quarta-feira, 31 de março de 2010

PRETO NÃO É COR — de Sérgio Bernardo

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O homem queria o arco-íris nos jardins de Belém
mas também não queria o arco-íris nos jardins de Belém
por isso a dúvida na ida no elétrico número 15
e ainda a dúvida na volta no elétrico número 15

Na ida ele olhava as pessoas sentadas e em pé
a atenção desprezava quase todos os rostos
a atenção só se fixava nas velhas ciganas
de saia preta, sapatos pretos, manto preto, véu preto
e as cores das echarpes indianas compradas por quilo
elas só pediam a seu deus pra vender tudo
tudo do que precisavam era de alguns euros
e foi com esperança que desceram do elétrico número 15

Os coloridos — disseram com bocas sem dentes —
os coloridos seriam sua grande valença
e atravessaram com velocidade a passarela
e o olhar do homem não mais as fixou
viúvas perdidas no arco-íris dos jardins de Belém
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Sérgio Bernardo
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Sérgio Bernardo é nosso leitor de Nova Friburgo, RJ, e escreveu esse poema em Lisboa, em junho de 2009.
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Curso sobre Ana Cristina Cesar no IMS

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segunda-feira, 29 de março de 2010

Armando Nogueira — um último estouro

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Literatura, jornalismo e futebol
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Armando Nogueira já trabalhou ao lado de grandes figuras do jornalismo impresso, como Nelson Rodrigues e Clarice Lispector. Na rede Globo, foi o criador dos programas Jornal Nacional e Globo Repórter. Hoje, dedica a vida às suas paixões: o esporte e o ofício da escrita. Considerado o maior cronista esportivo do Brasil, Armando arrumou um tempinho para um bate-papo com a equipe do jornal.
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Entre suas milhões de atividades está o ofício da escrita, mais especificamente, a escrita sobre o futebol. O que une as duas paixões?
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Tem a paixão em si, do esporte, e tem a paixão pelo ato de escrever; você fica de certa maneira dependente da palavra, porque não pode deixar de escrever. Existe o respeito pela palavra, embora seja muito penoso mantê-lo; é uma das raras profissões em que você tem a chance de fazer e refazer. Na verdade, a palavra é um ser vivo que fica pulsando na gaveta, te incomodando; você bota na gaveta, no computador, onde quiser, mas, de noite, na cama, fica pensando que tem um ser te aporrinhando, enchendo teu saco. Você não se livra da palavra. Às vezes você é salvo por uma leitura. Você pode estar empacado numa palavra e ter uma insônia e, de repente, acorda com aquela palavra na ponta da língua. Isso já me aconteceu. Eu estava escrevendo um texto um pouco poético, “as bolas murcham no campo como as flores...”. Precisava de um trissílabo e não havia jeito de achar essa palavra, atravessada na garganta. Um dia, lia Machado de Assis, à uma hora da manhã, e uma palavra surgiu como se cintilasse na página; era a palavra “campina”, que dava certinho na minha métrica. Era a palavra que eu queria. “As bolas murcham no campo como as flores na campina”. Até então, faltava alguma coisa para completar o verso. E, quando é assim, a cabeça fica funcionando, você fica refém daquela busca. É aí que vem a recompensa: do fato de você ler; porque, se eu não gostasse de ler, talvez essa palavra não cintilasse na página, não ficasse piscando, como vi piscar. Há uma máxima que diz: escrever é reescrever. Escrever é cortar palavras. Mesmo que seja um bilhete para a namorada, não goste, desconfie sempre da primeira versão. Às vezes, falar menos é melhor. É preciso exercer o desapego para com a palavra; ao contrário do que se pensa, isso é uma forma de valorizar e não menosprezar a palavra; de buscar a palavra essencial, a palavra inevitável, a palavra irrecusável. Me parece que, sendo esta a premissa do ponto de vista da forma — e considerando sempre que a primeira versão do texto não é boa —, você tem um bom começo, um bom caminho. Então vem o mais complicado da história, que ainda não contei, que é você ter a capacidade de mentir. No meu caso, entro de maneira meio marginal nessa história, porque meus personagens todos são da vida real. Eu escrevo, mas, literariamente, não sou escritor, escritor é quem cria seus personagens.
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Mas quando você retrata um personagem real , não o está recriando?

Eu recrio o personagem, mas ele já existe. Posso até retocar, melhorar ou piorar o personagem, mas ele precede a minha obra. Então minha obra não é de criação, é de recriação. Um dia, Clarice Lispector, que trabalhava no mesmo jornal que eu, O Diário Carioca, escreveu uma crônica muito simpática sobre o meu trabalho; ela dizia que eu deveria escrever um romance. Foi aí que me dei conta de que havia um grande equívoco entre os meus amigos, a começar por ela, mas também do Paulo Mendes Campos e outros: achavam que eu era um escritor. Romancista, contista e até poeta era o Nelson Rodrigues, que inventa personagens que não existem. Embora ele recrie alguns personagens, outros ele cria, como o “Gravatinha” e o “Sobrenatural de Almeida”. Estas são características do escritor; eu sou cronista. Tenho consciência de que pertenço a uma categoria, hoje, quase fora do jornalismo. Me dei conta disso não só quando comecei a escrever crônica, mas porque como eu lia muito Nelson Rodrigues, e como ele era um grande cronista, eu percebia que ele era capaz de melhorar ou piorar os jogos sobre os quais escrevia, ficava a critério dele, coisa que o jornalista não pode fazer, somente o cronista pode. Então, acho que temos, nas nossas categorias profissionais, o repórter, que tem o comprometimento com o fato, o analista/comentarista, que comenta o fato, mas não necessariamente opinando, apenas analisando, e temos o cronista, que tem liberdade absoluta. O cronista não precisa ir ao jogo para gostar ou não do jogo. Passa-se a ter a liberdade (a que hoje me permito) de não ver o jogo todo; um pequeno episódio de uma partida de futebol pode me dar uma crônica. Costumo dizer que mais importante que o jogo é o jogador, mais importante que o jogador é a jogada, mais importante do que a jogada é o gesto. Posso, de um gesto, escrever uma crônica, o repórter não. O cronista viaja. Fico, então, nessa fronteira. Pelo fato de eu ter uma forma requintada, trabalhada e sofrida, as pessoas me consideram um literato, mas eu não me considero um literato. Os livros que escrevo são apenas livros de crônica.
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Há alguns meses, você passou a ter o Blog do Armando Nogueira. Como é escrever para a internet?

Eu me dei muito bem com a internet, porque a internet é o reencontro com a palavra escrita. Comecei a tentar entender o meio e vi que, escrevendo da maneira que eu escrevo, tradicional, passo a minha mensagem com muito ardor, com muito calor, e as pessoas respondem imediatamente. A grande surpresa que tive com a internet foi que eu pensava que essa era uma ferramenta virtual, mas ela não é virtual, é absolutamente carnal. Ela chega a provocar um corpo a corpo, é atritada. Você põe um texto e, um minuto depois, tem uma resposta para o texto. É uma coisa que aproxima demais as pessoas, e isso me deu uma alegria muito grande.
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Há novos talentos se revelando hoje na crônica esportiva?
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Eu acho que sim. Mas este é um meio cruel, porque os jornais não abrem espaço para a pouca objetividade. Acho que o que me distingue dos outros é que, desde muito cedo, entrei pelo veio da poesia. Percebi — e não fui o primeiro — que a poesia está muito próxima do esporte, na medida em que o esporte é uma coisa lúdica, uma forma de brincar. A poesia te permite fantasias que a prosa não te permite. Então, de quando em quando, faço incursões na poesia. Tenho a impressão de que, com essa superdose, overdose, de realismo que baixou no jornalismo de um modo geral, e na vida das pessoas, ninguém tem muito tempo para ficar recriando palavras, inventando metáforas. Além da matéria-prima estar escasseando. No futebol, por exemplo, você vê um Robinho despontando, que te permite refazer a recriação de um gesto, mas tem dez que não te permitem escrever uma linha. O futebol não era assim, o futebol, nos primórdios, se chamava o Jogo do drible. Aí, primeiro acabaram com o ponta, que era o exímio driblador, porque o ponta sempre teve um espaço melhor para driblar do que quem está na faixa central do campo, sempre muito congestionada. Ao extinguirem o ponta, extinguiram praticamente o drible, porque o drible mal dado na faixa central do campo pode representar um contra-ataque brutal. Então, os treinadores não querem correr riscos; e o futebol, com isso, se empobreceu. Aí, começou a aparecer um outro universo ligado à ludicidade do esporte, que é muito próxima da poesia. Foi a atenção com os Jogos Olímpicos. Lembro que o primeiro gesto olímpico que inspirou um poema meu foi da Nadia Comaneci, nos Jogos de 76, em Montreal. Tem outro dado, também, que contribui muito para instigar a inspiração poética: o esporte é uma coisa épica. Nos jogos olímpicos da antiguidade, já havia grande exaltação poética — Píndaro e tantos outros escreveram odes maravilhosas aos grandes heróis —, o que permite realmente aproximar o esporte da arte. Seja da arte da dança, ou do gestual do esporte, que nos salva um pouco desse excesso de realismo do futebol.
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Não haveria um certo saudosismo seu de um futebol mais aristocrático?
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Nesse sentido, há dois aspectos. Um aspecto puramente estético, que fascina a gente, como o gestual do Robinho, que mistura um pouco de finta com drible e jogo de cintura, e alude às raízes de uma cultura. Por exemplo, existe um texto do Pasolini sobre a seleção de 70 que vale a pena ler. Ninguém podia ficar indiferente à seleção de 70 do ponto de vista estético. Coincidia também com todo o charme que a televisão estava inaugurando para o corpo — isso enriquecia muito o espetáculo. Quando se diz que o Brasil tem o melhor futebol do mundo, não é porque ele ganha; é porque ele tem o melhor futebol do mundo. E o que é o melhor futebol do mundo? É o futebol mais bem jogado, esteticamente. A experiência da Copa de 1994, em que o Parreira mandou para os Estados Unidos uma equipe européia — com exceção de Bebeto e Romário — era de uma chatice inominável, porque, fora esses dois jogadores, não havia um gesto que ficasse. Isso não é você romper com as raízes? Porque a raiz é o Leônidas da Silva, que eu não vi jogar, mas adorei. Você também não viu, mas adora, porque ele faz um apelo à sua fantasia. Ele inventou a bicicleta. Costumo dizer que o que distingue o futebol brasileiro, quando ele é fiel às suas raízes, é isso. O inglês inventou o futebol e o brasileiro inventou as delícias do futebol. (risos). No momento em que você não tem as delícias no campo, vira o futebol inglês, o futebol europeu. O fato é que ninguém tolera esse tipo de jogo, porque, se você não respeita as raízes, daqui a pouco você vai mandar para um festival internacional de música como representante do Brasil um sujeito que compôs bons boleros. Temos compromissos com a música popular brasileira, com o samba. Se nós transportarmos o fenômeno do Ari Barroso, do Noel Rosa, do Bide, do Armando Marçal, enfim, dos grandes compositores brasileiros para o futebol, o nosso compromisso passa a ser buscar o Garrincha, o Didi, o Pelé. Porque, nas obras de arte que você cria para identificar um povo, você cria impressões digitais, que precisam ser respeitadas. Por que tanto se lutou para se implantar o Cinema Novo no Brasil? Porque era um cinema brasileiro, autenticamente nacional. Não é o chauvinismo, não é o nacionalismo não, é o compromisso que nós temos com a identidade do povo brasileiro. Porque senão, você pega a camisa da seleção brasileira e coloca na seleção italiana. Nos agrada? Não. Só porque ganhou? Só porque venceu? O objetivo não é esse. É preservar as raízes e, conseguir juntar isso ao lado estético, ao lado técnico, e produzir equipes como tivemos em 58, como tivemos em 70, e que ficaram na história. Os europeus não vieram buscar aqui um jogador — e continuam levando num arrastão monumental deles — por ele ser atlético, vêm buscar aqui a habilidade individual do jogador brasileiro, que é a nossa marca, nossa característica. Então, a essência da nossa escola futebolística são as delícias do futebol, um esporte que tem a capacidade de criar espaço no reino da fantasia, não necessariamente à custa de um bate-estaca.
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Quando entrevistamos o poeta Adriano Espínola, ele propôs que os leitores praticassem mais esportes, que a poesia agradeceria. Você concorda?
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O importante é ter uma vida saudável. Gostar efetivamente de alguns esportes, como eu, por exemplo, que gosto muito de tênis. Tenho até uma crônica em que me defino entre esses dois amores, o amor do esporte individual e o amor do esporte coletivo. Mas tem o momento em que o esporte coletivo pode virar individual, como é o caso típico do Robinho. Tem uma máxima no futebol que diz que o futebol é um por todos e todos por um. O Robinho prova que não é bem assim: é um por todos, e nem sempre todos por um. (risos).
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Entrevista realizada por Lucas Viriato, Isabel Diegues e Luiz Coelho e publicada no jornal Plástico Bolha de setembro de 2007. Reproduzimos aqui como uma pequena homenagem ao grande jornalista que se foi hoje.
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quarta-feira, 24 de março de 2010

terça-feira, 23 de março de 2010

dança nua — poema de Daniel Pereira

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dança nua

...............desfila

pela noite

................na cadência

do vento

................na melodia

da chuva

...............iluminada

pela lua

................livre

nas esquinas

................leve

nos becos

...............solta

nas praças

...............desfila

enlouquecida

.................destino incerto

desaparece

.................toda manhã

quando eu

..................desperto.
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Daniel Pereira
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segunda-feira, 22 de março de 2010

domingo, 21 de março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

NO TÉDIO

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Do meu quarto
O tempo é antes
Âncora
Que remédio.
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Gabriela Bouzada
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quinta-feira, 18 de março de 2010

quarta-feira, 17 de março de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

no canto sorrateiro da sala

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para ser mais exato ao lado
das noites e das guimbas
uma gata em seu caráter de sombra
esguia como a desculpa
impronunciável do algoz
vapor de álcool sobre a pelve
untada de éter e adrenalina
sustentava o cair da culpa
como quem abre persianas
para vampiros conhecerem
o dia de perder a classe
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Luiz Coelho
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quarta-feira, 10 de março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

Cicatrizes, por Letícia Simões

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você.
invadiu a minha rua
pôs asas no meu telhado
como se fosse tudo
bem.

eu.
remendando sonhos
descobri haver no meu
baú
mais papéis seus
pintados de bocas cansadas
que papéis meus
escritos com as certezas em
azul.

daqui de cima vou soprando nuvens
para mesmo em vinte anos,
mesmo se nem saiba mais quem você é,
o nosso céu seja o mesmo

- ontem esqueci quem eu era
para me encontrar na sua voz.
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Letícia Simões
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Letícia Simões já publicou diversos poemas no jornal Plástico Bolha. Este é o segundo que ela publica no Blog do Bolha. Confira o outro aqui.
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quinta-feira, 4 de março de 2010

poema na margem do caderno de física

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o cair vaga
roso das
pálpebras durante
o sono interrompido,
parecem pe
sar toneladas,
como os
pianos que
subitamente
despencam do
céu
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Clara Balbi
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segunda-feira, 1 de março de 2010

Passadeira

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Podem vê-la passar na rua. Sim!
Podem até vê-la na passarela.
Gostei quando passou por mim.
Eu, viela.
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Thiago Diniz
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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Desencontro

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Você deve estar agora
andando por Copacabana,
chorando no chão da sala
ou desistindo de um livro chato.
Quisera eu estar agora
inteira sob teus quadris.
E estou – enquanto febres
atravessam-me enorme
e deslizo entre dedos e
mercúrio e memória
e a tua boca,
a tua boca.
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Laura Assis
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Laura Assis é nossa leitora de Juiz de Fora, Minas Gerais.
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A História dos Seios, de Rosália Milsztajn

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Rosália Milsztajn, nossa amiga de Bolha, lança A História dos Seios, no Dia internacional da Mulher. O evento será na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. Rosália já publicou quatro livros de poesia: No Azul (Imago, 1991), Itgadal – Memória dos Ausentes (Diadorim, 1997), Luminosidades (7Letras, 2000) e Aqui dentro de mim (Aeroplano, 2003). Foi idealizadora de eventos de poesia em livrarias e já teve seus poemas publicados em diversas antologias, revistas e jornais. Em 1999 venceu o Prêmio SESC de Poesia do Estado do Rio de Janeiro.
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sábado, 20 de fevereiro de 2010

Chapada Diamantina — de Wilson Luques

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a linfa que corre das serras
rumo ao roncador
é água da fenda
das rochas
lágrimas
de quem já teve os tesouros
perdidos
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Wilson Luques
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

CACOS — um poema por Milton Costa

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Cacos de vida vivida,
Quebrada, remendada, sofrida.
Coração partido espalhado.
Face cortada, ferida.
Espelho espantado espantalho.
Cacos de corpo sem vida.
Cacos cascalhos retalhos.
Fragmentos de uma guerra perdida.
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Análise: Hans Staden em duas viagens ao Brasil e uma breve comparação com a carta de Pero Vaz de Caminha

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Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal,
que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha
Pero Vaz de Caminha
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A literatura de viagem adormece sob um caráter essencialmente revelador: Quer ela nos contar o que o viajante assistiu, projetando em nosso imaginário o aparecimento descritivo de uma realidade diversa, vista através de um olhar particular. O assistir, no entanto, não passa de literatura centrada na impressão pessoal: As narrativas seguem, invariavelmente, pontos de vista. Quando os peninsulares europeus se lançaram ao oceano em busca de especiarias, tinham em mente a menor das idéias do que encontrariam. Estes dois relatos – o de Staden e o de Caminha - dizem muito a respeito do estranhamento eurocêntrico da descoberta das Américas. “Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a barberia [barbárie] deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém” (Folha 3 da carta de Pero Vaz de Caminha). Mas esse estranhamento segue lógicas diferenciadas: Hans Staden ficou preso em uma tribo de antropófagos, vendo-os em suas cerimônias comer a carne humana assada; Pero Vaz de Caminha viu os índios a partir de um escopo mais naturalista, menos amedrontador, embora ambos os tratassem em formas subjugadas, de acordo com a mentalidade da época. Para Staden há formidável justificativa para tanto: a eminência de ser devorado.
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A narrativa de um alemão
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Hans Staden era um mercenário alemão que empreendeu duas viagens ao Brasil – a primeira em 1548, passando por Pernambuco e Paraíba, e a segunda em 1550, passando ela ilha Santa Catarina, dirigindo-se, posteriormente, a capitania de São Vicente, atual Estado de São Paulo. Suas rotas consistiram em séries incríveis de naufrágios e motins, até ser capturado pelos indígenas. Permaneceu nove meses com eles, sempre na eminência de ser comido. Seu relato é premido de receio e assombro, sempre se referindo aos índios enquanto selvagens. Entretanto, é num navio francês que Staden volta à Europa, antes, claro, de barganhar inteligentemente sua liberdade junto aos índios Tupinambás. O livro é um relato surpreendente, sem demasiada amplitude científica, e com vários intertítulos ilustrando os vários capítulos: “Como comeram Jerônimo, o segundo dos dois cristãos assados; Como os selvagens foram à guerra e me levaram com eles, e o quê ocorreu durante a expedição”. Há ainda fascinantes xilogravuras como ilustrações do tempo de cativeiro de Hans Staden. Essas obras foram feitos por ele ou, quando muito, sobre sua supervisão. A esclarecedora introdução de Eduardo Bueno que figura na obra da L&PM traz ainda diversas informações valiosas para a maior compreensão, dentre elas à relação da obra com a ocasião do seu lançamento na Europa. A recepção do texto de Staden no antigo continente atingiu escalas formidáveis, sendo traduzido para o Latim, Holandês, Flamengo, Inglês e Francês, e, já no século XVIII contava com 70 edições. Teria ela influenciado sobremaneira o movimento modernista de 1922 em sua acepção antropofágica. A obra teria sido apresentada a Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Raul Bopp por Paulo Prado, sobrinho do milionário Eduardo Prado, que havia adquirido um exemplar original em um antiquário parisiense. O quadro Abaporu de Tarsila (em tupi-guarani comedor de gente) tem inspiração no então relato antropofágico. Até mesmo o Cinema Novo, sob direção de Nelson Pereira dos Santos, compôs uma obra cinematográfica inspirada no relato de Staden: o filme de 1971 chamado Como Era Gostoso meu Francês, filmado na mesma Ubatuba que Hans Staden se viu aprisionado há quase 500 anos atrás. Existe, entretanto, uma obra cinematográfica mais recente, lançada no ano de 1999, do diretor Luís Alberto Pereira, chamada Hans Staden.
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Cândido Portinari e Monteiro Lobato também nutriram admiração pelo relato do alemão, compondo a partir dele obras que refiguraram a narrativa nos respectivos modos dos artistas; nas artes plásticas e na literatura. O primeiro título da obra, de notável extensão, era: História verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hessen até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a conheceu por experiência própria, e que agora traz a público com esta impressão. Como Staden não era intimamente ligado às letras, pediu ao Dr. Johannes Dryander, professor catedrático de medicina na Universidade de Marburgo para rever, corrigir e, quando necessário, aperfeiçoar o original. Este era doutor dedicado à matemática e à cosmografia, sendo ele extremamente preocupado em relatar a verdade, evocando, inclusive, à linhagem paterna de Staden – a qual conhecia – para auferir idoneidade.
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A narrativa de um português
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Por detrás de qualquer relato de viagem que remonte centenas de anos, existe (ou ao menos deveria existir) um estudo filológico direcionado ao discernimento das nuances idiomáticas da cada época enunciada. As minúcias de uma língua arcaica podem dizer muitas sobre a sociedade que a usava; é o caso da Carta de Pero Vaz de Caminha. Na edição da carta da Martin Claret, o prefácio de Jaime Cortesão toca justo nesse tema, evocando qualidades do escrito que escancaram processos históricos valiosos. É o relato de Caminha o documento inaugural do Brasil colônia, repleto de um tom polido, mesmo que ainda perplexo. A carta foi endereçada ao então rei de Portugal, D. Manuel I, e nela os índios são vistos por Caminha de maneira bem diversa da ótica de Hans Staden: São tidos como seres puros propensos à catequização: “(...) não duvido que eles [os índios], segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza o Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade” (Folha 11 da carta de Pero Vaz de Caminha). O contato primeiro na costa brasileira, para os portugueses, foi, portanto, um afável escambo. Os índios ganharam uma série de presentes e os lusitanos uma graúda porção de terra. Foi realizada ainda uma cerimônia religiosa na costa, com direito a cruz e participação indígena que, como consta na carta, empoleirava-se a margem da praia em grupos cada vez mais volumosos (grupos de centenas de índios iam ver a chegada lusa).
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Correr sobre os dois relatos é perceber, por exemplo, a polivalência dos pontos de vista. É certo que o olhar eurocêntrico cristão imperou sobre as narrativas de viagem desta época; a Europa estava fundada sobre a hegemonia da Igreja Católica; e isso se nota fortemente. Agora, a recepção dos índios aos europeus nem sempre foi à mesma. Ler sobre essas histórias é, assim, uma digressão ao passado de nós mesmos, aos nossos processos de formação. Mas o estranhamento dos povos estrangeiros é certamente tão forte quanto sua recíproca.
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Ambos os livros estão disponíveis em versões acessíveis. O livro de Hans Staden foi reimpresso pela editora L&PM Pocket a um preço de R$ 13 e a carta de Caminha pode ser lida na íntegra no excelente site da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/carta.html, mesmo que sem o prefácio de Jaime Cortesão.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Sobe e desce da alma — por Lucas Gibson

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Os adultos recusam brincar
Nas gangorras da pracinha
Porque de altos e baixos
Já basta sua vidinha!
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Lucas Gibson
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Lucas Gibson é nosso leitor do Maracanã, Rio de Janeiro. Este é o segundo poema que ele publica no Blog do Bolha. Para conferir o primeiro, clique aqui.
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sábado, 30 de janeiro de 2010

Polpa, um poema por Nathanael Araujo

a Viviane Mosé
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o sal que põe em minha boca
tem gosto adocicado,
febrífugo para feridas
em processo de cicatrização.

minhas veias dançam

meu corpo envolve
minhas mãos

arraigadas no solo
que um dia há de acolher
o descanso do que fui.

invento nomes, semeio sonhos,
rugas em processo de gestação
infinitamente amanhecendo

sobre o deserto que me veste

sarei minhas despedidas
ao te receber

sarei o meu abandono

no abraço de um corpo plantado
na pulsação de horas
a conceber vidas e mortes. em ciclos.

dentro do meu peito

flui um rio de águas claras.
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Nathanael Araujo
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Nathanael Araujo é nosso leitor de Rio das Ostras, no estado do Rio, cidade que acabou de receber a última edição impressa do Plástico Bolha.
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Alguns versos de Máh Luporini

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Noite Silente,
me envolva com teu manto de
cristais reluzentes.
Ceifo palavras em um
campo adormecido.
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Máh Luporini
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Máh Luporini conheceu o jornal Plástico Bolha através de uma amiga que reside no Rio de Janeiro e está fazendo faculdade de Filosofia. Também tem um jornal cultural, "O GRITO", em São José dos Campos. Por acaso, também é poeta e enviou alguns de seus poemas para publicação. Maiores Informações vocês encontram no blog: www.mahluporini.blogspot.com
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Lógico só para mim

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Desejo deu frutos
Em cada letra
Do segundo verso
De cada estrofe

Desejo deu frutos
Seis histórias
Vinte poemas
Milhares de pensamentos

Desejo deu frutos
Que somente eu entenderei
A mensagem escondida
Que no mistério se fechará
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Giovanna Bhering
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

URNAS

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Urnas únicas
Armas pra derrotar
Quem te rouba.
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Milton Costa
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

No jardim, poema de Franklin Pacífico

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Da caixa do rádio
fluem promessas
de chá em março,
no jardim de bromélias,
e jasmins que me sorriem.

Na beirada
dos bancos de praça
as rosas vencem as acácias
na corrida até os ouvidos
daqueles sentados na praça.

Que segredos nos traz
o espírito desse lugar,
alegre e fugaz.
Face escura do pomar,
cercada de espinhos, oculta.

O jardim esconde de si
o que no seu corpo
não o agrada, e sorri
com verdes postiços
a cicatriz flor-de-lis


Nas folhas brancas,
arranhadas na sombra
do degredo sob a terra,
escondem-se as ambições
do poeta.
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domingo, 17 de janeiro de 2010

sangue, sangue

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sangue, sangue – caiu a chuva, agora é tarde – uma deficiência mental, uma deformação – impacto – o bicho nasceu, nasceu – a brisa fechou meus olhos, para a eternidade – o tempo – aqui, sedação – a luz ilumina meu corpo, a luz – objetos, objetos pontiagudos – madeira, metal – a virgem está chorando, de alegria – e a consciência? – movimento, ação – ele teve um flash de memória, memória – nunca – somente insetos, formiga, energia – voz, a minha voz, a sua, nós – bicicleta, bicicleta – será que ainda tem comida na geladeira?
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Daniel Pereira
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um verão, poema de João Lima

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Na sala de jantar
confraternizavam-se os estômagos:
resíduos de vida miúda nos talheres e nos
dentes amarelos
nos palavrões, nos cigarros.
(Os restos ao pobre cão faminto
ao voo das moscas
ao piquenique das formigas.)
No quarto, num espelho trincado
a ânsia procura um branco fio de cabelo
solitário que seja. No quarto,
o tempo adoece.
Não obstante,
nele consebe-se.
Nas paredes que um aríete ou temporal
podem talvez derrubar,
ecoam vozes.
Fala-se dos vizinhos, dos parentes mortos
do mau cheiro vindo do banheiro
de coisas do além, discos voadores
da triste e dolorosa mudança
que se dá no corpo de fulana.
Resolve-se passar o domingo
no litoral: comer frutos do mar com coca-cola.
Na rua, as folhas bricam
de ser pé-de-vento.
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João Lima
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

EDIÇÃO #27 NO SITE DO PLÁSTICO BOLHA!

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Há algumas semanas, já está no ar a edição #27 no site do Plástico Bolha. Se você ainda não viu a versão impressa em algum dos pontos de distribuição, esta é a sua chance de ler o último número! Acesse aqui e, ploct!, entregue-se ao involuntário estouro das bolhas.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

aquele corpo

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era de tardezinha
e os sapos testemunharam
a alegria da lagoa
ao receber aquele corpo
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Ana F.
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O estilo kitsch eu renegava

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Cordilheira, além de ser um dos romances brasileiros mais elogiados do último ano, dá a ver um escritor, Daniel Galera, na esteira do desenvolvimento de um estilo original de escrita, por assim dizer. O interesse de sua técnica busca alcançar novos lugares de expressividade para o universo ficcional, e no caso de Cordilheira, seu quarto livro, os procedimentos narrativo-ficcionais também flertam com aqueles de uma narrativa cinematográfica, como em seus outros trabalhos. A perspectiva do observador, narrando, constitui a verdade do relato. Relato esse que se torna um ato de caracterização das personagens, em primeiro lugar a do narrador, bem como da criação de mundos, por uma estética hiper-realista. Estética hiper-realista tangenciada pelo tratamento dos limites tênues entre realidade e ficção, ou ilusão, tanto pela temática, quanto pela técnica. O interesse parece ser colocar em questão os limites entre literatura e vida. As construções subjetivas e lingüísticas do mundo que operamos, na arte e na vida, confundem-se com a vida mesma, na suposta imediatez com que se nos apresentam. No entanto, todos esses detalhes técnicos vêm ao caso, só em um segundo momento, posto que são artifícios que tentam dar nexo, plausibilidade, ao sentimento das personagens. No entanto, quando nos deparamos o repertório de clichês que temáticas como essas levantam, vêm à nossa lembrança milhares de livros que trataram desse tema já esgarçado.

Mas o diferencial da trama, que se desenvolve a partir da jornada de uma escritora órfã, numa viagem a outro país na esperança de realização dos desejos mais íntimos, materializados na concepção de um filho. Contudo, o quer acontece é uma rede de acontecimentos que questionam o desejo de estetizar, ficcionalizar a vida, sob a batuta final de uma advertência. A literatura, assim como a vida não devem ser levadas tão a sério, o que não quer dizer que a narradora, ou o autor, em algum momento consigam dar cabo de tal empreitada. Tão melhor assim, pensei. Sem a pompa, sem a auto-importância. (p.164). Apesar do desejo de brincar mais com a vida, reside uma literatura que envolve profundamente o leitor, intencionalmente, identificando-os ou não com a experiência conturbada da errância emocional das personagens, lançando luz sobre as raízes do egoísmo de uma vida construída sob uma perspectiva somente, aquela do narrador. Diz a narradora: O estilo kitsch eu renegava, mas sua veracidade eu era obrigada a reconhecer (p.157).
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Poetisando Tragos, poema de Dênis Rubra

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Cama:
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eu, você,
o Marlboro light em box,
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as cinzas no cinzeiro
seguindo a harmonia do nosso suor.
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fumo a vida com você
até o ultimo trago.
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Dênis Rubra
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Dênis Rubra é nosso leitor da UERJ. Este poema está em seu primeiro livro, que será lançado em 2010 pela editora Multifoco. Quem quiser conhecer mais, pode visitar seu blog aqui.
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sábado, 19 de dezembro de 2009

O intangível dos contos de Telles

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As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisa findas
muito mais que lindas
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade
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É a seguinte epígrafe, de Carlos Drummond de Andrade, que dá carretel ao livro de contos Seminário dos Ratos: “Que século, meu Deus! — exclamaram os ratos / e começaram a roer o edifício” De certo é o conto homônimo que carrega maior distensão com relação aos demais: tem em seu foro político maior sátira, em conformidade à data da primeira publicação do livro, o ano de 1977 — ditadura militar, governo Geisel. O conto é um retrato jocoso da composição política do poder, uma investida alegórica a toda a bandalheira da coação que, nos final da década, deixava amostras de sua precariedade. Daí os ratos: São eles metáfora exemplar e, como descrito na narrativa, roubam o lugar dos aristocratas roendo tudo: os fios das baterias dos carros, dos telefones, a comida do banquete: “o cozinheiro-chefe ficou entusiasmado, nunca viu lagostas tão grandes”, mesmo assim os ratos as roem, deixando só o cômico desespero de todos numa fuga resignada. São deles, então, as rédeas do seminário.
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Quando José Castello insiste nas assertivas temáticas de Lygia — a loucura, o amor, a paixão, o medo e a morte —, “temas clássicos, que nos atormentam desde os gregos, e que a expõe [Lygia] ao grande risco da repetição do banal”, esse propõe o fio de sua variedade temática. Apesar do conto que ilustra o livro ter aspecto pouco diverso (justo pelo tom da sátira cênica — o conto se faz projeção teatral do poder condoído), todos os demais se declinam em torno da universalidade do sentimento humano. Sua poética é tão particular — dela, Lygia, abordando nós, seres humanos —, que não são raras as vezes que as inflexões dão a nós, leitores, a veemência de nos fazermos reconhecer nos escritos. Paira no universo de suas personagens — fugidias e escorregadias — um aspecto soturno, dado à condição do sonho, da memória, da digressão. Os pequenos gestos, dúbios e poéticos, os antagonismos, os medos — da vida, da morte —, os devaneios, as investidas inveteradas por felicidade, a insegurança: nada disso pretende compor um cenário fantástico, dado à realização do irrealizável: sabe ela bem que o caráter da fantasia passa antes pela condição da incompreensão, das projeções literárias que não tem comprometimento com o real na ordem do inafiançável. Nessa medida, seu livro embebe a barreira da vida com a literatura em experiências de fantástica verossimilhança. Suas histórias são de homens mundanos, transeuntes de um tempo particularmente nosso; contemporâneo, razão pela qual seu texto não perece.

O conto A Consulta é exemplo crasso de leituras e apreensões de mundo da autora. Em uma nítida relação com os escritos de Machado de Assis e Edgar Allan Poe, Lygia discuti sobre a loucura num tom declaradamente delicado: os contornos do surto. A narrativa em terceira pessoa faz confundir a loucura pela sua acepção taxativa. “Ninguém é doido. Ou, então, todos”, escreveu Guimarães Rosa no conto A Terceira Margem do Rio; Machado fez da Casa de Orates o espaço da dúvida — ou — os vasos comunicantes que questionam a instituição manicomial. Poe, no conto O sistema do Doutor Tarr e do Professor Fether, também incute enquanto dúbia a discussão, mesmo que ao seu modo, sombrio e genioso. Mas Lygia parece ainda querer se afastar deles. Os recursos de narração textual não se prendem a uma crítica repetida, feita antes pelo cânone. São eles correlações com o prosaico absurdo das coisas, partindo de uma humanização da loucura. Quanto mais contido no limiar da literatura e da possibilidade discursiva; mais propício, como ilustram os contos de o deste livro. As situações, de modo geral, partem dos incidentes quotidianos, tão caros as nossas perspectivas de vida e morte. A Consulta é um conto onde um internalizado que, fazendo-se passar pelo analista, acaba por analisar um homem que chega se queixando do incontido medo da morte que sente. A cena parece estar contida no universo da fantasia, mesmo tendo toda sua imposição verossímil.

Outro recurso diz respeito às vozes do texto, ora em primeira, ora em terceira pessoa, embora a autora faça maior predileção pela primeira pessoa. Daí um traço manifesto de sua escrita neste livro. Telles quer colocar o narrador participante, infundi-lo na prosa, aproximando-o do discurso, trazendo humanidade participativa ao relato. Na ótica de suas temáticas, faz-se favorável tal incursão; quer falar da universalidade dos sentimentos, quer dizer das aflições seculares dos homens, ainda que pelo prisma de seu tempo. Seu texto não é dureza feita de recordação eminente. Parece que em cada conto um espaço obtuso preenche o peito, roubando ar, e, para além da memória do nome das personagens, fica o sentimento inerente à leitura. É mais provável emprestar lembrança as “coisas findas” do que propriamente as “coisas tangíveis” nos textos de Lygia Fagundes Telles; razão pela qual seu livro é um livro que se contêm na existência: quer falar antes da memória: matéria prima do reconhecimento. Como anunciou Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente”. Mas, para fingir a dor que deveras sente, é necessário conhecê-la... E Lygia parece conhecer profundamente o que finge sentir.
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Lygia Fagundes Telles nasceu em 1923, um ano após a Semana de Arte Moderna. Enquanto cursava educação física na Faculdade do Largo São Francisco, inicia em 1940 o curso pré-jurídico na mesma instituição. Faz-se, então, aluna de direito. Não é de admirar que já nesse tempo mantivesse contatos literários vários, incluindo Mario e Oswald de Andrade. Mas é com seu primeiro romance - Ciranda de Pedra, de 1954 - que a autora ganha definitiva projeção. É de Antônio Cândido a idéia de que, a partir dessa obra, Telles alcança a sua maturidade literária. Sua contribuição à literatura nacional é vasta, tendo sua obra traduzida também para dez idiomas, incluindo o tcheco, o alemão e o russo. A autora ainda compõe às cadeiras Academias Paulista e Brasileira de Letras, tendo em sua trajetória uma quantidade considerável de prêmios e condecorações.
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A mulher e a milenar entrega

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Era uma vez uma mulher que odiava apenas uma vez e que gostava de tudo ao mesmo tempo, mas não gostava de si. Sua cor favorita era a solidão, e se vestia dela todos os dias. Sua música preferida era o silêncio do ritmo do jazz. Contudo aconteceu o dia do “de repente”: se despiu pela primeira vez e a solidão tomou a cor da carne, do gozo. E se sentiu completa.
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Caminhava a ermo tentando procurar não sei o quê. Nua, não percebia o quanto era despercebida. Não se importava com isso e nem com o que não tinha. Queria apenas estar plena de si. Entrou em uma loja de roupas, escolheu a mais indefinida e cara vestimenta e se olhou no espelho: não adiantava, sua nudez ainda estava lá, intacta. Não se incomodou de não chamar a atenção da vendedora e nem se importou com o olhar aterrador dela ao ver a roupa sair esvoaçante para a rua. Mesmo assim, deixou o dinheiro lá, no balcão.
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Entrou em um bar repleto de homens. Já fazia algum tempo que não consumia um. Serpenteou-se serenamente por entre as cadeiras mexendo nos ombros de um, nos braços do outro, sorridente e cativante. A sua nudez molhava translucidamente as pernas. Olhava para todos, sedenta e triste, sentada no balcão. Esperava apenas um para tomar a coragem. Apenas um.
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Foi difícil chamar a atenção de todos aqueles pobres coitados, vidrados na tela da tevê, em um jogo miserável entre dois times da segunda divisão. Olhou para o garçom, para o balconista, tentando atrair a atenção de ambos para o início do ritual. Não conseguiu. Ociosa, levantou-se da cadeira para ir embora, quando sentiu uma pressão no braço esquerdo e dois olhos reluzentes a encará-la. Virou rapidamente a cabeça, mas já era tarde. Ele estava intimamente voluntarioso, tentando dominá-la pelas mãos, pelas pernas, pelo pescoço. Animado, sabia exatamente o que fazer, deslumbrado com tamanha sorte. Ela ainda tentava lutar para ver o seu rosto, que há tanto tempo procurava na multidão. Mas já era tarde. Sabia que tinha sido achada, até o momento em que se perderiam novamente. Não se importava, sempre foi assim, desde o início dos tempos, desde antes de Caim matar Abel. Pobre Abel.
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Ele ainda brincava com o seu corpo, liberado propositalmente, até chegar ao ventre. Era o sinal para a entrega. Ela, suavemente, envolveu os braços do homem com os seus, passando pela cintura, forte, até chegar lentamente às costelas. E sentiu, na esquerda, a ferida aberta e pulsante, como uma boca aberta a devorá-la. E pensou aliviada e feliz: “Ah, Adão... Porque demoraste tanto?...”
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Verônica Ferreira
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Duas Sílabas, poema de Fernando Andrade

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Uma vez que o afeto se instala
no pequeno beco dos fundos
ele cresce sem respiro
sem o ar dos semelhantes
e não espera algo mais
ou qualquer algo.

Apenas a voz da gentileza
é capaz de abrir todos os ramos do bem.
Somente uma pequena doçura
que por mais incrédula
seja única em uma geração
faz o mundo desabar em céus azuis
em luas cheias e em ondas claras,
além das palavras que o sujeito pensa
(surreais nas maneiras de hoje).

Não por mim mesmo,
mas pelo bem dos meus próximos ou distantes,
que todos sejam próximos.
É o que tua voz deseja.
E não é necessário mais do que duas sílabas,
tão simples.

Duas sílabas da tua voz
para que o mundo seja um só!
Que se perpetue tua ternura entre nós.
Mas disso eu sei: quero outras de você
para outros de mim...

Pois, pêndulo me é conveniente,
o ciclo do bombear dos meus passos
faz minha locomoção,
mas, estático é meu coração
sem vida nesse planeta
no espaço em algum lugar
sem o cantar do teu dizer sincero.

Sobre a natureza é tua doçura
e já não resta escrita para representá-la
ou de alguma forma descrevê-la.
É a invenção do sentido do corpo
e do envelhecer da eternidade.

Tão pouco te ouvi,
apenas duas sílabas da tua voz.
E sobre elas
tanto sei o que dizer.
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Fernando Andrade
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domingo, 13 de dezembro de 2009

Um filósofo um poeta — simpósio na PUC-Rio

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UM FILÓSOFO UM POETA
diálogos entre a literatura e a filosofia

PUC-Rio
16 a 18 de dezembro

PROGRAMAÇÃO
(haverá tradução)


Dia 16/12 - Sala 102k

16:00h - MÁRCIA DE SÁ CAVALCANTE SCHUBACK (Södertorn University)
À margem do estranho: Heidegger, Trakl

16:40h - GILVAN FOGEL (UFRJ)
“No abismo...”

17:50h – Coffee Break

18:00h - JASON WIRTH (Seattle University)
Milan Kundera, Hermann Broch, and the entitlements of thinking

Dia 17/12 - Sala 102k

16:00h - MARÍLIA ROTHIER (PUC-Rio)
Guimarães Rosa entre doutos professores e vaqueiros atilados

16:40h - SOFIA DE SOUSA SILVA (UNIFESP)
Breve programa para uma iniciação em Ruy Belo

17:50h – Coffee Break

18:00h - ELIZABETH SIKES (Seattle University)
On the evolutionary task of the poet

Dia 18/12 - Sala 481L

16:00h - ANTÔNIO QUEIRÓS (PUC-Rio)
Platão, leitor de Aristófanes

16:40h - JOSEPH LAWRENCE (College of the Holy Cross)
Plato's poetic redemption of Socrates' tragic disregard for poetry
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sábado, 12 de dezembro de 2009

BLOG DO BOLHA EM SEU 1º ANIVERSÁRIO!!!

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O Blog do Bolha completa o seu primeiro ano de atividades. Em 12 de dezembro de 2008 inauguramos este espaço com o objetivo de divulgar lançamentos literários, eventos culturais, análises de livros e, principalmente, apresentar aos leitores um pouco da produção literária das novas gerações que, por questão de espaço, não cabe apenas nas páginas do nosso jornal impresso.

Ao longo desse ano, foram 425 postagens, mais do que uma por dia, em que publicamos mais de 180 textos inéditos — entre prosa e poesia — e divulgamos mais de 100 eventos e lançamentos. Com isso, o Blog do Bolha caminha lado a lado com o Jornal Plástico Bolha impresso e o Site Plástico Bolha, em uma rede de literatura independente aberta para quem quiser divulgar seus trabalhos e idéias de forma alternativa e gratuita.

Agradecemos à nossa equipe, aos nossos 87 seguidores e aos milhares de leitores que vieram para estourar as bolhas literárias ao longo desse primeiro ano. Que continuemos juntos em 2010! Ploct!
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Plástico Bolha no jornal O Globo de hoje...

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Amigos leitores, essa é para contar que o Plástico Bolha está n’O Globo de hoje, na página 9 do caderno Ela, em matéria sobre a Cleonice Berardineli. A matéria da jornalista Melina Dalboni cita nossa campanha pela eleição de Dona Cleo para a cadeira número oito da Academia Brasileira de Letras, que pode ser lida aqui. Confiram lá que ficou legal!
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Novos lançamentos da coleção "ás de colete"

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Segundo número da revista Modo de Usar

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Lançamento do segundo número da revista Modo de Usar, com nossos amigos de bolha Alice Sant´Anna, Gregório Duvivier, Ismar Tirelli Neto , Luiz Coelho, Marília Garcia , Ricardo Domeneck, entre outros! Amanhã, na livraria Berinjela, a partir das 10h.
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Câncer — poema de Flávio Cavaca

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Trópico situado ao norte do Equador,
neoplasia maligna,
— caranguejo,
octogésima oitava constelação
em que se divide o vasto céu noturno.
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Flávio Cavaca
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Lançamento da revista ficções 18, no Rio

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

domingo, 6 de dezembro de 2009

Presságios a e pós Auschwitz

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A chuva caia forte naquele dia, uma pequena nevoa cobria as pastagens, que deixava um ar de frio e sem vida planar na atmosfera dos sentidos. Enquanto dezenas de vagões, de interior escuro e de pessoas, percorriam os trilhos violentos de uma causa estúpida e de pessoas idem, tendo em suas laterais pequenas esperanças, que nos iludiam, fazendo-nos acreditar, acreditar que tudo era um sonho surreal, e que na alvorada estaríamos em nossas camas despertando para nossas vidas. Mas não era nada além do real, era o próprio real.

A paisagem passava rápido, não conseguia escutar coisa alguma, tendo meu tímpano alojado no ermo de mim mesmo e o vazio em meus olhos imprecava aos horizontes, no momento que estático meu ser se punha. Mesmo assim, lutava com minhas forças a arranca-me de meu corpo, pois meus presságios eram aterrorizantes demais para agüentar.
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Posto que num dado momento, certa imagem a dilacerar meu ser paralisado, uma doce criança camponesa a me fitar, aquele acontecimento que durara um estalar de tempo no tempo real, em meu tempo parecia uma eternidade, cabecinha cabisbaixa e olhos tristes para mim, em que lágrimas brotavam-lhe olhos afora, e ao chão secavam-se como se em fogo caíssem para evolar-se. Um fato que parecia querer me ensaiar para algo, mas que a mensagem ao receptor chegava ainda crua.

A temerária locomotiva enfraquecia sua força perante a boca de tijolos e cimento, que à sua frente ia se agigantando com objetivo de nos pré - engolir a vida ao adentrarmos em seu complexo de atrocidades, erigido em um campo belo e maquiado por um sistema, florescendo de suas entranhas, pétalas do ser desumano na rosa do humano.

O gelar em meu corpo, de meu rosto ao encontro com pétalas do ser desumano, eis que, em meus olhos desesperançosos, a anunciação de meu fim finalmente. Aberta as portas dos vagões, descíamos milhares, todos com sentimentos interligados. E íamos sem saber para onde. E neste intervalo do ir e do chegar, passávamos por diante uma chaminé de tamanho estrondoso, e que infindamente, exalava fumaça por sua grande boca, que expelia pessoas.

Enfim, chegamos à frente de uma porta, eis que a atravessando, adentrávamos no cômodo poderoso, que por seus braços abraçava milhares de uma só vez, para com sua boca, nos dar o último beijo.

Cuspiam-nos pelas chaminés para dissiparmos no espaço. Efeito de uma cegueira moral, que decapitava vida em nome de uma ação estúpida, que não tinha sentido e nem porquê, mas mesmo assim eram cultivados por pétalas do ser desumano.

Hoje, cerca de 65 anos após nos cuspirem a vida, mas que ainda, partículas de fumaças de nosso ser insistem em ser, as chaminés do preconceito continuam queimando no bicho homem, continuam exalando fumaças, continuam expelindo pessoas, tendo sua forma tão quanto maquiada como antigamente, e agora, não há uma chaminé só a queimar.
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Fabiano Mafia Baião
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sábado, 5 de dezembro de 2009

Poesia cinematográfica — de Yuri Amorim

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Reenveiou-lhe o sangue derramado, restituindo a vida ao corpo.
A bala devolve-se ao cano do revólver, estremecendo invisíveis paredes de oxigênio.

Olhos dessobressaltando-se em close.
Dedos trêmulos desfazendo a pressão no punhal sofisticado.
Derradeiras palavras temíveis sendo engolidas.
Uma gota desiludida sambando bochecha mal barbeada, brincando de contrariar a gravidade, escapa à retina.
Passos contrários afastam dois seres fadados.
O susto da porta derrubada e a derrubada porta ao chão resignam-se e voltam às suas devidas marcas.
Um olhar perde-se na janela.
Anuvia, empalidece e apaga.

A fita foi rebobinada.
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Yuri Amorim
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Instante — um poema de Carlos AA. de Sá

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Manhã de inverno.

Na praia deserta
eu caminhava
devagar
opresso
esmagado
pelo horizonte.

Entre a areia clara
e o mar barrento
— faixas estendidas
infinitamente —
eu
solitário
e ambulante ponto.

Será que ao menos nesse instante
Deus me viu?
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Carlos AA. de Sá
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Carlos AA. de Sá é jornalista e estreou na literatura em 1972 com o livro de poemas Canto Tentado. Já teve diversos trabalhos publicados na imprensa campista, mineira e no jornal carioca Tribuna de Imprensa. Também já saiu em publicações estrangeiras, como a revista espanhola Batarro. No jornal Plástico Bolha, ele fechou com chave de ouro a edição #25, com seus Cartões-Postais, e agora está na edição #27 com o Poema do Cajueiro. Além disso, Carlos também é o aliado cultural do Bolha em São João da Barra, RJ, onde distribui os exemplares do jornal na Casa de Cultura Zenriques.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Outro verão — um texto de Tânia Tiburzio

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Toda vez que passo em frente aquela banca de jornais lembro que foi lá que você esqueceu dois maços de cigarros antes de irmos para a praia. Lembro também que calor úmido de janeiro não nos repelia, ao contrário nos atraia, porque nossos corpos grudados dissipavam o calor que nos consumia não por fora, mas por dentro. O mar azul, palavras que eu sussurrava em seus ouvidos perfeitamente compreendidas, apesar de não serem ouvidas. O sol agarrado aos telhados das casas, a música soando alta e continuadamente pela sala, por toda a rua, por todo o verão. Suaves delírios, o gosto do sal pelo corpo, a cama desfeita, a algazarra das refeições, o ventilador girando, girando e minha cabeça, meus sonhos girando com ele. A chuva fria no meio da noite e outros cigarros mentolados sendo acessos no lugar daqueles esquecidos em cima do balcão de uma banca de jornais na esquina da Paulista.
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Tânia Tiburzio
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A sinceridade retórica de J. M. Coetzee

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Coetzee, J. M. Desonra. São Paulo. Companhia da Letras, 2000.
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Não é de admirar que sejam tão veementes contra
o estupro, ela e Helen. Estupro, deus do caos e da
mistura, violador da reclusão. Estuprar uma lésbica
é pior que estuprar uma virgem: o golpe é maior.

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Um romance desconcertante. John Maxwell Cotzee — sul africano de dupla formação, lingüística e matemática — começou a escrever há algum tempo, tendo seu primeiro livro publicado em 1969: Dusklands. Em 2003 recebeu o prêmio Nobel de literatura. A partir da leitura de Desonra é possível perceber a importância de seus escritos, de raro valor contemporâneo: viés sólido, de pungente crítica sócio-política enfiada na alegoria da personificação, cara demais à literatura. David Lurie é um professor acadêmico da Escola Técnica da cidade do Cabo (Cape Town), na África do Sul. É adorador do literato William Wordsworth e estudioso de Byron. Oscila seu tempo entre estudos sistemáticos de literatura inglesa e o magistério. Sente-se, entretanto, recorrentemente pungido ao sexo, e não hesita em fazê-lo, mesmo que acarrete em depressões morais: “Fui um servo de Eros: é isso que ele quer dizer, mas será que tem coragem? Era um deus que agia em mim”. Justifica-se nas razões da carne, razão dum cinismo mantenedor e vigorosamente coerente. Em ação motivada pelo acaso acaba se envolvendo com uma aluna, experimentando pelo sexo a interferência do seu ofício: chega ao ponto de, através das avaliações, construir a relação sexual de posse e domínio — relações erógenas que partem dos números (a nota dos testes). Ao referir-se a Melanie, sua aluna e amante, no dia em que perdeu uma aula e um teste, posiciona-se: Ao preencher a ficha de depois, ele marca uma presença para ela e dá-lhe nota sete. Ao pé da página, a lápis, anota para si mesmo: ‘provisório’. Sete: nota dos indecisos, nem boa, nem má”.

Explode a imprecisão acadêmica. Ele é acusado pela Universidade por intermédio de uma queixa da própria aluna. Pais, amigos e um suposto affair da garota atribulam-lhe a vida. Passa por um processo interno da instituição de ensino, assumindo os erros por completo, recusando, inclusive, ler o processo e as acusações. Sente-se velho demais para mudar ou se retratar. Consiste em sua existência um depreciado pedantismo acadêmico, da vernácula verdade de crer nos livros acima de tudo, nos recursos poéticos com lições prontas da vida. Tem cinqüenta anos e bastante restrição à sociedade, quer o mínimo de hipocrisias em seus modos, mesmo que eles o coloquem assim em posições desconfortáveis e aviltantes. Não que não se faça hipócrita — por vezes é —, no entanto, impõe seus próprios limites às explicações que residem dento da moral e dos bons costumes.

Muda-se para a África interiorana, África pós-apartheid, África das disputas pela terra, dos embates raciais. Sua filha — lésbica e quase camponesa — recebe-o cordialmente, mesmo sabendo do caso de assédio que revira as manchetes dos jornais. Em conversas esporádicas, faz-se tentar compreender ao menos à filha: seus diálogos têm algo da sinceridade paternal. A casa de Lucy — sua filha — é assaltada por três negros. David fica preso no banheiro enquanto os três estupram a filha. O trauma, desde então, passa a ser o incidente da convivência. Lucy se recusa a sair de sua terra; seria acovarda-se frente a uma questão social, recolocar em prática o apartheid, fugir, por medo da morte. O pai tenta-lhe convencer das facilidades da mudança, da importância de exorcizar seus fantasmas: nada adianta.

As relações se engalfinham em terras longínquas, onde o poder público toca, quando muito, só com os olhos. Petrus, seu vizinho e caseiro, faz confortável a situação; a terra que lhe foi cedida aos poucos se expande e divide cerca com a propriedade de Lucy, cerca que sequer existia. Suas ambições começam a fenecer; o conflito histórico se mostra maior que as pretensões de uma geração inteira. A terra e o embate de raça; tônus recíproco das relações sociais.

Coetzee, em uma narrativa retrátil e novelesca, faz um texto visceral. A atenção à história dá-se nas proezas estilísticas do texto entrecortado e sarcástico; realista e questionador. “Soraya é alta e magra, de cabelo preto comprido e olhos escuros, brilhantes. Tecnicamente, ele tem idade para ser pai; só que, tecnicamente, dá para ser pai aos doze”. São postas, então — neste linguajar —, as condições da disputa, e não as resoluções: este romance não quer achá-las, elas não existem nas enfermidades opressivas; não há simplesmente como desfazer de um dia para o outro o ódio que ronda gerações. Brancos versus negros; moralidade versus imoralidade; segurança versus insegurança; literatura versus vida real: todas as ambivalências deste livro são feitas não enquanto elegíacas, somente. São construções que não querem se colocar em posições hierárquicas, em pólos distintos: trata-se de ordens filosóficas imbricadas na imprecisão gerativa da condição humana, no conflito cotidiano insurrecto pela posse. Não há solução para o trivial das tragédias cotidianas.

Na Grécia, nos tempos da República, a tragédia exercia peremptória razão social. A partir da sublime desgraça, do fardo dos deuses e semi-deuses, os homens aprendiam. Faziam dos seus atos espelhos atrozes dos ensinamentos das artes, de modo geral. A desonra de um estupro figura nas estatísticas da África do Sul. O joguete moral do ato consiste numa dominação fálica, sexual. Os homens negros ao estuprarem Lucy dão provas de uma das opressões sul-africana; querem além do roubo um outro apetrecho, sádico e pernicioso. Imprimem-se na tragédia dos jornais, na fúria das gerações, querem para além da posse física, a posse existencial: apoderam-se da vida da mulher com imagens que lhe vão correr o imaginário por toda a vida, como uma cicatriz. A colonização africana foi bem mais que um povoamento mal medido, foi um estorvo. A tragédia grega, nesse romance, é o nódulo que indica o tumor, entretanto, sua aparência é meramente alegórica, serve para compor o cenário e condenar a arritmia das questões sociais. O ensinamento só pode valer partindo de um surto reacionário.
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Por fim, toda a narrativa termina como começou — num gesto prosaico, sem mesura. A vida das personagens recai sobre suas rotinas e frustrações: a condição humana é se degradar ante a morte, pouco a pouco, como um estupro faz com a lembrança, ligada, quer queiramos, quer não, aos conflitos humanos que espoliam a sensação letárgica de ser feliz num mundo de contradições. Coetzee nos choca por sua sinceridade, nada mais.
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