria com e por aqueles livros, idéias e soluções, seus possíveis, eventuais e próximos leitores, até ali; pode e deve caracterizar um atraiçoado sem precedentes, sem mais divagações: isso da parte de quem o quer assim sendo; até quem for ganhar com o pouco espaço até aqui usado pela biblioteca, pena. Uma pena sem precedentes. Continuamos sempre, estejamos em quaisquer lugares, sem falarmos de livros livremente, a não ser os impostos pelos top-lists, os que viraram filme asiático, os de dieta e aromáticos, os de fachada, os que duram pouco mais que uma conversa como as de feirante com freguês. Pedirei ainda, da confortável situação minha em ter tempo livre e livros em casa, mais reflexão a todos. Perdurando, agora vou descer só mesmo pra tal da muvuca, pechinchar por puro costume, nada distraidamente, refletindo se sobras ou novos caixotes nas estantes, junto dos afins, por só serem chiados mesmo. Esperar a boa época para as maçãs.
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Rod Britto
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Rod Britto é jornalista e escritor e escreveu este pequeno texto a respeito do fim da biblioteca da Secretaria de Cultura do Estado na Cobal-Humaitá. Nós do Plástico Bolha sabemos como é dificil espalhar cultura pela cidade, ainda mais de forma gratuita - uma relação com a qual as pessoas não estão acostumadas. O espaço nas bancadas das livrarias são para vender livrinhos de auto-ajuda e não para colocar um jornal gratuito de literatura. Ontem mesmo tentamos colocar o Plástico Bolha na escola de música da UFRJ, no centro, e ouvimos que ali só poderia ser deixado material da própria UFRJ... Qual o sentido disso? Ficar fechado em si mesmo? Mas, Bolha para frente! O que importa é que muitos outros lugares se abrem prontamente para esse tipo de iniciativa. Esperamos, como nosso amigo Rod, que a cidade aprenda a valorizar mais a sua própria cultura.
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terça-feira, 3 de março de 2009

segunda-feira, 2 de março de 2009

Por toda parte, um poema de Alice Caymmi

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A noite engole meus pensamentos
como se fossem fáceis, como se fossem leves
descomplicados e também breves
Ela os suga em direção às estrelas

Mas eles escurecem junto ao céu
eles endurecem, maltratam e machucam
a pele da minha consciência

A noite traga meus sentimentos
cospe sangue do céu e suga as lágrimas
ela mostra seu manto de tristezas e de mágoas
É silenciosa, negra e chega como um fantasma
Me arrepia, trazendo a tristeza das horas e do silêncio

A vizinha me olha da janela
E se pergunta se estou pensando o mesmo que ela
por um momento nossos olhares se encontram
e um estalo nos consome
A tristeza está por toda parte essa noite
"por toda parte" os olhos dela disseram
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Alice Caymmi
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Alice Caymmi começou hoje o seu curso de Artes Cênicas na PUC-Rio e já demostra sua desenvoltura com as palavras. Que venham mais textos!

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Plástico Bolha #25 já está no nosso site!

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Já está no ar em nosso site a nova edição do jornal Plástico Bolha. Confira agora as novas atualizações!
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O primeiro poeta

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Qual foi a primeira palavra proferida? Imagino o primeiro homem, ainda meio macaco, tentando exprimir algo completamente novo, que os grunhidos habituais simplesmente não conseguiam alcançar. Dirão todos que hoje vivemos uma peste da linguagem, uma fragmentação completa em que as palavras não têm mais significado e em que cada discurso, cada conceito, cada Deus e cada sujeito devem ser desconstruídos e esmagados com um martelo. Mas esquecem-se eles desse primeiro marco, desse anseio inaugural pela unidade. Em que modulação sonora diferenciou-se ele dos outros? Era “ele” um homem ou uma mulher? O que pretendia ele dizer? Pretendia ele descrever uma visão? Ou um pensamento? Ou um sabor que seus companheiros desconheciam completamente? Será que queria conquistar uma parceira disputada? Ou dar um conselho a seu filhote, ainda no colo? Queria ele falar do passado, do presente ou do futuro? Ou quem sabe dos três, de algo eterno e além do tempo e do espaço? Será que, como Narciso, foi a perplexidade ante a sua própria imagem? Ou, como Arquimedes, queria ele anunciar uma nova descoberta? Ou ainda, como Hamlet, questionava ele a validade das suas próprias ações? Terá sido a percepção da nossa pequenez diante de um universo indiferente? Ou algo tão mais simples quanto a percepção da beleza das coisas em seus mínimos detalhes? Será que ele se deu conta de sua invenção? Ou era somente algo que necessitava para falar de uma dor completamente inédita e insuportável, cujos desdobramentos e complexidade seus companheiros jamais poderiam reconhecer: a dor solitária de ser, pela primeira vez, humano. Mais do que o primeiro ser humano, este foi o primeiro poeta.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

casal pula da ponte em nome do amor proibido

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cobrei dos teus olhos o que
não cobraria da tua alma.
lá fora o vento deságua,
fraco como a memória.
restam apostas ganhas
perdidas nos bolsos.
estamos sozinhos
agora que somos
a cor da junção.
e isso é tudo:
você e eu.
e lá fora
peixes
azuis.

Leonardo Marona



Leonardo Marona também enviou este poema para o próximo Desafio Poético. Mande você também o seu poema narrativo para redacao@jornalplasticobolha.com.br.

Os tacos, prévia do nosso Desafio Poético

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o colete, a camisa, a gravata
projetam-se sobre os caracteres
miúdos. ele não lê o jornal
fita os títulos dos artigos
como se os devorasse
num silêncio
de muito suor
mas sem faltar à indiferença:
remexe o corpo
puxa as dobras
da camisa, do papel
delicado e encurva
ombros enormes

os dedos da mulher
vez ou outra
em alguma tecla
não tocam, é como se pisassem
as notas
mas sem faltar à indiferença
logo ela abafa o som
exagerado
com remexos no banquinho
desconjuntando ainda mais o corpo
e ainda alisa os amassos
do vestido

ficarão assim
por um bom tempo. e então,
um dos dois
olhará para o relógio de parede
sem faltar à indiferença
já está tarde
seguirão calados, os sapatos
quase sem tocar
os tacos (alguns já estão
meio soltos) até o quarto.

ouvir-se-á, talvez, um boa noite
um tanto quanto pensado
abafado
pelo travesseiro. talvez
a resposta venha
num tom mais natural: boa
noite

e aí
já estarão desculpados
de toda a indiferença
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Bruno Nascimento de Abreu
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Bruno Nascimento de Abreu tem 16 anos e nos enviou este poema inspirado no quadro Early Sunday Morning, de Edward Hopper para o próximo Desafio Poético narrativo. Aproveitando o espaço do Blog, publicaremos aqui os poemas que recebermos para o Desafio Poético e os melhores vão para a edição impressa. Participem!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

As apostas

ao Leonardo Gandolfi

como um pardal
ruinado
de regresso
de Las Vegas, ou qualquer
outro povoado de roletas,
este poema se posta à sua frente
e te adversa, silêncio. Já

o desafio que te coloco – trato-me
duma terceira separação – é, senão
claro, bem menos
tortuoso – descobrir
ao pássaro (lentes foscas) que, parado
à sua frente, dá de asas – alguma ternura,
vexada que seja. Acho

que não sei transbordar
para lá

Ismar Tirelli Neto



Ismar Tirelli Neto publicou seu primeiro poema na edição atual do jornal Plástico Bolha. Foi convidado por Alice Sant'anna para a estreia, sem acento agora, da coluna Dobradinhas - onde Alice sempre receberá um convidado para um diálogo poético. Convidamos Ismar para enviar mais poemas para o jornal e publicamos o primeiro deles aqui. Quem quiser pode conferir mais no seu blog Concessão do Amor, aqui. Mais um poeta na bolhosfera!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Amazonas em debate no Clube do Livro

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Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras, 112p.), de Milton Hatoum, é o romance eleito para o debate do dia 27 de fevereiro do Clube do Livro, que acontece mensalmente na Livraria da Editora da UFF, em Icaraí. A partir das 19h, o grupo, formado por amantes da leitura, convida o público em geral para um animado bate-papo. Em Órfãos do Eldorado, Hatoum - três vezes vencedor do prêmio Jabuti – reúne mitos, drama, romance, imigrantes, índios e o sonho do Eldorado amazônico. A entrada é franca e o evento acontece sempre na última sexta-feira do mês na livraria, que fica na Rua Miguel de Frias 9, anexo, em Icaraí, Niterói.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Quarteto Bororo, poema de Carlos Andreas

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acompanhamento das vozes
e chocalhos feitos da cabaça verde
do cascalho-caingá e o corifeu
enchendo de pancadas secas o silêncio

modulando em crescendos e
decrescendos os dançarinos cegos
em alternâncias de vibrantes cantos
de língua baixa de articulações pesadas

de velha viúva sustentada em graves
horas a fio sobre o luto de cinco maridos
e do tempo feliz em que jamais lhe faltavam
a mandioca o milho a caça e o peixe

Carlos Andreas
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Mais Plástico Bolha pela Zona Sul...

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- Cantinella, Cobal do Leblon
- Teatro Leblon - R. Conde Bernadotte, Leblon
- Livraria Letras e Expressões - Av. Ataulfo de Paiva, Leblon
- Mundo Verde - Av. Ataulfo de Paiva, Leblon
- Clube Caiçaras - Av Epitácio Pessoa, Lagoa
- Casa da Táta - R. Prof. Manuel Ferreira, Gávea
- Café Astrobar - Planetário, Gávea

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Remédio, um poema de Danilo Briskievicz

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para o dia revolto
palavra
simples
para a noite insone
silêncio
impecável
para a música alta
ouvido
educado
para a saudade fria
cobertor
antigo
para lágrima certa
poesia
concreta
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Danilo Arnaldo Briskievicz
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Danilo Arnaldo Briskievicz é mineiro, da cidade de Serro, formado em Filosofia pela PUC-Minas, pós-graduado em Temas Filosóficos pela UFMG e mestre em Filosofia Social e Política, pela UFMG. Já publicou Identidade (1993), seguida de Tonel da memória (1994), Oratório de versos (2000), 300 (2002), Chão de poemas (2004), De tudo e de amor (2006) e O cheiro sem cheiro da rosa sobre a mesa (2008). Os livros de poesia, história, fotografia e artigos de filosofia estão disponíveis no site do autor onde podem ser baixados gratuitamente, acesse aqui.

Plástico Bolha em mais uma distribuição:

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Mais pontos de distribuição estão recebendo seus jornais impressos. Veja onde encontrar o Plástico Bolha em São Conrado:

- Locadora Session
- Fashion Mall


Também receberam mais jornais os pontos :

- Modern Sound, Copacabana
- Casa de Cultura Laura Alvim, Ipanema
- Estação Botafogo, Botafogo
- Espaço de Cinema, Botafogo


E em Belo Horizonte....

- UFMG, Letras e Fafich
- Agosto Butiquim, R. Esmeralda, Prado
- Flapel Papelaria, R. Platina, Calafati

81 Segundos, uma prosa de Camila Justino

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...nho que esquecer essa mulher, tenho que esquecer. O que tá acontecendo comigo meu Deus? O que tá acontecendo? Uma dissimulada... aqueles dentes nervosos — brancos lindos grandes me mordem —, sua histeria acaba comigo, ela leva susto dormindo — linda dormindo —, eu tenho que tá do lado dela pra falar que ela tá viva, ela diz que de noite seu espírito sai do corpo, eu acho que vou ligar pra ela, eu vou ligar pra ela hoje à noite. Sair pra jantar quem sabe? jantar. Mas ela não vai querer, vai querer me levar pra um buraco, adora buracos imundos cheios de bêbados nojentos. Me meter de novo em buracos, tenho que esquecer essa mulher. Eu prometi que ia sumir da vida dela. O banco. Eu tenho que ir no banco hoje, droga. Esse ano as coisas têm que melhorar, vou começar a fazer horas extras, tenho que mostrar mais desempenho. Desempenho. Só falta esquecer aquela infeliz, não deixa eu ter vida. Porra, eu sou homem, eu tenho que ser o homem da parada, tudo vai mudar. Esqueci a pasta, ah, foda-se eu não vou voltar. O verão é sem vergonha, o sol nasceu para todas. Que ridículo aquela balofinha posando de modelo, a outra até que eu pegava, dá pra pegar. Tranqüilo. Na teoria é muito bom, mas o que a gente quer ver é mulher gostosa. Gostosa. Puta merda, esses infelizes, não vou dar dinheiro não, não quero bala, não quero guarda-chuva, não quero biscoito, quero que você suma. Esses moleques. Podiam tirar todos da rua e jogar longe, do outro lado da cidade. Onde está o governo? Esses moleques. Ficam olhando com cara de piedade pra cima da gente, eu não tenho pena não. Sou cidadão decente porra, tenham pena de mim seus infelizes, se soubessem o que aquela descontrolada tá fazendo comigo. Se ela tivesse aqui no carro, me obrigaria abrir a janela e comprar uma paçoquinha. Adora paçoquinha, ia perguntar o nome do menino, ia querer levar o menino pra casa com ela. E eu, estúpido como sempre, me sujeitando a tudo. E sempre acaba me fazendo rir. Odeio quando ela me faz rir — eu amo. Mas eu sou o homem, tudo vai mudar. Porra que mulher gostosa, como é que passa devagar em frente dos carros, parece que sabe que tão olhando pra ela, tá só provocando. Essas mulheres são umas vadias. Será que ela atravessa a rua assim, aí fica um marmanjo nojento querendo comer a minha mulher, minha mulher. Eu vou ligar pra ela agora, agora. Não, não. Não posso. Pô, vontade de mijar, que merda de trân...
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Este texto estava na página 2 da primeira edição do Plástico Bolha, portanto é mais que um clássico do Bolha. Camila Justino é autora de dois livros: O mundo dá voltas, para meninas que não engolem sapos e Socooro, eu sou menina! (e tô crescendo!), ambos voltados para o público jovem feminino. Além disso, ela faz teatro, é entrevistadora da Revista Pilotis e dizem que, ultimamente, anda trabalhando muito em uma máquina engenhosa que te transforma automaticamente em autor canônico. Será? Quem quiser conferir o outro lado de Camila Justino pode ler o conto Ovulação que está na edição atual, 25, do Plástico Bolha. Essa menina vai longe!

Leia Notas Musicais para lá de literárias!

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Acreditando que a poesia cresce quando se aproxima da música, o jornal Plástico Bolha sempre deu bastante atenção a esta arte sonora. Em nosso suplemento musical, temos 3 colunas que tratam do tema: Por Dentro do Tom, em que a antropóloga Santuza Cambraia Naves analisa a música teóricamente; Futuros Estouros, onde se revelam novos talentos do cenário musical; e as Notas no Plástico, pequenos textos jornalísticos sobre o mercado fonográfico escritos pelo jornalista, e amante da música, Mauro Ferreira.
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Para quem ainda não sabe, Mauro Ferreira tem um blog, o Notas Musicais, que é atualizado 24 horas por dia com as notícias mais fresquinhas do mundo da música! Hoje, o Blog do Bolha veio indicar 3 notas musicais para lá de literárias. Clique aqui abaixo para ler as resenhas de:

- O Som do Pasquim
- O Bondinho
- As Aventuras da Blitz

Leia, ouça e divirta-se!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Distribuição do Bolha no Centro: pegue já!

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Hoje, o jornal Plástico Bolha acordou cedo, tomou um café da manhã reforçado e saiu para um giro pela cidade. Veja por onde ele deu uma paradinha:

- Fundição Progresso - Rua dos Arcos, Lapa
- IFCS - Largo do São Francisco
- Real Gabinete Português de Leitura - Largo do São Francisco
- Livraria 44 da Camões - Largo do São Francisco
- Livraria Letra Viva - Largo do São Francisco
- Academia do Saber - Av. Passos
- Escola de Música da UFRJ - R. do Passeio
- Cinema Estação Odeon - Cinelândia
- Livraria Ed. Capanema - R. da Imprensa
- Livraria Arlequim - Paço Imperial
- Cinema Estação Paço - Praça XV
- Escola de Cinema Darcy Ribeiro - R. da Alfândega
- Livraria Leonardo Da Vinci - Av. Rio Branco
- Livraria Berinjela - Av. Rio Branco
- Museu Nacional de Belas Artes - Av. Rio Branco
- Biblioteca do Centro Cultural de Justiça Federal - Av. Rio Branco

Poema inédito de Rafael Castro

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A folha de Montesinos
Pá apontada, cavo a cova
que me caiba até deitado
Pro repouso do trabalho
Operário que é a morte
Cavo em cinza, cova abaixo,
O que dista a tinta e o tanto
Pra que eu possa lá embaixo
Já no pouso do descanso
Ter visões de toda sorte
Numa poça preta em branco

Rafael Castro



Rafael Castro nos enviou há pouco tempo alguns de seus poemas. Esse foi o primeiro a se destacar nos votos da Comissão e aproveitamos para dividir com os leitores. Quem sabe não esbarramos com ele nas páginas de alguma próxima edição do jornal Plástico Bolha?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Os gestos — um texto de Adriano Espínola

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Imantado de solidão, caminho pelo centro da cidade. A multidão em torno. Cumprimento alguém, olho uma vitrina, passo a mão no rosto suado, aliso os cabelos. Dobro uma esquina. Adiante, as mãos penetram no bolso, examinam objetos, seguram chaves, papéis, dinheiro. Pairam no ar.
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Os gestos! Como bóiam anônimos e silenciosos dentro da tarde, tão imperceptivelmente meus que parecem fora de mim, misteriosos.
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Em que cidade teria aprendido a carregá-los? Ou serão eles que me conduzem a mim, prosaico caminhante da tarde?
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Súbito, escapam, viajam.
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Quem os possuiria além? Teócrito, o pastor grego? Ali está ele (vejo-o na imaginação), caminhando pelo mercado de Corinto. Cumprimenta o louro Hilas, que passa com o cântaro e a sua morte para o festim da noite. Dobra uma barraca.
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Com ele, os gestos desaparecem risco na água. Vão dar de beber aos mortos na curva dos rios. (Ali, onde o meu avô genovês nada no esquecimento e em silêncio empurra os gestos, ondas, que pelos dias vou refazendo.)
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Sim, os gestos caminham com as águas. Porejam no tempo. Circulam, úmidos, por entre objetos, corredores, portas, desejos. Por entre corpos que avançam e recuam feito marés.
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E quem, noutra esquina ou noutra tarde, colherá a forma fluida dos meus gestos e os repetirá, surpreso, assim banais, assim obscuros?
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Adriano Espínola é poeta, ensaísta e professor da UFRJ. Autor de Em trânsito - Táxi/Metrô(1996), Fala, favela (1998), Praia provisória (2006), entre outros. Este texto "Os Gestos" ele nos enviou exclusivamente na época em que o entrevistamos para a edição #10 do jornal Plástico Bolha. Quem quiser, pode ler a entrevista completa aqui.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Enciplexo — um poema de Barbara Hansen

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sexo
em ângulo
convexo
preâmbulo
complexo
reflexo
o pêndulo
no óvulo
convexo
eu, trêmulo
perplexo
ridículo
sem nexo
crepúsculo
já baixo
— copulo
a deixo
ósculo
ulo
luxo
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Bárbara Hansen

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Adriana Maciel de volta na Fnac da Barra

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Sarau Conecte! em edição de carnaval!

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Na próxima quinta-feira tem o evento poético Sarau Conecte! à fantasia. A produção do evento informa que os artistas interessados em apresentar-se nas próximas edições devem entrar em contato pelo e-mail:novosuivos@gmail.com.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

PB em Copacabana e no Jardim Botânico:

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- Livraria Ponte de Tábuas - R. Jardim Botânico
- Livraria Primeira Edição - Av. N. Sra. de Copacabana
- Jornaleiro Copacabana - Av. N. Sra. de Coapcabana
- Livraria Argumento - R. Barata Ribeiro
- Modern Sound - R. Barata Ribeiro
- Livraria Copabooks - R. Francisco Sá
- Livraria Mar de Histórias - R. Francisco Sá

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Distribuição na Gávea — busque agora:

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- PUC-Rio - R. Marquês de São Vicente
- Bar do Pires - R. Marquês de São Vicente
- Astrobar, Planetário - R. Vice-Governador Rubens Berardo
- Casa da Táta - R. Prof. Manoel Ferreira
- Livraria Timbre - Shopping da Gávea
- Livraria Malasarte - Shopping da Gávea
- Casa da Gávea - Prça. Santos Dumont

domingo, 8 de fevereiro de 2009

A melhor parte de um ipod

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A melhor parte de um ipod
sem dúvidas
é ver o vendedor de paçoca e chocolate-dois-por-um-real
interromper o silêncio da sua viagem
mudo.
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Distribuição em Ipanema e no Leblon:

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Hoje, mais alguns pontos de distribuição da Zona Sul do Rio receberam suas edições do jornal Plástico Bolha. Veja quais:

- Livraria DaConde - R. Conde Bernadotte, Leblon
- Livraria Argumento - R. Dias Ferreira, Leblon
- Livraria Letras e Expressões - Av. Ataulfo de Paiva, Leblon
- Teatro Leblon - R. Conde Bernadotte, Leblon
- Livraria Café com Letras - Av. Bartolomeu Mitre, Leblon
- Livraria da Travessa - Shopping Leblon
- Livraria Letras e Expressões - R. Visconde de Pirajá, Ipanema
- Casa de Cultura Laura Alvim - Av. Vieira Souto, Ipanema

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Alta Temporada, um haicai de Sueli Rios

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Espetáculo em cena
Veneram o astro
No verão de Ipanema
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Distribuição na Barra — veja onde buscar:

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O bairro da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, já recebeu os novos jornais Plástico Bolha. Veja alguns dos pontos de distribuição:

- Restaurante Ettore - Av. Armando Lombardi
- Livraria diVersos - Av. Érico Veríssimo
- Bibi Sucos - Av. Olegário Maciel
- Cinema Estação Barra Point - Av. Armando Lombardi
- Centro Cultural Suassuna - Av. das Américas
- Livraria Argumento Rio Design - Av. das Américas
- Cinema Espaço Rio Design - Av. das Américas
- Locadora Animatrix - Est. da Barra da Tijuca, Itanhagá
- Locadora BR Mania - Av. Rodolfo Amoedo
- Espaço de Yoga Karana - Bl.21, Downtown

Distribuição na Zona Sul — veja onde buscar:

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Já começou a distribuição da edição #25 do jornal Plástico Bolha. Os bairros de Botafogo e Ipanema foram os primeiros contemplados com os estouros de 2009. Veja onde buscar o seu:

- Espaço de Cinema - R. Voluntário da Pátria, Botafogo
- Estação Botafogo - R. Voluntário da Pátria, Botafogo
- Mundo Verde - R. Voluntário da Pátria, Botafogo
- Via Verde - R. Voluntário da Pátria, Botafogo
- Banca - R. Voluntários da Pátria / R. Real Grandeza, Botafogo
- Estação Ipanema - Av. Visconde de Piraja, Ipanema
- Livraria da Travessa - Av. Visconde de Pirajá, Ipanema

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A inspiração? — uma poesia de Rita Brás

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Eu sou uma ave.
Tenho as costelas de uma vaca.
Os olhos de todos os animais.

Olhem-me.
Eu não sou mais do que uma breve criança agitada,
uma pequena flor a crescer no muro ao canto do jardim.

Enfloro o largo de casa.
Convido com os meus passos os cidadãos a entrar.

Porque não rir?
Emprestar a minha última frase.
Porque eu sinto o sol a atribuir cor às minhas gengivas,
e ontem à noite lembro-me que tu coraste.

Há uma mão de ferro presa à minha cintura delicada,
a empurrar-me para a frente, a empurrar-me para a frente.

Porque não voltar ao tempo dos gritos súbitos,
dos estalos na cara e dos silêncios tristes,
só para chorar?

Rita Brás



Rita Brás é nossa talentosíssima autora portuguesa que já esteve na capa do PB #24, com o poema cujo primeiro verso é "O meu irmão João tem uma raiva nos colarinhos...". Ela chegou até nós por recomendação da nossa amiga mineira Bruna Piantino.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Fruta com casca, texto de Fernanda Vieira

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Vede o que era dela
Vende o vão que sobrou
Gargalha e tagarela
Da casca que alguém tirou
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Vede o que era dela
Vede o que ela faz
Verde que tanto assusta
Verde não assusta mais
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Vede como se porta
Veste seu rebolado
Veste a carapuça
Do indefeso acanhado
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Vinde e vede o que veste
Verde o que veste é
Madura, a fruta verde,
Brincando de ser mulher
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

pl (quatro dedos) olha: mais um flagra!

Um plástico bolha em foto de Isabel Diegues.

As cartas ou Do homem que foi engolido por uma mulher com dentes de liquidificador

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Meu melhor amigo do último quarto de hora acha espirituoso brincar de soldadinho com filósofos franceses — Imagine só: Deleuze contra Foucault, quem você acha que ganha?
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Assentamo-nos — um valete de copas, uma dama de espadas e um rei de ouros — nos vértices de um triângulo imaginário. Somos simpáticos. Trata-se de um senhor valete encantador. Dentro de um simples colóquio de três pessoas, consegue surrupiar, através da fixação do olhar acima de nossas cabeças, a intimidade e a aprovação de uma legião inexistente de seguidores. Orador de alcova, saberia fazer, creio eu, as confissões mais doces e íntimas com um megafone. Mas está constipado. Trata-se de um senhor valete que sabe fungar. Ela, dama por sua vez, mastiga cigarros num embevecimento que me comove.
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Meu melhor amigo do último quarto de hora gosta de seus escritores beatnik bem passados — O Henry Miller bailava no jardim de infância perto da vida que o Kerouac levava — ricto compenetrado — quero ser como o Kerouac quando eu crescer.
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Discorremos sobre signos, a nova geografia dos países da antiga Iugoslávia, ele gosta de culinária, os trágicos rumos do teatro, primos sifilíticos, ela também, acampamentos inundados em Bangladesh, deve ter o paladar muito apurado, as corruptelas do magiar, cortes de barba para ditadores, artrites, acha que tem apenas uma boca sensível, fertilizadores japoneses, o amor segundo as revistas, não duvida.
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Meu melhor amigo do último quarto de hora não fala de Balzac depois das seis da tarde – C’est fort, c’est excessivement fort.
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Temos pernas parecidas, ela e eu. Ambos cruzamos para a direita e só depois passamos para a esquerda. Direita e esquerda, esquerda e direita: e caímos na questão da tradução para o italiano. Ela afirma ter certeza de que é per favore. Ele discorda veementemente. Sibila que por favor é sempre prego. A legião invisível estremece, buliçosa: em casos mais formais se diz per cortesia, peeer cor-te-sii-aaaa. Ela recolhe, aos poucos, aos bicos: peeer cor-te-sii-aaa. Peeer cor-te-sii-aaa. Peeer cor-te-sii-aaa. Entendo que tenha gostado deste pequeno capricho.
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Ela se vira e esconde a boca atrás do espaldar de cadeira. Após um breve olhar de soslaio do senhor para mim, ela tem súbito interesse em me estudar fixamente. Um ‘já disseram que a senhora tem uns olhos de comer capim?’ me percorre a espinha, inconstante. Sinto nos nervos de trás uns floreios estranhos.
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Meu melhor amigo do último quarto de hora soletra o-t-á-r-i-o nas minhas costas com a ponta dos bigodes.
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Uma mandíbula descomunal se ergue detrás da cadeira, a boca de quarteirões de largura, que cresce, que cresce, me engalfinho à perna de uma mesa, o traço reto do batom nos lábios se difunde em rachaduras homéricas, que aumentam, que aumentam, vales nos cantos da boca dessa mulher, quero xingar todos em russo, mas não sei como, como se deleitam!, ela tem dentes de liquidificador, a goela agora é um mundo todo, não vejo mais nada, ela quer me comer, oh Deus, ela vai me comer, ela me comeu.
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Meu melhor amigo do último quarto de hora, do fundo do mundo, sussurra ao pé do meu ouvido que devo procurar um analista.
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João Francisco Costa Ribeiro já publicou dois contos no jornal Plástico Bolha e a equipe do jornal não vê a hora de receber mais de seus textos. Este, publicado na edição #15, de agosto de 2007, foi ilustrado pelo nosso super-ilustrador Angelo Abu.