quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Escrivã


Sempre tive vocação para escriba, escrivã. Fascinam-me os escribas dos povos antigos. Entre os egípcios, eles constituíam uma verdadeira casta, de considerável influência. Na antigüidade judaica eram copistas das Escrituras Sagradas. Horas e horas desenhando os misteriosos hieróglifos e os sons do alfabeto  sobre folhas de palmeiras, panos,  papiros e pergaminhos. A escrita registrando a História.

Pero Vaz de Caminha é o fundador da Literatura Brasileira. Escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral, escreveu uma Carta a el-rei D. Manuel, de Portugal, contando o descobrimento de uma nova terra e as suas primeiras impressões da natureza e do aborígene. Essa carta foi uma autêntica certidão de nascimento do país. E que espírito observador, que zelo missionário e cristão, quantos toques de ingênua poesia! Vejam que linda esta descrição: “De ponta a ponta é toda praia...muito chã e fremosa. Nela até agora não pudemos saber que haja ouro nem prata...porém a terra em si é de muito bons ares assim frios e temperados com os de Entre-Doiro-e-Minho. Águas são muito infindas. E em tal maneira é graciosa que querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem, porém o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar.”

É isso, tenho vocação para escrivã de esquadra. Para fazer literatura de viagens: anotar os acidentes geográficos- morros, ilhas, istmos; o vôo dos pássaros, principalmente o de gaivotas; o encontro com seres estranhos, de difícil comunicação.

Escrivã. Lembra “escrita vã”. Afinal, quem se importa com informações de viajantes e missionários? E como diria Drummond, “Lutar com palavras/ é a luta mais vã,/ Entanto lutamos/ Mal rompe a manhã.” Luto com palavras, luto até o limite da exasperação, da tortura, do gozo. Luto todo o tempo, corpo a corpo, “tamanha paixão/ e nenhum pecúlio”.
Identifico-me com outros escribas famosos. Como Jerônimo, o monge erudito, o eremita, considerado um dos doutores da Igreja primitiva. Empreendeu, baseado em seus conhecimentos das línguas orientais, uma revisão da Bíblia Latina. Imagino-o numa cela escura do mosteiro, rodeado de livros, consumindo-se como o sebo das velas. A seu lado, um crânio, símbolo da nossa mortalidade, da nossa vida fugaz e precária; uma iluminura de um anjo tocando trombeta no Juízo Final; volumes gregos, manuscritos hebraicos e ele traduzindo tudo como um oráculo, um verdadeiro filólogo.

Tecla também foi escrivã. Era uma das mulheres que acompanhavam o apóstolo Paulo e outros cristãos em suas viagens. Sentava-se ao lado dele, atenta, com inteligência nos olhos, ouvindo suas palavras de fogo, duras e brilhantes como golpes de espada e escrevia as mensagens evangélicas com letras firmes e góticas.

Também a freira Mariana Alcoforado foi uma escriba apaixonada. Escondida nos confins de Portugal, no século XVII, ela era uma escrivã e como tal tinha uma das mais altas e respeitadas posições no convento. Criou um dos tesouros da literatura universal: cinco cartas, mapeando o seu amor não-correspondido pelo oficial francês Chamilly, de uma forma tão desnorteante e erótica que ainda nos assombram.


Ser escriba é um dom, uma potência, uma corrente elétrica. Ser escrivã é tarefa vã, mas é esse ofício artesanal de refinar e polir a prata das palavras em fornos de barro que dá sentido à minha viagem.



Raquel Naveira é colaboradora do Plástico Bolha, e tem diversos textos publicados tanto no blog quanto na versão impressa do jornal. 

4 comentários:

Rafael Magalhães disse...

sublime.

Anônimo disse...

Muito boa a crônica da Raquel sobre a escrivã!
Jeanette Rozsas

Isabel Cintra Nepomuceno disse...

Raquel querida

Muito bem tecido o seu texto, trazendo informações desde o Egito até nossos dias, tendo você como representante atual da palavra, da escrivã que te habita, do que pode parecer vão, mas na verdade é a mola propulsora daqueles que trazem o verbo em si.

SOSSÍ AMIRALIAN disse...

A palavra, na escrita de Raquel Naveira, é viva: transforma-se, a cada momento. Em ritmo poético, descreve e narra, emociona e surpreende. Conduz-nos a antigos tempos e nos traz de volta. Tem sabor de História, de viagem, de encontro com iluminados, quando acontece o encontro com a própria identidade. Deliciosa mescla de prosa e poesia.