segunda-feira, 27 de abril de 2009

LEITURAS ESPARSAS: A enfermeira Creuza

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Noite e dia se confundem no Hospital Cardiotrauma de Ipanema, a não ser pelo relógio que indica a hora. Por volta de 2:30 saio do leito e encontro uma enfermeira; ela estava com a cabeça debruçada nos braços ensaiando um cochilo. Perguntei se ela se importava em trocar algumas palavras. Ao ócio daquele ambiente nada restava a não ser se permitir conversar com uma curiosa. Aos dezesseis anos Creuza Souza deixou o esposo e a roça para buscar no Rio de Janeiro um futuro. Hoje , aos 52 anos, a auxiliar de enfermagem diz com convicção o que mais ama fazer na vida: cuidar de gente, ajudar a salvar pessoas. Quando começou a falar de livros, escorregou diversas vezes na sua própria história e memória. Creuza dá inveja à imaginação e à pretensão de qualquer escritor, sua vida é um prato cheio de terror e superação, de buracos, de “não dá pra explicar, dona Camila”.
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Você gosta de ler, Creuza?
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Ler é muito importante porque traz conhecimento. Eu li um livro em algum lugar do passado que me chamou muita atenção, não lembro o nome. Eu gosto de ler manchetes, das notícias dos jornais. Gosto de ler a revista Época.
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As histórias que você me contou dariam vários livros, como já deram de alguma forma. Você convive diretamente com uma linha entre morte e a vida. Não tem como fugir: você como enfermeira e seus pacientes, em casos mais graves ou não, refletem constantemente sobre a vida e a morte. Inclusive, esse é o grande tema dos livros, sabia? Mas o negócio é o seguinte, você se assusta com essa sua rotina de pessoas que fogem ou querem se entregar à morte?
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Não vou dizer que é fácil. Cada dia é uma experiência. Tudo que você faz na vida tem que ser por amor, senão você deixa a desejar. Então, lidar com essas pessoas, com os pacientes é algo que faço porque gosto. Por mais que elas pensem que a vida delas acabou, que não são mais importantes para o mundo, meu dever é incentivar e dizer que não. Nós temos é a esperança, porque a vida só Deus pode tirar. Qualquer um de nós, enfermeiros, médicos, qualquer um que cuide de um ser humano tem o dever de tentar salvar.
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Percebi os quartos do hospital não têm janelas e neles há televisões sempre ligadas! Os pacientes ficam deitados o tempo todo assistindo a televisão? Não pedem para ler um livro, uma revista?
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Alguns deles pedem para a gente ler em voz alta, quando têm gosto pela leitura. Tem gente também que não gosta de ler nem de televisão, tem pavor de televisão, aí ficam só no mundo deles... Mas, diante de tudo isso, o que eles mais precisam é de amor e carinho. As pessoas doentes ficam muito carentes.
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Se você fosse escrever uma história, que história seria?
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Olha só, a história é uma coisa muito linda, na história tem tudo, porque começa com você. É um avô do passado que às vezes você nem conheceu, aí você fala aquilo que seus pais te contaram do seu avô... eu acho lindo o amor. Eu acho que a história é o tudo, é a nossa vida, é o dia a dia, é o romance, é aquele amor que você teve no colégio, é aquele professor que você achava lindo, é aquela pessoa que você não pode ter ao seu lado. Eu acho que colocaria um pouquinho de cada no meu livro. Assim. Vamos supor, eu te conto algo que passou na minha vida, é uma história, mas tem algo que acontece na nossa vida que não tá na história do que aconteceu, tá em outra coisa, entende? Eu não sei explicar. Tem coisas também que você gostaria de apagar da mente. Eu não sei como eu poderia explicar essa palavra para você.
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Eu entendo Creuza, não precisa explicar mais. Agora, se fosse para você escolher uma história, um livro para ler, o que escolheria?
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Gostaria de ler a história da minha vida, mas gostaria de ler outras coisas, coisas importantes para ter mais conhecimento. Sobre a natureza eu queria ler também, coisas que aconteceram há milhões de anos atrás, no início do mundo, do tempo, é tanta coisa que eu queria ler! A gente se surpreende com tanta coisa que a gente descobre. Mas o mais importante da história, é que ela fica. A história fica, né?
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Acho que está bom, Creuza, vou deixar você descansar...
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Mas é para isso que serve uma história não é?
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Fui seguindo o corredor em meio àquelas respirações monitoradas.
O resto é silêncio.
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4 comentários:

Anônimo disse...

Camila, muito legal. Sugeriria que você fizesse em vídeo também, mas acho que o espectador perderia a atenção e só focalizaria você.

Ok, baba-ovice à parte, eu gostei, mas acho que extraí uma conclusão meio negativa. Senti que Creuza não transpõe a linha do típico querer-e-não-fazer. Ela pode ser uma pessoa cheia de vontade, ávida por conhecer mais, só que não vence a inércia. E intenções não contam. O que vale é o que a gente faz.

Se um dia eu passar por ali, talvez eu dê a ela "1984". Não tem quem não goste. Pode ser um empurrão.

A NOVIDADE disse...

O melhor de tudo é saber que nos lugares menos esperados, como o hospital, encontram-se pessoas com tanta vida e amor para sugerir...

baby disse...

a creuza mostra para corremos atras de um futuro independente da onde ele esteja ! te adoro camila pq naum faz uma entrevistah com uma adolescente gravida???

baby disse...

creuza mostra pra gente correr atras de um futuro independente de onde ele esteja ! CAMILA pq naum faz uma entrevista com uma adolescente gravida?? bjs te adoruh